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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A tragédia brasileira



“O TRIDENTE DA REAÇÃO: juízes, parlamentares e meios de comunicação, todos corruptos até a medula, pôs em marcha um processo pseudo legal e claramente ilegítimo mediante o qual a democracia no Brasil, com suas deficiências como qualquer outra, foi substituída por uma descarada plutocracia…”
Por Atilio A. Boron (*) – no jornal argentino Página/12, edição de 02/09/2016 –

 Tradução: Jadson Oliveira
Uma gangue de “malandros”, como canta o incisivo e premonitório poema de Chico Buarque – ”malandro oficial, malandro candidato a malandro federal, malandro com contrato, com gravata e capital” – acaba de consumar, a partir do seu covil no Palácio Legislativo do Brasil (Congresso Nacional), um golpe de Estado (mal chamado “brando”) contra a legítima e legal presidenta do Brasil Dilma Rousseff. E dizemos “mal chamado brando” porque como ensina a experiência deste tipo de crimes em países como Paraguai e Honduras, o que invariavelmente vem após esses derrocamentos é uma selvagem repressão para erradicar da face da terra qualquer tentativa de reconstrução democrática.
O tridente da reação: juízes, parlamentares e meios de comunicação, todos corruptos até a medula, pôs em marcha um processo pseudo legal e claramente ilegítimo mediante o qual a democracia no Brasil, com suas deficiências como qualquer outra, foi substituída por uma descarada plutocracia animada pelo único propósito de reverter o processo iniciado em 2002 com a eleição de Luiz Inácio “Lula” da Silva para a presidência. A voz de comando é retornar à normalidade brasileira e colocar cada um no seu lugar: o “povão” aceitando sem chiar sua opressão e exclusão, e os ricos desfrutando de suas riquezas e privilégios sem temores dum desvio “populista” a partir do Planalto.
Claro que esta conspiração contou com o apoio e a bênção de Washington, que há anos vinha espionando, com tortuosos propósitos, a correspondência eletrônica de Dilma e de diferentes autoridades do Estado, além da Petrobras. Não somente isso: este triste episódio brasileiro é mais um capítulo da contraofensiva estadunidense para acabar com os processos progressistas e de esquerda que caracterizaram vários países da região desde finais do século passado. Ao inesperado triunfo da direita na Argentina acrescenta-se agora a porrada desferida contra a democracia no Brasil e a supressão de qualquer alternativa política no Peru, onde o eleitorado teve que optar entre duas variantes da direita radical.
Não é demais recordar que a democracia jamais foi de interesse do capitalismo: um de seus principais teóricos, Friedrich von Hayek, dizia que ela era uma simples “conveniência”, admissível na medida em que não interferisse no “livre mercado”, que é a não-negociável necessidade do sistema. Por isso era (e é) ingênuo esperar uma “oposição leal” dos capitalistas e seus representantes políticos ou intelectuais a um governo ainda que seja tão moderado como o de Dilma.
Da tragédia brasileira se colhem muitas lições, que deverão ser aprendidas e gravadas a fogo em nossos países. Menciono apenas umas poucas.
Primeiro, qualquer concessão à direita por parte de governos de esquerda ou progressistas só serve para precipitar sua ruína. E o PT a partir mesmo do governo de Lula não cessou de incorrer neste erro, favorecendo incrivelmente o capital financeiro, certos setores industriais, o agronegócio e os meios de comunicação mais reacionários.
Segundo, não esquecer de que o processo político não somente transcorre pelos canais institucionais do Estado mas também pelas “ruas”, o turbulento mundo plebeu. E o PT, desde seus primeiros anos de governo, desmobilizou seus militantes e simpatizantes e os reduziu à simples e inofensiva condição de base eleitoral. Quando a direita se lançou a tomar o poder de assalto e Dilma assomou à tribuna do Palácio do Planalto, esperando encontrar uma multidão em seu apoio, apenas viu um pequeno punhado de abatidos militantes, incapazes de resistir à violenta ofensiva “institucional” da direita.
Terceiro, as forças progressistas e de esquerda não podem cair outra vez no erro de apostar todas as suas cartas exclusivamente no jogo democrático. Não esquecer de que para a direita a democracia é só uma opção tática, facilmente descartável. Por isso as forças da mudança e da transformação social – nem falar dos setores radicalmente reformistas ou revolucionários -, têm sempre de ter à mão “um plano B”, para enfrentar as manobras da burguesia e do imperialismo que manipulam caprichosamente a institucionalidade e as normas do Estado capitalista. E isto supõe a organização, mobilização e educação política do vasto e heterogêneo conglomerado popular, coisa que o PT não fez.
Conclusão: quando se fala da crise da democracia, uma obviedade a esta altura dos acontecimentos, temos que enfatizar os que causaram esta crise. A esquerda sempre foi acusada, com argumentos artificiosos, de não acreditar na democracia. A evidência histórica demonstra, ao contrário, que quem cometeu uma série de frios assassinatos à democracia, em todo o mundo, foi a direita, que sempre se oporá, com todas as armas que estejam a seu alcance, a qualquer projeto encaminhado a criar uma melhor sociedade, e que não hesitará em destruir um regime democrático para atingir seus fins.
Para os que tenham dúvidas aí estão, em datas recentes, os casos de Honduras, Paraguai, Brasil e, na Europa, da Grécia. Quem matou a democracia nesses países? Quem são os que querem matá-la na Venezuela, Bolívia e Equador? Quem a matou no Chile em 1973, no Brasil em 1964, na Indonésia e República Dominicana em 1965, na Argentina em 1966 e 1976, no Uruguai em 1973, no Congo Belga em 1961, no Irã em 1953 e na Guatemala em 1954? A lista seria interminável.
(*) Atilio A. Boron é cientista político e sociólogo, que se diz argentino por nascimento e latino-americano por convicção.
Reproduzido do Fazendo Media

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