#MemóriasJornalismoEmiliano - Barretinho: Um generoso coiteiro entre comunistas


(Foto: Kin Guerra) 

Essa doçura de pessoa, Zé de Jesus Barreto, nosso querido Barretinho, é quase uma unanimidade no jornalismo baiano. Pelo menos eu não conheço ninguém que torça o nariz pra ele e acho difícil que exista. E ele está entre as minhas sortes do início da carreira, foi um dos primeiros chefes de reportagem que encontrei no jornal da Bahia.

Ao longo de toda essa série de memórias do jornalismo, o autor Emiliano José cita vários episódios tendo Barretinho como personagem. Mas nesses capítulos transcritos aqui com fotos e comentários dos amigos, feitos na postagem original do face de Emiliano, Zé de Jesus é o protagonista. São histórias que dariam um livro. Ou darão. Quem sabe?

O jornalismo parece ter escolhido Barreto e não o contrário. Ainda adolescente, em 1964, diante do fogaréu que consumia a feira de Água de Meninos, onde seu Zé, o pai, tinha barraca, Barretinho tremia de medo e de raiva e já presumia que o incêndio era criminoso. Segundo Emiliano, “a argúcia do repórter já se insinuava”. A tragédia foi tamanha que até hoje ele não consegue aprofundar o assunto. Afinal, além da barraca, do estoque e de quase todo o dinheiro arrecadado no dia, o fogo minou a disposição para recomeçar no coração do sertanejo sergipano. Um trauma ainda difícil de ser digerido.

A carreira de jornalista começou mesmo em 1971, na Tribuna da Bahia, tendo outro querido, Césio Oliveira, como chefe de reportagem. E de cara Barretinho, ex-jogador do Bahia, se saiu tão bem que o teste do foca foi para a primeira página em lugar do texto do repórter escalado para a pauta. O sabor, como traduziu o mestre Emiliano, foi de Goooooooool do Bahêa


Em meio a tantos comunistas que lotavam as redações da Tribuna da Bahia e do Jornal da Bahia, durante a Ditadura Militar, inclusive vários ex-presos políticos como Emiliano, José Carlos Prata (Pratinha), Denilson Vasconcelos, José Carlos Zanetti, Dalton Godinho.... nosso protagonista barbudo era constantemente confundido com um.
“A redação mais parecia uma pequena sucursal da Penitenciária Lemos Brito", brincou. Mas, como se definia, não passava de “um bom coiteiro”, que por algumas vezes ajudou a abrigar procurados do regime. Um “generoso coiteiro”, completa o autor.

Esta sequência das memórias de Emiliano José tem ainda a emoção da convivência com a jornalista Mariluce Moura, amiga de infância de Barretinho no Subúrbio Ferroviário. Ela e Tessa, filha que nunca conheceu o pai, o desaparecido político Gildo Lacerda, eram como "flores no deserto".  

Além da Tribuna e Jornal da Bahia, trabalhou também na sucursal de O Globo, Estadão, Jornal do Brasil e Veja. Tem também vários livros publicados. Agora é com Emiliano José

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(Foto: Agliberto Lima - Na sucursal do Estadão na Rua Chile em 1978)

Emiliano José
6 de junho 2019
Memória em chamas

Era o lusco-fusco, quase noite, quando Barreto, do alto da Ladeira do Canto da Cruz, viu as labaredas imensas lá embaixo querendo tomar conta do mundo, parecença de um monstro a querer tudo devorar, e devorando.
Era o fogo.
Fim de mundo.
Pela cabeça dele, num átimo, vieram as terríveis lembranças do inferno tão repisadas pelos padres no seminário.
Duro, duro de saber: o inferno fogo vermelho devastador era ali, logo ali.
O mundo em chamas.
Raiva, sentia raiva.
E impotência nos seus verdes 16 anos.
No começo da tarde, 4 de setembro de 1964, no Seminário Católico onde estudava, recebe dos padres a notícia: a Grande Feira está em chamas.
Línguas de fogo consumiam Água de Meninos.
Foi pra casa, encontrou a mãe atordoada, desolada.
Sabia do incêndio, mas não atinava com a dimensão.
Barreto cobriu quase correndo o percurso que o levou ao alto da Ladeira do Canto da Cruz: da Cidade Nova desceu a Ladeira do Ipiranga, passou por Quintas, pela Estrada da Rainha e ofegante deparou com o mundo pegando fogo.
Desceu, tentou encontrar o pai, mas não o deixaram passar - área isolada.
O pai tinha barraca na feira, próxima do serviço de alto-falantes e do posto policial.
Seu Zé, sergipano arribado de Simão Dias, foi feirante desde chegado a Salvador logo depois do fim da Segunda Guerra.
Tinha orgulho do pai.
Quando alcançou tenência de si, olhava-o admirado cuidando da horta no  bairro do Uruguai.
Plantava legumes, verduras, flores, frutas, tomava do tabuleiro, e saía com a variedade ali pela Feira do Curtume, Baixa do Fiscal, lama, fedor, rua, casa em casa, conseguia os trocados e assim dava de comer à filharada que a vida é dura e o sertanejo é antes de tudo um forte.
O trabalho era de domingo a domingo, que freguês você encontra todo dia e a vida não para.
Anos 50, seu Zé aluga a barraca na Feira de Água de Meninos, sabe-se lá à custa de quantos sacrifícios.
E agora, o fogo.
Serão muitas as vezes em que Barreto, nas redações pelas quais passou, pegava-se absorto rememorando a tragédia.
Nunca saiu de sua memória.
O pai ainda tentou salvar alguma coisa, e conseguiu.
De nada adiantou.
Três dias passados, e um outro incêndio reduziu tudo a cinzas.
Parecia o mesmo destino de Canudos - não devia sobrar nada.
E Barreto, quando a lembrança quase pesadelo o assaltava, recorda ter dito ao pai ao vê-lo chegar do primeiro incêndio madrugada tomado pela fuligem sem sapatos imundos os farrapos de roupa no corpo estropiado:
-Meu pai, o incêndio foi criminoso! Eles vão querer tocar fogo no que restou.
Nem se desconfiava jornalista, mas a argúcia do repórter já se insinuava.
O pai não levou em conta, sertanejo despido de malícia, incapaz de pensar nas maldades humanas:
-Quem faria isso, meu filho?
Salvara muita coisa da barraca, e saiu dia seguinte a fazer compras, retomar a vida, que esperança é a última que morre...
#MemóriaJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Jose Jesus Barreto: rrrupiei !!! sigamos.
Emiliano José: Jose Jesus Barreto Abraço, mestre e amigo !
Zeca Peixoto: Lindo demais! Lindo! Marejei aqui, professor.
Emiliano José: Zeca Peixoto A vida mareja... Honrado pela leitura. A força é da vida de Barretinho
Zeca Peixoto: Emiliano José a semana afunilou e não deu para marcarmos aquele café, professor. Semana que vem, pode ser?
Emiliano José: Zeca Peixoto Vamos dar um jeito!
Emiliano José: Falamos logo na segunda, e combinamos
Devanier Lopes: Morava em frente à feira de água de menino. Lembro
Eli Eliete: O capitalismo não perdoa...
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(Barretinho de branco na homenagem ao fotógrafo Anízio Carvalho, ao lado de colegas dos tempos de Jornal da Bahia, na Câmara Municipal)

Emiliano José
7 de junho 2019
Alma devorada pelo fogo...

Barreto recostou na cadeira início de tarde depois de distribuir pautas para o reportariado.
A memória capturava a imagem do pai madrugando no dia 5 de setembro de 1964 juntando os trocados restantes.
A caatinga o ensinara: desde que mundo é mundo não há nada fácil para quem nasceu pobre.
Desde sempre tivera noção disso.
Com os trocados, ia atrás de mercadorias, fazer estoque, retomar a vida, que não há mal que sempre dure.
Ah, meu pai...
Quanta ilusão e doçura em sua alma...
Barreto tenta mergulhar na alma do velho quando o segundo inferno desabou sobre a barraca sobre ele sobre tudo sobre as mercadorias esperanças sonhos família mulher tudo que lhe era caro.
Soube: o pai quase perdeu a vida ao tentar salvar algum dinheiro da velha máquina registradora.
O incêndio de Água de Meninos queimou o velho por dentro: perdeu aquele ar de firmeza e dignidade com que encarava o mundo, perdeu a aura de sertanejo que verga mas não quebra.
Quebrou.
Quebraram-no.
Lucidez, saúde, visão iam sucumbindo pelo fogo que dilacerava sua alma.
Você me quer forte, não sou forte mais - não falava mas dizia o corpo gritava...
Barreto pensa: como pai iria compreender o movimento voraz feroz do capital a modernização que não suporta pobres nas redondezas?
Não, nunca entenderia.
A família teve ajuda do padre Gaspar Sadock, vigário da paróquia de São Judas Tadeu.
Não passou fome graças a ele.
A cesta básica semanal chegava sempre pelas mãos do próprio Sadock.
O incêndio também levou Barreto a sair do seminário, obrigado a ajudar no sustento da família.
Sadock consegue emprego pra ele no Banco Nacional do Norte.
Enterra o sonho de ser jogador de futebol.
Sabia-se bom de bola, mas como se precisava segurar a onda da família?
Passa no vestibular de Ciências Sociais, UFBA, dezembro de 1966.
Escola de Filosofia e Ciências Humanas funcionava em Nazaré, casarão onde está instalado atualmente parte do Ministério Público Estadual.
1967 e 1968 foram anos de muita balbúrdia.
Dava conta de estudos, banco, namoros, movimento estudantil.
E do futebol, que ninguém é de ferro.
Vota em Aécio Pamponet para presidente do Diretório de Ciências Sociais.
Era nosso Che, costuma dizer.
Pela aura de revolucionário romântico.
A fala clara, firme, sem pretensão de tocar fogo no mundo.
E torcedor do Bahia, condição essencial para Barreto.
Ele, Barreto, não mergulhou na "loucura de confrontos disparatados", como define os que se envolveram de peito aberto na luta contra a ditadura.
Eu, por exemplo.
Considerava a existência de uma insuperável disparidade de forças e armamentos.
"Domingo no Parque", "Alegria, Alegria", "Disparada", "É Proibido Proibir", "Caminhando e Cantando" foram mais decisivos para sua participação do que o "Manifesto Comunista" ou "O Livro Vermelho do Pensamento de Mao Tse Tung"...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Antonio Silvany: Aécio Pamponet, a maior referência hoje da família Sampaio.
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Com Franciel Cruz e Jadson Oliveira no Porto Moreira. Disgraceira pouca é bobagem)

Emiliano José
8 de junho 2019
Disgraceira no caminho da feira

Que ano, aquele!
Que ano da disgraça!
Tudo parecia ruir.
Ô mundo virado...
1964 devia de desaparecer não ser lembrado.
Parece que o diabo nunca vem só.
Está sempre acompanhado.
Numa dessas noites, redação já silenciosa, ou menos barulhenta, Barreto pensou nisso, xingou baixinho, disgraça, que fizemos pra merecer tudo isso?
Antes do incêndio, o primeiro de abril, e não era de mentirinha.
Eram seis horas da manhã de primeiro de abril de 1964 e o padre-reitor Carlos Geschelin entrou no dormitório batendo palmas falando alto circulando entre as camas do dormitório onde seminaristas faziam uma semana de retiro espiritual no convento da praia de Mar Grande do outro lado da Baía de Todos os Santos defronte a Salvador:
-Jango caiu!
-Acordem!
-Jango caiu!
Os jovens riam.
Acordando, ainda esfregando os olhos, tirando a remela, começaram a reagir:
-Primeiro de abril, primeiro de abril!!!
Padre Carlos aumentou o volume do radiozinho que nunca abandonava de modo a não perder os jogos na narração de Waldir Amaral, e fez prova do que dizia:
-Ouçam, derrubaram o presidente!
Silêncio.
Dúvidas.
Medo.
Que será que será?
Padre Carlos tirou todo mundo daquele estado letárgico mandou arrumar as sacolas tomar café rápido programação estava suspensa na primeira lancha vamos embora.
Eram uns quarenta meninos do chamado Seminário Menor.
Lotaram a lancha.
Barreto recorda a pequena embarcação entrando no cais do porto, ladeando o Forte do Mar, escoltada por duas corvetas da Marinha.
Subiram o Elevador Lacerda.
Dificuldades para atravessar a Praça Municipal estudantes nas ruas Jango!Jango! avançavam querendo invadir o Palácio Rio Branco e os seminaristas olhando urubuzando batinas pretas querendo entrar na dança sem poder...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Foto de Olívia Soares na Flipelô, em 2018)

Emiliano José
9 de junho 2019
Amada amante

Padre Carlos percebeu os meninos alvoroçados, doidinhos doidinhos para se desgraçar no meio da estudantada a favor de Jango e gritou arrebanhando-os:
-Vamos! Vamos!
Rumou pra Sé, puxando a tropa.
Pegar o ônibus, e seguir para o Internato da Federação.
Barreto soube mais tarde das vacilações do governador Lomanto Júnior.
De manhã, declara fidelidade a Jango.
À tarde, ao golpe.
Não queria ter o destino de Arraes e Seixas Dória, governadores de Pernambuco e Sergipe, presos.
Não era esse homem todo, não tinha a têmpera dos dois.
Na boca da noite, lê manifesto a favor dos golpistas.
Barreto, não obstante a batina, restrições à leitura de jornais e revistas, de ouvir rádio, vida cheia de proibições, contornava tudo isso.
Esperteza pra dar e vender: lia Sartre, Kafka, que sabia distinguir de Kafta,  Thiago de Mello, Josué de Castro,  Alceu de Amoroso Lima, Celso Furtado, Machado de Assis, José de Alencar, Exupéry.
Comprava jornais e revistas quando saía uma vez por mês pra visitar a família e os trazia debaixo da batina quando voltava ao Seminário.
Ia firmando consciência progressista. 
Lia "Brasil Urgente", semanário de esquerda.
Sabia de Brizola, de dom Hélder, das Ligas Camponesas de Julião.
Ia driblando, se insurgindo contra aquela pesada atmosfera de pecado, consciência culpada, medo que envolvia toda a moçada no Seminário.
Mas, não joga a água do banho com a criança dentro.
Não guarda mágoas
Não acumulou ressentimentos
Reconhece: ali aprendeu muito.
Cresceu como pessoa decente, digna, aprendeu a respeitar o próximo.
Mas, confessa a existência de uma amante sem a qual não atravessaria o deserto: a bola.
...Não sei o que seria de mim naquele ambiente não fosse ela deusa amante amada divino brinquedo a me arrepiar de alegria a me imaginar em estádios cheios   explodindo em delírio com aquele gol inesquecível é sonhava que sonhava com o dia que jogasse tudo pelos ares batina e as porra e fosse gozar e ganhar a vida acariciando-a que a bola era o centro do meu prazer...
Teve que deixar o Seminário quando tocaram fogo na feira.
A Barreto, nunca restaram dúvidas de que o incêndio de Água de Meninos foi criminoso, ocasionado pelas necessidades do capital, dos poderosos, que não recuam diante de nada quando se trata do dinheiro, do apetite insaciável por lucros. 
Esta consciência cresce mais e mais quando faz Ciências Sociais e quando mergulha na atividade jornalística.
#MemóriaJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Joaquim Lisboa Neto: Num dos volumes de "O caso eu conto como o caso" foi Paulo Cavalcanti escreve sobre a visita de "cortesia" dos milicos a Lomanto. Um deles perguntou "o senhor fuma?", o governador respondeu "não, mas se o senhor quiser eu passo a fumar agora mesmo!" Essa você certamente conhece. Abração!
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(Foto de Lúcia Correia Lima - Cau, Márcia, Barreto, Luis Guilherme, Renato Pinheiro, Lucy Bruni e Jorge Ramos)

Emiliano José
10 de junho 2019
De mão em mão

Curioso: Barreto e eu guardamos parentesco em nossas trajetórias: trabalhamos em banco, demos aulas de história em cursinhos e depois chegamos ao jornalismo.
Guarda com muito carinho lembranças do professor Alberto Goulart Paes Filho.
Deu aulas no cursinho chamado "Colégio Universitário", de que Goulart era dono, onde me preparei para o vestibular de Jornalismo, em 1975.
Raro professor de história, coronel do Exército, muito perseguido, corajoso, Goulart nunca escondeu suas posições de esquerda.
Barreto, dando uma aula aqui, outra acolá, não estava satisfeito.
Vontade mesmo tinha era de ser jornalista.
Tanto fez que conseguiu um bilhete de apresentação ao editor-chefe do Jornal da Bahia, João Carlos Teixeira Gomes, Joca, assinado pelo professor Valentim Calderón.
Foi à sede do jornal, na Barroquinha.
Informou tinha bilhete do professor entregou a um dos editores para que fizesse chegar a Joca tomou chá de cadeira de duas horas porra nenhuma ninguém dizia nada fome bateu indignação se arretou foi embora nunca mais voltou.
Uma semana se passou, decepção amainada, resolve bater às portas da “Tribuna da Bahia”, rua Djalma Dutra, perto das Sete Portas.
Jornal novo, inovador, quem sabe?
Chegou assim como quem nada quer, querendo.
Descobre: chefe de reportagem era Sérgio Matos, colega de Seminário na adolescência.
Botou uma camisa mais aprumada e deu as caras.
Sérgio não estava.
Adoecera.
No lugar dele, um jovem gordo sorriso fácil cigarro à mão simpático que só a porra: Césio Oliveira.
(Vou encontrá-lo no Jornal da Bahia e no Estadão, mais tarde.).
Apresentou-se, revelou o desejo, recebeu resposta:
- Venha amanhã, há duas vagas e três candidatos, quatro com você. Topa a disputa?
Dia seguinte,  estava no pé da obra.
Sai para acompanhar uma equipe que cumpriria pauta quente: uma nova invasão estava se instalando nas imediações do Largo do Retiro e como sempre supostos donos queriam derrubar tudo.
 Caneta e papel à mão, Barreto acompanhava com redobrada atenção tudo que a equipe fazia, anotava o que acontecia tim tim por tim tim, ajudava nas entrevistas.
Botou os pés na redação e perguntou a Césio:
-Posso escrever a minha matéria?
 Césio arregalou os olhos, refez-se da surpresa, gostou da ousadia:
-Claro, pegue qualquer máquina livre e escreva.
Sentou, caprichou, acabou o texto antes da repórter que comandava a equipe - ela, o fotógrafo Mário Bonfim, o motorista e Barreto, foca.
Césio recebeu a matéria, duas, três laudas, Barreto prestando atenção, tenso.
Viu-o entrar no aquário, mostrar ao secretário de redação, que ele acredita fosse então Marcos Palácios, atualmente professor da Faculdade de Comunicação da UFBA. 
Viu de longe a matéria passar de mão em mão,  a tensão crescendo...
Na volta, Césio pergunta:
-Você já trabalhou em algum jornal?
-Não, por quê?...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Bom de bola no texto e no campo, com a seleção de jornalistas formada por Antônio Matos, João Meréu, Carlos Eugênio Junqueira Ayres, Roque Mendes, Carlos Santana, Eduardo Escariz...)

Emiliano José
11 de junho 2019
Gooooool!

Césio chamou Barreto, matéria nas mãos, e perguntou:
-Você já trabalhou em algum jornal?
-Não, por quê?
-Porra! Muito bom.
Barreto se conteve para não dar um grito de alegria, igual àqueles dados depois de um de seus gols.
Césio concluiu:
-Volte amanhã.
Dia seguinte, chega à redação e tem uma baita surpresa: texto dele na íntegra publicado.
Outra vez aquela vontade de dar um grito, igual àqueles dados quando seu Bahia fazia um gol.
Feliz... Feliz...
E ressabiado.
O que a chefe da equipe iria achar?
Afinal, por tudo o texto dela tinha primazia.
A preocupação de Barreto justificava-se: ganhou sua primeira inimiga no jornalismo.
Recusa-se a dar o nome dela.
Jogo é jogo, treino é treino, sabia disso.
Entrou confiante em campo.
Foi se firmando.
Três meses depois, carteira assinada.
Colega de Patinhas (João Santana), do "genial e louco" Luís Coelho, de Paulo Roberto Tavares, os três admitidos à mesma época.
Era o segundo semestre de 1971.
Lembra dos primeiros mestres: Césio Oliveira, Pedro Formigli, Marcos Palácios, Chico Ribeiro no copy.
Milton Cayres de Brito, redator-chefe.
Substituíra Quintino de Carvalho.
Milton Cayres tinha longa história, fora deputado do PCB nos anos 40, homem de luta, larga visão.
Assumiu no dia 21 de dezembro de 1971, um dia após a morte de Quintino, que fora o grande pensador e tutor do jornal.
Barreto conviveu com mais três redatores-chefes, depois da saída de Milton Cayres em abril de 1974.
Sérgio Gomes - assumiu em julho de 1974, saiu em dezembro do mesmo ano.
Cid Teixeira - do dia 2 de janeiro de 1975 a 23 de julho do mesmo ano.
João Ubaldo Ribeiro - de 24 de julho de 1975 a maio de 1980.
Para não perder carona, sigamos a cronologia dos redatores-chefes até este ano de 2019.
Paulo Roberto Sampaio - junho de 1980 a maio de 1989.
Benedito Simões - junho de 1989 a 16 de outubro de 1991.
Entre julho de 1992 e março de 1995, a redação foi dirigida por um conselho de jornalistas constituído por Jânio Lopo, Grant Mariano, Roque Mendes e Paulo Amâncio.
Raimundo Lima dirigiu a redação de março de 1995 a janeiro de 2000.
E Paulo Roberto Sampaio voltou a dirigi-la no mês de março de 2000.
E permanece até este junho de 2019.
#MemóriaJornalismoEmiliano
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Emiliano José
12 de junho 2019
Verdade, a utopia do jornalismo

A “Tribuna da Bahia”  foi a grande escola de  Barreto.
Ralar como repórter foi o maior aprendizado.
Como ele, passei por isso.
Aprendi muito.
Ninguém devia seguir adiante na profissão sem passar pelos ásperos caminhos da reportagem, sem pisar o chão atrás da notícia, sem aprender a correr atrás da verdade, espécie de utopia sagrada do jornalismo, tão desprezada nos dias atuais.
Apurar, saber apurar, esquadrinhar os fatos, considerar os diversos lados.
Respeitar as fontes, autoridades ou populares.
Não obstante, desconfiar delas.
As fontes podem manipular o repórter sem que ele sinta.
Compreender o contexto de cada acontecimento.
Não departamentalizar a notícia.
Uma greve é a greve e todo o entorno dela.
Ter sensibilidade diante das dores do nosso povo.
Ser fiel à verdade, sem cair no conto da imparcialidade.
Você não tem direito de contrariar os fatos, mas eles passarão sempre pelo seu olhar, pela sua visão de mundo.
Agora, cuidado.
Entrevistei Antônio Carlos Magalhães, Delfim Neto, Mário Henrique Simonsen, tantos nomes vinculados à ditadura, e aí é que tomava mais cuidado com o que me diziam...
Sabia-me de outra visão de mundo, de outra posição política, e por isso mesmo não tinha o direito de distorcer nada do que me dissessem.
Vida dura, a de repórter.
Muita responsabilidade.
Barreto assimilou tudo isso
Depois, foi ensinar os outros como editor de Cidade ou Chefe de Reportagem...
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIO

Devanier Lopes: Muito bom.
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(Foto: Agliberto Lima - Sucursal do Estadão em 1978)

Emiliano José
13 de junho 2019
Tribuna: sucursal da "Lemos Brito"

Barreto, final da década de 70, integrou equipe da Sucursal do “Estadão”, a convite de Carlos Navarro, Navarrinho.
Trabalhou com Pedro Formigli, Césio Oliveira, Fernando Escariz, José Carlos Teixeira, Gonzalez, Agliberto Lima, este, fotógrafo.
Considera ter sido uma grande escola, ter feito matérias de grande impacto.
Navarrinho montou uma notável equipe.
Falo dela e dele mais tarde.
Foi um dos meus mestres no jornalismo.
Logo depois, Barreto é contratado pela sucursal da revista “Veja”.
Trabalha com Paolo Marconi e Ricardo Noblat.
Capa com Congresso da UNE em Salvador.
Fuga de Theodomiro Romeiro dos Santos .
Duas de suas maiores proezas em “Veja”.
Em agosto de 1979, nasce o segundo filho dele.
Batiza-o Theo - hoje sociólogo, professor-doutor.
Homenagem também prestada por mim: meu filho, nascido em 1975, chama-se Teo. Cartório não permitiu o h.
A lembrar: a fuga de Theo deu-se no dia 17 de agosto de 1979.
Atualmente, Theodomiro Romeiro dos Santos recupera-se de um AVC hemorrágico.
Barreto, paralelamente às atividades estritamente jornalísticas, mergulha noutro território da comunicação: ensino à distância.
Passa em concurso em 1972, e integra o grupo de professores-fundadores do IRDEB - Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia.
Funcionava no subsolo da Biblioteca Central dos Barris.
Uma rica experiência: grava aulas para os telecursos, conhece o mestre-historiador Cid Teixeira, aprende a lidar com estúdios e microfones.
Entrou e saiu do IRDEB várias vezes, sempre por concurso.
Teve concorrido programa de rádio, viu a criação da FM, da TVE, foi assessor da presidência na gestão de Paolo Marconi.
Criou o projeto "Singular e Plural", com Marconi, registro de manifestações culturais de todo o Estado.
Da “Tribuna”, Barreto lembra o fato de que o jornal, ousadamente, abrigou vários ex-presos políticos.
Alguns, além de mim mesmo: José Carlos Prata, Denilson Vasconcelos, José Carlos Zanetti, Dalton Godinho.
A redação mais parecia uma pequena sucursal da Penitenciária "Lemos Brito" - comentário bem humorado de Barreto.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
14 de junho 2019
Quem gaba o toco é a coruja

É sábio o dizer popular.
É preciso temer qualquer referência elogiosa vinda da própria  pessoa a quem ela se dirige, mesmo quando utilizando-se de terceiros.
Desculpem-me, mas vou utilizar texto de Barreto sobre minha chegada à “Tribuna da Bahia”.
O leitor de bom senso há de separar a verdade do exagero, a realidade da benevolência advinda da amizade.
Barreto, a meu pedido, produziu um texto sobre a trajetória dele, de maneira que pudesse sustentar o que dissesse sobre minha chegada ao jornal e pudesse falar do próprio Barreto com propriedade, como estou tentando.
Falei da Tribuna como "sucursal da 'Lemos Brito'", a partir das observações de Barreto.
Ele diz achar tenha sido eu a inaugurar a safra dos egressos da penitenciária.
Deve ter sido.
Certeza, não tenho.
Cito-o agora, literalmente, ao falar de minha chegada:
"Lembro-me que ele chegou recomendado (não me lembro por quem) e eu sabia que era um preso político (não o conhecia mas sabia de seu nome nas lidas das esquerdas estudantis) em liberdade condicional (???).
Precisava de um trabalho/emprego para garantir sua liberdade total.
Os 'superiores' estariam cientes das circunstâncias.
No 'arriar das malas' percebi que era um craque.
Rápido, batendo forte nos teclados, concentrado, com boa bagagem no cérebro e um texto enxuto, correto, preciso, claro, objetivo... e mais o rigor na apuração e, logo se viu, um ser congregador, decente.
Ganhei um grande repórter, à época, e para sempre um irmão de querer bem.
Hoje sei de sua história, compreendo bem seus (des) caminhos.
Não andamos de mãos dadas, mas já nos lambuzamos em babas, ofícios, palavras e perplexidades
Caminhos.
Vamos seguindo."
É interessante a gente se confrontar com o olhar do outro.
Mesmo sendo necessário o esforço para evitar os excessos derivados da amizade, o mais nobre dos sentimentos.
E a gente sabe a quem chama de mestre.
Barreto, no jornalismo, foi o primeiro.
Muito obrigado, meu velho.
E a gente sabe também a quem chama de amigo.
Barreto, sem dúvida, um deles.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Barretinho com representantes da ala feminina que veio depois, Suely Temporal, Rita Tavares, Jaciara Santos, Noemi Flores e Mônica Bichara)

Emiliano José
15 de junho 2019
A presença das mulheres

Barreto recorda-se das repórteres.
Eu me junto a ele.
Não é fácil.
Muitas, não sei onde andam.
Talvez essa série venha provocar uma ou outra a dar sinal de vida.
Eu me recordo de Celinha pelo seu espírito brincalhão e agregador.
Volta e meia nos reuníamos em frente à “Tribuna”, numa espécie de sacada situada em frente às casas que ficavam logo acima da Djalma Dutra, e conversávamos até tarde, Celinha animando.
Eu nem tão animado era.
Nem beber bebia ainda.
Só mais tarde, descubro o vinho.
Ficava no meu canto, divertia-me, sem protagonismo maior.
Rosa, Rosinha, não sei se Rosa Bastos, lembrada por mim e por Barreto, serena presença, texto criativo e firme, creio ter chegado a editora de Cidade quando eu estava no jornal.
Uma pessoa cuja aura contaminava a redação.
Positivamente.
Duas mineiras, ao menos Barreto dá essa informação, a de serem provenientes de Minas, Glória e Raquel.
De Glória, lembro mais.
Chegando, novato, eu a olhava de longe, admirava sua desenvoltura, agitação, jeito afirmativo, de quem não abaixava a cabeça pra ninguém, e pela beleza.
Terrível, dirá Barreto sobre ela, e creio que o adjetivo quer dizer do quanto era forte.
Lena, Leninha, pequena e talentosa.
Lena Coutinho.
Barreto em seu texto a quer frágil e bela.
Frágil, não creio.
Ele a revela como poeta, eu não sabia.
Mergulhava de tal forma no trabalho que não conseguia conhecer direito os que me circundavam.
Será parceira mais tarde de sucessos de Raul Seixas, de quem foi a quinta companheira.
Havia Rosa Mendes, Rosália, que eu já conhecia dos anos passados na "Lemos Brito".
Ela nos visitava, e acabou casada com Milton Mendes Filho, do MR-8, que terminou notável fotógrafo, com quem trabalharei no "Jornal da Bahia".
Era do Arquivo, localizado num compartimento contíguo à redação.
Era a ela a quem recorríamos quando precisávamos de material a sustentar nossas matérias.
Vive na Itália há um bom número de anos.
Estive algumas vezes com ela em Roma, onde mora, ou em Firenze, quando em visita ao padre Renzo Rossi, que ela também conheceu visitando os prisioneiros políticos.
Barreto fala ainda de Letícia Muhana, Celene, Nadja, Grácia, Cely.
Mais tarde, dirá Barreto, virá a geração de Jaciara, Aurora...
Creio que há outras companheiras do período que passei pela Tribuna.
Só uma pesquisa mais cuidadosa irá reavivar a memória, sempre traiçoeira.
Afinal, são passados 45 anos...
#MemóriasJornalismoEmiliano

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Joaquim Lisboa Neto: Conheci uma irmã de Rosa. Lúcia Bastos, atriz amadora do grupo Fundo de Quintal. Morava na Boca do Rio. Li uma reportagem de Rosa no Boca do Inferno.
Emiliano José: Joaquim Lisboa Neto Eita sujeito viajado...
Emiliano José: Livro...
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(Mariluce Moura com Tessa e na outra foto Gildo Lacerda)

Emiliano José
16 de junho 2019
Dias de terror

Ninguém, tivesse alguma sensibilidade, algum espírito progressista, passava ao largo, indiferente, face aos crimes da ditadura.
Barreto de um jeito ou de outro se envolvera com o movimento estudantil, depois abrigara gente clandestina e perseguida, enquanto se afirmava como jornalista.
Em Ciências Sociais, da UFBA, tivera lições nunca esquecidas.
Ouvia, lia, sentia o clima.
Os anos Médici foram os mais terríveis da ditadura.
Mas, o choque brutal, apavorante, doloroso, veio com a prisão da jornalista  Mariluce Moura, à época no "Jornal da Bahia".
Outubro de 1973, ela e Gildo Macedo Lacerda, seu companheiro amado, são presos em Salvador, ela grávida, numa operação nacional visando à aniquilação de Ação Popular, organização revolucionária.
Gildo será levado para Recife, brutalmente torturado, assassinado pelos terroristas da ditadura.
Um dos desaparecidos políticos.
Mariluce sobrevive.
Como uma flor no deserto, Tessa, a filha, também, diz Barreto.
Dias tenebrosos para ele.
Desde criança, conviveu com Mariluce, com a família dela, irmãos, irmãs.
Bola de gude, furapé, futebol.
Vida de periferia.
Foram vizinhos.
Rua Voluntários da Pátria, a metros dos trilhos ferroviários do Subúrbio, perto do Lobato.
Em tempos de clandestinidade, Mariluce, ainda estudante de Jornalismo, chegou a me levar à casa da família, nós dois de Ação Popular, 1970.
Mariluce, Antônio Jorge, Laerte, Vera Lúcia, Suzana, Cláudia, tantas irmãs, não se recorda de todas.
Dias de terror.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Tessa em homenagem a Gildo, com Emiliano, pela Comissão da Verdade de São Paulo em 2013)

Emiliano José
17 de junho 2019
Grito no deserto

Tessa.
A flor que irrompe na areia do deserto, no belo e próprio dizer de Barreto.
Eu a conheci numa noite, criança criança, correndo pra lá e pra cá, num apartamento no alto do Rio Vermelho, sob os olhares atentos de Mariluce,  casada então com o notável fotógrafo Rino Marconi, que também não tirava os olhos da menina.
Tessa viveu, vive indecifráveis dores.
A de não ter tido a chance de conhecer o pai.
A ditadura, ao matá-lo, lhe subtraiu essa possibilidade.
Só que os terroristas foram ainda mais longe: nunca foi possível resgatar o corpo do pai.
Ditadura tem disso.
Tessa não tem um lugar onde ajoelhar, rezar se souber rezar, levar flores, chorar.
Não pode olhar para o túmulo do pai.
Não pode realizar o luto.
Eu a reencontrei uma linda mulher, quase chegando aos 40, dia 25 de outubro de 2013, em audiência da Comissão da Verdade Rubens Paiva, da Assembléia Legislativa de São Paulo, presidida pelo deputado Adriano Diogo.
Mariluce estava lá.
Eu vi e ouvi Tessa falar, fala entrecortada por soluços, lágrimas o tempo todo, eu não sei como meu pai era não sei as coisas mais banais é difícil você aceitar uma morte que não é material é pirante você tentar por um lado imaginar como seu pai era e por outro aceitar que isso que você imaginou morreu...
Gildo Macedo Lacerda.
Seus restos mortais terminaram numa vala a céu aberto.
Mariluce nunca pôde enterrá-lo.
Dar-lhe um túmulo onde ela e a filha pudessem chorar, isso, apenas isso fosse, esse direito ancestral do ser humano de sepultar a quem ama e respeita.
Tessa terminou sua fala numa espécie de apelo grito quase sufocado na garganta mergulhado em lágrimas em dor pedindo deixem-nos enterrar nossos mortos e realizar o luto necessário e esclarecer para toda a sociedade esse ponto obscuro de nossa história.
Um grito até hoje ignorado.
Como se ecoasse apenas pelas areias do deserto onde ela floresceu.
Do deserto, das lonjuras do deserto, ainda podemos ouvir o seu grito de dor...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
18 de junho 2019
Revolta das vísceras

Mariluce.
Nossas conversas se davam, as primeiras, sob as árvores, nas amuradas, escadas, sei lá, tanto tempo se foi, na Facom.
Não, nada de Facom.
Era então EBC - Escola de Biblioteconomia e Comunicação, onde mais tarde serei aluno, depois professor.
Para ela, eu era um capa-preta, dirigente de AP.
Era 1970.
Ia à EBC apenas para conversar com ela.
Em mim, certamente via um amparo, uma acolhida para suas dúvidas, inquietações em torno da militância.
Eu já era um veterano.
Ao menos era enxergado assim, por ela e por tantos outros.
Afinal, já chegara aos 24 anos.
E dirigente clandestino, o que devia me tornar mais velho ainda aos olhos dos jovens militantes do movimento estudantil.
É provável, bem provável, que eu próprio me sentisse com bem mais idade do que verdadeiramente tinha.
Mariluce se abria comigo.
Havia ternura entre nós, além do companheirismo partidário.
Mais tarde, no desenvolvimento de sua militância, os caminhos dela se cruzarão com os de Gildo Macedo Lacerda, dirigente de Ação Popular.
Ela o amou profundamente.
Era jornalista consagrada quando o encontrou.
Já escrevi muito sobre a morte e desaparecimento de Gildo, as dores dela, de Tessa.
Fiz a orelha do pungente livro dela - "Revolta das Visceras", ficção e verdade em torno da tragédia, cuja primeira edição deve ser do final dos anos 70, iniciozinho dos 80 do século passado.
O livro "Lamarca, o Capitão da Guerrilha", devo a ela.
Havia feito longa entrevista com Olderico Campos Barreto, irmão de Zequinha e Otoniel, ferido na cara e na mão por balas de Fleury, companheiro de prisão, e fui consultá-la em como publicar.
-Nada de publicar entrevista. Siga adiante e faça um livro.
Perto ou longe, sempre foi referência essencial em minha trajetória jornalística.
Sempre me sensibilizou muito nunca ter deixado de honrar a memória de Gildo.
Honrando pela atitude política serena e desassombrada.
Honrando pelo amor.
Longe ou perto, querida amiga!
#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Devanier Lopes: Otoniel ficou preso na Vila Militar do Bonfim?
Emiliano José:  Devanier Lopes Otoniel foi assassinado pela primeira equipe que chegou ao Buriti Cristalino em agosto de 1971.
Devanier Lopes: Emiliano José quem foi preso na Vila Militar do Bonfim? Do grupo?
Emiliano José: Devanier Lopes É provável, mas não tenho informação precisa, que Olderico. Há vários outros, como Renato Afonso de Carvalho,.do PCBR . Só pesquisando melhor pra saber quem passou por lá do MR-8.
Devanier Lopes: Eu acho que Olderico foi preso na Vila Militar do Bonfim.
Emiliano José: Devanier Lopes Ter ficado preso um período, é possível. Cumpriu pena na "Lemos Brito". Meu companheiro de prisão.
Devanier Lopes: Emiliano José eu acho que foi logo na prisão dele
Devanier Lopes: Ele teve arranhões no rosto? Cheio de esparadrapo?
Devanier Lopes: Emiliano José deve ter ficado cicatrizes
Emiliano José: Devanier Lopes Levou um tiro no rosto no dia do cerco no Buriti Cristalino. Outro na mão direita. No mesmo cerco, mataram Otoniel, irmão.
Emiliano José: Está tudo no meu livro.
Emiliano José: Quiser, mando o livro.
Devanier Lopes: Emiliano José foi ele sim
Devanier Lopes: Emiliano José tenho
Emiliano José: Devanier Lopes 17a. Edição?
Emiliano José: A mais completa. Outro livro.
Emiliano José: Devanier Lopes Você esteve na Vila Militar?
Devanier Lopes: Emiliano José sim não preso tinha gente minha lá
Devanier Lopes: Emiliano José nessa época houve uma reforma na Pedra Preta e muitos presos foram pra Vila Militar do Bonfim e houve uma grande mistura de presos políticos com marginais assaltantes. Lembro de um filho DE MOLA que fugiu vestindo uma farda da pm. Foi uma confusão geral
Antonio Silvany: Foi Olderico, Devanier.
Devanier Lopes: Antonio Silvany  Joia
Nane Albuquerque: Texto muito emocionante, delicado, sensível e, por isso, tocante, Emiliano José. Agradeço pela postagem. Se cada um não compartilhar suas histórias e as de quem sabemos, quem irá?
Emiliano José: Nane Albuquerque Estimulo sempre a que as pessoas contem as histórias que viveram. É a memória sendo preservada. Obrigado
Zeca Peixoto: Acompanhando sempre. E me informando dos pormenores de um período - em 70 tinha seis anos - que apenas ouvia os zumbidos em casa por intermédio do meu pai, militante do então "Partidão", tido à época como reformista, e do tio Paulo Cunha, militante do PCdoB que chegou preso aqui em Salvador em 1971.
Emiliano José: Zeca Peixoto Quem sai aos seus não degenera...
Zeca Peixoto: Emiliano José kkk Vero!
Graça Azevedo: Zeca Peixoto Paulo Cunha que foi da Ceplac?
Celia Ramos: Mariluce Moura e descubro que eram todos juntos na militância

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(Oldack Miranda, Mariluce Moura, Nara Lacerda, Tessa lacerda, Adriano Diogo, Amália Teles e Emiliano José em homengem a Gildo Lacerda - 2013)

Emiliano José
19 de junho 2019
Mordida do cão

Barreto sentiu a barra pesar.
Caíram várias pessoas quando da prisão de Mariluce Moura e Gildo Macedo Lacerda.
Entre as quais, Oldack Miranda, jornalista também, e de AP.
Miranda já havia cumprido pena em Minas Gerais.
Estava na Bahia sossegado, militância discreta, quando num arrastão, decorrente da ação de um cachorro, o pegaram.
Cachorro era uma espécie muito querida da repressão.
A pessoa militava em alguma organização revolucionária, era presa, saía, depois era procurada por agentes da ditadura, convencida sob pressão a simular uma volta à militância, e voltando, ia entregando todo mundo.
A queda de outubro de 1973 de quase toda a AP no Brasil teve a ver com esse cachorro, Gilberto Prata Soares.
Inclusive a queda da Bahia.
Oldack, jornalista até hoje, também foi levado pro Recife, como Gildo, que foi morto e teve o corpo desaparecido.
Levaram-no pra lá e o torturaram barbaramente.
Sabiam de sua escassa possibilidade de fornecer novas informações.
Saíra da prisão havia pouco tempo, não tivera chance de acumular novos conhecimentos sobre AP.
Tinham noção agora de que ele não lhes dissera o que sabia na prisão anterior.
Então, foi torturado por sadismo, vingança.
Ditadura era isso.
Barreto tornou-se um coiteiro.
Recém-casado, morando num apartamento do BNH, no Stiep, guarda na memória um pedido de abrigo para uma jovem militante de AP, cuja missão, nome nunca soube.
Negra, mineira, roupas surradas, uns 23 anos.
Como éramos jovens nós os que amávamos a Revolução...
Bonita - não se esqueceu da beleza dela.
Enfezada, tensa, de poucas palavras, vivia entocada.
Comer, muito pouco, raramente.
A mulher de Barreto, Lícia, estranhando.
Mas, segurando a barra.
Decorridas poucas semanas, poeira baixando, foi deixada na Rodoviária, nas proximidades das Sete Portas.
Ia para Belo Horizonte - foi o que disse.
Medo, quem não tinha naquela época?
Barreto tinha.
Mas, não pânico.
A seu modo, ia ajudando perseguidos.
Assim, com Walmir e Silvia, casal chegado do Rio de Janeiro... #MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Devanier Lopes: Muito bom
Devanier Lopes: Jose Jesus Barreto Tocando em frente. Bj
Emiliano José: Jose Jesus Barreto Tocando.
Zeca Peixoto: Aprendendo...
Carlos Alberto Loureiro da Costa: Emiliano, vc é um patrimônio da luta por um Brasil sem opressor e sem oprimido!
Emiliano José: Carlos Alberto Loureiro da Costa Um homem comum, com convicções profundas. Ao lado de milhões assim. De qualquer modo, obrigado.
Celia Ramos: O Mérito e ser o que ele é hoje, Cidadão de esquerda, militante orgânico.
Emiliano José: Celia Ramos Você não tem jeito: amiga incondicional

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Emiliano José
20 de junho 2019
Generoso coiteiro

Quando disse coiteiro sobre Barreto, valia-me de expressão dele próprio.
Sentia-se assim durante aquele período sombrio.
AP estava sob um cerco implacável. Vários de seus dirigentes foram mortos em todo o País.
Militantes caíam aos magotes.
Já se disse que um cachorro possibilitou isso.
Barreto não diz como, que contatos foram feitos, que articulações.
Só que nesse período sombrio, final de 1973 e durante o ano de 1974, um casal apareceu à sua frente, sem eira nem beira, à procura de abrigo, fugindo da polícia da ditadura.
Vinham do Rio de Janeiro.
Walmir Andrade.
Trompetista, professor de Matemática.
Ria à toa, vá se saber como conseguia num quadro daquele.
Bem humorado que só a porra, difícil de entender.
Ainda bem que há gente assim no meio dos vendavais.
Criativo e sedutor - assim Barreto o define.
Baiano, juventude no bairro da Saúde, Salvador.
Sílvia.
Loura bonita, simpática mas desconfiada, nada de alegria alegria como seu companheiro, pouco riso.
Grávida de sete meses.
Eram de AP.
Próximos de Jean Marc, ex-presidente da UNE, também de AP.
Encontraram guarida no apartamento de Barreto enquanto se aprumavam.
Sílvia passou a ganhar uns trocados na “Tribuna da Bahia”  como estagiária, graças aos esforços de Barreto.
Walmir dava aulas de Matemática em cursinhos, inclusive na equipe de produtores do Irdeb, tudo graças a Barreto, o bom coiteiro.
Em 1979, seguindo viagem para o México e Europa, Barreto foi abrigado pelo casal, na casa deles em Santa Teresa, Rio de Janeiro.
Ah, quando o filho nasceu em Salvador batizaram-no João Marcos, homenagem ao amigo Jean Marc.
#MemóriasJornalismoEmiliano 

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(Com as netas Ananda e Clarinha (filhas de Marco Antonio, filho que já se foi) e Luana (filha de Bethânia)



(Com Cau Gomez, Márcia Moreira e Hilcélia Falcão)




 (Com Osvaldo Lyra, Liana Cardoso e o dono da cachaceria no Terreiro de Jesus)

(Com a escritora Carolina Bacelar)

 (Com Enéas Guerra, designer da editora SOlisluna, autor da capa e ilustrações do livro.)



(Foto: Lucia Correia Lima - com Luiz Guilherme, Valéria Pergentino e Enéas Guerra na Flica, em Cachoeira)

(Com Suely Temporal e Rita Tavares)

 (Com o querido Rogério Menezes no lançamento do livro 2 + 1)

(Com Nuno Penna)

(O tricolor com a família da amada, em Cruz das Almas: Binho, Dudu, Tânia , Davi Nascimento, Taninha amada e Sayonara, a doutora.)

(Com David Nascimento, o Situ, irmão da amada Taninha. Em Cruz das Almas.)

Comentários

  1. Repetindo o comentário que postei no face.

    Que linda trajetória. Linda como ele (Jose Jesus Barreto) só. Maravilha, Barretinho, Li como se estivesse lendo uma das suas poesias. Como disse Mônica Bichara (amei a abertura da edição, viu amiga?), você é uma unanimidade por tudo o que representa como um ser humano, um profissional, um colega, um amigo, um torcedor, um amante da cultura, um cidadão... Adoro quando lhe vejo. Agora, vez quando. Mas é sempre uma alegria batermos um papinho. Acho que a última vez foi num 2 de Julho, onde ficamos nos degraus da Casa de Jorge Amado, esperando o cortejo. Eu tinha vindo da Lapinha, e ali fiquei. Você de máquina em punhos. Curtir mutuamente as mensagens no face também é bem gostoso, e agora, sempre nas postagens do querido Emiliano José, que, com sua série em homenagem aos colegas, nos permite viver e reviver emoções, lembranças que estavam escondidinhas no nosso coração. Parabéns por ser também uma referência do nosso Jornalismo. Que a turma jovem possa ler suas memórias e se enriquecer. Beijão, senhor serenidade.

    O Pilha vem fazendo história ao publicar essa linda e histórica série #MemóriasEmilianoJornalismo do querido amigo, colega, professor e escritor Emiliano José, que homenageia vários profissionais que marcaram sua passagem no Jornalismo baiano, com muita garra, ética, responsabilidade..., realizando a tarefa de bem informar ao cidadão, sem fakes.

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    1. Valeu, Bebel. Acho mesmo Barretinho uma unanimidade, a gente só consegue pensar nele com carinho, encontrar é sempre uma festa, uma alegria. Paz, Axé.....a cara dele, não dá pra imaginar exaltado, brigando, falando alto, respondendo...mas ao mesmo tempo sempre firme, nunca vacilante

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  2. Como não amar esse Barretinho? Que passagem linda pelo jornalismo da Bahia, quantas histórias vividas e quantas ainda por contar. Essa série de Emiliano José leva a gente a um mergulho no passado que muitos de nós sequer conhecíamos. Só agradeço!

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    1. Né, Carmelinha? Aliás, vc é outra unanimidade, dois queridos. E que bom que essa série de Emiliano está fazendo a gente se reencontrar com colegas tão queridos e tão importantes para a nossa carreira e nossas vidas. Barretinho e vc dois deles, sem dúvida

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