Enrolado na baba de quiabo

E lá vem caruru. Já fui à feira comprar muito quiabo, porque a família é grande e na Sexta-feira da Paixão na casa dos meus pais não pode faltar essas comidas regadas a dendê e leite de côco, como manda a tradição baiana.

Quando eu era menina, "lá em Barbacena" ( passei a infância entre Itambé e Vitória da Conquista) sofria muito nesses dia. Na região não era muito  comum a utilização desses produtos típicos. Na minha casa, só tinha prato com dendê, leite, castanha, amendoin, camarão, cebola, gengibre... essa mistureba toda, na Sexta-feira da Paixão. Eu gostava do sabor, mas o intestino de criança desacostumado reclamava todo ano. Dia seguinte, lá estava eu com dor na barriga.

Só a partir dos 10 anos de idade, quando cheguei em Salvador e comecei a comer mais dessas iguarias é que fui me acostumando. Imagine quem é de fora o que não passa. 

Teve um amigo nosso, suiço, o saudoso Jaques Jacot (morreu precomente de infarto) que chegando à Bahia foi comer caruru numa casa, levado por um amigo, e começou a sofrer só de olhar para a cara da comida. Mas encarou a baba de quiabo rapidinho para se livrar do prato cheio que lhe entregaram. A dona da casa, ao ver que ele terminou tão rápido, entendeu que Jaques gostou  e tratou de empurrar outro prato cheio para cima do gringo. E para não fazer a desfeita, o coitado quase passou mal. Ele nunca esquecia esse episódio que marcou a sua chegada por aqui e repetia isso nas rodas de amigos, achando muita graça, porque depois que passa muita situação difícil pode virar motivo de boas gagalhadas. Ainda bem.

Comentários

abilio disse…
Ao contrário de você, sempre morei em Salvador e o uso do dendê era constante lá em casa; moqueca de peixe,carne e até de ovo. Mas, do que lembro a Semana Santa durava uma semana e era um tal de comer peixe todos os dias. O sábado, primeiro dia em que se podia comer carne demorava muito a chegar.E prá piorar havia na sexta-feira um tal de feijão de leite, que minha mãe adorava e fazia questão.Graças ao bom Deus,as moquecas e frigideiras o acompanhavam.
Joana D'Arck disse…
Apesar da raridade do dendê, era assim mesmo a Semana Santa, com peixe todos os dias. A gente rezava para chegar o sábado, quando podia comer uma carne,mas a garotada ficava em alerta, porque os que aprontavam eram jurados e de broncas, castigos e cascudos no Sábado de Aleluia. Meus pais, mesmo diziam: a gente não pode castigar na Sexta da Paixão, mas podem aguardar as contas no sábado (rsrrs). Doce infância. Tempo bom.