sábado, 3 de outubro de 2026

Jaciara Santos: O futuro na ponta dos dedos



Jaciara Santos (jornalista, diretora da ABI-BA e do Sinjorba) 


Em meio à alegria de ver neste sábado a onda vermelha tomar conta de dois shoppings populares de Salvador — Center Lapa e Piedade —, uma pontinha de tristeza se misturou àquele momento de celebração.

Uma jovem negra, trabalhadora de um pequeno comércio, declarou seu voto no candidato do PL, acompanhando a escolha com os dedos e fazendo comentários depreciativos à candidatura de Lula.

Antes de qualquer coisa, uma ressalva: em uma democracia, a divergência política é saudável. A livre escolha é um direito assegurado pela Constituição. Não há por que questionar alguém simplesmente porque faz uma opção diferente da minha.

Mas aquela cena me deixou pensando.

Será que aquela menina conhece, de fato, o candidato em quem vai votar? Conhece sua história, suas posições, suas propostas e sua atuação política? Ou seu voto é movido apenas pela rejeição a Lula, por antipatia pessoal ou por informações que recebeu sem se preocupar em verificar?

Não sei. E seria injusto presumir as respostas.

Mas sei que o desconhecimento político pode ter um preço. E pode ser alto.

Aquela jovem estava trabalhando num sábado. Cumpria uma rotina que ainda faz parte da realidade de milhões de brasileiros: a escala 6x1, seis dias de trabalho para um de descanso. O governo Lula assumiu, em sua mensagem ao Congresso para 2026, o compromisso de buscar o fim dessa escala, sem redução de salário. Mas ela vota em quem é contra essa proposta.

E há outra coisa que me intriga. Flávio Bolsonaro carrega um sobrenome que, para muitos eleitores, parece ser razão suficiente para a escolha. Então me pergunto: quantos dos que dizem votar nele conhecem sua atuação política? E quantos estão, na verdade, escolhendo a continuidade do projeto de necropolítica de seu pai?

É disso que estou falando. Não de concordar comigo. Não de votar como eu voto. De saber em quem se está votando.

Porque democracia não é apenas o direito de apertar os números na urna eletrônica. É também o direito de fazer uma escolha consciente, informada e livre.

Neste sábado, enquanto percorríamos o shopping embalados pelo “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, sob os acordes do trompete de Normando, a jovem continuava trabalhando e exibia os dedos em sinal de sua escolha.

Não me incomodou que ela escolhesse diferente de mim. 

O que me inquietou foi imaginar quantos jovens podem estar chegando às urnas sem conhecer suficientemente aquilo — e aqueles — que estão escolhendo. 

A democracia pode sobreviver à divergência. O que a enfraquece é a escolha feita sem conhecimento, sem memória, sem informação. 

O futuro está também nos dedos dessa meninada. Neste domingo, serão eles a apertar os números da urna eletrônica. E, junto com cada escolha, estará em jogo algo maior do que a vitória de um candidato: a democracia que recebemos depois de tanta luta. 

Foi isso que pensei neste sábado, enquanto a música celebrava uma escolha e os dedos daquela menina anunciavam outra.

Depois de tudo o que vivemos, depois de tudo o que lutamos para recuperar, haverá futuro?



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