Quem somos

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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

sábado, 18 de janeiro de 2014

Seu sonho era ser "fiscal de renda" e "enricar" (Crônica)

(Foto: gráfico animado de Pedro Miguel Cruz sobre corrupção, do site http://apodrecetuga.blogspot.com.br)
Reproduzido do blog Evidentemente:

Desde menino pobre do interior baiano, ele já apelava na luta pela sobrevivência para pequenos expedientes que poderiam ser classificados de corruptos, ou pelo menos demonstrativos duma certa tendência à corrupção, uma instituição bem entranhada no caráter brasileiro – quiçá no caráter humano. Ele contava, por exemplo, que de quando em quando ganhava umas moedas de outros meninos mais endinheirados em troca de levantar a saia de determinadas garotas (já na trilha da tradição brasileira, ele seria o corrupto, o “criminoso”, enquanto os corruptores apenas perdoáveis rapazes da elite local, traquinagens da juventude).


Mais crescidinho veio para a capital, a perseguir seu ideal de “enricar”, fosse como fosse, não importa. Estudar? Só o mínimo possível, olhe se ele ia perder tempo com escola. Uma vez, já adulto, ele me disse: “Meu amigo, você é gente boa, gosto muito de você, mas vou ser sincero: você é um besta, esse negócio de ler e estudar, ficar preocupado com essa coisa que você chama de injustiças sociais, isso é pura perda de tempo, meu caso é outro, meu caso é enricar” (ele parecia amar esta palavra, “enricar”, quando lembro esta palavra, lembro dele, quando lembro dele, lembro desta palavra).


Ele iria trabalhar, de preferência num lugar onde pudesse fazer relações com gente que mexesse com dinheiro, onde surgissem oportunidades de golpes, tudo dependia de oportunidades e também da sorte, nunca se deve desprezar a sorte, ela está sempre por aí, com fé em Deus. De fato. Tanto cavou, tanto cativou gente bem situada nos escalões sociais que conseguiu um emprego de ofice-boy num banco.


Ali começou a se sentir como peixe n’água. O rapaz realmente levava jeito, sabia se virar, uma gorjeta ali, um pequeno suborno acolá, ia vivendo. Gostava de recordar uma vez em que ele exagerou ao dissimular na hora de um daqueles pequenos subornos: foi quando ele “quebrou o galho” pra um prefeito do interior, cliente do banco. O prefeito, como de praxe, seria generoso: meteu a mão no bolso e estendeu a grana pra Zelindo (era assim seu nome, lembrei agora). Aí ele negaceou, fez cena, fez charme: o senhor sabe, o banco é muito rigoroso nessas coisas, os funcionários estamos aqui pra servir aos clientes, não podemos receber nenhum “agrado”. O homem pareceu não acreditar e, corrupto e corruptor como era, insistiu. E nosso herói negaceando. Ficou aquele impasse, até que o prefeito, mesmo surpreso, acreditou e foi levando a mão de volta ao bolso. Epa! Zelindo deu um salto e agarrou a mão do homem ainda a tempo: “Bom, desta vez eu vou aceitar”.


E se foi entrosando no mundo bancário. Porém, não podia subir na carreira bancária porque era semi-analfabeto, não podia, por exemplo, passar a escrevente ou a escriturário. Mas o que podia ele fazia. Comprou um táxi à prestação, era popular, bem relacionado com os colegas, ganhava bem mais que um simples ofice-boy ou contínuo, como se chamava na época. Vamos que vamos, começou a gastar mais do que ganhava e entrou na ciranda dos cheques sem fundo. Naquele tempo não havia essa coisa de “dinheiro plástico”, caixa eletrônico, era de papel, era cheque, que entrava na conta de noite, através da câmara de compensação (quem era bancário nas décadas de 60 e 70 manja bem disso).


Sua vida virou um inferno, passou a girar em função dos cheques sem fundo que ele teria que cobrir na manhã seguinte. Era realmente uma agonia perene, renovada todas as manhãs, de segunda a sexta-feira. E mantida nos finais de semana, na expectativa de como cobrir os cheques “voadores” na manhã da segunda-feira. Uma vez me confessou que não estava mais conseguindo “namorar” com sua mulher (nesta altura já estava casado, sustentava sua família e mais sua velha mãe que trouxe do interior). Ia começando o “namoro”, tudo bem, mas aí ele lembrava dos cheques que teria de cobrir amanhã de manhã e aí era uma merda, a tesão sumia na hora.


Num momento de desespero ele me revelou um sonho seu que poderia salvá-lo definitivamente. Aliás, frisou que era um sonho acalentado por toda a sua vida. Seria sua sorte grande: era ele, num golpe de sorte espetacular, salvar o filho do governador que iria ser atropelado por um carro. O governador iria lhe agradecer e perguntar o que ele queria como recompensa por sua ação heróica. Ele tinha o pedido na ponta da língua: “Senhor governador, quero ser ‘fiscal de renda’, vou ficar eternamente agradecido”. Pronto, explicava, aí vou “enricar”, posso ser corrupto profissional, com todo o respeito. (Naquele tempo era famoso o cargo de “fiscal de renda” dentro do Fisco estadual e não havia essa coisa de concurso público, o governador nomeava, estava nomeado).


Para fechar a história do nosso Zelindo: com tanto cheque sem fundo acabou demitido do banco, mas continuou a faina diária de taxista e foi relativamente bem sucedido. Não “enricou”, mas sempre manteve boas relações com gente mais ou menos endinheirada, corruptos ou não. Era um bom amigo. Morreu relativamente jovem e deixou saudades.

Um comentário:

Joana D'Arck disse...

Bancário e Fiscal de Renda era o sonho da classe média. No interior, então, partidão!

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