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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Nelson Maca lança nesta quinta Gramática da Ira

Malcolm X, Stuart Hall, Ralph Ellison, Lima Barreto, Luís Gama, Abdias do Nascimento ... Estes e outros pensadores da negritude permeiam a Gramática da Ira, primeiro livro do poeta, professor e militante Nelson Maca, 49 anos, que reúne um conjunto de poemas que dialogam com esta tradição literária  e  atualizam  o debate sobre o conflito racial brasileiro.  Escrito ao longo de uma década, o livro será lançado, pelo selo Blackitude, no dia 14 de maio, às 18h, no Espaço Cultural da Barroquinha, na Praça Castro Alves.
Com prefácio assinado pelo escritor e ativista cubano Carlos Moore, a Gramática da Ira traz 56 poemas, que, segundo Maca, de maneira geral procuram refletir seu trajeto desde a inocência e alienação até a tomada de consciência e respectivo posicionamento com relação às questões raciais. Textos como Calma Rapaz, Moleke de Engenho, Instinto de Negridade e Malcolm Disse, alguns deles já bem conhecidos, principalmente pelos frequentadores do Sarau Bem Black, recital poético-musical idealizado e coordenado pelo autor há quase seis anos.

   

A partir da ideia central de como o racismo se estrutura na nossa sociedade e interfere na subjetividade negra, Maca vai traçando sua teia poética. “Procuro inserir a minha voz, ou seja, a voz de meu poema, no grande debate em torno da negritude, principalmente em seus desdobramentos do século XX”, afirma. Um dos mecanismos que utiliza para isso são as muitas citações, dentro e fora dos poemas. “O que busco é um diálogo, de forma que meus poemas sejam apenas uma das vozes no conjunto das reflexões que o livro traz”, completa. 

Cada uma das nove partes do livro é aberta com uma referência direta a um desses pensadores, estabelecendo o eixo temático daquele bloco de poemas. Por exemplo, o capítulo Matança – com textos sobre religiosidade - traz a citação da Ialorixá Mãe Stella de Oxóssi: “A verdadeira guerra santa é aquela que destrói o que precisa ser destruído, a fim de construir o que precisa ser construído”.  Mas as falas e citações também estão diluídas dentro dos poemas, o que, reflete Maca, pode levar alguns a acusá-lo de plágio. “Isso variará de acordo com cada leitor e sua visão estética e filosófica da poesia”, diz Maca, que trata desta questão diretamente no último texto do livro, o Manual do Usuário da Gramática da Ira – que por sua vez é uma “reescritura interessada” do Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella.
Adepto do conceito e estudioso da Literatura Negra, Nelson Maca diz que procura sempre imprimir negritude em seus poemas: na temática, na escolha do vocabulário e no ritmo. “Me interessa profundamente até aonde vai e como se dá o diálogo entre ética e estética na poética da negritude, na escrita literária e em sua reflexão crítica”, diz. O lançamento da Gramática no dia 14 de maio, no Espaço Cultural da Barroquinha, também reforça a intenção do projeto. A data tem ganhado força na militância negra como desconstrução do dia da abolição. Chamado “o dia seguinte”, aponta para a falta de um projeto governamental de inserção negra na sociedade pós-escravidão; já a Barroquinha é um espaço simbólico para a manutenção da identidade negra, por ser o marco na fundação dos terreiros de candomblé no Brasil.
O livro Gramática da Ira, que tem projeto gráfico do designer Welon Santos, o Penga,  é o primeiro do selo Blackitude. Além da venda no dia do lançamento (R$ 30,00), o trabalho está sendo comercializado na campanha TRANSE, através da qual as pessoas poderão adquiri-lo antecipadamente, a partir do mesmo valor (mais postagem), porém podendo colaborar mais, voluntariamente.






Nelson Maca
Poeta e professor universitário, tem 49 anos e nasceu no Paraná, mas mora em Salvador desde 1989. Ensina no curso de Letras da Universidade Católica de Salvador desde 1995.  É articulador do Coletivo Blackitude: Vozes Negras da Bahia, que realiza ações artísticas e de formação sócio-racial através das linguagens da cultura hip hop e afins há mais de 15 anos. É responsável pelo Sarau Bem Black, realizado há aproximadamente seis anos. Há mais de 30 anos promove e participa de eventos da negritude - seminários, workshops, cursos, shows, literatura e hip hop - na Bahia e no Brasil, tendo estabelecido parcerias com a Fundação Palmares, Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ), Só Balanço Produções (BSB), Griô Produções (BSB), Balada Literária (SP), Cooperifa (SP), Nossa Conduta (RJ), APAFunk (RJ), Poesia Maloqueirista (SP), entre outros. Juntamente com o escritor paulista Berimba de Jesus, realiza há três anos o Encontro de Literatura Divergente (São Paulo, 2012-13-14). Nelson Maca participou das coletâneas literárias Suburbano Convicto I (SP), Pode Pá Que É Nóis Que Tá (SP), Sarau do Binho (SP) e Poesia Favela (RJ). Organizou os livros Tarja Preta, de Zinho Trindade (Edições Maloqueirista), e A Rima Denuncia, do rapper brasiliense GOG (Global) e escreveu a orelha do livro Colecionador de Pedras do escritor paulista Sérgio Vaz, da Cooperifa (Global).




FICHA
Livro: Gramática da Ira
Autor: Nelson Maca
Selo Blackitude
Lançamento: Dia 14 de maio, às 18h, no Espaço Cultural da Barroquinha, Praça Castro Alves
Quanto: R$ 30,00 (173 páginas)


ENTREVISTA: Nelson Maca
P. Por que batizar um livro de poemas com o nome de Gramática?
R. A princípio, pensei mesmo na estrutura de uma gramática, usando, inclusive, palavras e conceitos de lá. Mas depois centrei-me mais na ideia de pensar como o racismo se estrutura na nossa sociedade e interfere fatalmente na construção (ou destruição) da subjetividade negra. Ideologicamente, procuro colocar a temática e respectivas discussões num plano histórico. O título Gramática da Ira se estabeleceu quase a priori. Eu tinha feito apenas um de seus poemas, o Brother, antes de batizar o livro. Ou seja, todos os poemas foram escritos já em relação de perspectiva. Poemas anteriores a 1999 e posteriores a 2008 não entraram  no livro. Mesmo muitos escritos durante o período de construção da obra não entraram por não se adequarem à orientação que a Gramática da Ira tomou desde seu primeiro poema escolhido. O título é inspirado no belo livro Gramática da Fantasia de Gianni Rodari.
P. A ideia da ira perpassa todo o livro. Poderia falar um pouco mais sobre isto?
R. A ideia geral da Ira como paradigma central da ideologia e postura filosófica e política do livro vem de algumas leituras que me empolgavam à época, como os romances O Filho Nativo (Richard Wright) e Homem Invisível (Ralph Ellison), as memórias de Alma no Exílio (Eldrich Cleaver). O prefácioBigger, de O Filho Nativo, mexia realmente com minha cabeça.
P. O livro traz um grande número de referências e citações a autores, pensadores e militantes negros. Como foram escolhidas?
As referências e citações vão além de uma ilustração dos poemas. Fazem parte de um diálogo livre, que se pretende com as pessoas que, de alguma forma, atuaram ou comentaram sobre o a negritude no mundo. Na verdade, além das referências, tem também as inferências, quando não trago diretamente nomes e textos alheios, porém tento levar o leitor a leituras próximas do que esses textos , ‘ invisíveis nos poemas’,  dizem. Quase a totalidade desse grande diálogo com essa família de autores se dá com pensadores, ativistas e escritores negros que refletiram sobre a condição humana, mais especificamente a questão da escravidão e do racismo, além da problemática geral de ser negro na África e na diáspora.
P. Para você, é importante se definir como um escritor negro?
Sou adepto do conceito e estudioso da Literatura Negra. Escrevo sempre pensando nisso. Procuro insistentemente imprimir negritude em meus poemas. Ao longo da Gramática da Ira, nos poemas, citações e posfácio, associo-me a um conjunto de escritores negros, e que tratam da temática negra. Luís Gama, Cruz e Souza, Lima Barreto, Ralph Ellison, Richard Wright ocupam lugares essenciais no livro. Fico feliz que, exatamente essa minha filiação às demandas que orientaram o debate sobre a Literatura Negra no século XX seja o lastro teórico do prefácio de Carlos Moore. Ele levanta questões que me coloco cada vez que escrevo, tentando entender se há limites no fazer literário do escritor negro oriundo de um ambiente hostil.
P. Por quê lançar o selo Blackitude ?
R. A Gramática da Ira, desde meu desejo de sua escrita, se pretendia uma obra independente nas ideias, linguagem e na sua materialização enquanto objeto livro. No seu processo, cheguei a conversar com algumas editoras, a convite delas, mas não chegamos a nenhum acordo. Não só pelas propostas indecentes que me fizeram, mas também pelo meu desejo profundo de lançar livro pela atitude política do “do it yourself”. Então, com o livro, surge também o selo Blackitude, que pretende dar seguimento às suas atividades, com outras possíveis publicações.



SOBRE O LIVRO

Esta Gramática da Ira é tudo o que a nossa, morna e pálida, literatura precisava. E precisa. Estava ela, coitadinha, tão necessitada. Da chegada dessa palavra original e viva. Dessa poesia feita de luta. Cheia de autoestima e empenho social. Sem ser, assim, uma poesia panfletária. Mas planetária. Uma poesia, de fato, da encruzilhada.                                                                                     
(Marcelino Freire, escritor)

Inimigo da “neutralidade” artística, ele insiste em ser relevante para a época que lhe tocara viver. Sua expressão de artista se insere indiscutivelmente no caminho estético-teórico aberto por Césaire, Cullen, McKay, Hughes e outros grandes poetas negros do século XX, cujo posicionamento firmou a indissociabilidade entre ética e estética, beleza e protesto, técnica e premência social.
Maca responde à pressão social com uma poesia cuidadosamente articulada, vigorosa, dilaceradora. Seu compromisso é com as causas sociais. Seus versos repousam num andaime sociológico contemporâneo; aquele de nosso dia a dia num entorno hostil às demandas de reparação histórica e/ou de equidade social.
                                                                                                   (Carlos Moore, escritor cubano)

Gosto disso, a tua ênfase na Divergência. Porque se trata de divergir do tido como "normal", e nisso cabe não só uma, mas muitas divergências, todas as que compõem a riqueza do povo brasileiro/latinoamericano/mundo e, sobretudo, dos que estão embaixo, pisados pelos poucos lá de cima, sob as botas do racismo e da exploração, e no caso, evidentemente, o negro não só do Brasil, mas da diáspora toda. Também gosto muito das tuas constantes referências a Malcolm, Fela, Cesaire, Fanon, lutadores e pensadores da divergência combativa.         
                                                                                (Alejandro Reyes, escritor mexicano)

Decretar a falência da gramática estática é o maior desafio na diáspora negra. A escrita dos novos escribas esgotando os tinteiros e abastecendo a “pena sangrenta”. Nelson Maca me conduz ao meu orum. Gramática da Ira.         
                                                                      (Genival Oliveira Gonçalves - GOG, rapper)

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