Acostumada a ver seus artigos e entrevistas no Portal
Vermelho, do PCdoB, jamais imaginei que Luiz Manfredini tinha iniciado carreira
na Tribuna da Bahia, onde também trabalhei 18 anos depois. Não fossem essas
memórias reviradas por Emiliano José, jamais saberia.
Foi um aluno aplicado da “escolinha de Quintino de
Carvalho” e de Chico Ribeiro Neto, em 1971. Não chegou a fechar um ano na TB,
mas reconhece que foi uma experiência, aos 19 anos de idade, decisiva em sua
vida. Não só por ter sido acolhido sem bagagem jornalística, mais um “comunista”
fugido da repressão política (começou a militar na Ação Popular desde os 16
anos, ainda em Curitiba), mas também por ter recebido, como frisa Emiliano, “régua
e compasso” para o resto da brilhante trajetória de jornalista e escritor.
É ele quem revela: “Meu ingresso no jornalismo
profissional não poderia ser mais glorioso.... a base foi aquela redação
fantástica que respirava rigor, talento e entusiasmo na apuração da notícia, na
precisão do texto, na diagramação moderna, criativa...”. O título “Tribuna da
Bahia, minha escola e meu afeto" foi sugerido pelo próprio. O que não
deixa dúvida.
Sobre Emiliano José, Manfredini não se recorda de ter
encontrado na época da Tribuna, apesar de ter conhecido três anos antes, em
Florianópolis, “eu liderando um movimento de estudantes e ele vice-presidente
da UBES”. Seguiram trajetórias
parecidas, incluindo prisões políticas, passagens por importantes redações e
muitos livros lançados.
Um dos livros de Manfredini considero especial, "As
moças de Minas", lançado em 1989 e relançado em 2008, narrando a história de
Loreta, Gilse, Sissi, Laudelina e Rosário, jovens militantes de AP torturadas
pela ditadura. Conheci Loreta e seu companheiro Carlos Valadares já militantes
do PCdoB, muito amigos de minha irmã Ilka, que me apresentou ao livro.
A orelha é assinada por Emiliano, “meu velho companheiro
de lutas”. Aqui um anúncio importante: “Até
o início de outubro lançarei nova edição para lembrar o que foi a ditadura
militar tão elogiada pelo Bolsonaro”.
Emiliano, autor de “Lamarca, o capitão da guerrilha”, entre
tantos outros clássicos, diz sobre “As moças de Minas”: “O romance-reportagem
de Luiz Manfredini, que a gente lê de um só fôlego pela força da história e
pelo talento do autor, é uma dessas contribuições inestimáveis à compreensão do
que a ditadura era capaz de fazer com seus adversários”. Nada mais necessário
nesses tempos que estamos vivendo.
Como se não bastasse, “As moças de Minas” foi o livro
que inspirou a jovem deputada federal gaúcha Manuela d’Ávila, a mulher mais
votada no Brasil para a Câmara Federal, em 2006, pelo PCdoB, a entrar para a
política. E olhe que os acontecimentos narrados ocorreram 20 anos antes dela
nascer. “Muitos da minha geração ainda desconhecem o quanto foi preciso lutar –
e sofrer – para que o Brasil conquistasse os espaços democráticos que usufrui hoje.
Luiz Manfredini abre as portas de uma memória dolorosa, mas necessária, para
que esse período dramático da nossa história jamais seja esquecido pelos que o
vivenciaram e não deixe de ser conhecido pelos mais jovens”, resumiu ela em
entrevista.
Das inúmeras reportagens que fez ainda no regime militar, Manfredini relembra a entrevista com o tenente-coronel Tarcísio Nunes Ferreira, realizada na primeira semana de março de 1978: “Ele comandava o poderoso 13º Batalhão de Infantaria Blindada, em Ponta Grossa, cidade a 100 quilômetros de Curitiba. Ele atacou o que chamou de desvios da revolução e diretamente o Geisel. O JB, de cuja sucursal no Paraná eu era repórter, publicou a entrevista em página inteira. Ele foi preso no dia seguinte e eu uma semana depois”. Para comprovar reproduziu e me mandou a página da revista Manchete que reportou o assunto.
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(Sentado, com parte da equipe de jornalismo da TV Iguaçu, de Curitiba, onde foi editor de 1973 e 1976)Emiliano José
20
de agosto 2019
Miséria e
jornalismo
Chegava
gente de todo lugar à procura de abrigo.
Comunistas
em busca da sobrevivência em tempos de arbítrio, batiam às portas da Tribuna em
busca de amparo.
Luiz
Manfredini chegara à Bahia nos últimos dias de 1969.
Militante
de Ação Popular, ele e a mulher Vera Weisheimer foram morar com outros
companheiros na Ladeira da Ventosa, em Pernambués.
José
Carlos Zanetti e Odilon Pinto dividiam o casebre com o casal.
Ficava
numa "avenida", um autêntico cortiço, casinhas de dois vãos ligadas
parede a parede, ao fundo um banheiro comum.
Pobreza
militante.
Quase
fome.
Mudou-se
para um quarto de pensão na Liberdade, a poucos metros do Largo da Lapinha.
Tudo
como dantes.
-
Mal comia, mal vestia, meu estado de miserabilidade era basicamente suportado
pela forte convicção ideológica.
Manfredini
suportou um ano.
No
início de 1971, resolve procurar um emprego fixo.
Viver
daquele jeito não dava mais.
É
recomendado a alguém da direção da Tribuna da Bahia.
Encaminhado
a Chico Ribeiro, que lhe dá as primeiras lições de jornalismo.
Não
foi disputa fácil: dez pessoas disputavam duas vagas.
Um
dos escolhidos, Manfredini atribui isso ao passado de leituras, ao fato de
desde a adolescência ter publicado poemas, crônicas e contos em jornais de
Curitiba.
Em
duas semanas, Chico Ribeiro, mestre dessa fase final da Escolinha da TB,
deu-lhe régua e compasso das técnicas jornalísticas.
Nunca se esqueceu do espírito solidário de Chico Ribeiro. #MemóriaJornalismoEmiliano
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Emiliano José
21
de agosto de 2019
Muhammad Ali x Joe
Frazier
Solidariedade
é eterna na mente de quem a recebe.
Manfredini
me pergunta insistentemente como falar com Chico Ribeiro.
Vou
dar providências de modo a que se comuniquem.
Chico
era solidário.
Mas,
discretamente.
Percebia
a miserável condição de Manfredini e de vez em quando assim como quem nada quer
e querendo chamava-o à cantina do jornal para tomar um café e dava um jeito de
lhe pagar um bom lanche.
Quase
sempre uma saborosa vitamina de abacate acompanhada de um sanduíche.
Para
quem vivia no limiar da fome, festa de Babete.
Uma
vez, Chico foi mais longe: levou-o para almoçar na casa dele.
Aí,
foi um manjar dos deuses.
Terminada
a Escolinha, contratado, Manfredini foi escalado como copidesque.
Acreditaram
no seu português.
Com
19 anos, mal chegado ao jornalismo, e já corrigia textos dos repórteres.
Ora
os reescrevia, quando não estavam bons, ora os penteava, jargão usado para
correções pontuais.
Pra
ele, um espanto ser logo alçado a essa condição.
Logo
depois, é requisitado para a Editoria Nacional.
Reescrevia
o noticiário das agências noticiosas.
-
Meu ingresso no jornalismo profissional não poderia ser mais glorioso. Minha
idade contribuiu para o encanto, mas a base foi aquela redação fantástica que
respirava rigor, talento e entusiasmo na apuração da notícia, na precisão do
texto, na diagramação moderna, criativa, sob o manto sábio de Quintino de
Carvalho.
Guarda
a recordação de uma parada de toda a redação.
Não,
nada de greve.
A
luta entre Muhammad Ali e Joe Frazier.
8 de
março de 1971.
A
torcida era por Ali, que já perdera título por se recusar a combater no Vietnã.
Zoroastro
Santana apostou um engradado de leite com alguém, a favor de Ali - essa aposta
Manfredini nunca entendeu, nunca havia visto.
Joe
Frazier venceu.
Por
pontos.
Tristeza.
Em
abril de 1971, Manfredini é levado a sepultar o sonho daquele jornalismo
pulsante.
Creio
que as prisões que rondavam AP, e que levaram à queda de toda a Direção
Regional em maio daquele ano, o obrigaram a sair de Salvador.
Lembro-me,
ao falar de Manfredini, de Mirtes, estudante cearense cujas pernas foram
queimadas por ácido jogado por anticomunistas do Mackenzie na chamada Batalha
da Maria Antônia, de 3 de outubro de 1968.
Em
1973, deslocada para a Bahia por AP, Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira - um
nomão, né? -, também foi acolhida na TB.
Prestes
a ser contratada, recebe ordem de AP para sumir.
"Nem
pegue roupa em casa".
Sumiu.
Época
de outras prisões de AP na Bahia.
Vive
hoje em sua terra, Ceará.
Muitos
proscritos pela ditadura encontraram na TB uma casa de acolhimento.
Alguns,
com passagens rápidas.
Como
Mirtes e Manfredini.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Claudia Moreira de Carvalho: ‼️👋👋👋👋
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Emiliano José
22
de agosto de 2019
Preso por ensinar
marxismo-leninismo a crianças
Em
1989, Luiz Manfredini voltou a Salvador.
Lançava
a primeira edição de "As moças de Minas".
Romance-reportagem,
narra a saga de Loreta, Gilse, Sissi, Laudelina e Rosário, jovens militantes de
AP arrastadas aos cárceres da ditadura, barbaramente torturadas, em Minas
Gerais.
A
segunda edição, ampliada, chegou às livrarias em 2008.
Tive
a honra de prefaciá-la.
O
livro é clara demonstração de que a Tribuna lhe dera régua e compasso.
Aqui,
aparece o escritor maduro, texto seguro, manuseio fácil das palavras,
capacidade de apreender e construir cenários, de captar o profundo sofrimento e
capacidade de resistência daquelas meninas.
Loreta
Valadares viverá por longo tempo, até morrer, na Bahia.
Ao
lado de seu companheiro, Carlos Valadares, ambos militantes do PCdoB após o
"racha" de AP.
Carlos
também caiu junto com as meninas.
O
homem é sempre ele e suas circunstâncias.
Manfredini
entrou para Ação Popular aos 16 anos, 1966.
Entre
1967 e 1968, movimento estudantil, Curitiba.
No
início de 1969, seguindo a orientação de AP de os militantes das camadas médias
se integrarem à vida dos trabalhadores rurais e do proletariado urbano, segue
para o campo, Japurá, Norte do Paraná.
Em
abril do mesmo ano, reviravolta: AP o queria metalúrgico integrado à luta
operária.
Segue
para São Paulo.
Estimular
a luta e a consciência política da classe operária.
- No
horizonte, a luta armada para derrubar a ditadura e iniciar a construção do
socialismo no Brasil.
É
preso pela Operação Bandeirante (OBAN) em julho de 1969, apresentado ao
pau-de-arara e ao choque elétrico.
Depois
dessa prisão, Manfredini desembarcou em Salvador, por decisão de AP.
Foram
algumas prisões.
Uma
delas, em dezembro de 1971, logo depois da experiência da TB.
Outra,
março de 1978, quando foi acusado, junto com dez outros amigos e amigas, de
criar uma cooperativa escolar para "ensinar marxismo-leninismo a crianças
de seis anos de idade".
Isso
soa absolutamente atual, não?
Ao
retornar à Curitiba, abril de 1971, decidiu aproveitar o que aprendera na TB:
foi ser jornalista.
Foi
repórter, editor, redator-chefe em periódicos locais, na TV Iguaçu, repetidora
da Globo, nas sucursais do "Estadão" e "Jornal do Brasil",
além de "IstoÉ" e assessorias governamentais.
Em
2011, lança o romance "Memória de Neblina".
Em
2016, "Retrato no entardecer de agosto", narração da tentativa do
médico francês Jean Maurice Faivre de constituir uma comunidade alternativa, de
fundo fourrierista, no sertão do Paraná.
Em
2018, biografia do escritor paranaense Wilson Bueno.
O
talentoso jornalista e escritor Luiz Manfredini é genuíno filho da Tribuna da
Bahia.
O
texto-depoimento dele enviado a mim leva sugestivo título:
"Tribuna
da Bahia, minha escola e meu afeto".
Reconhecimento.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Proferindo palestra na Academia Paranaense de Letras sobre o livro "A pulsão pela escrita", biografia do escritor Wilson
Bueno.)
(Manifestação contra o golpe de 2016, no centro de Curitiba)
(Foto Solon Soares - 2012 Curitiba)
(Legenda de Manfredini: "Na redação da revista do Colégio Militar de Curitiba, onde estudei e era da diretoria do grêmio. A foto é de 1965, quando eu tinha 15 anos. Sou o segundo da esquerda para a direita, em pé. Minha primeira incursão no jornalismo")




















Uma vida de luta pela liberdade, muito mais que isso, escrevendo, criando e vibrando! Parabens!!
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ExcluirMais uma homenagem da linda série #MemóriasJornalismoEmiliano, que nos leva a conhecer mais um pouquinho da história do nosso jornalismo e dos momentos cruéis vivenciados pelo País nos tempos da ditadura, da qual foi vítima a querida, linda e respeitada Loreta Valadares. A admiro por demais (falo no presente porque ela continua nos corações que a amavam). Envio um forte abraço para o também querido Carlos. Parabéns, Manfredini pela sua história aguerrida. Amiga Mônica Bichara, as aberturas das suas edições continuam dez. Bj
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