Em meio à alegria de ver neste sábado a onda vermelha tomar conta de dois shoppings populares de Salvador — Center Lapa e Piedade —, uma pontinha de tristeza se misturou àquele momento de celebração.
Uma jovem negra, trabalhadora de um
pequeno comércio, declarou seu voto no candidato do PL, acompanhando a escolha
com os dedos e fazendo comentários depreciativos à candidatura de Lula.
Antes de qualquer coisa, uma ressalva:
em uma democracia, a divergência política é saudável. A livre escolha é um
direito assegurado pela Constituição. Não há por que questionar alguém
simplesmente porque faz uma opção diferente da minha.
Mas aquela cena me deixou pensando.
Será que aquela menina conhece, de fato,
o candidato em quem vai votar? Conhece sua história, suas posições, suas
propostas e sua atuação política? Ou seu voto é movido apenas pela rejeição a
Lula, por antipatia pessoal ou por informações que recebeu sem se preocupar em
verificar?
Não sei. E seria injusto presumir as
respostas.
Mas sei que o desconhecimento político
pode ter um preço. E pode ser alto.
Aquela jovem estava trabalhando num
sábado. Cumpria uma rotina que ainda faz parte da realidade de milhões de
brasileiros: a escala 6x1, seis dias de trabalho para um de descanso. O governo
Lula assumiu, em sua mensagem ao Congresso para 2026, o compromisso de buscar o
fim dessa escala, sem redução de salário. Mas ela vota em quem é contra essa
proposta.
E há outra coisa que me intriga. Flávio
Bolsonaro carrega um sobrenome que, para muitos eleitores, parece ser razão
suficiente para a escolha. Então me pergunto: quantos dos que dizem votar nele
conhecem sua atuação política? E quantos estão, na verdade, escolhendo a
continuidade do projeto de necropolítica de seu pai?
É disso que estou falando. Não de
concordar comigo. Não de votar como eu voto. De saber em quem se está votando.
Porque democracia não é apenas o direito
de apertar os números na urna eletrônica. É também o direito de fazer uma
escolha consciente, informada e livre.
Neste sábado, enquanto percorríamos o
shopping embalados pelo “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”, sob os acordes do
trompete de Normando, a jovem continuava trabalhando e exibia os dedos em sinal
de sua escolha.
O que me inquietou foi imaginar quantos
jovens podem estar chegando às urnas sem conhecer suficientemente aquilo — e
aqueles — que estão escolhendo.
A democracia pode sobreviver à
divergência. O que a enfraquece é a escolha feita sem conhecimento, sem
memória, sem informação.
O futuro está também nos dedos dessa
meninada. Neste domingo, serão eles a apertar os números da urna eletrônica. E,
junto com cada escolha, estará em jogo algo maior do que a vitória de um
candidato: a democracia que recebemos depois de tanta luta.
Foi isso que pensei neste sábado,
enquanto a música celebrava uma escolha e os dedos daquela menina anunciavam
outra.



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