#MemóriasJornalismoEmiliano – Carmela Talento – Uma fortaleza, sem perder a ternura (Vai chorar, Mané?)
(Comemoração na redação do JBa pela cidadania brasileira de Carmela - eu Chico Vasconcelos, Rêmulo Pastore, Isabel Santos, Emiliano José, Jânio Lôpo...não lembro o nome dos meninos)
Falar
de Carmela Talento é lembrar minha própria trajetória, porque ela sempre esteve
por perto. Colega, amiga, parceira, cúmplice, irmã...Até no signo nós
combinamos, duas cancerianas daquelas que se pudessem botavam os filhos (netos,
amigos, parentes....) debaixo das asas.
Com
essa série #MemóriasJornalismoEmiliano, o colega e escritor Emiliano José vem nos
presenteando com lembranças maravilhosas, algumas já adormecidas no tempo. Uma
delícia mexer nesses arquivos da memória, revivendo momentos tão importantes
como a conquista da cidadania brasileira por Carmela, comemorada por todos na
redação (por isso escolhi essa foto para abrir a postagem aqui no Pilha).
As
perseguições de ACM ao Jornal da Bahia; o casamento com o comunista Antônio
Jorge Moura; a dignidade com que Carmelinha fez o vereador “desindicar” seu
nome para um cargo público, tipo cala-boca; a editoria de política da Tribuna
da Bahia, verdadeira escola de jornalismo; a experiência de ser secretária de
Comunicação de Lídice da Mata, primeira prefeita de Salvador; a fortaleza ao
enfrentar por duas vezes um câncer de mama; e o sofrimento coletivo com a morte
do nosso querido Irecê, seu companheiro e amigo de todas as horas. Tá tudo aí
nos próximos capítulos, com os comentários dos amigos no face de Emiliano, onde
a série é postada originalmente. E muita emoção.
** Antes
da série transcrevo aqui o agradecimento ao autor postado por Carmela em seu
face, igualmente com os comentários dos amigos. A série tem um intervalo de 20
de dezembro a 20 de janeiro, quando Emiliano fez uma pausa para se dedicar aos
capítulos sobre os comunistas que “invadiram” o Jornal da Bahia, por julgar oportuno,
neste momento da nossa história, de tantos retrocessos, mostrar por meio de
documento oficial como a ditadura perseguia os jornalistas e censurava a
imprensa.
**Leiam
também os capítulos anteriores de #MemóriasJornalismoEmiliano, postados aqui no
Pilha sobre Isabel Santos, euzinha (quanto orgulho), Jaciara Santos, Joana
D´Arck, As Comadres (é nós de novo), Anízio Carvalho e Os Comunistas que
invadiram o JBa.
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Carmela Talento (AGRADECIMENTO A EMILIANO)
24
de novembro 2019
Quem me conhece
sabe que não gosto de homenagens e nunca fui adepta do marketing pessoal, porém,
não posso deixar de registrar e ao mesmo tempo agradecer ao jornalista,
escritor e ex-deputado Emiliano José,
autor de vários livros, entre eles “Galeria F - Lembrança do Mar Cinzento”, “As
Asas Invisíveis do Padre Renzo”, as biografia de Carlos Marighella, Lamarca e,
mais recentemente, a de Waldir Pires, por ter o meu nome relacionado na série
que está escrevendo sobre a trajetória de jornalistas que iniciaram na
profissão no mesmo período em que trabalhou no Jornal da Bahia.
Emiliano já contou
brilhantemente as histórias de Isabel
Santos, Mônica Bichara, Joana D'arck e Jaciara Santos. Só posso dizer que
estou lisonjeada e ao mesmo tempo surpresa com a abordagem que vem fazendo e
gostando de me ver como personagem de um período importante da história do
jornalismo da Bahia, profissão que exerci com ética e responsabilidade em todas
as funções que me foram confiadas, nos 43 anos de atividade.
COMENTÁRIOS
Marilia Miranda: Vc merece.
Carmela Talento: 😘
Samuelita Santana: Merecidamente
Carmela
Carmela Talento: 😘
Hellio Campos: Parabéns Melina
merecida homenagem.
Carmela Talento: 😘
Cleusa Duarte: Parabéns Carmela
Talento
Carmela Talento: 😘
Claudio Santos: Parabéns
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Tem razão vc de
ficar lisonjeada. Qualquer um, com o talento e caráter de Emiliano, bastaria
mencionar "minha humirde pessoa" já ficaria feliz. Emiliano e eu
frequentamos aulas juntos na época da FACOM. Lembra Emiliano...rsrsrs
Emiliano José: Beijão, Josefa
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Emiliano José
Outro..
Carmela Talento: Vc está certa
Josefa Teixeira Ribeiro Silva
Tiago Amorim Brito: Justa! Vc é
maravilhosa.
Carmela Talento: Meu garoto
fazendo sucesso em Catu!
Sirlene de Melo: Merecida
homenagem, Carmelita!! 👏🏽👏🏽
Carmela Talento: 😘
Aninha Ramos: Você é especial,
amada e querida por todos...!! Merecedora por ser uma excelente jornalista,
sim!! Boa notícia, Carmela!!🌺😘🌹😍🐦🎂🤣🌿💐🌷👏🏽💎📿💥💦🤞🏻💙💞👏🏼💚💝🧡💖
Josefa Teixeira Ribeiro Silva: Concordo
Aninha!!
Carmela Talento: Aninha Ramos vc
é uma querida !
Carmela Talento: Josefa Teixeira 😘
Mônica Bichara: Nem me fale,
Carmelinha. Emiliano José está revolucionando nossas vidas. Realmente tem sido
emoção diária relembrar uma página tão bonita da nossa história
Carmela Talento: Com certeza,
lembrando de coisas que já estavam perdidas no HD da nossa memória.
Idalina Fonseca: Você merece! 🌹
Carmela Talento: 😘
Vera Lúcia Nascimento Calmon: Parabéns
Carmela!
Nadya Argôlo: Também estou
adorando ler as histórias. E vc faz parte delas amiga querida!
Carmela Talento: São muitas
histórias para contar, não é mesmo amiga?
Mônica Bichara: Nadya Argôlo vc
também tem muito a contar, imagino quantas memórias da dupla com Lucinha e com
o compadre Reminho Pastore. Né, Emiliano José?
Nadya Argôlo: Verdade...muitas
histórias...
Emiliano José: Nadya Argôlo
Você pode me ligar?
Bene Simões: Carmela Talento
queiras ou não vc é uma referência do melhor da nossa profissão! Abraços
Carmela Talento: Vc foi uma
referencia para mim na redação da Tribuna, sempre paciente e tranquilo com
todos nós. Bjs
José Fernandes: Carmela Talento
você é um exemplo a ser seguido. Espero que estas histórias inspirem os novos
profissionais.
Carmela Talento: Vc faz parte
dessa caminhada amigo, são muitas décadas de amizade!
Luciana Cruz: Vc merece por
seu trabalho e dedicação a profissão nós que agradecemos a ele por esse ato, o
Rio Vermelho em festa por ter vc como nossa interlocutora nas ações boas e nas
críticas construtivas para melhoria e mudança nas demandas. Parabéns Carmelita 😍🤩👏🏾🙏🏽🙌🏾
Carmela Talento: Vc ajudando a
preservar as tradições do nosso Rio Vermelho garantindo com muito esforço todos
os anos o desfile do Lero-lero. Grande abraço e continuo na torcida pela
completa recuperação do querido Cacau do Pandeiro, ícone da MPB.
Joana D'arck: Minha ídola! Vc
merece todas as homenagens e tem muita história boa para contar!
Carmela Talento: ai, ai
Sandra Silva: Parabéns
Carmelita!!!👏👏👏👏👏👏
Jaciara Santos: Já disse antes e
repito: você é a inspiração de todas nós. Como profissional, como mãe, como
mulher. Sou tiete assumida (carmelete de carteirinha), portanto pode parar com
essa modéstia. Você é Carmela Carmela Talento. A única.
Djalma Costa Lino: Você merece
Carmela Talento: Grande abraço
amigo, e bora Vitória!
Lídice da Mata: Muito boa
escolha a de Emiliano, Carmela , um talento do jornalismo baiano !!😁
Carmela Talento: Pois é deputada,
Emiliano José resolveu mexer com nossas emoções homenageando as mulheres que
iniciaram na carreira de jornalista no mesmo período que ele no Jornal da Bahia
e na Tribuna. Como é um excelente escritor e narrador está transformando vidas
comuns como a minha, em histórias interessantes.
Emiliano José: Carmela Talento,
negativo. Interessante é a vida dessas meninas.
Mônica Bichara: E ser chamada de
menina por Emiliano José fica ainda mais interessante, né Carmelinha hehehe
Carmela Talento: Muito melhor do
que a velha guarda do jornalismo kkk
Ivan Cláudio: Parabéns
Carmela, você merece, é uma excelente profissional. Apesar de termos trabalhado
pouco tempo juntos, aprendi muito com você. 😘😘😘
Carmela Talento: Ivan Cláudio
minha passagem pelo INSS foi um aprendizado, tivemos um início de relação
tumultuada, mas depois nos entendemos e conseguimos fazer um bom trabalho em equipe
apesar do pouco tempo. Vc é uma liderança importante dentro da estrutura de
comunicação do INSS, reconhecido por todas as superintendências.
Maria De Salete Silva: Parabéns, Carmela
querida!
Evanice Maria Dos Santos: Só tenho que
parabenizar a todos os colegas que fizeram parte dessa narrativa histórica de
um tempo tenebroso da história contemporânea do Brasil. Tive a oportunidade de
acompanhar de perto. Foi muito importante para minha melhor compreensão de
certos fatos ocorridos, cuja perdas e danos jamais sejam esquecidos, para que
nunca mais se repitam. Parabéns, Emiliano.
Mônica Bichara: Nossa Lady Eva,
coluna deliciosa do JBa
Carmela Talento: Essa também fez
história
Emiliano José: Evanice Maria
Dos Santos Me ligue, se puder
Mônica Bichara: Isso tá é
ficando bom
Gabriela Rossi; Parabéns! Justo
reconhecimento 👋👋👋
Carol Albuquerque: Linda e justa
homenagem! Parabéns, Tia!
Isabel Santos: Nada de modéstia
Carmelita (Carmela Talento). Você é um talento incontestável, e nós, as outras
meninas (como carinhosamente nos chama o querido Emiliano José), estávamos
aguardando ansiosas pela sua história, que o amigo/colega/escritor vem
contando, com maestria e muita poesia, como sempre. Ele nos fez tirar lá do
fundo da nossa memória momentos que pareciam esquecidos, alegrando e
emocionando nossos corações. Sou eternamente grata por ele ter nos
proporcionado esses momentos, nos fazendo relembrar, na história de cada uma, a
história de todas. Porque estávamos (e estamos) todas 'juntas e misturadas'. Na
mesma 'vibe', como a galera diz hoje rsss. Portanto, querida, uma homenagem justíssima.
Beijão
Mônica Bichara: E um aviso, esse
texto de Carmela Talento, com comentários, terá que entrar para a edição do
Pilha junto com as memórias de Emiliano José
Emiliano José: Mônica Bichara,
nada mais próprio, justo e enriquecedor.
Carmela Talento: Nem sei se
mereço tanto carinho, fico até sem palavras para agradecer.🥰😘
Mônica Bichara: Carmela Talento
faça uma feijoada e chame a gente hehehe
Carmela Talento; Mônica Bichara
dia 2 de fevereiro klkkk
Mônica Bichara: Carmela Talento
essa é de lei
Mônica Bichara: Tô com uma
conjuntivite arrasadora desde sexta, por isso não estou conseguindo ler os
textos grandes nem comentar
Isabel Santos: Realmente,
Mônica Bichara, além da feijoada do dia 2, uma outra especial. Vou comer todas
as saladas kkkk, que Carmelita também faz com maestria, com muita dose de amor.
Antonio Carlos Tramm: Carmela vosmicê
sempre será uma referência da profissão de jornalista. Nosso Emiliano está
notabilizando os seus registros ao incluir esta referência da classe
Carmela Talento: Antonio Carlos
Tramm vc como sempre muito gentil, grande abraço!
Gabriel Carvalho; Homenagem
justíssima. Você é uma jornalista maiúscula e de grande espírito que sabe
liderar uma equipe como poucos. Obrigado por tudo sempre !
Carmela Talento: Gabriel Carvalho
sorte minha de sempre ter encontrado excelentes profissionais como vc para
liderar, assim fica fácil. Bjs
Carmen Correia: Carmela Te
conheci na Universidade e desde lá você se mostrou correta, gentil e
competente. Vc ser citada como referência é apenas uma constatação, que faz
parte da consciência de todos os colegas que tiveram o prazer de te conhecer.
Parabéns também p vc Emiliano por mais esse trabalho que certamente trará o
mesmo empenho e seriedade. Parabéns às meninas também .
Carmela Talento: Carmen Correia
obrigada, vc também é referência
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Emiliano José
21
de novembro 2019
Mulheres na luta
Lagonegro
é uma pequena cidade do Sul da Itália.
Atualmente,
sua população gira em torno de seis mil habitantes.
Carmela
Talento não esquentou lugar.
Aos
dois anos de idade, seus pais arribaram para o Brasil.
A
terra natal, só foi conhecer décadas mais tarde, ao completar 60 anos.
Ao
conhecer e desfrutar da pequena comuna entre montanhas perguntou-se por que os
pais a abandonaram.
Queriam,
quem sabe, "fazer a América", ilusão de todos os italianos chegados
ao Brasil.
Pensavam
certamente acumular algum dinheiro e voltar à comuna tão querida.
Vieram
de terceira classe, navio abarrotado.
Não
"fizeram a América".
Não
voltaram.
Confesso:
só fui saber disso nesse ano da graça de 2019.
Nascida
na Itália, mas brasileira de vida inteira.
Não
ouvisse dela mesma, e nunca descobriria sua origem italiana.
Naturalmente,
tem dupla cidadania.
Nossa
relação começou no "Jornal da Bahia".
Primeiro,
quando fui chefe de reportagem, ela repórter.
Depois,
na condição de editor de Política, ela novamente repórter.
Amiga
serena, terna.
Ando
falando dessas mulheres intrepidas.
Ocuparam
as redações a partir dos anos 1970.
Pra
valer.
Não
é simples essa conquista de espaço.
Às
vezes, necessário forçar a mão, brigar.
A
competência nem sempre é argumento suficiente.
Vieram
pra ficar.
Nessa
série, falei de Isabel, Mônica, Joana, Jaciara, Roberto Carlos e as baleias.
Peço
licença agora pra falar um tiquinho de Carmela.
Os
primeiros anos de Brasil não foram fáceis.
Os
pais quase inventaram um idioma particular, junção do italiano com o português,
usado na convivência familiar.
Será
portuliano?
Nos
primeiros anos do primário, Carmela sofria muito, usava palavras trocadas,
enfrentava dificuldades para apreender o sentido de muitos vocábulos.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Só mesmo um historiador
de sua categoria para transformar uma vida simplória em história. bjs
Jaciara Santos: Carmela Talento
menos modéstia, mestra, menos... Você é a ídola de todas nós!
Carmela Talento: imagine!
Emiliano José: Carmela a
grandeza é sua. Eu sou apenas cavalo de orixá.
Isabel Santos: Que simplória
que nada, Carmelita (Carmela Talento). Você é uma mestra, como diz Jaciara
Santos. Muita coisa boa vem por aí. Estava ansiosa esperando a publicação dos
textos gostosos do querido Emiliano José sobre sua rica trajetória. Beijão
Joana D'arck: Olha ela aí! Bem
vinda Carmela! Tô na maior expectativa aqui para ver suas histórias contadas
por Emiliano. Aí tem muita história, viu mestre! Vamos acompanhar, né Adilson
Borges Jadson Oliveira, Isabel Santos Nádia Nadya Argôlo Diogo Tavares Moacy
Carlos Almeida Neves Kardé Mourão Nice Melo Claudio Pimentel Mônica Bichara
Elieser Cesar Oldack Miranda Alberto Freitas Deta Almeida Daniel Talento Marina
Soares Silvana Moura. Gente, vai marcando aí os amigos para acompanharem essa
saga.
Nadya Argôlo: Trabalhamos
juntas no Jornal da Bahia. Doces saudades...
Mônica Bichara: Simplória, é? Tá
bom, Carmelinha, a gente acredita. Mais uma grande irmandade que o jornalismo
me deu pra vida toda. Que bom que os Talento vieram pra cá
Silvana Moura: Muito orgulho
desta Mamma! 👏👏👏👏
Mônica Bichara: E de quebra
ainda criou e nos deu uma família toda linda, muito especial, que tb é nossa
Isabel Santos: Pois é, Mônica
Bichara, uma família linda. Sua Mamma, Sil, (Silvana Moura) é um amor.
Bruno Moura: Quem sabe
Carmelinha não se anima e continuar aprofundando essa história. Muito orgulho
dessa história de luta ! Parabéns Emiliano e obrigado .
Emiliano José: Bruno Moura
Mérito de Carmela
Mônica Bichara: Tomara mesmo
Bruninho, Carmelinha ainda tem que escrever muitas páginas no jornalismo. E um
livro. PQ não, Carmela Talento? Vamos cobrar
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Emiliano José
22
de novembro 2019
Trabalho ao lado
de comunistas
Terminado
o primário, Carmela Talento faz o ginásio e na sequência cursa o Magistério no
Colégio Estadual Edgar Santos.
Professora
era o ápice das conquistas da mulher.
Ao
menos era esse o pensamento do velho pai italiano.
Ela
não se renderia a isso.
Sonhava
em ser psicóloga.
Imaginava:
exerceria melhor o magistério, entenderia melhor os alunos.
Já
dava aulas num colégio particular do bairro do Rio Vermelho.
Presta
vestibular em 1971, mesmo ano da formatura como professora.
Marcou
Psicologia como primeira opção.
Segunda:
Comunicação Social.
Passou
na segunda.
Na
Escola de Biblioteconomia e Comunicação, da UFBA (EBC) cultivou a ideia de
seguir estudando após concluir o curso e vir à frente dar aulas na própria
Universidade.
E
quem disse?
Alguém
manda no destino?
Em
1975, quando recebe o diploma, surge vaga na editoria de Municípios do
"Jornal da Bahia".
Carmela
estava posta em sossego fazendo um estágio no jornal "A Tarde".
Ajudava
o veterano Cruz Rios na coluna "Tempo Presente".
O
editor de Municípios do "Jornal da Bahia" era Levi Vasconcelos.
Pede
indicação a Pedro Formigli, professor de Prática Jornalística da EBC.
Queria
alguém recém-formado com aptidão para o exercício do jornalismo.
O
nome dela é mencionado.
Chamada,
correu.
Gostava
da ideia de vir a trabalhar no jornal símbolo da resistência a ACM.
De
estar lado a lado com tantos comunistas ali abrigados.
Chegou
à Barroquinha entre esperançosa e apreensiva.
Já
conhecia Levi Vasconcelos.
Dele,
sem muita conversa, recebe uma pauta.
Faz
um texto básico entrega recebe orientação de voltar noutro dia cumpre outra
pauta outra outra vai seguindo tratada sempre como foca.
O
dono do jornal era quase um mito para muitos jornalistas, inclusive por ela.
A
turma dela da EBC o escolhe como paraninfo.
Além
de ter uma história vinculada ao PCB, João Falcão nunca se dobrou a ACM.
O
jornal vinha de uma belíssima campanha de resistência - "Não deixe essa
chama se apagar".
Carmela
e seus colegas reconheceram a trajetória de um grande jornalista.
Mas,
não só isso.
João
Falcão foi comunista desde muito jovem, editor no final dos anos 30 da revista
Seiva, dirigente do PCB na Bahia, militante ao lado de Marighella e Prestes, o
principal responsável pelo contato com a III Internacional no início dos anos
1940 em Buenos Aires tentando reorganizar o partido.
Registra
isso em num livro sobre o PCB - "O Partido Comunista que eu conheci"
e faz, ainda, uma biografia sobre Giocondo Dias.
Escreve
outro livro sobre o "Jornal da Bahia", do qual ainda falaremos.
Carmela
e seus colegas sabiam a quem homenageavam.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Realmente a
figura de João Falcão ultrapassava todas as barreiras, era quase uma lenda pra
quem estava começando, sobretudo na EBC onde a campanha "Não deixe essa
chama se apagar" já era objeto de estudo, citada por vários professores.
Tenho o livro e o maior orgulho em constar entre os ex-colaboradores
Emiliano José: Se de alguma
forma o papel dele como jornalista foi reconhecido, não se pode dizer o mesmo
sobre sua condição de intelectual e dirigente da esquerda. Pretendo, em algum
momento, escrever sobre isso.
Isabel
Santos Fiquei curiosa, Emiliano José. Vou aguardar. Você é um maravilhoso
arquivo. Bj
Joana D'arck: Destino traçado
na segunda opção. Tinha que ser! Carmela nasceu pra jornalista.
Mônica Bichara: Emiliano José
verdade, a história deve esse reconhecimento a João Falcão. E corrigindo, sinto
muito orgulho em ter sido ex-colaboradora do JBa, mas não fui incluída na
relação do livro, assim como Jaciara Santos, Isabel Santos e outros colegas da
nossa época. As queridinhas foram Carmela Talento e Nadya Argôlo, citadas tanto
na relação dos colaboradores quanto na apresentação de Emiliano José. Vamos
protestar, Jaci e Bel?
Jaciara Santos: Mônica Bichara
tem, moça, o meu e o seu achei. É que não estou com o livro aqui. É em uma
relação interna. O de Bel é que não achei em nenhuma das duas listas.
Mônica Bichara: Jura? Só lembro
do anexo e da apresentação, vou procurar
Emiliano José: Mônica Bichara
Justo. Citar nomes de memória é um risco filhodaputa. Perdão. Muita gente
certamente ficou de fora. E muitos não entrarão nessa série. Desculpem.
Emiliano José: Estou tentando...
Mônica Bichara: Emiliano José
hahaha brincadeirinha
Jaciara Santos: Mônica Bichara
quando eu chegar em Salvador, vou printar o trecho pra você.
Mônica Bichara: Jaciara Santos
achei, fotografei
Jaciara Santos: Mônica Bichara
agora, o de Bel, realmente, não achei...😔
Mônica
Bichara: Jaciara Santos eu tb não, procurei em todas. Vou incluir a foto na
postagem do Pilha
Isabel Santos: Agora, sim,
Carmelita, sua trajetória. Muita recordação e aprendizado, com o olhar criativo
do nosso querido escritor. "Não deixe essa chama se apagar" também
está na minha memória. Foi tão forte acompanhar esse momento triste, de muito
indignação, do nosso jornalismo, e que definiu para sempre o meu pensar sobre
ACM.
Carmela Talento: A possibilidade
de trabalhar no JB após concluir a faculdade era só alegria
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(Entrevistando o então prefeito Mário Kertész na Lavagem do Bonfim)
Emiliano José
23
de novembro 2019
Terror de
copidesques
Levi
Vasconcelos saiu da editoria de Municípios, Utamá Sebastião assumiu e nessa
mexida Carmela Talento foi deslocada para a Geral.
No
jornalismo, a editoria Geral ou reportagem Geral é a grande escola.
Ali
você aprende a ser repórter.
Ou
não.
Ali,
você é obrigado a fazer de atracação de navio a parto de onça.
Enterro
e buraco de rua.
Esgoto
e cultivo de rosas.
Seca
e inundação.
Faça
chuva ou faça sol.
É
rito de passagem de qualquer repórter.
Início
de jornada em qualquer profissão é difícil.
Você
tem todos os medos.
Inseguranças.
Demora
até se firmar, conquistar confiança dos editores, e sobretudo até ter segurança
de seus méritos, confiança no próprio taco.
Carmela
vivia esse momento quando vai para a Geral.
É
fase de altos e baixos.
De
tropeços.
Acertos.
Um
dia de muito ânimo diante de um elogio.
Outro
de desânimo face a uma abordagem errada no lead.
É,
tá bom, o diploma estava na mão.
Mas,
treino é treino, jogo é jogo.
Só
se aprende fazendo.
O
pouco de prática de jornalismo acumulado viera das aulas com o professor Pedro
Formigli, a quem ela nunca deixa de homenagear.
Compartilhamos
a redação da sucursal do "Estadão" e pude conhecer os talentos e a
responsabilidade profissional dele, seu caráter e suas posições progressistas.
Trabalhou
também com Waldir Pires, amizade e admiração comuns.
No
começo de jornada, o pavor são os copidesques.
Assim
com Carmela.
Tinha
um medo danado de Fernando Vita.
Ai
de quem fosse flagrado em erro por ele.
Saía
sacudindo a lauda pela redação procurando o desinfeliz.
Escapou
dele, nem sabe por quê.
Desse
assédio se livrou.
Outros
do copy eram mais comedidos.
Davam
risadas dos erros do reportariado, mas sem alarde, comentavam entre eles
apenas.
A
equipe do copy era de excelência, o pior era isso.
Ou o
melhor.
Um
dia, Carmela não gostou da mexida feita por Gilson Nascimento em um de seus
textos.
Achou
imprópria, mudara o sentido.
Gilson
era dos melhores.
Muito
discreto, tratava os repórteres com respeito, mas não concordou com Carmela.
Sem
alterar a voz:
- Só
vou deixar de mexer no seu texto quando você produzir matéria imexível.
Baixou
a bola.
Iria
perseguir isso.
Sua
utopia.
Consciente
da não-existência desse texto.
Qualquer
texto, no olhar do outro, pode merecer reparos.
Copy
era pra isso.
Jornalismo,
eterno aprendizado.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
David Go Leal: Jornalismo é a
profissão que eu deveria ter perseguido. Gosto do Jornalismo na mesma medida da
Licenciatura ou Direito. Limitei-me à Licenciatura em História. Acompanho as
suas memórias, sem conhecer muitos dos personagens, mas com o sorriso no rosto
- acredito - com a mesma expressão do escritor e dos homenageados. Parabéns
pela alma colocada em cada parágrafo e a demonstração de importância creditada
àqueles que partilharam contigo a estrada.
Emiliano José: David Go Leal
Abração, grande companheiro!
Mônica Bichara: A galera q
começa hj nem imagina o q seja um copy, nem revisor tem mais. Mas eram
intermináveis os minutos aguardando o copy liberar uma matéria, piscando de
medo de ter q voltar pra reescrever tudo, literalmente, pq não existia essa
maravilha de copiar aqui e colar ali. Pra confirmar uma informação, então, eram
horas de pesquisa no arquivo..... Não sei como a gente dava conta,
sinceramente. E qdo o copy ou o editor falavam, só restava baixar a bola mesmo
e esperar a próxima pauta
Carmela Talento: Vida de
jornalista no inicio não é fácil pra ninguém, mas felizmente aprendi muito com
todos os tropeços.
Jaciara Santos: Tenho paixão por
meus ex-copies: LA (Luiz Augusto), Gilson Nascimento, Inácio Panzani, Fernando
Vita, Zé Maria... e tantos outros que me ensinaram ao longo da vida. Só
gratidão! E, sim, aprendi que não existe texto imexível, por mais que a nossa
vaidade de repórter teime em dizer o contrário.
Emiliano José: LA e seu
sorriso.
Emiliano José: O discretíssimo
Gilson Nascimento
Isabel Santos: Também sou muito
grata pelo aprendizado com os copies que me ensinaram, me ajudaram a burilar os
textos no dia a dia da corrida função de repórter, em especial, no JBa. E o meu
maior problema era aceitar o corte das matérias, muitas vezes imensas rssss…Ver
mais
Joana D'arck: Gilson foi
pauteiro do Correio quando passei por lá. Gente fina, gentil. Tenho boas
lembranças. Grande Gilson!
Joana D'arck: TambÉm tive a
sorte de conviver com Pedro Formigli. Um bj, amigo!
Mônica Bichara: Pedro Formigli
óia vc aí
Mônica Bichara: Carmela Talento
vá separando fotos que vc TB vai pro Pilha. Nem pense q vai escapar
Jaciara Santos: Luiz Augusto Dos
Santos
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Emiliano José
24
de novembro 2019
O badalar dos
sinos
A
relação entre copidesques e repórteres não é só desamor.
Creio
fosse 1975, eu repórter no "Jornal da Bahia".
Já
lá se vão 44 anos.
Fiz
matéria sobre o Hospital "Juliano Moreira, abrigo de pessoas com
deficiência mental.
Localizado
no Engenho Velho de Brotas.
Entrego.
Matéria
segue para o copy.
Já
escrevia segunda matéria
De
repente, surge lá do fundo da redação, onde ficava a equipe de copidesques, uma
moça perguntando sobre o autor da reportagem sobre o "Juliano".
Me
apresentei, receoso.
Sorridente,
ela disse:
-
Bela matéria!
Era
Mara Campos.
Nunca
me esqueci disso.
Difícil
compreender o significado de um gesto desses.
Um
estímulo e tanto.
Carmela
experimentou sensação semelhante.
Já
não trabalhava mais em jornal e um dia abre o "Correio da Bahia" e é
surpreendida por um título:
"Fui
útil ao talento de Carmela Talento".
Crônica
assinada por Gilson Nascimento.
Tratava
da complexa relação entre copidesques e repórteres.
Em
um trecho, recupera a discussão do passado, quando mexera no texto de Carmela.
E o
faz positivamente.
Comenta
o quanto havia evoluído, tornando-se, ele registra, uma das melhores
profissionais da geração dela.
Carmela,
recolhendo lições.
Tasso
Franco, outro mestre quando chefe de reportagem.
Não
falava muito.
Corrigia
os textos com os cuidados de um professor rigoroso.
Deixava
as laudas com as observações no escaninho do repórter.
Carmela
confessa: muitas vezes sentiu vergonha diante dos erros apontados.
Desconfia:
Tasso deve ter tido a tentação de demiti-la em algumas ocasiões.
Deve
ter se refreado por sentir seu potencial.
Foi
aprendendo.
O
caminho do conhecimento é áspero.
Frederico
Simões eu conheci como pauteiro no "Jornal da Bahia".
Cheguei
a substituí-lo numa ocasião, não sei se por férias.
Sereno
e competente profissional.
Dá a
Carmela uma pauta estranha: acompanhar o badalar dos sinos ao meio-dia.
Festa
religiosa, e os sinos tocariam todos ao mesmo tempo.
Que
porra faço com isso?
Isso
dá matéria?
Foi
pra rua com os sinos apertando seu juízo.
Pauta
é pauta.
Tem
de ser cumprida.
Instalou-se
no Terreiro de Jesus, terreiro de várias igrejas.
No
horário, os sinos dobraram.
Ela,
ouvindo e olhando.
As
pessoas: começou a prestar atenção às reações.
Umas,
nem aí.
Apressadas,
sem dar a mínima.
Tocando
a vida.
Outras,
paravam, puro enlevo, como se tomadas pelo espírito de Deus.
Outras,
mais fervorosas ainda, se benziam, balbuciavam orações, quem sabe um Pai Nosso,
uma Ave Maria.
E
saiu a matéria, fruto do olhar atilado da repórter.
Compreendeu:
de uma pauta estranha, pode sair uma bela criação.
Depende
da jornalista.
E cá
pra nós: estranha fora a reação dela.
Ia
aprendendo...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Maravilha,
viajando nesse resgate que vc vem fazendo. Carmela Talento não é comadre a
vera, mas faz parte do comadrio de mala e cuia. Ainda mais agora que o
pivetinho dela, Daniel Talento, que tanto bagunçava nas redações, meu ídolo,
casou com minha sobrinha/comadre/filhota emprestada Marina Soares e me deu mais
um sobrinho/neto tão querido. Portanto, o comadrio continua no centro dessas
memórias
Joana D'arck: Mônica Bichara e
eu também me tornei tia do neto de Carmela. Tamo juntas!
Joaquim Lisboa: Neto Em Santa
Maria diziam o seguinte: se o sino dava tantas badaladas era anunciando morte
de "anjo", isto é, aquelas crianças que morriam do tal "mal de
sete dias"; se eram mais tantas, foi uma que morreu solteirona; e, quando
o intervalo entre uma e outra badalada era de um minuto, lá se foi um
macróbio...
Emiliano José: Joaquim Lisboa
Neto Dá boa matéria.
Joaquim Lisboa Neto: De uns tempos
pra cá os sinos já não dobram, os carros de som com Roberto Carlos lamuriando
"virgem maria..." varreram os badalos.
Carmela Talento: Assim fui
aprendendo que repórter é enxergar além, perceber o que passa despercebido para
a maioria dos mortais, desenvolvendo o tal faro jornalístico e contado assim de
maneira tão brilhante por Emiliano José fica ainda mais evidente.
Mônica Bichara: Carmela Talento
é daquelas jornalistas que se reconhece "no arriar das malas"
Jaciara Santos: Por falar em
Mara Campos...essa também tem muuuuuuita história, não é, Emiliano?
Emiliano José: É, mas ela não
cede. Já fiz de tudo. Quem ajuda?
Mônica Bichara: Como assim, Mara
Campos? Oxe, nem venha fazendo corpo mole, queremos seus causos TB. Campanha
lançada: Escreve, Mara!
Joana D'arck: Bora Mara! Conta
aí vai!
Jaciara Santos: e a gente
achando que Carmela Talento é que era difícil...
Emiliano José: Nada...
Jaciara Santos: Bora, Mara
Campos, minha (outra) ídola!
Jaciara Santos: Vamos ter que
fazer passeata, espalhar outdoor, distribuir panfletos nos terminais de ônibus,
spots em rádios e filmetes mas TVs? Bora trabalhar, Mônica Mônica Bichara,
Isabel Santos, Joana D'arck, Carmela Talento. Precisamos de Mara Campos aqui
com a gente.
Jaciara Santos: A gente marca e
ela nem tchum rs rs rs
Jaciara Santos: #EscreveMara
Emiliano José: Jaciara Santos
Não disse?
Joana D'arck: Jaciara Santos 🙋🏽♀️🙋🏽♀️🙋🏽♀️
Joana D'arck: Mara Campos vc
está sendo convocada! Responda aí mulher!
Mônica Bichara: Bora Maroca Mara
Campos, deixa de doce
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(Coletiva do ex-governador Waldir Pires)
Emiliano
José
25
de Novembro 2019
O delírio da máquina de escrever
Já
falei do reencontro provocado por essa série.
Um
mergulho na própria existência.
Olhar
na alma de pessoas queridas, não obstante às vezes a relação tenha sido pouco
profunda.
Reencontro
Carmela, percebo-a, sinto sua ternura, sua delicadeza, já conhecidas, raramente
experimentadas.
Escrever
nesses tempos tem isso: se é verdade escrever sempre ter sido um diálogo, hoje
ele o é muito mais.
Falo
sobre Carmela, e dialogo com tanta gente.
Tempo
de internet.
Observo
as amizades a cercá-la, o carinho do entorno, o abraço comum.
Não
é só com ela, mas agora com ela.
Há o
olhar dela, revisitando o passado, me observando, se aproximando.
A
gente não percebe esse olhar.
Redação
é coisa de louco.
Uma
linha de produção.
Um
corre-corre.
Um
turbilhão.
E
você nem sempre se percebe olhado.
Ouço-a:
-
Emiliano conhecia de nome já na Faculdade, onde se fazia campanha pela sua
liberdade.
Só
agora me situo nesse encontro: ela entrava pra Universidade, eu fora preso um
pouco antes.
Preso
em novembro de 1970.
Carmela
faz vestibular em 1971, ingressa na EBC em 1972.
Entre
1970 e 1974, eu estava na Penitenciária "Lemos Brito".
Ela,
estudando.
Nos
encontramos em 1975, eu chegando ao "Jornal da Bahia", vindo da
"Tribuna", ela começando sua vida profissional.
A
rigor, eu também iniciava.
Saíra
da prisão em setembro de 1974, começara a caminhada na "Tribuna" e em
fevereiro chegava ao "Jornal da Bahia".
Nosso
destino se cruza aí.
Ela
me olhando, só sei hoje:
-
Ficava impressionada com a forma como ele datilografava. Não batia à máquina.
Batia na máquina dada a força que imprimia ao teclado, e a rapidez com que
digitava.
Observando-me,
ela ria.
-
Dava tapas no painel frontal da máquina, retirava laudas que eram amassadas,
jogava na lixeira. Quando terminava, o cesto de lixo estava abarrotado.
Ressalta:
todo mundo fazia isso.
Não
havia a facilidade de correção de hoje, computador e suas mágicas.
A
cada erro, muito xis por cima das palavras, ou lixo.
- Um
dia, João Falcão passou pela redação, viu aqueles cestos abarrotados de laudas
amassadas, virou o cão. Importava papel, era muito caro, necessário economizar,
o jornal passava por crise financeira, o escambau.
De
pouco adiantou.
A
linha de produção seguia sua rotina.
Os
cestos, cheios.
-
Emiliano batendo matéria, como costumávamos dizer, era um toc toc toc parecido
com um instrumento de percussão.
Talvez,
penso hoje, fosse uma compensação.
Nunca
aprendera a lidar com um mísero instrumento musical.
A
máquina de escrever era um delírio, um frenesi: eu me trancava, não via nada ao
lado, podia estar cercado por aquele burburinho infernal da redação, e eu nem
aí, e era então pura música, fusão com o pensamento, texto saindo, ritmo, o
carro da máquina indo e voltando a golpes firmes, os dedos imprimindo, ritmo,
música, creiam, música...
E eu
ia imaginar estivesse alguém a me observar?
Carmela
estava.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Denilson Vasconcelos: A máquina e o
telefone. Nunca vi alguém aliar os dois tão freneticamente, seu Emiliano.
Ouvido e voz. E as teclas bailando na frente.
Emiliano José: É mesmo? Desse
casamento, não lembro
Denilson Vasconcelos: Você não se via.
Emiliano José: É...
Mônica Bichara: Era frenético
mesmo, tentar achar o lead em meio a dezenas de máquinas toc TOC TOC TOC , tvs
ligadas, gente conversando, brigando, gargalhando.....e cada um aprendia sua
forma de se isolar num mundinho silencioso, se concentrar pra achar o lead e o
fio da meada....
Carmela Talento: Observando
impressionada com a rapidez que vc datilografia e fico pensando como está se
virando com a leveza do teclado do computador kkkk
Carmela Talento: O corretor nem
deixa escrever a palavra datilografava, já errei três vezes kkkk
Joana D'arck: O toc toc ...
gostava daquele barulho! Eu ficava observando à máquina era Oliveira, na
redação da Tribuna . Era frenético no teclado, cheio de toc toc.
Emiliano José: Joana D'arck
Penso que Olivetti, não?
Joana D'arck: Emiliano José
desculpa, mas não falei da marca, mas do colega Oliveira.
Emiliano José: Joana D'arck Ok.
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Emiliano
José
26
de novembro de 2019
Lixo, buraco,
enterro
Quando
Carmela deparou comigo como chefe pela primeira vez, ficou na bronca.
Eu
gostava mesmo era da reportagem, mas cedo cheguei a chefias.
No
"Jornal da Bahia", primeiro pauteiro.
Depois,
chefe de reportagem.
O
subchefe era Teixeirinha - José Carlos Teixeira.
Um
parceiro e tanto, profissional de primeira, será meu colega na redação do
"Estadão".
Foi
aqui meu primeiro exercício como chefe de Carmela.
Ela
não gostou.
- O
camarada só me dava pauta de buraco, lixo e esgoto. Ô período que tinha buraco
nessa cidade!
Só
agora estou me dando conta disso.
A
gente, no exercício da chefia, não nota a reação dos repórteres.
Vai
distribuindo as pautas, e vida que segue.
Carmela
sentiu-se penalizada.
As
pautas mais quentes iam para outros jornalistas.
Ela,
virando especialista em buraco, lixo, esgoto.
Chegou
a considerar fosse implicância de chefe.
Não
era.
Reconhece:
de buraco em buraco foi firmando seu texto.
As
matérias com lixo, esgoto, crateras espalhadas pela cidade foram excelentes
experiências, um belo aprendizado.
Foi
aprendendo: não eram simplesmente lixo, esgoto, buracos.
Eles
revelavam as precárias, miseráveis condições de vida do povo.
Parecia
uma tarefa menor cobrir buraco, lixo, esgoto.
Não
era.
Entendeu:
-Aprendi:
no jornalismo e na vida é preciso ter humildade e responsabilidade com tudo que
se faça por mais simples que a tarefa possa parecer.
Claro,
se ela sentiu um excesso meu, deve ter razão na bronca.
Menezes,
um de meus chefes ao chegar à "Tribuna", disse de minhas péssimas
reações quando recebia uma pauta pouco estimulante, ou considerada assim por
mim.
Por
Isso, compreendo Carmela.
E de
nada adiantará tentar pedir desculpas, passado tanto tempo.
Não
gostava de buracos, nem de cobrir enterros.
Ninguém
gostava de fazer enterros.
Tasso
Franco, diante da cara feia de Carmela ao receber uma pauta de enterro, foi
firme e didático:
- Um
repórter que conseguir fazer uma boa matéria de enterro fará qualquer outra
bem.
Seguiu
para o cemitério do Campo Santo pensando na observação do chefe.
O
tempo estava nublado.
O
céu, cinzento.
Juntou
os sinais da natureza com o clima de tristeza do enterro, deu beleza, leveza e
emoção à matéria.
Fugiu
do habitual.
Tasso
gostou.
Começava
a ficar pronta para qualquer cobertura.
Aprendendo.
Nem
sempre fazendo pautas agradáveis.
A
vida é dura.
E
bela.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Joana D'arck: Apois, a vida é
um aprendizado, né Carmela? O buraco te levou longe! Kkkkk
Carmela Talento: No meio do
caminho tinha buracos
Mônica Bichara: Olha Tasso Paes
Franco aí de novo ensinando que cobertura de enterro era o grande teste do
repórter....Contei a mesma coisa nos meus capítulos da novela, digo da série
#MemóriasJornalismoEmiiano, com o enterro de dona Isabel Santana, Campo Santo
lotado de democratas e comunistas em plena ditadura militar. E euzinha lá só
ouvindo Tasso dizer "anote tudo, até o endereço do túmulo", puta
responsabilidade.....Mas acho que passei no teste pq a matéria saiu do jeitinho
q eu fiz. Cobrir buraco e esgoto era coisa de foca, a gente sempre torcia o
nariz, mas realmente revelavam o estado de abandono da cidade
Carmela Talento: Vida de repórter
é mesmo uma novela !
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Emiliano José
27
de novembro de 2019
Cidadania
brasileira
Carmela
Talento sentia-se brasileira.
Lagonegro
era lembrada apenas quando os pais a revisitavam nostalgicamente em conversas
na sala de jantar.
Sentia-se,
mas não era.
Ao
menos formalmente.
Descobriu:
necessitava da cidadania brasileira para continuar a exercer a profissão.
Já
estava contratada pelo "Jornal da Bahia" quando recebe a galinha
pulando: estrangeiros não podiam exercer a profissão de jornalista.
Coisas
da ditadura.
Quem
sabe fosse ela uma perigosa comunista.
Não
tinha escolha.
Conseguir
a tal cidadania ou abandonar o jornalismo.
Imaginou
as dificuldades.
O
tempo exigido.
Ia
ser um tormento.
Felizmente,
equivocou-se.
Mais
ou menos.
Entrevistada
na Polícia Federal, responde às perguntas.
Viu-se
depois em uma sala com outras pessoas também em busca da cidadania brasileira.
Tensa.
Pediram
fizesse uma interpretação de texto.
Fez.
Depois,
uma leitura oral.
Fez.
Até
a um ditado foi submetida.
Tensa.
Que
será que será?
O
processo seguiria para Brasília, a ser analisado pelo Ministério da Justiça.
De
qualquer modo, já tinham a ficha de cada um, descartada assim a hipótese de
algum subversivo ou subversiva italiana pretender agitar no Brasil.
O
ditador era o general João Batista Figueiredo.
Ministro
da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.
Mal
ou bem, era momento de abertura.
Já
havia acontecido a anistia, os ventos pareciam soprar a favor.
Geisel
prometeu distensão.
Mas,
iria continuar a matar, segundo ele próprio assegurou.
E
continuou.
Figueiredo,
cercado pelo avanço das lutas populares, não reprimiu da mesma forma.
Mas,
ditadura.
Prometeu
prender e arrebentar.
Não
teve condições.
Gostava
mesmo era de cheiro de cavalo.
Gente
não era com ele.
Carmela,
tensa...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Isadora Browne Ribeiro: Carmela é uma
mulher de fibra, Alguém muito espacial.
Carmela Talento: Isadora Browne
Ribeiro , bondade sua
Isadora Browne Ribeiro: Carmela Talento
tenho provas. Rs. Beijo
Carmela Talento: Realmente foi um
período de muita tensão e ainda teve entrevista para saber a razão do pedido de
cidadania !
Mônica Bichara:
Suspense.....Carmelinha tinha cara de comunista, conversa de comunista, roupa
de comunista, mas.....kkkkk
Joana D'arck: Até provar que
nariz de porco não é tomada...eita confusão!
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Emiliano José
28
de novembro de 2019
Racismo
Anizio
Felix era um companheiro bem humorado.
Fumante
inveterado, só aceitava Continental sem filtro.
Droga
por droga, sem filtro.
Teve
papel destacado à frente do Sindicato dos Jornalistas.
Tivemos
divergências no encaminhamento das lutas corporativas.
Vistas
à distância, secundárias.
Ontem,
na Assembleia Legislativa, homenagem ao centenário de nascimento de João
Falcão, Levi Vasconcelos dizia da amplitude de visão trazida pela idade, pela
experiência.
Olha-se
as pessoas com seus méritos, qualidades, defeitos, e conseguimos valorizar mais
o lado positivo, salvo as exceções.
O
tempo é senhor da razão.
O
olhar torna-se menos sectário.
Assim
com Anizio.
Companheiro
e tanto, dedicado à luta.
Amigo.
Fez
de um tudo no "Jornal da Bahia".
Durante
muito tempo, editor de Internacional.
Naquele
momento, ao chamar Carmela, chefe de Reportagem.
Havia
recebido denúncia de racismo.
O
fato teria ocorrido num prédio da Rua Princesa Isabel, Barra Avenida.
Negro
não podia usar o elevador social.
Só o
de serviço.
Negro,
sempre disposto a uma boa briga, sabia bem de racismo.
Sabia
na pele.
Pede
a Carmela pra apurar.
Combinou:
uma funcionária negra do setor de assinaturas, linda de morrer, a acompanharia.
O
fotógrafo num primeiro momento ficaria à distância.
O
porteiro, distraído, deixou-as entrar.
Iam
primeiro ao apartamento do denunciante.
Carmela,
um tanto desalentada.
Aquilo
não ia render.
Já à
porta do elevador, percebem a chegada do porteiro, desperto de sua letargia,
esbaforido, dirigindo-se à branca Carmela:
-
Minha senhora, a senhora pode subir pelo elevador social, mas a amiga aí deve
ir pelo de serviço.
A
amiga aí...
Carmela
subiu nos tamancos, armou um barraco, tremeu de indignação:
-
Isso é um absurdo, nós vamos para o mesmo andar, é uma ordem ilegal.
-
Não, ela não pode subir por esse elevador. A senhora me entenda, é ordem da
síndica.
O
fotógrafo se aproximou e começou a disparar.
O
porteiro, nervoso:
-
Estou apenas cumprindo ordens, minha senhora.
Uma
confusão dos diabos.
Todo
mundo entrou na dança: síndica, o autor da denúncia, a prática confirmada como
corriqueira, Carmela papel e caneta, ouvindo cada um, síndica tentando negar
sem muita segurança.
Manchete
do dia seguinte.
Bafafá.
Tremenda
repercussão.
"Veja"
e "Manchete" repercutiram.
O
ditador Geisel mandou apurar.
Um
fuzuê.
Inquérito
aberto pela Polícia Federal...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Joaquim Lisboa Neto: O ditador de
hoje não mandaria apurar nada, pelo contrário, iria condecorar a síndica.
David Go Leal: Na nossa
"Baêa", hem?!
Emiliano José: David Go Leal
RACISMO, TAÍ!
Carmela Talento: Os anos passaram
e esse tema ainda é recorrente, infelizmente!
Joana D'arck: Carmela Talento
infelizmente. E agora ainda nos vemos com a aberração da nomeação do presidente
da Fundação Palmares negando a existência do racismo e falando barbaridades
contra a luta anti-racista. Muito revoltante!
Carmela Talento: Exatamente isso
Mônica Bichara: Grande bafafá,
Carmela jogando duro contra o racismo, dando visibilidade a um tema até então
tabu. Só o JBa pra dar essa manchete, orgulho
Carmela Talento: Mônica Bichara o
que mais deixa a gente triste é que passados mais de 40 anos e esse tema
continua presente, uma vergonha !
Mônica Bichara: Carmela Talento
exatamente, um absurdo que além de ainda ser prática corriqueira o racismo
ainda temos um governo que dá cargo de autoridade em matéria de políticas
públicas de reparação a um racista declarado
---------------------------------------------
(Entrevistando Dom Helder Câmara para o Jornal da Bahia)
Emiliano José
29
de novembro de 2019
João Falcão
Ontem
foi dia de celebrar uma vida.
Por
iniciativa do jovem e promissor deputado Alex Lima, a Assembleia Legislativa
lembrou centenário de João Falcão.
Merecida
homenagem.
Militante
comunista por duas décadas, clandestino a maior parte do tempo, fez o contato
do PCB com a III Internacional em Buenos Aires, 1942, preocupado em reorganizar
o partido esfacelado com as prisões do Estado Novo, dirigente estadual da
Organização, militante ao lado de Marighella e de Prestes no Rio de Janeiro,
preso algumas vezes, só romperá com os comunistas em 1956, quando das
revelações dos crimes de Stalin.
Jornalista,
edita a revista "Seiva", solitária publicação de esquerda.
Era
1938.
Conseguiu
agrupar intelectuais de todo o País, surpreendente para um jovem de 19 anos.
É
fechada em 1943.
Findo
o Estado Novo, funda "O Momento", jornal do PCB, berço de vários
profissionais do jornalismo baiano.
Em
1958, seu maior feito jornalístico: o "Jornal da Bahia".
Um
sopro de renovação do jornalismo baiano.
Ainda
falarei muito dele.
E no
outono da existência, João Falcão se debruça sobre a história e constrói uma
notável obra memorialística envolvendo a história do PCB, sua militância, a
entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial, biografia de Giocondo Dias, a história
do "Jornal da Bahia", a épica batalha contra ACM, "Não deixe
essa chama se apagar", vários livros.
Rigorosamente,
um homem de ideais.
Personagem
à espera de biografia.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Antonio Silvany: João Falcão, o
feirense motorista de Marighella!
Mônica Bichara: Vc é o mais
indicado para essa biografia, Emiliano José. Conviveu com ele, trabalhou com
ele, militou.....o melhor nome
Lucia Correia Lima: Mônica Bichara
VERDADE pois o amor a fonte é fundamental p inspiração
------------------------------------------
(Com os filhos Bruno e Silvana e a neta Luíza)
Emiliano
José
30
de novembro de 2019
Gravidez não é
doença
A
matéria sobre o racismo da Barra Avenida teve vários desdobramentos - suites,
como chamamos no jargão jornalístico.
Outros
repórteres entraram no jogo.
Carmela
foi logo impedida de seguir no caso: laringite, febre alta, confinada em casa
vários dias.
Fora
convocada para depor no inquérito, mas não pôde comparecer.
Uma
noite, ouve batidas na porta de casa.
Era
a Federal.
Um
agente, um escrivão sobraçando uma Remington.
Queriam
a todo custo o depoimento dela.
Que
fazer?
Depor,
né.
Nacionalidade,
estado civil, religião, idade, os cambau.
Sua
casa virou delegacia de polícia.
Sentiu
assim.
Delegacia
da Polícia Federal.
O
agente queria saber de tudo, tim tim por tim.
E
ela depondo.
Tranquila.
Não
tinha nada a esconder.
O
relato era sua matéria.
Estava
tudo lá.
A
vida seguiu - o jornal continuou a acompanhar o assunto.
O
prédio suspendeu a norma racista, a síndica foi afastada, o porteiro foi
demitido, sempre culpam o pobre coitado.
O
inquérito nunca foi concluído.
Carmela
faz balanço: o trabalho na editoria Geral lhe deu a chance de fazer de tudo.
E
foi enchente, e foi desabamento de encostas, e foram ocupações a se espalhar
pela Salvador empobrecida, e foi tudo.
Já
se disse: repórter passou pela Geral, está pronto.
Pode
seguir viagem.
Cobriu
tantas passeatas, acompanhou movimentos sociais e suas lutas.
Igreja
era pauta permanente, e rica.
A
Igreja Católica, depois de 1970, após ter se equivocado e apoiado o golpe de
1964, tornou-se casamata da resistência à ditadura.
Sempre
rendia boas pautas.
Carmela
entrevistou dom Hélder Câmara, cobriu visita de Madre Teresa de Calcutá,
acompanhava as atividades da Arquidiocese de Salvador.
A
cobertura dos desabamentos marcou-a profundamente.
Revelava
a desigualdade, a inexistência de uma política habitacional voltada aos pobres,
obrigados a buscar as perigosas encostas, a erguer barracos instáveis,
incapazes de suportar chuvas, fininhas fossem.
Mesmo
grávida, cobriu desabamentos, subiu e desceu morros, escalou ribanceiras,
sofreu muito, compartilhou lágrimas, o sofrimento de tanta gente a chorar o
teto perdido, muitas vezes perder filhos, mães, pais, um desespero.
Houve
quem argumentasse com Frederico Simões, Fred, o pauteiro: devia poupar Carmela
grávida, dar-lhe pautas mais leves.
Ele,
sem alterar minimamente a voz:
-
Gravidez não é doença.
Carmela
concordou.
A
gravidez nunca a tirou de nenhuma pauta - lembram-se de Jaciara sempre grávida
Roberto Carlos e as baleias e o Paraguaçu e Cachoeira?
Mulheres
intrépidas, essas.
Carmela
continuou a subir o morro...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Jaciara Santos: Cadê que Mônica
Bichara num fala nada? Carmelita embuchou mais vezes do que eu kkkkkkkk
Emiliano José: Jaciara Santos
É, alguém há de investigar mais de perto esse mundo de gravidezes atribuídas a
você. Tarefa pra uma boa repórter. Vou sugerir a Mônica Bichara. Afinal, é
excelente, fuça bem, não?
Mônica Bichara: Verdade que Carmela
Talento embuchou mais q Jaci. Mas qdo eu conheci já tinha Bruninho novinho. Foi
produção em série Daniel Talento, Silvana . Ainda bem q gravidez não é doença,
né comadres,?
Jaciara Santos: Emiliano José
fato!
Carmela Talento: Mulher na
redação tudo era mesmo novidade, até gravidez, rsrs.
Mônica Bichara: Carmela Talento
inda bem q não era doença, TB embuchei duas vezes
---------------------------------------------
Emiliano
José
1 de
dezembro de 2019 ·
O dragão da
maldade contra o santo guerreiro
Ói o
auê aí ói!
Não
é que Carmela foi chamada pra um?
Aquilo
não era uma pauta.
Era
um puta auê.
Pauteiro
às vezes não tem dimensão onde está jogando a repórter.
Vê a
galinha pulando e manda a perdigueira atrás.
Que
se vire nos trinta.
É
com ela, Roberto Carlos e as baleias.
Esse
não era um auê qualquer.
Opunha
o dragão da maldade e o santo guerreiro.
Valentin
Calderón de La Vara e Glauber Rocha.
Glauber,
dispensa apresentação.
Calderón,
diremos duas ou três palavras à frente.
A
pauteira era Rosa naquele dia 27 de dezembro de 1977.
Creio
Rosa Bastos, com quem trabalhei na "Tribuna da Bahia", doce e
talentosa.
Soube
do início da turbulência no Museu de Arte Sacra, localizado nas dependências do
Convento de Santa Teresa, no Sodré.
Despachou
Carmela.
A
pauta noticiava a presença de Glauber Rocha e equipe no Museu para uma filmagem
a ser aproveitada no filme "A idade da terra", um dos últimos do
cineasta.
Ou
será o último?
Carmela
se animou.
Glauber
Rocha era sinônimo de agitação, sempre ele mesmo um auê.
Papel
e caneta, sai do jornal, pega a direita, sobe a ladeira de acesso à Praça
Castro Alves, rua Carlos Gomes, desce a primeira à direita e estava no destino.
Foi
a pé.
Um
pulo.
Primeira
repórter a chegar.
Do
portão do Museu, avista atores, atrizes, figurantes, algumas com hábitos de
freira.
Norma
Bengell, preferida de Glauber, túnica preta, o corpo em forma de cruz,
carregada pelo grupo.
Carmela
intuiu: o grupo seguiria caminhando até a capela do final da ladeira, onde
entraria carregando aquela cruz humana.
Tudo
certo, tudo bem.
Até
o surgimento do dragão da maldade.
Talvez
a metáfora seja uma crueldade.
Se
for, o leitor equilibra com seu tirocínio, sua sagacidade.
Valentin
Calderón, espanhol, vivia havia décadas na Bahia.
A
partir de 1960, meteu-se pelo interior do Estado.
Arqueólogo,
realizou escavações em pelo menos 50 sítios arqueológicos datados do período
colonial.
Doou
os mais de 200 objetos descobertos ao Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA
(MAE).
Documentou
grande parte das obras do Museu de Arte Sacra da Bahia, estudo inédito à época,
publicado em 1981.
Então,
diretor do Museu.
Com
méritos.
Do
contado à época, Glauber teria feito tratativas com o professor Fernando Rocha
Peres, diretor do IPHAN, para as filmagens.
Naturalmente,
Calderón também teria conhecimento.
Não
de todos os propósitos de Glauber, porém...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Aí vem coisa!
Emiliano José: Carmela Talento
A protagonista é você...
Carmela Talento: Emiliano José
com a sua narrativa tudo fica ainda mais interessante
Mônica Bichara: Bote
interessante nisso, um verdadeiro filme do filme. Que Norma Bengel q nada, a
protagonista aqui é Carmelinha. Ansiosa pelas cenas dos próximos capítulos
Carmela Talento: Mônica Bichara o
bom é que a gente tem o que contar, como diria Irecê o ensaio está ficando bom
kkkk
----------------------------------------------
Emiliano
José
2 de
dezembro de 2019
Meu amigo Golbery
Glauber,
para aquela cena do Museu de Arte Sacra, não queria pouca coisa.
Imaginou
se espalhar.
Era
um bailado de freiras.
Precisava
espaço.
Foi
dando ordens à produção: arrastou todo o mobiliário, orientava 10 a 15
figurantes vestidas de freiras, ele de camisa aberta, feito um furacão,
conversava com Clyde Morgan, o dançarino, um dos presentes à cena.
A
crônica da época conta tivesse a pretensão até de arrastar o altar e o
tabernáculo de prata da capela-mor para facilitar a filmagem.
Glauber
sendo Glauber.
Não
se sabe se verdade, numa cabeça como a a de Glauber é possível, pretendia as
freiras dançando sobre tumbas de eminências ali sepultadas.
Glauber
sendo Glauber.
Santo
Guerreiro.
É,
mas surgiu o dragão da maldade.
Carmela
o viu chegar, espumando, Valentin Calderón, aos gritos:
-
Vamos parar com tudo!
Chegava
a alegar não houvesse autorização para as gravações.
Talvez
tivesse, mas certamente era duro demais para ele ver o seu santuário profanado
daquele jeito - porque aquilo era um santuário, ele, o sacerdote.
Um
santuário cuidado com imenso carinho, dedicação, desvelo.
Glauber
sobe nas tamancas, gesticula, grita com Calderón de La Vara.
Jece
Valadão, o ator, todo conciliador, queria acalmar os ânimos, via os dois a
ponto de se atracarem, aquilo não ia dar boa coisa:
-
Peraí, minha gente, vamos conversar como gente civilizada.
Glauber,
camisa aberta, suando muito, não queria conciliação.
Gritando,
procurava um telefone, Carmela testemunhando tudo:
-
Quero um telefone. Vou falar com meu amigo Golbery do Couto e Silva!
La
Vara, inflexível:
-
Quem manda aqui sou eu!
Terra
em transe.
Jece
Valadão continuava tentando colocar panos quentes.
Glauber,
aos gritos, elevando o tom:
-
Franquista!
-
Fascista!
Uma
cena insólita, fora de roteiro: Glauber, o revolucionário Glauber, xingando um
fascista, assim considerado por ele, querendo falar com um dos homens centrais
da ditadura para conseguir autorização para gravar cenas de seu filme.
Boa
matéria - pensou Carmela.
Cena
suspensa.
Coisa
de cinema.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Até hoje tenho
na memória essa cena. Um privilégio ter visto bem de perto Glauber numa atuação
que poderia tranquilamente fazer parte do próprio filme.
Joana D'arck: Essa profissão
nos permite testemunhar momentos memoráveis, não é Carmela? É muito bom esse
projeto de Emiliano pra gente poder relembrar episódios marcantes como esse
seu.
Carmela Talento: Joana D'arck
isso mesmo amiga
Mônica Bichara: Nossa, q
experiência. Fosse na época dos celulares e Carmela Talento teria feito um
filme mais famoso q os de Glauber. Mas que bom que o enredo ficou todo guardado
na memória fotográfica da nossa jornalista.
Carmela Talento: Se tivesse
celular Glauber ligaria diretamente para Figueiredo kkkk
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Emiliano
José
4 de
dezembro de 2019
Dois padres da
pesada
Paulo
Tonnucci seria o padre casamenteiro.
De
alguma forma, ele satisfazia também Antônio Jorge.
Chegara
da Itália em 1965.
Compunha
missão italiana, Renzo Rossi junto.
Vinham,
os dois, dispostos a se integrar à vida das periferias da Bahia.
Radicaram-se
pelas bandas da Fazenda Grande, Alto de Perus, Capelinha de São Caetano,
periferia brava.
Escrevi
biografia sobre Renzo, "As asas invisíveis do padre Renzo".
Amigo
dos dois, mais de Renzo, o principal sacerdote no trabalho de solidariedade aos
presos políticos durante a ditadura.
Eram
os escolhidos de ex-presos políticos para a realização de casamentos.
Ao
menos eram sacerdotes progressistas.
Como
se escolhê-los, compensasse a concessão.
Paulo,
mais à esquerda, entre a Teologia da Libertação e o marxismo.
Renzo,
num primeiro momento, mais conservador, um cura italiano, convertido à esquerda
quando passa a visitar prisioneiros políticos.
Eram
duas figuras extraordinárias, cristãos dedicados aos melhores ensinamentos do
Evangelho.
Paulo
era tão bravo, tão radical, a ponto de considerar conciliação visitar
prisioneiros políticos - isso coonestava com a ditadura.
Renzo
tinha outro perfil: esteve preso, fui visitá-lo, cristão das catacumbas.
Denilson
Vasconcelos, ex-preso político, casou-se com minha irmã Picida.
Celebrante:
Renzo.
Oldack,
também ex-preso, e Alice casaram-se, e um dos dois foi o celebrante, não lembro
qual.
Carmela,
certamente num acerto com Antônio Jorge, teve Paulo Tonnucci como o sacerdote a
selar a união dos dois.
Paulo
conhecia a família, frequentava o Lobato, bairro onde Antônio Jorge morava.
E
acalmava os ímpetos comunistas do noivo.
Atenuava
a concessão.
Ao
menos, era um padre radical.
Renzo,
na longa convivência com os presos políticos, casando-os depois Brasil afora,
ficava impressionado como se separavam.
Raramente
esquentavam lugar.
Coisa
de comunista, devia pensar.
Esses
meninos... murmurava, sem fazer recriminações.
Rápida
digressão: estou no aeroporto.
Sigo
pra Havana.
Pode
ser necessária uma pausa.
Quem
sabe adiemos o casamento.
Só o
realize na volta, 18/12.
Perdoem,
mas Cuba merece.
Vão
casar, mas terão de esperar alguns dias.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Elmo Alves: Saudades de
padre Renzo, fui da paróquia da Fazenda Grande do Retiro, de nossa senhora de
Guadalupe.
Tenho
muito orgulho de ter convivido e aprendido muito com Renzo.
Joana D'arck: Cuba merece!
Morrendo de inveja aqui dessa sua pausa. Estive lá em 1986, uma experiência
fantástica que gostaria de repetir. Tive o privilégio de apertar a mão de Fidel
no clube da Praia do Varadeiro, de assistir ao show de Pablo Milanês, de
conversar com os cubanos e dançar salsa no Hotel Nacional durante sete dias do
Festival de Cinema. Maravilhosa! Aproveite muito querido! Conte-nos sobre o que
vivenciar por lá. Boa viagem
Zeca Peixoto: Boa viagem, professor!
Curta bastante e tome um mojito por mim! Forte abraço!
Oldack Miranda: A memória vai se
apagando, heim? Emiliano, vc foi testemunha do meu casamento, celebrado por
Padre Paulo Tonucci, na Igreja Jesus Maria José, do Jardim Brasil, Barra, em
julho de 1976. A igrejinha lotada por ex-presos políticos, e militantes da luta
contra a ditadura. Lembro-me que o então vereador Marcelo Cordeiro estava
presente. Quem enfeitou a simpática igrejinha para o casamento foi Fátima
Mendonça, Fatinha, amiga de infância de Maria Alice. Adelmo Oliveira, advogado
das invasões na luta pelo direito de morar, foi o padrinho.
Mônica Bichara: Aproveite o
passeio, TB quero voltar. Fui com Zoraide pro mesmo Festival de Cinema q Joana
D'arck foi, só q um ano antes. Maravilhosa experiência. TB apertei a mão de
Fidel no jantar q ele ofereceu aos 800 participantes do evento, no palácio,
comida de tudo qto era lugar, até vatapá tinha. E ele em pé na entrada,
recepcionando cada um dos convidados. E o discurso de encerramento do festival,
no teatro, quase uma hora falando e eu fotografando, com credencial de imprensa
internacional, me achando. Um fotógrafo acho q gaúcho não conseguiu a
credencial e me pediu p fazer as fotos com a máquina dele. Tempos de filme q
precisava rebobinar, tirar um e botar outro.....claro q não ia dar certo. O
filme dele, q já veio colocado, deve ter prestado. O meu......pensem na
decepção, nem uma fotinha pra contar a história
Isabel Santos: Mais
emocionantes lembranças. Meu casamento também foi celebrado por padre Paulo,
meu querido e inesquecível amigo, como qual muito aprendi cresci como cidadã
mais consciente, sobretudo na política. Não poderia ser outra pessoa, e Luís
Otávio acatou tranquilamente a sugestão. Senti muito quando retornou para se
despedir, já doente, do Brasil. Uma missa linda foi celebrada em sua homenagem
na Igreja Nossa Senhora do Guadalupe, na Fazenda Grande do Retiro, onde tanto
ele realizou junto à comunidade local. Obrigada Emiliano José pela recordação,
e tenha uma feliz viagem a esse país que tive o prazer de conhecer em 85/86.
Estive lá grávida do meu primeiro filho André Luis (André Borges), curtindo o
réveillon na orla de Havana junto com os cubanos. Foram momentos
enriquecedores, conhecendo a história do lugar, percorrendo escolas, hospitais,
presídios, creches, visitando famílias, curtindo a cultura, circulando e
ônibus. Pena que estava enjoando muito, e, por isso, experimentei a culinária
famosa. mas tomei muito iogurte das 'vacas de Fidel', como se dizia na época.
Uma delíííícia. Aproveite, enquanto ficamos aqui aguardando mais episódios da
trajetória de Carmela Talento no jornalismo baiano. Bj
Carmela Talento: Emiliano José
obrigando a gente a mergulhar nesse túnel do tempo, quantas lembranças, quantas
emoções. Quantas pessoas que passaram por nossas vidas e que já se foram!
Aguenta coração!
Isabel Santos: Realmente,
Carmelita, é muita emoção...
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Emiliano
José
5 de
dezembro de 2019
Casamento e
tentação
Não,
não vou adiar o casamento.
Se é
da vontade de Antônio Jorge Moura e Carmela Talento, seja.
Não
obstante esteja em Cuba, terra comunista.
O
ofício sagrado deu-se no bairro do Rio Vermelho, São Salvador da Bahia.
Os
dois, metidos em suas melhores roupas.
Casa
de uma tia da noiva, irmã do pai dela.
Ao
lado da residência onde ela própria morava.
Havia
uma sala de visitas, e nela uma pequena, pequeníssima capela, onde reluzia bela
imagem do Coração de Jesus, em frente à qual foi montado um pequeno altar para
a cerimônia.
Era
uma doce vingança do pai e da tia católicos, e ainda por cima italianos.
Comunista nenhum ia estragar festa da filha única.
Ou
da sobrinha querida, no olhar da tia.
Estava
tudo muito bem.
Não
fosse numa Igreja.
Não
fosse numa catedral.
Mas,
tudo devia ter parecença com Igreja de verdade.
Coração
de Jesus, altar, padre.
E de
batina.
Padre
Paulo Tonnucci estava a caráter.
A
Igreja estava repleta de convidados.
Jornalistas,
muitos.
Faltou
o fotógrafo, arrastado por atividades profissionais.
Padrinhos,
como de lei, da boa tradição.
Anízio
Félix, um deles.
Fred
Simões, o outro, não conseguiu chegar a tempo.
Substituído
por Vittorio Molicone.
Carmela
considera ter sido tudo muito informal.
Nem
tanto.
Chegou
ao altar de braços dados com o pai.
Comunista
nenhum tiraria esse gosto do velho italiano.
Foi
pela manhã.
Muita
comida, muita bebida depois das juras de amor para toda a vida.
Não
durou tanto.
Chegou
a ser rápido.
Em
todo o caso, suficiente para terem três filhos, "a melhor coisa que fiz no
jornalismo", na definição de Carmela.
Na
cerimônia e depois dela, houve uma paixão súbita e algum constrangimento.
Amiga
de Carmela foi arrastada pelos olhos azuis de padre Paulo, não conseguiu mais
se livrar deles, não se afastava do sacerdote nem que a vaca tossisse e o boi
saísse voando.
Deu
muito trabalho para tirá-la de perto do sacerdote, muito seguro de sua missão,
resistente a tentações.
Nome?
Carmela
não entregou.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Viviane Andrade Sant Ana:
"Babado" como costuma-se dizer!
Ana Lusia Talaiby: Sua veia poética
encanta até o mais carrancudo comunista. Saudades do meu político favorito
Carmela Talento: A memória falhou
e deixei de citar um outro padrinho muito querido e por quem AJ tinha grande
admiração Eloi, irmão de Barretinho, Jose Jesus Barreto
Mônica Bichara: Ainda estou com
muita dificuldade pra ler por causa da conjuntivite. Mas como perder as cenas
desse casamento? Já conheci o casal casado, só nunca soube dessa veia comunista
de AJ. Essas memórias estão revelando é coisa
Carmela Talento: Pois é Mônica
Bichara, Só não lembro se ele foi filiado ao PCB, mas o relacionamento com o
partido era muito forte. Acho que ele se filiou ao MDB isso no tempo que o
partido era sinônimo de resistência .
Mônica Bichara: O grande MDB
raiz, abrigo de muitos comunistas
Joana D'arck: Parece que
estamos na cerimônia, com essa narrativa de Emiliano! Muito bom. Seus filhos
devem estar amando essas histórias, né Carmela?
Carmela Talento: Joana D'arck
estão acompanhando cada capítulo como se fosse uma novela
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(No bloco Ô Vidão, na campanha do colega Rêmulo Pastore a vereador)
Emiliano
José
6 de
dezembro de 2019
Memória corroída
pelo tempo
Oldack
Miranda escreveu "Lamarca, o Capitão da Guerrilha" comigo.
Tem
memória de elefante.
Guarda
tudo, desde a mais tenra infância.
Parece
minha irmã Picida, a quem recorro amiúde para recuperar memória da família.
Eu,
nas últimas horas, fui surpreendida por ele: lembrava detalhes do casamento
dele, do padre celebrante, Paulo Tonnucci, da igrejinha do Jardim Brasil em
Salvador, da presença de Adelmo Oliveira, da decoração feita por Fátima
Mendonça, atual mulher de Jaques Wagner, e até de mim como testemunha, de
Alice, a noiva.
Memória
prodigiosa assim, raro, especialmente quando o sujeito já ultrapassou a casa do
meio século.
Confesso
inveja.
Mas,
nem cabe desculpa: ele, em raríssimo momento de irritação, disse num textinho
de whatsapp, da corrosão de minha memória, avariada pela passagem do tempo.
E
recomendou, quase intimou, fizesse eu logo a correção.
E
eu, besta não sou, registro as informações daquele casamento de quase cinquenta
anos atrás.
Exagero:
foi em 1976.
Memória
é um problema.
Para
alguns.
Não
para privilegiados.
Minha
irmã e Oldack Miranda.
Ele
está me devendo depoimento sobre sua passagem pelo jornalismo, coisa fácil pra
ele.
Sigo
na companhia de Carmela Talento, já casada, cerimônia do mesmo ano de Oldack e
Alice, mesmo padre.
Ela
registra: a relação com Antônio Jorge Moura a levou ao convívio frequente com o
mundo da política.
Num
período conturbado.
De
muita luta pela democracia.
Ela
e o marido, imersos nessa luta.
Acompanhou
a saída dos últimos prisioneiros políticos das prisões.
Dos
da Penitenciária "Lemos Brito", cuja última leva saiu em 1979, com a
anistia.
Menos
Theodomiro Romeiro dos Santos.
Fugiu
antes, 17 de agosto, se a precária memória não estiver me traindo.
Dos
militantes e dirigentes do PCB, recolhidos à então Casa de Detenção.
Acompanhou
a chegada de alguns exilados.
Manifestações
pela anistia.
Passeatas.
Organização
das mulheres no MDB, quando conhece Amabília Almeida.
Um
dia, no partido, viu-a escrevendo em cartolinas, produzindo cartazes para uma
passeata.
Eram
fixados em madeira.
Como
olhava muito, Amabília virou-se pra Carmela, e disse:
-
Menina, são pirulitos. Pirulitos democráticos.
Jamais
se esqueceu da expressão, usada sempre quando cobria passeatas e os via
colorindo a avenida.
Pautas
cobertas com imensa satisfação...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Devanier Lopes: Jóia
Carmela Talento: Os pirulitos
democráticos de Amabilia Almeida se tornaram obrigatorios. Em qualquer
manifestações lá estão eles exibindo palavras de ordem do momento.
Carmela Talento: A minha memória
também não é das melhores Emiliano José. Foi com muito esforço que consegui
colocar no papel algumas lembranças, imortalizadas daqui pra frente por vc com
essas história.
Mônica Bichara: Olha a foto que
achei de Amabília, feita por mim em Havana, em 1986, em uma visita a Hélio
Dutra (nem sei como fui parar aí junto, acho que foi graças a Zoraide
Vilasboas). Foto histórica, apesar de péssima
Carmela Talento: Vc é uma
colecionadora de histórias,Mônica Bichara ! Quantas recordações !
Mônica Bichara: E a coincidência
de vc aí em Cuba, hein Emiliano José? Já visitou o Memorial Hélio Dutra? Manda
foto prá a gente
Mônica Bichara: Olha Bisa Almeida
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7 de
dezembro de 2019
Pirâmide invertida
Amabília
Almeida tornou-se parte da vida de Carmela.
Acompanha
a trajetória dela desde os primeiros tempos do Jornal da Bahia.
Conheceu
de perto sua vida de educadora.
Sua
militância política de esquerda.
Seu
engajamento no velho MDB, depois PMDB.
Na
verdade, esteve sempre muito ligada ao PCB.
Além
de tudo, foi casada desde muito jovem com Luís Contreiras, um dos principais
dirigentes do partido na Bahia.
Eu
próprio militei lado a lado com ela em Brotas, onde morávamos os dois, quando
no PMDB.
Compartilhei
a Constituinte baiana com ela em 1989, os dois, deputado estadual.
Carmela
assessorou-a durante a Constituinte, e se recorda de ela ter conseguido incluir
na Constituição um capítulo inteiro sobre direitos das mulheres graças à
articulação com os movimentos feministas e sua notável habilidade política.
Voltamos
um pouco.
Em
1980, grávida do terceiro filho, foi escalada pelo chefe de Reportagem, Tasso
Franco, para cobrir junto à Arquidiocese os preparativos para a visita do Papa
João Paulo II a Salvador.
Havia
uma pedra no meio do caminho.
Dom
Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, cardeal,
andava de nariz torcido com Carmela.
Não
ficara nada satisfeito com uma reportagem feita pela jornalista.
Em
entrevista sobre assuntos relacionados à Igreja, o cardeal deixou escapar a
gravidade da
situação
financeira da Universidade Católica.
Carmela,
já experiente, esqueceu todo o resto, e tascou a informação no lead, e a
matéria serviu de base para manchete do jornal.
O
cardeal virou uma arara: havia dito isso no final da entrevista, e a jornalista
escandalizou, ligou pro jornal e as porra.
Carmela
foi conversar com ele, argumentou, não sei de que adiantaria, ter usado a
técnica da pirâmide invertida, uma técnica jornalística a concentrar o mais
importante no lead, mas ele não engoliu.
Ouviu
rumores: teria pedido a cabeça dela.
Não
acreditou.
Quando
começou a cobertura dos preparativos para a chegada do Papa, ainda o sentiu de
pé atrás com ela.
Devagar,
devagar foi recuperando a confiança dele....
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Isadora Browne Ribeiro: Carmela e
Amabília juntas é luxo. Só pra lembrar, Amabíla foi a única mulher constituinte
na Bahia.
Carmela Talento: Tive o
privilégio de acompanhar a atuação de Amabilia Almeida desde o início e
conhecer Dom Avelar bem de perto e só tenho boas lembranças de ambos.
Bruno Moura: Lembro dessa
época com Amabilia , depois Rui Bacelar e trabalhando no jornal. Estou aqui
acompanhando cada capítulo dessa História . Parabéns
Carmela Talento: Vc foi parte
importante dessa história, meu filho. Não fosse vc e seus irmãos, Silvana Moura
e Daniel Talento, a vida não teria a menor graça!
Mônica Bichara: Amabília é um
dos grandes exemplos que temos de boa política, além de acompanhar de perto sua
atuação também escolhi a Escola Experimental, de Amabília e a filha Bisa
Almeida, pra confiar a educação de minha filha Clara. Melhor escolha que fiz
Silvana Moura: Que maravilha
acompanhar cada capítulo da sua história, minha mãe! Obrigada, Emiliano!
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8 de
dezembro de 2019
Dom Avelar: um
homem bom
É,
devagar devagarinho, Carmela foi recuperando a confiança de dom Avelar.
O
cardeal era figura carimbada pelas forças de segurança.
Que
ninguém se engane.
Estou
voltando no tempo.
Lembro:
uma noite chuvosa, e Rui Patterson sobe na grade, eu também, e começamos a
conversar, estávamos confinados em celas distantes uma da outra.
Conseguíamos
nos ouvir.
Se a
minha memória estiver boa, atentem para o alerta de Oldack a aprontar a
corrosão dela, saía o cardeal Eugênio Salles, e entrava dom Avelar Brandão
Vilela na Arquidiocese de Salvador.
Nessa
noite, naquela análise de conjuntura feita aos gritos, empoleirados em grades,
concluíamos, eu e Rui, ser um avanço a chegada do novo cardeal.
Saía
um conservador de quatro costados, entrava um moderado-progressista, se a
expressão couber.
Talvez
nem caiba.
Dom
Avelar nos surpreendeu.
Positivamente.
Celebrou
missa na Penitenciária "Lemos Brito" para os presos políticos, num
episódio cheio de controvérsias: uma parte dos companheiros não admitia por
materialistas, outra concordava, por considerá-la um inegável fato político,
não obstante também ateus.
Venceu
a missa, todos estavam presentes, e por provocação de dom Avelar, intervimos no
Ofertório com verdadeiras palavras de ordem, atentos estivéssemos, e estávamos,
aos ritos da cerimônia e às limitações da situação.
Missa
e ato político- terminou sendo.
Teve
a ousadia de celebrar o casamento de Theodomiro Romeiro dos Santos e Conceição,
também na "Lemos Brito".
Virou
o cão, com perdão da palavra, quando a ditadura investiu contra o jesuíta
Cláudio Perani, dirigente do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS).
Dialogava
bem com o grupo Moisés, articulação de sacerdotes vinculados à Teologia da
Libertação, entre os quais estavam Paulo Tonnucci e dom Timóteo Amoroso
Anastácio.
Deu
retaguarda ao padre Renzo Rossi na sua pastoral de fronteira: a visita aos
prisioneiros políticos do Brasil inteiro, com declaração por escrito.
Isso
não era pouco: tratava-se do arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil.
Fazia
tudo Isso sem alarde, sem declarações bombásticas.
Não
era um panfletário.
Como
Lenin, desculpem a heresia, considerava inútil palavras de ordem em situações
complexas.
Agia.
Um
bom pastor.
Um
príncipe da Igreja.
Fazia
política.
E
tinha lado.
Sou
testemunha.
Chegou
a me consultar, eu já solto, sobre a situação dos companheiros ainda presos,
sempre disposto à solidariedade.
Um
homem bom.
Sujeito
à ira, como aquela provocada pela pirâmide invertida de Carmela.
Mas,
seu coração já abrandara.
Como
bom Príncipe, não esqueceu, e volta e meia lembrava com alguma dose de branda
ironia, da pirâmide....
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁROS
Oldack Miranda: Os ex-presos
políticos guardavam uma reverencial admiração por dom Avelar Brandão Vilela. Já
com democracia e Emiliano livre, fomos juntos ao Palácio Episcopal. Emiliano
fez uma entrevista com Dom Avelar, não me lembro o assunto, nem para qual
veículo. Não me intrometi, fui apenas o motorista. Fomos os dois engravatados.
A desdizer Emiliano, não tenho boa memória, mas restou me esforçando.
Reinhard Lackinger: Assisti a missa
da aula inaugural da Escola Técnica Federal da Bahia em 1973 com dom Avelar.
Fiquei assustado! Imagine um fascista linha dura! No fim dos dias dele,
humanizou-se.
Carlos Pereira Neto: Siuffo
VERDADEIRO.
Carmela Talento: Que bom Emiliano
José vc resgatar essa história de Dom Avelar. Muito importante para as novas
gerações. Parabéns !
Mônica Bichara: Foram tantas
pautas com Dom Avelar, nas minhas memórias postei até uma foto com ele em
visitaà antiga " invasão das Malvinas", hoje Bairro da Paz
Jose Jesus Barreto: Que grande e
justo depoimento/testemunho, Emiliano. Dom Avelar foi marcante e fundamental.
Sim, um cristão no mais puro significado.
Eliana Rolemberg: Lembro de nossas
conversas no CEAS. Era o jantar "obrigatório", convite de Cláudio
Perani, Toda a equipe participava. Dom Avelar tinha coragem, também. Teve um
primeiro de maio com manifestação proibida e pedimos sua intervenção. Fomos ao
Campo Grande e ele esteve junto!
Jose Tavares: Você tem razão
Emiliano José. Àquela época, João Durval no governo da BA, Manoel passos na
Emater/ BA, nós todos em greve por 90 dias, filho de ACM presidente da
assembleia legislativa e Dom Avelar a nós receber no Palácio com palavras
animadoras. Éramos mais de 2700 funcionários da capital e interior, vindos em
ônibus e apoiados por muitas lideranças do estado. Ele, dom Avelar foi decente.
E Manoel passos foi embora da empresa e na saída quase me atropelou. Eu era
presidente da associação de servidores
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Emiliano
José
12
de dezembro 2019
Morte de Clériston
Andrade
Às
portas da eleição de 1982, o burburinho: o helicóptero da comitiva do candidato
ao governo apoiado por ACM, Clériston Andrade, estava desaparecido.
Carmela
é despachada para o Palácio de Ondina.
Os
rumores davam conta de uma tragédia, outra.
Ninguém
confirmava nada.
Cansada
quando voltara da enchente de Santo Amaro, sentiu as forças recobrarem ao ser
jogada no centro de outra cobertura eletrizante.
Jornalista
é assim, ou era: ressuscita quando uma notícia bombástica se avizinha.
O
sangue ferve
O
cansaço desaparece.
Carmela,
apesar do silêncio oficial, observava o nervosismo dos funcionários da guarita
do palácio, a prenunciar a tragédia.
Finalmente,
a confirmação: todos os passageiros do helicóptero morreram.
Inclusive,
Clériston Andrade.
Carmela
varou madrugada.
Foram
horas intensas.
Um
abalo para todos.
A
chapa da Oposição, liderada por Roberto Santos, recebeu a notícia no comício de
Feira de Santana, na mesma noite.
Waldir
Pires era candidato ao Senado.
Sofreu
com a morte de Clériston.
Fizeram
Direito juntos, morou junto com ele em pensão da mãe, foram muito amigos na
juventude.
Não
obstante as diferenças políticas, tinha estima por ele.
Esteve
presente no velório realizado no Palácio da Aclamação.
Um
cenário impressionante, no relato de Carmela: todos aqueles caixões
enfileirados, a dor dos familiares.
Sentou
em uma das janelas do palácio para ter mais visibilidade, anotava todas as
autoridades presentes, aspecto principal de sua pauta.
Restava
agora, para ACM, o desafio da indicação do novo candidato.
Desafio
até certo ponto.
Tinha
consciência de sua força, de seu prestígio
Exibia
essa força.
Ostentava-a.
Costumava
dizer: elejo quem eu quiser, até um poste.
Um repórter,
na ocasião, perguntou se ele considerava ser possível fazer o sucessor em tão
pouco tempo.
-
Conseguiria eleger até sua mãe - foi a resposta dele, no registro de Carmela.
E
ela completa, em seu depoimento:
- O
pior é que elegia mesmo.
Indicou
João Durval Carneiro.
Era
o seu poste.
E
elegeu-o.
Carmela
tinha razão...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Pior é q o cara
elegia mesmo qualquer poste. Lembro bem do dia, estava em um concurso de música
do Ilê, no Forte de Santo Antônio, quando a notícia espalhou. Não se falava em
outra coisa
Carmela Talento: E ele fazia
questão de mostrar a força, nada de atitude humilde. Esse negócio de é vamos
ver, quem sabe, não era com ele
Mônica Bichara: Carmela Talento
muito pelo contrário
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Emiliano
José
13
de dezembro 2019
ACM: bom de lead
Os
jornalistas sabiam da arrogância de ACM.
Arrogância
e a presunção.
Carmela
o conhecia bem.
Nunca
chegou a ser destratada por ele.
Isso
não.
Ouvia
uma ou outra farpa contra o "Jornal da Bahia", de quem era inimigo,
contra o qual desenvolveu feroz perseguição no seu primeiro governo.
Quando
ouvia um "jornaleco" vindo dele, fechava a cara, e ponto.
As
relações entre os dois seguiam assim.
Ele
dizia a outros jornalistas ou a seus próximos:
-
Aquela moça parece não gostar de mim.
Era
verdade.
Não
gostava nem um pouquinho.
Por
Isso talvez fosse ainda mais rigorosa em traduzir com muita fidelidade as
palavras dele.
Errasse
alguma coisa, e seria acusada de tudo.
Nunca
achou graça nas ironias dele.
Nem
da mania dele de apelidar outros políticos.
Nunca
admitiu intimidades com ele.
Testemunhava,
no entanto, atitudes complacentes de alguns colegas.
Riam
das piadas, das ironias.
Não
percebiam: ele gostava de criar intimidade para na primeira chance, humilhar.
Alguns
jornalistas gostavam de exibir essa intimidade.
Um
repórter achou-se tão íntimo dele a ponto de numa entrevista chamá-lo de
"você".
Levou
o troco na hora:
-
Você, não!
-
Governador!
- Me
respeite!
Foi
um constrangimento geral na coletiva.
Carmela
disse ter quase morrido de vergonha pelo colega.
Espera-se
tenha aprendido a necessidade de o jornalista manter alguma distância da fonte,
especialmente se governador.
Para
não ser humilhado na frente de todos.
Como
ele foi.
Uma
vez, ACM, querendo aproximação, depois de uma coletiva, os colegas ainda ali,
batendo papo, chamou Carmela do lado.
Queria
mostrar o equipamento de som de seu escritório.
Carmela
pensou rápido.
Chamou
os demais colegas.
Não
ia entrar com ele sozinha no escritório nem a pau.
ACM
disse, mostrando a parafernália de som a ocupar toda uma parede, dirigindo-se a
Carmela:
-
Mostro pra você depois não dizer no seu jornaleco que isso foi comprado com
dinheiro do governo.
ACM,
não obstante tudo, sabia lidar com a notícia.
Como
propiciar um lead.
Carmela
confessa: quando cobriu Ondina, nunca saiu de lá sem um bom lead.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Verdade, ele
sabia gerar notícia.
Mônica Bichara: Disso ele
entendia muito bem, nunca desapontava. Já o poste.....kkkk
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Emiliano
José
14
de dezembro 2019
A tragédia da rua
Carmela
cobriu a reinauguração do Teatro Castro Alves.
Acontecimento
em grande estilo.
ACM
não ia perder a oportunidade.
Precisava
capitalizar politicamente.
O
teatro tinha história.
Memória
às vezes falha e só me valho dela nesse momento, exclusivamente.
Jorge
Ramos, nosso Jorginho, há de me socorrer.
É
memória da Bahia.
Antônio
Balbino o construiu e ás vésperas da inauguração um incêndio o pôs abaixo.
Me
parece era fim de governo, 1958/1959, e não houve tempo de colocá-lo em pé
novamente.
Ao
menos, é o que vem à mente.
Foi
erguido, é uma obra belíssima, palco dos maiores espetáculos de Salvador até os
dias atuais.
Nesse
segundo governo de ACM, foram feitos reparos, e ele era reinaugurado com pompa
e circunstância.
Carmela
chegou a se assustar com tanto luxo.
Todos
vestidos a rigor.
Uma
gala só.
Ela,
jornalista, não tinha essas obrigações.
Da
entrada do teatro, mirou o entorno, o outro lado da rua, em frente, praça do
Campo Grande.
Muitos
mendigos e moradores de rua.
Sua
consciência política alfinetou-a.
Seu
senso ético gritou.
Que
contraste!
Chegou
ao "Jornal da Bahia" fez a matéria sobre a reinauguração, de acordo
com a melhor técnica jornalística.
Não
resistiu, no entanto: elaborou um comentário para a coluna política.
Dizia
do contraste entre o fausto, o luxo, o requinte do interior do teatro, e a rua
povoada de mendigos em andrajos, esfomeados, uma esmola pelo amor de Deus.
A
grande tragédia era aquela - escreveu.
Não
a que se desenrolara no palco.
Os
atores das dores reais do mundo estavam logo ali em frente.
Não
lá dentro.
A
arte imita a vida
ACM
explodiu.
Não
gostou nem um pouquinho.
Pessoas
ouviram-no sacar uma de suas frases ferinas:
- Só
tem Carmela. Talento, nenhum.
Carmela
se divertia.
Preocupação
teria, aí sim, se ACM tivesse algum apreço, alguma admiração por ela.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Verdade, se ACM
elogiasse é q seria problema. Carmela Talento nunca foi talento só no nome . Só
mais uma malvadeza do cabeça branca
Carmela Talento: Ficaria muito
preocupada se ele tivesse gostado kkkkk.Sinal que algo estava errado
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15
de dezembro 2019
Odorico Paraguaçu
x ACM
O
maior gosto de Carmela Talento no Palácio de Ondina foi fazer a cobertura da
visita do prefeito Odorico Paraguaçu, da cidade de Sucupira.
Ela
ainda estava no "Jornal da Bahia".
O
prefeito fora a Salvador para uma audiência com o governador.
De
presente, trazia um pote de cocada.
Sabia
dos gostos do governador.
Gostava
de dar presentes aos maiorais da República, cocada baiana de preferência.
E de
receber presentes de quaisquer visitantes.
O
prefeito pretendia provar ao governador a condição de Sucupira como área de
segurança nacional.
A
ditadura havia Instituído essa figura para uns tantos municípios brasileiros.
Na
Bahia, entre vários, lembre-se de Camaçari e Candeias, o primeiro pelo Polo
Petroquímico, o segundo pela Petrobras.
O
prefeito veio alinhar as razões pelas quais Sucupira reunia condições para ser
considerada naquela condição.
Com
Isso, o prefeito, ele próprio, Odorico Paraguaçu, seria nomeado pela ditadura
como chefe do Executivo do município.
Sem
necessidade do voto.
Uma
mamata.
Os
prefeitos desses municípios, segundo as regras da ditadura, prescindiam do
voto.
Odorico
Paraguaçu estava doido pra livrar-se da escolha popular.
E
tornar-se assim um pequeno ditador.
Desfazia-se
daquela fila de pedidos diários e podia esmagar os adversários.
Agiria
como o governador, também nomeado pela ditadura.
Vida
boa.
Voto
só atrapalha.
Ainda
mais no caso dele, Odorico Paraguaçu, cuja imagem andava muito desgastada
devido às mal ajambradas calúnias de seus adversários, dedicados sempre a
intrigas, desprezando o bem de Sucupira.
A
prosperidade do município dependia de o governador aceitar suas ponderações,
convencer os militares, e aí era só correr pro abraço.
Até
ali, o prefeito, devido aos obstáculos e intrigas de seus adversários, não
havia conseguido inaugurar uma de suas principais promessas de campanha: o
Cemitério de Sucupira, ansiosamente esperado pela população.
Indicado,
estaria de mãos livres, e poderia atender anseios dos vivos e dos mortos, mais
dos mortos, abandonados, sem ter onde descansar os ossos.
Os
leitores sabem, ao menos aqueles com um pouco mais de idade: Sucupira é uma
cidade imaginária.
Tudo
se passava na novela "O Bem Amado".
O
prefeito era Paulo Gracindo, o notável ator.
Interpretava
o corrupto Odorico Paraguaçu.
Corrupto
e divertido.
ACM
não podia negar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Gostei muito de
fazer essa cobertura, Odorico e ACM a arte imitando a vida
Mônica Bichara: Faço ideia, deve
ter sido hilário
Carmela Talento: Mônica, Odorico
era a própria caricatura de ACM
Mônica Bichara: Lembro bem,
Carmelinha. O todo poderoso chefão
Isabel Santos: Era ver Odorico,
me lembrava de ACM. Não tinha como não ser assim. Era hilário e triste ao mesmo
tempo.
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Emiliano
José
16
de dezembro 2019
Odorico Paraguaçu
na cabeça
Pois
é, como ACM iria negar um pedido da Rede Globo para a gravação em torno da
novela "O Bem Amado"?
A
Rede Globo era muito poderosa.
A
ditadura a tinha em alta conta.
Sem
exagero, era um dos grandes poderes naquela conjuntura.
Era
aconselhável tratá-la bem.
Pelas
relações com a ditadura, de quem ele, ACM era eterno devedor.
E
por ela mesma.
Um
dia haveria de precisar de algum grande favor, e ela não negaria.
Não
negou: em 1986, quando Waldir Pires derrotou o pupilo dele, Josaphat Marinho,
em memorável eleição, Roberto Marinho entregou a retransmissão da Rede Globo na
Bahia, até ali em mãos da família de Luiz Viana.
Foi
o trunfo necessário, fundamental, para ressurgir das cinzas e vencer em 1990,
primeira vez pelo voto.
Até
ali, seus dois mandatos de governador e o de prefeito de Salvador foram
decorrentes de indicação da ditadura, a quem ele sempre soube mimosear,
inclusive com cocadinhas.
Claro,
deve ter tomado cuidados.
Conversou
com Paulo Gracindo.
Mas,
não apareceu no capítulo gravado no Palácio de Ondina.
Sabia
dos riscos.
Não
desconhecia a sátira.
Uma
parte dos telespectadores podia estabelecer relações entre a figura de Odorico
Paraguaçu e ele.
Os
métodos tinham semelhança.
Mas,
e daí?
Outra
parte gostaria, o governo da Bahia e ele, o palácio residencial, tudo era
símbolo do poder, e isso era positivo.
ACM
sabia lidar com a mídia, sempre soube.
Erigiu-se
como mito a partir dela, da capacidade em manipulá-la.
Deixou
fossem gravadas cenas dele saindo e entrando e saindo do Palácio de Ondina.
No
capítulo da novela, numa das tomadas,. aparece um cabeça branca sentado numa
cadeira, de costas, um figurante simulando ser o governador.
Após
a equipe de filmagens deixar Ondina, ACM, bem humorado, comentou a visita de
Odorico Paraguaçu.
Lembrava
muitos prefeitos recebidos por ele.
Confessou
rir muito com o protagonista da novela.
Só
não admitiu sua parecença com ele, o quanto reproduzia os métodos dele.
Carmela
Talento contou tudo isso.
As
fotos foram de Paulo Mocofaia.
Matéria
de página inteira no "Jornal da Bahia".
Título
sugestivo, de Césio Oliveira:
"Odorico
na cabeça".
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Isso é a
história da política da Bahia, contada por quem sabe. Parabéns Emiliano José!
Emiliano José: Vivida pela
protagonista. Contada por ela.
Mônica Bichara: Emiliano José tb
tem se revelado um grande noveleiro ao relembrar essas memórias do jornalismo
baiano. Ansiosa a cada dia aguardando as cenas dos próximos capítulos. Até hoje
a sede da prefeitura é chamada de "cemitério de Sucupira", que não
inaugurava nunca por falta de defunto
Isabel Santos: Pra variar,
amei, Emiliano José. Que saque. E Camelita Carmela Talento lhe dando rédeas
para sua criatividade voar. 👏👏👏👏👏👏
Ceci Toledo: Adorei o texto
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Emiliano
José
18
de dezembro 2019
Fonte x jornalista
ACM,
já se disse, sabia lidar com a notícia.
Costumava
dizer: há alguns jornalistas amantes da notícia.
Outros
preferem estímulos não propriamente noticiosos.
Era
necessário atender às duas espécies, de acordo com o raciocínio dele.
Não
sei se era maldade.
Talvez
não.
O
mais provável, infelizmente, um retrato em branco e preto da realidade de nossa
profissão.
Daquela
época, ao menos.
O
fato: há muitos amantes da notícia, a enxergar no jornalismo, missão.
Carmela,
uma dessas pessoas.
Atravessou
décadas sempre com os mesmos ideais.
Não
adiantava acenar com ouro, incenso e mirra.
Nem
sei tenha havido alguém com ousadia para tal aceno.
Creio
não.
Tinha
tesão era pela notícia.
E
ACM era bom nisso: propiciava bons leads.
Isso
todos reconheciam.
Uma
verdade: quando saiu do governo, após eleger o seu poste, a denominação era
dele, João Durval Carneiro, quando saiu deixou saudades.
Na
cobertura política, os jornalistas ficaram órfãos, ao menos quanto ao
governador.
João
Durval Carneiro era insosso, inodoro e incolor.
Notícia
dali não saía nem a pau.
Carmela
Talento cobria o governo e ficava atônita com a natureza lacônica do novo
governador.
Tentava,
tentava e nada.
Era
um gelo só.
O
pauteiro, volta e meia, inventava maneiras de entrevistar ACM, cujo escritório
ficava no Desenbanco.
Carmela
gostava, não obstante não nutrisse qualquer simpatia pelo personagem.
Era
uma forma de escapar da geleira João Durval Carneiro.
ACM
sabia esquentar o noticiário, não temia a polêmica, atraía os amantes da
notícia.
Ele
se construiu como uma fonte referencial para os jornalistas do Brasil inteiro.
Porque
não tinha papas na língua, era ferino, irônico, gostava de destratar os
adversários, não importava fosse verdade ou não.
O
adversário tinha de refutá-lo, e ele gostava disso.
Mantinha-se
à tona.
Sob
quais critérios éticos, outra discussão.
Ele
se sabia útil aos repórteres ansiosos por uma boa abertura.
Compreendia
a técnica jornalística,
Fora
repórter de polícia na juventude.
Carmela
valia-se disso.
É da
dialética da relação fonte x jornalista, bem conhecida de Carmela. #MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: O tipo de fonte
que era melhor acompanhar de perto, rsr
Mônica Bichara: Geleira foi a
melhor definição que já vi pra João Durval, perfeita. Não tinha emoção, não
tinha reação, não alterava a entonação....cumpria bem sua função de poste; A
água e o vinho, não fedia nem cheirava, sem sal e sem açúcar.....Já o
malvadeza, quanta diferença. Toda entrevista era um suspense, uma tensão
Jorginho Ramos: A síntese dessa
relação de ACM com os jornalistas era essa : " Tem dois tipos de
jornalistas: os que adoram a NOTÍCIA e os que adoram dinheiro, emprego,
favores. Não dê dinheiro aos que adoram a NOTÍCIA e não dê notícias aos que
adoram dinheiro, empregos e favores."
Isabel Santos: Isso, Emiliano
José. Não o 'engolia', mas não se pode negar que ACM era "uma fonte
referencial para os jornalistas". Tudo fazia para assim ser. Se era jogo
sujo ou não, pouco importava. Ele queria ser notícia, mostrar seu 'poderio',
sempre desafiar quem não estava do seu lado e 'futucar' a imprensa. Carmelita
Carmela Talento aproveitou bem essa fonte para realizar seu trabalho, com
isenção e competência.
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Emiliano
José
19
Dezembro 2019
Chuva, suor e
cerveja
Carmela
continuou a cobrir política.
Depois
da frustração da campanha das Diretas Já, houve a do Colégio Eleitoral.
Seria
a eleição indireta do presidente da República pelo Congresso Nacional.
Frustração,
em termos.
A
campanha das Diretas Já foi uma das maiores mobilizações da história.
De
uma forma ou de outra, representou a pá de cal na ditadura.
Carmela
cobria a chegada de Tancredo Neves a Salvador.
Era
o candidato do PMDB à presidência.
Disputaria
no Colégio Eleitoral, constituído por deputados federais, senadores e delegados
de assembleias legislativas.
Aeroporto
lotado de jornalistas.
Ouvir
o candidato seria o trivial.
Ela
percebeu um solitário José Sarney, candidato a vice, sem nenhuma atenção da
imprensa.
Resolveu,
além de cobrir Tancredo, entrevistá-lo.
Chegou
no "Jornal da Bahia" com as duas matérias.
Deram
destaque ao candidato a presidente.
Nenhuma
importância à matéria com Sarney, jogado a um canto de página.
Natural.
Ninguém
podia adivinhar: por ironias e trapaças da história, Sarney viria a ser
presidente da República.
Carmela
atirou no que viu, acertou no que não viu.
No
dia da votação do Colégio Eleitoral, os políticos baianos, um grande número de
militantes da esquerda, lideranças de diversas tendências políticas,
acompanhavam a votação animados por um trio elétrico, na parte baixa da Igreja
do Bonfim.
Espécie
de rescaldo da recém-festa do Bonfim, cujas barracas ainda estavam espalhadas
por ali.
Baiano
não perderia a chance de um carnaval fora de época.
Confirmada
a vitória de Tancredo Neves contra Paulo Maluf, por placar folgado, 380 a 180,
uma euforia contagiante.
Virou
carnaval, festa.
Carmela
recorda-se de Amabília Almeida dançando, tal a alegria.
Todo
mundo dançava.
Fim
da ditadura.
Não
era pouca coisa.
A
repórter se inebriou.
Entrou
na dança.
E se
embebedou.
Modo
de dizer: pouco afeita ao álcool, tomou uma ou outra cerveja, e ficou tontinha
tontinha.
Não
entendia como tantos colegas bebiam boas doses de álcool e cumpriam suas
tarefas como se nada tivesse acontecido.
Chegou
muito alegre à redação do "Jornal da Bahia".
Alegre,
e sem condição de escrever mísera linha de matéria.
Bebinha.
O
mundo rodando.
Olhava
para a máquina de escrever, aquela coisa estranha à sua frente, e ria, ria,
ria.
Alegria
sem fim.
O
coração em festa.
Até
hoje não sabe se chegou a escrever alguma coisa.
Se
alguma coisa foi aproveitada.
Sorte:
havia outros repórteres na cobertura.
Não
houve prejuízo.
Ela,
só alegria...
Deixa
a vida me levar...
Um
dia inesquecível, aquele 15 de janeiro de 1985.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Lembro que
chovia e que cheguei molhada por fara e por dentro, foi o meu dia de bebum,
chuva, suor e cerveja. ô dia! parafraseando Roberto Carlos, se chorei ou se
sorri o importante é que no jornalismo emoções eu vivi!
Joana D'arck: Carmela Talento
taí, não conhecia essa sua. Kkkkkkkk
Carmela Talento: Joana D'arck a
caminhada foi longa amiga, tem muita história para contar.
Joana D'arck: Carmela Talento
conta tudo! Tô ligada!😉
Carmela Talento: Joana tudo não
dá, é muita coisa e vai se perdendo na memória , tentando lembrar alguns
momentos mais marcantes. Bjs
Joana D'arck: Carmela sozinha
vale um livro. Né Mônica Bichara Jadson Oliveira Jaciara Santos Isabel Santos
Franciel Cruz Marina Soares Adilson Borges Diogo Tavares Nadja Miranda Deta
Almeida Manoel Porto Borega Melo Joana Vitória Alberto Freitas Jolivaldo Freitas
Bene Simões
Mônica Bichara: Ô se
vale.....Carmela Talento tem é história. E esse dia foi mesmo inesquecível.
Lembro que teve concentração e passeata tb no Campo Grande e eu estava lá,
vibrando com cada detalhe, registrando as manifestações, as caras pintadas, os
discursos
Deta Almeida: O bom da vida
são os imprevistos. Maravilha!
Mônica Bichara: Emiliano José e
Carmela Talento, tenho aparecido pouco por aqui pq a conjutivite foi tão
agressiva que deixou sequelas, ainda não consigo ler sem forçar as vistas. Vou
ter que fazer um procedimento pra tentar corrigir isso. Mas vai passar, não
vejo a hora. Aliás, por mais uma coincidência a comadre Jaciara Santos também
enfrentou problema sério nas vistas que a deixou longe dos "textões"
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Emiliano
José
21
de janeiro 2020
Carmela, Zé Maria
e o dilúvio
...
Muita água havia corrido debaixo da ponte.
O
jornalismo deixara de ter o glamour imaginado por Carmela Talento nos primeiros
tempos.
Trabalhadora.
Era
isso - trabalho, muito trabalho.
Uma
trabalhadora - agora sentia-se ao lado das milhões, dos milhões espalhados pelo
Brasil, a vender sua força, sua criatividade.
Era
a maldição bíblica - ganhar o pão com o suor do rosto.
A
maldição dirigida por Iahweh Deus ao homem estendeu-se à mulher.
O
paraíso não existia.
E a
promessa do estrelato, recorrente, era um engodo.
"Com
o suor de teu rosto
comerás
teu pão
até
que retorne ao solo,
pois
dele foste tirado.
Pois
tu és pó
e ao
pó tornarás."
Parecia
ouvir a profecia do Gênesis.
Trabalho
e estresse.
No
entanto, também gratificante.
Com
todas as limitações, a produção diária da mercadoria-notícia implicava a
participação de quem a elaborava, cobrava criatividade.
Nunca,
para ela, representava um ato mecânico.
Não
estava alienada do produto de seu trabalho.
Ao
menos, não inteiramente.
Mal
ou bem, a escolha feita fora boa.
A
redação do "Jornal da Bahia" era um agradável teatro.
Teatro
da vida.
Zé
Maria, magro que só ele, negro retinto, "penteava" os textos das agências
de notícias, chegados pelo telex.
Na
pia batismal, recebeu o nome de José Maria Rodrigues.
Comunista
de carteirinha, contemporâneo de João Falcão no PCB.
Ainda
me recordo dele, silencioso e discreto.
Participou
ativamente da campanha de João Falcão para deputado federal em 1945.
Era
dirigente do Comitê Municipal do PCB em São Félix.
Falcão,
com 26 anos, teve escassos 870 votos.
Amargou
uma quinta suplência.
Quando
as urnas se abriram, 3 de dezembro de 1945, constata-se: eleito pela legenda
apenas o lendário Carlos Marighella, com 5.187 votos.
Zé
Maria, nesses tempos de "Jornal da Bahia", e estamos falando de anos
posteriores a 1975, nesses tempos ele cultivava uma relação muito amistosa com
o álcool.
Zé
Maria e o álcool - um não podia viver sem o outro.
Pela
bebida, Zé Maria era capaz de tudo.
Se a
marvada lhe faltasse, algum jeito havia de ser dado.
Não
havia obstáculo intransponível.
Um
dia, o dilúvio.
Caiu
uma chuva da gota serena.
Quando
chovia muito, a Barroquinha transformava-se num grande lago.
Com
direito a ondas.
Testemunhei
carros sendo jogados pra lá e pra cá numa noite dessas.
Quando
dilúvio, ninguém entrava, ninguém saía da redação.
Todos
perceberam Zé Maria na janela, olhos fixos no bar em frente... #MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Uma figuraça Zé
Maria !
Mônica Bichara: Lembro de Zé
Maria, qdo bebia ficava falastrão....e seguem as aventuras de Carmela Talento
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Emiliano
José
22
de janeiro 2020
Baixar a cabeça,
nunca!
Zé
Maria contemplava o mar.
Barrento,
verdade.
Mas,
parecença de mar.
Aparecido
assim, de súbito.
Tromba
d'água, vai ver.
Era
hora, não.
Sempre,
nessa hora, descia os degraus, atravessava a rua, ocupava seu lugar no boteco
em frente, é, tinha lugar reservado, e tomava sua cangibrina.
Sossegado.
Hora
de relembrar os bons tempos.
Não,
não era hora da Barroquinha virar mar.
Sertão,
sim, que virasse mar.
Carecia.
Mas,
a Barroquinha?
Tentando
mudar sua rotina?
Olhava
as ondas.
Os
carros, batendo uns nos outros.
No
balanço das águas.
Nada,
porra nenhuma, nada me prende aqui.
Deu
um repente, todo mundo vendo, desceu as escadas, olhou pro mar, e mergulhou,
nadou, saiu do outro lado, a redação na janela, estupefata.
Entrou,
ocupou o seu lugar, pediu a de sempre, sentiu descer esquentando tudo,
confortando o corpo, aquecendo a alma, lembranças do passado comunista e nem
sabe por que lhe veio à mente o comício de João Falcão em 1945 em São Félix,
ele num frenesi organizando tudo, lado a lado com José Lopes da Cunha,
correspondente de "O Momento" em Cachoeira.
Pena,
pensou, pena mesmo não tenha sido eleito.
Tempo
bom.
Olhou
pro prédio em frente, pro jornal.
Hora
de voltar.
Deixou
fiado, de costume.
E
nadou de volta.
Entrou
molhado molhado na redação, colegas boquiabertos, Carmela Talento se
divertindo.
Sentou,
renovado, revigorado.
A
água começava a baixar
Mas,
agora tanto fazia...
Voltou
a pentear telegramas.
Um
dia, tendo bebido um pouco mais, João Falcão pediu ao motorista para levá-lo em
casa.
O
motorista pacientemente pedia a Zé Maria pra abaixar a cabeça e entrar no
automóvel, ele mal se aguentando em pé. Ainda assim, trôpego, volta-se para o
motorista, dedo em riste:
-
Olha aqui, preste bem atenção, nunca abaixei a cabeça pra filho da puta nenhum!
A
redação não conseguiu segurar a gargalhada.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Baixar a cabeça?
nunca !
Jaciara Santos: Lembro das
histórias de Zé, que era uma figura. Quando sóbrio, era caladão, fechado, não
dava uma palavra. Mas, quando tomava umas e outras... Sai de baixo! E era uma
enciclopédia ambulante. Um Google em carne e osso, principalmente osso...
Grande Zé Maria!
Mônica Bichara: Grande Zé Maria
mesmo, quando bebia soltava os cachorros, atirava pra todo lado,
xingava.....ACM então, tava sempre na mira e não poupava "elogios"
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Emiliano
José
23
de janeiro 2010
"Faça o favor
de desindicar!'
Eleição
de 1982.
A
oposição elege na Câmara de Salvador a maior bancada de oposição da história.
Uma
lavada.
Compensação
para a derrota sofrida para o governo de Estado.
A
capital era um bastião do PMDB, naquele momento um partido guarda-chuva:
abrigava do centro à esquerda, foi instrumento essencial no combate à ditadura.
Será
fundamental para derrotar ACM na eleição seguinte, na memorável eleição de
Waldir Pires.
Pelo
"Jornal da Bahia", Carmela Talento cobria a Câmara Municipal, José
Carlos Prata, a Assembleia Legislativa.
Carmela
era ave solitária numa atividade normalmente reservada a homens.
Precisava
estar sempre atenta.
Um
olho no padre, outro na missa.
Um
olho no gato, outro no peixe.
O
vereador Osório Villas-Boas, veterano político de saborosas histórias, um dia,
assim como quem nada quer, chama Carmela a um canto, não, não fica bem dizer
assim, chama Carmela à sala dele e informa alegremente:
-
Indiquei você para uma assessoria na secretaria de Educação do município.
Carmela,
refeita do susto, reagiu:
- O
senhor faça o favor de desindicar!
Osório,
em sua já longa existência já havia visto de tudo um pouco, quase tudo.
Havia
sido presidente do E. C. Bahia por mais de uma década, deputado estadual, agora
vereador
Vira
quase tudo.
Recusa
de cargo, nunca.
Boquiaberto,
ouve Carmela completar:
-
Trabalho aqui para o "Jornal da Bahia". Não com o objetivo de
conseguir nenhum cargo.
O
velho político ainda tentou argumentar:
-
Isso é normal, não tem nada demais!
Carmela,
intransigente na recusa.
Era,
para ela, uma questão ético-moral.
Osório
conformou-se, que fazer?
Deve
ter dialogado com seus botões pensado a gente quer fazer um favor e leva um
coice desses quanto mais eu vivo mais assombração me aparece...
Desindicou.
Primeira
desindicação de sua vida.
Graças
a Carmela:
-
Tinha uma turma nova chegando. Com outro modo de fazer a cobertura política.
Nosso foco era a notícia. O espaço era dado na proporção da importância da
informação. Nunca por troca de favores.
À
época, Walmir Palma cobria pelo jornal "A Tarde", Caco Caetano, pela
"Tribuna da Bahia".
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carlos Lenin Santos: Exemplo.
Jaciara Santos: se todos (as)
fossem iguais a você, Carmelita...
Mônica Bichara: Essa é nossa
Carmelinha, nossa líder e melhor chefinha. Não vá chorar, Mané......
Carmela Talento: Se a gente não
se impõe nessa cobertura política perde toda credibilidade. Respeito mútuo,
essa é a regra!
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Emiliano
José
24
de janeiro 2020
As ceroulas do
Osório
Osório
Villas-Boas era sempre fonte de boas histórias.
Era
de dar sustos.
Carmela
estava lá sossegada, e toma um susto: Osório teve um piripaco.
Coração.
Foi
parar no Santa Isabel.
Um
dos primeiros a receber uma ponte de safena naquele hospital.
Podia
se discordar de Osório, mas era fácil gostar dele.
Logo
retornado à Câmara, Carmela e Valmir Palma, repórter de "A Tarde",
foram ao gabinete dele.
Visita
de amizade.
Saber
como fora a cirurgia.
Recebeu-os
alegre, bem-humorado.
Falou
muito, tratou de tanta coisa, e nada de falar da cirurgia.
Carmela,
então, em sua santa bondade, cheia de humanidade, pergunta:
-
Osório, e a cirurgia, como foi?
Antes
de dizer qualquer coisa, ele folgou o cinto, mexeu no primeiro botão das
calças...
Carmela
e Valmir, constrangidos, assustados.
Sim,
desceu o zíper.
Os
dois, sem poder se mexer, não obstante doidos para sair correndo.
Ele
todo faceiro, baixou as calças.
Walmir
ficou branco.
Carmela,
sem saber o que fazer.
Imobilizada.
Não
era um espetáculo bonito.
As
calças jaziam sobre os sapatos pretos.
E
ele então, sem pruridos, absolutamente à vontade, mostrou.
Calma.
Não
se ponham a maldar.
Queria
singelamente, com a pureza dos inocentes, mostrar de onde, nas coxas, havia
sido tirado a safena.
Tanta
tensão para tão pouco.
Os
dois só viram mesmo as pernas.
E
sorte, sorte mesmo, a poupá-los de constrangimento maior, é que ele, homem
tradicional, usava uma baita ceroula a cobrir as coxas quase por inteiro.
Feito
o serviço, levantou as calças, puxou o zíper, apertou o cinto, e seguiu a
conversa.
Como
se nada de especial tivesse acontecido.
E
quem sabe considerasse aquilo como da naturalidade da vida.
Ataulfo
Alves tem razão: a maldade dessa gente é uma arte.
Carmela
e Valmir saíram rindo muito.
Um
dia pra nunca mais ser esquecido.
O
dia das ceroulas do Osório.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Julio Cezar Rocha: Poxa Emiliano
José, quanto suspense
Carmela Talento: Para repórter
não tem dia monótono. Quando encontro Valmir Palma a gente sempre lembra disso
e as gargalhadas são inevitáveis. Mas no dia foi muito tenso😅
Mônica Bichara: Afffffff imagino
a tensão kkkkk Osório era uma figura mesmo
Carmela Talento: Mônica Bichara
verdade, tenho muitas histórias com Osório inclusive no período que exerci a
função de Secretaria de Comunicação na gestão de Lidice
Emiliano José: Carmela Talento
Falta acrescentar
Mônica Bichara: Carmela Talento
só Osório daria um livro. Ele tinha uma forma especial de tratar os
jornalistas, mesmo os que criticavam. Joana Darck sempre foi chamada de
Japinha. Mesmo a imprensa batendo na Câmara com frequência, não lembro dele ter
sido grosseiro com os jornalistas que cobriam
Isabel Santos:
kkkkkkkkkkkkkkkk, que expectativa. Coisas de Osório, né Carmelita (Carmela
Talento) ?. Conta mais, vá. A caneta de Emiliano espera, e nós, aguardamos para
mais um momento de descontração nessa sua gostosa e rica trajetória
profissional. Bj
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Emiliano
José
25
de janeiro 2020
Racha na frente:
pomo da discórdia
No
início de 1985, Carmela Talento é chamada a trabalhar na assessoria de
Comunicação do prefeito de Salvador, Manoel Castro.
Aceita.
Três
filhos pra criar contou para a decisão.
Aceitou
porque sentiu a barra pesar.
Não
podia mais ficar à espera da eventualidade de um free-lancer.
Mais
um salário fixo vinha a calhar.
Vida
de cão.
Equilibrar-se
entre dois batentes, correr de um lado a outro tentando fazer bem os dois: a
cobertura da Câmara Municipal pelo "Jornal da Bahia" e estar atenta
às pautas da administração de Salvador.
Esse,
o novo desafio.
A
exigir rigor ético-moral e disciplina.
Aqui,
cada vez mais assumia a condição de trabalhadora.
Glamour,
havia ido pros ares.
Alguns
prêmios faziam bem ao ego: por exemplo, o de melhor cobertura logo no primeiro
ano de trabalho na Câmara.
Ou
ter sido eleita presidenta do Comitê de Imprensa daquela casa legislativa,
primeira mulher a ocupar o cargo.
Conquistas,
honrarias a lhe afagar a alma.
Nada
capaz de afastar a consciência de ser uma trabalhadora.
Ter
a necessidade de dois empregos era um acicate permanente a lhe lembrar disso.
Um
ano nesse corre-corre.
Mãe
trabalhadora, e a ideia de seguir adiante nos estudos ia ficando pelo caminho.
Decide
pedir demissão da Prefeitura.
Dava
certo, não.
Difícil
servir a dois senhores.
Sabia
de muitos equilibrando-se entre cobertura pelos jornais e assessorias, e
fazendo-o com ética.
Mas,
não suportou.
Ficou
só com a cobertura da Câmara.
É
guindada à editora de Política do "Jornal da Bahia".
Das
primeiras a ocupar cargo de chefia.
Moacyr
Neri ajudava Carmela nos títulos.
Jornalista
experiente, ligado à cobertura do carnaval.
Política
é política.
Carnaval
é carnaval.
Carmela
pedia ajuda, mas ficava atenta.
Em
matéria sobre a formação da frente de esquerda em Salvador, ali pelo final dos
anos 1980, a deputada federal Abigail Feitosa, falava de suas discordâncias e
informava sua saída da frente.
Neri
não teve dúvida, pensou um bom título, espirituoso:
"Abigail
racha na frente".
Carmela
calmamente:
"Neri,
esse título não dá".
Prestava-se
obviamente a uma dupla interpretação
Neri:
"E
qual o problema?"
Carmela
mudou o título.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Sei bem o q é
esse corre-corre de um emprego p outro, filhos pequenos.....a gente se virava
nos 30 sem celular, sem internet, com várias pautas por dia, mas dava conta.
Como, hj eu paro pra pensar e não consigo entender
Kardé Mourão: Retadas. Mônica,
somos todas crias da resistência. Carmela, Socorro, Vc , eu, Isabel, Jaciara..
e tantas outras, trabalhar e criar filhos.... militância então... era um ato
heroico...
Carmela Talento: A gente não tem
dimensão da própria força, mas que é difícil, isso é !
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Emiliano José
26
de janeiro 2020
Dignidade
Início
dos anos 1980, e o "Jornal da Bahia" vivia grandes dificuldades.
Pagava
o preço de uma longa e tenaz perseguição movida por ACM.
João
Falcão decidiu vender a histórica sede da Barroquinha.
Única
forma de pagar uma prestação de 250 mil dólares ao Banco Econômico, parte de um
empréstimo de 500 mil dólares.
Isso
é contado pelo próprio João Falcão, em seu livro "Não deixe essa chama se
apagar", prefaciado por mim.
A
chama começava a se apagar.
Dura,
mas necessária constatação.
João
Falcão procurou um espaço para a continuidade do funcionamento do jornal.
Encontrou
ampla solidariedade de Joaci Góes e Walter Pinheiro, diretores da "Tribuna
da Bahia".
Em
14 de outubro de 1981 passa a funcionar no mesmo prédio da "Tribuna da
Bahia", à rua Djalma Dutra.
Em
dezembro de 1983, o jornal é vendido aos advogados Carlos Villares Barral e
Francisco Bastos.
Os
dois, poucos anos depois, venderam-no ao ex-prefeito Mário Kertész.
Sua
última edição foi no dia 22 de fevereiro de 1994, 36 anos de existência e
10.679 edições, um marco no jornalismo baiano.
Carmela
Talento não gostou quando o jornal foi vendido aos dois jovens advogados.
Não
gostou dos rumos imprimidos por eles.
Na
campanha de 1986, fechava a coluna "Alça de Mira".
Próximo
ao dia da eleição, fecha a coluna, vai pra casa.
Abre
o jornal de manhã e é surpreendida com três notas contra Waldir Pires.
Plantaram
as notas literalmente na calada da noite, desrespeitando-a.
Não
pensou duas vezes: redige carta pedindo demissão, expondo suas razões..
Era
uma difícil decisão.
Separada
e com três filhos.
Mas,
era sua dignidade em jogo.
Uma
cópia da carta entregou ao redator-chefe, outra fixou no mural.
A
campanha de Waldir pediu autorização para usar a carta
Carmela
não deu.
Defendia
o bom jornalismo, não queria houvesse nenhuma utilização político-partidária.
Os
donos do jornal foram corretos: pagaram todos os seus direitos, inclusive os 40
por cento do FGTS, apesar do pedido de demissão. #MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Carmela Talento: Na época já
tinha perdido o entusiasmo de trabalhar no JB , muita coisa tinha mudado
inclusive o compromisso com a informação, coisa que sempre me preocupei. Não
tinha como aceitar aquela postura. Tinha chegado a hora de dizer adeus !
Mônica Bichara: Nessa época eu
trabalhava na Câmara assessorando a bancada do PCdoB (Lídice, Jane Vasconcelos
e Ney Campello). Quando a legislatura acabou Lídice já era deputada federal e Jane
e Ney não se reelegeram. No que seria meu primeiro dia desempregada, ou melhor
só com a assessoria na Saeb, Clarinha pequena, recebo um telefonema de Carmela
Talento me convidando para integrar a editoria de política da Tribuna da Bahia.
Comecei no dia seguinte e foi uma experiência maravilhosa. Realmente, àquela
altura o JBa já tinha dado o que tinha que dar....Te amo, Carmelinha
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27
de janeiro 2020
Encarando a morte
Ainda
em 1986, um mês depois de sair do "Jornal da Bahia", Carmela Talento
já estava trabalhando na "Tribuna da Bahia".
Clarissa
Amaral (Cissa) sugeriu o nome dela a Paulo Roberto Sampaio, redator-chefe.
Foi
só subir um andar.
Os
dois jornais funcionavam no mesmo prédio.
Subeditora
de política, o editor era Levi Vasconcelos, com quem começara no "Jornal
da Bahia", de fácil convivência.
Adorava
também trabalhar com Lage, o genial cartunista.
As
charges dele causavam frisson, não raro contrariedades.
ACM,
agraciado frequentemente.
A
raiva de ACM em relação à "Tribuna da Bahia", Joaci Góes já seu
adversário, estimulava os jornalistas a correr atrás de furos, de boas
matérias.
Um
tempo bom.
A
perseguição de ACM era adrenalina na veia.
A
vida não é linha reta.
Em
1991, Carmela é diagnosticada com um câncer de mama.
No
dia da notícia, não foi trabalhar.
Precisava
pensar.
A
finitude a encarava.
Tinha
três filhos na pré-adolescência.
- E
se eu morro nos próximos meses? Que será deles?
A
angústia era mais por eles.
Para
completar o quadro, o pai estava tratando de um câncer no pulmão.
Pense
numa tempestade perfeita.
Walter
Pinheiro foi extremamente solidário.
O
médico indicado por ele, doutor Augusto Tufi Hassan, foi comedido.
Ao
olhar os exames, tentando tranquilizá-la,. disse:
-
Você tem uma chance de vida.
Já
era muito.
Uma
chance!
Iria
aproveitá-la, com certeza.
Determinou-se
a isso.
Os
dias seguintes foram de preparação para a cirurgia.
Sentia-se
bem, especialmente fortalecida pela rede de solidariedade, carinho das amigas,.
dos amigos.
A
cirurgia reclamava procedimentos anteriores, como a retirada de todas as
glândulas linfáticas da axila.
Ficou
com o braço esquerdo quase imobilizado.
Não
tinha força pra segurar um prato.
Tinha
de evitar cortes.
Fazer
as unhas, nem pensar.
Qualquer
ferimento poderia ocasionar problemas insuperáveis.
Fez
a cirurgia...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Com o jeito de
Emiliano José contar essa passagem de minha caminhada pelo jornalismo não tem
como não me emocionar, foi um período que estive no olho do furacão, mas só
tenho a agradecer.
Jaciara Santos: Foi muito
forte... E lembro a dignidade com que você enfrentou todo o pós-operatório,
todo o tratamento... Uma guerreira, um exemplo, nossa ídola!
Carmela Talento: Jaciara Santos
tive a sorte de contar com o apoio de muitos amigos, amigas e colegas de
trabalho entre os quais vc está incluída. Só agradeço!
Clarissa Amaral: Carmela Talento
lembro bem daquele período.
Carmela Talento: Clarissa Amaral,
vc sempre esteve presente ajudando, não dá para esquecer sua generosidade
Mônica Bichara: Ai, essa fase
foi mesmo muito dolorosa, mas também de muito aprendizado para todos nós que
convivíamos com Carmelinha. Ali eu aprendi que era possível ser forte, porque
ela nos passava força. Lembro que quando ela nos contou (era nossa editora de
política) chorei no arquivo, escondida dela, pra não demonstrar que não tinha a
mesma força que ela nos passava. Mas Carmela Talento foi uma guerreira, um
exemplo de dignidade mesmo como disse Jaciara Santos. E até no hospital a gente
achava motivos pra sorrir, lembro que o médico era um amor, Carmelinha teve
muita confiança nele e nós tb. Nossa ídola mesmo Carmela Talento
Carmela Talento: Assim quem vai
chorar agora sou eu. Com a idade estou ficando 😢 meio abestada.
Mônica Bichara: Abestada é
ótimo, somos duas cancerianas abestadas
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28
de janeiro 2020
Vitória!
Realizada
a cirurgia, quimioterapia.
Sob
a orientação de um jovem médico, Carlos Sampaio.
O
santo bateu.
Desde
a primeira consulta, sentiu firmeza.
Médico
tem disso: se o santo não bater, não tem jogo.
Sampaio
preferiu o caminho da quimioterapia.
Era
preciso segurança para indicar tal tratamento.
Os
efeitos colaterais,. brinquedo não.
Alguns
sucumbiam, tão fortes.
Carmela
Talento, não obstante, resolve acreditar no médico.
Para
as primeiras doses, internamento.
A
equipe médica precisava estar ao lado para acompanhar as reações.
A
aplicação levava horas.
Um
dia recebendo medicação.
Três,
prostrada.
Doutor
Carlos Sampaio, sempre presente e atento.
Transmitindo
segurança.
Os
amigos ali, no pé da obra.
Não
soltavam a mão dela: Mônica Bichara, Jaciara, Isabel Santos, Joana D'arck,
Jânio Lopo, Paulo Bina, a galera toda da "Tribuna da Bahia", solidária,
uma corrente de carinho, indispensável nessas horas.
Após
a terceira sessão, Carmela decide voltar ao trabalho.
Melhor
coisa.
Com
toda dificuldade, renova a esperança, aumenta o desejo de viver.
Mole,
não era.
Ainda
estava muito fragilizada.
No ônibus,
indo para o trabalho, vento bate, passa a mão na cabeça, o cabelo veio todo.
Puta
que pariu!
Sabia
dessa consequência, mas bateu uma tristeza da gota serena.
Quase
volta pra casa.
Olhou
pra fora, viu a vida fervilhando, reagiu.
Seguir
em frente.
O outro
caminho, a depressão, chamar a morte.
Um
lenço passou a adornar sua cabeça.
Oito
meses de tratamento.
Walter
Pinheiro, sempre solidário.
Joaci
Góes, também.
O
doutor Carlos Sampaio tornou-se seu amigo.
Seguiu
em frente.
Venceu!
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Ana Virgínia Vilalva: Se não me falha
a memória, Emiliano, Dr. Carlos Sampaio foi o mesmo quem cuidou de minha mãe em
2009
Jaciara Santos: É vencedora que
fala, né? Não como adjetivo. No caso da nossa Carmelita, a palavra tem o
sentido de substantivo: a vencedora.
Jacira Maria Araujo Silva: Dr Carlos
Sampaio nasceu para isso cuidou de mim há exatos 21 anos atrás e olha eu aqui.
Lucia Correia Lima: Forte história
Carmela Talento: Tem gente que
não acredita em anjos, mas eles existem e eu tive a certeza disso com tantos ao
meu lado nesse período. E Dr. Carlos Sampaio tudo que eu disser sobre ele vai
ser pouco diante do cuidado que teve comigo durante todo o tratamento, e
continua até hoje. Só lembrando que a quimioterapia há 30 anos era bem mais
agressiva, a medicina evoluiu e os efeitos colaterais são bem menores, embora o
desconforto ainda seja grande. Minha sorte foi ter do meu lado um médico
dedicado como Dr. Carlos, creio que fui uma das primeiras pacientes dele,
quando ainda bem novinho, recém formado, mas de uma responsabilidade
impressionante. A minha felicidade é imensa por ter acompanhado o seu
crescimento, atualmente é reconhecido como um dos maiores especialistas em
Oncologia, não apenas na Bahia, mas no Brasil , além de diretor presidente de
uma das clínicas de referência em Oncologia do país, a Amo, que presta
assistência multidisciplinar aos pacientes com câncer. Vida que segue!
Mônica Bichara: E era um gato,
lembro que a gente brincava pra descontrair chamando ele de Dr. Gatinho
hehehehe mas foi mesmo um anjo. E vc merecia essa proteção, Carmelinha, todos
nós precisávamos de vc aqui e bem
-------------------------------------------------
(Com as vítimas das broncas, Mônica e Joana D´Arck)
Emiliano José
Emiliano José
29
de janeiro 2020
As broncas de
Carmela
Em
1989, Bené Simões assume como redator-chefe.
Levi
Vasconcelos sai da editoria política.
No
lugar dele, entra Ivan Carvalho.
Foi
barra.
Ivan
era atencioso.
Gentil.
Bom
texto.
Experiente.
Chegava
cedo, pautava os repórteres, orientava, definia prováveis manchetes.
Agora,
ficar para a edição, gostava não.
Carmela
Talento era quem fechava as páginas de política e definia também as eventuais
chamadas de primeira página.
Ao
final do dia, recebia o material do reportariado, e danava-se a editar, Ivan
Carvalho no merecido recesso do lar.
Repórteres
novos, promissores: Raul Monteiro, Rosane Santana, Jânio Lopo (novo só em
política), Joana D'arck, Mônica Bichara.
Mais
experientes, Paulo Bina e Zé Fernandes.
Conto
um episódio.
Em
1977, eu chefiava a reportagem do "Jornal da Bahia".
Eugênio
Lira, advogado de posseiros em Santa Maria da Vitória, é assassinado a mando de
grileiros.
Uma
pauta excepcional.
Destaco
Zé Fernandes para viajar.
Antônio
Jorge Moura, grande repórter e também sob minha chefia, jamais me perdoou.
Chefiar
tem ônus.
Poucos
bônus.
Carmela
revela: Zé Fernandes não gostava de ser pautado.
Só
queria fazer matéria de bastidores.
Contava,
a rigor, com o material dos novatos.
Às
vezes, como editora de fato, subia nas tamancas.
Mônica
Bichara e Joana D'arck rememoram as broncas dela.
Tinha
de ser dura.
Garante,
à Guevara: jamais perdeu a ternura.
Sustenta:
as duas exageram nas lembranças das broncas.
A
ver.
Ivan
Carvalho fez história com suas distrações, com seu jeito sossegado de ser.
Um
exemplo.
Um
dia, edita a coluna "Raio Laser", e vai pra casa.
Hora
de fechar, pessoal da montagem sobe procurando as notas.
Distraído,
o editor havia levado-as para casa.
Jornal
em polvorosa, ninguém sabia como preencher uma página em branco, quando irrompe
na redação um sorridente Ivan Carvalho, tranquilo:
- É,
esqueci de entregar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Grande figura
Ivan Carvalho, mas distraído que ele só! KKKKK.
Joaquim Lisboa Neto: Eugênio Lyra, o
primeiro elo entre você e Santa Maria. Depois viriam Francisco Guarany, Osório
Alves de Castro, Clodomir Morais e este seu modesto leitor e admirador, dentre
tantos outros santa-marienses. Pra Morais levei um exemplar do "Lamarca -
o capitão da guerrilha" quando ele dirigia um projeto de Reforma Agrária
na Nicarágua Sandinista, 1981. Você bebeu da água da nossa aldeia e pronto, não
a esqueceu jamais. Se tornou amante e alto conhecedor da cultura desta terra.
Prazer e privilégio nosso!
Emiliano José: Joaquim Lisboa
Neto Meu
Mônica Bichara: Tudo
brincadeira, realmente Carmelinha não perdia a ternura jamais. Mas pegava no
meu pé me chamando de chorona kkkkkk a editoria de política da Tribuna da
Bahia, com Carmela Talento de editora, foi fundamental na minha vida em todos
os sentidos
----------------------------------------
(Com Isabel, Jaciara e eu na homenagem ao fotógrafo Anízio Carvalho)
Emiliano José
30
de janeiro 2020
Gato por lebre,
café por conhaque
Carmela
Talento não entendia.
Redação
tinha café à vontade.
No
entanto, vários de seus colegas, volta e meia, chamavam o boy, e pediam fosse a
Pepe buscar um cafezinho.
Pepe
era o dono do bar em frente.
Talvez
fosse um café muito especial, pensou.
Desceu
um dia por acaso, pediu café, e concluiu: talvez empatasse com o da redação.
Os
dois, muito ruins.
Olhava,
olhava, e a romaria continuava.
Atentou
para um detalhe: o café vinha num copo descartável coberto por um guardanapo de
papel.
Um
dia, de soslaio, viu um dos colegas tirar o guardanapo, olhou bem, viu a cor,
sentiu o cheiro.
Estava
comprando gato por lebre.
O
café era conhaque.
Ascendeu
à editora do primeiro caderno.
Compreendia
Economia, Política Nacional e Local, Internacional e Primeira Página.
Muito
mais trabalho.
Salário,
o mesmo.
O
jornal, ainda por cima, começou a atrasar os salários.
Burburinho.
Paralisação.
Alguns
editores avaliaram, no entanto, garantir o jornal em circulação face à
perseguição de ACM.
Não
deviam dar a ele o trunfo da ausência do jornal nas bancas.
Assim,
os editores fechariam sem os repórteres.
Adilson
Borges era editor de Economia.
Concordou
em fechar a página, na lembrança de Carmela.
Logo
após a reunião dos editores, desceu para o bar em frente, para tomar um café ou
um conhaque, não se sabe bem.
De
lá, mandou avisar: não voltaria.
Estava
na greve.
Carmela
não gostou.
Havia
firmado compromisso.
Insistente,
mandou chamá-lo.
Ele
reafirmou: não iria voltar.
O sangue
italiano ferveu:
-
Então, não volte mais.
Demitiu
um colega: primeira e única vez.
E um
amigo de quem gostava muito.
Um
episódio de que não se orgulha nem um pouco.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Verdade ! Foi
realmente uma decisão muito dolorosa, fiquei triste , mas tem certas situações
que não dá para contemporizar .
Carmela Talento: Essa predileção
pelo cafezinho de Pepe me deixava mesmo intrigada kkkk. Sorte que bebiam, mas
conseguiam produzir. Eu com um copo de cerveja não consigo nem fazer um o com o
copo !
Isabel Santos: kkkkkk que
massa. Coisas de Redação. Mas eu desconhecia essa façanha do café/conhaque
kkkkkkkk, Carmelita (Carmela Talento). Qto à demissão, pelo que a conheço, deve
ter mexido muito com você ter tomado tal a decisão. O quem vem mais por aí?
Aguardo a 'pena' de Emiliano relatar. Beijos para os dois.
Jaciara Santos: o cafenhaque de
Pepe era famoso, assim como o "ovo de Setenta" rs rs rs. O lance da
greve não acompanhei, ainda pertencia ao quadro do Jornal da Bahia e, pra
completar, estava de férias.
Mônica Bichara: Era o tempo do
jornalismo boêmio, movido a álcool....toda redação tinha um
"abaixadinho" por perto, mas a galera dava conta do recado. Uma das
decisões mais dolorosas da carreira, certamente, ainda mais por se tratar de
outro DOCE Adilson Borges - nessa época eu já estava na Câmara
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31
de janeiro 2020
Carmela, Irecê e
Balzac
Vida
de editora não é mole, não.
Com
a demissão de Adilson Borges, Carmela chama Sinval para substituí-lo.
Era
uma tranquilidade tê-lo na editoria de Economia.
Experiente,
competente.
Passado
algum tempo, precisou se afastar por um mês.
José
Sinval Soares, nome todo dele, indica José Rodrigues de Miranda para
substituí-lo.
Todos
o conheciam por Irecê.
Sarcástico,
irônico, brincalhão.
Às
vezes, brincadeiras pesadas.
Carmela
acatou a sugestão.
Acordo
entre ela, Sinval e Irecê.
Afinal,
era uma substituição de trinta dias apenas.
Sinval
garantiu: é excelente profissional, dará conta do recado.
Carmela,
no entanto, sempre passava os olhos nos títulos, ressabiada.
A
legenda das fotos, deixava com o novo editor.
Mas,
Irecê, sendo Irecê, não ia passar em branco pela editoria.
Alguma
travessura havia de fazer.
Senão
a vida perdia a graça.
Era
do tipo perder o amigo mas não perder a piada.
Houve
uma reunião, coberta pelo jornal, de que participavam as mulheres de Walter
Pinheiro e Joaci Góes.
Matéria
IP, como chamávamos.
Em
bom português: Interesse do Patrão.
Na
legenda da foto, adivinho o risinho de canto de boca, Irecê começa a legenda
informando:
"Balzaquianas
se reúnem...."
Dia
seguinte, parecia tudo correndo normalmente.
Walter
Pinheiro, de cara, nem percebeu.
O
problema é que as mulheres viram e não gostaram, segundo Carmela.
É
chamada por Pinheiro antes da reunião do final do dia:
-
Quem deu essa legenda?
Só
então deparou com as balzaquianas.
Coisa
de Irecê - pensou.
-
Não me recordo quem fez. Falha minha. Olhei o título. Não prestei atenção à
legenda. Foi mal.
Assumiu
a responsabilidade sozinha.
Chama
Irecê, reclama.
Ele,
tranquilo, quase fleugmático:
-
Não há nenhuma imprecisão. Elas são balzaquianas.
Balzac
usava o termo apropriadamente.
Um
bom tempo atrás.
Mulheres
maduras e prontas para amar mais livremente.
Agora,
era visto quase como um xingamento.
Sinônimo
de velhice.
Não
adiantou Carmela contra-argumentar.
Irecê
bateu pé: não era um erro.
Irecê
sendo Irecê...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Tinha que ser
Irecê a aprontar essa. Sabia que era uma figura irreverente, mas não imaginava
que usaria a irreverência até com as mulheres dos donos do jornal. Certa feita
quando eu estava assessorando o senador Rui Bacelar, apresentei Irecê ao
senador e ele apertando a mão de Rui disparou: o prazer é todo seu kkkk.
Jazon Zon Ze: Patinha bebia
demais e se impolgava
Joana D'arck: As tiradas de
Irecê são inesquecíveis!
Mônica Bichara: Verdade, Irecê
dava um livro sozinho
Rita Tavarez: Tô esperando!
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Emiliano
José
1º
de fevereiro 2020
De novo,
perseguição de ACM
Carmela
gostava muito do trabalho na "Tribuna da Bahia".
Era
uma satisfação imensa olhar a edição diária, compará-la com os outros jornais,
alegrar-se com o acerto das manchetes, com a atuação séria da equipe.
Só
havia um problema: os boletos.
Ganhava
pouco e era muita conta pra pagar.
Acabou
no gabinete do senador Rui Bacelar.
Salário
melhor, conheceu toda a Bahia.
Depois,
Fernando Schmidt faz o convite: pretende-a secretária de Comunicação da prefeita
Lídice da Mata.
Teve
dúvidas.
Sempre
trabalhara em redação e em assessorias.
Uma
secretaria era outra coisa.
Conversa
com Alberto Oliveira, com Mônica Bichara, com Irecê, Joana, Sinval.
Todos
a incentivaram.
Topou
o desafio.
Era
sua sina: perseguição no "Jornal da Bahia", na "Tribuna da
Bahia" e agora enfrentar perseguição na Prefeitura.
O
algoz, sempre ele, o déspota: ACM.
Foi
uma luta dos diabos.
David
contra Golias.
TV
Bahia mentia todo dia.
E
nada de direito de resposta.
Preocupação
diária com direito de respostas, com subsídios aos processos movidos contra as
calúnias, todos engavetados.
Tristeza
maior não era tanto a perseguição.
ACM
era o diabo conhecido.
Doía
muito, muito, essa a tristeza maior, ver colegas de profissão fazendo o jogo
sujo do tirano.
Sorte,
ela afirma, era contar na retaguarda com o jornalista Vitor Hugo Soares, seu
subsecretário.
Para
tentar furar o cerco, criou o "Jornal do Buzu", folhetos para
distribuir nos bairros, nas estações de ônibus, uma guerrilha.
A TV
Bahia não aceitava nem peças publicitárias pagas.
A
mando do chefe, ACM, fazia luta política aberta, desleal.
Carmela
é admiradora de Lídice, especialmente de sua capacidade de resistência.
Submetida
a um cerco implacável, a prefeita nunca entregou os pontos, jamais abaixou a
cabeça, manteve a dignidade, cabeça erguida.
Poucos
homens, avalia Carmela, teriam a força demonstrada por Lídice.
Terminado
o governo, Carmela acreditava estar pronta para o que desse e viesse.
Engano
Difícil
aguentar quatro meses de atraso nos salários e o prefeito Antônio Imbassahy
adiando o quanto podia o pagamento.
Vendeu
o carro para pagar os boletos.
Até
que...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: A vida nunca foi
fácil, mas na prefeitura foi complicado, vc disse muito bem Emiliano José
comparando com a luta de David contra Golias. Enfrentar o cerco da mídia, cerco
econômico a sacanagem de muitos colegas, além de um Judiciário conivente com as
malvadezas do executivo estadual, não foi nada fácil . Mas Lídice da Mata estava
firme , cobrando da equipe, brigando com Deus e o Diabo na terra do sol pra não
deixar o desanimo se abater sobre a equipe. Foi uma experiencia e tanta, uma
briga boa , aprendi muito.
Joana D'arck: Trabalhei com
Carmela cobrindo a agenda diária de Lidice e também passei pelo sufoco do
salário atrasado por 4 meses. Fiquei tão revoltada que pedi a ela e a Schmidt
para me exonerar junto com eles no último dia da gestão.
Mônica Bichara: Estávamos na
diretoria do Sinjorba nessa época, presidência de Alberto Freitas, quando
recebemos a histórica e honrosa visita da secretária Carmela Talento. Um
orgulho pra todos nós, um sinal de prestígio da prefeita à categoria. E
acompanhamos de perto a resistência da administração, que não tinha o direito
de ver a cor do dinheiro pq ACM conseguia bloquear os repasses do governo
federal antes de entrar na conta. E eram poucas as opções de divulgação dessa
sangria - naquele tempo era tudo mais difícil, só imprensa oficial, não
contávamos ainda com os sites alternativos nem redes sociais. Sem dinheiro em
caixa para investir, um dos trunfos da gestão de Lídice da Mata foi mudar a
postura da administração pública, dar transparência aos gastos públicos e
tratar o público como público, não como privado. E isso não era pouco. Vc nos orgulha
desde sempre, Carmelinha
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(Com Irecê e colegas em evento do Sinjorba)
Emiliano
José
2 de
fevereiro 2020
A morte rondando
Passou
a trabalhar com o vereador Miguel Kertzman.
No
final do mandato, ele decidiu ser candidato a deputado federal.
Perdeu.
Carmela,
novamente desempregada.
Faz
a campanha de Prisco Viana para o governo da Bahia.
Viana
não se elege.
Uma
correria pra sustentar a renca de filhos.
Traiçoeiro,
o câncer reaparece em dezembro de 2002.
Sem
trabalho fixo.
Sem
plano de saúde.
No
mato sem cachorro.
Alguma
grana ainda da campanha.
O
mastologista João Lucas aconselha: o mais recomendável era uma mastectomia.
Marcou
a cirurgia no Hospital Santa Isabel, onde ele atendia pelo SUS.
Para
uma segunda-feira.
No
sábado precedente, Irecê, com quem Carmela estava se relacionando, teve um
grave problema de coração.
Mais
do que próprio falar em tempestade perfeita.
Carmela
o visita no hospital.
Entubado,
arrodeado de familiares e amigos, todos apreensivos.
Carmela
se recorda do semblante preocupado de Jaciara.
Pensa
em desistir da cirurgia.
Mas,
como tinha pouco a fazer por Irecê, resolve encarar.
No
caminho para o hospital, uma sensação muito ruim.
Bruno,
o filho mais velho, no volante, recebe uma ligação.
Perguntou
sobre o telefonema, ele desconversou.
Chegou
no Santa Izabel com a sensação péssima de que Irecê havia morrido.
Na
sala de espera para a cirurgia, pergunta a Bruno de chofre:
-
Irecê morreu?
-
Está tudo na mesma.
Cirurgia
correu bem.
Na
enfermaria, pergunta à filha sobre Irecê:
- Tudo
bem - ela responde, monossilábica.
Os
médicos dão-lhe um calmante para dormir.
Os
filhos não permitiram uma única visita enquanto esteve no hospital.
Teve
alta.
Nesse
dia, ainda no Santa Izabel, recebe a visita de uma assistente social.
Cheia
de prolegômenos, chegou ao ponto:
-
Irecê morreu.
Despedaçada.
No
estacionamento do hospital, esperavam-na Joana D'arck e Délio Soares, irmão de
Sinval, e companheiro de Mônica Bichara.
Os
três choraram juntos.
Em
casa, Carmela Talento prostrou-se numa cama.
Por
15 dias, não quis ver viv'alma.
Um
dia, e essa revelação ela está fazendo pela primeira vez,....
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Juliana Mousinho Saphira Andrade: Foram tempos
difíceis, muito difíceis! Como amiga de infância de Bruno, o apoiamos na
decisāo. Carmela nāo podia desistir da cirurgia. Desabamos todos com a partida
de Irecê, sempre animando nossas tardes de domingo. Carmela venceu! Agora,
desfruta da companhia dos filhos e netos. Irecê continua nas memórias afetivas!
Mônica Bichara: Meu Deus, esse
era o capítulo que eu mais temia. Impossível lembrar sem me emocionar
profundamente. Irecê, Mô como a gente se chamava, era o amigo mais querido,
daqueles que a gente dorme junto sem receio (.....e olhe q o sacana inventava
era história). E perder esse amigo no momento que a gente mais precisava estar
do lado de Carmelinha foi de dilacerar o coração. No Campo Santo eu só pensava
em Carmelinha, chorava sem conseguir controlar pensando na injustiça daquele
momento, daquela coincidência terrível. Não tive forças para ir com Délio e
Joana ao hospital buscar nossa amiga, nossa irmã, nossa guerreira. Como foi
difícil essa passagem de nossas vidas e ver assim, contada por Emiliano José, é
reviver todo esse turbilhão de emoções
Jose Tavares: Emiliano José,
vc tá com a memória integral, perfeita e sadia. Com 78 , mesmo ainda
trabalhando no BB em sousa/ PB, sinto falta de uma memória como a sua.
Emiliano José: Jose Tavares
Tavares, aproveito depoimentos. Mérito das companheiras e companheiros. Abração
Lucia Correia Lima: Poxa que exemplo
de mulher. Que força. Me sinto fraca diante desta forte história
Jaciara Santos: Dizem que o
tempo cura tudo. Não sei se concordo. Penso que a distância dos fatos torna
menos difícil lembrar, nos permite falar a respeito, mas há feridas que nunca
fecham. A passagem do sacana do Irecê é uma delas. Além da amizade, eu tenho
uma enorme gratidão pela presença/apoio dele em uma etapa bastante difícil da
minha vida (ele e Mônica Bichara seguraram direitinho). Quando ele se foi,
antes da tristeza, senti muita raiva da vida, do mundo. Por que? Eu não tinha
respostas... Nem imagino como Carmelita pôde sobreviver a tudo isso. Só sendo
Carmela Talento pra passar tudo isso e sair inteira. Meu respeito, minha
admiração só cresce para com essa vencedora.
Mônica Bichara: Chamar o sacana
de sacana era o maior carinho pra ele. Eu TB não entendia o "recado"
do destino com aquela morte tão repentina e inesperada. Ele estava muito
abalado com o retorno da doença em Carmela Talento e o coração, do tamanho de
um trem, não aguentou a rebordosa. Dramático como ele só, uma vez me disse que
estava com o "coração sangrando" pq minha filha Clara estava internada
pra fazer cirurgia de adenóide e amígdala, relativamente simples. Mas assim era
o nosso Irepinga, a pessoa com quem mais briguei na vida. Eu passava cada
descompostura nele kkkkk (nera Joana D'arck?) e o bichinho dizia "Pronto,
Mô, pronto, tá certo também". Essa série de Carmelinha está sendo uma
terapia, pq pouco a gente conseguia conversar sobre esse assunto que nos
machucava tanto
Mônica Bichara: Esses capítulos
de #MemóriasJornalismoEmiliano me fizeram relembrar muitos casos que vivemos
com Irecê, cada um mais cômico do que o outro. E me peguei rindo sozinha. Uma
vez fomos para um encontro de assessores de imprensa em Brasília, vários
colegas formando a delegação baiana. No final resolvemos dar um giro para
conhecer o Congresso Nacional. Eu, Carmela Talento, Irecê e Beto (Alberto
Freitas). Não lembro o motivo, mas no Senado a visita estava proibida e ficamos
desapontados. O chefe da segurança foi grosseiro e Beto, depois de ver o
distintivo, perguntou o nome dele. "Agente Bertolino", respondeu
ríspido. "Bonito nome", devolveu Beto kkkkkk Até aí, tudo bem. A
gente ia saindo e Irecê larga um "bom fela da puta". O cara ouviu e
partiu pra cima, queria prender Irecê. Alguém identificou que ele era
jornalista, estava só querendo conhecer o Senado. "Grande coisa é jornalista",
bradou. Quando a "casa já estava fedendo a homem", como diz Franciel
Cruz, Irecê retirou "tudo que eu disse" e conseguimos convencer
Bertolino de deixar a gente ir embora......Durante um bom tempo Irecê foi
chamado de Agente Bertolino e em todo lugar o caso tinha que ser contado. Né
Xando Pereira?
Carmela Talento: Mônica Bichara
Bertolino queria mesmo era dar porrada em Irecê
Mônica Bichara: foi hilário, até
hj a gente ri lembrando da presepada
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(O dengo da neta Luíza, que na época chamava Irecê de "Cala a boca José", de tanto que repetia a frase)
Emiliano
José
03
de fevereiro 2020
Minúsculas
estrelas verdes
Carmela
passou 15 dias olhando pro teto.
A
cama.
O
quarto.
Seu
mundo.
Aqueles
momentos da vida onde tudo parece desabar.
A
pessoa sente tudo conspirar contra.
Contra
ela.
Cortaram
sua carne.
Duplamente.
No
seio.
Com
a morte de Irecê.
É o
momento das dúvidas mais cruéis.
Inclusive
para os que têm fé.
Se
Cristo, na tradição bíblica, pegunta ao Pai por que fora abandonado, imagine um
mortal, tão frágil...
Cercada
pelo cuidado dos filhos Bruno, Daniel e Silvana, únicos a entrarem na caverna
em que seu quarto se transformara, sentia-só.
Não
era ruim.
Precisava
daquela solidão.
Fazer
o luto sozinha.
Não,
o carinho dos filhos não lhe era indiferente.
Era
o momento de reencontro com a humanidade.
Foram
uma escadinha: Bruno, Silvana, Daniel.
Entre
1977 e 1980 nasceram os três.
Passados
tantos anos, ela conta pela primeira vez um episódio, talvez místico, vivido
por ela e a filha.
Uma
noite, deitada, Silvana sentada no sofá ao lado da cama, as duas numa comunhão
quase perfeita, olham para o teto e são surpreendidas por iluminações.
Luzes,
minúsculas estrelas verdes subindo subindo atravessando o teto.
As
duas, paradas, estupefatas, tomadas pela beleza daquelas minúsculas estrelas
verdes, uma enigmática aparição, envolvidas pela poderosa sensação advinda
delas.
Não
paravam de irromper no quarto.
Uma
coisa dessas não é pra ser compreendida.
Basta
a profunda sensação experimentada.
As
minúsculas estrelas verdes tiveram o poder de tirá-la da cama no dia seguinte.
Amanheceu
com outra disposição.
Parecia
ter recebido um sopro de ânimo para retomar a vida.
Parecia,
não.
As
minúsculas estrelas verdes foram o sopro.
Produziram
o milagre.
Abriu
a janela do quarto, e o mar à sua frente, o mar do Rio Vermelho, parecia calmo:
-
Falei pra mim mesmo: vida que segue!
Insistiu
em olhar o mar por algum tempo.
Cantarolou:
"O
mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito...".
Ontem,
2 de fevereiro, entrou numa canoa, jogou flores para a Rainha das Águas.
Cheia
de vida.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Carmela Talento: Foi mesmo um
momento místico, nunca tinha contado esse fato, se estivesse sozinha diria
tratar-se de fruto da imaginação ou resultado do efeito dos remédios. Mas minha
filha estava ao meu lado e eu ainda perguntei: Silvana vc viu isso? e ela
respondeu: vi sim mãe . Realmente há mais mistério entre o céu e a terra do que
sonha a nossa vã filosofia, já dizia Shakespeare
Solange Moura: Emocionante!
Carine Andrade: Muito
emocionante essa passagem da sua vida, Carmela Talento. Eu, particularmente,
não sabia do seu problema de saúde e de tantas outras lutas. Você é merecedora
dessas homenagens e que bom que elas estão sendo feitas em vida. Obrigada pela
oportunidade de trabalhar com vc e de aprender tanto. Emiliano José, muito
massa essa "série", acompanho todos os capítulos!
Lucia Correia Lima: Emocionante
história texto. Precisando muito destas estrelas verdes...
Mônica Bichara: Que emoção ler
isso, realmente impressionante. Todas as suas estrelinhas se juntaram pra te
devolver para a vida, um fenômeno que deve coroar a história de poucas pessoas,
iluminadas como vc Carmela Talento.
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(Irecê em primeiro plano, eu com frio sendo sacaneada por ele, Sinval achando que estava nazoropa e Bruno, num São João em Irecê)
(Manifestação em defesa do diploma de jornalista)
(Na Festa de Iemanjá com o filho Daniel Talento)











































Excelente edição e texto de abertura, Mônica Bichara! O Pilha honrosamente registra e destaca com muita satisfação essas publicações de Emiliano José sobre pessoas e profissionais tão respeitados e queridos nossos. E Carmela é uma dessas que a gente admira cada vez mais pela coragem, ética, profissionalismo e competência com que exerce a profissão, além da grande amiga de todas as horas de quem a conquista. Mas o melhor é poder curtir aqui tantas histórias boas que ela coleciona em sua trajetória! Muito bom!
ResponderExcluirValeu Jô
ExcluirRi muito; mas chorei mais. Existem pessoas que nascem com uma dignidade e coragem que me fazem pensar que são feitas de um barro diferente. Sempre admirei profundamente Carmela e estes textos de Emiliano só reforçaram isso. Parabéns pela edição Moniquinha! (E, ainda por cima, ler me fez ter uma saudade da gota dos pestes do Antonio Jorge e do Irecê; cada um do seu jeito, apertaram muito meu juízo, mas também me apoiaram com muita generosidade).
ResponderExcluirQue lindo Aninha, feliz de saber que vc gostou. Realmente Emiliano está revolucionando nossas vidas com essas memórias. AJ e Irecê foram mesmo duas figuraças
ExcluirNem sei o que merece mais elogios: se a edição primorosa de Mônica ou a história de Carmela. Na dúvida, mando mil curtidas para as duas. Acompanhar esses relatos, conhecer algumas facetas da vida dessa mulher a quem sempre admirei e lembrar de alguns episódios em que estive presente me trouxe emoções indescritíveis. Mais uma vez, Emiliano está de parabéns por nos fazer compartilhar esses momentos. E, Carmelita, eu sei que você já sabe, mas não canso de repetir: você é uma inspiração para mim e para todas as jornalistas da nossa geração.
ResponderExcluirQue bom que você gostou, Jaci. Carmelinha é nossa ídola e é muita responsabilidade falar sobre ela, principalmente depois desse trabalho delicioso do mestre Emiliano José, que vem desencavando tantas histórias guardadas só nas nossas memórias e que agora também são dele. Ou melhor, são públicas. Não canso de agradecer
ExcluirQue maravilha, mais uma vez, Mônica, sua edição. A emoção me toma. Muito dos episódios da história de Carmelita, nesta série, só li agora porque não estou entrando diariamente no face. Por isso, não comentei. Estou grata e honrada porque em muitos dos momentos da história dela eu estava presente, junto. Convivi com ela. Muita emoção ao relembrar o episódio da doença. Todo o processo, especialmente o inicial. A força, coragem e fé da querida companheira, que não deixou de trabalhar, que sorria, resistia. Ah, Carmelita, quanto exemplo você nos deu (e nos dá), pessoal e profissionalmente. Que trajetória linda e forte. Como diz Jaci, uma inspiração para mim também e colegas da nossa época, e que precisa ser (sua história) conhecida pelo nova geração. Que todas e todos colegas possam ler essa série e se encher de conhecimento e de orgulho. Mais uma vez, parabenizo o querido amigo, colega, escritor Emiliano José por toda a poesia, leveza e criatividade ao contar a história de Carmela e de todas nós, privilegiadas pelo #MemóriasJornalismoEmiliano. Simplesmente, GRATIDÃO.
ResponderExcluirO comentário acima é meu, Isabel Santos
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