Quem somos

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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Os chiques e seus chiliques


Reproduzo aqui este texto publicado do blog Contos na Bandeira 2, hilário, excelente.


Luciano Salba

Fila de taxi de um ex grande shopping de Salvador. Nenhum é igual a ele - todo cheio de puxadinhos. Quase duas horas de espera até que chega minha vez de sair. Um casal entra no carro. Era um casal jovem, por isso achei estranho quando ele se sentou na frente e ela no banco de trás. Geralmente casais jovens se sentam no banco de trás e vão numa pegação danada. Se o taxista deixar tem uns que querem fazer o vuco-vuco no carro mesmo. Fica mais barato porque não precisa pagar taxi e depois o motel. Paga só o taxi e adianta o lado ali mesmo. No meu não que o meu taxi é de família. Enfim, ele se sentou e disse pra onde ia:

- Graça, por favor, amigo.

Ela se sentou no banco de trás, como eu já disse, calada e de cara amarrada. Ela estava pra poucos amigos. Os dois estavam notoriamente brigados.

Vocês já sabem que eu falo mais do que a nega do leite e assim procurei puxar uma conversa. Aquela conversa bem básica, típica de taxista mala.

- Rapaz, tempo mudou de repente, né?

- É, mudou. Mas o senhor pode adiantar um pouco que eu estou com pressa? - O cara respondeu num tom baixo, porém firme. Tomei logo um toco pra deixar de ser besta e conversar menos. Fiquei calado então.

Passados uns cinco minutos de corrida funeralmente silenciosa, a jovem resolveu quebrar o silêncio:

- Pôxa! Você, né, Carlos? Você não tem respeito comigo não? Na minha frente, eu, sua própria mulher, e de flerte com outra... Como pode fazer isso comigo?

- Amor, eu não estava fazendo nada e você não vai brigar aqui na frente dos outros, né? - essa era a prova que eu precisava pra saber que o cara realmente tinha aprontado: Ele respondeu chamando a mulher de AMOR. Estava querendo enrolar a coitada. Esse aprontou com certeza.

Silêncio de novo.

Enquanto o silêncio pairava pelo carro eu pensava com meus botões: Gente fina é diferente mesmo. Olha como é uma briga de um casal chique, morador da Graça, um dos metros quadrados mais caros de Salvador. Ela se exasperou (porque rico se exaspera. Pobre tem chilique mesmo), mas ele conseguiu conter o desespero da mulher chamando-a de amor e falando baixo e educadamente. E assim continuamos o trajeto até a Graça.

Avenida ACM, Juraci Magalhães, Garibaldi... Já estava me preparando pra descer o Vale do Canela e subir o viaduto da Graça quando... O cara tomou a decisão mais errada daquele dia e, quiçá, da vida dele.

- Amigo, por favor, suba aqui a Federação, depois pegue ali pelo Campo Santo sentido Canela e suba a Graça. - Fiz tudo que ele pediu.

Novo silêncio.

Olhei pelo retrovisor e vi que a mulher agora enxugava elegantemente, com um lenço de seda, uma lágrima que teimava cair pelo cantinho do olho. Que diferença faz ter estirpe, ser de família tradicional, bem educada, fina, estudar em boas escolas... Até o enxugar de uma lágrima requer nobreza. Não era como aquelas mulheres moradoras de Periperi, Sussuarana, São Marcos, Caixa D'água, São Caetano, Cosme de Farias, Cabula, Brotas, cachoeiranas, feirenses, etc, etc e tal. Todos esses bairros e interiores com gente que não tem classe pra brigar. Gente que faz um escândalo danado, xinga, fala alto e quando chora puxa a blusa mesmo e assoa o nariz na camisa. Quando pensa que tem um pouco mais de classe, passa a manga da camisa no nariz e fala com a cara toda melecada. Uma nojeira só. Ela não. Chorava como uma diva do cinema. Uma Grace Kelly, Sofia Loren, Maureen Ohara, Bette Davis, Greta Garbo. Que fineza.

Subi a Federação e segui sentido Campo Santo. E foi bem em frente ao cemitério que a tragédia aconteceu.

Do Alto das Pombas saiu a piriguete com sua blusinha tomara que caia rosa fosforescente, seu shortinho jeans C-U-R-T-Í-S-S-I-M-O, um piercing no umbigo, uma tatuagem no cóccix escrito "Xandy, amor eterno", as pernas saradas - a desgraçada não tinha uma celulite e se tinha estrias ninguém sabe, ninguém viu. E tudo isso em cima de um salto ENORME, falando ao celular e com uma bolsa Louis Vuitton provavelmente comprada na mão dos "china" que também vendem tênis de "marca". Do rosto eu não sei dizer nada. Nem eu, nem ele olhamos pra cara da piriguete. Olhar pra cara pra quê?

Meu pescoço quase quebra (tomara que minha mulher não leia isso). Eu e o pobre coitado do rapaz que estava ali já murcho por ter aprontado com a esposa, fomos hipnotizados pelo movimento de vai e vem daquele quadril "pirigueteano". Primeiro foi apenas os olhos que seguiram atenciosamente o rebolado sinuoso. Depois os pescoços, juntos, como se fossemos praticantes de nado sincronizado, viraram para que pudéssemos ver melhor o caminhar daquela diaba que veio atazanar nossas vidas. E foi assim, de pescocinho virado e tudo que, de repente, eu vi a Greta Garbo da Graça se transformar em Dercy Gonçalves soteropolitana.

- FILHO DE UMA PUTA, GALINHA, CACHORRO, SAFADO DE UMA FIGA. VOCÊ NÃO TEM MULHER EM CASA NÃO, SEU MISERÁVEL? MINHA BOCETA NÃO LHE SATISFAZ, NÃO, SEU PORRA? - Gente, a mulher se transformou. Ela deu um tapa tão violento na cara do rapaz que eu acho que o pescoço dele entortou de vez.

Com o susto por causa dos gritos da mulher e do tapa que ela deu no coitadinho (preciso ser solidário com a raça), e por estar olhando ainda a piriguete do satanás, não vi que o carro da frente parou e bati no fundo de uma brasília velha. Desci do carro, a mulher desceu também xingando o camarada que só conseguia dizer:

- Mas, amor! Mas, amor... - Com a marca dos cinco dedos da mulher gravados no rosto.

Nisso já juntou uma roda. Apareceu gente de tudo quanto foi lado. Uns já gritavam que era pra mulher bater mesmo no cara. Do outro lado o dono da brasília veio tirar satisfação comigo me perguntando se eu estava cego. Não tinha como explicar pra ele que estava cego por causa de uma piriguete. Uma confusão total.

O pau rolou. Rolou mesmo. Descobri que a grã fina da Graça era boa de briga. Baixaria só vista em subúrbio, dessa vez sendo protagonizada por uma patricinha.

Quanto ao meu carro, acabei com a frente dele e a brasília velha do cara não teve nada. CARRO VELHO DURO DA PORRA!

Gente, grã fino também tem chilique e quebra o pau como qualquer um de nós. Mas o interessante é que... Eles xingam num português perfeito.

Fui!

4 comentários:

Luciano Salba disse...

Joana, valeu! Que bom que vc gostou. Obrigado. Posso ser sincero? ESTOU ATÉ EMOCIONADO.

Bjs!

CRAZY disse...

vc merece Lu !! bjss

Anyele disse...

Jah li essa historia no blog de Luciano, mas tda vez que vejo dou tanta risada como se fosse a primeira vez que tivesse visto. Tenho q admitir q o cara escreve mto muito bem!!! Parece uma historia em 3D, eh tão rica em detalhas que parece que eu estou dentro da historia...
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
AdoroOO!!
:)

Joana D'Arck disse...

Ri muito com esse texto, Luciano. O seu blog é muito legal.

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