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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

domingo, 26 de janeiro de 2014

BLOCO AMIGOS DO RIO VERMELHO NA FESTA DE YEMANJÁ


Dando continuidade a
uma tradição de 13 anos na Festa de Yemanjá, o Bloco Amigos do Rio Vermelho vem renovado com muita disposição e alegria no seu desfile desse ano.

A Banda Rio Vermelho, composta por 100 músicos sob o comando dos maestros Chico (percussão) e Jorge (sopro) promete esquentar a festa ao som de sambas e marchinhas carnavalescas. A Ala das Baianas será composta por 50 figurantes que levarão as oferendas à Yemanjá e, durante o cortejo, muita água-de-cheiro para os participantes do bloco. A segurança vai estar a cargo do Grupo Escolta Vip com 50 homens e sua qualidade em serviços de segurança vai garantir a paz e a tranquilidade da turma. A camisa do bloco homenageando a Rainha do Mar volta a ter a assinatura do designer gráfico Rafael Titonel, morador do bairro.

A concentração será na Praça Brigadeiro Faria Rocha, na Mariquita, onde acontece o grande momento de confraternização e tem uma mudança: este ano o desfile está previsto para sair às 11 horas.

Roteiro do desfile:

Saída da Praça Brigadeiro Faria Rocha, passa pela Rua da Fonte do Boi seguindo pela Rua Odilon Santos, Praça Colombo, Rua Borges dos Reis, Rua Guedes Cabral e retorna pela João Gomes, Praça Colombo, Rua Odilon Santos e, finalmente, Praça Brigadeiro Faria Rocha.

Pontos de venda da camisa do Bloco Amigos do Rio Vermelho:
·         Bar do Bahia – Rua do Canal
·         Restaurante Sabor de Casa – Praça Brigadeiro Faria Rocha
·         Boteco do França – Rua Borges dos Reis
Camisa em algodão penteado: R$ 25,00

sábado, 18 de janeiro de 2014

Seu sonho era ser "fiscal de renda" e "enricar" (Crônica)

(Foto: gráfico animado de Pedro Miguel Cruz sobre corrupção, do site http://apodrecetuga.blogspot.com.br)
Reproduzido do blog Evidentemente:

Desde menino pobre do interior baiano, ele já apelava na luta pela sobrevivência para pequenos expedientes que poderiam ser classificados de corruptos, ou pelo menos demonstrativos duma certa tendência à corrupção, uma instituição bem entranhada no caráter brasileiro – quiçá no caráter humano. Ele contava, por exemplo, que de quando em quando ganhava umas moedas de outros meninos mais endinheirados em troca de levantar a saia de determinadas garotas (já na trilha da tradição brasileira, ele seria o corrupto, o “criminoso”, enquanto os corruptores apenas perdoáveis rapazes da elite local, traquinagens da juventude).


Mais crescidinho veio para a capital, a perseguir seu ideal de “enricar”, fosse como fosse, não importa. Estudar? Só o mínimo possível, olhe se ele ia perder tempo com escola. Uma vez, já adulto, ele me disse: “Meu amigo, você é gente boa, gosto muito de você, mas vou ser sincero: você é um besta, esse negócio de ler e estudar, ficar preocupado com essa coisa que você chama de injustiças sociais, isso é pura perda de tempo, meu caso é outro, meu caso é enricar” (ele parecia amar esta palavra, “enricar”, quando lembro esta palavra, lembro dele, quando lembro dele, lembro desta palavra).


Ele iria trabalhar, de preferência num lugar onde pudesse fazer relações com gente que mexesse com dinheiro, onde surgissem oportunidades de golpes, tudo dependia de oportunidades e também da sorte, nunca se deve desprezar a sorte, ela está sempre por aí, com fé em Deus. De fato. Tanto cavou, tanto cativou gente bem situada nos escalões sociais que conseguiu um emprego de ofice-boy num banco.


Ali começou a se sentir como peixe n’água. O rapaz realmente levava jeito, sabia se virar, uma gorjeta ali, um pequeno suborno acolá, ia vivendo. Gostava de recordar uma vez em que ele exagerou ao dissimular na hora de um daqueles pequenos subornos: foi quando ele “quebrou o galho” pra um prefeito do interior, cliente do banco. O prefeito, como de praxe, seria generoso: meteu a mão no bolso e estendeu a grana pra Zelindo (era assim seu nome, lembrei agora). Aí ele negaceou, fez cena, fez charme: o senhor sabe, o banco é muito rigoroso nessas coisas, os funcionários estamos aqui pra servir aos clientes, não podemos receber nenhum “agrado”. O homem pareceu não acreditar e, corrupto e corruptor como era, insistiu. E nosso herói negaceando. Ficou aquele impasse, até que o prefeito, mesmo surpreso, acreditou e foi levando a mão de volta ao bolso. Epa! Zelindo deu um salto e agarrou a mão do homem ainda a tempo: “Bom, desta vez eu vou aceitar”.


E se foi entrosando no mundo bancário. Porém, não podia subir na carreira bancária porque era semi-analfabeto, não podia, por exemplo, passar a escrevente ou a escriturário. Mas o que podia ele fazia. Comprou um táxi à prestação, era popular, bem relacionado com os colegas, ganhava bem mais que um simples ofice-boy ou contínuo, como se chamava na época. Vamos que vamos, começou a gastar mais do que ganhava e entrou na ciranda dos cheques sem fundo. Naquele tempo não havia essa coisa de “dinheiro plástico”, caixa eletrônico, era de papel, era cheque, que entrava na conta de noite, através da câmara de compensação (quem era bancário nas décadas de 60 e 70 manja bem disso).


Sua vida virou um inferno, passou a girar em função dos cheques sem fundo que ele teria que cobrir na manhã seguinte. Era realmente uma agonia perene, renovada todas as manhãs, de segunda a sexta-feira. E mantida nos finais de semana, na expectativa de como cobrir os cheques “voadores” na manhã da segunda-feira. Uma vez me confessou que não estava mais conseguindo “namorar” com sua mulher (nesta altura já estava casado, sustentava sua família e mais sua velha mãe que trouxe do interior). Ia começando o “namoro”, tudo bem, mas aí ele lembrava dos cheques que teria de cobrir amanhã de manhã e aí era uma merda, a tesão sumia na hora.


Num momento de desespero ele me revelou um sonho seu que poderia salvá-lo definitivamente. Aliás, frisou que era um sonho acalentado por toda a sua vida. Seria sua sorte grande: era ele, num golpe de sorte espetacular, salvar o filho do governador que iria ser atropelado por um carro. O governador iria lhe agradecer e perguntar o que ele queria como recompensa por sua ação heróica. Ele tinha o pedido na ponta da língua: “Senhor governador, quero ser ‘fiscal de renda’, vou ficar eternamente agradecido”. Pronto, explicava, aí vou “enricar”, posso ser corrupto profissional, com todo o respeito. (Naquele tempo era famoso o cargo de “fiscal de renda” dentro do Fisco estadual e não havia essa coisa de concurso público, o governador nomeava, estava nomeado).


Para fechar a história do nosso Zelindo: com tanto cheque sem fundo acabou demitido do banco, mas continuou a faina diária de taxista e foi relativamente bem sucedido. Não “enricou”, mas sempre manteve boas relações com gente mais ou menos endinheirada, corruptos ou não. Era um bom amigo. Morreu relativamente jovem e deixou saudades.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

‘Rolezinhos’ expõem a chaga nunca fechada da escravidão


Por Antônio David 

O surgimento dos “rolezinhos” tem sido motivo de acalorado debate, sobretudo nos órgãos de imprensa. Infelizmente, muito do que tem sido veiculado apenas reproduz o senso comum e só concorre para reforçar preconceitos e estereótipos.

Não quero me dar ao trabalho de defender o direito aos “rolezinhos”. Não se trata apenas de uma causa justa; trata-se de um direito civil elementar: o direito de ir e vir. Ao se proibir os “rolezinhos” e recriminar quem deles participa através de ações coercitivas, vê-se o quão atrasados estamos em matéria de direito.
Porém, nesse artigo, mais do que defender (ou condenar) a nova prática, meu objetivo é apresentar certas questões de fundo, ligadas à formação da sociedade brasileira, e que os “rolezinhos” e a reação a eles evidenciam.

Gostaria de propor sete ideias, para reflexão e discussão, e que penso serem importantes para a intervenção política da esquerda:
1) Como se sabe, o governo Lula iniciou um processo de ascensão social da classe trabalhadora, através do emprego com carteira assinada e do consumo de massas, para o qual o governo Dilma bem ou mal vem dando continuidade.



Mais do que acesso a educação, bens etc., esse processo criou expectativas, sobretudo entre os mais jovens. Expectativa de fazer parte do mundo deles, do mundo de lá, ou seja, da classe média, com tudo o que ela tem direito: consumo, prestígio, lazer, perspectiva de futuro, trabalho digno. Os “rolezinhos” não são um mero passeio no Shopping, Representam muito mais do que isso. No fundo, são um recado: “nós também queremos participar!”. Evidenciam a existência de expectativas no seio da juventude proletarizada, alimentadas pelo lulismo;


2) A reação aos “rolezinhos”, tendo encontrado amparo e eco na classe média tradicional, evidencia a restrição que essa classe social tem à integração dos pobres ao seu mundo.
Falando em português claro: do ponto de vista da classe média tradicional e da burguesia (aquela que faz compras no Brasil, não em Paris), se os “rolezinhos” não forem coibidos, os abastados membros dessas classes pretéritas deixarão de frequentar os shoppings centers, por uma razão muito simples: porque eles odeiam pobre e negro. Os “playboys” e “madames” deixarão de ter seu espaço privè de lazer (leia-se, sem pobre e negro à vista), e, consequentemente, os lojistas não terão o lucro que auferem.
Nesse sentido, a não aceitação aos “rolezinhos” tem paralelo com a não aceitação das cotas nas universidades públicas, ou com o desconforto sentido pelos indivíduos de classe média quando entram no saguão do aeroporto e dão de cara com pessoas de baixa renda viajando de avião;

3) O curioso é não haver entre os porta-vozes da classe média quem tenha a coragem de vocalizar seu verdadeiro sentimento, que poderia ser dito nos seguintes termos: “não queremos compartilhar o mesmo espaço com pobres e negros”.
A classe média é racista, mas sente pudor em expor seu racismo, pois se considera democrática. Ela aceita os de baixo, desde que eles saibam ocupar o “seu lugar”.
O racismo, assim, permanece mascarado, no campo do não-dito. Daí porque, ao reagirem, vocalizam todo tipo de subterfúgios. O festival de idiotices que temos lido na imprensa, sobretudo na sessão “Painel dos Leitores”, evidencia a incapacidade que a classe média tem de expor seus mais profundos sentimentos, seus verdadeiros sentimentos. Esses sempre são substituídos por pretextos. Uma bobagem atrás da outra. A reação aos “rolezinhos” é o reino dos pretextos.

Há pouco tempo, tivemos um ótimo exemplo desse curioso traço da nossa classe média. Ao ser questionada sobre a abertura de uma estação do metrô na região, uma senhora de classe média moradora do bairro de Higienópolis, em São Paulo, declarou que a estação atrairia “gente diferenciada”. Ora, será que ninguém se perguntou o motivo de tanto pudor? Por que, afinal, usar a expressão “gente diferenciada”? Sejamos francos: se essa senhora tivesse ido direto ao ponto, sem pretextos nem subterfúgios, o que ela teria dito? Ao invés de “gente diferenciada”, se tivesse sido sincera, ela teria dito: “pobres e negros”.
Portanto, o surgimento dos “rolezinhos evidencia a existência, na sociedade brasileira, de um apartheid latente, e a de um traço característico das classes abastadas brasileiras, que vivem sob o mito da democracia racial.

4) Por que tantos jovens de origem proletária, muitos dos quais trabalhadores precarizados, procuram os shoppings centers? O que exatamente nesses lugares os atrai? Mais do que o baluarte do consumo, o shopping center representa a possibilidade da diferenciação social, um lugar para poucos. Mas, afinal, de quem esses jovens querem diferenciar-se? Finalmente, quais são as alternativas que o poder público oferece para esses jovens, em termos de organização da cultura política — sobretudo os governos tendo à frente o PT?
Uma das hipóteses que tenho ouvido sobre a nova classe trabalhadora é de que, formada no bojo de um processo desmobilizador, ela tende a adquirir a consciência da classe para onde ela pretende ir ou pensa estar indo. Aí parece estar a chave. Como recriminar esses jovens, se eles são chamados de “nova classe média” a torto e a direito? Nesse sentido, e paradoxalmente, os “rolezinhos” evidenciam um perigoso quadro de hegemonia cultural da burguesia e, talvez, da direita.

5) Contraditório, o lulismo aparece como uma estratégia de acomodação e amortecimento dos conflitos. Ao viabilizar a ascensão social dos trabalhadores sem confronto com o capital, mas garantindo-lhes o ambiente favorável de negócios e o respeito aos contratos, o lulismo apresenta-se como conciliador.
Contudo, trata-se aqui de um paradoxo: a realidade concreta engendrada pelo processo conduzido pelo lulismo é o exato oposto do que o lulismo aparenta ser. Na medida em que a ascensão social via emprego e consumo vai progredindo, ainda que lentamente, o lulismo vai empurrando a classe trabalhadora para o conflito com o capital — e com a classe média tradicional. É o que verificamos quando olhamos para os dados sobre greves no Brasil. Penso que, ao lado das greves e de um sem número de outros fenômenos — dos quais junho provavelmente faz parte — os “rolezinhos” evidenciam o norte para o qual caminhamos e do qual, graças ao lulismo, cada vez mais nos aproximamos: o conflito.

6) Os “rolezinhos” surgiram espontaneamente. O que não significa inexistência de organização. Certamente foram organizados. Cabe pesquisar e entender esse novo tipo de organização. Não obstante, tem algo que já de antemão sabemos: trata-se de uma forma que escapa do modelo tradicional de organização, no qual o partido é o polo aglutinador e organizador.
O partido não organiza, não organizou e provavelmente não organizará. É o fim dos partidos? Não. Mas talvez seja o fim, ou pelo menos o descenso do modelo tradicional de organização da classe. Cabe aos partidos e às organizações de esquerda entender as novas formas de organização da juventude pobre, em ascensão social, e procurar adaptar-se a elas.

7) O fenômeno dos “rolezinhos” e a reação reacionária e sem mediações, através da violência policial, evidenciam a natureza do processo político em curso no país.
Afinal, o que é no fundo o lulismo? O lulismo é uma estratégia de combate à pobreza e à desigualdade sem confronto com o capital. Essa explicação, contudo, esconde o essencial. Pois não se trata de um mero combate à pobreza e à desigualdade, como dados brutos, pois a pobreza e a desigualdade subsistem sobre uma estrutura econômica e social herdada de nosso passado; no fundo, o processo político em curso está enfrentando o peso e a persistência de nosso passado colonial, em particular a herança da escravidão.
Não se trata aqui de retórica. O sentido da frase é literal. Mais de um século transcorreu, o Brasil é outro, as representações são outras, mas é ingenuidade achar que quatrocentos anos de escravidão não deixaram marcas profundas na estrutura econômica e social de nosso país. Marcas que insistem em perseverar e que, não obstante sejam camufladas por todo tipo de ideologia, não cessam de expor, como uma chaga nunca fechada. É isso o que está em jogo no processo político em curso atualmente no Brasil, e é isso o que está em jogo para qualquer estratégia coerente e viável que a esquerda venha a formular e implementar: como enfrentar o legado da escravidão?
A estratégia do lulismo, com seus erros e acertos, méritos e deméritos, possibilidades e limites, é uma forma de enfrentar nada mais nada menos do que o legado da escravidão. Apenas isso. Simplesmente isso. Daí sua força. Penso que o fenômeno dos “rolezinhos” evidencia a natureza do legado com o qual o lulismo está tendo de lidar. Resta saber até onde ele é capaz de ir, tendo à frente um inimigo tão forte.

*Antônio David é pós-graduando em filosofia pela FFLCH/USP.
** Postagem reproduzida do blog Viomundo
*** O texto me lembrou esse vídeo que considero uma das peças de campanhas mais emocionantes, porque expressa os anseios da juventude da periferia, o protesto contra a histórica injustiça e desigualdade social  brasileira.

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