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Carta/devaneio num domingo belorizontino



Uma foto um tanto fora de contexto, mas tem uma leve referência no final: jovens curtem rock na Praça da Democracia, em Assunção

Especial para o Pilha Pura:

Lucilla,

Você me pede na última carta que eu conte mais amiúde minhas andanças, diz que é “uma maneira de andar contigo”. Diz ainda que “estranhos escrúpulos” te impediram de abrir mais teu coração da última vez que estivemos juntos. Uma vontade de me acariciar, ganas de “não sei o quê”...

Te digo: fiquei emocionado. Uma espécie de amor assim tão desatualizado, talvez uma paixão contida pelos conceitos e preconceitos adequados aos românticos lá do século 19 ou inícios do século passado. Será?

Mas não te apoquente, temos muito tempo pela frente para, quem sabe? viver um grande amor (parece coisa do nosso Vinicius), ainda estamos relativamente jovens, o diabo é este “relativamente”, mas vamos em frente.

Desde aquela agitação, no meio daquela passeata, lá se vão uns três/quatro anos, lembra? quando apertei a tua mão, furtivamente, e você correspondeu, aquilo foi como um manancial de promessas e gozos adentrando corpo e alma, um estremecimento carnal/espiritual. Remocei pelo menos uns 15 anos.

O grande Honoré de Balzac dizia que o maior amor da vida dum homem não é o primeiro, e sim o último. Acho que é uma verdade, apesar do primeiro estar lá sempre pregado na parede da memória.

Gosto de citar isso, embora tenho para mim que nosso querido Balzac tenha sido muito mal sucedido em matéria de amores: pelo que contam, teve bastante êxito com umas coroas aristocráticas, mas babou a vida quase inteira atrás duma nobre russa. Quando conseguiu, finalmente, casar com ela, já estava morrendo com o estômago destruído de tanto tomar café para não dormir e escrever, escrever, escrever, uma obra monumental, no infindável afã de pagar dívidas contraídas bestamente.

Mas vou te contar uma andança aqui em BH, como me pede. Uma só. Foi ontem, sábado, passei pela Praça Carlos Chagas, pertinho daqui de Santo Agostinho onde estou morando, onde fica a Assembleia Legislativa. Topei uns 300 jovens ouvindo música, uns dançando, bebendo, farreando, apartados da overdose papal televisiva da Jornada Mundial da Juventude. Me infiltrei um pouco entre eles. Me contaram que fazem parte dum movimento chamado Hood Boss (desconfio que o nome não está correto, porque não localizei na Internet), dedicado à música jamaicana. Mas pelo menos enquanto estive por lá não escutavam/dançavam reggae.

Estranhei: “Parece mais rock, não?”, você sabe que sou um grande ignorante na matéria. Chequei com um coroa que parecia meio perdido por lá e com um jovem. Eles disseram “sim, mas antes estavam tocando reggae”. Todo sábado se encontram numa praça da cidade, informaram.

Me lembrei duma vez em Assunção, no centro da cidade (Praça da Democracia, guardei o nome na memória, também “democracia” no Paraguai após 35 anos de Stroessner, não dá pra esquecer). Foi lá por agosto/setembro/2009: um bocado de jovens, de camiseta preta, ouvindo rock, dançando rock, fumando maconha, uma beleza!

Ah! ia me esquecendo: esses “estranhos escrúpulos” dos quais  fala... É que você tem um defeito, um defeitinho, vamos dizer assim porque parece que estou meio apaixonado, é que você não é chegada à bebida alcoólica. Estão aí os tais escrúpulos, mas não fique chateada comigo, é só um defeitinho...

Beijos, Lucilla, até mais.       

PS: Desculpe, lamentável a falta duma foto de BH, é que tenho tido uma preguiça incrível de tirar foto. Lembra até um caso clássico do jornalismo baiano. Foi na cidade de Feira de Santana: um jornal feirense deu com destaque que o Fluminense do Rio de Janeiro sagrou-se campeão nacional. O editor, coitado (na época não havia a Internet), procurou uma foto do time pra ilustrar a edição e não conseguiu. Aí teve que apelar para a famosa criatividade jornalística: sapecou lá uma foto do Fluminense de Feira, com a legenda: “Este Fluminense aqui nunca vai ser campeão brasileiro”.

Comentários

  1. Beleza, Jadson. Romântico, hen? No final não resisti de soltar uma gargalhada com essa história da foto.

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  2. Aê, nosso correspondente destruindo corações.....Bom pra matar a saudade dos seus textos mais românticos.
    A história da edição da foto é mesmo genial

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