Pular para o conteúdo principal

#MemóriasJornalismoEmiliano - Luiz Manfredini: “Tribuna da Bahia, minha escola e meu afeto"

(Legenda de Manfredini: "Entregando a Dilma, na vigília do Lula, em Curitiba, os dois livros que escrevi sobre os anos 1960: "As moças de Minas" e "Memória de Neblina". Ambos relatam uma época em que eu e ela vivemos a resistência à ditadura") 

Acostumada a ver seus artigos e entrevistas no Portal Vermelho, do PCdoB, jamais imaginei que Luiz Manfredini tinha iniciado carreira na Tribuna da Bahia, onde também trabalhei 18 anos depois. Não fossem essas memórias reviradas por Emiliano José, jamais saberia.

 

Foi um aluno aplicado da “escolinha de Quintino de Carvalho” e de Chico Ribeiro Neto, em 1971. Não chegou a fechar um ano na TB, mas reconhece que foi uma experiência, aos 19 anos de idade, decisiva em sua vida. Não só por ter sido acolhido sem bagagem jornalística, mais um “comunista” fugido da repressão política (começou a militar na Ação Popular desde os 16 anos, ainda em Curitiba), mas também por ter recebido, como frisa Emiliano, “régua e compasso” para o resto da brilhante trajetória de jornalista e escritor.

 

É ele quem revela: “Meu ingresso no jornalismo profissional não poderia ser mais glorioso.... a base foi aquela redação fantástica que respirava rigor, talento e entusiasmo na apuração da notícia, na precisão do texto, na diagramação moderna, criativa...”. O título “Tribuna da Bahia, minha escola e meu afeto" foi sugerido pelo próprio. O que não deixa dúvida.

 

Sobre Emiliano José, Manfredini não se recorda de ter encontrado na época da Tribuna, apesar de ter conhecido três anos antes, em Florianópolis, “eu liderando um movimento de estudantes e ele vice-presidente da UBES”.  Seguiram trajetórias parecidas, incluindo prisões políticas, passagens por importantes redações e muitos livros lançados.

 

Um dos livros de Manfredini considero especial, "As moças de Minas", lançado em 1989 e relançado em 2008, narrando a história de Loreta, Gilse, Sissi, Laudelina e Rosário, jovens militantes de AP torturadas pela ditadura. Conheci Loreta e seu companheiro Carlos Valadares já militantes do PCdoB, muito amigos de minha irmã Ilka, que me apresentou ao livro.

A orelha é assinada por Emiliano, “meu velho companheiro de lutas”.  Aqui um anúncio importante: “Até o início de outubro lançarei nova edição para lembrar o que foi a ditadura militar tão elogiada pelo Bolsonaro”.

 

Emiliano, autor de “Lamarca, o capitão da guerrilha”, entre tantos outros clássicos, diz sobre “As moças de Minas”: “O romance-reportagem de Luiz Manfredini, que a gente lê de um só fôlego pela força da história e pelo talento do autor, é uma dessas contribuições inestimáveis à compreensão do que a ditadura era capaz de fazer com seus adversários”. Nada mais necessário nesses tempos que estamos vivendo.

 

Como se não bastasse, “As moças de Minas” foi o livro que inspirou a jovem deputada federal gaúcha Manuela d’Ávila, a mulher mais votada no Brasil para a Câmara Federal, em 2006, pelo PCdoB, a entrar para a política. E olhe que os acontecimentos narrados ocorreram 20 anos antes dela nascer. “Muitos da minha geração ainda desconhecem o quanto foi preciso lutar – e sofrer – para que o Brasil conquistasse os espaços democráticos que usufrui hoje. Luiz Manfredini abre as portas de uma memória dolorosa, mas necessária, para que esse período dramático da nossa história jamais seja esquecido pelos que o vivenciaram e não deixe de ser conhecido pelos mais jovens”, resumiu ela em entrevista.

 

Das inúmeras reportagens que fez ainda no regime militar, Manfredini relembra a entrevista com o tenente-coronel Tarcísio Nunes Ferreira, realizada na primeira semana de março de 1978: “Ele comandava o poderoso 13º Batalhão de Infantaria Blindada, em Ponta Grossa, cidade a 100 quilômetros de Curitiba. Ele atacou o que chamou de desvios da revolução e diretamente o Geisel. O JB, de cuja sucursal no Paraná eu era repórter, publicou a entrevista em página inteira. Ele foi preso no dia seguinte e eu uma semana depois”. Para comprovar reproduziu e me mandou a página da revista Manchete que reportou o assunto.

**********************************************

(Sentado, com parte da equipe de jornalismo da TV Iguaçu, de Curitiba, onde foi editor de 1973 e 1976)

Emiliano José

20 de agosto 2019

Miséria e jornalismo

 

Chegava gente de todo lugar à procura de abrigo.

Comunistas em busca da sobrevivência em tempos de arbítrio, batiam às portas da Tribuna em busca de amparo.

Luiz Manfredini chegara à Bahia nos últimos dias de 1969.

Militante de Ação Popular, ele e a mulher Vera Weisheimer foram morar com outros companheiros na Ladeira da Ventosa, em Pernambués.

José Carlos Zanetti e Odilon Pinto dividiam o casebre com o casal.

Ficava numa "avenida", um autêntico cortiço, casinhas de dois vãos ligadas parede a parede, ao fundo um banheiro comum.

Pobreza militante.

Quase fome.

Mudou-se para um quarto de pensão na Liberdade, a poucos metros do Largo da Lapinha.

Tudo como dantes.

- Mal comia, mal vestia, meu estado de miserabilidade era basicamente suportado pela forte convicção ideológica.

Manfredini suportou um ano.

No início de 1971, resolve procurar um emprego fixo.

Viver daquele jeito não dava mais.

É recomendado a alguém da direção da Tribuna da Bahia.

Encaminhado a Chico Ribeiro, que lhe dá as primeiras lições de jornalismo.

Não foi disputa fácil: dez pessoas disputavam duas vagas.

Um dos escolhidos, Manfredini atribui isso ao passado de leituras, ao fato de desde a adolescência ter publicado poemas, crônicas e contos em jornais de Curitiba.

Em duas semanas, Chico Ribeiro, mestre dessa fase final da Escolinha da TB, deu-lhe régua e compasso das técnicas jornalísticas.

Nunca se esqueceu do espírito solidário de Chico Ribeiro. #MemóriaJornalismoEmiliano

----------------------------------------------------------

(Legenda de Manfredini: "Entrevista com o tenente-coronel Tarcísio Nunes Ferreira, realizada na primeira semana de março de 1978. Ele comandava o poderoso 13º Batalhão de Infantaria Blindada, em Ponta Grossa, cidade a 100 quilômetros de Curitiba. Ele atacou o que chamou de desvios da revolução e diretamente o Geisel. O JB, de cuja sucursal no Paraná eu era repórter, publicou a entrevista em página inteira. Ele foi preso no dia seguinte e eu uma semana depois. A revista Manchete reportou o assunto")


Emiliano José

21 de agosto de 2019  

Muhammad Ali x Joe Frazier

 

Solidariedade é eterna na mente de quem a recebe.

Manfredini me pergunta insistentemente como falar com Chico Ribeiro.

Vou dar providências de modo a que se comuniquem.

Chico era solidário.

Mas, discretamente.

Percebia a miserável condição de Manfredini e de vez em quando assim como quem nada quer e querendo chamava-o à cantina do jornal para tomar um café e dava um jeito de lhe pagar um bom lanche.

Quase sempre uma saborosa vitamina de abacate acompanhada de um sanduíche.

Para quem vivia no limiar da fome, festa de Babete.

Uma vez, Chico foi mais longe: levou-o para almoçar na casa dele.

Aí, foi um manjar dos deuses.

Terminada a Escolinha, contratado, Manfredini foi escalado como copidesque.

Acreditaram no seu português.

Com 19 anos, mal chegado ao jornalismo, e já corrigia textos dos repórteres.

Ora os reescrevia, quando não estavam bons, ora os penteava, jargão usado para correções pontuais.

Pra ele, um espanto ser logo alçado a essa condição.

Logo depois, é requisitado para a Editoria Nacional.

Reescrevia o noticiário das agências noticiosas.

- Meu ingresso no jornalismo profissional não poderia ser mais glorioso. Minha idade contribuiu para o encanto, mas a base foi aquela redação fantástica que respirava rigor, talento e entusiasmo na apuração da notícia, na precisão do texto, na diagramação moderna, criativa, sob o manto sábio de Quintino de Carvalho.

Guarda a recordação de uma parada de toda a redação.

Não, nada de greve.

A luta entre Muhammad Ali e Joe Frazier.

8 de março de 1971.

A torcida era por Ali, que já perdera título por se recusar a combater no Vietnã.

Zoroastro Santana apostou um engradado de leite com alguém, a favor de Ali - essa aposta Manfredini nunca entendeu, nunca havia visto.

Joe Frazier venceu.

Por pontos.

Tristeza.

Em abril de 1971, Manfredini é levado a sepultar o sonho daquele jornalismo pulsante.

Creio que as prisões que rondavam AP, e que levaram à queda de toda a Direção Regional em maio daquele ano, o obrigaram a sair de Salvador.

Lembro-me, ao falar de Manfredini, de Mirtes, estudante cearense cujas pernas foram queimadas por ácido jogado por anticomunistas do Mackenzie na chamada Batalha da Maria Antônia, de 3 de outubro de 1968.

Em 1973, deslocada para a Bahia por AP, Mirtes Semeraro de Alcântara Nogueira - um nomão, né? -, também foi acolhida na TB.

Prestes a ser contratada, recebe ordem de AP para sumir.

"Nem pegue roupa em casa".

Sumiu.

Época de outras prisões de AP na Bahia.

Vive hoje em sua terra, Ceará.

Muitos proscritos pela ditadura encontraram na TB uma casa de acolhimento.

Alguns, com passagens rápidas.

Como Mirtes e Manfredini.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Claudia Moreira de Carvalho: ‼️👋👋👋👋

------------------------------ 

(Com João Amazonas, presidente de honra do PCdoB)

Emiliano José

22 de agosto de 2019

Preso por ensinar marxismo-leninismo a crianças

 

Em 1989, Luiz Manfredini voltou a Salvador.

Lançava a primeira edição de "As moças de Minas".

Romance-reportagem, narra a saga de Loreta, Gilse, Sissi, Laudelina e Rosário, jovens militantes de AP arrastadas aos cárceres da ditadura, barbaramente torturadas, em Minas Gerais.

A segunda edição, ampliada, chegou às livrarias em 2008.

Tive a honra de prefaciá-la.

O livro é clara demonstração de que a Tribuna lhe dera régua e compasso.

Aqui, aparece o escritor maduro, texto seguro, manuseio fácil das palavras, capacidade de apreender e construir cenários, de captar o profundo sofrimento e capacidade de resistência daquelas meninas.

Loreta Valadares viverá por longo tempo, até morrer, na Bahia.

Ao lado de seu companheiro, Carlos Valadares, ambos militantes do PCdoB após o "racha" de AP.

Carlos também caiu junto com as meninas.

O homem é sempre ele e suas circunstâncias.

Manfredini entrou para Ação Popular aos 16 anos, 1966.

Entre 1967 e 1968, movimento estudantil, Curitiba.

No início de 1969, seguindo a orientação de AP de os militantes das camadas médias se integrarem à vida dos trabalhadores rurais e do proletariado urbano, segue para o campo, Japurá, Norte do Paraná.

Em abril do mesmo ano, reviravolta: AP o queria metalúrgico integrado à luta operária.

Segue para São Paulo.

Estimular a luta e a consciência política da classe operária.

- No horizonte, a luta armada para derrubar a ditadura e iniciar a construção do socialismo no Brasil.

É preso pela Operação Bandeirante (OBAN) em julho de 1969, apresentado ao pau-de-arara e ao choque elétrico.

Depois dessa prisão, Manfredini desembarcou em Salvador, por decisão de AP.

Foram algumas prisões.

Uma delas, em dezembro de 1971, logo depois da experiência da TB.

Outra, março de 1978, quando foi acusado, junto com dez outros amigos e amigas, de criar uma cooperativa escolar para "ensinar marxismo-leninismo a crianças de seis anos de idade".

Isso soa absolutamente atual, não?

Ao retornar à Curitiba, abril de 1971, decidiu aproveitar o que aprendera na TB: foi ser jornalista.

Foi repórter, editor, redator-chefe em periódicos locais, na TV Iguaçu, repetidora da Globo, nas sucursais do "Estadão" e "Jornal do Brasil", além de "IstoÉ" e assessorias governamentais.

Em 2011, lança o romance "Memória de Neblina".

Em 2016, "Retrato no entardecer de agosto", narração da tentativa do médico francês Jean Maurice Faivre de constituir uma comunidade alternativa, de fundo fourrierista, no sertão do Paraná.

Em 2018, biografia do escritor paranaense Wilson Bueno.

O talentoso jornalista e escritor Luiz Manfredini é genuíno filho da Tribuna da Bahia.

O texto-depoimento dele enviado a mim leva sugestivo título:

"Tribuna da Bahia, minha escola e meu afeto".

Reconhecimento.

#MemóriasJornalismoEmiliano 

******************************** 

(Proferindo palestra na Academia Paranaense de Letras sobre o livro "A pulsão pela escrita", biografia do escritor Wilson Bueno.)

(Roda de conversa no Portal Vermelho com o governador do Maranhão, Flávio Dino, neste sábado 12/9/2020)

(Manifestação contra o golpe de 2016, no centro de Curitiba) 

(Foto Solon Soares - 2012 Curitiba)




(Legenda de Manfredini: "
Na redação da revista do Colégio Militar de Curitiba, onde estudei e era da diretoria do grêmio. A foto é de 1965, quando eu tinha 15 anos. Sou o segundo da esquerda para a direita, em pé. Minha primeira incursão no jornalismo")








Comentários

  1. Uma vida de luta pela liberdade, muito mais que isso, escrevendo, criando e vibrando! Parabens!!

    ResponderExcluir
  2. Mais uma homenagem da linda série #MemóriasJornalismoEmiliano, que nos leva a conhecer mais um pouquinho da história do nosso jornalismo e dos momentos cruéis vivenciados pelo País nos tempos da ditadura, da qual foi vítima a querida, linda e respeitada Loreta Valadares. A admiro por demais (falo no presente porque ela continua nos corações que a amavam). Envio um forte abraço para o também querido Carlos. Parabéns, Manfredini pela sua história aguerrida. Amiga Mônica Bichara, as aberturas das suas edições continuam dez. Bj

    ResponderExcluir

Postar um comentário