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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

“La papi”, uma ceia boliviana

JADSON OLIVEIRA



De La Paz (Bolívia) – Uma aglomeração em frente à Igreja de São Francisco (praça com o mesmo nome). Que será? Me aproximo a tempo de ouvir um final de discurso de campanha eleitoral: “Vamos votar no nosso hermano Evo Morales...” Final de discursos, o grupo foi ficando menos compacto e eu cheguei ao miolo da pequena concentração.

A surpresa: sobre mantas e plásticos estendidos no chão, uma grande variedade de comida, como dizer?, coisas típicas ao gosto popular, como batata cozida com pele e sem pele; uns troços chamados “tunta” e “chuño” (me disseram ser feitos de batata, a “papa”, que aqui é pau pra toda obra, quase todo prato em restaurante popular tem “papa frita”); “yuca” (nosso aipim ou macaxera); ovo cozido; um tipo de milho cozido, os grãos grandes e brancos, chamado “choclo”; uma tal de “llahuja”, feita de tomate e “locoto” (tipo de pimenta).

E etc, etc. Os nomes são complicados, geralmente as coisas da cultura popular têm nomes de origem indígena (aymara, quéchua). Me explicaram: trata-se de “una papi”, tipo de ceia muito comum entre as camadas mais populares, uma espécie de confraternização usada nos mais diversos eventos sociais. No caso, era oferecida por políticos do governo. Perguntei: e os candidatos da oposição, da direita, fazem isso também? Não, eles não, os ricos fazem seus almoços nos restaurantes, esclareceram.

Bem, estabeleceu-se uma gostosa camaradagem. Eles insistiram para que eu participasse da ceia. Confesso que hesitei muito. È que todo mundo pegava as coisas diretamente com as mãos, na maior sem cerimônia. Porra, pensava, tenho que esquecer meus pruridos de higiene. Peguei, assim meio sem jeito, com a mão esquerda, um pedaço de aipim, pelo menos isso eu conheço e sei que gosto. Mas não adiantou o cuidado. Eles começaram a me dar uma coisa e outra, dissertando sobre as propriedades nutritivas, os nomes, e eu ia comendo. Menos um troço lá que não consegui, tentei disfarçar e joguei num canto, tinha gosto de puba.

No final, apertei a mão e me despedi do gentil senhor que me deu mais atenção, chamado Juan. Saí feliz, tinha participado de uma autêntica ceia boliviana.

Uma tirada de Evo Morales

Em um de seus inúmeros discursos de campanha – para as eleições do próximo dia 6 -, que às vezes escuto e vejo na televisão, o presidente Evo Morales falava das mentiras que os adversários espalham sobre ele. Se queixava: “Dizem que quem tem duas casas, Evo Morales vai tomar uma; quem tem dois carros, Evo Morales vai tomar um...” E acrescentou: “Só faltam dizer: quem tem duas mulheres, Evo Morales vai tomar uma”.

2 comentários:

Joana D'Arck disse...

Eca! Jadson, foi pra isso que você ficou até agora aí? Pra comer de mão e ainda entrar de penetra na ceia dos outros?kkkkkkkkkkkk

E essa de Evo Morales me lembrou uma história que o falecido vereador Maltez Leoni contava sobre um homem que lhe pediu um emprego e acabou pedindo para a esposa. Maltez alegou que não tinha vaga e empregava a própria família em seu gabinete (era irmã, cunhado, sobrinho etc) porque costumava ficar até altas horas trabalhando e depois levava a família para casa. O homem então propôs: "O senhor pode levar a minha mulher para a sua casa também. Depois o senhor devolve".

Isabel santos disse...

Pô, legal, Jadson

Já vivi essa experiência quando estive em La Paz, na década de 80. Hesitei também, mas depois decidi viver essa coisa ímpar. Foi com o pessoal que vende na rua, no início da noite. A gente se sente mais próximo desse povo que, em várias regiões, está na linha abaixo da pobreza. Parabéns, mais uma vez, pelas suas andanças. Esse sim, é o grande tesouro. Bjs

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