#MemóriasJornalismoEmiliano – Marcos Palacios – O revolucionário e a lista dos "imencionáveis" na Tribuna da Bahia
Hoje ele é um
renomado e aposentado professor universitário. Mas o comecinho da carreira de
Marcos Palacios foi lá atrás, final dos anos 60, em plena ditadura militar,
quando chegou em Salvador fugido da assustadora repressão paulista. A Tribuna
da Bahia foi um porto seguro para ele e para o autor dessas memórias, Emiliano
José, que chegou em 1970 tentando escapar das mesmas garras. Apesar da pouca
convivência, as trajetórias dos dois voltaram a se cruzar anos depois, nos
corredores da Facom, ambos formando gerações de jornalistas pela UFBA. Não tive
esse privilégio.
Tudo na Tribuna era revolucionário, da redação cheia
de “comunistas” ao design gráfico, avançado para a época, valorizando
fotografias e ilustrações. Tão revolucionário que confiou a ele, um esquerdista
assumido, a Editoria Nacional e, graças a Quintino de Carvalho, o fechamento da
primeira página, função do secretário de redação, cargo que ocupou por 11 meses.
Como se não bastasse, era dele a responsabilidade de cumprir as exigências da censura imposta ao jornal pela ditadura, seguindo à risca a lista de “IMENCIONÁVEIS” nas matérias. As personas non gratas que tinham de ser solenemente ignoradas, sob pena do jornal sofrer processos (na melhor das hipóteses). Acredite se quiser, mas a lista era encabeçada por ninguém menos que Dom Helder Câmara. Tá tudo aí contado por Emiliano.
Em 1972 Palacios troca a TB por um curso de Sociologia
na Universidade de Liverpool. Apaixonado pela comunicação no mundo digital, ao
voltar para Salvador e assumir como professor titular na Facom criou com
colegas o Grupo de Pesquisa em Jornalismo On-line (Gjol), pioneiro em investigação
do Jornalismo na Internet.
Outra forte influência na formação de Palacios é o
cinema, herdada do pai, o produtor cinematográfico Alfredo Palacios.
Ao revirar o baú da memória para atender ao pedido de Emiliano ele afirma sobre os 11 anos passados na Inglaterra e País de Gales: "- Era o início de minha carreira universitária, marcada indelevelmente pelo privilégio de ter sido parte da revolucionária experiência jornalística da Tribuna da Bahia".
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1 de
setembro de 2019
Mestre feito na
Tribuna
Agosto
de 1971.
Quintino
de Carvalho chama o editor de Nacional, e informa:
- A
partir de amanhã, você assume a função de Secretário de Redação. E será o
responsável pelo fechamento do jornal.
Marcos
Palacios tomou um susto:
-
Mas, Quintino...
-
Nem mas, nem mais. Nem nada...
Palacios,
assustado.
Quintino,
acalmando-o:
-
Fica tranquilo. Pode deixar que eu te dou apoio.
Como
secretário de Redação, viveu os últimos onze meses dos seus poucos mais de três
anos na Tribuna da Bahia.
Entrava
na redação no início da noite, saía somente na madrugada, com o jornal fechado.
Um
novo aprendizado.
Quintino
e Sérgio Gomes decidiam a manchete do dia e as hierarquias da primeira página.
A
Palacios, cabia estabelecer as cabeças de página de cada Editoria em conversas
com as chefias.
Produzia
ou melhorava títulos, escolhia material fotográfico, definia destaques, uma
trabalheira dos diabos, um corre-corre da zorra.
Foi
obrigado a penetrar os mistérios da diagramação, com suas réguas de pica e
aritmética cabalística.
Tudo
feito à mão.
Tempos
pré-digitais.
Teve
um mestre na área pra chamar de seu: Misael Peixoto, formado no jornal "O
Momento", do PCB, lá pelos idos dos anos 40/50, e agora Chefe da
Diagramação da TB.
A
ele, Palacios diz dever o pouco que aprendeu sobre os aspectos de composição
gráfica de um jornal.
Na
condição de secretário de Redação, sentiu de perto a violência da censura.
Era
o responsável pelo cumprimento das proibições diárias.
Não
havia um censor na Redação.
A
cada noite, ou em qualquer momento em edição extraordinária, o jornal recebia
um telefonema da Polícia Federal informando da proibição ou proibições do dia.
Ou,
ainda, dando conta de que novo nome entrara para a lista dos
"imencionáveis", encabeçada por dom Hélder Câmara.
O
telefonema era para o Redator-Chefe ou para o secretário de Redação.
A partir
daí, redigia-se um comunicado interno para o "ciente" dos vários
editores.
Vida
dura.
Ditadura.
Agosto
de 1972, Palacios troca a TB por um curso de Sociologia na Universidade de
Liverpool.
Por
onze anos, viveu, estudou e deu aulas na Inglaterra e País de Gales.
-
Era o início de minha carreira universitária, marcada indelevelmente pelo
privilégio de ter sido parte da revolucionária experiência jornalística da
"Tribuna da Bahia".
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Lucia Correia Lima: O Momento era o
jornal do PC. Pai trabalhou época de João Falcão. A redação era em um dos
sobrados do lado esquerdo de que sobe a Av Sete pouco antes de chegar ao
mosteiro de São Bento.
Emiliano José: Lucia Correia
Lima Isso. Ao longo da série, falei muito da história do jornal. Por isso, não
detalhei agora. Obrigado. Beijão.
Wilson Mário Silva: ...regua de
paia...
Wilson Mário Silva: ...regua de
paica...
Emiliano José: Wilson Mário
Silva pode ser também régua de pica, como a ela se referiu Palacios.
Raquel Carvalho: Emiliano,
Quintino de Carvalho era tio do meu pai. ❤️
Emiliano José: Raquel Carvalho
deve ser um orgulho.
Raquel Carvalho: Emiliano José só
ouvi coisas boas sobre ele.
Emiliano José: Raquel Carvalho
E ele merece.
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(Com a filha Milena Palacios)
Emiliano José
2 de
setembro de 2019
O primeiro jornal
baiano que não suja as mãos
Marcos
Palacios desembarcou na Bahia fugindo da repressão paulista, como eu.
Chegou
em 1969.
Eu,
1970.
Vinha
junto com sua primeira mulher, Maria das Graças, cujo pai, Mário Alves de
Souza, era militante do PCB, e que já foi protagonista em um de meus livros.
A
tia de Maria, Ana Montenegro, também figura histórica do PCB, sobre quem também
escrevi, vivia no exílio na Alemanha.
Não
só ele era comunista, como seu entorno, como se vê.
A
acolhida em Salvador foi facilitada por essa relação com a militância do PCB.
O
primeiro emprego foi na revista "Tribuna Econômica".
A
publicação funcionava no prédio da rua Djalma Dutra destinado a abrigar a
"Tribuna da Bahia", cujas operações não haviam se iniciado.
Chegou
à revista através de um contato do PCB.
-
Você tem experiência jornalística?
-
Tenho... Trabalhei na "Gazeta de Pinheiros", jornal de bairro de São
Paulo.
Uma
mentirinha branca...
Fez
o teste.
Emprego
de copidesque
Após
alguns meses, recrutado por Quintino de Carvalho para a Tribuna.
Começa
aí o seu real aprendizado jornalístico.
Lembra:
Elmano Castro costumava passear orgulhosamente em meio ao burburinho da redação
nos finais de tarde.
A
revolução jornalística era definida pela tecnologia a ser utilizada: off-set.
"O
primeiro jornal baiano que não suja as mãos".
A
publicidade do lançamento, provocativa.
Modernos
métodos de fotocomposição:
"O
primeiro jornal baiano escrito por luz".
Impressora
Heidelberg de última geração:
"Agora,
você vai reconhecer as pessoas nas fotos do jornal".
O
novo jornal, lembra Palacios, foi concebido em moldes graficamente
revolucionários para a época: grandes espaços em branco na diagramação, farta
utilização de fotos, de grandes dimensões, seguindo padrões inovadores
introduzidos pelo "Jornal da Tarde", de São Paulo... #MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Lucia Correia Lima: Marcos e Maria
foram recebidos na pensão da Maria Brandão, antiga militante do Partido
Comunista, que mostrou seu lado elitista com Maria. Uma negona de voz grossa
sem grandes escolaridades, um ser iluminado gentil inteligente, mas o
"partidão", como muitas organizações de "esquerda" usa o
povo.
Maria
participou e ganhou uma campanha pela paz, criada pelo partido, na verdade
pretexto para conseguir mais militantes.
Enfim
quem conseguisse mais assinaturas "pela paz", iria passar um tempo em
Moscou. Pois bem Maria conseguiu de lavada mais assinaturas. Porém ganhou
apenas uma medalha. No lugar dela foi Lucia, filha de um deputado do partido.
Mãe
muito amiga de Maria, que vivia lá em casa, contava debochando, que, por
castigo a Lucia um dia tomou muita vodka e ficou seminua em uma fonte.
Foi
convidada a voltar ao Brasil podendo escolher uma cidade para visitar antes e
da sua escolha.
-
Paris!
Disse
a moça.
Breve
vou me inspirar no querido Emiliano e começar a publicar aqui.
Lembro
de um livro de Danusa Leão, o Quase Tudo.
Acho
que vou fazer o Tudo.
Emiliano José: Lucia Correia
Lima Faça.
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(Elias Machado, Wilson Gomes, Ailton, Marcos Palacios, Albino Rubim, João Carlos Sampaio, Waldomiro Filho e Monclar Valverde)Emiliano José
3 de
setembro de 2019
Mestre de gerações
Marcos
Palacios, sei desde São Paulo. Movimento estudantil secundarista, eu na AP, ele
não sei se Dissidência, ou próximo.
Éramos
adversários, de longe.
Não
tivemos contato direto nessa época. Fazendo dupla com ele, Wladimir, que parece
chega à Bahia no mesmo período, escapando também da repressão paulista.
Depois,
eu o reencontro na Faculdade de Comunicação, ambos professores.
Uma
presença sempre serena, o avesso da agressividade militante.
Talvez
tenha sido assim desde a época da militância, sei lá, nunca perguntei.
Ele
conta: primeiro contato com os movimentos de esquerda de combate à ditadura se
deu através do MOVE (Movimento de Educação), de inspiração católica, que, à
base de Paulo Freire, esse maldito hoje, desenvolvia um trabalho de
alfabetização e conscientização nas periferias da capital paulista e no
interior do Estado.
Participou
do projeto Cananéia, litoral sul de São Paulo, alfabetizando homens e mulheres
de comunidades de pescadores e caiçaras.
Cursava
o clássico no Colégio Aplicação da USP.
Era
estabelecimento de práticas pedagógicas as mais inovadoras e avançadas.
Experimentou
ali uma extraordinária abertura de horizontes - nos campos das ciências, das
artes, da convivência humana.
Foi
o tempo da descoberta de Marx e do marxismo.
Do
deslumbramento com um instrumental teórico mágico, a explicar tudo e a oferecer
soluções e caminhos para tudo.
Percorreu
essa estrada.
Dos
clássicos ao Marcuse do "Homem unidimensional", de Erich Fromm do
"Conceito Marxista do Homem" ao Régis Debray do "foco
guerrilheiro como vanguarda armada da Revolução".
Nesse
período, faz também os primeiros contatos com Freud, Darwin, com Bertrand
Russel e seu marcante "Porque não sou cristão", Brecht, James Joyce,
Nabokov, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, José Lins do Rego, com os
concretistas paulistas, salões da Bienal de São Paulo, concertos matinais aos
domingos nas salas do Teatro Municipal.
Não
esquece a influência do cinema em sua formação, gosto adquirido do pai,
produtor cinematográfico Alfredo Palacios...
Palacios
continua aplicado mestre de gerações na Faculdade de Comunicação da
Universidade Federal da Bahia.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Lucia Correia Lima: O pai de Marcos
Alfredo Palácios criou o primeiro seriado da tv brasileira.
Henrique Sousa: Lembrança de um
grande professor, dentro da minha visão, de levar o aluno a construir
conhecimento.
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(Marcos Palacios, Edson Fernando D'Almonte, Jose Carlos Ribeiro, Thais Miranda, Ana Terse Soares e Adri Amaral)
(Com a filha Milena)
(Othon Jambeiro, Marcos Palácios, Suzana Barbosa, Claudia Quadros e Elias Machado)
















Considero a postagem uma grande homenagem e uma recuperação de uma parte de minha trajetória menos conhecida. Muito Obrigado! Apenas uma pequena correção: ao chegarmos a Salvador não fomos para a pensão de Maria Brandão. Na verdade ela não tinha pensão. A pensão era de Dona Noêmia, no Barbalho, onde vivemos por 6 meses..
ResponderExcluirQue bom que você gostou. Realmente, Emiliano está fazendo uma revolução no baú da memória de muita gente.
ExcluirQuanto à correção foi um comentário da amiga Lúcia Correia Lima no original do face de Emiliano, mas fica a ressalva
Novo comentário de Lúcia, que não conseguiu postar aqui
ExcluirLucia Correia Lima: Mônica Bichara acabo de ler emocionada. Vc é 1000. And como disse Nietzsche há erros que levam a acertos. Errei a hospedaria que Marcos ficou com Maria. Mas este erro me fez contar a forte história da negona mais linda e forte inesquecível que fez parte da minha infância e adolescência, Maria Brandão, que por ser preta e não universitária, o PC não a mandou para conhecer Moscou quando ela ganhou a campanha da Paz.
É tão rico e gostoso conhecer a trajetória dos nossos colegas. Histórias que não conhecíamos, e que Emiliano, com sua série maravilhosa, vem nos dando essa oportunidade. Parabéns, Palácios, por sua garra. O jornalismo baiano ganhou muito com, vocês, esses paulistas danados de bom, 'arretados' que chegaram a Salvador para brilhar. Abração
ResponderExcluirObrigada pela visita ao blog, Isabel. É mesmo bem rico esse material até como fonte de pesquisa, no futuro, sobre o jornalismo baiano em tempos de repressão
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