#MemóriasJornalismoEmiliano – Carmela Talento – Uma fortaleza, sem perder a ternura (Vai chorar, Mané?)



(Comemoração na redação do JBa pela cidadania brasileira de Carmela - eu Chico Vasconcelos, Rêmulo Pastore, Isabel Santos, Emiliano José, Jânio Lôpo...não lembro o nome dos meninos)

Falar de Carmela Talento é lembrar minha própria trajetória, porque ela sempre esteve por perto. Colega, amiga, parceira, cúmplice, irmã...Até no signo nós combinamos, duas cancerianas daquelas que se pudessem botavam os filhos (netos, amigos, parentes....) debaixo das asas.

Com essa série #MemóriasJornalismoEmiliano, o colega e escritor Emiliano José vem nos presenteando com lembranças maravilhosas, algumas já adormecidas no tempo. Uma delícia mexer nesses arquivos da memória, revivendo momentos tão importantes como a conquista da cidadania brasileira por Carmela, comemorada por todos na redação (por isso escolhi essa foto para abrir a postagem aqui no Pilha).

As perseguições de ACM ao Jornal da Bahia; o casamento com o comunista Antônio Jorge Moura; a dignidade com que Carmelinha fez o vereador “desindicar” seu nome para um cargo público, tipo cala-boca; a editoria de política da Tribuna da Bahia, verdadeira escola de jornalismo; a experiência de ser secretária de Comunicação de Lídice da Mata, primeira prefeita de Salvador; a fortaleza ao enfrentar por duas vezes um câncer de mama; e o sofrimento coletivo com a morte do nosso querido Irecê, seu companheiro e amigo de todas as horas. Tá tudo aí nos próximos capítulos, com os comentários dos amigos no face de Emiliano, onde a série é postada originalmente. E muita emoção.

** Antes da série transcrevo aqui o agradecimento ao autor postado por Carmela em seu face, igualmente com os comentários dos amigos. A série tem um intervalo de 20 de dezembro a 20 de janeiro, quando Emiliano fez uma pausa para se dedicar aos capítulos sobre os comunistas que “invadiram” o Jornal da Bahia, por julgar oportuno, neste momento da nossa história, de tantos retrocessos, mostrar por meio de documento oficial como a ditadura perseguia os jornalistas e censurava a imprensa.

**Leiam também os capítulos anteriores de #MemóriasJornalismoEmiliano, postados aqui no Pilha sobre Isabel Santos, euzinha (quanto orgulho), Jaciara Santos, Joana D´Arck, As Comadres (é nós de novo), Anízio Carvalho e Os Comunistas que invadiram o JBa.

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Carmela Talento (AGRADECIMENTO A EMILIANO)
24 de novembro 2019

Quem me conhece sabe que não gosto de homenagens e nunca fui adepta do marketing pessoal, porém, não posso deixar de registrar e ao mesmo tempo agradecer ao jornalista, escritor e ex-deputado Emiliano José, autor de vários livros, entre eles “Galeria F - Lembrança do Mar Cinzento”, “As Asas Invisíveis do Padre Renzo”, as biografia de Carlos Marighella, Lamarca e, mais recentemente, a de Waldir Pires, por ter o meu nome relacionado na série que está escrevendo sobre a trajetória de jornalistas que iniciaram na profissão no mesmo período em que trabalhou no Jornal da Bahia.
Emiliano já contou brilhantemente as histórias de Isabel Santos, Mônica Bichara, Joana D'arck e Jaciara Santos. Só posso dizer que estou lisonjeada e ao mesmo tempo surpresa com a abordagem que vem fazendo e gostando de me ver como personagem de um período importante da história do jornalismo da Bahia, profissão que exerci com ética e responsabilidade em todas as funções que me foram confiadas, nos 43 anos de atividade.

COMENTÁRIOS

Marilia Miranda: Vc merece.
Carmela Talento: 😘
Samuelita Santana: Merecidamente Carmela
Carmela Talento: 😘
Hellio Campos: Parabéns Melina merecida homenagem.
Carmela Talento: 😘
Cleusa Duarte: Parabéns Carmela Talento
Carmela Talento: 😘
Claudio Santos: Parabéns
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Tem razão vc de ficar lisonjeada. Qualquer um, com o talento e caráter de Emiliano, bastaria mencionar "minha humirde pessoa" já ficaria feliz. Emiliano e eu frequentamos aulas juntos na época da FACOM. Lembra Emiliano...rsrsrs
Emiliano José: Beijão, Josefa
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Emiliano José Outro..
Carmela Talento: Vc está certa Josefa Teixeira Ribeiro Silva
Tiago Amorim Brito: Justa! Vc é maravilhosa.
Carmela Talento: Meu garoto fazendo sucesso em Catu!
Sirlene de Melo: Merecida homenagem, Carmelita!! 👏🏽👏🏽
Carmela Talento: 😘
Aninha Ramos: Você é especial, amada e querida por todos...!! Merecedora por ser uma excelente jornalista, sim!! Boa notícia, Carmela!!🌺😘🌹😍🐦🎂🤣🌿💐🌷👏🏽💎📿💥💦🤞🏻💙💞👏🏼💚💝🧡💖
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Concordo Aninha!!
Carmela Talento: Aninha Ramos vc é uma querida !
Carmela Talento: Josefa Teixeira  😘
Mônica Bichara: Nem me fale, Carmelinha. Emiliano José está revolucionando nossas vidas. Realmente tem sido emoção diária relembrar uma página tão bonita da nossa história
Carmela Talento: Com certeza, lembrando de coisas que já estavam perdidas no HD da nossa memória.
Idalina Fonseca: Você merece! 🌹
Carmela Talento: 😘
Vera Lúcia Nascimento Calmon: Parabéns Carmela!
Nadya Argôlo: Também estou adorando ler as histórias. E vc faz parte delas amiga querida!
Carmela Talento: São muitas histórias para contar, não é mesmo amiga?
Mônica Bichara: Nadya Argôlo vc também tem muito a contar, imagino quantas memórias da dupla com Lucinha e com o compadre Reminho Pastore. Né, Emiliano José?
Nadya Argôlo: Verdade...muitas histórias...
Emiliano José: Nadya Argôlo Você pode me ligar?
Bene Simões: Carmela Talento queiras ou não vc é uma referência do melhor da nossa profissão! Abraços
Carmela Talento: Vc foi uma referencia para mim na redação da Tribuna, sempre paciente e tranquilo com todos nós. Bjs
José Fernandes: Carmela Talento você é um exemplo a ser seguido. Espero que estas histórias inspirem os novos profissionais.
Carmela Talento: Vc faz parte dessa caminhada amigo, são muitas décadas de amizade!
Luciana Cruz: Vc merece por seu trabalho e dedicação a profissão nós que agradecemos a ele por esse ato, o Rio Vermelho em festa por ter vc como nossa interlocutora nas ações boas e nas críticas construtivas para melhoria e mudança nas demandas. Parabéns Carmelita 😍🤩👏🏾🙏🏽🙌🏾
Carmela Talento: Vc ajudando a preservar as tradições do nosso Rio Vermelho garantindo com muito esforço todos os anos o desfile do Lero-lero. Grande abraço e continuo na torcida pela completa recuperação do querido Cacau do Pandeiro, ícone da MPB.
Joana D'arck: Minha ídola! Vc merece todas as homenagens e tem muita história boa para contar!
Carmela Talento: ai, ai
Sandra Silva: Parabéns Carmelita!!!👏👏👏👏👏👏
Jaciara Santos: Já disse antes e repito: você é a inspiração de todas nós. Como profissional, como mãe, como mulher. Sou tiete assumida (carmelete de carteirinha), portanto pode parar com essa modéstia. Você é Carmela Carmela Talento. A única.
Djalma Costa Lino: Você merece
Carmela Talento: Grande abraço amigo, e bora Vitória!
Lídice da Mata: Muito boa escolha a de Emiliano, Carmela , um talento do jornalismo baiano !!😁
Carmela Talento: Pois é deputada, Emiliano José resolveu mexer com nossas emoções homenageando as mulheres que iniciaram na carreira de jornalista no mesmo período que ele no Jornal da Bahia e na Tribuna. Como é um excelente escritor e narrador está transformando vidas comuns como a minha, em histórias interessantes.
Emiliano José: Carmela Talento, negativo. Interessante é a vida dessas meninas.
Mônica Bichara: E ser chamada de menina por Emiliano José fica ainda mais interessante, né Carmelinha hehehe
Carmela Talento: Muito melhor do que a velha guarda do jornalismo kkk
Ivan Cláudio: Parabéns Carmela, você merece, é uma excelente profissional. Apesar de termos trabalhado pouco tempo juntos, aprendi muito com você. 😘😘😘
Carmela Talento: Ivan Cláudio minha passagem pelo INSS foi um aprendizado, tivemos um início de relação tumultuada, mas depois nos entendemos e conseguimos fazer um bom trabalho em equipe apesar do pouco tempo. Vc é uma liderança importante dentro da estrutura de comunicação do INSS, reconhecido por todas as superintendências.
Maria De Salete Silva: Parabéns, Carmela querida!
Evanice Maria Dos Santos: Só tenho que parabenizar a todos os colegas que fizeram parte dessa narrativa histórica de um tempo tenebroso da história contemporânea do Brasil. Tive a oportunidade de acompanhar de perto. Foi muito importante para minha melhor compreensão de certos fatos ocorridos, cuja perdas e danos jamais sejam esquecidos, para que nunca mais se repitam. Parabéns, Emiliano.
Mônica Bichara: Nossa Lady Eva, coluna deliciosa do JBa
Carmela Talento: Essa também fez história
Emiliano José: Evanice Maria Dos Santos Me ligue, se puder
Mônica Bichara: Isso tá é ficando bom
Gabriela Rossi; Parabéns! Justo reconhecimento 👋👋👋
Carol Albuquerque: Linda e justa homenagem! Parabéns, Tia!
Isabel Santos: Nada de modéstia Carmelita (Carmela Talento). Você é um talento incontestável, e nós, as outras meninas (como carinhosamente nos chama o querido Emiliano José), estávamos aguardando ansiosas pela sua história, que o amigo/colega/escritor vem contando, com maestria e muita poesia, como sempre. Ele nos fez tirar lá do fundo da nossa memória momentos que pareciam esquecidos, alegrando e emocionando nossos corações. Sou eternamente grata por ele ter nos proporcionado esses momentos, nos fazendo relembrar, na história de cada uma, a história de todas. Porque estávamos (e estamos) todas 'juntas e misturadas'. Na mesma 'vibe', como a galera diz hoje rsss. Portanto, querida, uma homenagem justíssima. Beijão
Mônica Bichara: E um aviso, esse texto de Carmela Talento, com comentários, terá que entrar para a edição do Pilha junto com as memórias de Emiliano José
Emiliano José: Mônica Bichara, nada mais próprio, justo e enriquecedor.
Carmela Talento: Nem sei se mereço tanto carinho, fico até sem palavras para agradecer.🥰😘
Mônica Bichara: Carmela Talento faça uma feijoada e chame a gente hehehe
Carmela Talento; Mônica Bichara dia 2 de fevereiro klkkk
Mônica Bichara: Carmela Talento essa é de lei
Mônica Bichara: Tô com uma conjuntivite arrasadora desde sexta, por isso não estou conseguindo ler os textos grandes nem comentar
Isabel Santos: Realmente, Mônica Bichara, além da feijoada do dia 2, uma outra especial. Vou comer todas as saladas kkkk, que Carmelita também faz com maestria, com muita dose de amor.
Antonio Carlos Tramm: Carmela vosmicê sempre será uma referência da profissão de jornalista. Nosso Emiliano está notabilizando os seus registros ao incluir esta referência da classe
Carmela Talento: Antonio Carlos Tramm vc como sempre muito gentil, grande abraço!
Gabriel Carvalho; Homenagem justíssima. Você é uma jornalista maiúscula e de grande espírito que sabe liderar uma equipe como poucos. Obrigado por tudo sempre !
Carmela Talento: Gabriel Carvalho sorte minha de sempre ter encontrado excelentes profissionais como vc para liderar, assim fica fácil. Bjs
Carmen Correia: Carmela Te conheci na Universidade e desde lá você se mostrou correta, gentil e competente. Vc ser citada como referência é apenas uma constatação, que faz parte da consciência de todos os colegas que tiveram o prazer de te conhecer. Parabéns também p vc Emiliano por mais esse trabalho que certamente trará o mesmo empenho e seriedade. Parabéns às meninas também .
Carmela Talento: Carmen Correia obrigada, vc também é referência

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(Carmela com a mãe, ainda na Itália)

Emiliano José
21 de novembro 2019
Mulheres na luta

Lagonegro é uma pequena cidade do Sul da Itália.
Atualmente, sua população gira em torno de seis mil habitantes.
Carmela Talento não esquentou lugar.
Aos dois anos de idade, seus pais arribaram para o Brasil.
A terra natal, só foi conhecer décadas mais tarde, ao completar 60 anos.
Ao conhecer e desfrutar da pequena comuna entre montanhas perguntou-se por que os pais a abandonaram.
Queriam, quem sabe, "fazer a América", ilusão de todos os italianos chegados ao Brasil.
Pensavam certamente acumular algum dinheiro e voltar à comuna tão querida.
Vieram de terceira classe, navio abarrotado.
Não "fizeram a América".
Não voltaram.
Confesso: só fui saber disso nesse ano da graça de 2019.
Nascida na Itália, mas brasileira de vida inteira.
Não ouvisse dela mesma, e nunca descobriria sua origem italiana.
Naturalmente, tem dupla cidadania.
Nossa relação começou no "Jornal da Bahia".
Primeiro, quando fui chefe de reportagem, ela repórter.
Depois, na condição de editor de Política, ela novamente repórter.
Amiga serena, terna.
Ando falando dessas mulheres intrepidas.
Ocuparam as redações a partir dos anos 1970.
Pra valer.
Não é simples essa conquista de espaço.
Às vezes, necessário forçar a mão, brigar.
A competência nem sempre é argumento suficiente.
Vieram pra ficar.
Nessa série, falei de Isabel, Mônica, Joana, Jaciara, Roberto Carlos e as baleias.
Peço licença agora pra falar um tiquinho de Carmela.
Os primeiros anos de Brasil não foram fáceis.
Os pais quase inventaram um idioma particular, junção do italiano com o português, usado na convivência familiar.
Será portuliano?
Nos primeiros anos do primário, Carmela sofria muito, usava palavras trocadas, enfrentava dificuldades para apreender o sentido de muitos vocábulos.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Só mesmo um historiador de sua categoria para transformar uma vida simplória em história. bjs
Jaciara Santos: Carmela Talento menos modéstia, mestra, menos... Você é a ídola de todas nós!
Carmela Talento: imagine!
Emiliano José: Carmela a grandeza é sua. Eu sou apenas cavalo de orixá.
Isabel Santos: Que simplória que nada, Carmelita (Carmela Talento). Você é uma mestra, como diz Jaciara Santos. Muita coisa boa vem por aí. Estava ansiosa esperando a publicação dos textos gostosos do querido Emiliano José sobre sua rica trajetória. Beijão
Joana D'arck: Olha ela aí! Bem vinda Carmela! Tô na maior expectativa aqui para ver suas histórias contadas por Emiliano. Aí tem muita história, viu mestre! Vamos acompanhar, né Adilson Borges Jadson Oliveira, Isabel Santos Nádia Nadya Argôlo Diogo Tavares Moacy Carlos Almeida Neves Kardé Mourão Nice Melo Claudio Pimentel Mônica Bichara Elieser Cesar Oldack Miranda Alberto Freitas Deta Almeida Daniel Talento Marina Soares Silvana Moura. Gente, vai marcando aí os amigos para acompanharem essa saga.
Nadya Argôlo: Trabalhamos juntas no Jornal da Bahia. Doces saudades...
Mônica Bichara: Simplória, é? Tá bom, Carmelinha, a gente acredita. Mais uma grande irmandade que o jornalismo me deu pra vida toda. Que bom que os Talento vieram pra cá
Silvana Moura: Muito orgulho desta Mamma! 👏👏👏👏
Mônica Bichara: E de quebra ainda criou e nos deu uma família toda linda, muito especial, que tb é nossa
Isabel Santos: Pois é, Mônica Bichara, uma família linda. Sua Mamma, Sil, (Silvana Moura) é um amor.
Bruno Moura: Quem sabe Carmelinha não se anima e continuar aprofundando essa história. Muito orgulho dessa história de luta ! Parabéns Emiliano e obrigado .
Emiliano José: Bruno Moura Mérito de Carmela
Mônica Bichara: Tomara mesmo Bruninho, Carmelinha ainda tem que escrever muitas páginas no jornalismo. E um livro. PQ não, Carmela Talento? Vamos cobrar
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Emiliano José
22 de novembro 2019
Trabalho ao lado de comunistas

Terminado o primário, Carmela Talento faz o ginásio e na sequência cursa o Magistério no Colégio Estadual Edgar Santos.
Professora era o ápice das conquistas da mulher.
Ao menos era esse o pensamento do velho pai italiano.
Ela não se renderia a isso.
Sonhava em ser psicóloga.
Imaginava: exerceria melhor o magistério, entenderia melhor os alunos.
Já dava aulas num colégio particular do bairro do Rio Vermelho.
Presta vestibular em 1971, mesmo ano da formatura como professora.
Marcou Psicologia como primeira opção.
Segunda: Comunicação Social.
Passou na segunda.
Na Escola de Biblioteconomia e Comunicação, da UFBA (EBC) cultivou a ideia de seguir estudando após concluir o curso e vir à frente dar aulas na própria Universidade.
E quem disse?
Alguém manda no destino?
Em 1975, quando recebe o diploma, surge vaga na editoria de Municípios do "Jornal da Bahia".
Carmela estava posta em sossego fazendo um estágio no jornal "A Tarde".
Ajudava o veterano Cruz Rios na coluna "Tempo Presente".
O editor de Municípios do "Jornal da Bahia" era Levi Vasconcelos.
Pede indicação a Pedro Formigli, professor de Prática Jornalística da EBC.
Queria alguém recém-formado com aptidão para o exercício do jornalismo.
O nome dela é mencionado.
Chamada, correu.
Gostava da ideia de vir a trabalhar no jornal símbolo da resistência a ACM.
De estar lado a lado com tantos comunistas ali abrigados.
Chegou à Barroquinha entre esperançosa e apreensiva.
Já conhecia Levi Vasconcelos.
Dele, sem muita conversa, recebe uma pauta.
Faz um texto básico entrega recebe orientação de voltar noutro dia cumpre outra pauta outra outra vai seguindo tratada sempre como foca.
O dono do jornal era quase um mito para muitos jornalistas, inclusive por ela.
A turma dela da EBC o escolhe como paraninfo.
Além de ter uma história vinculada ao PCB, João Falcão nunca se dobrou a ACM.
O jornal vinha de uma belíssima campanha de resistência - "Não deixe essa chama se apagar".
Carmela e seus colegas reconheceram a trajetória de um grande jornalista.
Mas, não só isso.
João Falcão foi comunista desde muito jovem, editor no final dos anos 30 da revista Seiva, dirigente do PCB na Bahia, militante ao lado de Marighella e Prestes, o principal responsável pelo contato com a III Internacional no início dos anos 1940 em Buenos Aires tentando reorganizar o partido.
Registra isso em num livro sobre o PCB - "O Partido Comunista que eu conheci" e faz, ainda, uma biografia sobre Giocondo Dias.
Escreve outro livro sobre o "Jornal da Bahia", do qual ainda falaremos.
Carmela e seus colegas sabiam a quem homenageavam.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Mônica Bichara: Realmente a figura de João Falcão ultrapassava todas as barreiras, era quase uma lenda pra quem estava começando, sobretudo na EBC onde a campanha "Não deixe essa chama se apagar" já era objeto de estudo, citada por vários professores. Tenho o livro e o maior orgulho em constar entre os ex-colaboradores
Emiliano José: Se de alguma forma o papel dele como jornalista foi reconhecido, não se pode dizer o mesmo sobre sua condição de intelectual e dirigente da esquerda. Pretendo, em algum momento, escrever sobre isso.
Isabel Santos Fiquei curiosa, Emiliano José. Vou aguardar. Você é um maravilhoso arquivo. Bj
Joana D'arck: Destino traçado na segunda opção. Tinha que ser! Carmela nasceu pra jornalista.
Mônica Bichara: Emiliano José verdade, a história deve esse reconhecimento a João Falcão. E corrigindo, sinto muito orgulho em ter sido ex-colaboradora do JBa, mas não fui incluída na relação do livro, assim como Jaciara Santos, Isabel Santos e outros colegas da nossa época. As queridinhas foram Carmela Talento e Nadya Argôlo, citadas tanto na relação dos colaboradores quanto na apresentação de Emiliano José. Vamos protestar, Jaci e Bel?
Jaciara Santos: Mônica Bichara tem, moça, o meu e o seu achei. É que não estou com o livro aqui. É em uma relação interna. O de Bel é que não achei em nenhuma das duas listas.
Mônica Bichara: Jura? Só lembro do anexo e da apresentação, vou procurar
Emiliano José: Mônica Bichara Justo. Citar nomes de memória é um risco filhodaputa. Perdão. Muita gente certamente ficou de fora. E muitos não entrarão nessa série. Desculpem.
Emiliano José: Estou tentando...
Mônica Bichara: Emiliano José hahaha brincadeirinha
Jaciara Santos: Mônica Bichara quando eu chegar em Salvador, vou printar o trecho pra você.
Mônica Bichara: Jaciara Santos achei, fotografei
Jaciara Santos: Mônica Bichara agora, o de Bel, realmente, não achei...😔
Mônica Bichara: Jaciara Santos eu tb não, procurei em todas. Vou incluir a foto na postagem do Pilha
Isabel Santos: Agora, sim, Carmelita, sua trajetória. Muita recordação e aprendizado, com o olhar criativo do nosso querido escritor. "Não deixe essa chama se apagar" também está na minha memória. Foi tão forte acompanhar esse momento triste, de muito indignação, do nosso jornalismo, e que definiu para sempre o meu pensar sobre ACM.
Carmela Talento: A possibilidade de trabalhar no JB após concluir a faculdade era só alegria

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(Entrevistando o então prefeito Mário Kertész na Lavagem do Bonfim)

Emiliano José
23 de novembro 2019
Terror de copidesques

Levi Vasconcelos saiu da editoria de Municípios, Utamá Sebastião assumiu e nessa mexida Carmela Talento foi deslocada para a Geral.
No jornalismo, a editoria Geral ou reportagem Geral é a grande escola.
Ali você aprende a ser repórter.
Ou não.
Ali, você é obrigado a fazer de atracação de navio a parto de onça.
Enterro e buraco de rua.
Esgoto e cultivo de rosas.
Seca e inundação.
Faça chuva ou faça sol.
É rito de passagem de qualquer repórter.
Início de jornada em qualquer profissão é difícil.
Você tem todos os medos.
Inseguranças.
Demora até se firmar, conquistar confiança dos editores, e sobretudo até ter segurança de seus méritos, confiança no próprio taco.
Carmela vivia esse momento quando vai para a Geral.
É fase de altos e baixos.
De tropeços.
Acertos.
Um dia de muito ânimo diante de um elogio.
Outro de desânimo face a uma abordagem errada no lead.
É, tá bom, o diploma estava na mão.
Mas, treino é treino, jogo é jogo.
Só se aprende fazendo.
O pouco de prática de jornalismo acumulado viera das aulas com o professor Pedro Formigli, a quem ela nunca deixa de homenagear.
Compartilhamos a redação da sucursal do "Estadão" e pude conhecer os talentos e a responsabilidade profissional dele, seu caráter e suas posições progressistas.
Trabalhou também com Waldir Pires, amizade e admiração comuns.
No começo de jornada, o pavor são os copidesques.
Assim com Carmela.
Tinha um medo danado de Fernando Vita.
Ai de quem fosse flagrado em erro por ele.
Saía sacudindo a lauda pela redação procurando o desinfeliz.
Escapou dele, nem sabe por quê.
Desse assédio se livrou.
Outros do copy eram mais comedidos.
Davam risadas dos erros do reportariado, mas sem alarde, comentavam entre eles apenas.
A equipe do copy era de excelência, o pior era isso.
Ou o melhor.
Um dia, Carmela não gostou da mexida feita por Gilson Nascimento em um de seus textos.
Achou imprópria, mudara o sentido.
Gilson era dos melhores.
Muito discreto, tratava os repórteres com respeito, mas não concordou com Carmela.
Sem alterar a voz:
- Só vou deixar de mexer no seu texto quando você produzir matéria imexível.
Baixou a bola.
Iria perseguir isso.
Sua utopia.
Consciente da não-existência desse texto.
Qualquer texto, no olhar do outro, pode merecer reparos.
Copy era pra isso.
Jornalismo, eterno aprendizado.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

David Go Leal: Jornalismo é a profissão que eu deveria ter perseguido. Gosto do Jornalismo na mesma medida da Licenciatura ou Direito. Limitei-me à Licenciatura em História. Acompanho as suas memórias, sem conhecer muitos dos personagens, mas com o sorriso no rosto - acredito - com a mesma expressão do escritor e dos homenageados. Parabéns pela alma colocada em cada parágrafo e a demonstração de importância creditada àqueles que partilharam contigo a estrada.
Emiliano José: David Go Leal Abração, grande companheiro!
Mônica Bichara: A galera q começa hj nem imagina o q seja um copy, nem revisor tem mais. Mas eram intermináveis os minutos aguardando o copy liberar uma matéria, piscando de medo de ter q voltar pra reescrever tudo, literalmente, pq não existia essa maravilha de copiar aqui e colar ali. Pra confirmar uma informação, então, eram horas de pesquisa no arquivo..... Não sei como a gente dava conta, sinceramente. E qdo o copy ou o editor falavam, só restava baixar a bola mesmo e esperar a próxima pauta
Carmela Talento: Vida de jornalista no inicio não é fácil pra ninguém, mas felizmente aprendi muito com todos os tropeços.
Jaciara Santos: Tenho paixão por meus ex-copies: LA (Luiz Augusto), Gilson Nascimento, Inácio Panzani, Fernando Vita, Zé Maria... e tantos outros que me ensinaram ao longo da vida. Só gratidão! E, sim, aprendi que não existe texto imexível, por mais que a nossa vaidade de repórter teime em dizer o contrário.
Emiliano José: LA e seu sorriso.
Emiliano José: O discretíssimo Gilson Nascimento
Isabel Santos: Também sou muito grata pelo aprendizado com os copies que me ensinaram, me ajudaram a burilar os textos no dia a dia da corrida função de repórter, em especial, no JBa. E o meu maior problema era aceitar o corte das matérias, muitas vezes imensas rssss…Ver mais
Joana D'arck: Gilson foi pauteiro do Correio quando passei por lá. Gente fina, gentil. Tenho boas lembranças. Grande Gilson!
Joana D'arck: TambÉm tive a sorte de conviver com Pedro Formigli. Um bj, amigo!
Mônica Bichara: Pedro Formigli óia vc aí
Mônica Bichara: Carmela Talento vá separando fotos que vc TB vai pro Pilha. Nem pense q vai escapar
Jaciara Santos: Luiz Augusto Dos Santos

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Emiliano José
24 de novembro 2019
O badalar dos sinos

A relação entre copidesques e repórteres não é só desamor.
Creio fosse 1975, eu repórter no "Jornal da Bahia".
Já lá se vão 44 anos.
Fiz matéria sobre o Hospital "Juliano Moreira, abrigo de pessoas com deficiência mental.
Localizado no Engenho Velho de Brotas.
Entrego.
Matéria segue para o copy.
Já escrevia segunda matéria
De repente, surge lá do fundo da redação, onde ficava a equipe de copidesques, uma moça perguntando sobre o autor da reportagem sobre o "Juliano".
Me apresentei, receoso.
Sorridente, ela disse:
- Bela matéria!
Era Mara Campos.
Nunca me esqueci disso.
Difícil compreender o significado de um gesto desses.
Um estímulo e tanto.
Carmela experimentou sensação semelhante.
Já não trabalhava mais em jornal e um dia abre o "Correio da Bahia" e é surpreendida por um título:
"Fui útil ao talento de Carmela Talento".
Crônica assinada por Gilson Nascimento.
Tratava da complexa relação entre copidesques e repórteres.
Em um trecho, recupera a discussão do passado, quando mexera no texto de Carmela.
E o faz positivamente.
Comenta o quanto havia evoluído, tornando-se, ele registra, uma das melhores profissionais da geração dela.
Carmela, recolhendo lições.
Tasso Franco, outro mestre quando chefe de reportagem.
Não falava muito.
Corrigia os textos com os cuidados de um professor rigoroso.
Deixava as laudas com as observações no escaninho do repórter.
Carmela confessa: muitas vezes sentiu vergonha diante dos erros apontados.
Desconfia: Tasso deve ter tido a tentação de demiti-la em algumas ocasiões.
Deve ter se refreado por sentir seu potencial.
Foi aprendendo.
O caminho do conhecimento é áspero.
Frederico Simões eu conheci como pauteiro no "Jornal da Bahia".
Cheguei a substituí-lo numa ocasião, não sei se por férias.
Sereno e competente profissional.
Dá a Carmela uma pauta estranha: acompanhar o badalar dos sinos ao meio-dia.
Festa religiosa, e os sinos tocariam todos ao mesmo tempo.
Que porra faço com isso?
Isso dá matéria?
Foi pra rua com os sinos apertando seu juízo.
Pauta é pauta.
Tem de ser cumprida.
Instalou-se no Terreiro de Jesus, terreiro de várias igrejas.
No horário, os sinos dobraram.
Ela, ouvindo e olhando.
As pessoas: começou a prestar atenção às reações.
Umas, nem aí.
Apressadas, sem dar a mínima.
Tocando a vida.
Outras, paravam, puro enlevo, como se tomadas pelo espírito de Deus.
Outras, mais fervorosas ainda, se benziam, balbuciavam orações, quem sabe um Pai Nosso, uma Ave Maria.
E saiu a matéria, fruto do olhar atilado da repórter.
Compreendeu: de uma pauta estranha, pode sair uma bela criação.
Depende da jornalista.
E cá pra nós: estranha fora a reação dela.
Ia aprendendo...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Mônica Bichara: Maravilha, viajando nesse resgate que vc vem fazendo. Carmela Talento não é comadre a vera, mas faz parte do comadrio de mala e cuia. Ainda mais agora que o pivetinho dela, Daniel Talento, que tanto bagunçava nas redações, meu ídolo, casou com minha sobrinha/comadre/filhota emprestada Marina Soares e me deu mais um sobrinho/neto tão querido. Portanto, o comadrio continua no centro dessas memórias
Joana D'arck: Mônica Bichara e eu também me tornei tia do neto de Carmela. Tamo juntas!
Joaquim Lisboa: Neto Em Santa Maria diziam o seguinte: se o sino dava tantas badaladas era anunciando morte de "anjo", isto é, aquelas crianças que morriam do tal "mal de sete dias"; se eram mais tantas, foi uma que morreu solteirona; e, quando o intervalo entre uma e outra badalada era de um minuto, lá se foi um macróbio...
Emiliano José: Joaquim Lisboa Neto Dá boa matéria.
Joaquim Lisboa Neto: De uns tempos pra cá os sinos já não dobram, os carros de som com Roberto Carlos lamuriando "virgem maria..." varreram os badalos.
Carmela Talento: Assim fui aprendendo que repórter é enxergar além, perceber o que passa despercebido para a maioria dos mortais, desenvolvendo o tal faro jornalístico e contado assim de maneira tão brilhante por Emiliano José fica ainda mais evidente.
Mônica Bichara: Carmela Talento é daquelas jornalistas que se reconhece "no arriar das malas"
Jaciara Santos: Por falar em Mara Campos...essa também tem muuuuuuita história, não é, Emiliano?
Emiliano José: É, mas ela não cede. Já fiz de tudo. Quem ajuda?
Mônica Bichara: Como assim, Mara Campos? Oxe, nem venha fazendo corpo mole, queremos seus causos TB. Campanha lançada: Escreve, Mara!
Joana D'arck: Bora Mara! Conta aí vai!
Jaciara Santos: e a gente achando que Carmela Talento é que era difícil...
Emiliano José: Nada...
Jaciara Santos: Bora, Mara Campos, minha (outra) ídola!
Jaciara Santos: Vamos ter que fazer passeata, espalhar outdoor, distribuir panfletos nos terminais de ônibus, spots em rádios e filmetes mas TVs? Bora trabalhar, Mônica Mônica Bichara, Isabel Santos, Joana D'arck, Carmela Talento. Precisamos de Mara Campos aqui com a gente.
Jaciara Santos: A gente marca e ela nem tchum rs rs rs
Jaciara Santos: #EscreveMara
Emiliano José: Jaciara Santos Não disse?
Joana D'arck: Jaciara Santos 🙋🏽‍♀️🙋🏽‍♀️🙋🏽‍♀️
Joana D'arck: Mara Campos vc está sendo convocada! Responda aí mulher!
Mônica Bichara: Bora Maroca Mara Campos, deixa de doce

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(Coletiva do ex-governador Waldir Pires)

Emiliano José
25 de Novembro 2019
O delírio da máquina de escrever

Já falei do reencontro provocado por essa série.
Um mergulho na própria existência.
Olhar na alma de pessoas queridas, não obstante às vezes a relação tenha sido pouco profunda.
Reencontro Carmela, percebo-a, sinto sua ternura, sua delicadeza, já conhecidas, raramente experimentadas.
Escrever nesses tempos tem isso: se é verdade escrever sempre ter sido um diálogo, hoje ele o é muito mais.
Falo sobre Carmela, e dialogo com tanta gente.
Tempo de internet.
Observo as amizades a cercá-la, o carinho do entorno, o abraço comum.
Não é só com ela, mas agora com ela.
Há o olhar dela, revisitando o passado, me observando, se aproximando.
A gente não percebe esse olhar.
Redação é coisa de louco.
Uma linha de produção.
Um corre-corre.
Um turbilhão.
E você nem sempre se percebe olhado.
Ouço-a:
- Emiliano conhecia de nome já na Faculdade, onde se fazia campanha pela sua liberdade.
Só agora me situo nesse encontro: ela entrava pra Universidade, eu fora preso um pouco antes.
Preso em novembro de 1970.
Carmela faz vestibular em 1971, ingressa na EBC em 1972.
Entre 1970 e 1974, eu estava na Penitenciária "Lemos Brito".
Ela, estudando.
Nos encontramos em 1975, eu chegando ao "Jornal da Bahia", vindo da "Tribuna", ela começando sua vida profissional.
A rigor, eu também iniciava.
Saíra da prisão em setembro de 1974, começara a caminhada na "Tribuna" e em fevereiro chegava ao "Jornal da Bahia".
Nosso destino se cruza aí.
Ela me olhando, só sei hoje:
- Ficava impressionada com a forma como ele datilografava. Não batia à máquina. Batia na máquina dada a força que imprimia ao teclado, e a rapidez com que digitava.
Observando-me, ela ria.
- Dava tapas no painel frontal da máquina, retirava laudas que eram amassadas, jogava na lixeira. Quando terminava, o cesto de lixo estava abarrotado.
Ressalta: todo mundo fazia isso.
Não havia a facilidade de correção de hoje, computador e suas mágicas.
A cada erro, muito xis por cima das palavras, ou lixo.
- Um dia, João Falcão passou pela redação, viu aqueles cestos abarrotados de laudas amassadas, virou o cão. Importava papel, era muito caro, necessário economizar, o jornal passava por crise financeira, o escambau.
De pouco adiantou.
A linha de produção seguia sua rotina.
Os cestos, cheios.
- Emiliano batendo matéria, como costumávamos dizer, era um toc toc toc parecido com um instrumento de percussão.
Talvez, penso hoje, fosse uma compensação.
Nunca aprendera a lidar com um mísero instrumento musical.
A máquina de escrever era um delírio, um frenesi: eu me trancava, não via nada ao lado, podia estar cercado por aquele burburinho infernal da redação, e eu nem aí, e era então pura música, fusão com o pensamento, texto saindo, ritmo, o carro da máquina indo e voltando a golpes firmes, os dedos imprimindo, ritmo, música, creiam, música...
E eu ia imaginar estivesse alguém a me observar?
Carmela estava.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Denilson Vasconcelos: A máquina e o telefone. Nunca vi alguém aliar os dois tão freneticamente, seu Emiliano. Ouvido e voz. E as teclas bailando na frente.
Emiliano José: É mesmo? Desse casamento, não lembro
Denilson Vasconcelos: Você não se via.
Emiliano José: É...
Mônica Bichara: Era frenético mesmo, tentar achar o lead em meio a dezenas de máquinas toc TOC TOC TOC , tvs ligadas, gente conversando, brigando, gargalhando.....e cada um aprendia sua forma de se isolar num mundinho silencioso, se concentrar pra achar o lead e o fio da meada....
Carmela Talento: Observando impressionada com a rapidez que vc datilografia e fico pensando como está se virando com a leveza do teclado do computador kkkk
Carmela Talento: O corretor nem deixa escrever a palavra datilografava, já errei três vezes kkkk
Joana D'arck: O toc toc ... gostava daquele barulho! Eu ficava observando à máquina era Oliveira, na redação da Tribuna . Era frenético no teclado, cheio de toc toc.
Emiliano José: Joana D'arck Penso que Olivetti, não?
Joana D'arck: Emiliano José desculpa, mas não falei da marca, mas do colega Oliveira.
Emiliano José: Joana D'arck Ok.  
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(No Parque de São Bartolomeu)

Emiliano José
26 de novembro de 2019  
Lixo, buraco, enterro

Quando Carmela deparou comigo como chefe pela primeira vez, ficou na bronca.
Eu gostava mesmo era da reportagem, mas cedo cheguei a chefias.
No "Jornal da Bahia", primeiro pauteiro.
Depois, chefe de reportagem.
O subchefe era Teixeirinha - José Carlos Teixeira.
Um parceiro e tanto, profissional de primeira, será meu colega na redação do "Estadão".
Foi aqui meu primeiro exercício como chefe de Carmela.
Ela não gostou.
- O camarada só me dava pauta de buraco, lixo e esgoto. Ô período que tinha buraco nessa cidade!
Só agora estou me dando conta disso.
A gente, no exercício da chefia, não nota a reação dos repórteres.
Vai distribuindo as pautas, e vida que segue.
Carmela sentiu-se penalizada.
As pautas mais quentes iam para outros jornalistas.
Ela, virando especialista em buraco, lixo, esgoto.
Chegou a considerar fosse implicância de chefe.
Não era.
Reconhece: de buraco em buraco foi firmando seu texto.
As matérias com lixo, esgoto, crateras espalhadas pela cidade foram excelentes experiências, um belo aprendizado.
Foi aprendendo: não eram simplesmente lixo, esgoto, buracos.
Eles revelavam as precárias, miseráveis condições de vida do povo.
Parecia uma tarefa menor cobrir buraco, lixo, esgoto.
Não era.
Entendeu:
-Aprendi: no jornalismo e na vida é preciso ter humildade e responsabilidade com tudo que se faça por mais simples que a tarefa possa parecer.
Claro, se ela sentiu um excesso meu, deve ter razão na bronca.
Menezes, um de meus chefes ao chegar à "Tribuna", disse de minhas péssimas reações quando recebia uma pauta pouco estimulante, ou considerada assim por mim.
Por Isso, compreendo Carmela.
E de nada adiantará tentar pedir desculpas, passado tanto tempo.
Não gostava de buracos, nem de cobrir enterros.
Ninguém gostava de fazer enterros.
Tasso Franco, diante da cara feia de Carmela ao receber uma pauta de enterro, foi firme e didático:
- Um repórter que conseguir fazer uma boa matéria de enterro fará qualquer outra bem.
Seguiu para o cemitério do Campo Santo pensando na observação do chefe.
O tempo estava nublado.
O céu, cinzento.
Juntou os sinais da natureza com o clima de tristeza do enterro, deu beleza, leveza e emoção à matéria.
Fugiu do habitual.
Tasso gostou.
Começava a ficar pronta para qualquer cobertura.
Aprendendo.
Nem sempre fazendo pautas agradáveis.
A vida é dura.
E bela.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Joana D'arck: Apois, a vida é um aprendizado, né Carmela? O buraco te levou longe! Kkkkk
Carmela Talento: No meio do caminho tinha buracos
Mônica Bichara: Olha Tasso Paes Franco aí de novo ensinando que cobertura de enterro era o grande teste do repórter....Contei a mesma coisa nos meus capítulos da novela, digo da série #MemóriasJornalismoEmiiano, com o enterro de dona Isabel Santana, Campo Santo lotado de democratas e comunistas em plena ditadura militar. E euzinha lá só ouvindo Tasso dizer "anote tudo, até o endereço do túmulo", puta responsabilidade.....Mas acho que passei no teste pq a matéria saiu do jeitinho q eu fiz. Cobrir buraco e esgoto era coisa de foca, a gente sempre torcia o nariz, mas realmente revelavam o estado de abandono da cidade
Carmela Talento: Vida de repórter é mesmo uma novela !

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 Emiliano José
27 de novembro de 2019  
Cidadania brasileira

Carmela Talento sentia-se brasileira.
Lagonegro era lembrada apenas quando os pais a revisitavam nostalgicamente em conversas na sala de jantar.
Sentia-se, mas não era.
Ao menos formalmente.
Descobriu: necessitava da cidadania brasileira para continuar a exercer a profissão.
Já estava contratada pelo "Jornal da Bahia" quando recebe a galinha pulando: estrangeiros não podiam exercer a profissão de jornalista.
Coisas da ditadura.
Quem sabe fosse ela uma perigosa comunista.
Não tinha escolha.
Conseguir a tal cidadania ou abandonar o jornalismo.
Imaginou as dificuldades.
O tempo exigido.
Ia ser um tormento.
Felizmente, equivocou-se.
Mais ou menos.
Entrevistada na Polícia Federal, responde às perguntas.
Viu-se depois em uma sala com outras pessoas também em busca da cidadania brasileira.
Tensa.
Pediram fizesse uma interpretação de texto.
Fez.
Depois, uma leitura oral.
Fez.
Até a um ditado foi submetida.
Tensa.
Que será que será?
O processo seguiria para Brasília, a ser analisado pelo Ministério da Justiça.
De qualquer modo, já tinham a ficha de cada um, descartada assim a hipótese de algum subversivo ou subversiva italiana pretender agitar no Brasil.
O ditador era o general João Batista Figueiredo.
Ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.
Mal ou bem, era momento de abertura.
Já havia acontecido a anistia, os ventos pareciam soprar a favor.
Geisel prometeu distensão.
Mas, iria continuar a matar, segundo ele próprio assegurou.
E continuou.
Figueiredo, cercado pelo avanço das lutas populares, não reprimiu da mesma forma.
Mas, ditadura.
Prometeu prender e arrebentar.
Não teve condições.
Gostava mesmo era de cheiro de cavalo.
Gente não era com ele.
Carmela, tensa...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Isadora Browne Ribeiro: Carmela é uma mulher de fibra, Alguém muito espacial.
Carmela Talento: Isadora Browne Ribeiro , bondade sua
Isadora Browne Ribeiro: Carmela Talento tenho provas. Rs. Beijo
Carmela Talento: Realmente foi um período de muita tensão e ainda teve entrevista para saber a razão do pedido de cidadania !
Mônica Bichara: Suspense.....Carmelinha tinha cara de comunista, conversa de comunista, roupa de comunista, mas.....kkkkk
Joana D'arck: Até provar que nariz de porco não é tomada...eita confusão!

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Emiliano José
28 de novembro de 2019
Racismo

Anizio Felix era um companheiro bem humorado.
Fumante inveterado, só aceitava Continental sem filtro.
Droga por droga, sem filtro.
Teve papel destacado à frente do Sindicato dos Jornalistas.
Tivemos divergências no encaminhamento das lutas corporativas.
Vistas à distância, secundárias.
Ontem, na Assembleia Legislativa, homenagem ao centenário de nascimento de João Falcão, Levi Vasconcelos dizia da amplitude de visão trazida pela idade, pela experiência.
Olha-se as pessoas com seus méritos, qualidades, defeitos, e conseguimos valorizar mais o lado positivo, salvo as exceções.
O tempo é senhor da razão.
O olhar torna-se menos sectário.
Assim com Anizio.
Companheiro e tanto, dedicado à luta.
Amigo.
Fez de um tudo no "Jornal da Bahia".
Durante muito tempo, editor de Internacional.
Naquele momento, ao chamar Carmela, chefe de Reportagem.
Havia recebido denúncia de racismo.
O fato teria ocorrido num prédio da Rua Princesa Isabel, Barra Avenida.
Negro não podia usar o elevador social.
Só o de serviço.
Negro, sempre disposto a uma boa briga, sabia bem de racismo.
Sabia na pele.
Pede a Carmela pra apurar.
Combinou: uma funcionária negra do setor de assinaturas, linda de morrer, a acompanharia.
O fotógrafo num primeiro momento ficaria à distância.
O porteiro, distraído, deixou-as entrar.
Iam primeiro ao apartamento do denunciante.
Carmela, um tanto desalentada.
Aquilo não ia render.
Já à porta do elevador, percebem a chegada do porteiro, desperto de sua letargia, esbaforido, dirigindo-se à branca Carmela:
- Minha senhora, a senhora pode subir pelo elevador social, mas a amiga aí deve ir pelo de serviço.
A amiga aí...
Carmela subiu nos tamancos, armou um barraco, tremeu de indignação:
- Isso é um absurdo, nós vamos para o mesmo andar, é uma ordem ilegal.
- Não, ela não pode subir por esse elevador. A senhora me entenda, é ordem da síndica.
O fotógrafo se aproximou e começou a disparar.
O porteiro, nervoso:
- Estou apenas cumprindo ordens, minha senhora.
Uma confusão dos diabos.
Todo mundo entrou na dança: síndica, o autor da denúncia, a prática confirmada como corriqueira, Carmela papel e caneta, ouvindo cada um, síndica tentando negar sem muita segurança.
Manchete do dia seguinte.
Bafafá.
Tremenda repercussão.
"Veja" e "Manchete" repercutiram.
O ditador Geisel mandou apurar.
Um fuzuê.
Inquérito aberto pela Polícia Federal...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Joaquim Lisboa Neto: O ditador de hoje não mandaria apurar nada, pelo contrário, iria condecorar a síndica.
David Go Leal: Na nossa "Baêa", hem?!
Emiliano José: David Go Leal RACISMO, TAÍ!
Carmela Talento: Os anos passaram e esse tema ainda é recorrente, infelizmente!
Joana D'arck: Carmela Talento infelizmente. E agora ainda nos vemos com a aberração da nomeação do presidente da Fundação Palmares negando a existência do racismo e falando barbaridades contra a luta anti-racista. Muito revoltante!
Carmela Talento: Exatamente isso
Mônica Bichara: Grande bafafá, Carmela jogando duro contra o racismo, dando visibilidade a um tema até então tabu. Só o JBa pra dar essa manchete, orgulho
Carmela Talento: Mônica Bichara o que mais deixa a gente triste é que passados mais de 40 anos e esse tema continua presente, uma vergonha !
Mônica Bichara: Carmela Talento exatamente, um absurdo que além de ainda ser prática corriqueira o racismo ainda temos um governo que dá cargo de autoridade em matéria de políticas públicas de reparação a um racista declarado

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 (Entrevistando Dom Helder Câmara para o Jornal da Bahia)

Emiliano José
29 de novembro de 2019
João Falcão

Ontem foi dia de celebrar uma vida.
Por iniciativa do jovem e promissor deputado Alex Lima, a Assembleia Legislativa lembrou centenário de João Falcão.
Merecida homenagem.
Militante comunista por duas décadas, clandestino a maior parte do tempo, fez o contato do PCB com a III Internacional em Buenos Aires, 1942, preocupado em reorganizar o partido esfacelado com as prisões do Estado Novo, dirigente estadual da Organização, militante ao lado de Marighella e de Prestes no Rio de Janeiro, preso algumas vezes, só romperá com os comunistas em 1956, quando das revelações dos crimes de Stalin.
Jornalista, edita a revista "Seiva", solitária publicação de esquerda.
Era 1938.
Conseguiu agrupar intelectuais de todo o País, surpreendente para um jovem de 19 anos.
É fechada em 1943.
Findo o Estado Novo, funda "O Momento", jornal do PCB, berço de vários profissionais do jornalismo baiano.
Em 1958, seu maior feito jornalístico: o "Jornal da Bahia".
Um sopro de renovação do jornalismo baiano.
Ainda falarei muito dele.
E no outono da existência, João Falcão se debruça sobre a história e constrói uma notável obra memorialística envolvendo a história do PCB, sua militância, a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial, biografia de Giocondo Dias, a história do "Jornal da Bahia", a épica batalha contra ACM, "Não deixe essa chama se apagar", vários livros.
Rigorosamente, um homem de ideais.
Personagem à espera de biografia.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Antonio Silvany: João Falcão, o feirense motorista de Marighella!
Mônica Bichara: Vc é o mais indicado para essa biografia, Emiliano José. Conviveu com ele, trabalhou com ele, militou.....o melhor nome
Lucia Correia Lima: Mônica Bichara VERDADE pois o amor a fonte é fundamental p inspiração
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(Com os filhos Bruno e Silvana e a neta Luíza)

Emiliano José
30 de novembro de 2019
Gravidez não é doença

A matéria sobre o racismo da Barra Avenida teve vários desdobramentos - suites, como chamamos no jargão jornalístico.
Outros repórteres entraram no jogo.
Carmela foi logo impedida de seguir no caso: laringite, febre alta, confinada em casa vários dias.
Fora convocada para depor no inquérito, mas não pôde comparecer.
Uma noite, ouve batidas na porta de casa.
Era a Federal.
Um agente, um escrivão sobraçando uma Remington.
Queriam a todo custo o depoimento dela.
Que fazer?
Depor, né.
Nacionalidade, estado civil, religião, idade, os cambau.
Sua casa virou delegacia de polícia.
Sentiu assim.
Delegacia da Polícia Federal.
O agente queria saber de tudo, tim tim por tim.
E ela depondo.
Tranquila.
Não tinha nada a esconder.
O relato era sua matéria.
Estava tudo lá.
A vida seguiu - o jornal continuou a acompanhar o assunto.
O prédio suspendeu a norma racista, a síndica foi afastada, o porteiro foi demitido, sempre culpam o pobre coitado.
O inquérito nunca foi concluído.
Carmela faz balanço: o trabalho na editoria Geral lhe deu a chance de fazer de tudo.
E foi enchente, e foi desabamento de encostas, e foram ocupações a se espalhar pela Salvador empobrecida, e foi tudo.
Já se disse: repórter passou pela Geral, está pronto.
Pode seguir viagem.
Cobriu tantas passeatas, acompanhou movimentos sociais e suas lutas.
Igreja era pauta permanente, e rica.
A Igreja Católica, depois de 1970, após ter se equivocado e apoiado o golpe de 1964, tornou-se casamata da resistência à ditadura.
Sempre rendia boas pautas.
Carmela entrevistou dom Hélder Câmara, cobriu visita de Madre Teresa de Calcutá, acompanhava as atividades da Arquidiocese de Salvador.
A cobertura dos desabamentos marcou-a profundamente.
Revelava a desigualdade, a inexistência de uma política habitacional voltada aos pobres, obrigados a buscar as perigosas encostas, a erguer barracos instáveis, incapazes de suportar chuvas, fininhas fossem.
Mesmo grávida, cobriu desabamentos, subiu e desceu morros, escalou ribanceiras, sofreu muito, compartilhou lágrimas, o sofrimento de tanta gente a chorar o teto perdido, muitas vezes perder filhos, mães, pais, um desespero.
Houve quem argumentasse com Frederico Simões, Fred, o pauteiro: devia poupar Carmela grávida, dar-lhe pautas mais leves.
Ele, sem alterar minimamente a voz:
- Gravidez não é doença.
Carmela concordou.
A gravidez nunca a tirou de nenhuma pauta - lembram-se de Jaciara sempre grávida Roberto Carlos e as baleias e o Paraguaçu e Cachoeira?
Mulheres intrépidas, essas.
Carmela continuou a subir o morro...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Jaciara Santos: Cadê que Mônica Bichara num fala nada? Carmelita embuchou mais vezes do que eu kkkkkkkk
Emiliano José: Jaciara Santos É, alguém há de investigar mais de perto esse mundo de gravidezes atribuídas a você. Tarefa pra uma boa repórter. Vou sugerir a Mônica Bichara. Afinal, é excelente, fuça bem, não?
Mônica Bichara: Verdade que Carmela Talento embuchou mais q Jaci. Mas qdo eu conheci já tinha Bruninho novinho. Foi produção em série Daniel Talento, Silvana . Ainda bem q gravidez não é doença, né comadres,?
Jaciara Santos: Emiliano José fato!
Carmela Talento: Mulher na redação tudo era mesmo novidade, até gravidez, rsrs.
Mônica Bichara: Carmela Talento inda bem q não era doença, TB embuchei duas vezes

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Emiliano José
1 de dezembro de 2019 ·
O dragão da maldade contra o santo guerreiro

Ói o auê aí ói!
Não é que Carmela foi chamada pra um?
Aquilo não era uma pauta.
Era um puta auê.
Pauteiro às vezes não tem dimensão onde está jogando a repórter.
Vê a galinha pulando e manda a perdigueira atrás.
Que se vire nos trinta.
É com ela, Roberto Carlos e as baleias.
Esse não era um auê qualquer.
Opunha o dragão da maldade e o santo guerreiro.
Valentin Calderón de La Vara e Glauber Rocha.
Glauber, dispensa apresentação.
Calderón, diremos duas ou três palavras à frente.
A pauteira era Rosa naquele dia 27 de dezembro de 1977.
Creio Rosa Bastos, com quem trabalhei na "Tribuna da Bahia", doce e talentosa.
Soube do início da turbulência no Museu de Arte Sacra, localizado nas dependências do Convento de Santa Teresa, no Sodré.
Despachou Carmela.
A pauta noticiava a presença de Glauber Rocha e equipe no Museu para uma filmagem a ser aproveitada no filme "A idade da terra", um dos últimos do cineasta.
Ou será o último?
Carmela se animou.
Glauber Rocha era sinônimo de agitação, sempre ele mesmo um auê.
Papel e caneta, sai do jornal, pega a direita, sobe a ladeira de acesso à Praça Castro Alves, rua Carlos Gomes, desce a primeira à direita e estava no destino.
Foi a pé.
Um pulo.
Primeira repórter a chegar.
Do portão do Museu, avista atores, atrizes, figurantes, algumas com hábitos de freira.
Norma Bengell, preferida de Glauber, túnica preta, o corpo em forma de cruz, carregada pelo grupo.
Carmela intuiu: o grupo seguiria caminhando até a capela do final da ladeira, onde entraria carregando aquela cruz humana.
Tudo certo, tudo bem.
Até o surgimento do dragão da maldade.
Talvez a metáfora seja uma crueldade.
Se for, o leitor equilibra com seu tirocínio, sua sagacidade.
Valentin Calderón, espanhol, vivia havia décadas na Bahia.
A partir de 1960, meteu-se pelo interior do Estado.
Arqueólogo, realizou escavações em pelo menos 50 sítios arqueológicos datados do período colonial.
Doou os mais de 200 objetos descobertos ao Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA (MAE).
Documentou grande parte das obras do Museu de Arte Sacra da Bahia, estudo inédito à época, publicado em 1981.
Então, diretor do Museu.
Com méritos.
Do contado à época, Glauber teria feito tratativas com o professor Fernando Rocha Peres, diretor do IPHAN, para as filmagens.
Naturalmente, Calderón também teria conhecimento.
Não de todos os propósitos de Glauber, porém...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Aí vem coisa!
Emiliano José: Carmela Talento A protagonista é você...
Carmela Talento: Emiliano José com a sua narrativa tudo fica ainda mais interessante
Mônica Bichara: Bote interessante nisso, um verdadeiro filme do filme. Que Norma Bengel q nada, a protagonista aqui é Carmelinha. Ansiosa pelas cenas dos próximos capítulos
Carmela Talento: Mônica Bichara o bom é que a gente tem o que contar, como diria Irecê o ensaio está ficando bom kkkk

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Emiliano José
2 de dezembro de 2019  
Meu amigo Golbery

Glauber, para aquela cena do Museu de Arte Sacra, não queria pouca coisa.
Imaginou se espalhar.
Era um bailado de freiras.
Precisava espaço.
Foi dando ordens à produção: arrastou todo o mobiliário, orientava 10 a 15 figurantes vestidas de freiras, ele de camisa aberta, feito um furacão, conversava com Clyde Morgan, o dançarino, um dos presentes à cena.
A crônica da época conta tivesse a pretensão até de arrastar o altar e o tabernáculo de prata da capela-mor para facilitar a filmagem.
Glauber sendo Glauber.
Não se sabe se verdade, numa cabeça como a a de Glauber é possível, pretendia as freiras dançando sobre tumbas de eminências ali sepultadas.
Glauber sendo Glauber.
Santo Guerreiro.
É, mas surgiu o dragão da maldade.
Carmela o viu chegar, espumando, Valentin Calderón, aos gritos:
- Vamos parar com tudo!
Chegava a alegar não houvesse autorização para as gravações.
Talvez tivesse, mas certamente era duro demais para ele ver o seu santuário profanado daquele jeito - porque aquilo era um santuário, ele, o sacerdote.
Um santuário cuidado com imenso carinho, dedicação, desvelo.
Glauber sobe nas tamancas, gesticula, grita com Calderón de La Vara.
Jece Valadão, o ator, todo conciliador, queria acalmar os ânimos, via os dois a ponto de se atracarem, aquilo não ia dar boa coisa:
- Peraí, minha gente, vamos conversar como gente civilizada.
Glauber, camisa aberta, suando muito, não queria conciliação.
Gritando, procurava um telefone, Carmela testemunhando tudo:
- Quero um telefone. Vou falar com meu amigo Golbery do Couto e Silva!
La Vara, inflexível:
- Quem manda aqui sou eu!
Terra em transe.
Jece Valadão continuava tentando colocar panos quentes.
Glauber, aos gritos, elevando o tom:
- Franquista!
- Fascista!
Uma cena insólita, fora de roteiro: Glauber, o revolucionário Glauber, xingando um fascista, assim considerado por ele, querendo falar com um dos homens centrais da ditadura para conseguir autorização para gravar cenas de seu filme.
Boa matéria - pensou Carmela.
Cena suspensa.
Coisa de cinema.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Até hoje tenho na memória essa cena. Um privilégio ter visto bem de perto Glauber numa atuação que poderia tranquilamente fazer parte do próprio filme.
Joana D'arck: Essa profissão nos permite testemunhar momentos memoráveis, não é Carmela? É muito bom esse projeto de Emiliano pra gente poder relembrar episódios marcantes como esse seu.
Carmela Talento: Joana D'arck isso mesmo amiga
Mônica Bichara: Nossa, q experiência. Fosse na época dos celulares e Carmela Talento teria feito um filme mais famoso q os de Glauber. Mas que bom que o enredo ficou todo guardado na memória fotográfica da nossa jornalista.
Carmela Talento: Se tivesse celular Glauber ligaria diretamente para Figueiredo kkkk

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Emiliano José
4 de dezembro de 2019
Dois padres da pesada

Paulo Tonnucci seria o padre casamenteiro.
De alguma forma, ele satisfazia também Antônio Jorge.
Chegara da Itália em 1965.
Compunha missão italiana, Renzo Rossi junto.
Vinham, os dois, dispostos a se integrar à vida das periferias da Bahia.
Radicaram-se pelas bandas da Fazenda Grande, Alto de Perus, Capelinha de São Caetano, periferia brava.
Escrevi biografia sobre Renzo, "As asas invisíveis do padre Renzo".
Amigo dos dois, mais de Renzo, o principal sacerdote no trabalho de solidariedade aos presos políticos durante a ditadura.
Eram os escolhidos de ex-presos políticos para a realização de casamentos.
Ao menos eram sacerdotes progressistas.
Como se escolhê-los, compensasse a concessão.
Paulo, mais à esquerda, entre a Teologia da Libertação e o marxismo.
Renzo, num primeiro momento, mais conservador, um cura italiano, convertido à esquerda quando passa a visitar prisioneiros políticos.
Eram duas figuras extraordinárias, cristãos dedicados aos melhores ensinamentos do Evangelho.
Paulo era tão bravo, tão radical, a ponto de considerar conciliação visitar prisioneiros políticos - isso coonestava com a ditadura.
Renzo tinha outro perfil: esteve preso, fui visitá-lo, cristão das catacumbas.
Denilson Vasconcelos, ex-preso político, casou-se com minha irmã Picida.
Celebrante: Renzo.
Oldack, também ex-preso, e Alice casaram-se, e um dos dois foi o celebrante, não lembro qual.
Carmela, certamente num acerto com Antônio Jorge, teve Paulo Tonnucci como o sacerdote a selar a união dos dois.
Paulo conhecia a família, frequentava o Lobato, bairro onde Antônio Jorge morava.
E acalmava os ímpetos comunistas do noivo.
Atenuava a concessão.
Ao menos, era um padre radical.
Renzo, na longa convivência com os presos políticos, casando-os depois Brasil afora, ficava impressionado como se separavam.
Raramente esquentavam lugar.
Coisa de comunista, devia pensar.
Esses meninos... murmurava, sem fazer recriminações.
Rápida digressão: estou no aeroporto.
Sigo pra Havana.
Pode ser necessária uma pausa.
Quem sabe adiemos o casamento.
Só o realize na volta, 18/12.
Perdoem, mas Cuba merece.
Vão casar, mas terão de esperar alguns dias.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Elmo Alves: Saudades de padre Renzo, fui da paróquia da Fazenda Grande do Retiro, de nossa senhora de Guadalupe.
Tenho muito orgulho de ter convivido e aprendido muito com Renzo.
Joana D'arck: Cuba merece! Morrendo de inveja aqui dessa sua pausa. Estive lá em 1986, uma experiência fantástica que gostaria de repetir. Tive o privilégio de apertar a mão de Fidel no clube da Praia do Varadeiro, de assistir ao show de Pablo Milanês, de conversar com os cubanos e dançar salsa no Hotel Nacional durante sete dias do Festival de Cinema. Maravilhosa! Aproveite muito querido! Conte-nos sobre o que vivenciar por lá. Boa viagem
Zeca Peixoto: Boa viagem, professor! Curta bastante e tome um mojito por mim! Forte abraço!
Oldack Miranda: A memória vai se apagando, heim? Emiliano, vc foi testemunha do meu casamento, celebrado por Padre Paulo Tonucci, na Igreja Jesus Maria José, do Jardim Brasil, Barra, em julho de 1976. A igrejinha lotada por ex-presos políticos, e militantes da luta contra a ditadura. Lembro-me que o então vereador Marcelo Cordeiro estava presente. Quem enfeitou a simpática igrejinha para o casamento foi Fátima Mendonça, Fatinha, amiga de infância de Maria Alice. Adelmo Oliveira, advogado das invasões na luta pelo direito de morar, foi o padrinho.
Mônica Bichara: Aproveite o passeio, TB quero voltar. Fui com Zoraide pro mesmo Festival de Cinema q Joana D'arck foi, só q um ano antes. Maravilhosa experiência. TB apertei a mão de Fidel no jantar q ele ofereceu aos 800 participantes do evento, no palácio, comida de tudo qto era lugar, até vatapá tinha. E ele em pé na entrada, recepcionando cada um dos convidados. E o discurso de encerramento do festival, no teatro, quase uma hora falando e eu fotografando, com credencial de imprensa internacional, me achando. Um fotógrafo acho q gaúcho não conseguiu a credencial e me pediu p fazer as fotos com a máquina dele. Tempos de filme q precisava rebobinar, tirar um e botar outro.....claro q não ia dar certo. O filme dele, q já veio colocado, deve ter prestado. O meu......pensem na decepção, nem uma fotinha pra contar a história
Isabel Santos: Mais emocionantes lembranças. Meu casamento também foi celebrado por padre Paulo, meu querido e inesquecível amigo, como qual muito aprendi cresci como cidadã mais consciente, sobretudo na política. Não poderia ser outra pessoa, e Luís Otávio acatou tranquilamente a sugestão. Senti muito quando retornou para se despedir, já doente, do Brasil. Uma missa linda foi celebrada em sua homenagem na Igreja Nossa Senhora do Guadalupe, na Fazenda Grande do Retiro, onde tanto ele realizou junto à comunidade local. Obrigada Emiliano José pela recordação, e tenha uma feliz viagem a esse país que tive o prazer de conhecer em 85/86. Estive lá grávida do meu primeiro filho André Luis (André Borges), curtindo o réveillon na orla de Havana junto com os cubanos. Foram momentos enriquecedores, conhecendo a história do lugar, percorrendo escolas, hospitais, presídios, creches, visitando famílias, curtindo a cultura, circulando e ônibus. Pena que estava enjoando muito, e, por isso, experimentei a culinária famosa. mas tomei muito iogurte das 'vacas de Fidel', como se dizia na época. Uma delíííícia. Aproveite, enquanto ficamos aqui aguardando mais episódios da trajetória de Carmela Talento no jornalismo baiano. Bj
Carmela Talento: Emiliano José obrigando a gente a mergulhar nesse túnel do tempo, quantas lembranças, quantas emoções. Quantas pessoas que passaram por nossas vidas e que já se foram! Aguenta coração!
Isabel Santos: Realmente, Carmelita, é muita emoção...

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Emiliano José
5 de dezembro de 2019
Casamento e tentação

Não, não vou adiar o casamento.
Se é da vontade de Antônio Jorge Moura e Carmela Talento, seja.
Não obstante esteja em Cuba, terra comunista.
O ofício sagrado deu-se no bairro do Rio Vermelho, São Salvador da Bahia.
Os dois, metidos em suas melhores roupas.
Casa de uma tia da noiva, irmã do pai dela.
Ao lado da residência onde ela própria morava.
Havia uma sala de visitas, e nela uma pequena, pequeníssima capela, onde reluzia bela imagem do Coração de Jesus, em frente à qual foi montado um pequeno altar para a cerimônia.
Era uma doce vingança do pai e da tia católicos, e ainda por cima italianos. Comunista nenhum ia estragar festa da filha única.
Ou da sobrinha querida, no olhar da tia.
Estava tudo muito bem.
Não fosse numa Igreja.
Não fosse numa catedral.
Mas, tudo devia ter parecença com Igreja de verdade.
Coração de Jesus, altar, padre.
E de batina.
Padre Paulo Tonnucci estava a caráter.
A Igreja estava repleta de convidados.
Jornalistas, muitos.
Faltou o fotógrafo, arrastado por atividades profissionais.
Padrinhos, como de lei, da boa tradição.
Anízio Félix, um deles.
Fred Simões, o outro, não conseguiu chegar a tempo.
Substituído por Vittorio Molicone.
Carmela considera ter sido tudo muito informal.
Nem tanto.
Chegou ao altar de braços dados com o pai.
Comunista nenhum tiraria esse gosto do velho italiano.
Foi pela manhã.
Muita comida, muita bebida depois das juras de amor para toda a vida.
Não durou tanto.
Chegou a ser rápido.
Em todo o caso, suficiente para terem três filhos, "a melhor coisa que fiz no jornalismo", na definição de Carmela.
Na cerimônia e depois dela, houve uma paixão súbita e algum constrangimento.
Amiga de Carmela foi arrastada pelos olhos azuis de padre Paulo, não conseguiu mais se livrar deles, não se afastava do sacerdote nem que a vaca tossisse e o boi saísse voando.
Deu muito trabalho para tirá-la de perto do sacerdote, muito seguro de sua missão, resistente a tentações.
Nome?
Carmela não entregou.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Viviane Andrade Sant Ana: "Babado" como costuma-se dizer!
Ana Lusia Talaiby: Sua veia poética encanta até o mais carrancudo comunista. Saudades do meu político favorito
Carmela Talento: A memória falhou e deixei de citar um outro padrinho muito querido e por quem AJ tinha grande admiração Eloi, irmão de Barretinho, Jose Jesus Barreto
Mônica Bichara: Ainda estou com muita dificuldade pra ler por causa da conjuntivite. Mas como perder as cenas desse casamento? Já conheci o casal casado, só nunca soube dessa veia comunista de AJ. Essas memórias estão revelando é coisa
Carmela Talento: Pois é Mônica Bichara, Só não lembro se ele foi filiado ao PCB, mas o relacionamento com o partido era muito forte. Acho que ele se filiou ao MDB isso no tempo que o partido era sinônimo de resistência .
Mônica Bichara: O grande MDB raiz, abrigo de muitos comunistas
Joana D'arck: Parece que estamos na cerimônia, com essa narrativa de Emiliano! Muito bom. Seus filhos devem estar amando essas histórias, né Carmela?
Carmela Talento: Joana D'arck estão acompanhando cada capítulo como se fosse uma novela
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(No bloco Ô Vidão, na campanha do colega Rêmulo Pastore a vereador)

Emiliano José
6 de dezembro de 2019
Memória corroída pelo tempo

Oldack Miranda escreveu "Lamarca, o Capitão da Guerrilha" comigo.
Tem memória de elefante.
Guarda tudo, desde a mais tenra infância.
Parece minha irmã Picida, a quem recorro amiúde para recuperar memória da família.
Eu, nas últimas horas, fui surpreendida por ele: lembrava detalhes do casamento dele, do padre celebrante, Paulo Tonnucci, da igrejinha do Jardim Brasil em Salvador, da presença de Adelmo Oliveira, da decoração feita por Fátima Mendonça, atual mulher de Jaques Wagner, e até de mim como testemunha, de Alice, a noiva.
Memória prodigiosa assim, raro, especialmente quando o sujeito já ultrapassou a casa do meio século.
Confesso inveja.
Mas, nem cabe desculpa: ele, em raríssimo momento de irritação, disse num textinho de whatsapp, da corrosão de minha memória, avariada pela passagem do tempo.
E recomendou, quase intimou, fizesse eu logo a correção.
E eu, besta não sou, registro as informações daquele casamento de quase cinquenta anos atrás.
Exagero: foi em 1976.
Memória é um problema.
Para alguns.
Não para privilegiados.
Minha irmã e Oldack Miranda.
Ele está me devendo depoimento sobre sua passagem pelo jornalismo, coisa fácil pra ele.
Sigo na companhia de Carmela Talento, já casada, cerimônia do mesmo ano de Oldack e Alice, mesmo padre.
Ela registra: a relação com Antônio Jorge Moura a levou ao convívio frequente com o mundo da política.
Num período conturbado.
De muita luta pela democracia.
Ela e o marido, imersos nessa luta.
Acompanhou a saída dos últimos prisioneiros políticos das prisões.
Dos da Penitenciária "Lemos Brito", cuja última leva saiu em 1979, com a anistia.
Menos Theodomiro Romeiro dos Santos.
Fugiu antes, 17 de agosto, se a precária memória não estiver me traindo.
Dos militantes e dirigentes do PCB, recolhidos à então Casa de Detenção.
Acompanhou a chegada de alguns exilados.
Manifestações pela anistia.
Passeatas.
Organização das mulheres no MDB, quando conhece Amabília Almeida.
Um dia, no partido, viu-a escrevendo em cartolinas, produzindo cartazes para uma passeata.
Eram fixados em madeira.
Como olhava muito, Amabília virou-se pra Carmela, e disse:
- Menina, são pirulitos. Pirulitos democráticos.
Jamais se esqueceu da expressão, usada sempre quando cobria passeatas e os via colorindo a avenida.
Pautas cobertas com imensa satisfação...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Devanier Lopes: Jóia
Carmela Talento: Os pirulitos democráticos de Amabilia Almeida se tornaram obrigatorios. Em qualquer manifestações lá estão eles exibindo palavras de ordem do momento.
Carmela Talento: A minha memória também não é das melhores Emiliano José. Foi com muito esforço que consegui colocar no papel algumas lembranças, imortalizadas daqui pra frente por vc com essas história.
Mônica Bichara: Olha a foto que achei de Amabília, feita por mim em Havana, em 1986, em uma visita a Hélio Dutra (nem sei como fui parar aí junto, acho que foi graças a Zoraide Vilasboas). Foto histórica, apesar de péssima
Carmela Talento: Vc é uma colecionadora de histórias,Mônica Bichara ! Quantas recordações !
Mônica Bichara: E a coincidência de vc aí em Cuba, hein Emiliano José? Já visitou o Memorial Hélio Dutra? Manda foto prá a gente
Mônica Bichara: Olha Bisa Almeida

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Emiliano José
7 de dezembro de 2019
Pirâmide invertida

Amabília Almeida tornou-se parte da vida de Carmela.
Acompanha a trajetória dela desde os primeiros tempos do Jornal da Bahia.
Conheceu de perto sua vida de educadora.
Sua militância política de esquerda.
Seu engajamento no velho MDB, depois PMDB.
Na verdade, esteve sempre muito ligada ao PCB.
Além de tudo, foi casada desde muito jovem com Luís Contreiras, um dos principais dirigentes do partido na Bahia.
Eu próprio militei lado a lado com ela em Brotas, onde morávamos os dois, quando no PMDB.
Compartilhei a Constituinte baiana com ela em 1989, os dois, deputado estadual.
Carmela assessorou-a durante a Constituinte, e se recorda de ela ter conseguido incluir na Constituição um capítulo inteiro sobre direitos das mulheres graças à articulação com os movimentos feministas e sua notável habilidade política.
Voltamos um pouco.
Em 1980, grávida do terceiro filho, foi escalada pelo chefe de Reportagem, Tasso Franco, para cobrir junto à Arquidiocese os preparativos para a visita do Papa João Paulo II a Salvador.
Havia uma pedra no meio do caminho.
Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, cardeal, andava de nariz torcido com Carmela.
Não ficara nada satisfeito com uma reportagem feita pela jornalista.
Em entrevista sobre assuntos relacionados à Igreja, o cardeal deixou escapar a gravidade da
situação financeira da Universidade Católica.
Carmela, já experiente, esqueceu todo o resto, e tascou a informação no lead, e a matéria serviu de base para manchete do jornal.
O cardeal virou uma arara: havia dito isso no final da entrevista, e a jornalista escandalizou, ligou pro jornal e as porra.
Carmela foi conversar com ele, argumentou, não sei de que adiantaria, ter usado a técnica da pirâmide invertida, uma técnica jornalística a concentrar o mais importante no lead, mas ele não engoliu.
Ouviu rumores: teria pedido a cabeça dela.
Não acreditou.
Quando começou a cobertura dos preparativos para a chegada do Papa, ainda o sentiu de pé atrás com ela.
Devagar, devagar foi recuperando a confiança dele....
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Isadora Browne Ribeiro: Carmela e Amabília juntas é luxo. Só pra lembrar, Amabíla foi a única mulher constituinte na Bahia.
Carmela Talento: Tive o privilégio de acompanhar a atuação de Amabilia Almeida desde o início e conhecer Dom Avelar bem de perto e só tenho boas lembranças de ambos.
Bruno Moura: Lembro dessa época com Amabilia , depois Rui Bacelar e trabalhando no jornal. Estou aqui acompanhando cada capítulo dessa História . Parabéns
Carmela Talento: Vc foi parte importante dessa história, meu filho. Não fosse vc e seus irmãos, Silvana Moura e Daniel Talento, a vida não teria a menor graça!
Mônica Bichara: Amabília é um dos grandes exemplos que temos de boa política, além de acompanhar de perto sua atuação também escolhi a Escola Experimental, de Amabília e a filha Bisa Almeida, pra confiar a educação de minha filha Clara. Melhor escolha que fiz
Silvana Moura: Que maravilha acompanhar cada capítulo da sua história, minha mãe! Obrigada, Emiliano!

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(Nesta foto sou eu e não Carmela entrevistando Dom Avelar)

Emiliano José
8 de dezembro de 2019
Dom Avelar: um homem bom

É, devagar devagarinho, Carmela foi recuperando a confiança de dom Avelar.
O cardeal era figura carimbada pelas forças de segurança.
Que ninguém se engane.
Estou voltando no tempo.
Lembro: uma noite chuvosa, e Rui Patterson sobe na grade, eu também, e começamos a conversar, estávamos confinados em celas distantes uma da outra.
Conseguíamos nos ouvir.
Se a minha memória estiver boa, atentem para o alerta de Oldack a aprontar a corrosão dela, saía o cardeal Eugênio Salles, e entrava dom Avelar Brandão Vilela na Arquidiocese de Salvador.
Nessa noite, naquela análise de conjuntura feita aos gritos, empoleirados em grades, concluíamos, eu e Rui, ser um avanço a chegada do novo cardeal.
Saía um conservador de quatro costados, entrava um moderado-progressista, se a expressão couber.
Talvez nem caiba.
Dom Avelar nos surpreendeu.
Positivamente.
Celebrou missa na Penitenciária "Lemos Brito" para os presos políticos, num episódio cheio de controvérsias: uma parte dos companheiros não admitia por materialistas, outra concordava, por considerá-la um inegável fato político, não obstante também ateus.
Venceu a missa, todos estavam presentes, e por provocação de dom Avelar, intervimos no Ofertório com verdadeiras palavras de ordem, atentos estivéssemos, e estávamos, aos ritos da cerimônia e às limitações da situação.
Missa e ato político- terminou sendo.
Teve a ousadia de celebrar o casamento de Theodomiro Romeiro dos Santos e Conceição, também na "Lemos Brito".
Virou o cão, com perdão da palavra, quando a ditadura investiu contra o jesuíta Cláudio Perani, dirigente do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS).
Dialogava bem com o grupo Moisés, articulação de sacerdotes vinculados à Teologia da Libertação, entre os quais estavam Paulo Tonnucci e dom Timóteo Amoroso Anastácio.
Deu retaguarda ao padre Renzo Rossi na sua pastoral de fronteira: a visita aos prisioneiros políticos do Brasil inteiro, com declaração por escrito.
Isso não era pouco: tratava-se do arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.
Fazia tudo Isso sem alarde, sem declarações bombásticas.
Não era um panfletário.
Como Lenin, desculpem a heresia, considerava inútil palavras de ordem em situações complexas.
Agia.
Um bom pastor.
Um príncipe da Igreja.
Fazia política.
E tinha lado.
Sou testemunha.
Chegou a me consultar, eu já solto, sobre a situação dos companheiros ainda presos, sempre disposto à solidariedade.
Um homem bom.
Sujeito à ira, como aquela provocada pela pirâmide invertida de Carmela.
Mas, seu coração já abrandara.
Como bom Príncipe, não esqueceu, e volta e meia lembrava com alguma dose de branda ironia, da pirâmide....
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁROS

Oldack Miranda: Os ex-presos políticos guardavam uma reverencial admiração por dom Avelar Brandão Vilela. Já com democracia e Emiliano livre, fomos juntos ao Palácio Episcopal. Emiliano fez uma entrevista com Dom Avelar, não me lembro o assunto, nem para qual veículo. Não me intrometi, fui apenas o motorista. Fomos os dois engravatados. A desdizer Emiliano, não tenho boa memória, mas restou me esforçando.
Reinhard Lackinger: Assisti a missa da aula inaugural da Escola Técnica Federal da Bahia em 1973 com dom Avelar. Fiquei assustado! Imagine um fascista linha dura! No fim dos dias dele, humanizou-se.
Carlos Pereira Neto: Siuffo VERDADEIRO.
Carmela Talento: Que bom Emiliano José vc resgatar essa história de Dom Avelar. Muito importante para as novas gerações. Parabéns !
Mônica Bichara: Foram tantas pautas com Dom Avelar, nas minhas memórias postei até uma foto com ele em visitaà antiga " invasão das Malvinas", hoje Bairro da Paz
Jose Jesus Barreto: Que grande e justo depoimento/testemunho, Emiliano. Dom Avelar foi marcante e fundamental. Sim, um cristão no mais puro significado.
Eliana Rolemberg: Lembro de nossas conversas no CEAS. Era o jantar "obrigatório", convite de Cláudio Perani, Toda a equipe participava. Dom Avelar tinha coragem, também. Teve um primeiro de maio com manifestação proibida e pedimos sua intervenção. Fomos ao Campo Grande e ele esteve junto!
Jose Tavares: Você tem razão Emiliano José. Àquela época, João Durval no governo da BA, Manoel passos na Emater/ BA, nós todos em greve por 90 dias, filho de ACM presidente da assembleia legislativa e Dom Avelar a nós receber no Palácio com palavras animadoras. Éramos mais de 2700 funcionários da capital e interior, vindos em ônibus e apoiados por muitas lideranças do estado. Ele, dom Avelar foi decente. E Manoel passos foi embora da empresa e na saída quase me atropelou. Eu era presidente da associação de servidores
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Emiliano José
12 de dezembro 2019
Morte de Clériston Andrade

Às portas da eleição de 1982, o burburinho: o helicóptero da comitiva do candidato ao governo apoiado por ACM, Clériston Andrade, estava desaparecido.
Carmela é despachada para o Palácio de Ondina.
Os rumores davam conta de uma tragédia, outra.
Ninguém confirmava nada.
Cansada quando voltara da enchente de Santo Amaro, sentiu as forças recobrarem ao ser jogada no centro de outra cobertura eletrizante.
Jornalista é assim, ou era: ressuscita quando uma notícia bombástica se avizinha.
O sangue ferve
O cansaço desaparece.
Carmela, apesar do silêncio oficial, observava o nervosismo dos funcionários da guarita do palácio, a prenunciar a tragédia.
Finalmente, a confirmação: todos os passageiros do helicóptero morreram.
Inclusive, Clériston Andrade.
Carmela varou madrugada.
Foram horas intensas.
Um abalo para todos.
A chapa da Oposição, liderada por Roberto Santos, recebeu a notícia no comício de Feira de Santana, na mesma noite.
Waldir Pires era candidato ao Senado.
Sofreu com a morte de Clériston.
Fizeram Direito juntos, morou junto com ele em pensão da mãe, foram muito amigos na juventude.
Não obstante as diferenças políticas, tinha estima por ele.
Esteve presente no velório realizado no Palácio da Aclamação.
Um cenário impressionante, no relato de Carmela: todos aqueles caixões enfileirados, a dor dos familiares.
Sentou em uma das janelas do palácio para ter mais visibilidade, anotava todas as autoridades presentes, aspecto principal de sua pauta.
Restava agora, para ACM, o desafio da indicação do novo candidato.
Desafio até certo ponto.
Tinha consciência de sua força, de seu prestígio
Exibia essa força.
Ostentava-a.
Costumava dizer: elejo quem eu quiser, até um poste.
Um repórter, na ocasião, perguntou se ele considerava ser possível fazer o sucessor em tão pouco tempo.
- Conseguiria eleger até sua mãe - foi a resposta dele, no registro de Carmela.
E ela completa, em seu depoimento:
- O pior é que elegia mesmo.
Indicou João Durval Carneiro.
Era o seu poste.
E elegeu-o.
Carmela tinha razão...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Mônica Bichara: Pior é q o cara elegia mesmo qualquer poste. Lembro bem do dia, estava em um concurso de música do Ilê, no Forte de Santo Antônio, quando a notícia espalhou. Não se falava em outra coisa
Carmela Talento: E ele fazia questão de mostrar a força, nada de atitude humilde. Esse negócio de é vamos ver, quem sabe, não era com ele
Mônica Bichara: Carmela Talento muito pelo contrário

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Emiliano José
13 de dezembro 2019
ACM: bom de lead

Os jornalistas sabiam da arrogância de ACM.
Arrogância e a presunção.
Carmela o conhecia bem.
Nunca chegou a ser destratada por ele.
Isso não.
Ouvia uma ou outra farpa contra o "Jornal da Bahia", de quem era inimigo, contra o qual desenvolveu feroz perseguição no seu primeiro governo.
Quando ouvia um "jornaleco" vindo dele, fechava a cara, e ponto.
As relações entre os dois seguiam assim.
Ele dizia a outros jornalistas ou a seus próximos:
- Aquela moça parece não gostar de mim.
Era verdade.
Não gostava nem um pouquinho.
Por Isso talvez fosse ainda mais rigorosa em traduzir com muita fidelidade as palavras dele.
Errasse alguma coisa, e seria acusada de tudo.
Nunca achou graça nas ironias dele.
Nem da mania dele de apelidar outros políticos.
Nunca admitiu intimidades com ele.
Testemunhava, no entanto, atitudes complacentes de alguns colegas.
Riam das piadas, das ironias.
Não percebiam: ele gostava de criar intimidade para na primeira chance, humilhar.
Alguns jornalistas gostavam de exibir essa intimidade.
Um repórter achou-se tão íntimo dele a ponto de numa entrevista chamá-lo de "você".
Levou o troco na hora:
- Você, não!
- Governador!
- Me respeite!
Foi um constrangimento geral na coletiva.
Carmela disse ter quase morrido de vergonha pelo colega.
Espera-se tenha aprendido a necessidade de o jornalista manter alguma distância da fonte, especialmente se governador.
Para não ser humilhado na frente de todos.
Como ele foi.
Uma vez, ACM, querendo aproximação, depois de uma coletiva, os colegas ainda ali, batendo papo, chamou Carmela do lado.
Queria mostrar o equipamento de som de seu escritório.
Carmela pensou rápido.
Chamou os demais colegas.
Não ia entrar com ele sozinha no escritório nem a pau.
ACM disse, mostrando a parafernália de som a ocupar toda uma parede, dirigindo-se a Carmela:
- Mostro pra você depois não dizer no seu jornaleco que isso foi comprado com dinheiro do governo.
ACM, não obstante tudo, sabia lidar com a notícia.
Como propiciar um lead.
Carmela confessa: quando cobriu Ondina, nunca saiu de lá sem um bom lead.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Verdade, ele sabia gerar notícia.
Mônica Bichara: Disso ele entendia muito bem, nunca desapontava. Já o poste.....kkkk
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Emiliano José
14 de dezembro 2019
A tragédia da rua

Carmela cobriu a reinauguração do Teatro Castro Alves.
Acontecimento em grande estilo.
ACM não ia perder a oportunidade.
Precisava capitalizar politicamente.
O teatro tinha história.
Memória às vezes falha e só me valho dela nesse momento, exclusivamente.
Jorge Ramos, nosso Jorginho, há de me socorrer.
É memória da Bahia.
Antônio Balbino o construiu e ás vésperas da inauguração um incêndio o pôs abaixo.
Me parece era fim de governo, 1958/1959, e não houve tempo de colocá-lo em pé novamente.
Ao menos, é o que vem à mente.
Foi erguido, é uma obra belíssima, palco dos maiores espetáculos de Salvador até os dias atuais.
Nesse segundo governo de ACM, foram feitos reparos, e ele era reinaugurado com pompa e circunstância.
Carmela chegou a se assustar com tanto luxo.
Todos vestidos a rigor.
Uma gala só.
Ela, jornalista, não tinha essas obrigações.
Da entrada do teatro, mirou o entorno, o outro lado da rua, em frente, praça do Campo Grande.
Muitos mendigos e moradores de rua.
Sua consciência política alfinetou-a.
Seu senso ético gritou.
Que contraste!
Chegou ao "Jornal da Bahia" fez a matéria sobre a reinauguração, de acordo com a melhor técnica jornalística.
Não resistiu, no entanto: elaborou um comentário para a coluna política.
Dizia do contraste entre o fausto, o luxo, o requinte do interior do teatro, e a rua povoada de mendigos em andrajos, esfomeados, uma esmola pelo amor de Deus.
A grande tragédia era aquela - escreveu.
Não a que se desenrolara no palco.
Os atores das dores reais do mundo estavam logo ali em frente.
Não lá dentro.
A arte imita a vida
ACM explodiu.
Não gostou nem um pouquinho.
Pessoas ouviram-no sacar uma de suas frases ferinas:
- Só tem Carmela. Talento, nenhum.
Carmela se divertia.
Preocupação teria, aí sim, se ACM tivesse algum apreço, alguma admiração por ela.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Mônica Bichara: Verdade, se ACM elogiasse é q seria problema. Carmela Talento nunca foi talento só no nome . Só mais uma malvadeza do cabeça branca
Carmela Talento: Ficaria muito preocupada se ele tivesse gostado kkkkk.Sinal que algo estava errado

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Emiliano José
15 de dezembro 2019
Odorico Paraguaçu x ACM

O maior gosto de Carmela Talento no Palácio de Ondina foi fazer a cobertura da visita do prefeito Odorico Paraguaçu, da cidade de Sucupira.
Ela ainda estava no "Jornal da Bahia".
O prefeito fora a Salvador para uma audiência com o governador.
De presente, trazia um pote de cocada.
Sabia dos gostos do governador.
Gostava de dar presentes aos maiorais da República, cocada baiana de preferência.
E de receber presentes de quaisquer visitantes.
O prefeito pretendia provar ao governador a condição de Sucupira como área de segurança nacional.
A ditadura havia Instituído essa figura para uns tantos municípios brasileiros.
Na Bahia, entre vários, lembre-se de Camaçari e Candeias, o primeiro pelo Polo Petroquímico, o segundo pela Petrobras.
O prefeito veio alinhar as razões pelas quais Sucupira reunia condições para ser considerada naquela condição.
Com Isso, o prefeito, ele próprio, Odorico Paraguaçu, seria nomeado pela ditadura como chefe do Executivo do município.
Sem necessidade do voto.
Uma mamata.
Os prefeitos desses municípios, segundo as regras da ditadura, prescindiam do voto.
Odorico Paraguaçu estava doido pra livrar-se da escolha popular.
E tornar-se assim um pequeno ditador.
Desfazia-se daquela fila de pedidos diários e podia esmagar os adversários.
Agiria como o governador, também nomeado pela ditadura.
Vida boa.
Voto só atrapalha.
Ainda mais no caso dele, Odorico Paraguaçu, cuja imagem andava muito desgastada devido às mal ajambradas calúnias de seus adversários, dedicados sempre a intrigas, desprezando o bem de Sucupira.
A prosperidade do município dependia de o governador aceitar suas ponderações, convencer os militares, e aí era só correr pro abraço.
Até ali, o prefeito, devido aos obstáculos e intrigas de seus adversários, não havia conseguido inaugurar uma de suas principais promessas de campanha: o Cemitério de Sucupira, ansiosamente esperado pela população.
Indicado, estaria de mãos livres, e poderia atender anseios dos vivos e dos mortos, mais dos mortos, abandonados, sem ter onde descansar os ossos.
Os leitores sabem, ao menos aqueles com um pouco mais de idade: Sucupira é uma cidade imaginária.
Tudo se passava na novela "O Bem Amado".
O prefeito era Paulo Gracindo, o notável ator.
Interpretava o corrupto Odorico Paraguaçu.
Corrupto e divertido.
ACM não podia negar...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Gostei muito de fazer essa cobertura, Odorico e ACM a arte imitando a vida
Mônica Bichara: Faço ideia, deve ter sido hilário
Carmela Talento: Mônica, Odorico era a própria caricatura de ACM
Mônica Bichara: Lembro bem, Carmelinha. O todo poderoso chefão
Isabel Santos: Era ver Odorico, me lembrava de ACM. Não tinha como não ser assim. Era hilário e triste ao mesmo tempo.
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Emiliano José
16 de dezembro 2019
Odorico Paraguaçu na cabeça

Pois é, como ACM iria negar um pedido da Rede Globo para a gravação em torno da novela "O Bem Amado"?
A Rede Globo era muito poderosa.
A ditadura a tinha em alta conta.
Sem exagero, era um dos grandes poderes naquela conjuntura.
Era aconselhável tratá-la bem.
Pelas relações com a ditadura, de quem ele, ACM era eterno devedor.
E por ela mesma.
Um dia haveria de precisar de algum grande favor, e ela não negaria.
Não negou: em 1986, quando Waldir Pires derrotou o pupilo dele, Josaphat Marinho, em memorável eleição, Roberto Marinho entregou a retransmissão da Rede Globo na Bahia, até ali em mãos da família de Luiz Viana.
Foi o trunfo necessário, fundamental, para ressurgir das cinzas e vencer em 1990, primeira vez pelo voto.
Até ali, seus dois mandatos de governador e o de prefeito de Salvador foram decorrentes de indicação da ditadura, a quem ele sempre soube mimosear, inclusive com cocadinhas.
Claro, deve ter tomado cuidados.
Conversou com Paulo Gracindo.
Mas, não apareceu no capítulo gravado no Palácio de Ondina.
Sabia dos riscos.
Não desconhecia a sátira.
Uma parte dos telespectadores podia estabelecer relações entre a figura de Odorico Paraguaçu e ele.
Os métodos tinham semelhança.
Mas, e daí?
Outra parte gostaria, o governo da Bahia e ele, o palácio residencial, tudo era símbolo do poder, e isso era positivo.
ACM sabia lidar com a mídia, sempre soube.
Erigiu-se como mito a partir dela, da capacidade em manipulá-la.
Deixou fossem gravadas cenas dele saindo e entrando e saindo do Palácio de Ondina.
No capítulo da novela, numa das tomadas,. aparece um cabeça branca sentado numa cadeira, de costas, um figurante simulando ser o governador.
Após a equipe de filmagens deixar Ondina, ACM, bem humorado, comentou a visita de Odorico Paraguaçu.
Lembrava muitos prefeitos recebidos por ele.
Confessou rir muito com o protagonista da novela.
Só não admitiu sua parecença com ele, o quanto reproduzia os métodos dele.
Carmela Talento contou tudo isso.
As fotos foram de Paulo Mocofaia.
Matéria de página inteira no "Jornal da Bahia".
Título sugestivo, de Césio Oliveira:
"Odorico na cabeça".
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Isso é a história da política da Bahia, contada por quem sabe. Parabéns Emiliano José!
Emiliano José: Vivida pela protagonista. Contada por ela.
Mônica Bichara: Emiliano José tb tem se revelado um grande noveleiro ao relembrar essas memórias do jornalismo baiano. Ansiosa a cada dia aguardando as cenas dos próximos capítulos. Até hoje a sede da prefeitura é chamada de "cemitério de Sucupira", que não inaugurava nunca por falta de defunto
Isabel Santos: Pra variar, amei, Emiliano José. Que saque. E Camelita Carmela Talento lhe dando rédeas para sua criatividade voar. 👏👏👏👏👏👏
Ceci Toledo: Adorei o texto
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Emiliano José
18 de dezembro 2019
Fonte x jornalista

ACM, já se disse, sabia lidar com a notícia.
Costumava dizer: há alguns jornalistas amantes da notícia.
Outros preferem estímulos não propriamente noticiosos.
Era necessário atender às duas espécies, de acordo com o raciocínio dele.
Não sei se era maldade.
Talvez não.
O mais provável, infelizmente, um retrato em branco e preto da realidade de nossa profissão.
Daquela época, ao menos.
O fato: há muitos amantes da notícia, a enxergar no jornalismo, missão.
Carmela, uma dessas pessoas.
Atravessou décadas sempre com os mesmos ideais.
Não adiantava acenar com ouro, incenso e mirra.
Nem sei tenha havido alguém com ousadia para tal aceno.
Creio não.
Tinha tesão era pela notícia.
E ACM era bom nisso: propiciava bons leads.
Isso todos reconheciam.
Uma verdade: quando saiu do governo, após eleger o seu poste, a denominação era dele, João Durval Carneiro, quando saiu deixou saudades.
Na cobertura política, os jornalistas ficaram órfãos, ao menos quanto ao governador.
João Durval Carneiro era insosso, inodoro e incolor.
Notícia dali não saía nem a pau.
Carmela Talento cobria o governo e ficava atônita com a natureza lacônica do novo governador.
Tentava, tentava e nada.
Era um gelo só.
O pauteiro, volta e meia, inventava maneiras de entrevistar ACM, cujo escritório ficava no Desenbanco.
Carmela gostava, não obstante não nutrisse qualquer simpatia pelo personagem.
Era uma forma de escapar da geleira João Durval Carneiro.
ACM sabia esquentar o noticiário, não temia a polêmica, atraía os amantes da notícia.
Ele se construiu como uma fonte referencial para os jornalistas do Brasil inteiro.
Porque não tinha papas na língua, era ferino, irônico, gostava de destratar os adversários, não importava fosse verdade ou não.
O adversário tinha de refutá-lo, e ele gostava disso.
Mantinha-se à tona.
Sob quais critérios éticos, outra discussão.
Ele se sabia útil aos repórteres ansiosos por uma boa abertura.
Compreendia a técnica jornalística,
Fora repórter de polícia na juventude.
Carmela valia-se disso.
É da dialética da relação fonte x jornalista, bem conhecida de Carmela. #MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: O tipo de fonte que era melhor acompanhar de perto, rsr
Mônica Bichara: Geleira foi a melhor definição que já vi pra João Durval, perfeita. Não tinha emoção, não tinha reação, não alterava a entonação....cumpria bem sua função de poste; A água e o vinho, não fedia nem cheirava, sem sal e sem açúcar.....Já o malvadeza, quanta diferença. Toda entrevista era um suspense, uma tensão
Jorginho Ramos: A síntese dessa relação de ACM com os jornalistas era essa : " Tem dois tipos de jornalistas: os que adoram a NOTÍCIA e os que adoram dinheiro, emprego, favores. Não dê dinheiro aos que adoram a NOTÍCIA e não dê notícias aos que adoram dinheiro, empregos e favores."
Isabel Santos: Isso, Emiliano José. Não o 'engolia', mas não se pode negar que ACM era "uma fonte referencial para os jornalistas". Tudo fazia para assim ser. Se era jogo sujo ou não, pouco importava. Ele queria ser notícia, mostrar seu 'poderio', sempre desafiar quem não estava do seu lado e 'futucar' a imprensa. Carmelita Carmela Talento aproveitou bem essa fonte para realizar seu trabalho, com isenção e competência.

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Emiliano José
19 Dezembro 2019  
Chuva, suor e cerveja

Carmela continuou a cobrir política.
Depois da frustração da campanha das Diretas Já, houve a do Colégio Eleitoral.
Seria a eleição indireta do presidente da República pelo Congresso Nacional.
Frustração, em termos.
A campanha das Diretas Já foi uma das maiores mobilizações da história.
De uma forma ou de outra, representou a pá de cal na ditadura.
Carmela cobria a chegada de Tancredo Neves a Salvador.
Era o candidato do PMDB à presidência.
Disputaria no Colégio Eleitoral, constituído por deputados federais, senadores e delegados de assembleias legislativas.
Aeroporto lotado de jornalistas.
Ouvir o candidato seria o trivial.
Ela percebeu um solitário José Sarney, candidato a vice, sem nenhuma atenção da imprensa.
Resolveu, além de cobrir Tancredo, entrevistá-lo.
Chegou no "Jornal da Bahia" com as duas matérias.
Deram destaque ao candidato a presidente.
Nenhuma importância à matéria com Sarney, jogado a um canto de página.
Natural.
Ninguém podia adivinhar: por ironias e trapaças da história, Sarney viria a ser presidente da República.
Carmela atirou no que viu, acertou no que não viu.
No dia da votação do Colégio Eleitoral, os políticos baianos, um grande número de militantes da esquerda, lideranças de diversas tendências políticas, acompanhavam a votação animados por um trio elétrico, na parte baixa da Igreja do Bonfim.
Espécie de rescaldo da recém-festa do Bonfim, cujas barracas ainda estavam espalhadas por ali.
Baiano não perderia a chance de um carnaval fora de época.
Confirmada a vitória de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, por placar folgado, 380 a 180, uma euforia contagiante.
Virou carnaval, festa.
Carmela recorda-se de Amabília Almeida dançando, tal a alegria.
Todo mundo dançava.
Fim da ditadura.
Não era pouca coisa.
A repórter se inebriou.
Entrou na dança.
E se embebedou.
Modo de dizer: pouco afeita ao álcool, tomou uma ou outra cerveja, e ficou tontinha tontinha.
Não entendia como tantos colegas bebiam boas doses de álcool e cumpriam suas tarefas como se nada tivesse acontecido.
Chegou muito alegre à redação do "Jornal da Bahia".
Alegre, e sem condição de escrever mísera linha de matéria.
Bebinha.
O mundo rodando.
Olhava para a máquina de escrever, aquela coisa estranha à sua frente, e ria, ria, ria.
Alegria sem fim.
O coração em festa.
Até hoje não sabe se chegou a escrever alguma coisa.
Se alguma coisa foi aproveitada.
Sorte: havia outros repórteres na cobertura.
Não houve prejuízo.
Ela, só alegria...
Deixa a vida me levar...
Um dia inesquecível, aquele 15 de janeiro de 1985.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Lembro que chovia e que cheguei molhada por fara e por dentro, foi o meu dia de bebum, chuva, suor e cerveja. ô dia! parafraseando Roberto Carlos, se chorei ou se sorri o importante é que no jornalismo emoções eu vivi!
Joana D'arck: Carmela Talento taí, não conhecia essa sua. Kkkkkkkk
Carmela Talento: Joana D'arck a caminhada foi longa amiga, tem muita história para contar.
Joana D'arck: Carmela Talento conta tudo! Tô ligada!😉
Carmela Talento: Joana tudo não dá, é muita coisa e vai se perdendo na memória , tentando lembrar alguns momentos mais marcantes. Bjs
Joana D'arck: Carmela sozinha vale um livro. Né Mônica Bichara Jadson Oliveira Jaciara Santos Isabel Santos Franciel Cruz Marina Soares Adilson Borges Diogo Tavares Nadja Miranda Deta Almeida Manoel Porto Borega Melo Joana Vitória Alberto Freitas Jolivaldo Freitas Bene Simões
Mônica Bichara: Ô se vale.....Carmela Talento tem é história. E esse dia foi mesmo inesquecível. Lembro que teve concentração e passeata tb no Campo Grande e eu estava lá, vibrando com cada detalhe, registrando as manifestações, as caras pintadas, os discursos
Deta Almeida: O bom da vida são os imprevistos. Maravilha!
Mônica Bichara: Emiliano José e Carmela Talento, tenho aparecido pouco por aqui pq a conjutivite foi tão agressiva que deixou sequelas, ainda não consigo ler sem forçar as vistas. Vou ter que fazer um procedimento pra tentar corrigir isso. Mas vai passar, não vejo a hora. Aliás, por mais uma coincidência a comadre Jaciara Santos também enfrentou problema sério nas vistas que a deixou longe dos "textões"

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Emiliano José
21 de janeiro 2020
Carmela, Zé Maria e o dilúvio

... Muita água havia corrido debaixo da ponte.
O jornalismo deixara de ter o glamour imaginado por Carmela Talento nos primeiros tempos.
Trabalhadora.
Era isso - trabalho, muito trabalho.
Uma trabalhadora - agora sentia-se ao lado das milhões, dos milhões espalhados pelo Brasil, a vender sua força, sua criatividade.
Era a maldição bíblica - ganhar o pão com o suor do rosto.
A maldição dirigida por Iahweh Deus ao homem estendeu-se à mulher.
O paraíso não existia.
E a promessa do estrelato, recorrente, era um engodo.
"Com o suor de teu rosto
comerás teu pão
até que retorne ao solo,
pois dele foste tirado.
Pois tu és pó
e ao pó tornarás."
Parecia ouvir a profecia do Gênesis.
Trabalho e estresse.
No entanto, também gratificante.
Com todas as limitações, a produção diária da mercadoria-notícia implicava a participação de quem a elaborava, cobrava criatividade.
Nunca, para ela, representava um ato mecânico.
Não estava alienada do produto de seu trabalho.
Ao menos, não inteiramente.
Mal ou bem, a escolha feita fora boa.
A redação do "Jornal da Bahia" era um agradável teatro.
Teatro da vida.
Zé Maria, magro que só ele, negro retinto, "penteava" os textos das agências de notícias, chegados pelo telex.
Na pia batismal, recebeu o nome de José Maria Rodrigues.
Comunista de carteirinha, contemporâneo de João Falcão no PCB.
Ainda me recordo dele, silencioso e discreto.
Participou ativamente da campanha de João Falcão para deputado federal em 1945.
Era dirigente do Comitê Municipal do PCB em São Félix.
Falcão, com 26 anos, teve escassos 870 votos.
Amargou uma quinta suplência.
Quando as urnas se abriram, 3 de dezembro de 1945, constata-se: eleito pela legenda apenas o lendário Carlos Marighella, com 5.187 votos.
Zé Maria, nesses tempos de "Jornal da Bahia", e estamos falando de anos posteriores a 1975, nesses tempos ele cultivava uma relação muito amistosa com o álcool.
Zé Maria e o álcool - um não podia viver sem o outro.
Pela bebida, Zé Maria era capaz de tudo.
Se a marvada lhe faltasse, algum jeito havia de ser dado.
Não havia obstáculo intransponível.
Um dia, o dilúvio.
Caiu uma chuva da gota serena.
Quando chovia muito, a Barroquinha transformava-se num grande lago.
Com direito a ondas.
Testemunhei carros sendo jogados pra lá e pra cá numa noite dessas.
Quando dilúvio, ninguém entrava, ninguém saía da redação.
Todos perceberam Zé Maria na janela, olhos fixos no bar em frente... #MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Uma figuraça Zé Maria !
Mônica Bichara: Lembro de Zé Maria, qdo bebia ficava falastrão....e seguem as aventuras de Carmela Talento 
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Emiliano José
22 de janeiro 2020
Baixar a cabeça, nunca!

Zé Maria contemplava o mar.
Barrento, verdade.
Mas, parecença de mar.
Aparecido assim, de súbito.
Tromba d'água, vai ver.
Era hora, não.
Sempre, nessa hora, descia os degraus, atravessava a rua, ocupava seu lugar no boteco em frente, é, tinha lugar reservado, e tomava sua cangibrina.
Sossegado.
Hora de relembrar os bons tempos.
Não, não era hora da Barroquinha virar mar.
Sertão, sim, que virasse mar.
Carecia.
Mas, a Barroquinha?
Tentando mudar sua rotina?
Olhava as ondas.
Os carros, batendo uns nos outros.
No balanço das águas.
Nada, porra nenhuma, nada me prende aqui.
Deu um repente, todo mundo vendo, desceu as escadas, olhou pro mar, e mergulhou, nadou, saiu do outro lado, a redação na janela, estupefata.
Entrou, ocupou o seu lugar, pediu a de sempre, sentiu descer esquentando tudo, confortando o corpo, aquecendo a alma, lembranças do passado comunista e nem sabe por que lhe veio à mente o comício de João Falcão em 1945 em São Félix, ele num frenesi organizando tudo, lado a lado com José Lopes da Cunha, correspondente de "O Momento" em Cachoeira.
Pena, pensou, pena mesmo não tenha sido eleito.
Tempo bom.
Olhou pro prédio em frente, pro jornal.
Hora de voltar.
Deixou fiado, de costume.
E nadou de volta.
Entrou molhado molhado na redação, colegas boquiabertos, Carmela Talento se divertindo.
Sentou, renovado, revigorado.
A água começava a baixar
Mas, agora tanto fazia...
Voltou a pentear telegramas.
Um dia, tendo bebido um pouco mais, João Falcão pediu ao motorista para levá-lo em casa.
O motorista pacientemente pedia a Zé Maria pra abaixar a cabeça e entrar no automóvel, ele mal se aguentando em pé. Ainda assim, trôpego, volta-se para o motorista, dedo em riste:
- Olha aqui, preste bem atenção, nunca abaixei a cabeça pra filho da puta nenhum!
A redação não conseguiu segurar a gargalhada.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Baixar a cabeça? nunca !
Jaciara Santos: Lembro das histórias de Zé, que era uma figura. Quando sóbrio, era caladão, fechado, não dava uma palavra. Mas, quando tomava umas e outras... Sai de baixo! E era uma enciclopédia ambulante. Um Google em carne e osso, principalmente osso... Grande Zé Maria!
Mônica Bichara: Grande Zé Maria mesmo, quando bebia soltava os cachorros, atirava pra todo lado, xingava.....ACM então, tava sempre na mira e não poupava "elogios"   
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Emiliano José
23 de janeiro 2010
"Faça o favor de desindicar!'

Eleição de 1982.
A oposição elege na Câmara de Salvador a maior bancada de oposição da história.
Uma lavada.
Compensação para a derrota sofrida para o governo de Estado.
A capital era um bastião do PMDB, naquele momento um partido guarda-chuva: abrigava do centro à esquerda, foi instrumento essencial no combate à ditadura.
Será fundamental para derrotar ACM na eleição seguinte, na memorável eleição de Waldir Pires.
Pelo "Jornal da Bahia", Carmela Talento cobria a Câmara Municipal, José Carlos Prata, a Assembleia Legislativa.
Carmela era ave solitária numa atividade normalmente reservada a homens.
Precisava estar sempre atenta.
Um olho no padre, outro na missa.
Um olho no gato, outro no peixe.
O vereador Osório Villas-Boas, veterano político de saborosas histórias, um dia, assim como quem nada quer, chama Carmela a um canto, não, não fica bem dizer assim, chama Carmela à sala dele e informa alegremente:
- Indiquei você para uma assessoria na secretaria de Educação do município.
Carmela, refeita do susto, reagiu:
- O senhor faça o favor de desindicar!
Osório, em sua já longa existência já havia visto de tudo um pouco, quase tudo.
Havia sido presidente do E. C. Bahia por mais de uma década, deputado estadual, agora vereador
Vira quase tudo.
Recusa de cargo, nunca.
Boquiaberto, ouve Carmela completar:
- Trabalho aqui para o "Jornal da Bahia". Não com o objetivo de conseguir nenhum cargo.
O velho político ainda tentou argumentar:
- Isso é normal, não tem nada demais!
Carmela, intransigente na recusa.
Era, para ela, uma questão ético-moral.
Osório conformou-se, que fazer?
Deve ter dialogado com seus botões pensado a gente quer fazer um favor e leva um coice desses quanto mais eu vivo mais assombração me aparece...
Desindicou.
Primeira desindicação de sua vida.
Graças a Carmela:
- Tinha uma turma nova chegando. Com outro modo de fazer a cobertura política. Nosso foco era a notícia. O espaço era dado na proporção da importância da informação. Nunca por troca de favores.
À época, Walmir Palma cobria pelo jornal "A Tarde", Caco Caetano, pela "Tribuna da Bahia".
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carlos Lenin Santos: Exemplo.
Jaciara Santos: se todos (as) fossem iguais a você, Carmelita...
Mônica Bichara: Essa é nossa Carmelinha, nossa líder e melhor chefinha. Não vá chorar, Mané......
Carmela Talento: Se a gente não se impõe nessa cobertura política perde toda credibilidade. Respeito mútuo, essa é a regra!  
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Emiliano José
24 de janeiro 2020
As ceroulas do Osório

Osório Villas-Boas era sempre fonte de boas histórias.
Era de dar sustos.
Carmela estava lá sossegada, e toma um susto: Osório teve um piripaco.
Coração.
Foi parar no Santa Isabel.
Um dos primeiros a receber uma ponte de safena naquele hospital.
Podia se discordar de Osório, mas era fácil gostar dele.
Logo retornado à Câmara, Carmela e Valmir Palma, repórter de "A Tarde", foram ao gabinete dele.
Visita de amizade.
Saber como fora a cirurgia.
Recebeu-os alegre, bem-humorado.
Falou muito, tratou de tanta coisa, e nada de falar da cirurgia.
Carmela, então, em sua santa bondade, cheia de humanidade, pergunta:
- Osório, e a cirurgia, como foi?
Antes de dizer qualquer coisa, ele folgou o cinto, mexeu no primeiro botão das calças...
Carmela e Valmir, constrangidos, assustados.
Sim, desceu o zíper.
Os dois, sem poder se mexer, não obstante doidos para sair correndo.
Ele todo faceiro, baixou as calças.
Walmir ficou branco.
Carmela, sem saber o que fazer.
Imobilizada.
Não era um espetáculo bonito.
As calças jaziam sobre os sapatos pretos.
E ele então, sem pruridos, absolutamente à vontade, mostrou.
Calma.
Não se ponham a maldar.
Queria singelamente, com a pureza dos inocentes, mostrar de onde, nas coxas, havia sido tirado a safena.
Tanta tensão para tão pouco.
Os dois só viram mesmo as pernas.
E sorte, sorte mesmo, a poupá-los de constrangimento maior, é que ele, homem tradicional, usava uma baita ceroula a cobrir as coxas quase por inteiro.
Feito o serviço, levantou as calças, puxou o zíper, apertou o cinto, e seguiu a conversa.
Como se nada de especial tivesse acontecido.
E quem sabe considerasse aquilo como da naturalidade da vida.
Ataulfo Alves tem razão: a maldade dessa gente é uma arte.
Carmela e Valmir saíram rindo muito.
Um dia pra nunca mais ser esquecido.
O dia das ceroulas do Osório.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Julio Cezar Rocha: Poxa Emiliano José, quanto suspense
Carmela Talento: Para repórter não tem dia monótono. Quando encontro Valmir Palma a gente sempre lembra disso e as gargalhadas são inevitáveis. Mas no dia foi muito tenso😅
Mônica Bichara: Afffffff imagino a tensão kkkkk Osório era uma figura mesmo
Carmela Talento: Mônica Bichara verdade, tenho muitas histórias com Osório inclusive no período que exerci a função de Secretaria de Comunicação na gestão de Lidice
Emiliano José: Carmela Talento Falta acrescentar
Mônica Bichara: Carmela Talento só Osório daria um livro. Ele tinha uma forma especial de tratar os jornalistas, mesmo os que criticavam. Joana Darck sempre foi chamada de Japinha. Mesmo a imprensa batendo na Câmara com frequência, não lembro dele ter sido grosseiro com os jornalistas que cobriam
Isabel Santos: kkkkkkkkkkkkkkkk, que expectativa. Coisas de Osório, né Carmelita (Carmela Talento) ?. Conta mais, vá. A caneta de Emiliano espera, e nós, aguardamos para mais um momento de descontração nessa sua gostosa e rica trajetória profissional. Bj 
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Emiliano José
25 de janeiro 2020
Racha na frente: pomo da discórdia

No início de 1985, Carmela Talento é chamada a trabalhar na assessoria de Comunicação do prefeito de Salvador, Manoel Castro.
Aceita.
Três filhos pra criar contou para a decisão.
Aceitou porque sentiu a barra pesar.
Não podia mais ficar à espera da eventualidade de um free-lancer.
Mais um salário fixo vinha a calhar.
Vida de cão.
Equilibrar-se entre dois batentes, correr de um lado a outro tentando fazer bem os dois: a cobertura da Câmara Municipal pelo "Jornal da Bahia" e estar atenta às pautas da administração de Salvador.
Esse, o novo desafio.
A exigir rigor ético-moral e disciplina.
Aqui, cada vez mais assumia a condição de trabalhadora.
Glamour, havia ido pros ares.
Alguns prêmios faziam bem ao ego: por exemplo, o de melhor cobertura logo no primeiro ano de trabalho na Câmara.
Ou ter sido eleita presidenta do Comitê de Imprensa daquela casa legislativa, primeira mulher a ocupar o cargo.
Conquistas, honrarias a lhe afagar a alma.
Nada capaz de afastar a consciência de ser uma trabalhadora.
Ter a necessidade de dois empregos era um acicate permanente a lhe lembrar disso.
Um ano nesse corre-corre.
Mãe trabalhadora, e a ideia de seguir adiante nos estudos ia ficando pelo caminho.
Decide pedir demissão da Prefeitura.
Dava certo, não.
Difícil servir a dois senhores.
Sabia de muitos equilibrando-se entre cobertura pelos jornais e assessorias, e fazendo-o com ética.
Mas, não suportou.
Ficou só com a cobertura da Câmara.
É guindada à editora de Política do "Jornal da Bahia".
Das primeiras a ocupar cargo de chefia.
Moacyr Neri ajudava Carmela nos títulos.
Jornalista experiente, ligado à cobertura do carnaval.
Política é política.
Carnaval é carnaval.
Carmela pedia ajuda, mas ficava atenta.
Em matéria sobre a formação da frente de esquerda em Salvador, ali pelo final dos anos 1980, a deputada federal Abigail Feitosa, falava de suas discordâncias e informava sua saída da frente.
Neri não teve dúvida, pensou um bom título, espirituoso:
"Abigail racha na frente".
Carmela calmamente:
"Neri, esse título não dá".
Prestava-se obviamente a uma dupla interpretação
Neri:
"E qual o problema?"
Carmela mudou o título.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Mônica Bichara: Sei bem o q é esse corre-corre de um emprego p outro, filhos pequenos.....a gente se virava nos 30 sem celular, sem internet, com várias pautas por dia, mas dava conta. Como, hj eu paro pra pensar e não consigo entender
Kardé Mourão: Retadas. Mônica, somos todas crias da resistência. Carmela, Socorro, Vc , eu, Isabel, Jaciara.. e tantas outras, trabalhar e criar filhos.... militância então... era um ato heroico...
Carmela Talento: A gente não tem dimensão da própria força, mas que é difícil, isso é ! 
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(Secretária de Comunicação na gestão da prefeita Lídice da mata)

Emiliano José
26 de janeiro 2020
Dignidade

Início dos anos 1980, e o "Jornal da Bahia" vivia grandes dificuldades.
Pagava o preço de uma longa e tenaz perseguição movida por ACM.
João Falcão decidiu vender a histórica sede da Barroquinha.
Única forma de pagar uma prestação de 250 mil dólares ao Banco Econômico, parte de um empréstimo de 500 mil dólares.
Isso é contado pelo próprio João Falcão, em seu livro "Não deixe essa chama se apagar", prefaciado por mim.
A chama começava a se apagar.
Dura, mas necessária constatação.
João Falcão procurou um espaço para a continuidade do funcionamento do jornal.
Encontrou ampla solidariedade de Joaci Góes e Walter Pinheiro, diretores da "Tribuna da Bahia".
Em 14 de outubro de 1981 passa a funcionar no mesmo prédio da "Tribuna da Bahia", à rua Djalma Dutra.
Em dezembro de 1983, o jornal é vendido aos advogados Carlos Villares Barral e Francisco Bastos.
Os dois, poucos anos depois, venderam-no ao ex-prefeito Mário Kertész.
Sua última edição foi no dia 22 de fevereiro de 1994, 36 anos de existência e 10.679 edições, um marco no jornalismo baiano.
Carmela Talento não gostou quando o jornal foi vendido aos dois jovens advogados.
Não gostou dos rumos imprimidos por eles.
Na campanha de 1986, fechava a coluna "Alça de Mira".
Próximo ao dia da eleição, fecha a coluna, vai pra casa.
Abre o jornal de manhã e é surpreendida com três notas contra Waldir Pires.
Plantaram as notas literalmente na calada da noite, desrespeitando-a.
Não pensou duas vezes: redige carta pedindo demissão, expondo suas razões..
Era uma difícil decisão.
Separada e com três filhos.
Mas, era sua dignidade em jogo.
Uma cópia da carta entregou ao redator-chefe, outra fixou no mural.
A campanha de Waldir pediu autorização para usar a carta
Carmela não deu.
Defendia o bom jornalismo, não queria houvesse nenhuma utilização político-partidária.
Os donos do jornal foram corretos: pagaram todos os seus direitos, inclusive os 40 por cento do FGTS, apesar do pedido de demissão. #MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIO

Carmela Talento: Na época já tinha perdido o entusiasmo de trabalhar no JB , muita coisa tinha mudado inclusive o compromisso com a informação, coisa que sempre me preocupei. Não tinha como aceitar aquela postura. Tinha chegado a hora de dizer adeus !
Mônica Bichara: Nessa época eu trabalhava na Câmara assessorando a bancada do PCdoB (Lídice, Jane Vasconcelos e Ney Campello). Quando a legislatura acabou Lídice já era deputada federal e Jane e Ney não se reelegeram. No que seria meu primeiro dia desempregada, ou melhor só com a assessoria na Saeb, Clarinha pequena, recebo um telefonema de Carmela Talento me convidando para integrar a editoria de política da Tribuna da Bahia. Comecei no dia seguinte e foi uma experiência maravilhosa. Realmente, àquela altura o JBa já tinha dado o que tinha que dar....Te amo, Carmelinha    
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Emiliano José
27 de janeiro 2020
Encarando a morte

Ainda em 1986, um mês depois de sair do "Jornal da Bahia", Carmela Talento já estava trabalhando na "Tribuna da Bahia".
Clarissa Amaral (Cissa) sugeriu o nome dela a Paulo Roberto Sampaio, redator-chefe.
Foi só subir um andar.
Os dois jornais funcionavam no mesmo prédio.
Subeditora de política, o editor era Levi Vasconcelos, com quem começara no "Jornal da Bahia", de fácil convivência.
Adorava também trabalhar com Lage, o genial cartunista.
As charges dele causavam frisson, não raro contrariedades.
ACM, agraciado frequentemente.
A raiva de ACM em relação à "Tribuna da Bahia", Joaci Góes já seu adversário, estimulava os jornalistas a correr atrás de furos, de boas matérias.
Um tempo bom.
A perseguição de ACM era adrenalina na veia.
A vida não é linha reta.
Em 1991, Carmela é diagnosticada com um câncer de mama.
No dia da notícia, não foi trabalhar.
Precisava pensar.
A finitude a encarava.
Tinha três filhos na pré-adolescência.
- E se eu morro nos próximos meses? Que será deles?
A angústia era mais por eles.
Para completar o quadro, o pai estava tratando de um câncer no pulmão.
Pense numa tempestade perfeita.
Walter Pinheiro foi extremamente solidário.
O médico indicado por ele, doutor Augusto Tufi Hassan, foi comedido.
Ao olhar os exames, tentando tranquilizá-la,. disse:
- Você tem uma chance de vida.
Já era muito.
Uma chance!
Iria aproveitá-la, com certeza.
Determinou-se a isso.
Os dias seguintes foram de preparação para a cirurgia.
Sentia-se bem, especialmente fortalecida pela rede de solidariedade, carinho das amigas,. dos amigos.
A cirurgia reclamava procedimentos anteriores, como a retirada de todas as glândulas linfáticas da axila.
Ficou com o braço esquerdo quase imobilizado.
Não tinha força pra segurar um prato.
Tinha de evitar cortes.
Fazer as unhas, nem pensar.
Qualquer ferimento poderia ocasionar problemas insuperáveis.
Fez a cirurgia...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Com o jeito de Emiliano José contar essa passagem de minha caminhada pelo jornalismo não tem como não me emocionar, foi um período que estive no olho do furacão, mas só tenho a agradecer.
Jaciara Santos: Foi muito forte... E lembro a dignidade com que você enfrentou todo o pós-operatório, todo o tratamento... Uma guerreira, um exemplo, nossa ídola!
Carmela Talento: Jaciara Santos tive a sorte de contar com o apoio de muitos amigos, amigas e colegas de trabalho entre os quais vc está incluída. Só agradeço!
Clarissa Amaral: Carmela Talento lembro bem daquele período.
Carmela Talento: Clarissa Amaral, vc sempre esteve presente ajudando, não dá para esquecer sua generosidade
Mônica Bichara: Ai, essa fase foi mesmo muito dolorosa, mas também de muito aprendizado para todos nós que convivíamos com Carmelinha. Ali eu aprendi que era possível ser forte, porque ela nos passava força. Lembro que quando ela nos contou (era nossa editora de política) chorei no arquivo, escondida dela, pra não demonstrar que não tinha a mesma força que ela nos passava. Mas Carmela Talento foi uma guerreira, um exemplo de dignidade mesmo como disse Jaciara Santos. E até no hospital a gente achava motivos pra sorrir, lembro que o médico era um amor, Carmelinha teve muita confiança nele e nós tb. Nossa ídola mesmo Carmela Talento
Carmela Talento: Assim quem vai chorar agora sou eu. Com a idade estou ficando 😢 meio abestada.
Mônica Bichara: Abestada é ótimo, somos duas cancerianas abestadas
 
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Emiliano José
28 de janeiro 2020
Vitória!

Realizada a cirurgia, quimioterapia.
Sob a orientação de um jovem médico, Carlos Sampaio.
O santo bateu.
Desde a primeira consulta, sentiu firmeza.
Médico tem disso: se o santo não bater, não tem jogo.
Sampaio preferiu o caminho da quimioterapia.
Era preciso segurança para indicar tal tratamento.
Os efeitos colaterais,. brinquedo não.
Alguns sucumbiam, tão fortes.
Carmela Talento, não obstante, resolve acreditar no médico.
Para as primeiras doses, internamento.
A equipe médica precisava estar ao lado para acompanhar as reações.
A aplicação levava horas.
Um dia recebendo medicação.
Três, prostrada.
Doutor Carlos Sampaio, sempre presente e atento.
Transmitindo segurança.
Os amigos ali, no pé da obra.
Não soltavam a mão dela: Mônica Bichara, Jaciara, Isabel Santos, Joana D'arck, Jânio Lopo, Paulo Bina, a galera toda da "Tribuna da Bahia", solidária, uma corrente de carinho, indispensável nessas horas.
Após a terceira sessão, Carmela decide voltar ao trabalho.
Melhor coisa.
Com toda dificuldade, renova a esperança, aumenta o desejo de viver.
Mole, não era.
Ainda estava muito fragilizada.
No ônibus, indo para o trabalho, vento bate, passa a mão na cabeça, o cabelo veio todo.
Puta que pariu!
Sabia dessa consequência, mas bateu uma tristeza da gota serena.
Quase volta pra casa.
Olhou pra fora, viu a vida fervilhando, reagiu.
Seguir em frente.
O outro caminho, a depressão, chamar a morte.
Um lenço passou a adornar sua cabeça.
Oito meses de tratamento.
Walter Pinheiro, sempre solidário.
Joaci Góes, também.
O doutor Carlos Sampaio tornou-se seu amigo.
Seguiu em frente.
Venceu!
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Ana Virgínia Vilalva: Se não me falha a memória, Emiliano, Dr. Carlos Sampaio foi o mesmo quem cuidou de minha mãe em 2009
Jaciara Santos: É vencedora que fala, né? Não como adjetivo. No caso da nossa Carmelita, a palavra tem o sentido de substantivo: a vencedora.
Jacira Maria Araujo Silva: Dr Carlos Sampaio nasceu para isso cuidou de mim há exatos 21 anos atrás e olha eu aqui.
Lucia Correia Lima: Forte história
Carmela Talento: Tem gente que não acredita em anjos, mas eles existem e eu tive a certeza disso com tantos ao meu lado nesse período. E Dr. Carlos Sampaio tudo que eu disser sobre ele vai ser pouco diante do cuidado que teve comigo durante todo o tratamento, e continua até hoje. Só lembrando que a quimioterapia há 30 anos era bem mais agressiva, a medicina evoluiu e os efeitos colaterais são bem menores, embora o desconforto ainda seja grande. Minha sorte foi ter do meu lado um médico dedicado como Dr. Carlos, creio que fui uma das primeiras pacientes dele, quando ainda bem novinho, recém formado, mas de uma responsabilidade impressionante. A minha felicidade é imensa por ter acompanhado o seu crescimento, atualmente é reconhecido como um dos maiores especialistas em Oncologia, não apenas na Bahia, mas no Brasil , além de diretor presidente de uma das clínicas de referência em Oncologia do país, a Amo, que presta assistência multidisciplinar aos pacientes com câncer. Vida que segue!
Mônica Bichara: E era um gato, lembro que a gente brincava pra descontrair chamando ele de Dr. Gatinho hehehehe mas foi mesmo um anjo. E vc merecia essa proteção, Carmelinha, todos nós precisávamos de vc aqui e bem 
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(Com as vítimas das broncas, Mônica e Joana D´Arck)

Emiliano José
29 de janeiro 2020
As broncas de Carmela

Em 1989, Bené Simões assume como redator-chefe.
Levi Vasconcelos sai da editoria política.
No lugar dele, entra Ivan Carvalho.
Foi barra.
Ivan era atencioso.
Gentil.
Bom texto.
Experiente.
Chegava cedo, pautava os repórteres, orientava, definia prováveis manchetes.
Agora, ficar para a edição, gostava não.
Carmela Talento era quem fechava as páginas de política e definia também as eventuais chamadas de primeira página.
Ao final do dia, recebia o material do reportariado, e danava-se a editar, Ivan Carvalho no merecido recesso do lar.
Repórteres novos, promissores: Raul Monteiro, Rosane Santana, Jânio Lopo (novo só em política), Joana D'arck, Mônica Bichara.
Mais experientes, Paulo Bina e Zé Fernandes.
Conto um episódio.
Em 1977, eu chefiava a reportagem do "Jornal da Bahia".
Eugênio Lira, advogado de posseiros em Santa Maria da Vitória, é assassinado a mando de grileiros.
Uma pauta excepcional.
Destaco Zé Fernandes para viajar.
Antônio Jorge Moura, grande repórter e também sob minha chefia, jamais me perdoou.
Chefiar tem ônus.
Poucos bônus.
Carmela revela: Zé Fernandes não gostava de ser pautado.
Só queria fazer matéria de bastidores.
Contava, a rigor, com o material dos novatos.
Às vezes, como editora de fato, subia nas tamancas.
Mônica Bichara e Joana D'arck rememoram as broncas dela.
Tinha de ser dura.
Garante, à Guevara: jamais perdeu a ternura.
Sustenta: as duas exageram nas lembranças das broncas.
A ver.
Ivan Carvalho fez história com suas distrações, com seu jeito sossegado de ser.
Um exemplo.
Um dia, edita a coluna "Raio Laser", e vai pra casa.
Hora de fechar, pessoal da montagem sobe procurando as notas.
Distraído, o editor havia levado-as para casa.
Jornal em polvorosa, ninguém sabia como preencher uma página em branco, quando irrompe na redação um sorridente Ivan Carvalho, tranquilo:
- É, esqueci de entregar...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Grande figura Ivan Carvalho, mas distraído que ele só! KKKKK.
Joaquim Lisboa Neto: Eugênio Lyra, o primeiro elo entre você e Santa Maria. Depois viriam Francisco Guarany, Osório Alves de Castro, Clodomir Morais e este seu modesto leitor e admirador, dentre tantos outros santa-marienses. Pra Morais levei um exemplar do "Lamarca - o capitão da guerrilha" quando ele dirigia um projeto de Reforma Agrária na Nicarágua Sandinista, 1981. Você bebeu da água da nossa aldeia e pronto, não a esqueceu jamais. Se tornou amante e alto conhecedor da cultura desta terra. Prazer e privilégio nosso!
Emiliano José: Joaquim Lisboa Neto Meu
Mônica Bichara: Tudo brincadeira, realmente Carmelinha não perdia a ternura jamais. Mas pegava no meu pé me chamando de chorona kkkkkk a editoria de política da Tribuna da Bahia, com Carmela Talento de editora, foi fundamental na minha vida em todos os sentidos  
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(Com Isabel, Jaciara e eu na homenagem ao fotógrafo Anízio Carvalho)

Emiliano José
30 de janeiro 2020
Gato por lebre, café por conhaque

Carmela Talento não entendia.
Redação tinha café à vontade.
No entanto, vários de seus colegas, volta e meia, chamavam o boy, e pediam fosse a Pepe buscar um cafezinho.
Pepe era o dono do bar em frente.
Talvez fosse um café muito especial, pensou.
Desceu um dia por acaso, pediu café, e concluiu: talvez empatasse com o da redação.
Os dois, muito ruins.
Olhava, olhava, e a romaria continuava.
Atentou para um detalhe: o café vinha num copo descartável coberto por um guardanapo de papel.
Um dia, de soslaio, viu um dos colegas tirar o guardanapo, olhou bem, viu a cor, sentiu o cheiro.
Estava comprando gato por lebre.
O café era conhaque.
Ascendeu à editora do primeiro caderno.
Compreendia Economia, Política Nacional e Local, Internacional e Primeira Página.
Muito mais trabalho.
Salário, o mesmo.
O jornal, ainda por cima, começou a atrasar os salários.
Burburinho.
Paralisação.
Alguns editores avaliaram, no entanto, garantir o jornal em circulação face à perseguição de ACM.
Não deviam dar a ele o trunfo da ausência do jornal nas bancas.
Assim, os editores fechariam sem os repórteres.
Adilson Borges era editor de Economia.
Concordou em fechar a página, na lembrança de Carmela.
Logo após a reunião dos editores, desceu para o bar em frente, para tomar um café ou um conhaque, não se sabe bem.
De lá, mandou avisar: não voltaria.
Estava na greve.
Carmela não gostou.
Havia firmado compromisso.
Insistente, mandou chamá-lo.
Ele reafirmou: não iria voltar.
O sangue italiano ferveu:
- Então, não volte mais.
Demitiu um colega: primeira e única vez.
E um amigo de quem gostava muito.
Um episódio de que não se orgulha nem um pouco.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Verdade ! Foi realmente uma decisão muito dolorosa, fiquei triste , mas tem certas situações que não dá para contemporizar .
Carmela Talento: Essa predileção pelo cafezinho de Pepe me deixava mesmo intrigada kkkk. Sorte que bebiam, mas conseguiam produzir. Eu com um copo de cerveja não consigo nem fazer um o com o copo !
Isabel Santos: kkkkkk que massa. Coisas de Redação. Mas eu desconhecia essa façanha do café/conhaque kkkkkkkk, Carmelita (Carmela Talento). Qto à demissão, pelo que a conheço, deve ter mexido muito com você ter tomado tal a decisão. O quem vem mais por aí? Aguardo a 'pena' de Emiliano relatar. Beijos para os dois.
Jaciara Santos: o cafenhaque de Pepe era famoso, assim como o "ovo de Setenta" rs rs rs. O lance da greve não acompanhei, ainda pertencia ao quadro do Jornal da Bahia e, pra completar, estava de férias.
Mônica Bichara: Era o tempo do jornalismo boêmio, movido a álcool....toda redação tinha um "abaixadinho" por perto, mas a galera dava conta do recado. Uma das decisões mais dolorosas da carreira, certamente, ainda mais por se tratar de outro DOCE Adilson Borges - nessa época eu já estava na Câmara   
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Emiliano José
31 de janeiro 2020
Carmela, Irecê e Balzac

Vida de editora não é mole, não.
Com a demissão de Adilson Borges, Carmela chama Sinval para substituí-lo.
Era uma tranquilidade tê-lo na editoria de Economia.
Experiente, competente.
Passado algum tempo, precisou se afastar por um mês.
José Sinval Soares, nome todo dele, indica José Rodrigues de Miranda para substituí-lo.
Todos o conheciam por Irecê.
Sarcástico, irônico, brincalhão.
Às vezes, brincadeiras pesadas.
Carmela acatou a sugestão.
Acordo entre ela, Sinval e Irecê.
Afinal, era uma substituição de trinta dias apenas.
Sinval garantiu: é excelente profissional, dará conta do recado.
Carmela, no entanto, sempre passava os olhos nos títulos, ressabiada.
A legenda das fotos, deixava com o novo editor.
Mas, Irecê, sendo Irecê, não ia passar em branco pela editoria.
Alguma travessura havia de fazer.
Senão a vida perdia a graça.
Era do tipo perder o amigo mas não perder a piada.
Houve uma reunião, coberta pelo jornal, de que participavam as mulheres de Walter Pinheiro e Joaci Góes.
Matéria IP, como chamávamos.
Em bom português: Interesse do Patrão.
Na legenda da foto, adivinho o risinho de canto de boca, Irecê começa a legenda informando:
"Balzaquianas se reúnem...."
Dia seguinte, parecia tudo correndo normalmente.
Walter Pinheiro, de cara, nem percebeu.
O problema é que as mulheres viram e não gostaram, segundo Carmela.
É chamada por Pinheiro antes da reunião do final do dia:
- Quem deu essa legenda?
Só então deparou com as balzaquianas.
Coisa de Irecê - pensou.
- Não me recordo quem fez. Falha minha. Olhei o título. Não prestei atenção à legenda. Foi mal.
Assumiu a responsabilidade sozinha.
Chama Irecê, reclama.
Ele, tranquilo, quase fleugmático:
- Não há nenhuma imprecisão. Elas são balzaquianas.
Balzac usava o termo apropriadamente.
Um bom tempo atrás.
Mulheres maduras e prontas para amar mais livremente.
Agora, era visto quase como um xingamento.
Sinônimo de velhice.
Não adiantou Carmela contra-argumentar.
Irecê bateu pé: não era um erro.
Irecê sendo Irecê...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Tinha que ser Irecê a aprontar essa. Sabia que era uma figura irreverente, mas não imaginava que usaria a irreverência até com as mulheres dos donos do jornal. Certa feita quando eu estava assessorando o senador Rui Bacelar, apresentei Irecê ao senador e ele apertando a mão de Rui disparou: o prazer é todo seu kkkk.
Jazon Zon Ze: Patinha bebia demais e se impolgava
Joana D'arck: As tiradas de Irecê são inesquecíveis!
Mônica Bichara: Verdade, Irecê dava um livro sozinho
Rita Tavarez: Tô esperando!

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Emiliano José
1º de fevereiro 2020
De novo, perseguição de ACM

Carmela gostava muito do trabalho na "Tribuna da Bahia".
Era uma satisfação imensa olhar a edição diária, compará-la com os outros jornais, alegrar-se com o acerto das manchetes, com a atuação séria da equipe.
Só havia um problema: os boletos.
Ganhava pouco e era muita conta pra pagar.
Acabou no gabinete do senador Rui Bacelar.
Salário melhor, conheceu toda a Bahia.
Depois, Fernando Schmidt faz o convite: pretende-a secretária de Comunicação da prefeita Lídice da Mata.
Teve dúvidas.
Sempre trabalhara em redação e em assessorias.
Uma secretaria era outra coisa.
Conversa com Alberto Oliveira, com Mônica Bichara, com Irecê, Joana, Sinval.
Todos a incentivaram.
Topou o desafio.
Era sua sina: perseguição no "Jornal da Bahia", na "Tribuna da Bahia" e agora enfrentar perseguição na Prefeitura.
O algoz, sempre ele, o déspota: ACM.
Foi uma luta dos diabos.
David contra Golias.
TV Bahia mentia todo dia.
E nada de direito de resposta.
Preocupação diária com direito de respostas, com subsídios aos processos movidos contra as calúnias, todos engavetados.
Tristeza maior não era tanto a perseguição.
ACM era o diabo conhecido.
Doía muito, muito, essa a tristeza maior, ver colegas de profissão fazendo o jogo sujo do tirano.
Sorte, ela afirma, era contar na retaguarda com o jornalista Vitor Hugo Soares, seu subsecretário.
Para tentar furar o cerco, criou o "Jornal do Buzu", folhetos para distribuir nos bairros, nas estações de ônibus, uma guerrilha.
A TV Bahia não aceitava nem peças publicitárias pagas.
A mando do chefe, ACM, fazia luta política aberta, desleal.
Carmela é admiradora de Lídice, especialmente de sua capacidade de resistência.
Submetida a um cerco implacável, a prefeita nunca entregou os pontos, jamais abaixou a cabeça, manteve a dignidade, cabeça erguida.
Poucos homens, avalia Carmela, teriam a força demonstrada por Lídice.
Terminado o governo, Carmela acreditava estar pronta para o que desse e viesse.
Engano
Difícil aguentar quatro meses de atraso nos salários e o prefeito Antônio Imbassahy adiando o quanto podia o pagamento.
Vendeu o carro para pagar os boletos.
Até que...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: A vida nunca foi fácil, mas na prefeitura foi complicado, vc disse muito bem Emiliano José comparando com a luta de David contra Golias. Enfrentar o cerco da mídia, cerco econômico a sacanagem de muitos colegas, além de um Judiciário conivente com as malvadezas do executivo estadual, não foi nada fácil . Mas Lídice da Mata estava firme , cobrando da equipe, brigando com Deus e o Diabo na terra do sol pra não deixar o desanimo se abater sobre a equipe. Foi uma experiencia e tanta, uma briga boa , aprendi muito.
Joana D'arck: Trabalhei com Carmela cobrindo a agenda diária de Lidice e também passei pelo sufoco do salário atrasado por 4 meses. Fiquei tão revoltada que pedi a ela e a Schmidt para me exonerar junto com eles no último dia da gestão.
Mônica Bichara: Estávamos na diretoria do Sinjorba nessa época, presidência de Alberto Freitas, quando recebemos a histórica e honrosa visita da secretária Carmela Talento. Um orgulho pra todos nós, um sinal de prestígio da prefeita à categoria. E acompanhamos de perto a resistência da administração, que não tinha o direito de ver a cor do dinheiro pq ACM conseguia bloquear os repasses do governo federal antes de entrar na conta. E eram poucas as opções de divulgação dessa sangria - naquele tempo era tudo mais difícil, só imprensa oficial, não contávamos ainda com os sites alternativos nem redes sociais. Sem dinheiro em caixa para investir, um dos trunfos da gestão de Lídice da Mata foi mudar a postura da administração pública, dar transparência aos gastos públicos e tratar o público como público, não como privado. E isso não era pouco. Vc nos orgulha desde sempre, Carmelinha  
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(Com Irecê e colegas em evento do Sinjorba)

Emiliano José
2 de fevereiro 2020
A morte rondando

Passou a trabalhar com o vereador Miguel Kertzman.
No final do mandato, ele decidiu ser candidato a deputado federal.
Perdeu.
Carmela, novamente desempregada.
Faz a campanha de Prisco Viana para o governo da Bahia.
Viana não se elege.
Uma correria pra sustentar a renca de filhos.
Traiçoeiro, o câncer reaparece em dezembro de 2002.
Sem trabalho fixo.
Sem plano de saúde.
No mato sem cachorro.
Alguma grana ainda da campanha.
O mastologista João Lucas aconselha: o mais recomendável era uma mastectomia.
Marcou a cirurgia no Hospital Santa Isabel, onde ele atendia pelo SUS.
Para uma segunda-feira.
No sábado precedente, Irecê, com quem Carmela estava se relacionando, teve um grave problema de coração.
Mais do que próprio falar em tempestade perfeita.
Carmela o visita no hospital.
Entubado, arrodeado de familiares e amigos, todos apreensivos.
Carmela se recorda do semblante preocupado de Jaciara.
Pensa em desistir da cirurgia.
Mas, como tinha pouco a fazer por Irecê, resolve encarar.
No caminho para o hospital, uma sensação muito ruim.
Bruno, o filho mais velho, no volante, recebe uma ligação.
Perguntou sobre o telefonema, ele desconversou.
Chegou no Santa Izabel com a sensação péssima de que Irecê havia morrido.
Na sala de espera para a cirurgia, pergunta a Bruno de chofre:
- Irecê morreu?
- Está tudo na mesma.
Cirurgia correu bem.
Na enfermaria, pergunta à filha sobre Irecê:
- Tudo bem - ela responde, monossilábica.
Os médicos dão-lhe um calmante para dormir.
Os filhos não permitiram uma única visita enquanto esteve no hospital.
Teve alta.
Nesse dia, ainda no Santa Izabel, recebe a visita de uma assistente social.
Cheia de prolegômenos, chegou ao ponto:
- Irecê morreu.
Despedaçada.
No estacionamento do hospital, esperavam-na Joana D'arck e Délio Soares, irmão de Sinval, e companheiro de Mônica Bichara.
Os três choraram juntos.
Em casa, Carmela Talento prostrou-se numa cama.
Por 15 dias, não quis ver viv'alma.
Um dia, e essa revelação ela está fazendo pela primeira vez,....
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Juliana Mousinho Saphira Andrade: Foram tempos difíceis, muito difíceis! Como amiga de infância de Bruno, o apoiamos na decisāo. Carmela nāo podia desistir da cirurgia. Desabamos todos com a partida de Irecê, sempre animando nossas tardes de domingo. Carmela venceu! Agora, desfruta da companhia dos filhos e netos. Irecê continua nas memórias afetivas!
Mônica Bichara: Meu Deus, esse era o capítulo que eu mais temia. Impossível lembrar sem me emocionar profundamente. Irecê, Mô como a gente se chamava, era o amigo mais querido, daqueles que a gente dorme junto sem receio (.....e olhe q o sacana inventava era história). E perder esse amigo no momento que a gente mais precisava estar do lado de Carmelinha foi de dilacerar o coração. No Campo Santo eu só pensava em Carmelinha, chorava sem conseguir controlar pensando na injustiça daquele momento, daquela coincidência terrível. Não tive forças para ir com Délio e Joana ao hospital buscar nossa amiga, nossa irmã, nossa guerreira. Como foi difícil essa passagem de nossas vidas e ver assim, contada por Emiliano José, é reviver todo esse turbilhão de emoções
Jose Tavares: Emiliano José, vc tá com a memória integral, perfeita e sadia. Com 78 , mesmo ainda trabalhando no BB em sousa/ PB, sinto falta de uma memória como a sua.
Emiliano José: Jose Tavares Tavares, aproveito depoimentos. Mérito das companheiras e companheiros. Abração
Lucia Correia Lima: Poxa que exemplo de mulher. Que força. Me sinto fraca diante desta forte história
Jaciara Santos: Dizem que o tempo cura tudo. Não sei se concordo. Penso que a distância dos fatos torna menos difícil lembrar, nos permite falar a respeito, mas há feridas que nunca fecham. A passagem do sacana do Irecê é uma delas. Além da amizade, eu tenho uma enorme gratidão pela presença/apoio dele em uma etapa bastante difícil da minha vida (ele e Mônica Bichara seguraram direitinho). Quando ele se foi, antes da tristeza, senti muita raiva da vida, do mundo. Por que? Eu não tinha respostas... Nem imagino como Carmelita pôde sobreviver a tudo isso. Só sendo Carmela Talento pra passar tudo isso e sair inteira. Meu respeito, minha admiração só cresce para com essa vencedora.
Mônica Bichara: Chamar o sacana de sacana era o maior carinho pra ele. Eu TB não entendia o "recado" do destino com aquela morte tão repentina e inesperada. Ele estava muito abalado com o retorno da doença em Carmela Talento e o coração, do tamanho de um trem, não aguentou a rebordosa. Dramático como ele só, uma vez me disse que estava com o "coração sangrando" pq minha filha Clara estava internada pra fazer cirurgia de adenóide e amígdala, relativamente simples. Mas assim era o nosso Irepinga, a pessoa com quem mais briguei na vida. Eu passava cada descompostura nele kkkkk (nera Joana D'arck?) e o bichinho dizia "Pronto, Mô, pronto, tá certo também". Essa série de Carmelinha está sendo uma terapia, pq pouco a gente conseguia conversar sobre esse assunto que nos machucava tanto
Mônica Bichara: Esses capítulos de #MemóriasJornalismoEmiliano me fizeram relembrar muitos casos que vivemos com Irecê, cada um mais cômico do que o outro. E me peguei rindo sozinha. Uma vez fomos para um encontro de assessores de imprensa em Brasília, vários colegas formando a delegação baiana. No final resolvemos dar um giro para conhecer o Congresso Nacional. Eu, Carmela Talento, Irecê e Beto (Alberto Freitas). Não lembro o motivo, mas no Senado a visita estava proibida e ficamos desapontados. O chefe da segurança foi grosseiro e Beto, depois de ver o distintivo, perguntou o nome dele. "Agente Bertolino", respondeu ríspido. "Bonito nome", devolveu Beto kkkkkk Até aí, tudo bem. A gente ia saindo e Irecê larga um "bom fela da puta". O cara ouviu e partiu pra cima, queria prender Irecê. Alguém identificou que ele era jornalista, estava só querendo conhecer o Senado. "Grande coisa é jornalista", bradou. Quando a "casa já estava fedendo a homem", como diz Franciel Cruz, Irecê retirou "tudo que eu disse" e conseguimos convencer Bertolino de deixar a gente ir embora......Durante um bom tempo Irecê foi chamado de Agente Bertolino e em todo lugar o caso tinha que ser contado. Né Xando Pereira?
Carmela Talento: Mônica Bichara Bertolino queria mesmo era dar porrada em Irecê
Mônica Bichara: foi hilário, até hj a gente ri lembrando da presepada
 
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(O dengo da neta Luíza, que na época chamava Irecê de "Cala a boca José", de tanto que repetia a frase)

Emiliano José
03 de fevereiro 2020
Minúsculas estrelas verdes

Carmela passou 15 dias olhando pro teto.
A cama.
O quarto.
Seu mundo.
Aqueles momentos da vida onde tudo parece desabar.
A pessoa sente tudo conspirar contra.
Contra ela.
Cortaram sua carne.
Duplamente.
No seio.
Com a morte de Irecê.
É o momento das dúvidas mais cruéis.
Inclusive para os que têm fé.
Se Cristo, na tradição bíblica, pegunta ao Pai por que fora abandonado, imagine um mortal, tão frágil...
Cercada pelo cuidado dos filhos Bruno, Daniel e Silvana, únicos a entrarem na caverna em que seu quarto se transformara, sentia-só.
Não era ruim.
Precisava daquela solidão.
Fazer o luto sozinha.
Não, o carinho dos filhos não lhe era indiferente.
Era o momento de reencontro com a humanidade.
Foram uma escadinha: Bruno, Silvana, Daniel.
Entre 1977 e 1980 nasceram os três.
Passados tantos anos, ela conta pela primeira vez um episódio, talvez místico, vivido por ela e a filha.
Uma noite, deitada, Silvana sentada no sofá ao lado da cama, as duas numa comunhão quase perfeita, olham para o teto e são surpreendidas por iluminações.
Luzes, minúsculas estrelas verdes subindo subindo atravessando o teto.
As duas, paradas, estupefatas, tomadas pela beleza daquelas minúsculas estrelas verdes, uma enigmática aparição, envolvidas pela poderosa sensação advinda delas.
Não paravam de irromper no quarto.
Uma coisa dessas não é pra ser compreendida.
Basta a profunda sensação experimentada.
As minúsculas estrelas verdes tiveram o poder de tirá-la da cama no dia seguinte.
Amanheceu com outra disposição.
Parecia ter recebido um sopro de ânimo para retomar a vida.
Parecia, não.
As minúsculas estrelas verdes foram o sopro.
Produziram o milagre.
Abriu a janela do quarto, e o mar à sua frente, o mar do Rio Vermelho, parecia calmo:
- Falei pra mim mesmo: vida que segue!
Insistiu em olhar o mar por algum tempo.
Cantarolou:
"O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito...".
Ontem, 2 de fevereiro, entrou numa canoa, jogou flores para a Rainha das Águas.
Cheia de vida.
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Carmela Talento: Foi mesmo um momento místico, nunca tinha contado esse fato, se estivesse sozinha diria tratar-se de fruto da imaginação ou resultado do efeito dos remédios. Mas minha filha estava ao meu lado e eu ainda perguntei: Silvana vc viu isso? e ela respondeu: vi sim mãe . Realmente há mais mistério entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, já dizia Shakespeare
Solange Moura: Emocionante!
Carine Andrade: Muito emocionante essa passagem da sua vida, Carmela Talento. Eu, particularmente, não sabia do seu problema de saúde e de tantas outras lutas. Você é merecedora dessas homenagens e que bom que elas estão sendo feitas em vida. Obrigada pela oportunidade de trabalhar com vc e de aprender tanto. Emiliano José, muito massa essa "série", acompanho todos os capítulos!
Lucia Correia Lima: Emocionante história texto. Precisando muito destas estrelas verdes...
Mônica Bichara: Que emoção ler isso, realmente impressionante. Todas as suas estrelinhas se juntaram pra te devolver para a vida, um fenômeno que deve coroar a história de poucas pessoas, iluminadas como vc Carmela Talento.  
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 (A família unida)



(Irecê em primeiro plano, eu com frio sendo sacaneada por ele, Sinval achando que estava nazoropa e Bruno, num São João em Irecê)

(Manifestação em defesa do diploma de jornalista)

(Tim-tim com minha ídola)
(Na Festa de Iemanjá com o filho Daniel Talento)


(Na AL-BA com Joana, Olívia Soares, Ari da Mata, Célia Bandeira ....)

(Carnaval do Rio Vermelho)



No colo da mãe, ainda na Itália

Comentários

  1. Excelente edição e texto de abertura, Mônica Bichara! O Pilha honrosamente registra e destaca com muita satisfação essas publicações de Emiliano José sobre pessoas e profissionais tão respeitados e queridos nossos. E Carmela é uma dessas que a gente admira cada vez mais pela coragem, ética, profissionalismo e competência com que exerce a profissão, além da grande amiga de todas as horas de quem a conquista. Mas o melhor é poder curtir aqui tantas histórias boas que ela coleciona em sua trajetória! Muito bom!

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  2. Ri muito; mas chorei mais. Existem pessoas que nascem com uma dignidade e coragem que me fazem pensar que são feitas de um barro diferente. Sempre admirei profundamente Carmela e estes textos de Emiliano só reforçaram isso. Parabéns pela edição Moniquinha! (E, ainda por cima, ler me fez ter uma saudade da gota dos pestes do Antonio Jorge e do Irecê; cada um do seu jeito, apertaram muito meu juízo, mas também me apoiaram com muita generosidade).

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    1. Que lindo Aninha, feliz de saber que vc gostou. Realmente Emiliano está revolucionando nossas vidas com essas memórias. AJ e Irecê foram mesmo duas figuraças

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  3. Nem sei o que merece mais elogios: se a edição primorosa de Mônica ou a história de Carmela. Na dúvida, mando mil curtidas para as duas. Acompanhar esses relatos, conhecer algumas facetas da vida dessa mulher a quem sempre admirei e lembrar de alguns episódios em que estive presente me trouxe emoções indescritíveis. Mais uma vez, Emiliano está de parabéns por nos fazer compartilhar esses momentos. E, Carmelita, eu sei que você já sabe, mas não canso de repetir: você é uma inspiração para mim e para todas as jornalistas da nossa geração.

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    1. Que bom que você gostou, Jaci. Carmelinha é nossa ídola e é muita responsabilidade falar sobre ela, principalmente depois desse trabalho delicioso do mestre Emiliano José, que vem desencavando tantas histórias guardadas só nas nossas memórias e que agora também são dele. Ou melhor, são públicas. Não canso de agradecer

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  4. Que maravilha, mais uma vez, Mônica, sua edição. A emoção me toma. Muito dos episódios da história de Carmelita, nesta série, só li agora porque não estou entrando diariamente no face. Por isso, não comentei. Estou grata e honrada porque em muitos dos momentos da história dela eu estava presente, junto. Convivi com ela. Muita emoção ao relembrar o episódio da doença. Todo o processo, especialmente o inicial. A força, coragem e fé da querida companheira, que não deixou de trabalhar, que sorria, resistia. Ah, Carmelita, quanto exemplo você nos deu (e nos dá), pessoal e profissionalmente. Que trajetória linda e forte. Como diz Jaci, uma inspiração para mim também e colegas da nossa época, e que precisa ser (sua história) conhecida pelo nova geração. Que todas e todos colegas possam ler essa série e se encher de conhecimento e de orgulho. Mais uma vez, parabenizo o querido amigo, colega, escritor Emiliano José por toda a poesia, leveza e criatividade ao contar a história de Carmela e de todas nós, privilegiadas pelo #MemóriasJornalismoEmiliano. Simplesmente, GRATIDÃO.

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  5. O comentário acima é meu, Isabel Santos

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