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O blog de Joana D'Arck e pilheiros

terça-feira, 3 de julho de 2012

2 de Julho: Só chorando no pé do caboclo, mas cadê o caboclo?

Hanna foi pela primeira vez assistir o desfile do 2 de Julho. Foi encorajada pelas primas para ver a maior festa cívica do estado, considerada pelos baianos como a real data da Independência do Brasil, que falaram o tempo todo da beleza do caboclo e da cabocla, do desfile das autoridades, das fachadas enfeitadas, das escolas e dos “balizos” e suas cores alegres, bandas animadas e piruetas ao longo do trajeto da Lapinha ao Terreiro de Jesus. Chegou às 9:20h na Rua São José de Cima, por onde passa o cortejo (já próximo ao Santo Antônio), horário que as primas costumam chegar e apreciar tudo.

Uma  escola que Hanna ainda viu passar
Os olhinhos da menina eram pura interrogação e decepção. “Uéé! Cadê tudo aquilo que falaram? Cadê o caboclo e a cabocla?”. As primas, que tradicionalmente se juntam no mesmo lugar onde algumas moram, ficaram desapontadas, sem saber como explicar porque tudo já havia passado: “Como, se todo ano a gente está aqui nesse horário e dá pra ver tudo”, diziam as primas. Ninguém sabia explicar. E cadê as escolas e os ”balizos?” Cadê a decoração das casas aqui da rua? E os Encorados do Pedrão, os tais vaqueiros que tradicionalmente participam da festa? Nada. Ninguém sabia direito o que estava acontecendo.

Só viu protestos. Os alunos estavam nas ruas, mas não fazendo piruetas e marchando ao som de músicas populares, de pagodes, arrocha e últimos sucessos tocados pelas tradicionais bandinhas e filarmônicas. Só os das escolas municipais compareceram, disseram as primas moradoras da Rua São José de Cima. Mas Hanna não os viu, porque o cortejo foi antecipado em uma hora, sabe-se lá por ordem de quem, ferindo uma tradição antiga da saída da Lapinha às 9:30 horas. Comentou-se mais tarde que o horário teria sido antecipado para proteger o governador de protestos dos professores grevistas. Mas eles estavam lá! E protestaram mesmo e isso faz parte da democracia, como aprendeu na escola e sempre ouviu dos pais e tios. “Então, qual é o sentido?” A menina era cheia de perguntas, ainda mais desapontada.


Taí Hanna, o principal símbolo da festa, registrado
 pelo Pilha ano passado
Fotos do Pilha- ano de 2010.
Encourados de Pedrão não vieram por falta de transporte,
segundo a imprensa
Também não viu os tais populares que desfilam fantasiados em grupos pequenos e individualmente para protestar ou para fazer graça. Pelo menos ainda deu pra ver a  engraçada “Marcha das Vadias”, engraçada até no nome, porque sempre soube que “vadia” não é coisa boa, é coisa de vagabunda e mulher da rua, mas mesmo sem saber a motivação do nome viu pelas faixas e cartazes que é protesto e afirmação dos direitos da mulher. As primas não sabiam o que dizer para convencer de que nunca o 2 de Julho foi tão fraco assim. Ficaram com aquela expressão do dono do papagaio que alardeia os dons da ave que fala e canta o hino nacional, mas que na hora da exibição pública o danado só faz curru-paco, curru-paco.  E Hanna nem teve como chorar no pé caboclo, já que o cabloco sumiu das suas vistas.

Postagens anteriores sobre o 2 de Julho
Baianos revivem luta
Anfitriã do cortejo
Até os anjos
2 de Julho, o imenso palco

4 comentários:

Anônimo disse...

Sempre participei do 2 de Julho, Hanna, e confesso: nunca vi algo parecido com o de ontem. Uma pena, justamente no seu primeiro desfile, ter acontecido algo assim. Fiquei bastante triste e decepcionada. Cheguei no mesmo horário e de movimentação mesmo só a Marcha das Vadias. Priscila (Alba)

maria augusta disse...

É triste ver a apropriação de valores que são maiores do que um partido, um grupo ou até mesmo um governo. Pra se livrar do povo se adianta o horário de uma comemoração histórica, cívica, que aconteceu nos piores anos da ditadura ?????. Simples como cancelar o seu aniversário porque está de TPM. O governador pode se cercar de quem bem entender como boa companhia. Pode também convocar todo o destacamento da PM e pedir reforço às Forças Armadas para lhe proteger. Mas mudar o horário da comemoração ao 2 de julho, NÃO. Ou pelo menos não deveria: Em respeito a todos os significados que esta data passou a ter para os baianos. Em respeito ao que sofremos, nós, militantes de esquerda quando usavamos este desfile como uma oportunidade privilegiada de gritar contra a opressão, os desmandos e o autoritarismo. Já vimos de tudo no 2 de julho. Este ano vimos o governo mudar o horário do desfile pra se ver livre do povo. Esta é a primeira vez, me parece um excesso, mas parece também que eles podem fazer ficar pior. É bom, portanto, estarmos preparados.

Mônica Bichara disse...

Só relembrando, o desfile foi antecipado tb em 2010, por causa do jogo da do Brasil na Copa do Mundo. Lembro que tava um toró, todo mundo procurando uma TV pra assistir ao jogo. E o Brasil levou ferro

Joana D'Arck disse...

Verdade Mônica. Mas a antecipação de 2010 foi divulgada, o que não parece ter acontecido agora.

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