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Das margens ao horizonte

 Joana D'Arck


#JOANAD'ARCKMEDESAFIARAMUMCONTOSOBRE



 Nas pontas dos pés e me apoiando na barra da cadeira do ônibus coletivo, tentei buscar mais alcance para avistar melhor o que se anunciava. Quase não me aguentei de espanto e encantamento quando vi despontar à minha frente aquele mundaréu de água, o que me levou a segurar firme o braço da minha mãe. Fiquei sem fôlego diante da imensidão que as minhas vistas podiam alcançar dali de dentro do ônibus, descendo a ladeira da Cardeal da Silva em direção à orla, no bairro do Rio Vermelho. Excitação e alegria se misturaram e foram crescendo à medida que nos aproximávamos de todo aquele azul profundo que ia ganhando ainda mais amplitude. Era o mar, em todo o seu esplendor.


Tinha visto muita água até aqui. Eram três rios na cidade onde nasci e cresci até esses meus 10 anos de vida, diferentes em largura, mas igualmente margeados de plantas e barrancos, que mesmo assim nos causavam medo de nos tornarmos uma das suas vítimas dos afogamentos, que vez por outra levavam crianças “teimosas” e adultos “irresponsáveis”, na falação geral da cidade. Eu e meus irmãos éramos proibidos de frequentar sozinhos, mesmo o mais estreito deles, o Santa Maria. Este parecia um córrego estreito em alguns dos seus pontos, alargando-se mais adiante, e também era o escolhido da minha mãe para os nossos raros e inesquecíveis piqueniques de domingos.


A comida era o menos importante nos domingos à beira do rio, correndo e brincando de picula, ou dentro d‘água pulando dos ombros dos maiores, batendo a água para espirrar na cara do outro, fazendo uma algazarra danada até a nossa mãe nos chamar para comer a farofa com carne de sol picadinha e tomar garapa de maracujá, ou limonada. De sobremesa tinha fatias de melancia, banana e tangerina. Descansávamos alguns minutos e a brincadeira recomeçava nas águas frescas do Santa Maria.

E foi na paz e tranquilidade do Santa Maria que se deu o inusitado, o fenômeno que ficou marcado em nossas cabecinhas infantis. Num determinado trecho, onde o rio ganha largura e profundidade e ninguém ousa brincar ou nadar, Isaurina foi bater lá. Parecia puxada, arrastada por uma força invisível e ela não oferecia qualquer resistência. Os adultos começaram a gritar por Isaurina e ela nada de dar atenção, sem sequer virar o pescoço e olhar para trás, onde todos chamavam pelo seu nome e imploravam que voltasse imediatamente.


Andando lentamente, como se estivesse flutuando na água que já ia na altura do pescoço, a nossa empregada parecia transformada numa entidade, soltando seus longos cabelos negros e ondulados que viviam presos num coque feito na altura da nuca. Disseram que ela estava “manifestada”, que Janaína a pegou e se isto aconteceu não havia mais jeito. Mas Isaurina de repente se recompôs, como que voltando de um transe. Sacudiu os braços e os longos cabelos, dando a volta no corpo para retomar a caminhada pelas águas em nossa direção.


Nossa mãe ficou assustada com aquela cena e por mais que perguntasse a Isaurina o que deu na cabeça dela para seguir na água daquele jeito e assustando todo mundo, a pobre mulher não sabia dizer, não tinha explicação. Repetia que sequer se lembrava, a não ser do seu retorno à beirada do rio, onde todos estavam reunidos e aflitos com o que lhe acontecera.


Danei a perguntar à minha mãe e aos irmãos maiores quem era Janaína e porque ela queria levar a nossa Isaurina. Quase perderam a paciência comigo, receosos de muita informação para uma pequenina que nem eu, mas não saí em vão dessa luta para matar a minha curiosidade. Falaram da sereia do rio, uma mulher-peixe, que em alguns lugares era chamada de Iara, uns diziam que era lenda, outros que era invenção de gente doida, e teve quem a definisse como uma divindade, uma espécie de santa das águas.


Avistar o mar me lembrou o temor que me incutiram para não me afogar nas águas e foi bastante temerosa que pulei a primeira ondinha, tão fraquinha e espumante que mal cobria meus pés. Mas em poucos momentos eu já rolava na beira do mar com a minha irmã, molhando o corpo em uma onda e outra que se desfazia na areia. Daí para o mergulho nas ondas foi só mais outro pulo. Já me sentia íntima das águas salgadas de Iemanjá, a mulher-peixe do mar. Contaram-me, mais uma vez para matar a minha curiosidade de menina, que a protetora dos pescadores podia ajudá-los a encher as suas embarcações de peixes, mas poderia transformar-se numa malvada e cruel encantadora que os arrastava para as profundezas do mar, se não tivesse pelo menos uma vez no ano os agrados e mimos que apreciava: perfumes, espelhos, sabonetes e adereços de vaidades femininas. Eu não entendia bem essa história, mas ficava encantada imaginando a mulher-peixe recebendo seus presentes e agrados.


Já maiorzinha, com os meus 13 anos, fui conhecer a festa de Iemanjá, realizada no dia 2 de fevereiro. Vi muitos cestos e balaios repletos de flores e presentes levados por pescadores, em suas embarcações, e também muita gente à beira da praia lançando suas oferendas. Entendi que na crença geral daquelas pessoas a mulher-peixe as protegia para além das águas do mar. Ano seguinte fui de novo. Desta vez, e de outras seguintes, sem esquecer de lançar uma flor ao mar. Odoyá!











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