“Fiat eu não quero”




Jadson Oliveira

De Assunção (Paraguai) – Pedro Matos, Pedão para os íntimos, era uma pessoa da melhor qualidade, diagramador dos mais criativos e piadista também. Foi referência na época o caderno de cultura do antigo Correio da Bahia, que ele fazia com uma equipe dirigida por Vanderlei (me desculpe se errar o nome, é aquele gente boa especialista em gibi). Pedão tinha vendido a José Irecê (muito conhecido aqui no Pilha Pura também como Irepinga) um Fiat velho, daquele modelo 147, famoso pela ruindade. No caso do de Pedão, bota ruindade nisso. Um desastre total, ainda mais considerando o motorista e a sua proverbial inclinação aos prazeres etílicos (há mil casos aí por esta senda). Bem, Irecê, depois de muitas peripécias, batida, virada, etc, se desfez do causador de tantos desprazeres.

Era uma vez um dia em que Irecê estava instalado, comodamente, à mesa da repartição (assessoria de comunicação da Assembléia Legislativa), folheando as páginas de um jornal nos classificados. Tinha acabado de saber que teria direito a “um bocado de dinheiro”, proveniente de uma daquelas diferenças originadas de troca de moedas, de planos econômicos (no final do século passado, viu Carmelita?, era muito comum isso). E decidido logo comprar um carro. Então, ele ia olhando os classificados e comentando, de vez em quando: “Ah! Fiat eu não quero”.

Não sei se você está achando graça, eu fui a única testemunha do episódio, estou escrevendo e dando risada. Agora, a revelação. Acontece que este finalzinho aí, “Fiat eu não quero”, foi inventado por Pedão, que tinha passado pela sala e espiado a busca de Irecê. O resto é tudo verdade. Eu ri muito e Irecê ficou assim com aquela cara de quem comeu e não gostou. Eu disse: “Pedão, este é o auge do seu poder criativo. Você nunca mais vai criar uma piada deste nível”.

Anos depois, na mesma repartição, Odila (Odilon Castro, doutor na arte de cozinhar, professor de Culinária) estava contando o caso, como caso verídico, exatamente como contei acima, incluindo o finalzinho. Eu rebati na bucha: “Espera aí, Odila. Eu fui a única testemunha, posso falar. O comentário ‘Fiat eu não quero’ (hilário pra quem conhecia o contexto) foi criação de Pedão, não vamos roubar a autoria”.

Detalhe: os dois protagonistas já tinham morrido, ceifados pela inominada, pela coisa-ruim, num mesmo ano. Grande Pedro Matos, grande Pedão, grande piadista, a quem recordo com extremo carinho.

Comentários

  1. Nem me fale de Fiat 147. Lembra do meu? Suei muito com aquele carrinho que o freio de mão não funcionava e em seis meses gastei um disco de embreagem heheheh... Mônica já lembrou aqui algumas história com o meu fiat "Alvinho". Certa vez fomos à praia com Irepinga, ele dirigindo, tão barbeiro quanto eu. Na volta eu peguei o volante e quando chegamos na Ladeira do Acupe para deixar Mônica, a correia do freio partiu. Irepinga foi me acalmando e orientando para encostar o carro no passeio e conseguimos evitar um acidente sério. Enfim a gente junto era como viver perigosamente. Mas era muito divertido. E também não posso reclamar que os amigos não deram força. Lembra Alberto Freitas das nossas aventuras na Ilha?

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  2. Embarcar no ferry com Alvinho, então, foi uma aventura hehehehe Lembra? E aquele dia de toró, que eu e Joana pegamos uma carona de Irecê, da Assembléia para um evento do Sinjorba, acho que na sede da ABI. Santo Deus! Chegamos como sobrevivente

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  3. Jadson amigo velho. Sempre acreditei na versão de Odilon. Parece até aquela antiga e amorronzada máxima jornalística de que mais vale a versão que o fato. Sem querer corrigir, mas repondo a verdade dos fatos, como fui ensinado por você por anos afio, o editor do Correio era o grande Gutemberg Cruz (hoje UPB), mestre em quadrinhos e figura da maior qualidade. E o bambá que Irecê esperava era produto da venda de ações – aquelas da Telebahia. Como ele fez as contas erradas, um ex-bancário do Baneb – talvez um alterego seu – corrigiu as esperanças do colega: Queta Ireçê...Queta! Moço, tem um zero a mais aí. Ele não se conformou logo, mas iria receber cerca de R$2 mil (já era o Real?) ao invés dos R$20 mil que custaria o bólido.
    Aqui continuamos com saudades suas e levando a vida nesse mundinho fuleiro, engolindo sapo, ouvindo (MPB ao invés de roquinhos), vivendo dias de chuva e de sol. Abração.

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  4. "Chefe" Bina, as correções são bem vindas. Quando escrevi Vanderlei, no lugar do Gutemberg, senti que poderia estar equivocado, daí ter pedido desculpas antecipadamente e dado a pista certa "especialista em gibi".
    Creio que já era o real mesmo.
    Quanto ao ex-bancário, ex-banebiano, quando pensei no texto, pensei incluir essa coisa. Na hora, desisti, pra não alongar muito. Na verdade, sempre fui meio intrigado com essa mania de jornalista não saber e não querer saber matemática. Já vi colega nosso assumindo como uma qualidade boa não saber fazer conta. É demais!
    Vc sempre apegado à música.
    As saudades estão também do lado de cá. Abraço.

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  5. Quero lembrar ao companheiro Jadson que eu estava presente nessa história do "Fiat, não", do velho Irecê. Era a época da Constituinte. E Pedro Matos, irmão do Isaías, morador da primeira geração na residência de estudantes de Conquista (Isaías e Pedrão tinham como terra natal Iguaí), escolhia sempre o final da tarde para passar rápido na redação e falar baixinho: "Fiat, não".

    Boas lembranças...

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