Essa sacudida que
Emiliano José vem dando nas memórias do jornalismo baiano tem revelado é coisa.
Para mim, umas das grandes surpresas foi descobrir que José Sérgio Gabrielli,
uma de minhas fontes ao longo da carreira, sobretudo quando integrei as
editorias de economia da Tribuna da Bahia, por um pequeno período, e do Correio
da Bahia, por 11 anos, já foi jornalista. Eu o conhecia como economista,
diretor da Escola de Economia da Ufba, presidente da Petrobras, político
petista e secretário estadual de Planejamento. Como jornalista, nem sonhava.
E é justamente
disto que fala esse capítulo da série #MemóriasJornalismoEmiliano, que tem Zé
Sérgio como personagem central. Ou melhor, Cavalão, como era chamado pelos
colegas de redação. Mais um “comunista” que encontrou espaço na Tribuna da
Bahia, nos anos de 1972 e 1973, chegando a ser editor de notícias
internacionais.
Da AP – Ação Popular,
organização clandestina de combate à ditadura militar no Brasil, Gabrielli se
viu às voltas com outra AP, a Associated Press, agência internacional que
abastecia o noticiário sobre o mundo inteiro. Bem humorado, Cavalão não perdeu
a piada nem quando o terrível representante do regime militar, o delegado Luiz
Arthur de Carvalho, da PF, acostumado a prendê-lo, o fitou na redação da
Tribuna e provocou:
- “Gabrielli, como vai a AP?”
-“Dando muitas
notícias”, respondeu na lata.
Não mentiu, só
trocou as APs
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(Foto: Manoel Porto - Gabrielli em passeata com Zezéu e Geracina Aguiar, Bete Wagner.....)
Emiliano José
17
de julho de 2019
Associated Press e
AP
A
máquina da AP tem é história.
Era
início de noite.
Cavalão
estava dedicado aos telegramas que chegavam aos borbotões.
Quem
aguenta tanta notícia?
Como
era barulhenta uma redação.
Dezenas
de jornalistas em suas Olivettis tocando-lhe o pau, uns suavemente, outros com
muita energia, a máquina da AP rebolando e cuspindo notícias, um barulho
assemelhado a uma fábrica têxtil do século XIX.
E
pra gente, creiam, era música.
Cada
um era capaz de dar conta de suas tarefas embalado por aquela sinfonia.
Pois
é... Cavalão, vocês já o conhecem, José Sérgio Gabrielli de Azevedo, Cavalão
estava posto em sossego lidando com as notícias do mundo e de repente um
burburinho na redação.
De
súbito, Luiz Arthur de Carvalho adentra a redação.
Pra
quem não conhece, era o Superintendente da Polícia Federal, o que mandava prender,
torturar, a porra toda.
Foi
ele a me receber na sede da PF no dia 23 de novembro de 1970 já todo
ensanguentado a me dizer que dali a pouco eu estaria no pau e dali a pouco
pau-de-arara e o escambau.
Entra
no aquário onde ficava o redator-chefe, Quintino de Carvalho, a quem certamente
trazia alguma ordem de censura.
Algum
tempo de conversa e, ao sair do aquário, Luiz Arthur lança um olhar panorâmico
à redação, cheia naquele momento.
Fixa
o olhar em Zé Sérgio - fora do âmbito jornalístico era chamado assim.
Parado,
ficou assim alguns segundos olhando pra Zé Sérgio. De repente, soltou o
vozeirão:
-Gabrielli,
como vai a AP?
De
pronto, ao tempo em que ia recolhendo os telegramas chegados da Associated
Press, a resposta:
-Dando
muitas notícias.
Luiz
Arthur engoliu a seco.
A
redação, num esforço enorme para conter o riso.
Contrafeito,
tomou o elevador, se picou.
Acostumara-se
a prendê-lo.
Sabia-o
militante de Ação Popular - todos conheciam-na como AP, sigla também da
Associated Press.
Zé
Sergio podia ser preso, mas não perdia a piada.
Nesse
dia, continuou seu trabalho, nada aconteceu.
Numa
conta rápida, ele rememora oito prisões.
Não
é brincadeira: numa ação das forças de segurança da Bahia, denominada
"Operação Gaiola", destinada apenas ao treinamento dos policiais, foi
preso.
Cobaia
para treinamento.
Normalmente,
prisões rápidas
Mas,
a ditadura acaba condenando-o, e ele cumpre pena na Penitenciária "Lemos
Brito".
Meu
colega de Galeria F.
Éramos
os dois de AP.
A
organização revolucionária.
Não
a Associated Press.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
18
de julho de 2019
Zé Sérgio x Nilton
Cerqueira
José
Sérgio Gabrielli de Azevedo gostava da rotina da Tribuna da Bahia.
Da
rotina dele: entrava às 16, saía lá pelas altas horas da madrugada.
Havia
ingressado no jornal como copy-desk.
Passou
depois a editor de Internacional.
Às
sextas, depois do fechamento, juntava-se a uma turma, caminhava até o Largo das
Sete Portas, subiam para o Alagoano, e tome-lhe cachaça e comida, noitada de
que se lembra com gosto até hoje.
Noitada,
forma de expressão.
Quando
começavam, o dia já clareava.
Iam
terminar o rega-bofe às 12, 13 horas do sábado, único dia sem trabalho no
jornal.
Normalmente,
o fim era na Taba dos Orixás, célebre boteco do Vale do Canela, ponto de
encontro de poetas, seresteiros, cantores, e jornalistas.
A TB
não saía aos domingos.
Gostava
do que fazia.
Alternava
trabalho e militância na AP.
Sempre
acossado pela repressão.
Uma
noite, princípio de noite, é chamado ao segundo andar, diretoria.
Elmano
Castro, o dono, não fora às cartas.
Queria
conversar com ele.
Não
devia ser coisa boa - pensou.
Desceu
à sala da diretoria, aguardou um pouco na recepção, a secretária o convidou a
entrar.
Elmano
fez rapapés, conversou amenidades, e então foi ao que interessava.
A
ditadura queria a cabeça dele.
Ninguém
menos que o major Nilton Cerqueira.
Chefiava
o DOI-CODI na Bahia.
Um
dos mais terríveis homens da repressão no Brasil.
Vai
se notabilizar por ser o assassino de Carlos Lamarca, setembro de 1971.
E
por muitas outras arbitrariedades Brasil afora.
Sobre
Lamarca, eu e Oldack Miranda escrevemos livro.
Está
na 17ª edição.
Há
filmes: o mais famoso o de Sérgio Rezende.
A
conversa foi antes da morte do Capitão.
Zé Sérgio
lembra até hoje do constrangimento e da emoção de Elmano.
Quase
às lágrimas.
-O
coronel me disse que ou lhe demito ou ele fecha o jornal.
Jogo
bruto.
Ditadura.
Ué,
que fazer?
Não
havia saída.
Despediu-se
de Elmano já pensando nos passos seguintes, na procura de algum emprego que lhe
garantisse a subsistência.
Creiam:
tornou-se câmera-man da TV Aratu.
O
que surgiu.
Não
podia se dar ao luxo de recusar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Patrícia Valim: Jose Sergio
Gabrielli de Azevedo!
Lucia Correia Lima: Me lembro.
Depois foi ser diretor da facu de ECONOMIA e passou a ser nossa fonte
Lucia Correia Lima: Depois com
Marquinhos fechando o jornal, foi criada uma equipe com os melhores (perdão eu
estava nela) para a especial edição de domingo. A primeira foi pauta minha pois
descobri com um engenheiro que a antiga rodoviária, depois de 7 Portas, estava
ameaçando cair. Evitamos a tragédia! A matéria de primeira página levou a
interdição
Arthur Andrade: Zé Sergio PhD em
Economia pela Universidade de Boston... prof titular da Ufba..
História
massa!!
Roberto Casais: Li o livro sobre
Lamarca quando eu estudava no colégio. Naquela época, ninguém sabia quem o era.
Impressionante como se faz para esquecer a memória de onde vive: crueldade na
existência, crueldade em ser cidadão.
Emiliano José: Roberto Casais
Lamarca até hoje roda por aí.
Roberto Casais: Emiliano José,
isso mesmo?
Emiliano José: O livro.
Samuel Aarão Reis: se quiser
demitir, demite, pô! mas não precisa derramar lágrimas no meu ombro, não.....
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Emiliano José
19
de julho de 2019
Zé Sérgio x Nilton
Cerqueira II
Zé
Sérgio havia andado atrás de emprego, correu muito trecho depois de ser
demitido da Tribuna.
Precisava
muito.
Até
que apareceu o de câmera-man.
Está
certo: sabia nada disso.
Mas
quem disse que não podia aprender?
Era
saber olhar, fixar o alvo, e mandar bala.
Filmar.
Aceitou.
TV
Aratu.
Cedo,
cedo tomava aquela tranqueira.
Botava
a porra no ombro, seguia o repórter, filmava, e estava tudo bem.
Quando
via a matéria no ar, gostava do que via.
Achava
que a cada dia melhorava.
E
sentia-se melhor depois daquela porrada do major Nilton Cerqueira.
Sensação
de menos vigiado.
Não
escrevia mais nada.
Só
filmava.
Responsabilidade
era do repórter.
Até
que um dia...
Pegou
o carro, seguiu com sua câmera, nem perguntou destino, que aquele dia não
estava pra muita conversa.
Se o
repórter disse, nem ouviu.
Carro
saiu da TV Aratu, desceu em direção à Cidade Baixa.
Solenidade
da Marinha - soube logo ao chegar.
Desceu.
Olhou
pro palanque.
Tinha
palanque.
Olhou
com mais atenção.
Trocou
olhar com ninguém menos do que Nilton Cerqueira.
Ele
mesmo.
O
olhar dele parecia de ódio ao vê-lo empunhando uma câmera.
Que
porra ele queria ali, filmando-o?
Demitido
da Tribuna, e agora ali?
Não,
não podia ser.
Zé
Sérgio gelou: estou demitido.
De
novo.
Pelo
mesmo filho da puta - pensou, raivoso.
Guerra
é guerra.
Tem
mais jeito não.
O
que não tem remédio, remediado está.
Chamou
o repórter.
Informou:
aquele, do Exército, é o chefe da 2ª Seção do Exército.
Chefe
da 2ª Seção e do DOI-CODI.
Ajeitou
a câmera, concentrou-se nele um bom tempo.
Observava
o olhar de ódio dele.
Amanhã
é amanhã, mas hoje a bola está no meu pé.
A
câmera na minha mão.
Esse
gostinho tinha.
Matéria
foi ao ar.
Nilton
Cerqueira, no destaque.
Bom
destaque, coisa que nenhum homem de segurança gosta.
Zé
Sérgio, demitido.
Outra
vez.
Nilton
Cerqueira não saía dos seus calcanhares.
Não
entendia por que...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Luiz Brasileiro Brasileiro: Baita história
esta. Zé Sérgio quem diria, bom de briga.
Emiliano José: Luiz Brasileiro
Brasileiro Sempre foi.
Zeca Peixoto: Que passagens
fantásticas estas com Zé Sérgio!
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(Foto de Manu Dias 1981 Fundação do PT na Bahia. Lula agachado, Edval Passos discursando)
(Foto: Manu Dias)
(Foto: Manoel Porto)






















Surpreendentemente mesmo. Também não sabia desse passado de Zé Sérgio. Só aumenta a nossa admiração por esse cabra Cavalão (rsrs) . Valeu de novo Emiliano. Você contando e fazendo e o nosso blog tendo a honra de registrar com a excelente edição e apresentação de Mônica Bichara.
ResponderExcluirValeu, Jô, o mestre Emiliano nos revelando uma nova faceta de Gabrielli que muitos desconhecem. E como cinegrafista da TV Aratu também.....texto delicioso
ExcluirSurpresa por saber desta trajetória de jornalista do querido Zé Sérgio Gabrielli! Muito interessante!
ResponderExcluirTambém fiquei surpresa, mesmo tendo trabalhado na Tribuna muitos anos. Essa série de Emiliano está sendo reveladora. Obrigada pelo comentário, colega
ExcluirE tem mais histórias fabulosas do Zé! Fizemos doutorado na BU em Boston, na mesma época, ele em Economia, eu, Antropologia. A bolsa da Capes, na época, era bem apertada, mal dava para pagar o aluguel. Zé vivia então com Eliza e o casal foi trabalhar na casa de uma família ricaça, que tinha moradia de graça. Eliza cozinhava e cuidava das crianças, Zé cuidava do jardim e era o motorista... Meu amigo há mais de 40 anos!
ResponderExcluirQue maravilha isso....Quer dizer que além de jornalista e cinegrafista nosso grande presidente da Petrobras foi também jardineiro e motorista? Isso que é uma trajetória eclética, o q tocava ele dançava. Obrigada pela visita ao blog, Ceci
ExcluirCompanheira Mônica Bichara, andei acompanhando Gabrielli numas palestras, recentemente (coisa de um, dois anos atrás), a partir de uma feita no Sindae, em Salvador, organizada por Goiano (José Donizette), Valdimiro Lustosa e Osvaldo Laranjeira (neste caso, ele e Olívio Dutra). Depois houve duas palestras em Seabra (Chapada Diamantina) e também um ato de desagravo na Reitoria da UFBa. Deve ter em torno de 10 matérias no meu Blog Evidentemente, com análises atuais de Gabrielli no âmbito de sua atuação, economia e política. Depois dos interessantes lances de sua trajetória narrados por Emiliano, valeria a pena espiar o que ele está pensando dessa conjuntura adversa na qual está atolado nosso povo. Deixo link de duas das matérias do meu Blog Evidentemente:
ResponderExcluirhttps://www.blogger.com/blog/post/edit/1071907018403174010/8026780633648866392
https://www.blogger.com/blog/post/edit/1071907018403174010/8279411411950085753
Bem lembrado, Jadson, acompanhei também pelo Evidentemente. Belos registros, também recomendo a leitura por todos que admiram a trajetória de Gabrielli
ExcluirGennnnte, essa série de Emiliano é um verdadeiro baú de ouro na história do nosso jornalismo. Desconhecia totalmente essa faceta de Gabrielli que, nos meus tempos de repórter, foi uma fonte maravilhosa. Já neste época o admirava pra caramba. Sempre gentil, nunca negando uma entrevista, e com suas respostas inteligentes, convincentes... E, pelo que conta Emiliano, desde essa época, demonstrava a sua veia aguerrida e competência, que levou para a política, o setor acadêmico, a gestão pública...Parabéns pela trajetória, Zé Sérgio. Mais uma edição legal, Mônica.
ResponderExcluirAinda bem que não fui a única a desconhecer esse colega dasantigas hehehehe Valeu, Bel
ExcluirPostando em nome de José Carlos Zanetti
ResponderExcluirZanetti: Emiliano faz uma revolução silenciosa promovendo essas sinergias. Incansável, haja pilha...
Zanetti: Zé Sérgio – memórias do jornalismo, de Emiliano José, capturado no 'Pilha Pura':
Mesmo com uns trecos brabos de saúde, ao ler faz pouco essas memórias de jornalismo do querido compa Emiliano com Gabrielli, fiquei vidrado, felicíssimo, esqueci agruras. Outro dia Zé me ligou querendo saber como estava – lembrei a ele uma amiga cearense que me consolou: ”óia, tem muita gente pior que tu, viu?”.
Também pertenci a uma das APs – a clandestina - e trabalhei alguns meses na Tribuna da Bahia como copy-desk uns dois anos depois, em meados de 70.
A Tribuna, não só ela, estava entre as redações que percebia o potencial de militantes de esquerda, ávidos de informação, coragem investigativa e... perplexidades, querendo sobreviver, retomar caminhos e fazer política nas brechas da legalidade. Claro que lá permaneceu o espírito de Milton Caires, coração aberto às levas de comunas, mesmo depois de defenestrado por pressão de ACM.
Conheci Zé na cadeia, 71 ou 72, ruinzão de baba, camarada afetuoso, logo me afeiçoei a ele e ele a mim que, nem sei bem porque, me chamava de ‘mãe’, talvez por meu espírito conciliador, e até há pouco assim me tratava quando nos víamos nas festas da Bahia ou nos tempos idos do Raso da Catarina, destino de ato em ato em nossas bebemorações políticas.
Sem ser militante partidário me diverti nas rodas petistas com causos quixotescos que Zé candidato, Edval Passos, Paulo Pontes e tant@s vivenciaram na Bahia profunda em tímidos comícios, como em Campo Alegre de Lurdes para um pingado de campônios ouvindo boas novas.
Ocupadíssimo, na virada do milênio, se dispunha a vir direto de algum voo, para falar a militantes difusos sobre nossa dívida externa com valiosos subsídios a empolgar nossas campanhas plebiscitárias.
Como pesquisador ou secretário também contávamos com Zé, figura que se gosta logo, já que nem a glamurosa e poderosa Petrobrás arranhou sua fraternidade.
Zanetti
Boas lembranças Zanetti. Essas memórias de Emiliano estão mesmo revolucionando e o nosso Pilha aqui fazendo de guardião de tantas preciosidades como o seu próprio comentário, que muito acrescenta sobre essa figuraça que é Zé Sérgio. Seja bem-vindo ao nosso blog. Aproveite para conhecer postagens anteriores sobre as Memórias de Emiliano e outros registros. Melhoras para a sua saúde.
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