Fotos: UNE
Texto: Jaciara Santos (Jornalista, dirigente do Sinjorba e ABI/BA)
Sei que é clichê, mas não encontro outra maneira de começar este texto: o gigante despertou!
A esperança parece ter rompido o casulo em que estava adormecida e ganhou as ruas, as praças, as avenidas. A onda vermelha, agora mesclada ao verde e amarelo que voltamos a reivindicar como nosso, deixou os espaços fechados dos comitês eleitorais e diretórios partidários para encontrar gente de verdade. Sem ar-condicionado, sem grandes estruturas. Um megafone a bateria, um palco improvisado sobre uma caminhonete, muita disposição e um propósito: salvar o Brasil.
Fazia tempo que eu não encontrava tantos jovens reunidos em manifestações de rua. E foi impossível não voltar os olhos para a história. Lembrei das passeatas de resistência à ditadura militar, nos anos 1960; da reorganização do movimento estudantil e da luta pela redemocratização, na década de 1970; das Diretas Já, nos anos 1980; dos caras-pintadas que, em 1992, ajudaram a escrever o capítulo do impeachment de Fernando Collor.
A juventude brasileira tem uma longa história de enfrentamento. E a Bahia guarda um capítulo especial dessa trajetória: foi em Salvador, em 1979, que milhares de estudantes se reuniram para reconstruir a União Nacional dos Estudantes (UNE), depois de anos de clandestinidade e repressão.Nas décadas seguintes, os estudantes não abandonaram as ruas. A Revolta do Buzu, em 2003, paralisou Salvador e mostrou a força de uma geração que se recusava a aceitar passivamente o aumento das tarifas de ônibus. Vieram outras mobilizações, por transporte, educação, direitos e melhores condições de ensino. Mas havia tempo que eu não presenciava, tão de perto, uma juventude mobilizada em torno de uma questão que ultrapassa suas reivindicações específicas: o futuro da democracia.E foi essa juventude que reencontrei nas ruas de Salvador neste fim de semana.
Ontem, domingo (11), caminhei de Piatã a Itapuã. Hoje, feriado de Nossa Senhora Aparecida, (12), do Morro do Cristo ao Farol da Barra. Participei das duas manifestações convocadas pelo movimento estudantil. E voltei para casa com um sentimento que andava escasso: esperança.
Não era apenas a quantidade de jovens. Era a disposição, a energia, a maneira como ocupavam as ruas. Meninos e meninas puxavam palavras de ordem, cantavam refrões, erguiam cartazes escritos à mão. Havia entusiasmo, mas havia também consciência da gravidade do momento. As ameaças à educação continuam presentes, mas a preocupação daqueles jovens vai além das salas de aula, dos laboratórios, das universidades. O que está em jogo é o direito de continuar vivendo em uma democracia.
Confesso que me emocionei.
Durante muito tempo, acostumei-me a encontrar nas manifestações pela democracia rostos conhecidos, cabelos brancos, companheiros de uma geração que aprendeu, muitas vezes da maneira mais dolorosa, o preço da liberdade. Continuamos lá. Mas, desta vez, éramos nós que acompanhávamos a garotada. Eles eram maioria. Eram eles que davam o tom, puxavam os cantos, conduziam a manifestação.E que alívio perceber isso!
Afinal, nenhuma geração pode carregar sozinha a responsabilidade de defender a democracia. Nós fizemos a nossa parte, com erros e acertos, conquistas e derrotas. Agora, ver tantos jovens assumindo essa luta é perceber que a memória não se perdeu, que a resistência encontrou novas vozes e que o futuro ainda pode ser construído.Não sei o que virá das urnas. Ninguém sabe. Mas sei o que vi nas ruas de Salvador. E o que vi me devolveu uma esperança que o medo e a incerteza vinham consumindo.
A Bahia, berço do Brasil, está mandando um recado. Não apenas para o país, mas para quem, em qualquer lugar, ainda acredita que a democracia pode ser tratada como algo descartável.
Aqui há gente disposta a defendê-la. E há uma nova geração que não parece inclinada a entregar, sem luta, as liberdades que tantas outras ajudaram a conquistar.Saí daquelas manifestações com o coração mais leve. A ameaça não desapareceu. O perigo continua à nossa frente. Mas já não enxergo apenas sombras.
Há uma juventude nas ruas. Há esperança.
E, se depender da Bahia, a democracia não ficará sem defesa. Foi esse o recado que ouvi nas vozes de meninas e meninos que fizeram ecoar, tantas vezes, uma palavra de ordem que resume o espírito dessas manifestações:“Aqui é Bahia. E na Bahia, fascista não se cria!”








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