Lika Estrêla é estudante de Direito, presidente do CARB/UFBA
Companheiros e companheiras,
eu acho que essa foto conseguiu
registrar uma coisa que eu ainda não sei dizer sem que alguma parte de mim
aperte.
Porque tem momentos em que a gente não
está só olhando.
A gente está tentando guardar.
Guardar a luz, o barulho, a voz, o
rosto, a multidão, o segundo exato antes que ele vire lembrança.
E acho que foi exatamente isso que
aconteceu comigo ali.
Eu estava olhando para o meu velhinho de
barba branca e tentando guardar aquele instante inteiro dentro do peito.
Porque eu sei que vai passar.
E essa é a parte que me desmonta.
É a última eleição de Lula.
Eu escrevo isso e ainda parece uma frase
estranha.
A última.
Meu Deus.
Caralho.
A última.
Talvez porque eu nunca tenha vivido um
Brasil em que Lula não existisse, de alguma forma, no centro da nossa memória
política.
Eu nasci em 2004.
Lula já era presidente quando eu cheguei
aqui.
E desde que aprendi a reconhecer o
mundo, o nome dele já estava nas conversas de casa, nos almoços de domingo, na
televisão ligada, nas histórias dos mais velhos, naquele “foi no tempo de Lula”
que parece pontuar metade das memórias de uma família nordestina.
Na vida real, a História não vem
organizada em capítulo, rodapé e bibliografia.
A História tem cheiro.
Tem barulho.
Tem vontade.
Tem voz de vó.
Tem jingle que a gente sabe contra a
própria vontade.
Tem bandeira.
Tem discussão no almoço de domingo.
Tem gente chorando na rua.
E tem uma menina de 22 anos olhando para
um senhor de 80 e poucos como se estivesse tentando impedir o tempo de correr
por alguns segundos.
Foi isso.Eu estava tentando guardar.
Porque eu sei que vai passar.
E porque eu também sei que, se a gente
não tiver cuidado com a História e com o tempo, um Brasil sem Lula pode
significar coisas muito diferentes.
Não porque um país possa ou deva
depender para sempre de um homem.
Mas porque uma geração que não conhece
sua própria história corre o risco de achar que tudo aquilo que recebeu sempre
esteve ali.
E não esteve.
Quem tem memória lembra.
Lembra de onde a gente veio.
Lembra da primeira pessoa da família que
conseguiu comprar uma casa.
Do primeiro carro.
Da geladeira nova.
Da televisão que deixou de ser sonho.
Do filho que entrou numa universidade
quando universidade parecia uma coisa que acontecia na vida dos outros.
Lembra de um Instituto Federal chegando
mais perto.
Lembra de uma universidade pública
abrindo campus, aumentando vagas, entrando em cidades onde antes o ensino
superior federal simplesmente não chegava.
Entre 2003 e 2010, foram criadas 14
novas universidades federais e mais de 100 novos campi; a oferta de vagas nas
federais praticamente dobrou, e a rede federal de educação profissional também
cresceu fortemente.
Só que eu não consigo olhar para esses
números como números.
Porque eu estou no meio deles.
Eu sou uma mulher negra, nordestina, que
começou a trabalhar aos 12 anos.
Sou filha de professora.
Neta de baiana de acarajé.
Sou egressa de Instituto Federal.
Hoje estudo Direito numa Universidade
Federal.
Então, quando alguém me fala de expansão
da educação pública, eu não penso primeiro em estatística.
Eu penso em mim.
Penso no Instituto Federal que eu
estudei.
Na universidade que hoje virou minha
casa.
Penso em tantas meninas que passaram a
imaginar futuros que, durante muito tempo, pareceram grandes demais para gente
como nós.
E talvez uma das maiores transformações
de um país aconteça justamente aí:
quando uma criança deixa de pensar “será
que um dia eu posso?”
e passa a pensar
“quando eu chegar lá.”
Isso muda tudo.
Muda até a gramática do sonho.
E talvez por isso, olhando para Lula, eu
tenha pensado tanto na minha avó.
Em quantas vezes ouvi:
“Minha filha, foi Lula quem mudou isso.”
“Minha filha, eu só vou sair de casa
para votar porque é Lula.”
E acho que muita gente no Nordeste sabe
exatamente do que eu estou falando.
Não porque o Nordeste deva gratidão
eterna a presidente nenhum.
Nosso voto nunca foi favor pago.
Nossa dignidade nunca foi presente.
Mas quem tem memória lembra.
E memória também é uma forma de justiça.
Minha avó talvez nunca tenha usado a
expressão “política pública”.
Talvez nunca tenha sentado para analisar
índice econômico, expansão universitária ou programa federal.
Mas ela sabia dizer o que tinha mudado
dentro da vida dela.
E isso, para mim, vale muito. Porque política só vira História de
verdade quando atravessa a porta da nossa casa.
Quando muda o que tem dentro da
geladeira.
Quando muda o endereço de uma escola.
Quando muda a expectativa de uma mãe
sobre o futuro de um filho.
Quando muda até aquilo que uma família
acha que tem direito de desejar.
E eu sei também como é quando a política
entra pela porta de um jeito diferente.
Eu lembro de 2018.
Lembro da fila do osso.
Lembro de um país atravessando uma
pandemia que deixou mais de 700 mil mortos.
Lembro do medo de colocar o pé para fora
de casa.
Lembro do medo de perder minha avó.
Do medo de perder o amor da minha vida.
Do medo de perder cedo demais a menina
dos meus olhos.
Lembro de perceber, ainda muito nova,
que decisão política não mora somente em Brasília.
Ela entra na nossa casa.
Ela chega na nossa mesa.
Ela pode tirar a comida de uma família.
E pode deixar uma cadeira vazia para
sempre.
Talvez por isso eu leve tão a sério essa
coisa de memória.
Porque eu não quero esquecer.
Não quero esquecer o que foi
conquistado.
E também não quero esquecer o que a
gente viveu quando certas coisas começaram a desmoronar.
E é por isso que eu estou aqui.
Não só por mim.
Estou pelas próximas gerações.
Porque eu não quero que elas conheçam um
Brasil em que universidade volte a ser privilégio.
Em que comida seja luxo.
Em que uma menina negra, filha de
professora e neta de baiana de acarajé, olhe para determinados sonhos e pense
que eles são grandes demais para ela.
Não quero que elas precisem descobrir
novamente, pela dor, coisas que a História já ensinou.
Talvez seja por isso que, naquela foto,
eu esteja olhando daquele jeito.
Porque eu não estou vendo apenas Lula.
Estou olhando para um homem e, através
dele, vendo minha avó.Minha mãe.
A menina que eu fui.
O Instituto Federal onde estudei.
A Universidade Federal que hoje se
tornou minha casa.
O Nordeste.
E tanta gente que aprendeu, talvez pela
primeira vez, que também tinha direito de sonhar.
E existe alguma coisa profundamente
poética nisso tudo.
Um homem que nasceu no interior de
Pernambuco, que migrou ainda criança com a família em busca de sobrevivência,
que não teve formação universitária, chegou à Presidência da República e
governou durante um período de enorme expansão das universidades e da educação
federal.
Tem história que parece metáfora.
Essa nem precisa.
Talvez por isso meu peito esteja batendo
diferente.
Porque algumas eleições a gente
acompanha.
Outras a gente vive.
E algumas a gente percebe, enquanto
vive, que vai contar durante o resto da vida.
Daqui a muitos anos, se alguém me
perguntar como foi viver a última eleição de Lula, talvez eu não lembre de cada
discurso.
Talvez eu esqueça parte dos jingles,
embora eu duvide muito, porque esses miseráveis entram na cabeça e nunca mais
saem.
Talvez eu não lembre de toda bandeira
que tremulou.
Mas eu sei que vou lembrar dessa
fotografia.
E eu sei também que vou lembrar com quem
eu vivi tudo isso.
Vou lembrar dos meus amigos, dos meus
companheiros e companheiras, dos colegas de luta, de quem dividiu comigo o
cansaço, a correria, a ansiedade, as ruas, os encontros, os abraços, os medos e
a esperança.
Vou lembrar de quem esteve do meu lado
quando a política deixou de ser uma coisa que a gente só estudava, comentava ou
assistia pela televisão e virou uma coisa que a gente viveu com o corpo
inteiro.
Vou lembrar das conversas intermináveis,
das piadas no meio do caos, da gente cansada e ainda assim acreditando, da
gente brigando, discordando, voltando, construindo, ocupando rua, reunião,
universidade, movimento, espaço.
E acho bonito pensar que, quando esse
tempo virar memória de verdade, eu não vou lembrar dele sozinha.
Vou lembrar dos rostos.
Dos nomes.
Das mãos que seguraram as minhas.
Das pessoas que me ensinaram a
permanecer quando era mais fácil desistir.
Das pessoas que me lembraram que
esperança também se organiza, também se reúne, também pega ônibus cedo, também
perde hora de almoço, também fica rouca, também ri em hora imprópria e também
aprende a continuar.E talvez isso seja uma das coisas mais
bonitas de viver a História: perceber que a gente nunca vive sozinho.
Sempre tem alguém do lado.
Sempre tem uma geração inteira tentando
empurrar o mundo alguns centímetros para frente.
E eu vou lembrar que eu estava ali com
os meus.
Com gente que acreditou.
Com gente que lutou.
Com gente que sonhou junto.
Com gente que, como eu, sabia que aquele
momento um dia ia virar lembrança e por isso tentou vivê-lo inteiro.
Vou lembrar exatamente desse olhar.
De mim tentando guardar um segundo antes
que ele virasse passado.
Porque no fundo talvez gratidão seja
também isso:
não transformar ninguém em santo.
Não esquecer os erros.
Não abrir mão da crítica.
Mas saber reconhecer quando a História
tocou a nossa vida com as próprias mãos.
E eu reconheço.
Reconheço na minha avó.
Reconheço na minha mãe.
Reconheço na minha formação.
Reconheço no lugar que eu ocupo hoje.
Reconheço na menina que um dia fui e que
talvez nem soubesse o tamanho dos caminhos que ainda poderia percorrer.
Então, companheiros e companheiras,
talvez eu ainda não saiba explicar completamente o que sinto.
Só sei que tem alguma coisa de
despedida.
Alguma coisa de agradecimento.
Alguma coisa de esperança.
Alguma coisa de medo.
E alguma coisa quase espiritual em
assistir ao tempo passar diante dos meus olhos e poder dizer:
eu estava aqui.
Eu vi.
Eu vivi.
Eu tive memória.
E, por alguns segundos, tentei guardar a
História inteira dentro do peito.
Foto: Ricardo Stuckert