As ruas estão falando. Por que a grande imprensa parece não ouvir?

Foto: site Brasil de Fato

 Por Joana D’Arck


Há alguma coisa acontecendo nas ruas do Brasil que parece não encontrar o mesmo espaço nas manchetes dos grandes jornais e nos principais telejornais. Enquanto as redes sociais transbordam de imagens, vídeos e relatos de manifestações em apoio à reeleição do presidente Lula, a cobertura de boa parte da imprensa tradicional parece caminhar em outro ritmo.


E não estamos falando de pequenos encontros de militantes partidários. Estamos falando de multidões, de manifestações em diferentes capitais, de estudantes que saem das salas de aula dos colégios, universidades e institutos federais e ocupam praças e avenidas. Uma movimentação que ganhou força depois do primeiro turno e trouxe para o centro da campanha um personagem especialmente importante: a juventude.


É justamente essa presença dos jovens que mais me chama a atenção.


Uma geração que muitas vezes é apontada como desinteressada da política aparece agora organizando manifestações, produzindo conteúdos, mobilizando colegas e transformando as redes sociais em espaços de articulação. São estudantes, artistas, coletivos culturais e até comunidades de fãs que descobriram novas maneiras de participar do debate eleitoral.


Na última semana, manifestações estudantis aconteceram em diversos estados, convocadas pela União Nacional dos Estudantes (UNE) e por outros movimentos. No Rio de Janeiro, milhares de estudantes e trabalhadores caminharam da Candelária até a Cinelândia. Em São Paulo, Brasília, Salvador, Recife e outras cidades, atos semelhantes colocaram em discussão a defesa da educação pública, os direitos sociais e o futuro do país. Essa ebulição está tomando o país todo. Até em cidades médias e pequenas do interior também estão seguindo onda vermelha, como Vitória da Conquista, Irecê e Cícero Dantas, na Bahia, entre outras dos diversos estados.a



Mas foi neste domingo, 11 de outubro, que a Avenida Paulista ofereceu uma imagem impossível de ignorar.


Uma multidão tomou a principal avenida de São Paulo durante a Marcha pela Democracia, reunindo jovens, trabalhadores, artistas, movimentos sociais e apoiadores de Lula. A extensão da manifestação foi descrita de maneiras diferentes pelos veículos de comunicação, mas todos os registros confirmaram uma grande concentração popular.


A GloboNews também noticiou a manifestação e reconheceu que vários quarteirões estavam ocupados. Nas redes sociais, porém, multiplicaram-se críticas à escolha de imagens fechadas, que não permitiam visualizar toda a dimensão do ato.


E aqui cabe uma pergunta: por que manifestações dessa natureza não recebem, desde o início, uma cobertura proporcional à sua relevância política?


Não se trata de exigir que a imprensa faça campanha para Lula ou para qualquer outro candidato. Trata-se de cobrar aquilo que deveria ser a essência do jornalismo: observar a realidade, reconhecer os fatos e oferecer ao público elementos para compreender o que está acontecendo.


É verdade que veículos da grande imprensa também noticiaram essas manifestações. Mas noticiar um acontecimento não é necessariamente dar a ele a visibilidade, a contextualização e a continuidade que sua importância exige.


As redes sociais, com todos os seus problemas, suas distorções e seus riscos de desinformação, vêm cumprindo um papel decisivo na circulação dessas imagens. O que antes poderia ficar restrito à cobertura de uma emissora ou à página de um jornal hoje se espalha por milhares de celulares.


Quem estava na Paulista mostrou a Paulista. Quem participou dos atos estudantis compartilhou suas imagens. E quem acompanha essa movimentação percebe uma efervescência política que nem sempre encontra correspondência no noticiário tradicional.


Como jornalista, não consigo olhar para esse contraste sem preocupação. A imprensa não pode selecionar a realidade apenas pelo que considera conveniente destacar. Seu compromisso deve ser com a informação, com a pluralidade e com o direito da sociedade de conhecer os acontecimentos relevantes.


Também não posso deixar de olhar para essa juventude sem recordar outros momentos da nossa história. Vivi os anos da ditadura militar, acompanhei a luta pela redemocratização e sei o significado que as ruas podem adquirir quando diferentes gerações decidem participar da vida política.


Não estou dizendo que os tempos sejam iguais. Não são. Mas há algo que atravessa as gerações: a capacidade de transformar inquietação em participação coletiva.


O segundo turno ainda está em disputa. As manifestações não antecipam o resultado das urnas, assim como as imagens que circulam nas redes não substituem pesquisas, apuração e análise jornalística. Mas revelam um fato político que merece ser observado com atenção.


Afinal, o jornalismo não existe apenas para registrar o que acontece nos gabinetes, nas pesquisas eleitorais ou nas declarações dos candidatos.


Existe também para ouvir as ruas.


E as ruas, neste momento, têm muito a dizer.







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