Quem somos

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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

quarta-feira, 11 de julho de 2012

CARTA DE CAYMMI PARA JORGE AMADO.


“Jorge meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma

linda canção para Yemanjá pois o reflexo do sol desenha seu manto em

nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para

Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela

saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi

que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para

Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um

pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.


Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado,

andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um

perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de

quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao

voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a

Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou

de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com

abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser

pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar,

compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com

pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que

tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô,

conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como

investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir

Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas

outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?


Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte

anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia

está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar

tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova

iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na

roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir

ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou

menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando,

indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de

Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu

tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele

para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom

filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho.


Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um

edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser

vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei

um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo,

daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.


Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em

peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia.

Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina,

Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras

e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te

tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas

inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano

africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi”.







2 comentários:

Jadson disse...

Simoa, isto se chama humanidade, só hoje, aqui em Salvador, um pouco recolhido, parei pra ler toda a carta. Valeu. Humanidade, vida, fraternidade, solidariedade, amizade, amor, que beleza! umas coisas que às vezes rareiam nesses nossos tempos, mas estão aí.

Simoa Borba disse...

Pois é Jadson, acho que a carta também nos traz um certo saudosismo de uma Salvador que está se esvaindo. Esse sentimento bucólico que o Caymmi mostra tão bem na carta, da Bahia dele e de Jorge, de Carybé, a Bahia que Verger fotografou me faz sentir um pesar por nossa cidade. Mas de certo humanidade, vida, entre outros sentimentos que colocou estão nela e muito bem colocados.

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