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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Boteco de Bahia

O bar mais comentado no Pilha já despertou a curiosidade de amigos que me confessaram o desejo de conhecer, de saber o que tem por lá para tal destaque. O texto a seguir, de um dos seus mais antigos frequentadores, Dilton Machado, expressa muito do que esse boteco tem, ou não tem (rsrs).


"Quem visitar Salvador fatalmente experimentará o Rio Vermelho. Bairro boêmio da cidade, aqui tribos diversas convivem pacificamente, as opções vão de hotéis cinco estrelas ao Mercado do Peixe, passando pelo largo de Dinha, local privilegiado onde se pode degustar as iguarias da terra, praticar azaração ao gosto do freguês, sorver umas geladinhas, e jogar muita conversa fora. Diferentemente do Pelourinho, que a maioria dos soteropolitanos, principalmente os mais metidos a besta, vê com preconceito e como espaço prioritário para turistas, o Rio Vermelho é um "xodó" da Roma Negra, o sentimento de pertencimento do bairro é constantemente expresso, de diferentes formas, por todas as classes e castas locais. Mas as verdadeiras pérolas do Rio Vermelho não são tão visíveis assim, freqüentar o território é uma coisa, viver no Rio Vermelho é uma experiência incomum.

Cada pedaço do Rio Vermelho tem lá suas manias, cada subespaço tem vida própria, quem mora aqui sabe disso, os vizinhos agradavelmente bisbilhoteiros e os botequins que ainda vendem fiado nas cadernetas dão cores especiais à convivência comunitária, não é novidade para os residentes a troca de feriadões em beiras de praia pela presença nos botecos das suas ruas, a terapia de grupo está sempre assegurada, evidentemente movida pelo consumo generoso de estimulantes etílicos. Quando me referi às pérolas do Rio Vermelho, quis dizer as indefectíveis "visgueiras" que freqüentamos, mais exatamente os personagens que compõem o cenário desses lugares, os biriteiros inveterados e os donos dos botecos, além dos coadjuvantes passageiros, que uma vez inoculados pelo ambiente, terminam virando clientes cativos.

Vou tratar aqui da preciosidade conhecida como BAR DE BAHIA, exemplo de sucesso empresarial, e ao mesmo tempo emblema da contradição às modernas teorias organizacionais vigentes. Bahia, o proprietário, cuja alcunha decorre do fato de ser um fervoroso torcedor do Tricolor de Aço, é uma figuraça: negro, estatura mediana, já não tão jovem, pescoço cheio de correntes de prata, humores nem sempre agradáveis, linguajar nada discreto, paciência quase nenhuma, empresário com suas próprias regras de administração, e adepto da filosofia que quem tem razão é sempre o dono do negócio, quase nunca o cliente. Para os freqüentadores mais chegados a relação extrapola o vínculo comercial, Bahia é um amigo leal em todas as horas, mesmo quando o amigo cliente é um torcedor do Vitoria, como eu e o Professor Alberto, o mais rubro-negro dos rubro-negros que conheço nesta cidade.

Freqüentam o boteco consumidores de todos os matizes, gente de diversos credos, etnias e faixas etárias, funcionários públicos, comerciários, profissionais liberais, artistas, publicitários, aposentados, empresários, operários, desocupados, e por aí vai, além de garotos que pedem água a "Seu" Bahia no retorno das escolas, e um doido varrido, Del, que vive pedindo dinheiro nos semáforos próximos, e depois vai ao boteco saborear sua pinga, ao tempo em que canta suas criações em falsetes na linha dos Bee Gees, divertindo a galera e dando sua modestíssima contribuição ao faturamento do bar.

Independentemente das eternas contendas clubísticas entre torcedores rivais do Leão da Barra e do Tricolor de Aço, o boteco freqüentemente é palco para discussões políticas e filosóficas, registrando confrontos épicos entre conservadores e liberais, fernandistas/serristas e lulistas/dilmistas, carlistas e anticarlistas, axezeiros e mpbistas/roqueiros, tudo com paixões exacerbadas, porém sempre com respeito mútuo, no final entre mortos e feridos salvam-se todos, e, como se diz por aqui, a amizade continua, que é mesmo o que vale quando chega o fim da farra.

O boteco pode também ser considerado um centro cultural pop-brega-surreal. Tem a presença dos "poetas" de plantão, que não podem ouvir palavras oxítonas proferidas por desavisados, sem concluir com uma rima desconfortável, em geral atingindo a integridade sexual da vítima da vez. Tem os clientes sósias de celebridades mundiais, representados por Geovani, que virou o camarada Boris Yeltsin na descoberta de Toinho Espinheira, Emanuel, o nosso eterno Anthony Quinn, e até por mim, que durante o governo Bush fui taxado por Geovani, sob meus protestos, de Colin Powell, o xerife americano que garantiu a existência de armas químicas no Iraque, para justificar a invasão que deu no que deu.

 No boteco tem agregada uma baiana de acarajé à feição das antigas, daquelas que adoram falar sacanagens, e também funciona uma locadora de vídeos, se é que se pode assim chamar uma caixa de plástico repleta de títulos, onde os depósitos e retiradas de DVDs ocorrem gratuitamente, ao bel- prazer dos clientes, sem nenhuma interferência de terceiros, muito menos do dono. Aos domingos sempre aparecem panelas com rangos de dar água na boca, experimentos gastronômicos de alguns "chefs" de ocasião, ou vasilhames com tira-gostos nas mãos de algum cliente bem-aventurado, já que no bar não são servidos acepipes, segundo o dono "porque ele não é mulher para ficar ali cozinhando prá homem."

Esse é o Bar de Bahia, programa imperdível tanto para quem, como eu, conhece o cara há mais de vinte anos, e também para recém-chegados que não se importem com etiquetas, bons modos e frescuras que tais, e estejam somente a fim de tomar, quer dizer, beber umas, conhecer gente, e, como já mencionado anteriormente, jogar uma boa conversa fora. Assim, desejo sorte a você que está lendo este texto e pretende circular pelo Rio Vermelho, e que Olorum te ajude a achar o boteco, se você for merecedor ou merecedora de tal ocorrência. O endereço não dou, não quero provocar superlotação, além do que encontrar o Boteco de Bahia é um desígnio dos orixás, e não sou eu que vou me arriscar a meter o bedelho nessa história. Portanto, dá licença, que já é hora de bater o ponto".

Novembro 2010
Dilton Machado

2 comentários:

Carmela disse...

Adorei, muito legal.Apenas um reparo, o nome da Praça é Santana, Dinha, que Deus a tenha em sua glória, aboletou-se no local com seu tabuleiro e pelo visto ficou mais famosa do que a santa que da nome à centenária Igrejinha.

Juliana disse...

Olá,sou filha de Bahia,muito linda
a homenagem,ele é realmente tudo isso
e mais um pouco. Mais mesmo assim ele
é um amor de pessoa, agradeço a DEUS
todos os dias por ter me dado um pai assim tão maravilhoso. Que DEUS abençõe a amizade de vcs sempre, que vcs venham viver vários momentos felizes, beijos a todos.Juliana

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