#MemóriasJornalismoEmiliano – Gabrielli e as APs

 (Foto: Manoel Porto -Paulo Xis, Gabrielli, Paulo Balanco, Antônio Olavo, Macarrão e Benito )

Essa sacudida que Emiliano José vem dando nas memórias do jornalismo baiano tem revelado é coisa. Para mim, umas das grandes surpresas foi descobrir que José Sérgio Gabrielli, uma de minhas fontes ao longo da carreira, sobretudo quando integrei as editorias de economia da Tribuna da Bahia, por um pequeno período, e do Correio da Bahia, por 11 anos, já foi jornalista. Eu o conhecia como economista, diretor da Escola de Economia da Ufba, presidente da Petrobras, político petista e secretário estadual de Planejamento. Como jornalista, nem sonhava.

 

E é justamente disto que fala esse capítulo da série #MemóriasJornalismoEmiliano, que tem Zé Sérgio como personagem central. Ou melhor, Cavalão, como era chamado pelos colegas de redação. Mais um “comunista” que encontrou espaço na Tribuna da Bahia, nos anos de 1972 e 1973, chegando a ser editor de notícias internacionais.

 

Da AP – Ação Popular, organização clandestina de combate à ditadura militar no Brasil, Gabrielli se viu às voltas com outra AP, a Associated Press, agência internacional que abastecia o noticiário sobre o mundo inteiro. Bem humorado, Cavalão não perdeu a piada nem quando o terrível representante do regime militar, o delegado Luiz Arthur de Carvalho, da PF, acostumado a prendê-lo, o fitou na redação da Tribuna e provocou:

-  “Gabrielli, como vai a AP?”

-“Dando muitas notícias”, respondeu na lata.

Não mentiu, só trocou as APs

 

****************************************

 

(Foto: Manoel Porto - Gabrielli em passeata com Zezéu e Geracina Aguiar, Bete Wagner.....)

Emiliano José

17 de julho de 2019 

Associated Press e AP

 

A máquina da AP tem é história.

Era início de noite.

Cavalão estava dedicado aos telegramas que chegavam aos borbotões.

Quem aguenta tanta notícia?

Como era barulhenta uma redação.

Dezenas de jornalistas em suas Olivettis tocando-lhe o pau, uns suavemente, outros com muita energia, a máquina da AP rebolando e cuspindo notícias, um barulho assemelhado a uma fábrica têxtil do século XIX.

E pra gente, creiam, era música.

Cada um era capaz de dar conta de suas tarefas embalado por aquela sinfonia.

Pois é... Cavalão, vocês já o conhecem, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, Cavalão estava posto em sossego lidando com as notícias do mundo e de repente um burburinho na redação.

De súbito, Luiz Arthur de Carvalho adentra a redação.

Pra quem não conhece, era o Superintendente da Polícia Federal, o que mandava prender, torturar, a porra toda.

Foi ele a me receber na sede da PF no dia 23 de novembro de 1970 já todo ensanguentado a me dizer que dali a pouco eu estaria no pau e dali a pouco pau-de-arara e o escambau.

Entra no aquário onde ficava o redator-chefe, Quintino de Carvalho, a quem certamente trazia alguma ordem de censura.

Algum tempo de conversa e, ao sair do aquário, Luiz Arthur lança um olhar panorâmico à redação, cheia naquele momento.

Fixa o olhar em Zé Sérgio - fora do âmbito jornalístico era chamado assim.

Parado, ficou assim alguns segundos olhando pra Zé Sérgio. De repente, soltou o vozeirão:

-Gabrielli, como vai a AP?

De pronto, ao tempo em que ia recolhendo os telegramas chegados da Associated Press, a resposta:

-Dando muitas notícias.

Luiz Arthur engoliu a seco.

A redação, num esforço enorme para conter o riso.

Contrafeito, tomou o elevador, se picou.

Acostumara-se a prendê-lo.

Sabia-o militante de Ação Popular - todos conheciam-na como AP, sigla também da Associated Press.

Zé Sergio podia ser preso, mas não perdia a piada.

Nesse dia, continuou seu trabalho, nada aconteceu.

Numa conta rápida, ele rememora oito prisões.

Não é brincadeira: numa ação das forças de segurança da Bahia, denominada "Operação Gaiola", destinada apenas ao treinamento dos policiais, foi preso.

Cobaia para treinamento.

Normalmente, prisões rápidas

Mas, a ditadura acaba condenando-o, e ele cumpre pena na Penitenciária "Lemos Brito".

Meu colega de Galeria F.

Éramos os dois de AP.

A organização revolucionária.

Não a Associated Press.

#MemóriasJornalismoEmiliano

-------------------------------------------------------- 

(Foto: Manoel Porto - Sérgio Guerra, José Carlos Zanetti, Emiliano José e José Sérgio Gabrielli, em 1980)

Emiliano José

18 de julho de 2019

Zé Sérgio x Nilton Cerqueira

 

José Sérgio Gabrielli de Azevedo gostava da rotina da Tribuna da Bahia.

Da rotina dele: entrava às 16, saía lá pelas altas horas da madrugada.

Havia ingressado no jornal como copy-desk.

Passou depois a editor de Internacional.

Às sextas, depois do fechamento, juntava-se a uma turma, caminhava até o Largo das Sete Portas, subiam para o Alagoano, e tome-lhe cachaça e comida, noitada de que se lembra com gosto até hoje.

Noitada, forma de expressão.

Quando começavam, o dia já clareava.

Iam terminar o rega-bofe às 12, 13 horas do sábado, único dia sem trabalho no jornal.

Normalmente, o fim era na Taba dos Orixás, célebre boteco do Vale do Canela, ponto de encontro de poetas, seresteiros, cantores, e jornalistas.

A TB não saía aos domingos.

Gostava do que fazia.

Alternava trabalho e militância na AP.

Sempre acossado pela repressão.

Uma noite, princípio de noite, é chamado ao segundo andar, diretoria.

Elmano Castro, o dono, não fora às cartas.

Queria conversar com ele.

Não devia ser coisa boa - pensou.

Desceu à sala da diretoria, aguardou um pouco na recepção, a secretária o convidou a entrar.

Elmano fez rapapés, conversou amenidades, e então foi ao que interessava.

A ditadura queria a cabeça dele.

Ninguém menos que o major Nilton Cerqueira.

Chefiava o DOI-CODI na Bahia.

Um dos mais terríveis homens da repressão no Brasil.

Vai se notabilizar por ser o assassino de Carlos Lamarca, setembro de 1971.

E por muitas outras arbitrariedades Brasil afora.

Sobre Lamarca, eu e Oldack Miranda escrevemos livro.

Está na 17ª edição.

Há filmes: o mais famoso o de Sérgio Rezende.

A conversa foi antes da morte do Capitão.

Zé Sérgio lembra até hoje do constrangimento e da emoção de Elmano.

Quase às lágrimas.

-O coronel me disse que ou lhe demito ou ele fecha o jornal.

Jogo bruto.

Ditadura.

Ué, que fazer?

Não havia saída.

Despediu-se de Elmano já pensando nos passos seguintes, na procura de algum emprego que lhe garantisse a subsistência.

Creiam: tornou-se câmera-man da TV Aratu.

O que surgiu.

Não podia se dar ao luxo de recusar...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Patrícia Valim: Jose Sergio Gabrielli de Azevedo!

Lucia Correia Lima: Me lembro. Depois foi ser diretor da facu de ECONOMIA e passou a ser nossa fonte

Lucia Correia Lima: Depois com Marquinhos fechando o jornal, foi criada uma equipe com os melhores (perdão eu estava nela) para a especial edição de domingo. A primeira foi pauta minha pois descobri com um engenheiro que a antiga rodoviária, depois de 7 Portas, estava ameaçando cair. Evitamos a tragédia! A matéria de primeira página levou a interdição

Arthur Andrade: Zé Sergio PhD em Economia pela Universidade de Boston... prof titular da Ufba..

História massa!!

Roberto Casais: Li o livro sobre Lamarca quando eu estudava no colégio. Naquela época, ninguém sabia quem o era. Impressionante como se faz para esquecer a memória de onde vive: crueldade na existência, crueldade em ser cidadão.

Emiliano José: Roberto Casais Lamarca até hoje roda por aí.

Roberto Casais: Emiliano José, isso mesmo?

Emiliano José: O livro.

Samuel Aarão Reis: se quiser demitir, demite, pô! mas não precisa derramar lágrimas no meu ombro, não.....

-------------------------------------------------- 

(Foto: Miltinho Mendes)

Emiliano José

19 de julho de 2019 

Zé Sérgio x Nilton Cerqueira II

 

Zé Sérgio havia andado atrás de emprego, correu muito trecho depois de ser demitido da Tribuna.

Precisava muito.

Até que apareceu o de câmera-man.

Está certo: sabia nada disso.

Mas quem disse que não podia aprender?

Era saber olhar, fixar o alvo, e mandar bala.

Filmar.

Aceitou.

TV Aratu.

Cedo, cedo tomava aquela tranqueira.

Botava a porra no ombro, seguia o repórter, filmava, e estava tudo bem.

Quando via a matéria no ar, gostava do que via.

Achava que a cada dia melhorava.

E sentia-se melhor depois daquela porrada do major Nilton Cerqueira.

Sensação de menos vigiado.

Não escrevia mais nada.

Só filmava.

Responsabilidade era do repórter.

Até que um dia...

Pegou o carro, seguiu com sua câmera, nem perguntou destino, que aquele dia não estava pra muita conversa.

Se o repórter disse, nem ouviu.

Carro saiu da TV Aratu, desceu em direção à Cidade Baixa.

Solenidade da Marinha - soube logo ao chegar.

Desceu.

Olhou pro palanque.

Tinha palanque.

Olhou com mais atenção.

Trocou olhar com ninguém menos do que Nilton Cerqueira.

Ele mesmo.

O olhar dele parecia de ódio ao vê-lo empunhando uma câmera.

Que porra ele queria ali, filmando-o?

Demitido da Tribuna, e agora ali?

Não, não podia ser.

Zé Sérgio gelou: estou demitido.

De novo.

Pelo mesmo filho da puta - pensou, raivoso.

Guerra é guerra.

Tem mais jeito não.

O que não tem remédio, remediado está.

Chamou o repórter.

Informou: aquele, do Exército, é o chefe da 2ª Seção do Exército.

Chefe da 2ª Seção e do DOI-CODI.

Ajeitou a câmera, concentrou-se nele um bom tempo.

Observava o olhar de ódio dele.

Amanhã é amanhã, mas hoje a bola está no meu pé.

A câmera na minha mão.

Esse gostinho tinha.

Matéria foi ao ar.

Nilton Cerqueira, no destaque.

Bom destaque, coisa que nenhum homem de segurança gosta.

Zé Sérgio, demitido.

Outra vez.

Nilton Cerqueira não saía dos seus calcanhares.

Não entendia por que...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Luiz Brasileiro Brasileiro: Baita história esta. Zé Sérgio quem diria, bom de briga.

Emiliano José: Luiz Brasileiro Brasileiro Sempre foi.

Zeca Peixoto: Que passagens fantásticas estas com Zé Sérgio!

************************************************  

(Foto de Manu Dias 1981 Fundação do PT na Bahia. Lula agachado, Edval Passos discursando)

(Foto: Manu Dias)

(Foto: Manoel Porto)

(Com o saudoso deputado Zezéu Ribeiro)

(Com Lula no ato de comemoração da descoberta do Pré-Sal pela Petrobras, na gestão de Gabrielli)



(Foto: Lúcia Correia Lima - Pelourinho com amigos) 








(Com uma das filhas) 

(Na Muralha da China)

Comentários

  1. Surpreendentemente mesmo. Também não sabia desse passado de Zé Sérgio. Só aumenta a nossa admiração por esse cabra Cavalão (rsrs) . Valeu de novo Emiliano. Você contando e fazendo e o nosso blog tendo a honra de registrar com a excelente edição e apresentação de Mônica Bichara.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Jô, o mestre Emiliano nos revelando uma nova faceta de Gabrielli que muitos desconhecem. E como cinegrafista da TV Aratu também.....texto delicioso

      Excluir
  2. Surpresa por saber desta trajetória de jornalista do querido Zé Sérgio Gabrielli! Muito interessante!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também fiquei surpresa, mesmo tendo trabalhado na Tribuna muitos anos. Essa série de Emiliano está sendo reveladora. Obrigada pelo comentário, colega

      Excluir
  3. E tem mais histórias fabulosas do Zé! Fizemos doutorado na BU em Boston, na mesma época, ele em Economia, eu, Antropologia. A bolsa da Capes, na época, era bem apertada, mal dava para pagar o aluguel. Zé vivia então com Eliza e o casal foi trabalhar na casa de uma família ricaça, que tinha moradia de graça. Eliza cozinhava e cuidava das crianças, Zé cuidava do jardim e era o motorista... Meu amigo há mais de 40 anos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Que maravilha isso....Quer dizer que além de jornalista e cinegrafista nosso grande presidente da Petrobras foi também jardineiro e motorista? Isso que é uma trajetória eclética, o q tocava ele dançava. Obrigada pela visita ao blog, Ceci

      Excluir
  4. Companheira Mônica Bichara, andei acompanhando Gabrielli numas palestras, recentemente (coisa de um, dois anos atrás), a partir de uma feita no Sindae, em Salvador, organizada por Goiano (José Donizette), Valdimiro Lustosa e Osvaldo Laranjeira (neste caso, ele e Olívio Dutra). Depois houve duas palestras em Seabra (Chapada Diamantina) e também um ato de desagravo na Reitoria da UFBa. Deve ter em torno de 10 matérias no meu Blog Evidentemente, com análises atuais de Gabrielli no âmbito de sua atuação, economia e política. Depois dos interessantes lances de sua trajetória narrados por Emiliano, valeria a pena espiar o que ele está pensando dessa conjuntura adversa na qual está atolado nosso povo. Deixo link de duas das matérias do meu Blog Evidentemente:
    https://www.blogger.com/blog/post/edit/1071907018403174010/8026780633648866392
    https://www.blogger.com/blog/post/edit/1071907018403174010/8279411411950085753

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Bem lembrado, Jadson, acompanhei também pelo Evidentemente. Belos registros, também recomendo a leitura por todos que admiram a trajetória de Gabrielli

      Excluir
  5. Gennnnte, essa série de Emiliano é um verdadeiro baú de ouro na história do nosso jornalismo. Desconhecia totalmente essa faceta de Gabrielli que, nos meus tempos de repórter, foi uma fonte maravilhosa. Já neste época o admirava pra caramba. Sempre gentil, nunca negando uma entrevista, e com suas respostas inteligentes, convincentes... E, pelo que conta Emiliano, desde essa época, demonstrava a sua veia aguerrida e competência, que levou para a política, o setor acadêmico, a gestão pública...Parabéns pela trajetória, Zé Sérgio. Mais uma edição legal, Mônica.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ainda bem que não fui a única a desconhecer esse colega dasantigas hehehehe Valeu, Bel

      Excluir
  6. Postando em nome de José Carlos Zanetti

    Zanetti: Emiliano faz uma revolução silenciosa promovendo essas sinergias. Incansável, haja pilha...
    Zanetti: Zé Sérgio – memórias do jornalismo, de Emiliano José, capturado no 'Pilha Pura':

    Mesmo com uns trecos brabos de saúde, ao ler faz pouco essas memórias de jornalismo do querido compa Emiliano com Gabrielli, fiquei vidrado, felicíssimo, esqueci agruras. Outro dia Zé me ligou querendo saber como estava – lembrei a ele uma amiga cearense que me consolou: ”óia, tem muita gente pior que tu, viu?”.

    Também pertenci a uma das APs – a clandestina - e trabalhei alguns meses na Tribuna da Bahia como copy-desk uns dois anos depois, em meados de 70.

    A Tribuna, não só ela, estava entre as redações que percebia o potencial de militantes de esquerda, ávidos de informação, coragem investigativa e... perplexidades, querendo sobreviver, retomar caminhos e fazer política nas brechas da legalidade. Claro que lá permaneceu o espírito de Milton Caires, coração aberto às levas de comunas, mesmo depois de defenestrado por pressão de ACM.

    Conheci Zé na cadeia, 71 ou 72, ruinzão de baba, camarada afetuoso, logo me afeiçoei a ele e ele a mim que, nem sei bem porque, me chamava de ‘mãe’, talvez por meu espírito conciliador, e até há pouco assim me tratava quando nos víamos nas festas da Bahia ou nos tempos idos do Raso da Catarina, destino de ato em ato em nossas bebemorações políticas.

    Sem ser militante partidário me diverti nas rodas petistas com causos quixotescos que Zé candidato, Edval Passos, Paulo Pontes e tant@s vivenciaram na Bahia profunda em tímidos comícios, como em Campo Alegre de Lurdes para um pingado de campônios ouvindo boas novas.

    Ocupadíssimo, na virada do milênio, se dispunha a vir direto de algum voo, para falar a militantes difusos sobre nossa dívida externa com valiosos subsídios a empolgar nossas campanhas plebiscitárias.

    Como pesquisador ou secretário também contávamos com Zé, figura que se gosta logo, já que nem a glamurosa e poderosa Petrobrás arranhou sua fraternidade.

    Zanetti

    ResponderExcluir
  7. Boas lembranças Zanetti. Essas memórias de Emiliano estão mesmo revolucionando e o nosso Pilha aqui fazendo de guardião de tantas preciosidades como o seu próprio comentário, que muito acrescenta sobre essa figuraça que é Zé Sérgio. Seja bem-vindo ao nosso blog. Aproveite para conhecer postagens anteriores sobre as Memórias de Emiliano e outros registros. Melhoras para a sua saúde.

    ResponderExcluir

Postar um comentário