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Tertulianas

Na década de 80 era comum pegar um ônibus da Cristo Rei e dar um pulo em Irecê a 500 quilômetros de Salvador. Com a cara e a coragem, pouca grana, só para ver Judite, mãe de José, tomar Jatobá e Umburana de Cheiro de Bar de Pedim, na Rua Tertuliano Cambuí.
Era sempre um sufoco, tirado de letra pela juventude que ainda fartava em nós. Buzu cheio, sol cheio e um calor de brejo numa viagem de 9 horas, quase sempre em pé. Velhas gordas pra cima e pra baixo pelo estreito corredor em busca do banheiro, crianças berrando, muita bagagem tilintando, sacolejo e dores nas pernas, apesar do preparo físico.
Nada disso era impecílio. Primeiro pela expectativa de chegar ao encontro da família de José, que para nós era muito nossa. Segundo por causa do aditivo que usávamos, uma São Francisco, uma vodca com refri ou uma Jurubeba Leão do Norte. Uma não, várias durante o caminho para o sertão.
Chegar bem era uma questão de beber mais, ou menos. Ressaca só no dia seguinte após o retorno à Salvador. Tinha Tio Luiz, seresteiro que mudava de roupa de 15 em 15 minutos. Tinha Renatinho, maluco do violão. Parteira, Sócrates, Erício, Ana Célia. Maurício, Mauro, Dó, Maninha e Mé.
Como diria José, pegando o juízo desta catrevage e colocando numa galinha a galinha ciscava pra frente. Mas isto é outra história.
O fato é que Maria Creusa Rodrigues de Miranda, Quesinha, numa destas, com Lula Cara de Jegue, irmão de Bina, eu e Mauro embarcamos às 15h com chegada prevista para meia noite. Abrimos os trabalhos com uma São Francisco que não sobreviveu até Feira. A partir daí o pau quebrou.
Quesinha, a mais velha da turma, dormiu de Mundo Novo até a rodoviária de Irecê. Por volta de meia noite acordou diferente, feições estranhas. Enquanto os últimos passageiros desciam, ela bradava em voz alta contra a companhia de transporte, pois seus “dentes” haviam sumido. Ameaçando retaliação, exigiu que os prepostos da empresa “dessem conta” de sua arcada, o que motivou de imediato uma operação pente fino no ônibus.
“Não desce mais ninguém”, ameaçou. O fato : pouco antes de Mundo Novo sentindo a aproximação do sono, retirou a “chapa”, enrolou num guardanapo e colocou sobre a poltrona, para evitar um eventual engasgo com a trepidação da estrada do Feijão e pelas doses a mais. Com o sacolejo os dentes caíram sobre o assoalho e “caminharam” por baixo das poltronas até o banco da frente próximo ao motorista.
Achar o objeto uns 15 minutos depois foi um alívio, para nós, para os representantes da empresa, para ela e para Judite que sempre gostou de tudo no lugar.

Comentários

  1. Não acredito, Araka, que cê teve coragem de contar essa "desdita" da companheira Quesinha. Que sujeito! kkkkkkkkkk tava lembrando quantas risadas já demos por conta dessa história. Ir a Irecê era mesmo uma festa, ou melhor uma farra. E o São João (aniversário de Judite), que o ônibus quebrou na estrada e ficamos uma vida aguardando outro? Pauleira. Sinval, coitado, só faltou morrer de frio durante o forró e se mandou. Foi água dura. A felicidade de Judite com tanto forasteiro em casa era radiante. E é assim que temos que lembrar dela e de Mô, quer dizer de Irepinga/José. Ou, como dizia Luíza (de Bruno) e Liz, "cala-a-boca-José".

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  2. Hehehhe momentos inesquecíveis.
    Muito bom e não teria graça nenhum se a protagonista não fosse nossa gloriosa e amada Quesinha.
    Eu também estive presente nesta viagem que o busu ficou a mercê em plena BR. Apesar de tudo ter corrido sem maiores problemas relembro que o ônibus que nos resgatou fedia a merda pura.
    Tenho saudades daqueles momentos.
    Parabéns aos colaboradores do blog, e Araka, continue manda estas relíquias.
    Mas não esqueça que tu é Baêa porra, falando nisso, como esta se comportando "sua casa"(estádio de pituaçu) debaixo desta chuva?

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  3. É tudo verdade. E ainda tem outras de Quezinha com a sua prótese, que você ainda não conhece. A ultima foi na comemoração do Dia Internacional da Mulher. Ela encontrou com o deputado Zé das Virgens, tomaram todas e comeram churrasco. Voltou para casa lá pelas tantas e colocou a perereca sobre uma mesinha no quarto. Nina (sua cadelinha "in memorian"), resolveu dar uma coferida no churrasco e roeu a prótese, transformando-a em três. No dia seguinte ela me liga logo cedo para remendar a dita pois tinha compromisso. E o episodio da comemoração dos 500 anos do Brasil em Porto Seguro ??? Pergunte para ela, é muito boa !!!

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