sábado, 17 de outubro de 2026

Jaciara Santos/Sinjorba: Jornalista deve e precisa ter lado


 Da luta abolicionista à resistência à ditadura, a história revela por que o jornalismo não pode se omitir diante das ameaças à democracia


Jaciara Santos 

(Jornalista, diretora do Sinjorba)


Nos últimos dias, temos nos deparado com algumas interpelações acerca do posicionamento adotado em caráter institucional pela categoria em relação à atual disputa presidencial. A principal argumentação é a de que “jornalista precisa ser imparcial e não deve ter lado”. Entre insinuações veladas e acusações explícitas, os críticos apontam um suposto risco à apregoada isenção do jornalismo.

A quem nos acusa de militância partidária, devemos responder com firmeza e serenidade: talvez, mais do que lado, o jornalista precisa ter memória. Um mergulho rápido na história do país mostra o quanto o jornalismo precisa se posicionar em momentos de ameaça às liberdades individuais e coletivas. Não é um fenômeno recente. Remonta a séculos passados e está registrado em documentos históricos.

Comecemos por Luiz Gama (1830—1882), jornalista, escritor e filho de uma africana escravizada, que fez da palavra um instrumento de combate à escravidão e de defesa da liberdade. Foi uma das principais vozes do movimento abolicionista brasileiro.

José do Patrocínio (1853—1905), outro expoente do jornalismo abolicionista, fez da imprensa uma trincheira de luta contra a escravidão. Atuou na Gazeta da Tarde e fundou, em 1887, o jornal Cidade do Rio. Sua militância não se encerrou com a Abolição: opôs-se a Floriano Peixoto, foi desterrado para Cucuí, no interior do Amazonas, em 1892, e enfrentou a suspensão de seu jornal em 1893.

(Wladimir Herzog, jornalista morto em 1975 pela ditadura militar. Crédito: Arquivo Nacional)

Avancemos para os anos 1960. Quem cobra isenção jornalística conhece nomes como Mário Alves de Souza Vieira (1923—1970) e Vladimir Herzog (1937—1975)? Se não conhece, deveria. Porque são colegas que pagaram alto preço por combater um regime autoritário que não admitia o contraditório.

Para quem esqueceu, um breve histórico, verificável no relatório “Comissão Nacional da Verdade, volume III – Mortos e desaparecidos políticos” 

Baiano de Sento Sé, Mário era jornalista e dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Em janeiro de 1970, foi preso ilegalmente e morto sob tortura por agentes da repressão, no Rio de Janeiro. Figura entre os desaparecidos da ditadura — seu corpo nunca foi localizado. Em 1975, Vladimir foi assassinado pela ditadura militar brasileira nas instalações do DOI-CODI, quartel-general do II Exército, em São Paulo, após ter se apresentado voluntariamente ao órgão para “prestar esclarecimentos” sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Bahia na mira

Aqui, na Bahia, não passamos incólumes. Na madrugada de 1º de abril de 1964, uma tropa do Exército Brasileiro invadiu a redação e as oficinas do Jornal da Bahia, no Largo da Barroquinha. A manchete “Rebelião contra o governo” — já montada para publicação na primeira página — foi retirada da linha de montagem. Deveria ser substituída pela frase “A Nação que se salvou a si mesma do jugo comunista”. O jornalista e escritor Nelson Cerqueira, hoje com 84 anos e atual primeiro-tesoureiro da Academia de Letras da Bahia, era o plantonista. Coube a ele resistir. Argumentou que o espaço editorial não comportava o novo título. E o JBa. foi para as bancas com o espaço censurado (título e texto) em branco. Em 2014, em depoimento à Comissão Estadual da Verdade, Cerqueira relatou que o veículo foi o primeiro em todo o país a sofrer “censura física” do regime militar.

Naquele mesmo abril de 1964, a repressão política chegaria também ao edifício-sede da Associação Bahiana de Imprensa (ABI), na Praça da Sé, onde funcionava a Assembleia Legislativa da Bahia. No dia 28, três deputados estaduais, entre eles o jornalista Sebastião Nery (1932—2024), tiveram seus mandatos cassados. A Assembleia permaneceria no prédio até 1974, período em que outros parlamentares baianos também foram atingidos pelas cassações da ditadura militar.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais da Bahia (Sinjorba), cuja origem remonta a 1945, também sofreu a repressão da ditadura militar. Submetido à intervenção entre 1971 e 1976, chegou a atuar clandestinamente, mantendo viva a organização da categoria em meio às restrições impostas pelo regime.

(Manifesto contra o cerceamento à imprensa na ditadura militar, publicado no 
Boletim ABI - Junho1977 / reprodução)

Saltemos para 1977. Em 7 de junho, cerca de três mil jornalistas brasileiros, tendo à frente o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Prudente de Moraes Neto, assinavam um manifesto contra a censura e todas as formas de cerceamento à imprensa durante a ditadura militar. Publicado no Boletim ABI-Junho 1977, o documento foi lido no Senado Federal e na Câmara dos Deputados por políticos do MDB. Mais que um abaixo-assinado, o protesto foi a base para a escolha do 7 de junho como Dia Nacional da Liberdade de Imprensa.

Compromisso profissional

Agora, voltemos ao presente. Avaliemos a nossa pauta. Estamos exercendo o nosso compromisso profissional e não explicitando uma mera preferência político-eleitoral. Nosso posicionamento é: defender a liberdade de imprensa e de expressão, combater a censura e o autoritarismo, proteger o direito da sociedade à informação, apurar com rigor os fatos relacionados a todos os candidatos — inclusive ou, principalmente, àqueles cujas ideias se aproximam das nossas. Se isso representa a escolha de um lado, assumimos essa posição, perfeitamente respaldada pelo Código de Ética da FENAJ, notadamente em seus artigos 2º e 6º.

Afinal, as instituições que representam os jornalistas não podem ser omissas. Exatamente para não incorrermos nos mesmos erros do passado. Porque, sabemos, em muitos momentos nem toda a imprensa brasileira esteve ao lado da democracia. Como não está agora. Veículos importantes apoiaram o golpe de 1964, assim como apoiam hoje o candidato que flerta com o retrocesso. Outros sofreram censura ou se opuseram à ditadura.

Algo parecido com o cenário que se avizinha, caso o candidato da oposição vença as eleições de 2026. Ele já anunciou a intenção de usar a maioria na Câmara e no Senado, alinhada com a extrema-direita, para alterar a Constituição Federal. Uma declaração que, longe de tranquilizar, acende o alerta para o risco de retrocesso e de ameaça às nossas liberdades democráticas.

E é por essas razões que podemos afirmar: jornalista tem e deve ter lado, sim. Porque tem memória. E a memória indica que escolhamos o lado da democracia.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Jaciara Santos: A história se levanta

 

Fotos: UNE


Texto: Jaciara Santos (Jornalista, dirigente do Sinjorba e ABI/BA)



Sei que é clichê, mas não encontro outra maneira de começar este texto: o gigante despertou!

A esperança parece ter rompido o casulo em que estava adormecida e ganhou as ruas, as praças, as avenidas. A onda vermelha, agora mesclada ao verde e amarelo que voltamos a reivindicar como nosso, deixou os espaços fechados dos comitês eleitorais e diretórios partidários para encontrar gente de verdade. Sem ar-condicionado, sem grandes estruturas. Um megafone a bateria, um palco improvisado sobre uma caminhonete, muita disposição e um propósito: salvar o Brasil.

Fazia tempo que eu não encontrava tantos jovens reunidos em manifestações de rua. E foi impossível não voltar os olhos para a história. Lembrei das passeatas de resistência à ditadura militar, nos anos 1960; da reorganização do movimento estudantil e da luta pela redemocratização, na década de 1970; das Diretas Já, nos anos 1980; dos caras-pintadas que, em 1992, ajudaram a escrever o capítulo do impeachment de Fernando Collor.

A juventude brasileira tem uma longa história de enfrentamento. E a Bahia guarda um capítulo especial dessa trajetória: foi em Salvador, em 1979, que milhares de estudantes se reuniram para reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE), depois de anos de clandestinidade e repressão.

Nas décadas seguintes, os estudantes não abandonaram as ruas. A Revolta do Buzu, em 2003, paralisou Salvador e mostrou a força de uma geração que se recusava a aceitar passivamente o aumento das tarifas de ônibus. Vieram outras mobilizações, por transporte, educação, direitos e melhores condições de ensino. Mas havia tempo que eu não presenciava, tão de perto, uma juventude mobilizada em torno de uma questão que ultrapassa suas reivindicações específicas: o futuro da democracia.

E foi essa juventude que reencontrei nas ruas de Salvador neste fim de semana.

Ontem, domingo (11), caminhei de Piatã a Itapuã. Hoje, feriado de Nossa Senhora Aparecida, (12), do Morro do Cristo ao Farol da Barra. Participei das duas manifestações convocadas pelo movimento estudantil. E voltei para casa com um sentimento que andava escasso: esperança.

Não era apenas a quantidade de jovens. Era a disposição, a energia, a maneira como ocupavam as ruas. Meninos e meninas puxavam palavras de ordem, cantavam refrões, erguiam cartazes escritos à mão. Havia entusiasmo, mas havia também consciência da gravidade do momento. As ameaças à educação continuam presentes, mas a preocupação daqueles jovens vai além das salas de aula, dos laboratórios, das universidades. O que está em jogo é o direito de continuar vivendo em uma democracia.

Confesso que me emocionei.

Durante muito tempo, acostumei-me a encontrar nas manifestações pela democracia rostos conhecidos, cabelos brancos, companheiros de uma geração que aprendeu, muitas vezes da maneira mais dolorosa, o preço da liberdade. Continuamos lá. Mas, desta vez, éramos nós que acompanhávamos a garotada. Eles eram maioria. Eram eles que davam o tom, puxavam os cantos, conduziam a manifestação.

E que alívio perceber isso!

Afinal, nenhuma geração pode carregar sozinha a responsabilidade de defender a democracia. Nós fizemos a nossa parte, com erros e acertos, conquistas e derrotas. Agora, ver tantos jovens assumindo essa luta é perceber que a memória não se perdeu, que a resistência encontrou novas vozes e que o futuro ainda pode ser construído.

Não sei o que virá das urnas. Ninguém sabe. Mas sei o que vi nas ruas de Salvador. E o que vi me devolveu uma esperança que o medo e a incerteza vinham consumindo.

A Bahia, berço do Brasil, está mandando um recado. Não apenas para o país, mas para quem, em qualquer lugar, ainda acredita que a democracia pode ser tratada como algo descartável.

Aqui há gente disposta a defendê-la. E há uma nova geração que não parece inclinada a entregar, sem luta, as liberdades que tantas outras ajudaram a conquistar.

Saí daquelas manifestações com o coração mais leve. A ameaça não desapareceu. O perigo continua à nossa frente. Mas já não enxergo apenas sombras.

Há uma juventude nas ruas. Há esperança.

E, se depender da Bahia, a democracia não ficará sem defesa. Foi esse o recado que ouvi nas vozes de meninas e meninos que fizeram ecoar, tantas vezes, uma palavra de ordem que resume o espírito dessas manifestações:

“Aqui é Bahia. E na Bahia, fascista não se cria!”





As ruas estão falando. Por que a grande imprensa parece não ouvir?

Foto: site Brasil de Fato

 Por Joana D’Arck


Há alguma coisa acontecendo nas ruas do Brasil que parece não encontrar o mesmo espaço nas manchetes dos grandes jornais e nos principais telejornais. Enquanto as redes sociais transbordam de imagens, vídeos e relatos de manifestações em apoio à reeleição do presidente Lula, a cobertura de boa parte da imprensa tradicional parece caminhar em outro ritmo.


E não estamos falando de pequenos encontros de militantes partidários. Estamos falando de multidões, de manifestações em diferentes capitais, de estudantes que saem das salas de aula dos colégios, universidades e institutos federais e ocupam praças e avenidas. Uma movimentação que ganhou força depois do primeiro turno e trouxe para o centro da campanha um personagem especialmente importante: a juventude.


É justamente essa presença dos jovens que mais me chama a atenção.


Uma geração que muitas vezes é apontada como desinteressada da política aparece agora organizando manifestações, produzindo conteúdos, mobilizando colegas e transformando as redes sociais em espaços de articulação. São estudantes, artistas, coletivos culturais e até comunidades de fãs que descobriram novas maneiras de participar do debate eleitoral.


Na última semana, manifestações estudantis aconteceram em diversos estados, convocadas pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e por outros movimentos. No Rio de Janeiro, milhares de estudantes e trabalhadores caminharam da Candelária até a Cinelândia. Em São Paulo, Brasília, Salvador, Recife e outras cidades, atos semelhantes colocaram em discussão a defesa da educação pública, os direitos sociais e o futuro do país. Essa ebulição está tomando o país todo. Até em cidades médias e pequenas do interior também estão seguindo onda vermelha, como Vitória da Conquista, Irecê e Cícero Dantas, na Bahia, entre outras dos diversos estados.a



Mas foi neste domingo, 11 de outubro, que a Avenida Paulista ofereceu uma imagem impossível de ignorar.


Uma multidão tomou a principal avenida de São Paulo durante a Marcha pela Democracia, reunindo jovens, trabalhadores, artistas, movimentos sociais e apoiadores de Lula. A extensão da manifestação foi descrita de maneiras diferentes pelos veículos de comunicação, mas todos os registros confirmaram uma grande concentração popular.


A GloboNews também noticiou a manifestação e reconheceu que vários quarteirões estavam ocupados. Nas redes sociais, porém, multiplicaram-se críticas à escolha de imagens fechadas, que não permitiam visualizar toda a dimensão do ato.


E aqui cabe uma pergunta: por que manifestações dessa natureza não recebem, desde o início, uma cobertura proporcional à sua relevância política?


Não se trata de exigir que a imprensa faça campanha para Lula ou para qualquer outro candidato. Trata-se de cobrar aquilo que deveria ser a essência do jornalismo: observar a realidade, reconhecer os fatos e oferecer ao público elementos para compreender o que está acontecendo.


É verdade que veículos da grande imprensa também noticiaram essas manifestações. Mas noticiar um acontecimento não é necessariamente dar a ele a visibilidade, a contextualização e a continuidade que sua importância exige.


As redes sociais, com todos os seus problemas, suas distorções e seus riscos de desinformação, vêm cumprindo um papel decisivo na circulação dessas imagens. O que antes poderia ficar restrito à cobertura de uma emissora ou à página de um jornal hoje se espalha por milhares de celulares.


Quem estava na Paulista mostrou a Paulista. Quem participou dos atos estudantis compartilhou suas imagens. E quem acompanha essa movimentação percebe uma efervescência política que nem sempre encontra correspondência no noticiário tradicional.


Como jornalista, não consigo olhar para esse contraste sem preocupação. A imprensa não pode selecionar a realidade apenas pelo que considera conveniente destacar. Seu compromisso deve ser com a informação, com a pluralidade e com o direito da sociedade de conhecer os acontecimentos relevantes.


Também não posso deixar de olhar para essa juventude sem recordar outros momentos da nossa história. Vivi os anos da ditadura militar, acompanhei a luta pela redemocratização e sei o significado que as ruas podem adquirir quando diferentes gerações decidem participar da vida política.


Não estou dizendo que os tempos sejam iguais. Não são. Mas há algo que atravessa as gerações: a capacidade de transformar inquietação em participação coletiva.


O segundo turno ainda está em disputa. As manifestações não antecipam o resultado das urnas, assim como as imagens que circulam nas redes não substituem pesquisas, apuração e análise jornalística. Mas revelam um fato político que merece ser observado com atenção.


Afinal, o jornalismo não existe apenas para registrar o que acontece nos gabinetes, nas pesquisas eleitorais ou nas declarações dos candidatos.


Existe também para ouvir as ruas.


E as ruas, neste momento, têm muito a dizer.







sábado, 10 de outubro de 2026

Mariluce Moura: Semeando vento



  Texto: Mariluce Moura (jornalista e pesquisadora em Comunicação)
                           
André Singer lavra no solo da ciência política para investigar a onda reacionária que assola o Brasil

Impasse: o Brasil diante da onda reacionária – André Singer. 


É eloquente para os dias que correm, ainda que originalmente esteja numa obra de 1852, a epígrafe de Impasse: o Brasil diante da onda reacionária, livro recém-lançado do respeitado cientista político André Singer, professor da Universidade de São Paulo (USP). O que diz? “A escória da sociedade acaba por formar a falange sagrada da ordem” (Karl Marx, O 18 de brumário de Luís Bonaparte).

Já as primeiras e incisivas linhas da introdução do ensaio, sob o título “Uma sombra universal” (p. 11), em seguida dão pistas de que a derrota sofrida pela democracia em nosso país, no domingo, 4 de outubro, não se tornará inteligível sem uma compreensão do atual contexto internacional. “A segunda chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos projetou uma sombra sobre o tempo presente”, começa.  

Adiante (p. 12), Singer observa que “em maio de 2025, o sociólogo Michael Löwy diagnosticou uma ‘virada histórica’, e ele mesmo interroga: “passo para a Internacional Marrom [referência às camisas caqui das AS nazistas] chegar ao poder? Impulso para a autocratização, observada em lugares tão diversos quanto Hungria, Índia, Rússia, Tunísia e Turquia, países classificados como ‘autocracias eleitorais’ pelo [Instituto] V-Dem? Tendência a um tipo desconhecido de dominação?” São hipóteses que formula, relata, para “enxergar o sentido do que está ocorrendo” enquanto “as trevas se avolumam”.

Outras hipóteses emergem de autores ligados às ciências sociais e especialmente à ciência política no esforço para dissipar essas trevas. Por exemplo, estaria em curso no país, na visão de Miguel Lago, cientista político, professor da Universidade Princeton, uma “revolução da extrema direita”. Ora, o termo revolução é associado, pelo menos desde o século XIX, ao pensamento de esquerda, pressupõe como base material a luta de classes, e uma delas — os trabalhadores — carregando a condição de portadora da mudança profunda na sociedade em benefício da maioria. Daí alguma surpresa de seu uso para um movimento de extrema direita.

 Lago explicava sua hipótese nesse nervoso domingo em entrevista ao vivo para o “Fórum de Teresina”, programa da revista Piauí, durante a cobertura da apuração dos resultados eleitorais. Há pelo menos oito anos, dizia, esse processo revolucionário está em curso, enquanto a imprensa e a mídia digital fingem que está tudo normal, o governo Lula, desde 2023, tem atuado como um governo de tempos normais, e nenhum segmento do poder incorporou um comportamento contrarrevolucionário, o único eficaz para enfrentar uma revolução, segundo ele.  

A transformação radical vem se dando com a mudança da elite política e com a transição religiosa, cultural — com a proeminência de matrizes norte-americanas — e da economia no país, em sua análise. O problema é que tal revolução não teria uma base material, seria “transclasse social”, e estaria mais ligada a poder individual, ou seja, à possibilidade de “qualquer pessoa exercer sua força sem medo” – em outros termos, haveria sempre alguém sobre quem um indivíduo pode exercer seu poder. Não só parece, como é assustador.

Reacionarismo desde o solo

De volta à onda reacionária que varre o mundo, e não revolucionária, na mirada de André Singer, “condições específicas merecem atenção” na periferia do capitalismo E ele a dispensa criteriosamente aos comportamentos e movimentos no cenário político brasileiro que visam inverter, desde 2015, “a tendência para a democratização e maior nivelamento de status”. Em suas palavras algo irônicas, “Lava Jato, impeachment de Dilma Rousseff e Bolsonaro nos transformaram em campo de provas do Sul global. Sendo os mais parecidos com os Estados Unidos, embora americanos e brasileiros relutem em aceitar, testamos a portabilidade de modelo trumpista” (p. 13).

Singer escreveu o livro ao longo de 2025, e constata que até ali a “insurgência conservadora” não conseguira remover a Constituição de 1988. Mas flagra um semipresidencialismo de tocaia, dado o controle de 60% da câmara e do senado pela direita. Concede ao Supremo Tribunal Federal, com a condenação de Bolsonaro, o lugar de barricada da democracia, apesar de seus deslizes, mas entende que “a sentença não pode conter o reacionarismo que emerge de baixo para cima, isto é, do solo da sociedade para a altura das instituições”.

Em seu esforço para ver com nitidez o cenário político brasileiro da última década e captar a dimensão das sombras que se projetam para o futuro, André Singer — bem ancorado, entre outros pilares, no seu profundo e original diagnóstico do sistema partidário brasileiro, detalhado em O lulismo em crise, livro de 2018 que desenha a persistência sob diferentes siglas, desde 1945, de um partido da classe média, um partido popular e um partido do interior —, divide seu novo livro em três capítulos. No primeiro, “A viravolta reacionária”, examina as condições para a emergência forte da extrema direita e de Jair Bolsonaro, eleito em 2018, na cena política, depois de uma calmaria prolongada, marcada pela submersão dos mais reacionários entre 1994 e 2014.

“Afinal, o que moveu a placa submersa?”, André Singer pergunta. “Refeitos do choque, os especialistas saíram em busca de explicações, armando um interessante painel. Nele, saltam à vista as bases ligadas ao pentecostalismo. ‘Quem fez, de fato, a diferença a favor de Bolsonaro em números absolutos foram os evangélicos’, resumiu o antropólogo Ronaldo de Almeida, observando que cerca de 70% deles votaram no extremista (o que, grosso modo, se manteve em 2022)”.

No segundo capítulo, “O equilíbrio entre Confederação e Concertación”, debruça-se sobre um volume considerável de dados empíricos para extrair uma nova compreensão dos arranjos conservadores capazes de reunir representantes de segmentos tão díspares quanto o agronegócio e o trabalho urbano precarizado numa frente política comum, a Confederação, por um lado e, por outro, elaborar uma visão da conciliação capitaneada pelo presidente Lula entre atores com interesses conflitantes para conseguir efetivamente governar, a Concertación.

 No terceiro capítulo, cujo título, “Marvada carne”, remete ao divertido filme de 1985 de André Klotzel, mesmo retirado o artigo definido, André Singer examina o governo Lula ainda em curso, as frustrações populares decorrentes de dificuldades econômicas e financeiras, a despeito de bons resultados nesse campo e dos consistentes avanços nas políticas sociais, após a destruição absurda dos anos Bolsonaro [Vale lembrar as 700 mil mortes pela pandemia da covid – ou 2 milhões, segundo algumas revisões — das quais, 400 mil poderiam ter sido evitadas com políticas públicas responsáveis e sem o negacionismo capitaneado pelo então presidente da República, o retorno do Brasil ao mapa mundial da fome e as cenas revoltantes das filas gigantes de pessoas em frente a caminhões de frigoríficos, disputando ossos bovinos, na falta de comida a que estavam submetidas]. Mesmo sendo tão outro o cenário a partir de 2023, o solo ia sendo adubado para uma nova expansão do reacionarismo capitaneado pela extrema direita “O custo de vida, em particular dos alimentos, esgotava a renda do trabalhador que continuava sem consumir a picanha e a cerveja prometidas” (p. 87).

 A conclusão do livro de Singer carrega o título “Viés fascista”, que começa dizendo que “sintonizado com a hora do mundo, o Brasil observou uma onda reacionária transformar a política nos últimos dez anos”, e termina deixando uma abertura para a ação de uma esquerda independente em prol da preservação da democracia.

“O desenho de uma política econômica que implique valorização integral do salário mínimo, retirada dos benefícios previdenciários e dos pisos constitucionais do RFS [Regime Fiscal Sustentável], abrindo caminho para rever o próprio arcabouço, mecanismos de controle de preços, queda dos juros e controle cambial, é tarefa de uma esquerda independente, sem deixar a frente democrática”.  Defensores do socialismo dificilmente podem concordar com isso, mas Singer acredita que é justamente essa “a melhor contribuição que ela [a esquerda independente] pode dar para a preservação da democracia”.

Por fim, em qualquer cenário que se desdobre à frente para o mundo após a ordem que vigiu desde o fim da II Guerra até recentemente, para Singer, “o impasse causado pela privatização do público só poderá ser superado pela democratização do privado. A alternativa será assistir à expansão do viés fascista” (p. 130).

É boa leitura para os próximos dias, até 25 de outubro, em momentos alternados com o corpo-a-corpo com possíveis eleitores em favor da democracia.  


Sobre a autora: Jornalista e pesquisadora baiana, é diretora-presidente do Instituto Ciência na Rua, dedicado à divulgação científica para o público jovem. Integra também equipes de pesquisa do INCT Combate à Fome e do Centro de Estudos Sou_Ciência, vinculado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi professora titular da FACOM-UFBA.

   

 

 

 


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Isabel Santos: "Voto no 13, pela democracia e pelo bem do povo!"


 
Texto: Isabel Santos (jornalista, dirigente do Sinjorba e ABI-BA)



Apesar de amar Lula de coração, no próximo dia 25 não irei às urnas por ele nem pelo PT, mas, sim, pelo meu, seu, nosso povo brasileiro.

Irei votar pela manutenção da democracia; pela garantia de todos os direitos da população; pelo respeito a todos os programas sociais que têm contribuído para uma vida mais digna dos brasileiros com menos condições econômicas e financeiras.

Irei votar pelo bem dos jovens das classes sociais menos favorecidas, que hoje conseguem frequentar escolas e faculdades para obter o diploma da profissão que desejarem, incluindo Medicina e Diplomacia — algo que antes parecia tão distante de seus sonhos.

Irei votar pela permanência das políticas afirmativas que resgatam oportunidades e garantem às mulheres, aos negros, aos indígenas e às pessoas LGBTQI+ o direito de viver com dignidade, sem serem vítimas de racismo, preconceito, discriminação e tantas outras formas de violência.

Irei votar porque não desejo a volta da ditadura (Nunca Mais!); porque quero que meu país continue soberano, sem a interferência de governos estrangeiros. O Brasil não tem suas veias abertas para serem sugadas por nenhum Trump da vida.

Irei votar pelo bem dos meus filhos e netos. Dos meus sobrinhos biológicos e dos sobrinhos do coração — filhos de amigas e amigos, colegas de profissão, vizinhos... Eles não merecem conhecer um país diferente deste, que, aos trancos e barrancos, tem acertado o passo na direção do respeito, das políticas afirmativas, do diálogo, da luta contra a corrupção e do cuidado com os mais vulneráveis.

Irei votar porque, no Brasil, existem o Bolsa Família, o Pé-de-Meia, a Farmácia Popular, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, o Bolsa Atleta, o Luz para Todos, o SUS para o povo, o Mais Médicos, o imposto zero na cesta básica, o Desenrola Brasil, por meio do qual milhares de brasileiros negociaram suas dívidas, o salário mínimo com aumento real, o apoio à agricultura familiar, o Minha Casa, Minha Vida, as universidades e dos institutos federais que vêm sendo implantados por todo o país..., além de outros programas sociais.

Quero ver o nosso Brasil sendo respeitado por outras nações e continuar tendo um governo elogiado por grandes líderes, simplesmente porque possui um estadista à frente do país, um “CARA” para quem tapetes vermelhos têm sido estendidos mundo afora para que ele passe.

Então, por tudo isso e muito mais, meu VOTO é no 13, sem pestanejar.

E você, que se absteve no primeiro turno, fará o mesmo, não tenho dúvida nenhuma. Assim como você, que, de modo equivocado, apertou o número do outro candidato.

Vamos lá, às urnas, votar pela DEMOCRACIA e pelo BEM DO POVO!

domingo, 4 de outubro de 2026

Rafael Marconi: O governo de ACM Neto resumido em uma imagem


Foto de Rafael Marconi, feita na manhã deste domingo (4) de eleição, no bairro de Praia do Flamengo, em Salvador.

Dispensa legenda


sábado, 3 de outubro de 2026

Jaciara Santos: O futuro na ponta dos dedos



Jaciara Santos (jornalista, diretora da ABI-BA e do Sinjorba) 


Em meio à alegria de ver neste sábado a onda vermelha tomar conta de dois shoppings populares de Salvador — Center Lapa e Piedade —, uma pontinha de tristeza se misturou àquele momento de celebração.

Uma jovem negra, trabalhadora de um pequeno comércio, declarou seu voto no candidato do PL, acompanhando a escolha com os dedos e fazendo comentários depreciativos à candidatura de Lula.

Antes de qualquer coisa, uma ressalva: em uma democracia, a divergência política é saudável. A livre escolha é um direito assegurado pela Constituição. Não há por que questionar alguém simplesmente porque faz uma opção diferente da minha.

Mas aquela cena me deixou pensando.

Será que aquela menina conhece, de fato, o candidato em quem vai votar? Conhece sua história, suas posições, suas propostas e sua atuação política? Ou seu voto é movido apenas pela rejeição a Lula, por antipatia pessoal ou por informações que recebeu sem se preocupar em verificar?

Não sei. E seria injusto presumir as respostas.

Mas sei que o desconhecimento político pode ter um preço. E pode ser alto.

Aquela jovem estava trabalhando num sábado. Cumpria uma rotina que ainda faz parte da realidade de milhões de brasileiros: a escala 6x1, seis dias de trabalho para um de descanso. O governo Lula assumiu, em sua mensagem ao Congresso para 2026, o compromisso de buscar o fim dessa escala, sem redução de salário. Mas ela vota em quem é contra essa proposta.

E há outra coisa que me intriga. Flávio Bolsonaro carrega um sobrenome que, para muitos eleitores, parece ser razão suficiente para a escolha. Então me pergunto: quantos dos que dizem votar nele conhecem sua atuação política? E quantos estão, na verdade, escolhendo a continuidade do projeto de necropolítica de seu pai?

É disso que estou falando. Não de concordar comigo. Não de votar como eu voto. De saber em quem se está votando.

Porque democracia não é apenas o direito de apertar os números na urna eletrônica. É também o direito de fazer uma escolha consciente, informada e livre.

Neste sábado, enquanto percorríamos o shopping embalados pelo “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, sob os acordes do trompete de Normando, a jovem continuava trabalhando e exibia os dedos em sinal de sua escolha.

Não me incomodou que ela escolhesse diferente de mim. 

O que me inquietou foi imaginar quantos jovens podem estar chegando às urnas sem conhecer suficientemente aquilo — e aqueles — que estão escolhendo. 

A democracia pode sobreviver à divergência. O que a enfraquece é a escolha feita sem conhecimento, sem memória, sem informação. 

O futuro está também nos dedos dessa meninada. Neste domingo, serão eles a apertar os números da urna eletrônica. E, junto com cada escolha, estará em jogo algo maior do que a vitória de um candidato: a democracia que recebemos depois de tanta luta. 

Foi isso que pensei neste sábado, enquanto a música celebrava uma escolha e os dedos daquela menina anunciavam outra.

Depois de tudo o que vivemos, depois de tudo o que lutamos para recuperar, haverá futuro?



quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Jaciara Santos: A sombra de 1964


                                                                                                                                                                   Jaciara Santos é jornalista, diretora da ABI-BA e do Sinjorba


Em 1964, quando a noite caiu sobre o Brasil, eu tinha oito anos. Completaria nove em setembro, quase seis meses depois. Minha família era apolítica, mas a política entrou em nossa casa sem pedir licença.

Meu pai era operário da Petrobras. Depois do golpe, viu colegas de trabalho serem perseguidos e perdeu amigos — alguns afastados, outros separados pela desconfiança. A empresa, como documentou décadas depois a Comissão Nacional da Verdade, tornou-se um dos espaços de vigilância e repressão do novo regime: entre abril e outubro de 1964, foram instaurados cerca de 1.500 processos de investigação de funcionários, e 516 trabalhadores foram demitidos.

Não havia discussões políticas em casa. Os efeitos do golpe, entretanto, chegaram ao nosso cotidiano. Vieram os apertos financeiros. O salário de meu pai, acrescido de algumas gratificações, nos proporcionava uma vida confortável. Depois da intervenção militar, houve cortes e ajustes. Lembro de meus pais conversando sobre a necessidade de reduzir gastos porque, diziam eles, “a revolução” havia mexido na remuneração dos petroleiros.

Não tenho hoje um documento que me permita dizer exatamente qual parcela dos ganhos de meu pai foi reduzida. Mas sei que a sensação de aperto que marcou minha infância não nasceu do nada.

Foi um choque. Mudamos de bairro. Saímos de uma casa arrumadinha, de frente de rua, no IAPI, para uma tapera em ruínas, numa rua sem calçamento e com esgoto a céu aberto, na Capelinha de São Caetano. A insegurança rondava a família. Meu pai temia o desemprego e procurava garantir ao menos um teto para acomodar a filharada — entre 1964 e 1967, a prole dobrou: éramos três; passamos a ser seis.

Foram anos difíceis. Eu não acompanhava a política, mas sentia seus efeitos. Passei pelo ensino médio sem qualquer militância. Cheguei à universidade ainda sem engajamento político, mas já consciente de que alguma coisa muito grave acontecia no país.

Em 1978, quando comecei a trabalhar no Jornal da Bahia, comecei também a compreender o que, até então, eu só havia vivido. A palavra que ouvira desde criança — “revolução” — ganhou outro nome: golpe. E o jornalismo me revelou aquilo que a menina de oito anos não tinha como saber: o cerceamento das liberdades, a repressão, as prisões, a tortura, os mortos e desaparecidos.

Foram mais de 20 anos até que aquela longa noite começasse a terminar. A redemocratização devolveu ao país direitos e liberdades que haviam sido suspensos, e a Constituição de 1988 consolidou a nova ordem democrática. Promulgada em 5 de outubro daquele ano, a Carta definiu o Brasil como Estado Democrático de Direito e estabeleceu, entre seus fundamentos, a soberania e a cidadania.

Mais de seis décadas depois, olho para o Brasil e reconheço sinais que me inquietam. Não porque a história se repita exatamente — ela nunca se repete —, mas porque a democracia não é uma conquista que possa ser tratada como definitiva.

Quando a noite caiu sobre o país, eu tinha oito anos. Hoje, aos 71, tenho uma neta de nove anos — praticamente a idade que eu tinha quando tudo começou.

“É por ela, pelos meus outros três netos, por minha filha, por meu filho, por sobrinhos e sobrinhas que sinto o coração apertado diante do cenário que vivemos.

Eu sei o que significa crescer sem compreender inteiramente o que acontece ao redor e, ainda assim, perceber que alguma coisa mudou dentro de casa.

Foram 21 anos de ditadura. Minha geração atravessou aquela noite para recuperar a democracia. Não quero que meus filhos e netos precisem descobrir, como eu descobri, o preço de perdê-la.

Lika Estrêla: "Estou olhando para um homem e, através dele, vendo minha avó"


Lika Estrêla é estudante de Direito, presidente do CARB/UFBA

Companheiros e companheiras,

eu acho que essa foto conseguiu registrar uma coisa que eu ainda não sei dizer sem que alguma parte de mim aperte.

Porque tem momentos em que a gente não está só olhando.

A gente está tentando guardar.

Guardar a luz, o barulho, a voz, o rosto, a multidão, o segundo exato antes que ele vire lembrança.

E acho que foi exatamente isso que aconteceu comigo ali.

Eu estava olhando para o meu velhinho de barba branca e tentando guardar aquele instante inteiro dentro do peito.

Porque eu sei que vai passar.

E essa é a parte que me desmonta.

É a última eleição de Lula. 

Eu escrevo isso e ainda parece uma frase estranha.

A última.

Meu Deus.

Caralho.

A última.

Talvez porque eu nunca tenha vivido um Brasil em que Lula não existisse, de alguma forma, no centro da nossa memória política.

Eu nasci em 2004.

Lula já era presidente quando eu cheguei aqui.

E desde que aprendi a reconhecer o mundo, o nome dele já estava nas conversas de casa, nos almoços de domingo, na televisão ligada, nas histórias dos mais velhos, naquele “foi no tempo de Lula” que parece pontuar metade das memórias de uma família nordestina.

Na vida real, a História não vem organizada em capítulo, rodapé e bibliografia.

A História tem cheiro.

Tem barulho.

Tem vontade.

Tem voz de vó.

Tem jingle que a gente sabe contra a própria vontade.

Tem bandeira.

Tem discussão no almoço de domingo.

Tem gente chorando na rua.

E tem uma menina de 22 anos olhando para um senhor de 80 e poucos como se estivesse tentando impedir o tempo de correr por alguns segundos.

Foi isso.

Eu estava tentando guardar.

Porque eu sei que vai passar.

E porque eu também sei que, se a gente não tiver cuidado com a História e com o tempo, um Brasil sem Lula pode significar coisas muito diferentes.

Não porque um país possa ou deva depender para sempre de um homem.

Mas porque uma geração que não conhece sua própria história corre o risco de achar que tudo aquilo que recebeu sempre esteve ali.

E não esteve.

Quem tem memória lembra.

Lembra de onde a gente veio.

Lembra da primeira pessoa da família que conseguiu comprar uma casa.

Do primeiro carro.

Da geladeira nova.

Da televisão que deixou de ser sonho.

Do filho que entrou numa universidade quando universidade parecia uma coisa que acontecia na vida dos outros.

Lembra de um Instituto Federal chegando mais perto.

Lembra de uma universidade pública abrindo campus, aumentando vagas, entrando em cidades onde antes o ensino superior federal simplesmente não chegava.

Entre 2003 e 2010, foram criadas 14 novas universidades federais e mais de 100 novos campi; a oferta de vagas nas federais praticamente dobrou, e a rede federal de educação profissional também cresceu fortemente.

Só que eu não consigo olhar para esses números como números.

Porque eu estou no meio deles.

Eu sou uma mulher negra, nordestina, que começou a trabalhar aos 12 anos.

Sou filha de professora.

Neta de baiana de acarajé.

Sou egressa de Instituto Federal.

Hoje estudo Direito numa Universidade Federal.

Então, quando alguém me fala de expansão da educação pública, eu não penso primeiro em estatística.

Eu penso em mim.

Penso no Instituto Federal que eu estudei.

Na universidade que hoje virou minha casa.

Penso em tantas meninas que passaram a imaginar futuros que, durante muito tempo, pareceram grandes demais para gente como nós.

E talvez uma das maiores transformações de um país aconteça justamente aí:

quando uma criança deixa de pensar “será que um dia eu posso?”

e passa a pensar

“quando eu chegar lá.”

Isso muda tudo. 

Muda até a gramática do sonho.

E talvez por isso, olhando para Lula, eu tenha pensado tanto na minha avó.

Em quantas vezes ouvi:

“Minha filha, foi Lula quem mudou isso.”

“Minha filha, eu só vou sair de casa para votar porque é Lula.”

E acho que muita gente no Nordeste sabe exatamente do que eu estou falando.

Não porque o Nordeste deva gratidão eterna a presidente nenhum.

Nosso voto nunca foi favor pago.

Nossa dignidade nunca foi presente.

Mas quem tem memória lembra. 

E memória também é uma forma de justiça.

Minha avó talvez nunca tenha usado a expressão “política pública”.

Talvez nunca tenha sentado para analisar índice econômico, expansão universitária ou programa federal.

Mas ela sabia dizer o que tinha mudado dentro da vida dela.

E isso, para mim, vale muito. 

Porque política só vira História de verdade quando atravessa a porta da nossa casa.

Quando muda o que tem dentro da geladeira.

Quando muda o endereço de uma escola.

Quando muda a expectativa de uma mãe sobre o futuro de um filho.

Quando muda até aquilo que uma família acha que tem direito de desejar.

E eu sei também como é quando a política entra pela porta de um jeito diferente.

Eu lembro de 2018.

Lembro da fila do osso.

Lembro de um país atravessando uma pandemia que deixou mais de 700 mil mortos.

Lembro do medo de colocar o pé para fora de casa. 

Lembro do medo de perder minha avó.

Do medo de perder o amor da minha vida.

Do medo de perder cedo demais a menina dos meus olhos.

Lembro de perceber, ainda muito nova, que decisão política não mora somente em Brasília.

Ela entra na nossa casa.

Ela chega na nossa mesa.

Ela pode tirar a comida de uma família.

E pode deixar uma cadeira vazia para sempre. 

Talvez por isso eu leve tão a sério essa coisa de memória.

Porque eu não quero esquecer.

Não quero esquecer o que foi conquistado.

E também não quero esquecer o que a gente viveu quando certas coisas começaram a desmoronar. 

E é por isso que eu estou aqui.

Não só por mim.

Estou pelas próximas gerações.

Porque eu não quero que elas conheçam um Brasil em que universidade volte a ser privilégio.

Em que comida seja luxo. 

Em que uma menina negra, filha de professora e neta de baiana de acarajé, olhe para determinados sonhos e pense que eles são grandes demais para ela.

Não quero que elas precisem descobrir novamente, pela dor, coisas que a História já ensinou.

Talvez seja por isso que, naquela foto, eu esteja olhando daquele jeito.

Porque eu não estou vendo apenas Lula.

Estou olhando para um homem e, através dele, vendo minha avó.

Minha mãe.

A menina que eu fui. 

O Instituto Federal onde estudei.

A Universidade Federal que hoje se tornou minha casa.

O Nordeste.

E tanta gente que aprendeu, talvez pela primeira vez, que também tinha direito de sonhar.

E existe alguma coisa profundamente poética nisso tudo. 

Um homem que nasceu no interior de Pernambuco, que migrou ainda criança com a família em busca de sobrevivência, que não teve formação universitária, chegou à Presidência da República e governou durante um período de enorme expansão das universidades e da educação federal.

Tem história que parece metáfora.

Essa nem precisa.

Talvez por isso meu peito esteja batendo diferente.

Porque algumas eleições a gente acompanha.

Outras a gente vive.

E algumas a gente percebe, enquanto vive, que vai contar durante o resto da vida.

Daqui a muitos anos, se alguém me perguntar como foi viver a última eleição de Lula, talvez eu não lembre de cada discurso.

Talvez eu esqueça parte dos jingles, embora eu duvide muito, porque esses miseráveis entram na cabeça e nunca mais saem.

Talvez eu não lembre de toda bandeira que tremulou.

Mas eu sei que vou lembrar dessa fotografia.

E eu sei também que vou lembrar com quem eu vivi tudo isso.

Vou lembrar dos meus amigos, dos meus companheiros e companheiras, dos colegas de luta, de quem dividiu comigo o cansaço, a correria, a ansiedade, as ruas, os encontros, os abraços, os medos e a esperança.

Vou lembrar de quem esteve do meu lado quando a política deixou de ser uma coisa que a gente só estudava, comentava ou assistia pela televisão e virou uma coisa que a gente viveu com o corpo inteiro.

Vou lembrar das conversas intermináveis, das piadas no meio do caos, da gente cansada e ainda assim acreditando, da gente brigando, discordando, voltando, construindo, ocupando rua, reunião, universidade, movimento, espaço.

E acho bonito pensar que, quando esse tempo virar memória de verdade, eu não vou lembrar dele sozinha. 

Vou lembrar dos rostos.

Dos nomes.

Das mãos que seguraram as minhas.

Das pessoas que me ensinaram a permanecer quando era mais fácil desistir.

Das pessoas que me lembraram que esperança também se organiza, também se reúne, também pega ônibus cedo, também perde hora de almoço, também fica rouca, também ri em hora imprópria e também aprende a continuar.

E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas de viver a História: perceber que a gente nunca vive sozinho.

Sempre tem alguém do lado.

Sempre tem uma geração inteira tentando empurrar o mundo alguns centímetros para frente.

E eu vou lembrar que eu estava ali com os meus.

Com gente que acreditou.

Com gente que lutou.

Com gente que sonhou junto. 

Com gente que, como eu, sabia que aquele momento um dia ia virar lembrança e por isso tentou vivê-lo inteiro.

Vou lembrar exatamente desse olhar.

De mim tentando guardar um segundo antes que ele virasse passado.

Porque no fundo talvez gratidão seja também isso:

não transformar ninguém em santo.

Não esquecer os erros.

Não abrir mão da crítica. 

Mas saber reconhecer quando a História tocou a nossa vida com as próprias mãos.

E eu reconheço. 

Reconheço na minha avó.

Reconheço na minha mãe.

Reconheço na minha formação. 

Reconheço no lugar que eu ocupo hoje.

Reconheço na menina que um dia fui e que talvez nem soubesse o tamanho dos caminhos que ainda poderia percorrer.

Então, companheiros e companheiras, talvez eu ainda não saiba explicar completamente o que sinto.

Só sei que tem alguma coisa de despedida.

Alguma coisa de agradecimento.

Alguma coisa de esperança.

Alguma coisa de medo.

E alguma coisa quase espiritual em assistir ao tempo passar diante dos meus olhos e poder dizer: 

eu estava aqui. 

Eu vi. 

Eu vivi. 

Eu tive memória. 

E, por alguns segundos, tentei guardar a História inteira dentro do peito.


Foto: Ricardo Stuckert