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Windows of Wall Street

O jornalista Ney Sá nos enviou esse texto para compatilharmos aqui  com o seleto público do Pilha, esse blog onde rola de tudo, das piadas  e provocações aos momentos de reflexão. Taí a contribuição do amigo e colega.

Ney Sá
Agora que a crise bumerangue retorna às terras do Tio Sam, o povo estadunidense vai às ruas para protestar contra a concentração de renda, o desemprego e as desigualdades sociais. É louvável a mobilização e deve-se reconhecer essa capacidade de organização demonstrada, mas não podemos esquecer que a matriz ideológica que move os protestos bebe na mesma fonte way of life do capitalismo (e das crises) que eles exportam.

O cidadão norte-americano médio tem certa dificuldade de localizar outros países no mapa mundi. Há uma unanimidade umbilical sobre as preocupações que movem os interesses populares naquele país (e como diria Nelson Rodrigues, essa unanimidade não pode ser chamada de prodígio). Assim, ao assistirmos as concentrações de protesto em Wall Street, vale lembrar que os 99% brandidos nas faixas, cartazes e palavras de ordem não se referem ao planeta terra, mas ao USA planet.

Há que fazer uma diferenciação emocional. Com o olhar brasileiro que usamos, a tendência é achar que estão falando em nome do mundo. Não estão. Falam em nome deles próprios. Cada um na multidão representa a si próprio "all by myself". O rótulo de fracassado (loser), estigmatizado na cultura do tio Sam, não costuma ponderar o ambiente e a conjuntura, mas tão somente a capacidade individual. Daí a apologia ao "self made man". Esses valores são repetidos ad nauseam nos folhetins holiudianos. E se chegam com tanta força aqui, imagine o impacto dessa doutrinação lá...

Simbolicamente, numa dessas parcas reportagens que a grande mídia brasileira tem feito sobre os acontecimentos de Wall Street, mostraram um cartaz exibido através das janelas de uma daquelas corretoras de valores, onde se lia "We are the 1%". Resposta óbvia, com cheiro de provocação, mas profundamente verdadeira. Se a representação dos 99% está nas ruas, quem está empregado e trabalhando - especialmente em Wall Street -, é o restante 1%. Mas cito isso para dizer que em essência não há diferença entre o estadunidense que segura o cartaz de 99% e o que exibe a faixa de 1%. Trocariam de faixa sem remorso se a situação pessoal de cada um fosse oposta.

Está aí, para mim, a diferença básica entre os protestos nas ruas dos Estados Unidos e as que acontecem em nossos desunidos estados. No que pese o paradoxo da desunião embrionária nos movimentos sociais brasileiros, quando uma iniciativa cresce ao ponto de ganhar as ruas, ganha também uma simpatia generalizada. A marcha contra a corrupção, no dia 12 de outubro, é um exemplo típico. Duvido que diante da janela de qualquer dos gabinetes de Brasília, alguém – mesmo como piada -, colocasse o cartaz “nós somos os corruptos”.

Há nas bandeiras dos movimentos sociais brasileiros o DNA da solidariedade. Não por uma identificação direta com a causa, mas porque o brasileiro tem ainda na sua cultura emocional o vírus da empatia. E não creio que seja a síndrome de Estocolmo. Acho que é coisa do capitalismo tardio, talvez a “anti-lei” de Gerson, não sei. Mas sinto que o Brasil avança em solidariedade quando as causas são grandiosas, mesmo que não sejam assim tão grandes.

Não nos faltam solidariedade, nem indignação. Somos mestres em reclamação. O que falta é transformar as intenções em gestos! Isto temos que aprender com eles: ir para as ruas e deixar a cômoda posição da janela.

Ney Sá

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