Quem somos

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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O buraco negro


"Ando meio distraído, ultimamente, reconheço. Alguns amigos mais velhos sorriem, complacentes, e dizem que é isso mesmo, costuma acontecer com a idade, não é distração: é memória fraca, mesmo, insuficiência de fosfato.

O diabo é que me lembro cada vez mais de coisas que deveria esquecer: dados inúteis, nomes sem significado, frases idiotas, circunstâncias ridículas, detalhes sem importância. Em compensação, troco o nome das pessoas, confundo fisionomias, ignoro conhecidos, cumprimento desafetos. Nunca sei onde largo objetos de uso e cada saída minha de casa representa meia hora de atraso em aflitiva procura: quede minhas chaves? Meus cigarros? Meu isqueiro? Minha caneta?

Já me disseram que sou bom de chegada e ruim de saída. A culpa não é minha: segundo minha filha, é do Caboclo Ficador.

Hoje ela veio me visitar e a influência desse caboclo na minha vida ficou mais do que evidente. Saímos juntos, e na hora de transpor a porta de entrada, parecia que uma força misteriosa me prendia em casa, tantas vezes tive de voltar para buscar alguma coisa que havia esquecido. O Caboclo Ficador me fez esquecer a chave do carro, voltei para apanhá-la; já estava dentro do carro quando dei por falta da carteira de dinheiro, fui buscá-la; de novo no carro, vi que deixara outra vez a chave em casa. Foi preciso, como sempre, uns bons quinze minutos de concentração e revista geral nos bolsos, para ver se não havia esquecido mais nada. E finalmente o Caboclo Ficador me deixava partir.

Minha filha afirma que o jeito é me submeter humildemente às ordens dele.

Descobri que sou vítima de outra entidade do mundo oculto: o Caboclo Escondedor.

É ele que faz com que eu não saiba onde meti os óculos, e saia revirando a casa, para descobri-los no alto da cabeça, quando, já tendo desistido, me olho ao espelho do banheiro para pentear os cabelos. Em compensação, não encontro o pente. É ele quem esconde a caneta entre as páginas de um livro, atira o talão de cheques na cesta de papéis, enfia a penca de chaves entre as almofadas do sofá.

Um dia, desesperado à procura de um papel, retiro todas as gavetinhas da secretária, e surpreendo um dos esconderijos do Caboclo Escondedor, verdadeiro ninho de pequenos objetos desaparecidos: meto a mão lá dentro e recolho não só o papel que procurava, mas outros sumidos há muito, recortes de jornal, envelopes amassados, cartões de visita, clipes enferrujados, retratos amarelados, e até uma carteira de sócio do sindicato dos jornalistas.

Há um código de ética com relação aos desígnios do Caboclo escondedor: respeite a sua vontade, não insista além do razoável na procura do objeto escondido, e, assim mesmo, só para contentá-lo. Não é preciso procurar freneticamente, como já fiz tantas vezes, abrindo e fechando gavetas, revirando a casa feito doido, para acabar plantado no meio da sala apalpando os bolsos vazios como um tarado. Basta uma olhadela nos lugares onde o objeto usualmente estaria, solte um suspiro resignado e lance mão de outro - munido que deve estar de um substituto: a réplica das chaves, duplicata dos documentos, dos óculos, da caneta, da tesoura, do relógio. No tempo em que eu fumava, deixava maços de cigarro e isqueiros espalhados pela casa inteira.

Tão logo suspendemos a busca, tendo resolvido nosso problema com um substituto, o objeto escondido geralmente aparece: bota a cabecinha de fora e, do lugar onde o Caboclo Escondedor o colocou, fica a nos olhar para lhe contar depois como é que nos arranjamos sem ele.

Mas se desaparece também o substituto, cuidado! O Caboclo Escondedor não tem mais culpa, pois é sabido que ele só esconde um objeto de cada vez: rendeu-se, ele próprio, a outra entidade mais terrível - o Buraco Negro, por onde desaparecem, no infinito do esquecimento e do nada, os objetos definitivamente perdidos.

Neste Buraco Negro é que foram parar aqueles brinquedos de infância nunca mais reencontrados; aquele livro sumido para sempre da nossa estante; aquelas cartas que se perderam no porão do olvido, entre trastes inúteis e papéis velhos; especialmente aquele retrato de antigamente, um momento vivido que se apagou para sempre na nossa lembrança.

Contra o Buraco Negro, por onde nós mesmos um dia seremos sugados, simplesmente não há solução".


Então, você se identificou com o  texto? É do genial Fernando Sabino*


Pra mim, das piores situações é quando esqueço e falo com desafetos na maior alegria. Depois fico morrendo de raiva de mim, mas não deixo de também achar graça da situação (e nem vem me sacanear e dizer que é coisa de idade, que não sou velha e isso acontece comigo desde a infância)  . Recentemente vivi uma situação dessas. Cumprimentei o cara, conversei alegremente, respondi  todas as perguntas sobre o marido, a filha o trabalho, troquei idéias e coisas e tais. Depois um amigo me lembrou que o cara era nosso desafeto devido à uma greve no jornal Bahia Hoje.  
 -Mas isso também já faz tanto tempo!  
- Pra mim não, continua meu inimigo.
- Ah! Quer saber, já esqueci mesmo e acabei de fazer as pazes.




* SABINO, Fernando. As melhores crônicas de Fernando Sabino. 4ª ed. - Rio de Janeiro/RJ: Record, 1992. pp 92-95

3 comentários:

Mônica Bichara disse...

Comadre, vc bem que podia ter escolhido um dia melhor pra postar isso.

Justo hoje que tô aqui matutando sem conseguir entender onde zorra de lugar foi parar minha fatura do plano de saúde, que vence amanhã e eu coloquei (JURO) em cima da bolsa pra não esquecer e pagar hoje, por ser de outro banco.

Acho que tô com a tal da insuficiência de fósforo. Ou então esses danados desses caboclos estão me pregando uma peça (ou aqueles caboclos escondedores lá de casa que tiram as coisas do lugar e morrem negando, só pra me deixar com essa sensação de "tô véia mermo").

Mas, como diz minha comadre Jô (se não disse, pensou), véia é a mãe do caboclo fio da jega que escondeu meu papel de propósito.

Por falar nisso, alguém aí viu minha fatura? Eu já revirei a bolsa 59 vezes e nada. Acho que vou voltar pra casa

Joana D'Arck disse...

kkkkkkkkkkkkkkk...Comadre você é mesmo uma figura. Tô aqui morrendo de rir.

Mônica Bichara disse...

Num disse que eu achava!

Depois de ter que aguentar um caboco rabugento me imitando, dizendo que eu procuro por cima e já me abanando "ai meu Deus!, ai meu Deus!", assim que botei os pés em casa encontrei a peste da fatura na mesinha da televisão, no lugar de botar CD. E juraram que tinham procurado na casa inteira.

Não avisaram pro caboco ou a caboca que aquilo ali é pra esconder CD e não fatura?

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