Insulto Veríssimo


"Do baú. Certa vez fiz uma trova entre Deus e o Diabo para o Kleiton e o Kledir em que, respondendo a uma provocação do Diabo, que duvidava do seu poder de estar em todas as partes ao mesmo tempo, Deus cantava: “Vá ver se Eu não estou lá na esquina.” Na verdade, mandar alguém ver se estamos na esquina é uma das maneiras mais brandas de mandá-lo longe, comparável a mandar plantar batata ou procurar a sua turma. Mas existem exortações mais radicais, algumas imprecisas e de difícil execução. Mandar o outro encontrar uma banheira ou um chuveiro e se lavar, ou ir à presença da prostituta que lhe deu à luz, não exige maior empenho ou engenhosidade. Afinal, todos deveriam estar sempre dispostos a tomar um banho, e todos têm a obrigação elementar de saber onde está a sua mãe, ou pelo menos onde ela faz ponto. Mas e quando se manda alguém ao (para usar o nome científico) excremento? Que excremento? Onde? De que ou de quem? Como a referência é sempre “ao” excremento, genericamente, e não a uma determinada porção, subentende-se que em algum lugar existe uma quantidade de excremento aguardando a chegada do outro, que só depois de atirar-se nele, como mandamos, deve ir tomar banho. E aproveitar para lamber o sabão. Algumas tarefas são irrealizáveis. Catar capim no mato, tudo bem. Mas como uma pessoa pode “se” catar, por exemplo? E de que imaginável jeito alguém pode praticar a autofornicação, mesmo sendo um contorcionista? A pessoa nunca passaria das preliminares, e assim mesmo limitada pelo alcance dos seus lábios e das suas mãos. Onde, como e quando encontraríamos o tal raio que nos partisse, sem receber maiores instruções? Quando se manda alguém para o Inferno, ao menos é para um lugar específico. (Na trova que eu inventei para o Kleiton e o Kledir, o Diabo mandava Deus para o Inferno de uma forma sutil: “Apareça la em casa!”) Mas a exata localização do Inferno é uma velha questão teológica. Como encontrá-lo? E depois de encontrá-lo, como saber onde ficam os seus quintos? Ir para o Inferno pressupõe morrer antes ou o Inferno, no caso, é metafórico e inclui qualquer lugar desconfortável do momento, como Faluja ou uma fila do SUS? Sejamos claros. Nos nossos insultos, mesmo que em nada mais na vida".Luís Fernando Veríssimo 




Comentários

Joana D'Arck disse…
E tem também "Vá pentear macaco!", que me inspirou esta doce ilustração (rsrs)