#MemóriasJornalismoEmiliano - Barretinho: Um generoso coiteiro entre comunistas
Essa doçura de
pessoa, Zé de Jesus Barreto, nosso querido Barretinho, é quase uma unanimidade
no jornalismo baiano. Pelo menos eu não conheço ninguém que torça o nariz pra
ele e acho difícil que exista. E ele está entre as minhas sortes do início da
carreira, foi um dos primeiros chefes de reportagem que encontrei no jornal da
Bahia.
Ao longo de toda
essa série de memórias do jornalismo, o autor Emiliano José cita vários
episódios tendo Barretinho como personagem. Mas nesses capítulos transcritos
aqui com fotos e comentários dos amigos, feitos na postagem original do face de
Emiliano, Zé de Jesus é o protagonista. São histórias que dariam um livro. Ou
darão. Quem sabe?
O jornalismo
parece ter escolhido Barreto e não o contrário. Ainda adolescente, em 1964, diante
do fogaréu que consumia a feira de Água de Meninos, onde seu Zé, o pai, tinha
barraca, Barretinho tremia de medo e de raiva e já presumia que o incêndio era
criminoso. Segundo Emiliano, “a argúcia do repórter já se insinuava”. A
tragédia foi tamanha que até hoje ele não consegue aprofundar o assunto.
Afinal, além da barraca, do estoque e de quase todo o dinheiro arrecadado no
dia, o fogo minou a disposição para recomeçar no coração do sertanejo
sergipano. Um trauma ainda difícil de ser digerido.
A carreira de
jornalista começou mesmo em 1971, na Tribuna da Bahia, tendo outro querido,
Césio Oliveira, como chefe de reportagem. E de cara Barretinho, ex-jogador do
Bahia, se saiu tão bem que o teste do foca foi para a primeira página em lugar
do texto do repórter escalado para a pauta. O sabor, como traduziu o mestre Emiliano,
foi de Goooooooool do Bahêa
Em meio a tantos
comunistas que lotavam as redações da Tribuna da Bahia e do Jornal da Bahia,
durante a Ditadura Militar, inclusive vários ex-presos políticos como Emiliano,
José Carlos Prata (Pratinha), Denilson Vasconcelos, José Carlos Zanetti, Dalton
Godinho.... nosso protagonista barbudo era constantemente confundido com um.
“A redação mais
parecia uma pequena sucursal da Penitenciária Lemos Brito", brincou. Mas,
como se definia, não passava de “um bom coiteiro”, que por algumas vezes ajudou
a abrigar procurados do regime. Um “generoso coiteiro”, completa o autor.
Esta sequência das memórias de Emiliano José tem ainda a emoção da convivência com a jornalista Mariluce Moura, amiga de infância de Barretinho no Subúrbio Ferroviário. Ela e Tessa, filha que nunca conheceu o pai, o desaparecido político Gildo Lacerda, eram como "flores no deserto".
Além da Tribuna e
Jornal da Bahia, trabalhou também na sucursal de O Globo, Estadão, Jornal do
Brasil e Veja. Tem também vários livros publicados. Agora é com Emiliano José
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(Foto: Agliberto Lima - Na sucursal do Estadão na Rua Chile em 1978)
Emiliano José
6 de
junho 2019
Memória em chamas
Era
o lusco-fusco, quase noite, quando Barreto, do alto da Ladeira do Canto da
Cruz, viu as labaredas imensas lá embaixo querendo tomar conta do mundo,
parecença de um monstro a querer tudo devorar, e devorando.
Era
o fogo.
Fim
de mundo.
Pela
cabeça dele, num átimo, vieram as terríveis lembranças do inferno tão repisadas
pelos padres no seminário.
Duro,
duro de saber: o inferno fogo vermelho devastador era ali, logo ali.
O
mundo em chamas.
Raiva,
sentia raiva.
E
impotência nos seus verdes 16 anos.
No
começo da tarde, 4 de setembro de 1964, no Seminário Católico onde estudava,
recebe dos padres a notícia: a Grande Feira está em chamas.
Línguas
de fogo consumiam Água de Meninos.
Foi
pra casa, encontrou a mãe atordoada, desolada.
Sabia
do incêndio, mas não atinava com a dimensão.
Barreto
cobriu quase correndo o percurso que o levou ao alto da Ladeira do Canto da
Cruz: da Cidade Nova desceu a Ladeira do Ipiranga, passou por Quintas, pela
Estrada da Rainha e ofegante deparou com o mundo pegando fogo.
Desceu,
tentou encontrar o pai, mas não o deixaram passar - área isolada.
O
pai tinha barraca na feira, próxima do serviço de alto-falantes e do posto
policial.
Seu
Zé, sergipano arribado de Simão Dias, foi feirante desde chegado a Salvador
logo depois do fim da Segunda Guerra.
Tinha
orgulho do pai.
Quando
alcançou tenência de si, olhava-o admirado cuidando da horta no bairro do Uruguai.
Plantava
legumes, verduras, flores, frutas, tomava do tabuleiro, e saía com a variedade
ali pela Feira do Curtume, Baixa do Fiscal, lama, fedor, rua, casa em casa,
conseguia os trocados e assim dava de comer à filharada que a vida é dura e o sertanejo
é antes de tudo um forte.
O
trabalho era de domingo a domingo, que freguês você encontra todo dia e a vida
não para.
Anos
50, seu Zé aluga a barraca na Feira de Água de Meninos, sabe-se lá à custa de
quantos sacrifícios.
E
agora, o fogo.
Serão
muitas as vezes em que Barreto, nas redações pelas quais passou, pegava-se
absorto rememorando a tragédia.
Nunca
saiu de sua memória.
O
pai ainda tentou salvar alguma coisa, e conseguiu.
De
nada adiantou.
Três
dias passados, e um outro incêndio reduziu tudo a cinzas.
Parecia
o mesmo destino de Canudos - não devia sobrar nada.
E
Barreto, quando a lembrança quase pesadelo o assaltava, recorda ter dito ao pai
ao vê-lo chegar do primeiro incêndio madrugada tomado pela fuligem sem sapatos
imundos os farrapos de roupa no corpo estropiado:
-Meu
pai, o incêndio foi criminoso! Eles vão querer tocar fogo no que restou.
Nem
se desconfiava jornalista, mas a argúcia do repórter já se insinuava.
O
pai não levou em conta, sertanejo despido de malícia, incapaz de pensar nas maldades
humanas:
-Quem
faria isso, meu filho?
Salvara
muita coisa da barraca, e saiu dia seguinte a fazer compras, retomar a vida,
que esperança é a última que morre...
#MemóriaJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Jose Jesus Barreto: rrrupiei !!!
sigamos.
Emiliano José: Jose Jesus Barreto
Abraço, mestre e amigo !
Zeca Peixoto: Lindo demais!
Lindo! Marejei aqui, professor.
Emiliano José: Zeca Peixoto A
vida mareja... Honrado pela leitura. A força é da vida de Barretinho
Zeca Peixoto: Emiliano José a
semana afunilou e não deu para marcarmos aquele café, professor. Semana que
vem, pode ser?
Emiliano José: Zeca Peixoto Vamos
dar um jeito!
Emiliano José: Falamos logo na
segunda, e combinamos
Devanier Lopes: Morava em frente à
feira de água de menino. Lembro
Eli Eliete: O capitalismo não
perdoa...
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(Barretinho de branco na homenagem ao fotógrafo Anízio Carvalho, ao lado de colegas dos tempos de Jornal da Bahia, na Câmara Municipal)
Emiliano José
7 de
junho 2019
Alma devorada pelo
fogo...
Barreto
recostou na cadeira início de tarde depois de distribuir pautas para o
reportariado.
A
memória capturava a imagem do pai madrugando no dia 5 de setembro de 1964
juntando os trocados restantes.
A
caatinga o ensinara: desde que mundo é mundo não há nada fácil para quem nasceu
pobre.
Desde
sempre tivera noção disso.
Com
os trocados, ia atrás de mercadorias, fazer estoque, retomar a vida, que não há
mal que sempre dure.
Ah,
meu pai...
Quanta
ilusão e doçura em sua alma...
Barreto
tenta mergulhar na alma do velho quando o segundo inferno desabou sobre a
barraca sobre ele sobre tudo sobre as mercadorias esperanças sonhos família
mulher tudo que lhe era caro.
Soube:
o pai quase perdeu a vida ao tentar salvar algum dinheiro da velha máquina
registradora.
O
incêndio de Água de Meninos queimou o velho por dentro: perdeu aquele ar de
firmeza e dignidade com que encarava o mundo, perdeu a aura de sertanejo que
verga mas não quebra.
Quebrou.
Quebraram-no.
Lucidez,
saúde, visão iam sucumbindo pelo fogo que dilacerava sua alma.
Você
me quer forte, não sou forte mais - não falava mas dizia o corpo gritava...
Barreto
pensa: como pai iria compreender o movimento voraz feroz do capital a
modernização que não suporta pobres nas redondezas?
Não,
nunca entenderia.
A
família teve ajuda do padre Gaspar Sadock, vigário da paróquia de São Judas
Tadeu.
Não
passou fome graças a ele.
A
cesta básica semanal chegava sempre pelas mãos do próprio Sadock.
O
incêndio também levou Barreto a sair do seminário, obrigado a ajudar no
sustento da família.
Sadock
consegue emprego pra ele no Banco Nacional do Norte.
Enterra
o sonho de ser jogador de futebol.
Sabia-se
bom de bola, mas como se precisava segurar a onda da família?
Passa
no vestibular de Ciências Sociais, UFBA, dezembro de 1966.
Escola
de Filosofia e Ciências Humanas funcionava em Nazaré, casarão onde está
instalado atualmente parte do Ministério Público Estadual.
1967
e 1968 foram anos de muita balbúrdia.
Dava
conta de estudos, banco, namoros, movimento estudantil.
E do
futebol, que ninguém é de ferro.
Vota
em Aécio Pamponet para presidente do Diretório de Ciências Sociais.
Era nosso
Che, costuma dizer.
Pela
aura de revolucionário romântico.
A
fala clara, firme, sem pretensão de tocar fogo no mundo.
E
torcedor do Bahia, condição essencial para Barreto.
Ele,
Barreto, não mergulhou na "loucura de confrontos disparatados", como
define os que se envolveram de peito aberto na luta contra a ditadura.
Eu,
por exemplo.
Considerava
a existência de uma insuperável disparidade de forças e armamentos.
"Domingo
no Parque", "Alegria, Alegria", "Disparada", "É
Proibido Proibir", "Caminhando e Cantando" foram mais decisivos
para sua participação do que o "Manifesto Comunista" ou "O Livro
Vermelho do Pensamento de Mao Tse Tung"...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Antonio Silvany: Aécio Pamponet, a
maior referência hoje da família Sampaio.
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Com Franciel Cruz e Jadson Oliveira no Porto Moreira. Disgraceira pouca é bobagem)
Emiliano José
8 de
junho 2019
Disgraceira no
caminho da feira
Que
ano, aquele!
Que
ano da disgraça!
Tudo
parecia ruir.
Ô
mundo virado...
1964
devia de desaparecer não ser lembrado.
Parece
que o diabo nunca vem só.
Está
sempre acompanhado.
Numa
dessas noites, redação já silenciosa, ou menos barulhenta, Barreto pensou
nisso, xingou baixinho, disgraça, que fizemos pra merecer tudo isso?
Antes
do incêndio, o primeiro de abril, e não era de mentirinha.
Eram
seis horas da manhã de primeiro de abril de 1964 e o padre-reitor Carlos
Geschelin entrou no dormitório batendo palmas falando alto circulando entre as
camas do dormitório onde seminaristas faziam uma semana de retiro espiritual no
convento da praia de Mar Grande do outro lado da Baía de Todos os Santos
defronte a Salvador:
-Jango
caiu!
-Acordem!
-Jango
caiu!
Os
jovens riam.
Acordando,
ainda esfregando os olhos, tirando a remela, começaram a reagir:
-Primeiro
de abril, primeiro de abril!!!
Padre
Carlos aumentou o volume do radiozinho que nunca abandonava de modo a não
perder os jogos na narração de Waldir Amaral, e fez prova do que dizia:
-Ouçam,
derrubaram o presidente!
Silêncio.
Dúvidas.
Medo.
Que
será que será?
Padre
Carlos tirou todo mundo daquele estado letárgico mandou arrumar as sacolas
tomar café rápido programação estava suspensa na primeira lancha vamos embora.
Eram
uns quarenta meninos do chamado Seminário Menor.
Lotaram
a lancha.
Barreto
recorda a pequena embarcação entrando no cais do porto, ladeando o Forte do
Mar, escoltada por duas corvetas da Marinha.
Subiram
o Elevador Lacerda.
Dificuldades
para atravessar a Praça Municipal estudantes nas ruas Jango!Jango! avançavam
querendo invadir o Palácio Rio Branco e os seminaristas olhando urubuzando batinas
pretas querendo entrar na dança sem poder...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Foto de Olívia Soares na Flipelô, em 2018)
Emiliano José
9 de
junho 2019
Amada amante
Padre
Carlos percebeu os meninos alvoroçados, doidinhos doidinhos para se desgraçar
no meio da estudantada a favor de Jango e gritou arrebanhando-os:
-Vamos!
Vamos!
Rumou
pra Sé, puxando a tropa.
Pegar
o ônibus, e seguir para o Internato da Federação.
Barreto
soube mais tarde das vacilações do governador Lomanto Júnior.
De
manhã, declara fidelidade a Jango.
À
tarde, ao golpe.
Não
queria ter o destino de Arraes e Seixas Dória, governadores de Pernambuco e
Sergipe, presos.
Não
era esse homem todo, não tinha a têmpera dos dois.
Na
boca da noite, lê manifesto a favor dos golpistas.
Barreto,
não obstante a batina, restrições à leitura de jornais e revistas, de ouvir
rádio, vida cheia de proibições, contornava tudo isso.
Esperteza
pra dar e vender: lia Sartre, Kafka, que sabia distinguir de Kafta, Thiago de Mello, Josué de Castro, Alceu de Amoroso Lima, Celso Furtado, Machado
de Assis, José de Alencar, Exupéry.
Comprava
jornais e revistas quando saía uma vez por mês pra visitar a família e os
trazia debaixo da batina quando voltava ao Seminário.
Ia
firmando consciência progressista.
Lia
"Brasil Urgente", semanário de esquerda.
Sabia
de Brizola, de dom Hélder, das Ligas Camponesas de Julião.
Ia
driblando, se insurgindo contra aquela pesada atmosfera de pecado, consciência
culpada, medo que envolvia toda a moçada no Seminário.
Mas,
não joga a água do banho com a criança dentro.
Não
guarda mágoas
Não
acumulou ressentimentos
Reconhece:
ali aprendeu muito.
Cresceu
como pessoa decente, digna, aprendeu a respeitar o próximo.
Mas,
confessa a existência de uma amante sem a qual não atravessaria o deserto: a
bola.
...Não
sei o que seria de mim naquele ambiente não fosse ela deusa amante amada divino
brinquedo a me arrepiar de alegria a me imaginar em estádios cheios explodindo em delírio com aquele gol
inesquecível é sonhava que sonhava com o dia que jogasse tudo pelos ares batina
e as porra e fosse gozar e ganhar a vida acariciando-a que a bola era o centro
do meu prazer...
Teve
que deixar o Seminário quando tocaram fogo na feira.
A
Barreto, nunca restaram dúvidas de que o incêndio de Água de Meninos foi
criminoso, ocasionado pelas necessidades do capital, dos poderosos, que não
recuam diante de nada quando se trata do dinheiro, do apetite insaciável por
lucros.
Esta
consciência cresce mais e mais quando faz Ciências Sociais e quando mergulha na
atividade jornalística.
#MemóriaJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Joaquim Lisboa Neto: Num dos volumes de
"O caso eu conto como o caso" foi Paulo Cavalcanti escreve sobre a
visita de "cortesia" dos milicos a Lomanto. Um deles perguntou
"o senhor fuma?", o governador respondeu "não, mas se o senhor
quiser eu passo a fumar agora mesmo!" Essa você certamente conhece.
Abração!
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(Foto de Lúcia Correia Lima - Cau, Márcia, Barreto, Luis Guilherme, Renato Pinheiro, Lucy Bruni e Jorge Ramos)
Emiliano José
10 de
junho 2019
De mão em mão
Curioso:
Barreto e eu guardamos parentesco em nossas trajetórias: trabalhamos em banco,
demos aulas de história em cursinhos e depois chegamos ao jornalismo.
Guarda
com muito carinho lembranças do professor Alberto Goulart Paes Filho.
Deu
aulas no cursinho chamado "Colégio Universitário", de que Goulart era
dono, onde me preparei para o vestibular de Jornalismo, em 1975.
Raro
professor de história, coronel do Exército, muito perseguido, corajoso, Goulart
nunca escondeu suas posições de esquerda.
Barreto,
dando uma aula aqui, outra acolá, não estava satisfeito.
Vontade
mesmo tinha era de ser jornalista.
Tanto
fez que conseguiu um bilhete de apresentação ao editor-chefe do Jornal da
Bahia, João Carlos Teixeira Gomes, Joca, assinado pelo professor Valentim
Calderón.
Foi
à sede do jornal, na Barroquinha.
Informou
tinha bilhete do professor entregou a um dos editores para que fizesse chegar a
Joca tomou chá de cadeira de duas horas porra nenhuma ninguém dizia nada fome
bateu indignação se arretou foi embora nunca mais voltou.
Uma
semana se passou, decepção amainada, resolve bater às portas da “Tribuna da
Bahia”, rua Djalma Dutra, perto das Sete Portas.
Jornal
novo, inovador, quem sabe?
Chegou
assim como quem nada quer, querendo.
Descobre:
chefe de reportagem era Sérgio Matos, colega de Seminário na adolescência.
Botou
uma camisa mais aprumada e deu as caras.
Sérgio
não estava.
Adoecera.
No
lugar dele, um jovem gordo sorriso fácil cigarro à mão simpático que só a
porra: Césio Oliveira.
(Vou
encontrá-lo no Jornal da Bahia e no Estadão, mais tarde.).
Apresentou-se,
revelou o desejo, recebeu resposta:
-
Venha amanhã, há duas vagas e três candidatos, quatro com você. Topa a disputa?
Dia
seguinte, estava no pé da obra.
Sai
para acompanhar uma equipe que cumpriria pauta quente: uma nova invasão estava
se instalando nas imediações do Largo do Retiro e como sempre supostos donos
queriam derrubar tudo.
Caneta e papel à mão, Barreto acompanhava com
redobrada atenção tudo que a equipe fazia, anotava o que acontecia tim tim por
tim tim, ajudava nas entrevistas.
Botou
os pés na redação e perguntou a Césio:
-Posso
escrever a minha matéria?
Césio arregalou os olhos, refez-se da
surpresa, gostou da ousadia:
-Claro,
pegue qualquer máquina livre e escreva.
Sentou,
caprichou, acabou o texto antes da repórter que comandava a equipe - ela, o
fotógrafo Mário Bonfim, o motorista e Barreto, foca.
Césio
recebeu a matéria, duas, três laudas, Barreto prestando atenção, tenso.
Viu-o
entrar no aquário, mostrar ao secretário de redação, que ele acredita fosse
então Marcos Palácios, atualmente professor da Faculdade de Comunicação da
UFBA.
Viu
de longe a matéria passar de mão em mão,
a tensão crescendo...
Na
volta, Césio pergunta:
-Você
já trabalhou em algum jornal?
-Não,
por quê?...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Bom de bola no texto e no campo, com a seleção de jornalistas formada por Antônio Matos, João Meréu, Carlos Eugênio Junqueira Ayres, Roque Mendes, Carlos Santana, Eduardo Escariz...)
Emiliano
José
11
de junho 2019
Gooooool!
Césio
chamou Barreto, matéria nas mãos, e perguntou:
-Você
já trabalhou em algum jornal?
-Não,
por quê?
-Porra!
Muito bom.
Barreto
se conteve para não dar um grito de alegria, igual àqueles dados depois de um
de seus gols.
Césio
concluiu:
-Volte
amanhã.
Dia
seguinte, chega à redação e tem uma baita surpresa: texto dele na íntegra
publicado.
Outra
vez aquela vontade de dar um grito, igual àqueles dados quando seu Bahia fazia
um gol.
Feliz...
Feliz...
E
ressabiado.
O
que a chefe da equipe iria achar?
Afinal,
por tudo o texto dela tinha primazia.
A
preocupação de Barreto justificava-se: ganhou sua primeira inimiga no
jornalismo.
Recusa-se
a dar o nome dela.
Jogo
é jogo, treino é treino, sabia disso.
Entrou
confiante em campo.
Foi
se firmando.
Três
meses depois, carteira assinada.
Colega
de Patinhas (João Santana), do "genial e louco" Luís Coelho, de Paulo
Roberto Tavares, os três admitidos à mesma época.
Era
o segundo semestre de 1971.
Lembra
dos primeiros mestres: Césio Oliveira, Pedro Formigli, Marcos Palácios, Chico
Ribeiro no copy.
Milton
Cayres de Brito, redator-chefe.
Substituíra
Quintino de Carvalho.
Milton
Cayres tinha longa história, fora deputado do PCB nos anos 40, homem de luta,
larga visão.
Assumiu
no dia 21 de dezembro de 1971, um dia após a morte de Quintino, que fora o
grande pensador e tutor do jornal.
Barreto
conviveu com mais três redatores-chefes, depois da saída de Milton Cayres em
abril de 1974.
Sérgio
Gomes - assumiu em julho de 1974, saiu em dezembro do mesmo ano.
Cid
Teixeira - do dia 2 de janeiro de 1975 a 23 de julho do mesmo ano.
João
Ubaldo Ribeiro - de 24 de julho de 1975 a maio de 1980.
Para
não perder carona, sigamos a cronologia dos redatores-chefes até este ano de
2019.
Paulo
Roberto Sampaio - junho de 1980 a maio de 1989.
Benedito
Simões - junho de 1989 a 16 de outubro de 1991.
Entre
julho de 1992 e março de 1995, a redação foi dirigida por um conselho de
jornalistas constituído por Jânio Lopo, Grant Mariano, Roque Mendes e Paulo
Amâncio.
Raimundo
Lima dirigiu a redação de março de 1995 a janeiro de 2000.
E
Paulo Roberto Sampaio voltou a dirigi-la no mês de março de 2000.
E
permanece até este junho de 2019.
#MemóriaJornalismoEmiliano
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Emiliano José
12
de junho 2019
Verdade, a utopia
do jornalismo
A
“Tribuna da Bahia” foi a grande escola
de Barreto.
Ralar
como repórter foi o maior aprendizado.
Como
ele, passei por isso.
Aprendi
muito.
Ninguém
devia seguir adiante na profissão sem passar pelos ásperos caminhos da
reportagem, sem pisar o chão atrás da notícia, sem aprender a correr atrás da
verdade, espécie de utopia sagrada do jornalismo, tão desprezada nos dias
atuais.
Apurar,
saber apurar, esquadrinhar os fatos, considerar os diversos lados.
Respeitar
as fontes, autoridades ou populares.
Não
obstante, desconfiar delas.
As
fontes podem manipular o repórter sem que ele sinta.
Compreender
o contexto de cada acontecimento.
Não
departamentalizar a notícia.
Uma
greve é a greve e todo o entorno dela.
Ter
sensibilidade diante das dores do nosso povo.
Ser
fiel à verdade, sem cair no conto da imparcialidade.
Você
não tem direito de contrariar os fatos, mas eles passarão sempre pelo seu
olhar, pela sua visão de mundo.
Agora,
cuidado.
Entrevistei
Antônio Carlos Magalhães, Delfim Neto, Mário Henrique Simonsen, tantos nomes
vinculados à ditadura, e aí é que tomava mais cuidado com o que me diziam...
Sabia-me
de outra visão de mundo, de outra posição política, e por isso mesmo não tinha
o direito de distorcer nada do que me dissessem.
Vida
dura, a de repórter.
Muita
responsabilidade.
Barreto
assimilou tudo isso
Depois,
foi ensinar os outros como editor de Cidade ou Chefe de Reportagem...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Devanier Lopes: Muito bom.
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(Foto: Agliberto Lima - Sucursal do Estadão em 1978)
Emiliano José
13
de junho 2019
Tribuna: sucursal
da "Lemos Brito"
Barreto,
final da década de 70, integrou equipe da Sucursal do “Estadão”, a convite de
Carlos Navarro, Navarrinho.
Trabalhou
com Pedro Formigli, Césio Oliveira, Fernando Escariz, José Carlos Teixeira,
Gonzalez, Agliberto Lima, este, fotógrafo.
Considera
ter sido uma grande escola, ter feito matérias de grande impacto.
Navarrinho
montou uma notável equipe.
Falo
dela e dele mais tarde.
Foi
um dos meus mestres no jornalismo.
Logo
depois, Barreto é contratado pela sucursal da revista “Veja”.
Trabalha
com Paolo Marconi e Ricardo Noblat.
Capa
com Congresso da UNE em Salvador.
Fuga
de Theodomiro Romeiro dos Santos .
Duas
de suas maiores proezas em “Veja”.
Em
agosto de 1979, nasce o segundo filho dele.
Batiza-o
Theo - hoje sociólogo, professor-doutor.
Homenagem
também prestada por mim: meu filho, nascido em 1975, chama-se Teo. Cartório não
permitiu o h.
A
lembrar: a fuga de Theo deu-se no dia 17 de agosto de 1979.
Atualmente,
Theodomiro Romeiro dos Santos recupera-se de um AVC hemorrágico.
Barreto,
paralelamente às atividades estritamente jornalísticas, mergulha noutro
território da comunicação: ensino à distância.
Passa
em concurso em 1972, e integra o grupo de professores-fundadores do IRDEB -
Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia.
Funcionava
no subsolo da Biblioteca Central dos Barris.
Uma
rica experiência: grava aulas para os telecursos, conhece o mestre-historiador
Cid Teixeira, aprende a lidar com estúdios e microfones.
Entrou
e saiu do IRDEB várias vezes, sempre por concurso.
Teve
concorrido programa de rádio, viu a criação da FM, da TVE, foi assessor da
presidência na gestão de Paolo Marconi.
Criou
o projeto "Singular e Plural", com Marconi, registro de manifestações
culturais de todo o Estado.
Da
“Tribuna”, Barreto lembra o fato de que o jornal, ousadamente, abrigou vários
ex-presos políticos.
Alguns,
além de mim mesmo: José Carlos Prata, Denilson Vasconcelos, José Carlos
Zanetti, Dalton Godinho.
A
redação mais parecia uma pequena sucursal da Penitenciária "Lemos
Brito" - comentário bem humorado de Barreto.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
14
de junho 2019
Quem gaba o toco é
a coruja
É
sábio o dizer popular.
É
preciso temer qualquer referência elogiosa vinda da própria pessoa a quem ela se dirige, mesmo quando
utilizando-se de terceiros.
Desculpem-me,
mas vou utilizar texto de Barreto sobre minha chegada à “Tribuna da Bahia”.
O
leitor de bom senso há de separar a verdade do exagero, a realidade da
benevolência advinda da amizade.
Barreto,
a meu pedido, produziu um texto sobre a trajetória dele, de maneira que pudesse
sustentar o que dissesse sobre minha chegada ao jornal e pudesse falar do
próprio Barreto com propriedade, como estou tentando.
Falei
da Tribuna como "sucursal da 'Lemos Brito'", a partir das observações
de Barreto.
Ele
diz achar tenha sido eu a inaugurar a safra dos egressos da penitenciária.
Deve
ter sido.
Certeza,
não tenho.
Cito-o
agora, literalmente, ao falar de minha chegada:
"Lembro-me
que ele chegou recomendado (não me lembro por quem) e eu sabia que era um preso
político (não o conhecia mas sabia de seu nome nas lidas das esquerdas
estudantis) em liberdade condicional (???).
Precisava
de um trabalho/emprego para garantir sua liberdade total.
Os
'superiores' estariam cientes das circunstâncias.
No
'arriar das malas' percebi que era um craque.
Rápido,
batendo forte nos teclados, concentrado, com boa bagagem no cérebro e um texto
enxuto, correto, preciso, claro, objetivo... e mais o rigor na apuração e, logo
se viu, um ser congregador, decente.
Ganhei
um grande repórter, à época, e para sempre um irmão de querer bem.
Hoje
sei de sua história, compreendo bem seus (des) caminhos.
Não
andamos de mãos dadas, mas já nos lambuzamos em babas, ofícios, palavras e
perplexidades
Caminhos.
Vamos
seguindo."
É
interessante a gente se confrontar com o olhar do outro.
Mesmo
sendo necessário o esforço para evitar os excessos derivados da amizade, o mais
nobre dos sentimentos.
E a
gente sabe a quem chama de mestre.
Barreto,
no jornalismo, foi o primeiro.
Muito
obrigado, meu velho.
E a
gente sabe também a quem chama de amigo.
Barreto,
sem dúvida, um deles.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Barretinho com representantes da ala feminina que veio depois, Suely Temporal, Rita Tavares, Jaciara Santos, Noemi Flores e Mônica Bichara)
Emiliano José
15
de junho 2019
A presença das mulheres
Barreto
recorda-se das repórteres.
Eu
me junto a ele.
Não
é fácil.
Muitas,
não sei onde andam.
Talvez
essa série venha provocar uma ou outra a dar sinal de vida.
Eu
me recordo de Celinha pelo seu espírito brincalhão e agregador.
Volta
e meia nos reuníamos em frente à “Tribuna”, numa espécie de sacada situada em
frente às casas que ficavam logo acima da Djalma Dutra, e conversávamos até
tarde, Celinha animando.
Eu
nem tão animado era.
Nem
beber bebia ainda.
Só
mais tarde, descubro o vinho.
Ficava
no meu canto, divertia-me, sem protagonismo maior.
Rosa,
Rosinha, não sei se Rosa Bastos, lembrada por mim e por Barreto, serena
presença, texto criativo e firme, creio ter chegado a editora de Cidade quando
eu estava no jornal.
Uma
pessoa cuja aura contaminava a redação.
Positivamente.
Duas
mineiras, ao menos Barreto dá essa informação, a de serem provenientes de
Minas, Glória e Raquel.
De
Glória, lembro mais.
Chegando,
novato, eu a olhava de longe, admirava sua desenvoltura, agitação, jeito
afirmativo, de quem não abaixava a cabeça pra ninguém, e pela beleza.
Terrível,
dirá Barreto sobre ela, e creio que o adjetivo quer dizer do quanto era forte.
Lena,
Leninha, pequena e talentosa.
Lena
Coutinho.
Barreto
em seu texto a quer frágil e bela.
Frágil,
não creio.
Ele
a revela como poeta, eu não sabia.
Mergulhava
de tal forma no trabalho que não conseguia conhecer direito os que me
circundavam.
Será
parceira mais tarde de sucessos de Raul Seixas, de quem foi a quinta
companheira.
Havia
Rosa Mendes, Rosália, que eu já conhecia dos anos passados na "Lemos
Brito".
Ela
nos visitava, e acabou casada com Milton Mendes Filho, do MR-8, que terminou
notável fotógrafo, com quem trabalharei no "Jornal da Bahia".
Era
do Arquivo, localizado num compartimento contíguo à redação.
Era
a ela a quem recorríamos quando precisávamos de material a sustentar nossas
matérias.
Vive
na Itália há um bom número de anos.
Estive
algumas vezes com ela em Roma, onde mora, ou em Firenze, quando em visita ao
padre Renzo Rossi, que ela também conheceu visitando os prisioneiros políticos.
Barreto
fala ainda de Letícia Muhana, Celene, Nadja, Grácia, Cely.
Mais
tarde, dirá Barreto, virá a geração de Jaciara, Aurora...
Creio
que há outras companheiras do período que passei pela Tribuna.
Só
uma pesquisa mais cuidadosa irá reavivar a memória, sempre traiçoeira.
Afinal,
são passados 45 anos...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Joaquim Lisboa Neto: Conheci uma irmã
de Rosa. Lúcia Bastos, atriz amadora do grupo Fundo de Quintal. Morava na Boca
do Rio. Li uma reportagem de Rosa no Boca do Inferno.
Emiliano José: Joaquim Lisboa
Neto Eita sujeito viajado...
Emiliano José: Livro...
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Emiliano José
16
de junho 2019
Dias de terror
Ninguém,
tivesse alguma sensibilidade, algum espírito progressista, passava ao largo,
indiferente, face aos crimes da ditadura.
Barreto
de um jeito ou de outro se envolvera com o movimento estudantil, depois
abrigara gente clandestina e perseguida, enquanto se afirmava como jornalista.
Em
Ciências Sociais, da UFBA, tivera lições nunca esquecidas.
Ouvia,
lia, sentia o clima.
Os
anos Médici foram os mais terríveis da ditadura.
Mas,
o choque brutal, apavorante, doloroso, veio com a prisão da jornalista Mariluce Moura, à época no "Jornal da
Bahia".
Outubro
de 1973, ela e Gildo Macedo Lacerda, seu companheiro amado, são presos em
Salvador, ela grávida, numa operação nacional visando à aniquilação de Ação
Popular, organização revolucionária.
Gildo
será levado para Recife, brutalmente torturado, assassinado pelos terroristas
da ditadura.
Um
dos desaparecidos políticos.
Mariluce
sobrevive.
Como
uma flor no deserto, Tessa, a filha, também, diz Barreto.
Dias
tenebrosos para ele.
Desde
criança, conviveu com Mariluce, com a família dela, irmãos, irmãs.
Bola
de gude, furapé, futebol.
Vida
de periferia.
Foram
vizinhos.
Rua
Voluntários da Pátria, a metros dos trilhos ferroviários do Subúrbio, perto do
Lobato.
Em
tempos de clandestinidade, Mariluce, ainda estudante de Jornalismo, chegou a me
levar à casa da família, nós dois de Ação Popular, 1970.
Mariluce,
Antônio Jorge, Laerte, Vera Lúcia, Suzana, Cláudia, tantas irmãs, não se
recorda de todas.
Dias
de terror.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Tessa em homenagem a Gildo, com Emiliano, pela Comissão da Verdade de São Paulo em 2013)
Emiliano José
17
de junho 2019
Grito no deserto
Tessa.
A
flor que irrompe na areia do deserto, no belo e próprio dizer de Barreto.
Eu a
conheci numa noite, criança criança, correndo pra lá e pra cá, num apartamento
no alto do Rio Vermelho, sob os olhares atentos de Mariluce, casada então com o notável fotógrafo Rino
Marconi, que também não tirava os olhos da menina.
Tessa
viveu, vive indecifráveis dores.
A de
não ter tido a chance de conhecer o pai.
A
ditadura, ao matá-lo, lhe subtraiu essa possibilidade.
Só
que os terroristas foram ainda mais longe: nunca foi possível resgatar o corpo
do pai.
Ditadura
tem disso.
Tessa
não tem um lugar onde ajoelhar, rezar se souber rezar, levar flores, chorar.
Não
pode olhar para o túmulo do pai.
Não
pode realizar o luto.
Eu a
reencontrei uma linda mulher, quase chegando aos 40, dia 25 de outubro de 2013,
em audiência da Comissão da Verdade Rubens Paiva, da Assembléia Legislativa de
São Paulo, presidida pelo deputado Adriano Diogo.
Mariluce
estava lá.
Eu
vi e ouvi Tessa falar, fala entrecortada por soluços, lágrimas o tempo todo, eu
não sei como meu pai era não sei as coisas mais banais é difícil você aceitar
uma morte que não é material é pirante você tentar por um lado imaginar como
seu pai era e por outro aceitar que isso que você imaginou morreu...
Gildo
Macedo Lacerda.
Seus
restos mortais terminaram numa vala a céu aberto.
Mariluce
nunca pôde enterrá-lo.
Dar-lhe
um túmulo onde ela e a filha pudessem chorar, isso, apenas isso fosse, esse
direito ancestral do ser humano de sepultar a quem ama e respeita.
Tessa
terminou sua fala numa espécie de apelo grito quase sufocado na garganta
mergulhado em lágrimas em dor pedindo deixem-nos enterrar nossos mortos e
realizar o luto necessário e esclarecer para toda a sociedade esse ponto
obscuro de nossa história.
Um
grito até hoje ignorado.
Como
se ecoasse apenas pelas areias do deserto onde ela floresceu.
Do
deserto, das lonjuras do deserto, ainda podemos ouvir o seu grito de dor...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
18
de junho 2019
Revolta das
vísceras
Mariluce.
Nossas
conversas se davam, as primeiras, sob as árvores, nas amuradas, escadas, sei
lá, tanto tempo se foi, na Facom.
Não,
nada de Facom.
Era
então EBC - Escola de Biblioteconomia e Comunicação, onde mais tarde serei
aluno, depois professor.
Para
ela, eu era um capa-preta, dirigente de AP.
Era
1970.
Ia à
EBC apenas para conversar com ela.
Em
mim, certamente via um amparo, uma acolhida para suas dúvidas, inquietações em
torno da militância.
Eu
já era um veterano.
Ao
menos era enxergado assim, por ela e por tantos outros.
Afinal,
já chegara aos 24 anos.
E
dirigente clandestino, o que devia me tornar mais velho ainda aos olhos dos
jovens militantes do movimento estudantil.
É
provável, bem provável, que eu próprio me sentisse com bem mais idade do que
verdadeiramente tinha.
Mariluce
se abria comigo.
Havia
ternura entre nós, além do companheirismo partidário.
Mais
tarde, no desenvolvimento de sua militância, os caminhos dela se cruzarão com
os de Gildo Macedo Lacerda, dirigente de Ação Popular.
Ela
o amou profundamente.
Era
jornalista consagrada quando o encontrou.
Já
escrevi muito sobre a morte e desaparecimento de Gildo, as dores dela, de
Tessa.
Fiz
a orelha do pungente livro dela - "Revolta das Visceras", ficção e
verdade em torno da tragédia, cuja primeira edição deve ser do final dos anos
70, iniciozinho dos 80 do século passado.
O
livro "Lamarca, o Capitão da Guerrilha", devo a ela.
Havia
feito longa entrevista com Olderico Campos Barreto, irmão de Zequinha e
Otoniel, ferido na cara e na mão por balas de Fleury, companheiro de prisão, e
fui consultá-la em como publicar.
-Nada
de publicar entrevista. Siga adiante e faça um livro.
Perto
ou longe, sempre foi referência essencial em minha trajetória jornalística.
Sempre
me sensibilizou muito nunca ter deixado de honrar a memória de Gildo.
Honrando
pela atitude política serena e desassombrada.
Honrando
pelo amor.
Longe
ou perto, querida amiga!
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Devanier Lopes: Otoniel ficou
preso na Vila Militar do Bonfim?
Emiliano José: Devanier Lopes Otoniel foi assassinado
pela primeira equipe que chegou ao Buriti Cristalino em agosto de 1971.
Devanier Lopes: Emiliano José quem
foi preso na Vila Militar do Bonfim? Do grupo?
Emiliano José: Devanier Lopes É
provável, mas não tenho informação precisa, que Olderico. Há vários outros,
como Renato Afonso de Carvalho,.do PCBR . Só pesquisando melhor pra saber quem
passou por lá do MR-8.
Devanier Lopes: Eu acho que
Olderico foi preso na Vila Militar do Bonfim.
Emiliano José: Devanier Lopes Ter
ficado preso um período, é possível. Cumpriu pena na "Lemos Brito".
Meu companheiro de prisão.
Devanier Lopes: Emiliano José eu acho
que foi logo na prisão dele
Devanier Lopes: Ele teve arranhões
no rosto? Cheio de esparadrapo?
Devanier Lopes: Emiliano José deve
ter ficado cicatrizes
Emiliano José: Devanier Lopes Levou
um tiro no rosto no dia do cerco no Buriti Cristalino. Outro na mão direita. No
mesmo cerco, mataram Otoniel, irmão.
Emiliano José: Está tudo no meu
livro.
Emiliano José: Quiser, mando o
livro.
Devanier Lopes: Emiliano José foi
ele sim
Devanier Lopes: Emiliano José tenho
Emiliano José: Devanier Lopes 17a.
Edição?
Emiliano José: A mais completa.
Outro livro.
Emiliano José: Devanier Lopes Você
esteve na Vila Militar?
Devanier Lopes: Emiliano José sim
não preso tinha gente minha lá
Devanier Lopes: Emiliano José nessa
época houve uma reforma na Pedra Preta e muitos presos foram pra Vila Militar
do Bonfim e houve uma grande mistura de presos políticos com marginais
assaltantes. Lembro de um filho DE MOLA que fugiu vestindo uma farda da pm. Foi
uma confusão geral
Antonio Silvany: Foi Olderico,
Devanier.
Devanier Lopes: Antonio Silvany Joia
Nane Albuquerque: Texto muito
emocionante, delicado, sensível e, por isso, tocante, Emiliano José. Agradeço
pela postagem. Se cada um não compartilhar suas histórias e as de quem sabemos,
quem irá?
Emiliano José: Nane Albuquerque Estimulo
sempre a que as pessoas contem as histórias que viveram. É a memória sendo
preservada. Obrigado
Zeca Peixoto: Acompanhando
sempre. E me informando dos pormenores de um período - em 70 tinha seis anos -
que apenas ouvia os zumbidos em casa por intermédio do meu pai, militante do
então "Partidão", tido à época como reformista, e do tio Paulo Cunha,
militante do PCdoB que chegou preso aqui em Salvador em 1971.
Emiliano José: Zeca Peixoto Quem
sai aos seus não degenera...
Zeca Peixoto: Emiliano José kkk
Vero!
Graça Azevedo: Zeca Peixoto Paulo
Cunha que foi da Ceplac?
Celia Ramos: Mariluce Moura e
descubro que eram todos juntos na militância
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(Oldack Miranda, Mariluce Moura, Nara Lacerda, Tessa lacerda, Adriano Diogo, Amália Teles e Emiliano José em homengem a Gildo Lacerda - 2013)
Emiliano José
19
de junho 2019
Mordida do cão
Barreto
sentiu a barra pesar.
Caíram
várias pessoas quando da prisão de Mariluce Moura e Gildo Macedo Lacerda.
Entre
as quais, Oldack Miranda, jornalista também, e de AP.
Miranda
já havia cumprido pena em Minas Gerais.
Estava
na Bahia sossegado, militância discreta, quando num arrastão, decorrente da
ação de um cachorro, o pegaram.
Cachorro
era uma espécie muito querida da repressão.
A
pessoa militava em alguma organização revolucionária, era presa, saía, depois
era procurada por agentes da ditadura, convencida sob pressão a simular uma
volta à militância, e voltando, ia entregando todo mundo.
A
queda de outubro de 1973 de quase toda a AP no Brasil teve a ver com esse
cachorro, Gilberto Prata Soares.
Inclusive
a queda da Bahia.
Oldack,
jornalista até hoje, também foi levado pro Recife, como Gildo, que foi morto e
teve o corpo desaparecido.
Levaram-no
pra lá e o torturaram barbaramente.
Sabiam
de sua escassa possibilidade de fornecer novas informações.
Saíra
da prisão havia pouco tempo, não tivera chance de acumular novos conhecimentos
sobre AP.
Tinham
noção agora de que ele não lhes dissera o que sabia na prisão anterior.
Então,
foi torturado por sadismo, vingança.
Ditadura
era isso.
Barreto
tornou-se um coiteiro.
Recém-casado,
morando num apartamento do BNH, no Stiep, guarda na memória um pedido de abrigo
para uma jovem militante de AP, cuja missão, nome nunca soube.
Negra,
mineira, roupas surradas, uns 23 anos.
Como
éramos jovens nós os que amávamos a Revolução...
Bonita
- não se esqueceu da beleza dela.
Enfezada,
tensa, de poucas palavras, vivia entocada.
Comer,
muito pouco, raramente.
A
mulher de Barreto, Lícia, estranhando.
Mas,
segurando a barra.
Decorridas
poucas semanas, poeira baixando, foi deixada na Rodoviária, nas proximidades
das Sete Portas.
Ia
para Belo Horizonte - foi o que disse.
Medo,
quem não tinha naquela época?
Barreto
tinha.
Mas,
não pânico.
A
seu modo, ia ajudando perseguidos.
Assim,
com Walmir e Silvia, casal chegado do Rio de Janeiro... #MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Devanier Lopes: Muito bom
Devanier Lopes: Jose Jesus Barreto
Tocando em frente. Bj
Emiliano José: Jose Jesus Barreto
Tocando.
Zeca Peixoto: Aprendendo...
Carlos Alberto Loureiro da Costa: Emiliano, vc é um
patrimônio da luta por um Brasil sem opressor e sem oprimido!
Emiliano José: Carlos Alberto
Loureiro da Costa Um homem comum, com convicções profundas. Ao lado de milhões
assim. De qualquer modo, obrigado.
Celia Ramos: O Mérito e ser o
que ele é hoje, Cidadão de esquerda, militante orgânico.
Emiliano José: Celia Ramos Você
não tem jeito: amiga incondicional
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Emiliano José
20
de junho 2019
Generoso coiteiro
Quando
disse coiteiro sobre Barreto, valia-me de expressão dele próprio.
Sentia-se
assim durante aquele período sombrio.
AP estava
sob um cerco implacável. Vários de seus dirigentes foram mortos em todo o País.
Militantes
caíam aos magotes.
Já
se disse que um cachorro possibilitou isso.
Barreto
não diz como, que contatos foram feitos, que articulações.
Só
que nesse período sombrio, final de 1973 e durante o ano de 1974, um casal
apareceu à sua frente, sem eira nem beira, à procura de abrigo, fugindo da
polícia da ditadura.
Vinham
do Rio de Janeiro.
Walmir
Andrade.
Trompetista,
professor de Matemática.
Ria
à toa, vá se saber como conseguia num quadro daquele.
Bem
humorado que só a porra, difícil de entender.
Ainda
bem que há gente assim no meio dos vendavais.
Criativo
e sedutor - assim Barreto o define.
Baiano,
juventude no bairro da Saúde, Salvador.
Sílvia.
Loura
bonita, simpática mas desconfiada, nada de alegria alegria como seu
companheiro, pouco riso.
Grávida
de sete meses.
Eram
de AP.
Próximos
de Jean Marc, ex-presidente da UNE, também de AP.
Encontraram
guarida no apartamento de Barreto enquanto se aprumavam.
Sílvia
passou a ganhar uns trocados na “Tribuna da Bahia” como estagiária, graças aos esforços de
Barreto.
Walmir
dava aulas de Matemática em cursinhos, inclusive na equipe de produtores do
Irdeb, tudo graças a Barreto, o bom coiteiro.
Em
1979, seguindo viagem para o México e Europa, Barreto foi abrigado pelo casal,
na casa deles em Santa Teresa, Rio de Janeiro.
Ah,
quando o filho nasceu em Salvador batizaram-no João Marcos, homenagem ao amigo
Jean Marc.
#MemóriasJornalismoEmiliano
************************************
(Com as netas Ananda e Clarinha (filhas de Marco Antonio, filho que já se foi) e Luana (filha de Bethânia)
(Com Cau Gomez, Márcia Moreira e Hilcélia Falcão)
(Com Osvaldo Lyra, Liana Cardoso e o dono da cachaceria no Terreiro de Jesus)
(Com a escritora Carolina Bacelar)
(Com Enéas Guerra, designer da editora SOlisluna, autor da capa e ilustrações do livro.)
(Foto: Lucia Correia Lima - com Luiz Guilherme, Valéria Pergentino e Enéas Guerra na Flica, em Cachoeira)
(Com Suely Temporal e Rita Tavares)
(Com o querido Rogério Menezes no lançamento do livro 2 + 1)
(Com Nuno Penna)
(O tricolor com a família da amada, em Cruz das Almas: Binho, Dudu, Tânia , Davi Nascimento, Taninha amada e Sayonara, a doutora.)
(Com David Nascimento, o Situ, irmão da amada Taninha. Em Cruz das Almas.)





































Repetindo o comentário que postei no face.
ResponderExcluirQue linda trajetória. Linda como ele (Jose Jesus Barreto) só. Maravilha, Barretinho, Li como se estivesse lendo uma das suas poesias. Como disse Mônica Bichara (amei a abertura da edição, viu amiga?), você é uma unanimidade por tudo o que representa como um ser humano, um profissional, um colega, um amigo, um torcedor, um amante da cultura, um cidadão... Adoro quando lhe vejo. Agora, vez quando. Mas é sempre uma alegria batermos um papinho. Acho que a última vez foi num 2 de Julho, onde ficamos nos degraus da Casa de Jorge Amado, esperando o cortejo. Eu tinha vindo da Lapinha, e ali fiquei. Você de máquina em punhos. Curtir mutuamente as mensagens no face também é bem gostoso, e agora, sempre nas postagens do querido Emiliano José, que, com sua série em homenagem aos colegas, nos permite viver e reviver emoções, lembranças que estavam escondidinhas no nosso coração. Parabéns por ser também uma referência do nosso Jornalismo. Que a turma jovem possa ler suas memórias e se enriquecer. Beijão, senhor serenidade.
O Pilha vem fazendo história ao publicar essa linda e histórica série #MemóriasEmilianoJornalismo do querido amigo, colega, professor e escritor Emiliano José, que homenageia vários profissionais que marcaram sua passagem no Jornalismo baiano, com muita garra, ética, responsabilidade..., realizando a tarefa de bem informar ao cidadão, sem fakes.
Valeu, Bebel. Acho mesmo Barretinho uma unanimidade, a gente só consegue pensar nele com carinho, encontrar é sempre uma festa, uma alegria. Paz, Axé.....a cara dele, não dá pra imaginar exaltado, brigando, falando alto, respondendo...mas ao mesmo tempo sempre firme, nunca vacilante
ExcluirComo não amar esse Barretinho? Que passagem linda pelo jornalismo da Bahia, quantas histórias vividas e quantas ainda por contar. Essa série de Emiliano José leva a gente a um mergulho no passado que muitos de nós sequer conhecíamos. Só agradeço!
ResponderExcluirNé, Carmelinha? Aliás, vc é outra unanimidade, dois queridos. E que bom que essa série de Emiliano está fazendo a gente se reencontrar com colegas tão queridos e tão importantes para a nossa carreira e nossas vidas. Barretinho e vc dois deles, sem dúvida
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