#MemóriasJornalismoEmiliano – Cleidiana de Chico Preto de Nazinha, do Cobre, de Oxum, da Água Grande
Ela quase foi freira, quase foi filósofa...mas o destino tinha escrito outro roteiro nas estrelas. E nessas memórias tão bem rebuscadas pelo mestre Emiliano José, acompanhamos com riqueza de detalhes a saga da nossa protagonista, Cleidiana Ramos, jornalista, professora universitária, filha de Oxum, uma autoridade em matéria de diversidade religiosa, de respeito a todas as crenças e tradições, como tem que ser.
Mais
completo que os capítulos anteriores dessa série #MemóriasJornalismoEmiliano,
este transborda de emoção ao resgatar a influência positiva do pai, Chico
Preto, e da mãe, Nazinha, nos caminhos seguidos pela filha. Político,
ex-prefeito de Iaçu, gente do povo, querido por muitos. Ver esse herói ser
chamado de “porco preto” foi a apresentação de Cleidiana ao racismo. E isso a
marcou pelo resto da vida, inesquecível. E por certo também influenciou em sua
trajetória. Era preciso lutar contra aquilo, era necessário gritar, de todas as
formas possíveis de gritar, por IGUALDADE. E ela segue lutando e gritando.
Amigo
de Emiliano pela boa política, aquela com P, Chico Preto ganhou vários
capítulos dessa história. Prá orgulho e emoção da filha. Tantos detalhes que
até para Cleidiana pareceu que o autor de alguma forma espiava os
acontecimentos. A alegria dos pais com a desistência da carreira religiosa, com
a formatura em jornalismo, com cada conquista profissional ou pessoal, provocou
uma cascata de ciscos nos olhos...Guenta coração!
Mas as
memórias foram mais profundas, viajaram também pela história de Iaçu, Cleidiana
nem sonhava em nascer. A presença de comunistas na região em plena ditadura. Um
tema caro a Emiliano, ex-preso político que sentiu na pele (na carne, nos
ossos, no coração) a violência da repressão. Não podia perder a oportunidade de
falar sobre Wladimir Pomar, filho do comunista Pedro Pomar, que seguiu os
passos do pai no PCdoB, e desembarcou em Macondo, digo em Iaçu, em 1962, como
funcionário da GE, fornecedora da Leste Brasileira. Chegou com mulher, dois
filhos e outro “subversivo”, Sebastião da Silveira Carvalho.
Estavam
em Iaçu quando o golpe aconteceu, “com o Supremo, com tudo” (qualquer
semelhança com 2016 não é mera coincidência). Traídos, foram perseguidos e
presos. O episódio é narrado com o suspense característico e envolve as
artimanhas de Chico Preto pra salvar o irmão. A fuga espetacular contou com a
ajuda inocente de Nazinha, grávida do primeiro filho.
Mas
quem pensa que a emoção à flor da pele termina aí, engana-se redondamente.
Estes capítulos da série, um verdadeiro livro à parte, biografia na veia,
mergulha fundo também na vida profissional de Cleidiana, de foca insegura
(redundância¿¿) a editora do maravilhoso caderno anual do jornal A Tarde pelo
Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Uma revolução no jornalismo local,
reconhecida nacionalmente. O Carnaval do Papão foi outra experiência
inesquecível que teve o envolvimento de corpo e alma, como tudo na vida da
nossa protagonista.
O
caderno especial “Água Grande”, sobre o Rio Paraguaçu, o rio que passou em sua
vida, foi igualmente marcante na carreira. E na alma. Publicado pelo jornal A
Tarde no dia 5 de junho de 2004, Dia Mundial do Meio Ambiente, foi “devorado”
com orgulho por Chico Preto, internado num hospital no interior. Esperou
Cleidiana chegar para visitá-lo, dia 7, tentou disfarçar a tristeza, mostrou o
exemplar do jornal, mas sabia que era uma despedida. No dia seguinte partiu
para o Reino dos Encantados.
E a chegada “em casa”, os pés no terreiro onde se reconheceu plena, coroando todo um processo de busca pelo caminho espiritual, vários personagens fundamentais nessa descoberta. Sem pressão, porque, como revelado pelas mães Valnizia de Ayra, Té e Ebomi Cidália, Deus é um só, só muda o nome. A Iaiá do historiador Jaime Sodré (doutor em História da Cultura Negra) chegou por suas mãos e se tornou iaô do Terreiro do Cobre. Hoje ele e Chico Preto estão juntos, no Reino dos Encantados, olhando pela menina Cleide. Axé!
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Emiliano José
Chico Preto.
O País perdeu uma freira.
Ganhou uma jornalista.
Uma brilhante, sensível jornalista.
é uma jovem ex-aluna, e digo assim porque participei da banca de seu Projeto Experimental, como era chamado o trabalho de final de curso.
Por ela, tenho imenso carinho.
Eu a vi crescer como profissional.
Como ser humano.
Vou de Vandré, como em outras ocasiões: prepare seu coração pras coisas que eu vou contar.
Não sei se ela se zanga, creio não.
Vou começar pelo pai.
Logo mais, e não tenho pressa, volto a ela, e conto como a vida em mosteiro foi substituída pelo burburinho, aventura, tormentas da redação.
Vida pela qual se apaixonou.
Pacífico Teixeira Ramos era da política.
Voltado ao bem público.
Amor profundo pela sua terra e seu povo.
Iaçu.
Chico Preto - conhecido assim, amorosamente pela população de seu município.
Não se enganem: era homem de convicções sólidas.
Enfrentava o deserto com coragem, destemor.
Tempo de obscurantismo, de violências, a começar pelo primeiro governo de Antonio Carlos Magalhães.
Militante do velho MDB.
Da aula dos autênticos do MDB.
Do partido de Chico Pinto e do doutor Ulisses, como ele costumava dizer.
Estive em Iaçu algumas vezes.
Nos primórdios, ano de 1982, Chico Preto me apoiou.
Era candidato a deputado estadual pelo PMDB.
Pude desfrutar da deliciosa comida de dona Nazinha - Ana Costa Ramos, mulher de Chico, mãe de Cleidiana.
Numa dessas viagens, fui acompanhado de Magno Burgos, historiador, ex-companheiro de prisão, e também muito amigo de Chico Preto.
A viagem em companhia de Magno Burgos foi no dia Primeiro de Maio de 1981.
Na noite anterior, havia ocorrido o atentado do Riocentro, quando a ditadura iria promover a matança de centenas de pessoas num show, e um dos terroristas, militar, viu a bomba explodir em seu colo e morreu - fácil pesquisar.
Trago lembranças na memória.
Num comício em 1982, eu no palanque, o delegado Edgar Medrado, no meio da plateia, resolveu interpelar, muito irado, o candidato a governador do então PMDB, Roberto Santos:
- Doutor Roberto, o senhor é homem honrado. Mas deve tirar do seu lado esse comunista.
O comunista era eu.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
14
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
o sorriso de Chico Preto, encantamento de Iaçu
Menina,
menina,1982, Cleidiana Ramos tropeçava nas primeiras letras na Escola Dr.
Elísio Medrado, nome de um integrante da família dona de praticamente todo o
município de Iaçu.
Por
isso, por essa condição, pelo fato de a família querer expulsar posseiros, e
Chico Preto estava nessa luta, por denunciar isso, fui chamado de comunista
pelo delegado Edgar Medrado naquele comício com Roberto Santos.
Não
me ofendeu nem um pouquinho.
Quem
disse que não sou?
No
primário, tomando alguma consciência do mundo, Cleidiana teve as primeiras e
violentas noções sobre racismo.
Sentiu
na pele a cor da pele.
Começou
a reconhecer-se preta.
Negra.
A
dor de ouvir o pai ser chamado de "porco preto".
As
crianças diziam isso, alguns de seus colegas.
Traziam
de casa o xingamento, aprendido com os pais.
O
racismo é construção social, cultural.
Ninguém
nasce racista.
Isso
feria seu coração de menina.
Doía.
O
aprendizado sobre o racismo é traumático, dolorido.
Seu
pai era um homem bom.
Tinha
certeza disso.
Por
que o maltratavam assim?
Ela
o verá sempre sorridente.
É,
Chico Preto tinha um sorriso largo.
Quando
se encontrava com Waldir Pires, de quem era muito amigo, os dois gargalhavam,
sorriam à vontade.
Pareciam
desdenhar dos tempos duros.
Atravessá-los
sorrindo, suave maneira de sobreviver a eles sem nunca perder a esperança, nem
a alegria.
Chico
Preto e Waldir Pires eram muito parecidos nessa atitude diante da vida.
Naquele
ano, o primeiro ano do primário, vejam só as artes do destino, seu pai, xingado
por alguns coleguinhas, vítima de odioso racismo, era eleito prefeito da
cidade.
Preto,
preto retinto, negro de sorriso aberto e de alma generosa, era reconhecido por
seu povo.
Que
beleza, não?
Não,
em seu coração de menina, ainda não existia o sentimento da vingança.
Nem
creio exista hoje.
Podia
sentir-se vingada.
Mas,
não.
Orgulhou-se,
justo orgulho, isso sim, ao ver Chico Preto, seu pai, prefeito do PMDB.
Percepções
ainda de gente quase inocente.
Seu
pai, seu herói.
Convivi
com Chico.
Fui
amigo dele.
Nunca
o vi de semblante sombrio.
Aura
especial.
Alegrava
o ambiente.
A
vida, pra ser vivida.
Ditadura,
pra ser combatida.
Alguém
deixa de admirar um pai desses?
Cleidiana
se emociona até hoje ao falar nele.
Tem
razões para isso, já passados 16 anos da morte dele.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Como não se
emocionar com uma história dessa, né amiga Cleidiana Ramos? É assim que estou
agora, imagino você relembrando tudo isso.....uma lição de resistência, só
orgulho
Cleidiana Ramos: Cara Mônica
Bichara...o nobre Emiliano José trazendo essas histórias à tona..quem aguenta?
E eu aqui com essa missão de reforçar porque não é que só dá Chico Preto nessas
lembranças ?
Mônica Bichara: Guenta,
coração.....Pode ir tratando de dar corda e munição a Emiliano José que conheço
parte dessa história e sei que tem um material rico vindo por aí. Já ansiosa
pelos próximos capítulos
Oliveira Brown: Menina Cleid,
brava e doce companheira de luta e de jornalismo! Tive a sorte de conhecer
Chico, logo quando Cleidiana chegou ao jornal A TARDE. Sorte e privilégio. E me
mantive na família, com minha "mãe" Nazinha, maravilhosa!
Mônica Bichara: Sabia que vc
ia gostar, Brown
Oliveira Brown: Abraços!
Bomfim
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Emiliano José
15
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
Zezinho de Ogum e Chico Preto
Vocês
sabem: minha protagonista aqui é Cleidiana Ramos, essa maravilha de repórter,
essa pessoa sensível, amorosa.
Sempre
alerto: a gente não manda no texto.
Volto
a ela, prometo, me aguardem - sejam tolerantes comigo.
Ela
me fez recordar Pacífico Teixeira Ramos - é, esse era o nome dele.
Amigo
querido.
Pai
dela, vocês também já sabem.
Ninguém
conhecia Pacífico.
Conhecia
Chico Preto.
Homem
do povo.
Tão
conhecido e querido a ponto de ser prefeito entre 1971 e 1973, olhem só, o
período mais sombrio da ditadura - nesse tempo eu experimentava prisão.
Eleito
pelo MDB.
E
em 1982, Chico Preto está de volta.
Iaçu
o escolhe prefeito novamente, pelo PMDB.
Vocês
estão lembrados de ontem: crianças induzidas por pais racistas, filhas de uma
elite cheia de ódio e preconceito, chamavam Chico Preto de "porco preto" na escola onde
Cleidiana fazia o primário.
Uma
sonora gargalhada deve ter sido a reação dele se a filha lhe contou isso.
E
depois uma boa conversa.
Eleito
em 1982, pensou um jeito diferente de comemorar.
Deve
ter pensado, e ao pensar, sorriu sozinho:
-
Por que não trazer Zezinho de Ogum pra porta de minha casa?
Chico
Preto era uma ousadia só.
Trouxe.
Zezinho
de Ogum era um curador.
Pelos
sertões, ninguém chama, ou não chamava, as religiões afro-brasileiras de
candomblé ou umbanda.
Não
tem nome.
Um
curador - poderíamos chamá-lo também um pai de santo.
Curador
era - e é - quem organizava, dirigia os rituais indispensáveis à cura de
alguém.
Quem
o procurasse, lá estava Zezinho de Ogum à disposição.
Para
as dores do corpo e da alma.
Branco,
preto, pobre, remediado o procuravam.
Meio
na surdina, sempre.
Chico
Preto chamou Zezinho de Ogum pra porta de sua casa, ele e seu afoxé, e o povo
dançava, rebolava, sorria, se esbaldava, bebia, comemorava naquela noite de 15
de novembro de 1982.
Saboreava
vitória, degustava.
Não,
Chico Preto não discriminava ninguém.
Pense
num sujeito capaz de abraçar o mundo - era ele.
Fosse
preto, fosse branco, pobre, remediado -
apenas os poucos ricos não gostavam dele.
Agora,
chamar Zezinho de Ogum foi gesto de quem anda de cabeça erguida.
De
quem não renega amizades.
De
quem celebra vitórias lado a lado com os seus.
Dando
um tapa na cara da intolerância.
Afrontando
o racismo, a seu modo.
Chico
Preto sendo Chico Preto.
Com
orgulho.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Emiliano José
nessa homenagem linda a meu pai, Chico.
Mônica Bichara: Já conhecia
algumas histórias de Chico Preto contadas pelo amigo jornalista José Bomfim, tb
amigo de Cleidiana Ramos e admirador do pai dela, mas já me apaixonei também
Isabel Santos: "Essa
maravilha de repórter, essa pessoa sensível, amorosa", concordo com você,
Emiliano José. Com certeza, vamos ser brindadas (os) com belas histórias da
trajetória dessa nossa querida colega Cleidiana Ramos, contadas por 'sua
pessoa', com a maestria e poesia de sempre. Ela tem muito a dizer, nós, a
conhecer, e os jornalistas da novíssima geração tomar como referência para
ampliar o aprendizado. Mônica Bichara deve estar com os dedos coçando para fazer
mais uma bela edição rssss
Mônica Bichara: Isabel Santos
nem fale, cumade, nem fale
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Emiliano José
16
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
Chico Preto x ACM
Amanheci
pensando: que diabos estou fazendo?
Uma
voz sussurra: não é de Cleidiana Ramos a sua palavra, não é ela sua
protagonista?
Sim,
eu argumento,mas pai é pai, e esse pai não era um qualquer.
E
a voz retruca, recorrendo a Paulinho da Viola: tá legal, eu aceito o argumento,
mas não me altere o samba tanto assim.
Já
deu: vamos falar de Cleidiana?
Com
jeito, ainda peço licença.
Aos
mais velhos e aos mais jovens.
Como
se pede no candomblé.
Peço
licença a Cleidiana.
Pra
falar ainda um tiquinho de Chico Preto, seu amado pai, já no reino dos
encantados.
Como
todo prefeito eleito, Chico Preto pediu audiência com o governador.
Era
sua responsabilidade com os destinos do município.
Estamos
falando de 1970, primeira eleição dele.
Havia
uma fila.
Uma
conversa o impressionou, logo de cara.
Um
casal, muito humildemente, solicitava um cargo de delegado escolar.
ACM
ouvindo, sem sequer levantar a cabeça, tudo muito de acordo com sua arrogância,
responde:
-
Peça a seu marido pra falar com Luiz Viana.
Só
isso.
E
o casal se foi, sem nada nas mãos.
Chico
Preto, impressionado.
Aquilo
lá era jeito de tratar as pessoas?
Chegada
a vez dele, ACM, ao ouvir o nome da cidade, ficou tentando localizar Iaçu.
Pensou
um tanto, e depois disse:
-
Ah, o senhor derrotou nosso candidato lá...
Chico
Preto pensou: não vim aqui discutir isso, ele não age como governador.
Era
ACM sendo ACM.
E,
assim como quem nada quer, puxou Chico pra bem perto dele, e disse sussurrando
entre dentes, raivosamente:
-
Volte pra sua terra. Daqui não sai um tostão pro seu município.
Sereno,
Chico Preto, sem alterar a voz, também ao pé de ouvido, respondeu:
-Certo,
governador. Darei seu recado ao povo de Iaçu.
Chico
Preto sendo Chico Preto.
Talvez
Cleidiana, orgulhosa, possa se reconhecer no dito popular, de costumeiro uso:
-
Quem sai aos seus não degenera.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Emiliano José
pode continuar a falar de Chico...Com esse seu passeio por essas memórias tô
quase convencida de que achei a resposta que procuro há anos do porquê de ter
virado jornalista: acho que foi por obra e graça desse pai que, realmente, era
especial...continue a falar dele porque tem.muito mais dele nessa minha
trajetória.
Emiliano José: Cleidiana
Ramos Já mexi, sobre o episódio com ACM
Cleidiana Ramos: Maravilha.
Você é um.bamba nessa seara...
Mônica Bichara: Mais uma
"Em nome do pai", difícil mesmo mudar o rumo dessa prosa. Resposta
merecida de Chico a ACM, deve ter espalhado pra Iaçu inteiro. Bem feito
Cleidiana Ramos: Sim , Mônica
Bichara.o velho Chico também usava o deboche como arma.
Mônica Bichara: Grande arma e
a ironia matava o malvadeza, ele espumava de rancor. Só ele podia ser irônico e
ferino
Isabel Santos: Maravilha,
Cleidiana. ACM deve ter 'espumado' com a atitude de Chico. Grande pai, grande
cidadão.
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(Nazinha de Chico Preto)
Emiliano
José
17
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
com Chico Preto não se brinca...
Tenho
dito: logo logo passo a contar a trajetória de Cleidiana Ramos.
Juro
por todos os santos e orixás: iria começar hoje.
Mas,
e o mas é um inferno, Chico Preto se insinua, parece ainda soprar coisas no
ouvido da filha.
Vá
lá se saber como, mas ele sopra.
Adora,
sempre adorou, contar causos.
E
ela própria, a me apertar a mente.
-
Conta, vai.
Então,
responsabilidade dela.
Eleição
de 1986.
Chico
Preto convence Waldir a ir a Iaçu.
Festa
de aniversário da cidade, 14 de agosto.
Chico,
prefeito, programou várias inaugurações.
Até
jogo entre a seleção de Iaçu e o Fluminense de Feira.
Pintou
um probleminha no pedaço: seu adversário político, José Carlos Vaz Sampaio,
resolveu entrar no jogo.
Programou
um almoço para Waldir na casa de dona Niva, ex-diretora do Centro Educacional
de Iaçu, colégio onde Cleidiana fez o ginásio.
Candidato
não recusa nada.
Chico
dormiu preocupado no dia 13.
Waldir
não podia ir àquele almoço.
Dona
Niva estava rompida com Chico Preto desde a saída da direção do colégio.
Gente
de Zé Carlos.
Um
jeito havia de dar.
O
dia raiou, e ele pensando.
Nem
dormir direito dormiu.
O
motorista de Waldir era conhecido de Chico.
Quando
o viu, o estalo de Vieira.
Chamou
o motorista de lado, assim como se fosse urgência absoluta, e informa: Waldir
não pode ficar pro almoço, o comício de Itaberaba foi antecipado.
-Tem
de sair daqui no máximo às 13 horas.
-
Vou arrastá-lo para o carro e você se manda. Não pare pra ninguém.
Chico
informou Waldir também e depois de algumas atividades, toma-o pelo braço,
arrasta-o, e joga-o no carro:
-
E Jutahy e Bacelar? - pergunta Waldir.
-
Vá, não se preocupe, eu mando levar, responde.
O
almoço não contou com a presença de Waldir.
Dona
Niva e Zé Carlos, pesarosos.
Putos
com a jogada de Chico, arte dele, tinham certeza.
O
comício de Itaberaba foi à noite.
Waldir
teve um bom tempo para descansar.
Riu
muito mais tarde quando Chico Preto lhe contou a manobra.
Malandro
é malandro.
Mané
é mané.
Vá
brincar com Chico Preto, vá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Emiliano José....cada
vez tenho mais certeza que já era um encantado em vida. Com certeza amigo
íntimo de seres do Paraguaçu, como o Nego d' Água...obrigada, amigo. Meu pai
merece uma homenagem assim...
Emiliano José: Cleidiana
Ramos Até hoje, ele vai abrindo espaço... Brinque com ele, brinque...
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(Formatura de Cleidiana em magistério - 1992)
Emiliano José
18
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
Chico Preto, comício, faca amolada
Cotoveladas.
De
vez em quando, o diabo dá umas cotoveladas.
Provoca.
Avisa.
Mas,
hoje, por mais ele faça, não vou dar atenção.
Tá
me dizendo: rapaz, tem mais histórias de Chico Preto.
Eu,
resisto.
Hoje,
começo a falar de Cleidiana Ramos.
-
Rapaz, mas os leitores são os prejudicados.
Penso
no velho ditado, recorrente em mim: o diabo é sábio não porque é diabo, mas
porque é velho.
Resolvo
ceder.
Custa
nada.
Faz
mal não, ceder a uma tentaçãozinha de nada.
Tantas
na vida, uma que seja, ninguém vai pro inferno por isso.
Cleidiana,
minha protagonista, é muito jovem.
Pode
esperar, não é verdade?
E
o pai merece respeito.
O
respeito devido aos mais velhos.
Estava
lá Chico Preto fazendo comício em João Amaro.
É
o distrito mais famoso de Iaçu.
O
que tem mais história, berço da cidade.
Começou
a falar, e de repente ouviu a voz do adversário, azucrinando sua mente.
Era
José Carlos Vaz Sampaio.
Havia
ocupado os microfones do serviço de alto-falante de propriedade dele, e
tacava-lhe o pau em Chico Preto.
Embaralhava
tudo.
Queria
impedir o comício de Chico.
E
estava conseguindo.
Chico
Preto tentava entender a fala de Zé Carlos, e não conseguia articular seu
próprio discurso.
Chamou
Terêncio - motorista dele.
Não,
não se chamava Terêncio.
Ganhou
o apelido porque Chico gostou do
personagem de Roque Santeiro vivido por Toni Tornado - era a única novela a
deixá-lo acordado depois do Jornal Nacional.
Chamou
Terêncio, cochichou no ouvido:
-
Tá vendo aquele poste?
-
Sim senhor.
-
Então, suba lá, corte aquele fio, é do alto-falante da peste que está me
azucrinando o juízo.
Terêncio
não contou conversa: dois minutos, e se encarapitou no poste, faca amolada nas
mãos, e o fio foi pro chão.
Silêncio.
Zé
Carlos sem voz.
Chico
Preto voltou a falar, tranquilamente.
Agora,
só ele.
Quando
desceu do palanque, lá estava Zé Carlos, puto dentro das calças, esbravejando,
acusando Chico Preto de ter atentado contra a liberdade de expressão.
Bate-boca
no meio da rua.
Chico,
falava pouco.
Olhava
pra Zé Carlos, e sorria.
Aquele
sorriso matava o adversário.
O
que tinha de ser feito fora feito.
Aquilo
era choro de perdedor.
Malandro
é malandro, mané é mané.
Vá,
vá brincar com Chico Preto, vá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Emiliano
José..Chico Preto não pode ir embora assim...deixa ele.aí..haha...
Emiliano José: Cleidiana
Ramos chega, né?
Cleidiana Ramos: Vamos ver se
ele concorda. Em seu socorro vou lhe sonegar uma história, mas antes de você
contar a história do levante eu te entrego ela ..vc não vai resistir haha
Oldack Miranda: Para variar,
eu estava lá nessa viagem. O pessoal falou "vamos em João Amaro" e
eu, na minha monumental ignorância pensei que era a casa de algum líder. Era o
principal distrito de Iaçu. Calado estava calado fiquei naquela confusão toda.
Mônica Bichara: Deixa Chico
Preto contar mais causos, Cleidiana Ramos espera
Isabel Santos: rsssssss Amo
causos. Com a pimenta de Emiliano José, então. Deixa Cleidiana Ramos, deixa...
Cleidiana Ramos: Isabel Santos
já dei toda a autorização..vou até editar um decreto na condição de Marquesa do
Paraguaçu...rsrs
Emiliano José: Cleidiana
Ramos Marquesa, hoje segui caminho diverso... Decreto chega tarde
Cleidiana Ramos: Emiliano José
acabei de ver..a realeza ainda dorme no ponto com os revolucionários da
democracia. Mas me aguarde haha.
Isabel Santos: Cleidiana
Ramos rsssss Você, sempre massa. Bjos
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Emiliano José
19
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
descartando Chico Preto, por enquanto
Chico
Preto é um baita personagem.
Por
isso, as pessoas ficam a me atazanar o juízo.
Deixa
o homem contar seus casos, deixa.
Mas,
o narrador deve ter tino.
Senão
o personagem ocupa a cena, e ninguém mais consegue tirá-lo da ribalta.
Vocês
viram: ele não é brinquedo, não.
Com
aquele sorriso aberto, aquela alegria desabrida, aquele jeito especial de amar
a vida, ele tomava conta do ambiente.
E
houvesse algum obstáculo, ele só pedia a Deus um pouco de malandragem, e
resolvia o assunto.
Então,
com um sujeito assim, e o pior, de um camarada de quem fui muito amigo, o
narrador deve se prevenir.
Senão,
ele toma a mão dele e segue contando suas histórias, as centenas delas.
Claro,
ele reaparecerá.
Hoje,
vamos começar a perseguir Cleidiana Ramos.
Quem
é essa mulher?
Como
chegou ao jornalismo?
Filha
de Chico Preto e de Ana Costa Ramos, dona Nazinha.
A
mulher mergulha em rememorações, tempo de menina.
E
Nazinha a incentivar a leitura, insistindo.
Leitura
é a chave do mundo.
Nazinha
ia ensinando desde a meninice mais tenra.
E
ela, gostando, se amasiando dos livros.
Lembrei
de um conto de Clarice Lispector, vocês poderão ler, "Felicidade
clandestina", a protagonista extasiada:
-
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem
tocá-lo, em êxtase puríssimo.
-
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.
Talvez,
aí, nessa paixão, esteja, quem sabe, a fonte de sua escolha pelo jornalismo.
Mas,
calma, isso não é igual produzir caldo de cana: pega a cana, coloca no moedor,
e o caldo sai do outro lado prontinho.
Não,
tem história por detrás dessa trajetória.
Fez
o primário em Iaçu mesmo.
Na
Escola Doutor Elísio Medrado.
Fez
magistério depois - em Iaçu era a única opção caso quisesse concluir o ensino
médio na cidade.
Por
que caminhos, nem ela explica muito bem: aproximou-se do cristianismo.
Nasceu
em Cachoeira.
Considera-se
no entanto filha de Iaçu, onde viveu grande parte da infância e da
adolescência.
Outra
cidade ocupa sua memória: Amargosa.
Visitava-a
regularmente.
Fez
isso por cinco anos.
É
sede da diocese à qual Iaçu está vinculada.
Lá,
havia uma comunidade das irmãs sacramentinas...
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita..começou.
Mas vocês vão ver que Chico vai voltar em grande estilo...
Emiliano José: Cleidiana
Ramos Agora, você, que mistérios têm Clarice/Cleidiana?
Mônica Bichara: As histórias
são igualmente fortes, cada uma mais interessante do que a outra. Melhor
entrelaçar mesmo, porque é muita paixão envolvida
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(Formatura em magistério, 1992)
Emiliano José
20
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
em busca da vocação
Em
Amargosa, me dizia Cleidiana Ramos, havia uma comunidade das irmãs
sacramentinas.
Amargosa
é cidade querida.
Fui
apresentada a ela por Waldir Pires.
Vocês
sabem, já leram biografia escrita por mim e se não o fizeram seria bom, Waldir
nasceu no Cajueiro, mais tarde Acajutiba.
Com
três anos, chegou a Amargosa.
Ali
viveu infância e adolescência.
Ali
fez seu primeiro discurso, ao saudar visitantes da cerimônia, com missa e tudo,
da implantação da sexta diocese da Bahia, sediada pela cidade a partir dali.
Tinha
apenas 15 anos de idade, 15 de agosto de 1942.
Foi
cidade importante.
Entre
o final do século XIX e a década de 1950, viu florescer mais de quarenta
jornais - é brinquedo?
No
final do século XIX, ostentava um Theatro Variedades, com 300 lugares.
Cidade
do Café.
Cidade
de belíssimos jardins.
Linda.
Vá
lá, estou fazendo publicidade, leiam meu livro, e saberão de tudo isso, e
sobretudo da história de Waldir.
Lembrei
em homenagem a Cleidiana.
Iaçu
ficava pertinho de Amargosa - coisa de 100 quilômetros.
E
estava vinculada à diocese de Amargosa.
Ia
conhecendo cidades: nascera em Cachoeira, vivia em Iaçu, e durante cinco anos,
toda a adolescência, ia regularmente à cidade-jardim.
Atraída
pela comunidade das sacramentinas.
O
cristianismo ia puxando-a.
Lá,
entre as sacramentinas, ia absorvendo as diretrizes para ter a sua vocação
revelada.
Queria
ser freira, consagrar-se a serviço de Deus.
Aos
poucos, ia conhecendo sua casa, aquela a se constituir em sua casa em futuro
muito próximo.
Ordem
antiga, a Congregação das Irmãs do Santíssimo Sacramento, vem lá do início do
século XVIII.
Ao
Brasil, chega no iniciozinho do século XX.
As
religiosas prestariam serviços em hospitais e colégios.
Essa
ideia de servir ao próximo fascinava Cleidiana.
O
jornalismo nem resvalava seu espírito ainda.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Uau! Esse
Emiliano José não é graça...
Mônica Bichara: Brinque com
esse aí, tá fazendo uma revolução em nossas vidas ......Aliás, revolução é com
ele mesmo
Carlos Roriz Silva: Jornalista
político de vocação!
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Emiliano José
21
de setembro 2020
Cleidiana Ramos
e seus mergulhos espirituais
Amargosa
era quase uma nova morada para Cleidiana Ramos.
Jornalista,
será um dia.
Mas,
nesse tempo, outra vida.
Semanalmente,
estava lá entre as sacramentinas, passeando pelos seus belos jardins quando
podia.
De
verdade, de verdade, mergulhando nos mistérios do cristianismo, tentando se
entender, buscando saber se era vocação, se era apenas um impulso aquele desejo
de voltar-se à vida religiosa, dedicar-se de corpo e alma a servir ao próximo.
Desde
os 12 anos de idade fez isso.
Chegou
a passar três semanas com as sacramentinas durante um período de férias.
Havia
os encontros vocacionais.
Neles,
ocorria uma imersão maior, retiro espiritual, muitas palestras.
Nesses
encontros, meninos também podiam participar, eram reuniões mistas.
Aí,
a Igreja aprofundava, mexia com a alma da meninada, vasculhava o espírito da
juventude.
Não
queria ninguém ali sem vocação.
Quem
quisesse, ajoelhou é pra rezar.
Sem
vacilação.
Afinal,
não quisesse ser freira, não topasse abraçar o sacerdócio, havia o caminho do
matrimônio, também um chamado especial,
um sacramento.
Igreja
sabe formar seus quadros.
Lembro
de Gramsci falando o quanto a Igreja Católica sabe formar um exército
disciplinado, preparar seus capitães, seus quadros dirigentes, dar-lhes estudo,
base, de modo a resistir a todas as tempestades.
Não
por acaso está aí há tanto tempo, não é verdade?
Dois
mil anos não são dois dias.
Cleidiana
estava no ensino médio, e conforme o tempo passava, chegava o momento de
decidir, tomar posição definitiva.
Hora
da onça beber água.
A
dura escolha...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Este Emiliano
José não é de brincadeira, minhas senhoras e meus senhores..haha
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(Contemplando o Rio Paraguaçu)
Emiliano José
22
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
à beira do Rubicão, quase freira
Não,
Cleidiana não fazia segredo de suas pretensões.
Seu
pais sabiam, claro.
Ora,
como iria toda semana pra Amargosa se não soubessem?
Nazinha,
a mãe, não levava muito a sério os arroubos religiosos da filha.
Era
como se dissesse deixa a menina vamos ver até onde ela vai com essa história.
Tinha
mais: Nazinha confiava em Chico Preto.
Tinha
certeza: na hora h, ele daria um sonoro não.
Cleidiana
chegou a ouvir isso de alguns amigos dele.
Vai
deixar nada...
Chico
Preto, no entanto, só olhava, assuntava.
Como
se dissesse, filha, filho, a gente só dá exemplo.
O
caminho, ele não se enganava, quem traça são os próprios filhos.
Chega
o momento, decidem.
E
aí, que jeito dar?
Deixava
o rio seguir o seu curso.
Sabedoria.
E
Cleidiana mergulhava.
E
teve dia decisivo: a madre geral das Irmãs do Santíssimo Sacramento chegou a
Amargosa.
Estava
em viagem ao Brasil, em visita a todas as casas das sacramentinas espalhadas
pelo País.
As
candidatas a freira, aquelas mais promissoras, foram convocadas para um
diálogo.
Uma
a uma.
Irmã
Lídia, a superiora de Amargosa, acompanhou a conversa.
Houve
muito respeito e consideração.
A
madre geral revelou: tinha informações sobre Cleidiana, sobre toda a trajetória
dela:
-
Queremos lhe dar a oportunidade de uma experiência mais profunda com a
Congregação.
Para
tanto, devia passar a morar em uma das casas sacramentinas.
Assim,
seria testada.
Saberia
se queria de fato seguir o caminho da dedicação religiosa.
Ou
não.
Sentiu
um friozinho na barriga, uma ponta de preocupação.
E
orgulho por ser assim distinguida.
Aceitou.
Queria
isso: tomar rumo na vida.
Decidir-se.
Brevemente
seria comunicada sobre a cidade escolhida.
Alguns
dias passados, e é informada - iria para Cachoeira.
Justo
Cachoeira, a cidade natal.
O
mundo estava prestes a perder o que viria a ser uma grande jornalista.
Agora,
a parte mais difícil.
Conversar
com os pais.
Esperou
o "Jornal Nacional" acabar e...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Maria Marighella: Cleidiana
Ramos ❤ Emiliano José ❤
Rosangela Maia: Amando essas
memórias!
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Emiliano José
23
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
assembleia com os pais,
partiu convento,
partiu Cachoeira
Todas
vocês, todos, hão de convir: não é fácil a uma menina, ali pelos 17 anos, conversar
com os pais sobre uma decisão já tomada.
Claro,
podia eventualmente voltar atrás, fosse intransponível a barreira, fosse muito
intransigente a negativa de pai e mãe.
Mas,
era uma decisão, uma escolha.
Cleidiana
pretendia ir para Cachoeira.
Sentir
de perto a vida sacramentina.
Quem
viveu esses dilemas, quem experimentou as encruzilhadas religiosas, sabe não
ser fácil.
Precisava
dessa experiência para poder se decidir de modo definitivo.
Havia
anos aquele namoro.
Agora,
ou atravessava o Rubicão, ou dava meia volta e tocava a vida de outra maneira.
Tensa,
assistiu ao "Jornal Nacional".
Chico
Preto só dormia depois desse noticiário.
Nazinha,
a mãe, bancando a aposta na negativa do marido, exigiu: a reunião, para
decidir, deve ser a três.
Cleidiana
começou um pouco insegura, depois mais firme.
Disse
tudo, rezou o terço inteiro.
Os
dois ouvindo.
Nazinha,
quase não respirava.
Não
apenas era contra - era absolutamente contra.
Chico
Preto, olhar suave, amoroso, perguntou:
-
É isso mesmo que você quer, minha filha?
-Sim
- respondeu Cleidiana, sem relutar.
-
Então, se é o que você quer, siga o seu caminho.
Nazinha
subiu nas tamancas.
Trovejou.
Era
um erro.
Ainda
assim, não quis barrar o caminho da filha:
-
Não vou carregar o peso de mais tarde ouvir de você não ter feito alguma coisa
porque eu impedi, porque disse não.
Mas
alertava:
-
Como mãe, no entanto, é minha obrigação alertar que você está errada em ir para
um convento.
Cleidiana
estava disposta a não ceder aos apelos da mãe.
Erro
houvesse, e tinha de descobrir por conta própria, e não porque os pais
ajuizassem seus caminhos.
A
experiência é mestra da vida - já compreendia isso, adolescente fosse.
Hoje,
olha para trás, e considera o quanto sua mãe tinha razão, o quanto tinha de
poder intuitivo, só explicável por conexões ancestrais, conexões tão
valorizadas por Cleidiana nos dias atuais, com outra visão de mundo, inclusive
religiosa.
Foi
um instante especial em sua vida.
De
extraordinário valor pedagógico para sua existência.
Permitiram
seu voo.
Não
a prenderam ao chão.
Partiu
convento.
Partiu
Cachoeira.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
24
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
admirável mundo
novo,
deslumbrante e assustador
Partiu
Cachoeira.
Verdes,
verdes anos.
Janeiro
de 1993.
Chegada
aos 17.
Como
era bonita sua cidade natal.
Só
agora iria conhecê-la mais de perto.
Não
sabia quanto tempo ficaria.
Era
um teste, mas agora desfrutaria, viveria Cachoeira.
Os
olhos espalharam-se pelas águas do Paraguaçu.
Pensou:
ótima a localização do Convento.
Encostado
à ponte histórica, centenária, a ligar a cidade com a do outro lado, São Félix.
Colégio
do Santíssimo Sacramento.
E
ao lado, a Casa das Irmãs, onde ficaria.
Um
conjunto só.
Uma
das freiras fazia as honras da casa quando chegou.
Logo
conhece seus aposentos.
Impressionou-se
com a imensidão do quarto.
Dez
camas.
Só
para ela e uma outra candidata a freira.
Não
existiam mais internas do colégio, por determinação da direção sacramentina.
Ali
só ficariam as meninas dispostas a testar a vocação.
Outras
logo chegariam.
Souberam:
escolhida a cama, não podiam mais mudar.
Mais:
o lugar à mesa, também, devia ser o mesmo até o fim da permanência no convento.
Questão
de disciplina.
Igreja
guarda semelhança com as práticas militares.
Gramsci,
já disse, de alguma forma registrou isso.
Falava
na formação dos "capitães", essencial ao exército católico.
Dormir
na mesma cama, ocupar o mesmo lugar no refeitório, tudo era parte da disciplina,
sem desconsiderar, também, a disciplina do próprio corpo, cuidado com muito
zelo pela Igreja Católica.
Tudo
era novo.
Admirável
mundo novo.
Deslumbrante
e assustador ao mesmo tempo.
Será
que o jornalismo a perderia?
A
freira preceptora foi logo rezando a cartilha.
Não
pensassem em vida fácil, ali.
Iriam
ajudar em todo o funcionamento da casa.
E
do colégio.
Dormir?
Tudo
bem.
Mas,
levantar muito cedo: às cinco da matina.
Tomar
banho e...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
25
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
a dura rotina da vida monástica
Às
5 horas, levantar-se.
Sem
choro, nem vela.
Quer
se dedicar à vida monástica?
Então,
disciplina.
A
Igreja Católica sempre tratou isso com muito zelo.
Como
servir a Deus sem disciplina?
Negativo.
Cleidiana
aprendeu desde o primeiro dia.
Levantar,
tomar banho.
Às
6 horas, sagrado: missa.
Celebrada
pelo capelão, padre Ricarte, também pároco de São Félix.
Igreja,
vocês sabem, é masculina.
Ao
menos depois de institucionalizada.
Por
que as mulheres não podem ser sacerdotisas, ministrar sacramentos?
Ter
os mesmos poderes dos homens?
Perguntas
ao vento, talvez impróprias aqui.
Tomar
café e às 7 horas uma ia para a portaria até a chegada da funcionária, a outra
ia ajudar as cozinheiras, dona Augusta e dona Bubu a cortar legumes, descascar
batatas, catar feijão, o diabo - desculpem o uso do diabo num ambiente tão
religioso, ele sempre se intromete onde não deve.
Às
8 horas, a da portaria ia ajudar a professora no maternal.
Como
as duas eram formadas em magistério, natural ajudassem a professora.
Brinquedo,
não: crianças de dois a quatro anos não são fáceis.
Recepcioná-las,
olhar atentamente o movimento de cada uma, e olha, elas se movimentam como o
diabo, eita, olha ele aí de novo atentando, ficar atenta a qualquer pedido da
professora regente.
Às
dez horas, encontrar-se com irmã Luzia para ajudá-la nas tarefas da cozinha,
pela qual ela era responsável.
É,
vocês estão pensando em vida fácil?
Ficar
meditando de pernas para o ar?
Porra
nenhuma - eita, não cabe essa expressão em ambiente de tanto respeito.
Aí,
nesse momento, havia uma troca de guarda: a que estava na cozinha ia para o
maternal, a do maternal ia para a cozinha.
Meio-dia,
almoço.
Em
ponto - disciplina, essencial.
Às
13 horas, uma ao menos ia para o pátio.
Agora,
recepcionar e ficar de olho nas inevitáveis travessuras dos alunos e
pré-adolescentes da 5ª a 8ª série.
Em
seguida, a vida não para, as duas iam para a biblioteca.
Ajudar
no controle de reserva e empréstimo de livros, e se fosse o caso acionar o
sistema audiovisual - videocassete, se alguma turma necessitasse: filmes, aulas
de Telecurso segundo grau, o diabo a quatro, eita olha eles nos revisitando.
Cleidiana
confessa: adorava a tarefa.
Era
o horário mais feliz do dia.
Navegou
por coletâneas inteiras.
Machado
de Assis, José de Alencar, tantos outros.
Sobrasse
um tempinho, e lá estava ela debruçada sobre os clássicos da literatura
brasileira.
Quem
sabe, isso não lhe tenha ajudado muito para a opção pelo jornalismo mais tarde?
Da
biblioteca...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Jose Jesus Barreto: Fui
seminarista, dos 10 aos 16 anos, internato duro, sei bem. Mas não me arrependo
nem me queixo. Há coisas boas.
Emiliano José: Jose Jesus
Barreto De fato: vc conhece bem.
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Emiliano José
26
de setembro 2020
Cleidiana Ramos:
liturgia das horas,
fazer a feira, catequese, esfihas
Da
biblioteca, terminado o plantão, às 17,30 horas, Cleidiana saía correndo.
Passava
água no corpo, segundo banho do dia, e saía picada piripicada.
Às
18 horas, na Capela.
Sem
atrasar um minuto - disciplina.
Oração
das Horas.
Salmos,
cânticos, leitura de passagens bíblicas, elevação de preces a Deus.
Momento
de pausa, de afastar-se da agitação do dia.
E
recordar: a Obra é de Deus.
Cleidiana
até hoje lembra desse momento como um rito belo, mágico.
Também
conhecido como Liturgia das Horas.
São
realizadas, em muitas casas religiosas, várias vezes por dia.
Nas
Sacramentinas, havia a das 5 horas, não obrigatória para as candidatas a
freira, e a das 18 horas, e nesta não podiam faltar.
Em
seguida, rezava-se o terço, e logo depois, jantar.
Antes
de a comida ser servida, lavar as panelas usadas porque as duas funcionárias da
cozinha já haviam saído.
Às
20 horas, iam para a comunidade, a assim chamada sala onde era assistido o
"Jornal Nacional" - era o único permitido.
Terminado
o jornal, dormir.
Tivessem
sono ou não.
Disciplina.
No
sábado, dia de feira.
Acompanhavam
irmã Luzia, ajudavam-na na escolha de tudo, e depois buscavam irmã Ana Maria,
mestra responsável pelo acompanhamento espiritual delas e a única a saber
dirigir, colocavam tudo no carro e toda o bonde pro Convento.
Domingo,
Murutuba.
Povoado
da zona rural de Cachoeira.
Havia
um sítio das Sacramentinas lá e Cleidiana dava catequese para as crianças.
Enquanto
descansava, carregava pedra.
Disciplina.
Havia
momentos de muito prazer.
Como
a parada para o lanche, todo dia, às 15 horas.
Ah,
esse lanche.
Pastéis,
esfihas encomendadas, Cleidiana lembra até hoje do paladar, nunca comeu uma tão
gostosa como aquelas, nem em restaurantes árabes, era tanta coisa gostosa, até
hoje ela saliva.
Já
conhecia um pouco de Cachoeira e isso...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente: a
descrição das cenas. O que é o domínio do texto. Parece que Emiliano tava lá.
Mônica Bichara: Ele tem esse
poder e nos transporta para as cenas, dá para imaginar até o que vem pela
frente. Esse noveleiro.....
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Emiliano
José
27
de setembro 2020
Cleidiana Ramos: em casa, romaria
de visitas, olhos de ressaca da lua...
Imaginava
fosse rápida a passagem pelo convento de Cachoeira.
Sabe
nada, inocente.
Personagem
tem artes do cão.
Arrasta
a gente.
Às
vezes, como furacão.
Ou,
suavemente.
Mas,
arrasta.
De
um jeito ou de outro.
Cleidiana
é assim.
Menos
furacão, mais suavidade.
Com
jeitinho, vai me levando, me pega pelas mãos, como quem nada quer, querendo.
Levado
assim a trocar mais uns dois dedos de prosa sobre a presença dela na Cidade
Heroica.
É,
nessa prosa, ainda não havíamos dito: nossa quase-freira já conhecia Cachoeira.
Não
só por terra natal.
Por
isso não: 17 dias de nascida e seus pais picaram a mula pra Iaçu.
História
é outra.
Ela
e Nazinha, a mãe, volta e meia davam as caras por lá, hospedando-se nas casas
de Genésio, de Antônio Sodré, tios-avós maternos.
E
havia, ainda, o doutor Antonio Maturino, médico de Cleidiana até os dias de
hoje, presença na Santa Casa da cidade há meio século.
E
havia Doralice, muito amiga de Nazinha, de quem ainda nos ocuparemos à frente.
Então,
estava em casa.
As
freiras olhavam-na atravessada.
Melhor
estivesse num lugar onde não conhecesse ninguém.
Uma
das religiosas chegou a murmurar: antes fosse enviada para Nova Soure.
Havia
uma romaria de visitas a ela no convento.
E
as freiras, ressabiadas.
Candidata
a freira, não deve ter tanta ligação com o mundo.
O
mergulho num convento nessa fase requer recolhimento, introspecção.
Só
assim se alimenta o fervor religioso, anima a vocação, desenvolve-a se ela
existir.
Nazinha
atrapalhava o recolhimento: danava-se a informar a parentada, amigas, todo
mundo - minha filha está aí, visitem-na.
Mas,
vejam bem, não foi assim tão rápido.
Passou
um mês sem botar os pés na rua.
Um
dia, uma freira teve uma brutal crise de coluna.
Alguém
precisava buscar a injeção para aplacar as dores da religiosa.
A
escolha recaiu sobre Cleidiana, por conhecer a cidade.
Saiu
andando e até hoje lembra do espanto: a lua, majestosa, olhava pra ela com
olhos de ressaca, arrastando-a.
Foi
aquele olhar, aqueles olhos de ressaca da lua...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente..que coisa linda!
Isabel
Santos:
Pois é, Cleidiana Ramos. Assim, a gente vai se emocionando com a leveza desse
também poeta (pelo menos assim passei a considerá-lo depois de
#MemoriasJornalismoEmiliano) ao relatar a trajetória dos colegas e amigos. Tem
força, clareza, sensibilidade, poesia, humor..., os textos deles. Aproveito
para dizer a você, que já estou me deliciando com a sua linda história, viu? Bj
Cleidiana
Ramos:
Pois é Isabel Santos....além desse texto de ouro no jornalismo ainda é poeta...
Isabel
Santos:
Sim, Cleidiana Ramos, e cada vez mais surpreendente. Bjos
Adilson
Borges:
Coitada de Nova Soure. Perdeu uma mulher retada!
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Emiliano
José
28
de setembro 2020
Cleidiana Ramos: uma noite de lua,
Federico García Lorca, injeção,
a vida rodando, tudo mudando.
Imagine:
buscar uma injeção e deparar com a lua.
Pensou
em Lorca.
Se
não pensou naquele momento, se lembrará depois, como se os tempos se
misturassem.
Delírio?
Faz
mal, não.
Me
dão licença?
Federico
García Lorca, assassinado pelos franquistas, como Cleidiana, amava a lua.
Era
sua inspiração, o espanto, sempre.
Como
para Cleidiana naquela noite.
"Quando
sai a lua
perdem-se
os sinos
e
aparecem as sendas
impenetráveis..."
Ela,
quase descobrindo as sendas impenetráveis da vida - o poema "A lua assoma".
E
ela olhava para as águas suaves do Paraguaçu, a lua ali refletida.
"A
lua vai pela água
Como
o céu está tranquilo!
Vai
ceifando lentamente
o
tremor velho do rio
enquanto
que um ramo jovem
a
toma por espelhinho...".
Federico
no seu poema "Meia-Lua" como que descobria suas sensações.
Ela
também queria naquela noite fazer uma "Canção para a lua", como
Federico, e contemplar o andar vagaroso dela pelo céu:
"Branca
tartaruga,
lua
adormecida,
quão
lentamente
caminhas!..."
Injeção,
que injeção...
Só
tinha olhos pra lua.
E
no verde verde de seus anos, até em amores pensou, lua tem disso, faz pensar no
amor, "Se minhas mãos pudessem desfolhar":
"Eu
pronuncio teu nome
nas
noites escuras,
quando
vêm os astros
beber
na lua
e
dormem nas ramagens
das
frondes ocultas..."
Tudo
isso lhe vinha à mente, os tempos se misturam, nem sabe se a biblioteca
permitia um poeta assim, tão cheio de amores e de luas, verdes ventos verdes
ramas, não importa, tudo vinha, toda lua, todas as luas, toda a vida, a
exuberante árvore da vida, tudo aparecia pra ela agora com força, como uma
poderosa torrente, iluminação da lua a fazê-la inclinar-se a uma decisão, o
convento ia ficando para trás.
Foi
buscar uma injeção.
E
a lua mudou o rumo da vida...
Chegou
ao convento, e entregou a injeção para aplacar as dores da freira.
Uma
noite de lua...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano
José
29
de setembro 2020
Cleidiana Ramos: o sumiço do queijo, o
medo da
ponte, as águas do Paraguaçu, a salvação
da empada
Foram
muitas as peripécias de Cleidiana por Cachoeira.
Teve
a lua.
E
houve a história do sumiço do queijo.
É,
não havia queijo num armazém, numa birosca, num supermercado.
Em
lugar nenhum.
Por
que artes, não se sabe, mas sumiu o queijo em Cachoeira.
Vá
lá entender.
Irmã
Luzia, a responsável pela cozinha, cismou: quero fazer empadinhas para o café
da manhã de domingo.
Bateu
pé.
Suavemente
foi dizendo em São Félix deve se encontrar queijo alguém podia dar um pulo
lá...
Olhava
de soslaio para Cleidiana.
Serelepe,
ela se dispôs a botar o pé na estrada.
Havia
apenas um detalhe: morria de medo de atravessar aquela ponte, velha, velha,
século XIX, barulhenta ao atravessar, rangendo, o Paraguaçu correndo lá embaixo,
muito lá embaixo, bonita até, mas de meter medo, e se caio?
Lembra
de uma vez: chegou a empacar na entrada da ponte.
Nazinha
puxava, e ela não vou não vou tenho medo muito medo e chorava chorava não
queria passar andando e a mãe arrastando criança não tem querer.
Não,
não é medo de altura.
Ou
é.
Mas,
um medo singular.
O
medo só assalta quando há água embaixo.
Aí,
quer morrer de tanto medo.
Mas,
valia a saída.
Ganhar
a rua, maravilha.
Já
era grandinha, cabia enfrentar o medo.
Foi
passo a passo, sem olhar muito pra baixo, pras águas correntes do Paraguaçu.
Quando
pisou em São Félix, voltou-se e demorou-se um pouco a olhar o rio, olhar mais
de perto - como era bonito, como aquelas águas inundavam sua alma, aqueciam seu
coração.
Uma
das paixões de sua vida - quando podia, dava um escapada até a portaria e
ficava olhando-o, tentando adivinhar seus segredos, infinitas magias.
Voltou
de São Félix, pé ante pé, sem olhar pra baixo, abraçada ao queijo.
Salvou
as empadas do café da manhã do domingo.
Irmã
Luzia, feliz.
Já
estava a meio caminho do jornalismo.
Decisão
já tomada.
Não
continuaria no convento...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente: que escrita...voltei àquele dia...
Mônica
Bichara:
E ela que não agarrasse o queijo não...ia ter que voltar tudo pra procurar
outro
Rizia
Almeida:
👏👏👏👏estou vendo toda
a trajetória do enredo!!!
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Emiliano
José
30
de setembro 2020
Cleidiana Ramos: panelas e o mais belo
dos belos
Os
leitores sabem: momento de lavar panelas, meter a mão naquela montanha de
pratos, garfos, facas, pires, o diabo a quatro, é, também, momento de reflexão,
quando o pensamento parece coisa à toa mas como é que a gente voa quando começa
a pensar.
Nesses
tempos de pandemia, ganhei mais e mais experiência com isso.
Lava
louça todo dia que agonia...
E
é momento de cantar.
Sozinho,
a gente perde a vergonha.
E
solta a voz, boa ou ruim.
Afinada
ou desafinada.
Soprano,
mezzo-soprano, o que seja.
Ninguém
ouve mesmo.
E
é uma alegria danada, não é verdade?
Era
assim com Cleidiana.
Era
lavar panelas no convento, tarefa obrigatória, e soltava a voz.
Fazer
do limão limonada.
Sentia-se
uma Daniela.
Ali
no meio do mais belo dos belos, curtindo o Ilê, subindo a ladeira do Curuzu,
Ilê Ayê:
"Sou
eu, sou eu
Bata
no peito mais forte
E
diga: Eu sou Ilê".
Erguia
a voz, sozinha naquela cozinha.
Como
se gritasse para o convento ouvir, um canto de liberdade:
"Não
me pegue não, não, não
Me
deixe à vontade
Não
me pegue não, não, não
Me
deixe à vontade
Deixe
eu curtir o Ilê
O
charme da Liberdade
Como
é que é?
Deixe
eu curtir o Ilê
O
charme da Liberdade".
Se
soltava, o corpo seguindo o ritmo do reggae, rebolando, subia a ladeira,
encantada, como era lindo o Ilê...
Cleidiana
já estava decidida: não continuaria no convento.
Não
era a sua.
A
magia da lua.
A
vocação não se manifestara.
Mas,
a vida não tem linha reta.
Uma
decisão como aquela, a envolver a fé, opção de vida, entrega ou não a serviço
exclusivo de Deus, não se resolve assim, num estalar de dedos.
Decidida,
mas envolvida em noites amargas de reflexão.
Cristianismo
não é brinquedo, não.
Consciência
culpada.
Sorte:
na Semana Santa, foi liberada, e pôde seguir para Iaçu.
Lá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
E segue ele nessa narrativa cativante....que presente eu ganhei!
Adilson
Borges:
Puxa! Só hoje soube que estão passando As aventuras da querida Clei numa net
perto de mim. Não perco mais....
Emiliano
José:
Adilson Borges Volte: já tem é coisa...
Adilson
Borges:
Tou mariscando...
Einar
Lima:
Adilson Borges, Fio, já estava sentindo a falta de notícias. Quero moqueca
delivery.
Adilson
Borges:
hahahahah, mande o CEP e faço a entrega, fia.
Einar
Lima:
Adilson Borges, e o meio do mato tem CEP? Desculpe aí, Emiliano José, os
comentários fora do seu tema.
Emiliano
José:
Einar Lima Problema nenhum: toda moqueca vale a pena se a alma não é pequena...
Mônica
Bichara:
Adilson Borges não sabe o q está perdendo. E as aventuras de Chico Preto?
Imperdíveis
Rizia
Almeida:
👏👏👏quero
mais!!!show
Joaquim
Lisboa Neto:
Mesclando Lupi com Melô né malandro? Abrazo rojo
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Emiliano
José
1º
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: a angústia no Monte das
Oliveiras, afasta de mim esse cálice, Pai...
Tormento.
Cleidiana,
a alma atormentada.
Parecia
simples.
A
decisão de deixar o convento não era tranquila, como pode parecer.
As
mensagens vindas da lua eram fortes.
Mas,
muito fortes também as raízes do cristianismo.
O
apelo à entrega total ao Cristo.
Experimentava
o seu Getsêmani.
Subia
o Monte das Oliveiras.
Se
Cristo, Deus, ali, sentiu-se abandonado, como um pescador que perdeu a certeza
de que sabe nadar, imagine ela, menina menina dos dezoito.
Consola-se:
ora, se até Ele teve dúvidas, suou frio naquele monte, sentiu-se abandonado,
por que ela não teria dúvidas?
Ela,
simples mortal.
Simples
consolo.
Não
afasta o sofrimento
E
quase grita
-
Afasta de mim esse cálice, Pai.
Se
Ele gritou, por que não ela?
Decisão?
Mais
ou menos.
Precisava
pensar, meditar, refletir.
E
precisava ter alguém com quem abrir a alma.
Difícil
fosse ali entre as freiras, tão cheias de esperanças em vê-la irmã, irmã delas.
Não,
não iria abandonar o tanto aprendido ali.
Disso,
tinha certeza.
Aquilo
a marcaria pelo resto da vida.
Não
será, jamais será maldita.
Cristo
pediu: apartai-vos de mim malditos porque tive fome e não me destes de comer,
tive sede e não me destes de beber, fui imigrante e não me acolhestes, estive
nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes.
No
coração levava a certeza de que os pequeninos, os humilhados e ofendidos, os
perseguidos teriam sua atenção, amor, solidariedade vida afora, teriam lugar em
seu coração, sempre.
Mas,
passar a vida num convento?
A
lua, a lua...
Não,
não lhe parecia o caminho.
Ainda
assim, a dúvida.
Alguma
culpa, a cruz.
Bom,
Semana Santa, toque o bonde pra Lapinha.
Partiu
quarta-feira, 7 de abril de 1993.
O
ônibus sacolejava nos caminhos para Iaçu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
E o poeta emerge em meio ao jornalista de texto brilhante que a gente já
conhece. Que caminhada, gente.
Vera
Barbosa:
memórias de um jornalista... belo.
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Emiliano José
2
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: o pensamento parece uma
coisa à toa...
Era
uma quarta-feira, 7 de abril de 1993.
Tomou
assento no ônibus da Camurujipe.
Lembra:
na infância, era Princesa do Sertão, nome mais poético.
Nem
tão longa, a viagem.
Coisa
de três horas e meia, às vezes um pouco menos.
Estrada
asfaltada, mas ali entre Sapeaçu e Castro Alves, muito buraco, e o ônibus
obrigado a ir bem devagar, solavancos.
Torcia
para chegar logo a Milagres, a apenas 46 quilômetros de Iaçu, embora aquele
trecho parecesse não ter fim, tal a pressa por chegar, e aquele descampado,
nada no caminho, nem um pé de gente, nem um povoado às margens da BA-046,
caatinga, deserto, fim de mundo, mas a certeza: não está longe de casa.
Aquela
viagem, sempre uma diversão, um espairecer.
Olhar
para o povo, as cidades tocando a vida sem pressa, o gado no pasto, o homem
montado no seu jegue a caminho do armazém, ouvir o galo cantar fora de hora.
Sobe
a serra, Muritiba, Governador Mangabeira, Sapeaçu, Castro Alves, Itatim,
Milagres, e aí sua terra, sua pátria, a joia da Chapada, e quem há de
desmentir?
O
bom daquela viagem era soltar o pensamento.
Tinha
um pensamento fixo: como livrar-se daquela culpa?
Como
aliviar o espírito para ir em frente na decisão de abandonar o convento?
O
ônibus em seu ritmo lento, e o pensamento faz um desvio.
É,
cabeça de gente tem artes do cão.
Sabe
aliviar cargas pesadas.
Faz
uma volta ao passado, passado recente.
Antes
de ir para o convento.
Está
no Centro Educacional de Iaçu, onde fez o Magistério.
Era
estabelecimento municipal.
Escola
considerada de excelência na região.
Ali,
concluiu o segundo grau.
Três
anos: 1990, 1991, 1992.
São
boas as lembranças desses anos, teorias sobre educação, metodologias, e o
desafio do estágio em três turmas do ensino primário.
Não
era desafio pequeno: ensinar uma primeira série de alunos alfabetizados.
Alfabetizados?
Sim,
havia alguns, liam e escreviam.
Outros,
no entanto, não sabiam sequer segurar um lápis.
Não
haviam passado por Infantil I, Infantil II, coisa nenhuma.
As
dificuldades motoras eram evidentes, não haviam sido preparados, afora
problemas de ordem cognitiva e emocional.
Barra.
Lembra
de uma menina e um menino, irmãos, permanentemente afastados de toda a turma.
Não
havia atividade recreativa capaz de envolvê-los, empolgá-los.
-
Vou achar um modo de integrá-los à turma - Cleidiana disse se si para si...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Isabel
Santos:
Que lindo, Cleidiana Ramos. Que boa escolha, e o tempo está mostrando isso.
Esse momento de sua história me fez relembrar o estágio que fiz em uma escola
municipal, em Itabuna, onde cursei Magistério. Alguns alunos ficaram para
sempre no meu coração.
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Emiliano
José
3
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: o dia do fedor, filhos
de pescador
No
início da subida pra Muritiba, já havia mergulhado nas rememorações do
magistério.
Deixando
de lado momentaneamente o tormento religioso.
E
deu de cara com a menina e o menino.
Com
o casal de irmãos.
Cleidiana
não se conformava: por que viviam afastados dos demais?
Não
se envolviam com nenhuma atividade.
Nada
os atraía.
Sempre
a um canto, ressabiados.
Tristes.
Cabisbaixos.
Resolve
intervir.
Por
que diabos ficavam tão isolados?
Num
dia, jogo no recreio.
Pega-os
pelas mãos, suavemente, quer envolvê-los, aproxima-os do resto da turma.
De
repente, um aluno, sem quê nem pra quê, salta e diz:
-
A gente não quer eles por perto.
Ela
reage, pergunta:
-
Por que?
-
Eles fedem - o menino de pronto responde.
Olhando
a paisagem, já ultrapassando Muritiba, ela se recorda: a afirmação a fez
respirar fundo.
Não
podia reagir só emocionalmente.
Precisava
compreender primeiro.
Num
lampejo, começa a entender o quadro: o casal era filho de pescador.
Era
uma profissão comum no município, ligada à sua história.
O
peixe fresco era uma constante na casa: o pai voltava da pesca, e gastava um
bom tempo para tratar o pescado, e assim agradar a freguesia.
O
cheiro do peixe impregnava o ambiente.
Natural:
a pele, os cabelos, tudo, nas duas crianças cheirava a peixe.
E
elas mal percebiam.
Era
a vida delas, a rotina - não sentiam como fedor.
Cleidiana
se afeiçoou dos dois e os protegeu.
Desde
aquele dia, o dia do fedor, decidiu tê-los acompanhando-a no caminho de volta à
casa, ajudando-a a carregar os materiais didáticos que costumava levar todos os
dias como parte da formação da criançada - cartazes informativos, murais,
tantas outras coisas.
Durante
as aulas, dava atenção especial aos dois.
Durante
a ronda, andando pela sala, parava perto deles, bem pertinho, acompanhava as
tarefas cumpridas por eles.
Que
fedor, que nada.
Cheiro
de peixe.
Uns
dias passados, e a menina, baixinho, baixinho, se achegou pra ela durante a
aula, e disse:
-
Professora, mainha quer que você vá tomar um café lá em casa, me pediu pra lhe
fazer esse convite.
-
Vou sim - Cleidiana respondeu, com alegria.
Não
lhe sai da memória a maneira gentil, carinhosa, acolhedora como foi recebida
naquela casa...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Professor: essa bateu ainda mais forte. Até hoje essa história me.comove
muito..Olhos cheios d'água...
Jeane
Bandeira:
Fiquei emocionada com essa história. Minha mãe é de Muritiba, boas reflexões e
lembranças. Gratidão por compartilhar
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Emiliano
José
4
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: acolhida de rainha na
casa do pescador, o velho e o rio,
crianças voltando à vida, autoconfiança recuperada.
O
ônibus passava por um trecho de asfalto ruim, rodava devagar, sacolejava,
Sapeaçu-Castro Alves, Cleidiana com o olhar perdido no horizonte, nos pastos,
nas casinhas à beira da estrada, e o pensamento colado naquelas duas crianças,
filhos do pescador.
Chegou
com os dois à casa, atendendo ao convite da mãe.
Vinha
da aula.
Franzina,
muito franzina, a mãe.
Elegante,
sutil elegância - quem disse não podem os pobres serem elegantes?
Bonita,
ela.
Muito
feliz em recebê-la.
Esbanjou
alegria ao ver a professora dizer boa tarde.
Ao
mesmo tempo, ligeiramente constrangida.
-
É casa de gente simples - tentou explicar-se.
Cleidiana,
um leve sorriso nos lábios.
Passou
os olhos pela simplicidade daquele lar, tudo no lugar, tão organizado,
parecendo sempre pronto para receber visita.
Piso
de barro batido - vocês conhecem?
Pescador
não teria dinheiro pra assegurar outro.
No
piso, nem um pingo de sujeira, vassoura de piaçava dava conta.
O
pescador também a recebeu.
Sentia-se
profundamente lisonjeada - deixara de lado o ganha-pão do dia pra receber a
professora dos filhos.
Para
eles, pescador e dona de casa, uma visita importante demais.
Os
pobres sabem receber.
As
duas crianças, a um canto, olhos vivos, incapazes de esconder o orgulho de
terem trazido a professora até a casa deles.
A
mãe, falava mais.
Gabava
os filhos, que mãe que é mãe sempre gaba as crias.
O
pescador, só olhando, calado.
Cleidiana
puxou a linha - ele veio: meteu-se em conversas de pescador.
-
Como é mesmo essa vida em cima d'água, a caçar o pão de cada dia no leito do
rio?
Desapareceu
a timidez.
Deitou
falação.
E
foi lá dentro, e mostrou as redes, e a tarrafa, e as iscas, as melhores,
aquelas às quais o peixe não resiste, o jogo de sedução da pescaria.
-
É trabalho, professora, e os bichinhos tentam escapar, é preciso manha,
sabedoria, senão eles somem no meio das águas, que peixe é bicho esguio,
sabido, inteligente que só o diabo.
Perdeu
inteiramente a timidez.
O
velho e o rio.
Riu
muito quando soube da ignorância completa de Cleidiana sobre pescaria apesar de
morar em rua muito próxima ao rio.
Teve
acolhida de rainha.
Nunca
se esquecerá do tanto de carinho, de atenção, dos mimos, do cafezinho.
Como
não olvida jamais ter visto as duas crianças se incluírem entre os melhores
alunos da turma no mês passado por ela naquela escola.
A
maior conquista foi vê-las reconquistar o sorriso, levantar a cabeça, mandar a
tristeza embora, retomar a autoconfiança.
E
principalmente, começarem a ser acolhidas pelos coleguinhas.
Todos
agora abraçavam os filhos do pescador.
Sem
reservas.
Fedor?
Que
fedor?
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Roberto
Varjão:
Que belíssima página na vida de uma professora e de seus beneplácitos
anfitriões
Cleidiana
Ramos:
Gente: eu já não aguento esperar o próximo.
Ana
Vieira:
Cleidiana Ramos aguenta...é muita emoção.Eu vivi isso no início da pandemia...Eu
ficava que nem criança esperando Papai Noel. Parafraseando uma amiga ,"
Emiliano José faz toda a diferença,"
Ana
Vieira:
Muito linda essa passagem!
Jose
Jesus Barreto:
Gostei muito
Isadora
Browne Ribeiro:
Gente humilde, simples, pobre de material, rica de educação e cidadania. Lindo.
Ricardo
Matos:
Gostei. Apesar de que, eu não acho muito justo poetizar ou romantizar a
pobreza. A pobreza é sempre triste e sim. A pobreza fede. Fede a descaso desses
políticos e juízes corruptos e a culpa é deste povo burro que continua a eleger
sempre os mesmos canalhas e os filhos e netos dos mesmos cafajestes de sempre.
Não demora e vão acabar o seguro defeso que já é uma mixaria. É triste o
pescador não poder sequer por um piso descente em seu lar.
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Emiliano
José
5
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: dignidade da pobreza
e um anjo no meio do caminho
Passar
pela casa do pescador conviver com aquela família por pouco tempo mas conviver
sentir o olhar altivo e agradecido de todos levou Cleidiana a refletir sobre a
relação com os mais pobres.
Não,
não pretendia, nem pretende romantizar a pobreza.
Ela
é dura, e o sonho, e a luta, é por uma sociedade onde cada um tenha de acordo com
suas necessidades e dê de si de acordo com suas possibilidades.
Agora,
ali, naquela visita, percebeu o quanto pode existir de dignidade nas pessoas
pobres.
De
educação.
De
cultura, no sentido mais amplo - que tal falarmos da rica cultura da pesca, ela,
analfabeta, o pescador a lhe dar lições?
Da
mãe, dando lições de como educar os filhos?
Saiu
daquela visita mais rica, mais consciente.
E
certa do valor de seus pais, do quanto de aprendizado tivera em casa.
Dona
Nazinha sabia como apiedar-se da situação dos mais pobres e ao mesmo tempo
tratá-los com dignidade.
Chegava
uma comadre em casa vinda da roça bom dia como vai a senhora e ela percebendo a
cara de fome, que a fome tem cara, e nunca é bonita.
A
sertaneja, o sertanejo nunca quer dizer: a comida acabou, não há mais uma
colher de farinha pra dar pros bruguelos.
Não,
isso mata o sertanejo de vergonha.
Então,
ela tomava de conversa com a comadre, chamava prum cafezinho, um pedaço de bolo
ali na cozinha, e ia arrumando com jeito e paciência uma cestinha de
mantimentos, um agrado para a merenda de seu afilhado.
O
pai, sempre atencioso e cuidadoso com todos, especialmente com os mais pobres.
Foi
aprendendo essas coisas, lições levada vida adentro.
Os
anos de magistério foram ricos.
A
estadia no convento, amadurecimento.
De
repente, viu-se no trecho entre Milagres e Iaçu, quase chegando, olhando
praqueles ermos, nem um pé de gente, alegria de botar os olhos na terra
querida, rever os pais.
E
voltando a refletir sobre sua decisão.
Chegou
a tempo de participar da Procissão do Encontro, na quarta-feira da Semana
Santa, 7 de abril de 1993.
Foi
atrás do padre Raimundo, o pároco do município.
Raimundo
Santana.
Conversou
muito com ele nos dias passados em Iaçu.
Precisava
dividir suas aflições, confessar sua consciência culpada.
Ela
pedindo ajuda, socorro.
O
sacerdote, um anjo.
Talvez
fosse muito mais um religioso do Novo Testamento, todo cheio de amor.
Não
era o do Velho Testamento, do anjo vingador.
Depois
de ouvir as angústias dela, com aquela voz de profeta, de quem quer todos no
aprisco, não quer perder ninguém, ele ia refletindo junto com ela, amoroso:
-
Minha filha, tenha certeza de uma coisa: Deus estará feliz se a sua decisão a
fizer feliz.
Quando
ele disse isso, a carga imensa de culpa ia se dissolvendo.
-
O senhor acha isso, padre?
-
Sim, a boa escolha é aquela que a deixe feliz, realizada, pronta a servir ao
Senhor onde quer que seja.
Santos
existissem, ali estava um.
Foi
revelador, terapêutico, consolador
Voltou
para Cachoeira com decisão tomada, definitiva.
Não
ficaria no convento.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano
José
6
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: Irmã Patrícia se saindo
aos poucos
As
dúvidas, verdade verdade, não demoraram a aflorar no espírito.
Logo
no primeiro mês, quando Cleidiana defrontou com a lua, pensou em ir embora.
-
Que estou fazendo aqui? - murmurou.
-
Aqui não é o meu lugar - comentou baixinho consigo.
Nos
devaneios de lua cheia, a lua, sempre ela, chegou a se imaginar cursando artes
cênicas.
Ou
alguma coisa na área da escrita.
O
jornalismo também se insinuava.
Dúvidas.
Sabia,
isso sabia, seu destino não era a vida monástica.
Conversou
com Irmã Trindade, a madre do Convento das Sacramentinas de Cachoeira.
Ainda
relutante, mas já dando pistas de sua disposição de partir.
Como
ainda estava no início, foi aconselhada pela religiosa a esperar mais um pouco:
-
Fique ao menos até o meio do ano - aconselhou-a.
Aceitou
a ponderação.
Irmã
Trindade, mulher de fé, quem sabe acreditasse: ficando mais um tempo podia se
convencer do contrário.
Quem
sabe dos desígnios do Senhor?
Era
madre superiora, graduada em Psicologia.
Conhecia
a alma humana pela fé e pela ciência.
Atendia
toda a congregação na Bahia - quando alguém apresentasse algum tormento de alma
mais sério, era encaminhada para ela.
Psicóloga
e freira -não é pouca coisa.
Também
diretora do colégio.
Autoridade.
Gostava
de chamá-la Patrícia, seu segundo nome, nunca Cleidiana.
Seria
Irmã Patrícia, tem certeza, fosse freira.
Cleidiana
gostava das freiras.
Conseguiu
estabelecer um convívio respeitoso e alegre com as nove religiosas de
Cachoeira: Ana Maria, Gregorina, Aloizia, Virgínia, Conceição, Gertrudes, Luzia e Perpétua, além de Trindade.
Irmã
Ana Maria era a mestra, espécie de preceptora: acompanhava a formação das
candidatas para a vida religiosa, dirigia os estudos bíblicos, falava sobre o
carisma da congregação, as regras advindas da vocação.
À
memória, vão surgindo as demais.
Irmã
Gertrudes, já com seus 60 anos, era baixinha.
Não
tinha o porte de Irmã Trindade, alta altaneira.
Ar
inquiridor num primeiro momento - Cleidiana não sabe por que, viaja: lembrava
com suas sobrancelhas grossas aquele ar desconfiado de Sean Conery encarnando o
monge Guilherme de Baskerville em "O nome da Rosa"...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Adilson
Borges:
Clei não podia ser rebaixada à freira. É deusa do povo preto!
Mônica
Bichara:
Imagine? Nem pensar.
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Emiliano
José
7
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: conversa com Nazinha e
Chico Preto, pirraça de mãe, a generala,
pasteizinhos e o sumiço da receita
Mãe,
vocês sabem, mãe adora quando pode dizer ou pensar ao menos eu não disse?
Ah,
quando Cleidiana resolveu naquele abril de 1993 além de conversar com o padre
Raimundo abrir a alma pro pai e a mãe dizer não fico mais no convento Nazinha
abriu o sorriso e parecia dizer eu disse não foi?
É,
mãe sempre gosta de ter razão.
E,
convenhamos, Nazinha quase sempre acertava - Cleidiana reconhece.
Sabedoria,
coisa dada pelo tempo.
Ou
pela ancestralidade, vá lá se saber.
Informou:
só ficaria no convento até junho.
Dirigiu-se
especialmente a Chico Preto, o pai:
-
Quero ir pra Salvador.
O
irmão Gildásio estava na capital.
Cursava
Direito e trabalhava na Telebahia.
Disse
do desejo, mas sabia das dificuldades.
A
situação financeira da família era precária naquele momento, sabia.
Era
uma sondagem, cuidadosa.
Ainda
havia tempo para pensar.
O
pai não era bom de negócios.
Melhor:
sua devoção à política só o fazia perder dinheiro.
Ganhar,
nunca.
Chico
Preto, honesto até o fundo da alma.
Idas
e vindas com farmácias.
Abriu
umas quatro.
Sempre
fechavam quando chegava o tempo da política.
Aquele
era um instante de profundas dificuldades.
Mas,
Cleidiana, coração na mão, expôs o desejo.
E
por enquanto deixava nas mãos de Deus.
Ele
proveria.
Irmã
Gertrudes, falávamos nas irmãs e a personagem me puxou pra uma prosa diferente,
era um amor de pessoa.
Falava
pelos cotovelos.
Em
Amargosa, cuidada de idosos.
Ressentia-se
em Cachoeira: parecia não ter o que fazer.
Não
dava aulas no colégio.
Sobrava
tempo.
Ela,
então, danava-se a conversar com Cleidiana, cujo gosto por um bom papo é
conhecido.
Nas
horas de folga, tricotavam, principalmente sobre Amargosa, muito sobre o
trabalho dela com os idosos.
Irmã
Luzia era generala, jovem generala de 28 anos: administrava a cozinha, a
despensa, dava ordens sobre o que comprar, punha ordem na cantina, era quem ia
à feira, cozinhava como ninguém, aos domingos não havia quem a retirasse do
comando do fogão, do preparo do almoço, uma felicidade só, para ela e para as
demais freiras e noviças.
Na
Festa de Pentecostes fez um banquete jamais esquecido por Cleidiana:
lambuzou-se toda com aqueles inesquecíveis pasteizinhos, e o pior, a generala
parece ter jogado fora a receita, nunca conseguiu copiá-la...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Minhas deusas...que prosa-poesia eu tive a sorte de ganhar nesta aventura de ver
aqui o meu perfil.
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Emiliano
José
8
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: Chico Preto ataca
novamente,
obras por toda Iaçu, Irmã Gregorina
vem à cena com o alho milagroso.
De
raspão, ontem falamos da quase nenhuma paciência de Chico Preto com os
negócios.
Era
um tal de abrir e fechar farmácia, seu sustento.
Era
chegar a politica, e a farmácia fechava, ou não recebia qualquer atenção dele.
Paixão,
dessas avassaladoras, paixão mesmo era com a política.
Prefeito
de Iaçu entre 1982 e 1988, botou pra quebrar.
Construiu
o Centro Educacional de Iaçu (CEI).
Ali
se formaram gerações de profissionais.
Cleidiana
estudou no CEI da quinta série ao terceiro ano do segundo grau.
Construiu
a Maternidade, embrião do atual Hospital Municipal.
Abriu
avenidas, pavimentou ruas, implantou uma rede de postos de saúde na zona rural.
É
dele a iniciativa do primeiro conjunto habitacional de casas populares - dali
surgiu o Cerâmica, um bairro enorme atualmente.
Conduziu
com muita firmeza e habilidade o enfrentamento à violência.
Delegado
de polícia em Iaçu, só bacharel em Direito.
Nada
mais de "calça-curta", acostumados a toda sorte de arbitrariedades.
Durante
seu mandato esteve ao lado sempre da luta dos trabalhadores rurais iniciadas no
fim da década de 1960.
Fez
milagres, Chico Preto, completando o que havia começado na gestão anterior, a
partir de 1972, um dos 19 prefeitos do MDB no Estado naquela eleição.
Com
pouco dinheiro nos cofres do município, fazia milagres - insista-se.
Quando
Cleidiana revelou sua pretensão de mudar de rumo, ele, pai que é pai, não
obstante as enormes dificuldades financeiras da família, foi incisivo:
-
A gente dá um jeito.
Deu.
Isso
é conversa pra mais tarde.
Chico
Preto entrou nesse papo agora, nem sei por que.
Estava
eu em Cachoeira, falando daquelas mulheres santas do convento, e ele se
intromete.
Irmã
Gregorina, era velhinha, velhinha.
Sérios
problema de coluna.
Andava
curvada.
Provinha
de família abastada, falava francês fluentemente.
Cleidiana
se deliciava ouvindo-a contar histórias - os mais velhos sempre têm muita
história pra contar.
Adorava
medicina natural, e houve tempo de sua insistência nas virtudes terapêuticas do
alho.
Servia
pra tudo, menos talvez para espinhela caída.
Ela
vivia mastigando alho...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente...cada vez mais encantada e feliz com o retorno de Chico Preto..🤭🤭🤭
Eliana
Gomes Santos Gomes:
Estou sonhando em ler tudo imendado! Rsrsrs
Jose
Barreto Damasceno:
Valeu Companheiro
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Emiliano
José
9
de outubro
Cleidiana Ramos: Chico Preto parte
sob o carinho do povo de Iaçu
Chico
Preto partiu dia 8 de junho de 2004.
Iaçu
parou.
Passou
pela política com dignidade.
Tinha
sentido de missão: a política era para servir ao povo.
Ao
seu povo.
Como
Marighella, não teve tempo para ter medo.
A
maior parte de sua vida política se deu sob a ditadura.
Nada
de temer os arreganhos dos militares.
A
vida requer é coragem.
Sabia,
no entanto, confrontar e negociar - próprio da política.
Não
era homem de violências.
Como
Che: ser duro, jamais perder a ternura.
Partiu
para o reino dos encantados deixando só boas lembranças.
Nos
enfrentamentos, sempre há na política, não levantava a voz.
Talvez
irritasse porque não tirava um sorriso leve do rosto.
Parecia
ironia, e não era.
Era
a forma de enfrentar a vida.
As
dificuldades, afrontava-as com um sorrisos nos lábios.
Os
filhos, sempre soube amá-los, e educá-los.
Mais
com o exemplo.
Eles
jamais o esquecem.
Ali
entre 1984 e 1985, ele chamou Nazinha, e Cleidiana:
-
Vamos ali, vou entregar uma obra.
Nazinha
ainda argumentou estar sem roupa apropriada - era chegada a um sapato alto,
vestido elegante, e estava naquele momento com uma calça comprida, roupa
informal.
-Nada,
vamosimbora.
Catou
as duas e seguiu para a inauguração da urbanização da rua da Estrela, que
depois ganhou o seu nome.
Cleidiana
envolta por seu braço esquerdo, Nazinha do lado, caminhava, feliz.
Um
dia de festa, de alegria.
Quando
morreu, o cortejo passou por lá seguindo para João Amaro, onde seria sepultado.
Cada
poste ostentava um laço preto, todos os postes.
Os
moradores tomaram essa iniciativa espontaneamente, mode expressar carinho, mode
revelar amor, admiração.
O
cortejo ia passando, os moradores saíam às portas, às janelas, saíam do fundo
das casas, onde estivessem, para dar o último adeus a Chico Preto.
Não,
nada de silêncio.
Aplaudiam-no
sem cessar.
Choravam
e celebravam.
Silêncio,
não.
Não
o deixariam partir sob o manto do silêncio.
Sabiam:
ele preferia o bulício, a festa.
Chico
passou assim como se inaugurasse de novo a avenida.
Como
se ressurgisse de entre as pedras da rua, como se do asfalto irrompesse uma
flor, sorridente, como a pedir toquem a vida, e nada de choro, alegria, que a
vida é bela.
E
seguiu para João Amaro.
Dali,
já no reino dos encantados, deve ter deixado escapar um sorriso e murmurado:
-
Esse povo é maravilhoso, merece tudo, e terá para sempre o meu amor.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana
Ramos:
Emiliano do céu...você não cansa de escrever coisas lindas....de lá do reino
dos encantados, Chico tá dando aquelas sonoras gargalhadas de felicidade.
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Emiliano
José
10
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: medicina natural, as
virtudes do alho, as piadas da Vovó, o sequestro pelo Jornalismo
O
alho e suas virtudes.
Nós
começávamos a falar nisso, quando Chico Preto invadiu nossos caminhos.
Voltamos
ao alho, ao convento, à Irmã Gregorina, seu francês fluente, sua idade já
avançada, cheia de sabedoria, boa de papo, adorava conversar com Cleidiana, e
não só sobre alho, muito mais, era adepta da medicina natural.
Cleidiana
vivia assediada: chás e mais chás naturais, ela ia recomendando, serviam pra
tudo.
Alho,
bem, o alho era tempo inteiro, nunca parava de mascar.
Não,
não era apenas de ouvido sua sabedoria sobre medicina natural.
Lia
livros e mais livros sobre o assunto.
À
mesa, durante as refeições, quando todas as irmãs deitam falação, quando se
brinca, quando a fofoca corre solta, quando os cacoetes se revelam, quando há
gargalhadas às vezes até de boca cheia, à mesa Gregorina não perdia a chance de
falar de milagres.
Os
milagres do alho.
Irmã
Maria, numa dessas refeições, não resistiu:
-
Gregor, me conte uma coisa: e o cheiro?
-
Tudo da cabeça. Se as pessoas não souberem que você está mascando, não sentem
cheiro de nada.
Irmã
Conceição saltou de lá:
-
Isso não está funcionando, Gregor. Eu sinto esse cheiro de longe. Só não tinha
lhe dito nada.
Irmã
Aloizia também já tinha mais de 60 anos.
Olhos
azuis, pele muito branca, dava aulas no maternal, amor roxo por plantas,
cuidava do jardim com amor de mãe - Cleidiana adorava ouvir histórias contadas
por ela: nos momentos mais emocionantes dos causos, ela abaixava voz, segurava
o braço da noviça, e sussurrava, como se contasse um segredo.
Irmã
Virgínia, professora também do maternal, adorada por todos, apelidada Vovó,
humor insuperável, ninguém a surpreendia sem um sorriso no rosto, e era dada a
piadas.
Preferida?
Irmã
Gertrudes.
Ficou
triste, muito triste, com a saída de Cleidiana.
-
O problema é sua pouca idade. Você é muito menina. Quando ficar mais velha, vai
voltar.
Nunca
voltou.
O
jornalismo invadiu sua vida.
Para
sempre.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente...começo a desconfiar que Emiliano José assistia tudo de longe com a
magia dos escritores...
Jose
Jesus Barreto:
Alho protege, alho afugenta coronga
Adilson
Borges:
Do carALHO
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Emiliano
José
11
de outubro 2020
Cleidiana: imenso convento adeus, o
vapor
de Cachoeira não navega mais no mar
Perdeu
o contato com irmã Gertrudes, tão querida.
Soube:
queria tanto, e conseguiu voltar para Amargosa, terra de seu coração.
Tem
lembrança carinhosa de Eunice, noviça como ela.
Seguiu
adiante, vocação manifestou-se fortemente, e Cleidiana já jornalista teve a
alegria de ir à consagração dela.
Desde
1998 não a viu mais.
Teve
notícias: estaria em Feira de Santana.
Continua
servindo ao Senhor.
Jamais
as lembranças daquele tempo se apagaram da memória.
Quando
passava por Cachoeira, dava um jeito de dar um pulo no convento, mas o tempo
tempo muda tudo, e as irmãs conhecidas foram saindo, e hoje restam as
recordações.
Às
vezes, recostada, sem esforço, vê-se subindo e descendo as escadas em caracóis
do convento.
Quando
o pensamento se deixa livre, reconstrói a imagem do imponente prédio de três
andares a poucos metros da velha e bela estação rodoviária e da ponte
centenária sobre o rio Paraguaçu.
É
uma recorrente cerimônia do adeus.
Não
é triste - uma serena cerimônia, quando o pensamento a reconstitui.
Vê-se
subindo e descendo as escadas em caracóis, imagina-se no dormitório de
mobiliário modesto, apenas as camas de solteiro e um armário com divisões tipo
escaninho, cada um com seu lugar de guardar as coisas, do refeitório, a grande
mesa, o momento da confraternização, refeição sempre era isso, ao fundo um
pátio estava a pia onde ela lavava as panelas e cantava se sentindo Daniela
Mercury saindo com o Ilê, a sala da comunidade onde viam tevê à noite, a
capela, pequena, muito pequena, uns 15 metros quadrados, bancos com apoio para
os joelhos e o altar com destaque para o sacrário, e havia a área dos quartos
das irmãs, reservada, onde ninguém podia entrar, salvo elas mesmas, o colégio,
as salas de aula, imensidão, convento e colégio, sua vida por seis meses, longo
e curto tempo, a marcá-la para sempre.
Partiu,
deixando amores.
Agora,
nova etapa, nova vida, a busca de fronteira a ser devassada, a imensa fronteira
do jornalismo.
O
vapor de Cachoeira não navega mais no mar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Que grandeza desse narrador...
Mônica
Bichara:
Vai guentando, coração.....
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Emiliano
José
12
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: passa em dois
vestibulares,
deixa Filosofia de lado, agarra-se ao Jornalismo
Nessa
idade, a dos 18, tudo parece simples.
O
mundo está à disposição.
Basta
querer afrontá-lo.
Basta
ir atrás do sonho.
Esse,
o estado d'alma de Cleidiana quando arriou as malas de volta a Iaçu, junho de
1993.
O
convento ficara para trás.
Vida
monástica, saudosa lembrança.
Basta
ir atrás do sonho...
Basta?
Não
basta, mas a vida requer é coragem, e ela tinha.
Chico
Preto não andava bem de finanças, já se disse.
Mas,
dava seus pulos para atender aos desejos da filha.
Cleidiana
chegou a pensar em insistir nas coisas da alma, e fazer Psicologia.
Mas,
nada: fixou-se no Jornalismo.
Arrumou
os panos, meteu-os na pequena mala, e se mandou para Salvador.
Agora
era o mundo, vasto mundo.
Primeiro,
na casa de uma tia, irmã de Chico Preto, no bairro da Caixa D'água.
-
Logo logo alugo outro lugar - disse-lhe o pai.
Gildásio,
o irmão, fazia Direito na Católica, hospedava-se no Hotel São José, na avenida
Sete de Setembro, graças à amizade de Chico Preto com o dono - eita homem pra
ter amigos.
Logo
depois, ela e Gildásio passam a morar num quarto e sala, no fim de linha do
bairro da Federação, ao lado da TVE.
Faz
cursinho intensivo no Integral.
Para
ter alternativas, presta vestibular na Católica em dezembro, 1993, para
Filosofia, na Católica - UCSAL.
Sabia:
não iria cursar, salvo a vida não lhe oferecesse outro caminho.
Por
escolha e pelo fato de significar outra despesa para a família.
Num
dia, sai a flanar por Salvador com Chico Preto.
Rua
Chile, lanche na Cubana, conversa vai, conversa vem, o que será que será, o pai
preocupado com o destino da filha, e ela reafirma: farei Jornalismo na UFBA.
Passa
no vestibular, e deixa de lado a Filosofia da Católica, onde também havia sido
aprovada.
Família
em festa.
Menina
retada, essa, não?
Só
que Chico Preto pregou um susto na família...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
E ele não deixa de emocionar..♥️
Mônica
Bichara:
Sorte nossa
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Emiliano
José
13
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: vestibular, infarto de
Chico
Preto, fuga do paciente, feliz Ano Novo
Dezembro
de 1993.
Chico
Preto, em Salvador.
Dar
uma força à filha.
Primeiro
vestibular, Católica.
Presença
de pai sempre ajuda - pensava.
E
ajuda.
Queixava-se
de uma persistente dor no braço.
Dono
de farmácia, se automedicava.
Médico,
pra quê?
Terminadas
as provas, família volta pra Iaçu, e ele segue para a fazenda, em Boa Vista do
Tupim.
Lá,
a dor aumenta.
Pega
carona, segue numa canoa, e em Marcionílio Souza posto médico registra pressão
em 18.
Vai
pra Iaçu, direto pro hospital.
Doutor
Eudes, amigo, o atende: pressão em 22.
Mandado
pra Itaberaba, atendido por doutor Benelson, conceituado cardiologista da
região.
Alguns
dias lá, infarto controlado.
Doutor
Benelson determina: deve ir pra Salvador, fazer cateterismo.
Faz.
No
Hospital Santa Izabel.
Recomendação
rigorosa: repousar por alguns dias.
E
ficar sob vigilância médica naqueles dias, uma semana ao menos.
Pagou
o hospital, ouviu tudo isso, e antes da chegada do médico, pegou o elevador e
sumiu.
A
família, estupefata.
Cadê
Chico?
Só
se foi saber das travessuras dele depois: foi direto pra Rodoviária, apesar da
proximidade do Natal conseguiu passagem apresentando documentação de
recém-infartado, seguiu pra Feira onde um carro do gabinete da prefeitura de
Iaçu o esperava, e seguiu para sua terra. O carro foi mandado por Zé Rico, o
prefeito. Havia sido derrotado por ele na eleição anterior, mas nunca deixaram
de ser amigos.
Nazinha,
Cleidiana, Gildásio, em Salvador, aparvalhados com a fuga.
Quanta
irresponsabilidade.
Cleidiana,
a encarregada da diplomacia: ligasse pra Iaçu, soubesse como ele estava.
Explicou:
-
Preparei essa fuga, minha filha, confesso. Tenha santa paciência: eu não ia
aguentar ficar preso aí nem dois dias, quanto mais uma semana. Não, nem pensar.
O que? Um bando de gente me dando ordens? Melhor vir pro meu canto, muito
melhor.
Infarto
não o segurava.
Chico
Preto sendo Chico Preto.
Família
toda seguiu para Iaçu.
Passaram
o Ano Novo juntos.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Sônia
Maria Haas:
Ótimo relato.
Cleidiana
Ramos:
Esse Chico Preto não é brincadeira. Se intromete mesmo na narrativa de Emiliano
José. Show de bola..
Mônica
Bichara;
Queria muito ter conhecido, já sou fã
Adilson
Borges:
Um retado. Coisas de Chico, nome de meu pai e de meu ex-caçula!
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Emiliano
José
14
de outubro 2020
Cleidina Ramos: Chico Preto e suas
lições -
nunca deixe de perseguir um sonho
Chico
Preto foi um pai inesquecível.
Já
vai longe o momento da decisão de sair do convento.
E
seu desejo de seguir pra Salvador.
Ganhar
o mundo.
Ele
dizendo a gente dá um jeito e ela sabendo das imensas dificuldades.
E
mais tarde saber: teve luz cortada em casa para não deixar atrasar o cursinho
intensivo do Integral dela em Salvador.
Não
esquece nada disso.
Menos
ainda da imagem de um Chico Preto com os olhos rasos d´água ela já na Facom
contando recebi proposta para que você assumisse uma turma em município vizinho
e respondi não pois respeitava a trajetória escolhida por você e aí veio uma
angústia do tamanho do mundo porque eu sabia o quanto era difícil passar num
vestibular na UFBA e eu me senti arrogante naquele instante ao recusar a
oferta.
Arrogante?
Chico
jamais o foi.
Nunca,
fosse com correligionário, com servidor, fosse com qualquer pessoa do povo.
Aquela
resposta, de não aceitar fosse a filha seguir o caminho do magistério, fora
mistura de confiança e cuidado.
Aposta.
Era
a maneira de empurrar os filhos, empurrar na direção do sonho, do sonho de
Cleidiana naquele momento.
Ele
e Nazinha ensinaram os filhos a não desanimar, a perseguir os sonhos até o fim.
E
aqueles olhos rasos d'água eram agora de pura emoção, orgulho de assistir o
triunfo da filha, de vê-la apalpar o seu sonho.
Pensou:
minha recusa foi acertada.
Cleidiana
lembra outra vez do passeio por Salvador a poucos dias de fazer a inscrição
para o vestibular da UFBA.
Do
suco de mangaba na Cubana, do bolinho famoso da sorveteria.
Quando
falou da escolha pelo Jornalismo, ele apenas fez a pergunta inocente:
-
É mesmo?
E
completou, suavemente:
-
Pensei que ia ser Direito.
Gildásio,
o irmão, sugeriu: ao menos tente Direito na Católica.
Não,
não tentou.
Tentasse,
passasse, e teria a família pressionando-a para cursar, e ela não teria
condições de recusar.
O
Direito a cercava...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Agora vejam: eu aqui chorando de novo, como todas as vezes que me lembro desse
dia. Esse seo Emiliano José.
Mônica
Bichara:
Moça, ri agora com a coincidência. Eu lendo aqui e escuto na TV falar em Chico
Preto, corri e era um candidato a prefeito de Manaus. Mas nenhum chega aos pés
de Chico Preto de Nazinha de Cleidiana de Iaçu
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Emiliano
José
15
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: realidade brasileira,
redação, semiótica trazida ao chão
Era
necessária uma determinação muito grande para escapar da sina do Direito.
Cleidiana
vivia cercada.
Havia
o pai, simpático à ideia, embora sempre cuidadoso para não pressioná-la.
A
escolha era dela.
Havia
Gildásio, o irmão, já cursando Direito, e querendo tê-la ao lado, mais uma
advogada na família.
Um
grande amigo de Chico Preto, José Amando Mascarenhas, advogado, deputado, foi
presidente da Assembleia Legislativa do Estado.
Herber
Reis, admirado por Chico Preto, advogado, defensor de trabalhadores rurais,
amigo da família.
Doutor
Herber, assim era chamado por Cleidiana, era apaixonado por literatura, uma das
primeiras pessoas a ler as primeiras redações dela e as peças de teatro
escritas para o colégio - como todo mundo, textos confinados ao esquecimento -
"nem tenho coragem de ler atualmente".
Herber
recebia os textos, olhava-os com carinho, fazia considerações.
O
Direito, uma fortaleza em torno dela.
Queria
porque queria capturá-la.
Deu
não.
Contra
tudo e todos, Jornalismo.
Seu
sonho.
Chegada
a um novo mundo.
A
Facom, ainda no bairro do Canela, prédio pequeno, todo mundo se via.
Eram
seminários, novos formatos, tudo diferente do aprendizado no Magistério de Iaçu.
Colegas,
professores, poucas professoras.
De
cara, o impacto de três figuras.
Antônio
Dias, professor de Realidade Brasileira - falava de história como se
conversasse ao pé da fogueira em noite de lua cheia.
Mara
Campos, metodologia especialíssima, redação, chegava a fazer atendimento
personalizado - quase não dormiu ao ouvir dela sobre um texto que havia
produzido: "quase perfeito".
Maurício
Tavares, iniciava a turma em teorias de Comunicação Social, sarcástico, e com
um repertório capaz de unir o cotidiano à teoria.
Falar
de semiótica a partir de uma cobertura sobre moda na revista "Veja".
Ou
debruçar-se sobre lançamentos da música pop.
Ela,
encantada com tudo.
Tudo
novo, surpreendente.
O
sonho, apalpado.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Eita...a Facom do Canela..
Adilson
Borges:
Massa. Vai Clei
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Emiliano José
16
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: inquietação, mudanças
curriculares, a fada, o new jornalism, o transbordamento das cores
Claro,
passada a fase da euforia, quando tudo é novo, começa outra - de inquietação.
Na
fase da euforia, há o entusiasmo, a empolgação, e há também a dúvida - e se não
der certo?
Aos
18, 19 anos, seguir em frente, meter as caras.
Dois
anos de caminhada, e começa o momento da inquietação.
Crise
do quinto ou sexto semestre.
E
no meio da crise, a Facom também, ali pelos meados dos anos 1990, mais um
pouco, passando por uma transformação curricular e por mudanças no eixo de
formação, centrada agora nas teorias da comunicação social.
Veio
a revolução digital, e nada será como antes.
E
ela via professores ligados ao mundo do jornalismo fora da sala de aula - eu
próprio, Antônio Dias...
Sua
paixão era o jornalismo.
Ela,
um tanto desanimada, sem saber o rumo a tomar.
Que
diabo!
Tudo
parecia tão luminoso, e de repente, dúvidas.
Vai
aprender: na breve caminhada da existência, não há linha reta.
Sempre
há curvas.
E
na virada de uma curva, pode ser, você depara com outro mundo, iluminado.
Matriculou-se
em "Gêneros Jornalísticos".
Deu
de cara com a professora Rosângela Vieira Rocha.
Fada,
uma fada.
O
mundo abriu-se novamente em cores.
Apresentada
ao new jornalism.
Compreendeu
a proximidade do jornalismo e literatura.
Os
fatos são o ponto de partida, mas não podem engessar, prender a criatividade.
Navegou
nas paixões de Rosângela pela literatura.
Tardes
de reencantamento.
Epifania.
Lá
veio Capote, Hemingway, Gabriel García Marques, Norman Mailer, os magos desse
jornalismo, novo, deslumbrante, a conseguir ultrapassar os marcos rígidos
do lead, do sublead.
Como
se a desengessassem, como se peça a peça fosse por terra a armadura construída
anteriormente.
Era
possível ter à mão todas as técnicas do jornalismo e, ao mesmo tempo,
estabelecer uma relação humanizada, literária a partir dos fatos?
Havia
a chance de esculpir personagens, dar-lhes alma, escapar dos grilhões da
realidade ou, dito de outra forma, tirar da realidade todo o colorido contido
nela?
Tudo
isso era possível - Rosângela, a fada foi guiando-a, fazendo compreender esse
novo mundo, orientando seu texto, emprestando-lhe colorido, ou libertando as
cores até ali presas.
Liberdade,
liberdade, abre as asas sobre nós...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente: e ele segue poeta-jornalista...um mestre nessa arte....e eu a sortuda da
vez..hehe
Isabel
Santos:
Cleidiana Ramos, eu bem que lhe disse. Poesia, leveza de texto, criatividade,
tudo isso e muito mais, juntos, para nos fazer tirar o fôlego e nos emocionar.
Êtcha Emiliano José danado de bom. E sua hodistóris, gostosa de ler e conhecer.
Bjs
Mônica
Bichara:
Menina, essas aventuras dão um livro .....contadas pelo mestre então
Cleidiana
Ramos:
Mônica Bichara coisa é a trajetória de seo Chico Preto...vocês já tiveram uma
pequena amostra...hehe
Antonia
Garcia:
Um grande abraço, amigo e companheiro Emiliano!
Emiliano
José:
Antonia Garcia Querida, saudades de você.
Antonia
Garcia:
É sempre bom para nós contar com sua obra que renova utopias da nossa geração!
Emiliano
José:
Antonia Garcia Como sua trajetória, sempre a nos inspirar.
Paulo
Cézar Gomes:
Brilhante como sempre. Bela e justa homenagem.👏👏👏
-----------------------------------
Emiliano
José
17
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: A sangue frio, romance
sem ficção, e as águas do Paraguaçu
Com
a professora Rosângela Vieira Rocha, achou-se.
Vá
ver, quem sabe, tivesse desejos secretos de produzir um romance, ou mais de um.
Cabeça
de gente, quem conhece?
E
agora, com as novas descobertas, por que não?
Claro,
não seriam assim romances propriamente, mas se aproximaria.
Voo,
seu texto podia voar.
Por
que não?
Pensava
em Truman Capote, o notável jornalista americano.
Soube
do assassinato do casal Clutter e de seus dois filhos em 1959, em Holcomb,
cidadezinha do Kansas, nos EUA.
Passou
um ano e meio na região entrevistando Deus e o mundo, e prestando atenção a
tudo, a cada detalhe.
Depois
dessa estadia, levou mais cinco anos investigando o crime - jornalismo
investigativo requer tempo, e isso hoje é raramente compreendido.
Capote
tinha então 35 anos.
Com
"A sangue frio" inaugura um novo gênero literário - o romance de
não-ficção.
Pode?
Isso
causa estremecimentos em jornalistas mais dogmáticos.
O
conceito é dele próprio - ou, dizia, pode ser também romance sem ficção.
O
livro mudou os parâmetros dos limites entre relato jornalístico e relato
ficcional.
Penetrar
na alma dos personagens, produzir densos perfis psicológicos, ser a um só tempo
neutro e apaixonado pela história contada, eis o jornalismo de "A sangue
frio".
Ser
fiel aos fatos, rigorosamente fiel, sem ser sufocado por eles.
Numa
conversa com Gore Vidal e Norman Mailer, naqueles saraus literários do passado,
todo mundo falando de seus notáveis livros, o baixinho, é, Capote era muito
baixo, disse assim de bate-pronto
-
Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é
que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não.
Ele
não era da tribo dos humildes.
Estava
certo - não era simples presunção.
Por
que ela não podia seguir os passos de Capote?
Ousadia?
Sim,
a professora Rosângela a convidava a isso.
Podia
pensar o jornalismo de outra forma.
Mestra
é mestra, e a gente sabe a quem chama de mestra.
-
O que posso escrever como avaliação da disciplina? - Cleidiana perguntou à
professora.
Ela
a chamou para as águas.
-
Você já se perguntou sobre a relação de Iaçu com as águas do Paraguaçu?
Só
isso, e uma luz acendeu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente: que maravilha mais esse capítulo das minhas aventuras. Obrigada, Emiliano
José.
Sérgio
Buarque de Gusmão:
https://www.igutenberg.org/newjorna.html
Novo
Jornalismo
IGUTENBERG.ORG
Novo
Jornalismo
----------------------------------------------------
Emiliano
José
18
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: o vício da leitura, a aventura
da reportagem, reconhecendo sua terra
Não,
Cleidiana não ficara apenas em Truman Capote.
Um
dos principais méritos da professora Rosângela Vieira foi viciá-la.
Em
leitura.
Ela
empanturrava as alunas, os alunos de livros.
Sobre
a importância da reportagem.
Foi
saber do México em transe por Igor Fuser.
De
Aracelli, por José Loureiro.
Voltou
à arte da reportagem, outra vez Igor Fuser.
Acompanhou
Lamarca até a morte no sertão da Bahia, comigo e Oldack Miranda.
Deliciou-se
com a aventura da reportagem, de Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho.
Andou
pelo Brasil com Chatô, guiada por Fernando Morais.
Por
São Paulo, viu a cidade de perfil, com a notável coleção da professora Cremilda
Medina - ela prefaciou um livrinho meu, pouco conhecido, "Narciso no fundo
das galés", de 1992, pra honra e alegria minhas.
Conciliar
o vício adquirido, ou alimentado por Rosângela, porque de alguma forma já se
aproximara da leitura no convento e no Magistério, conciliar o vício com tantas
outras atividades não era simples.
Nunca
é: os tomados pelo vício, qualquer vício, sabem disso.
Tornam-se
prisioneiros.
Deliciosamente
reféns.
Devia
atender aos reclamos de outra disciplina, a Ciência Press, coordenada por
também excelente professora, Nadja Miranda.
Não
via a hora de tudo aquilo se acabar, chegar em casa, mergulhar na doce aventura
da reportagem, compreender o jornalismo, agora em novas e surpreendentes
facetas, abertas a sangue frio.
O
duro era dormir pouco, ler até tarde, parar a leitura para tocar a vida, passar
o dia ansiosa pra voltar pra casa e retomar.
Leu
que só o diabo, aprendeu pra burro.
E
só então foi conhecer, ainda não conhecia, a cidade e o rio.
Iaçu
e o rio.
Curioso:
a gente demora a conhecer nossa terra.
As
lavadeiras.
O
rio.
Ah,
o Nego D'Água...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Ana
Vieira:
A riqueza e alto nível da produção jornalista Cleidiana Ramos não deixam
dúvidas sobre seu amor à leitura.
Cleidiana
Ramos:
Ana Vieira, além de mãe, pai e irmão mais velho loucos por livros, a pessoa aqui
ainda por cima é míope. Quando faltava luz em Iaçu e isso era direto por causa
da sub estação era consolo: não tinha tv, não dava pra sair e se fosse por
causa das trovoadas de dezembro ainda tinha que ficar sem óculos por causa dos
"raios". O jeito: pegar o fifó e ir ler..rsrs...até hoje pra dormir
tenho que ler...de um tudo serve.
Cleidiana
Ramos:
Eita..que lindeza...
Joaquim
Lisboa Neto:
Poética
prosa
O
minhocão
O
pé de garrafa
---------------------------------------------
Emiliano
José
19
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: entre fadas e bruxas, o
sertão vira mar, aparece o Nego D'Água, surge a Mãe D'Água, bota a cara a
sucuri
Sabe
quando uma luz acende?
Quando
tudo se alumia?
Quando
a noite aclareia?
Foi
assim quando Rosângela, a professora, falou nessa história da relação de Iaçu
com as águas do Paraguaçu.
De
onde ela tirou isso, vá lá se saber.
Cleidiana
falou nela como fada, quando deu aparecença.
Desconfia
ter coisa de bruxa também.
Do
bem.
E
tem bruxa do mal?
Invenção
de gente doente, ruim da cabeça.
As
bruxas misturam-se com as fadas para alegrar e intrigar o mundo, que Deus as
tenha e proteja.
Mergulhou.
Que
haverá naquelas águas de sua terra?
Que
mistérios têm Iaçu e suas águas?
Benzeu-se
e foi atrás.
Pescadores,
lavadeiras, e as águas.
Gozado:
até ali, olhara pouco para o rio.
Mais
o olhar se derramava por aqueles ermos sertões esturricados terra pouca de
posseiros sol a pino fome misera abandono.
Agora,
a vista chegava ao rio e seus habitantes.
O
sertão virando mar - rio água.
E
ouvia histórias, verdadeiras, duvidar quem há de?
O
Nego D'Água e suas travessuras.
Vivia
no rio, gargalhadas a assustar pescadores, queria um peixe, e às vezes um gole
de cachaça, e ai de quem não o atendesse.
Era
alto, forte, negro, com aquelas nadadeiras, corpo coberto de escamas meio gente
meio homem bicho assustador e deslumbrante, os pescadores iam se acostumando e
o alimentavam - com peixe e cachaça, pescador sabe tratar as criaturas das
águas, e ai dele não soubesse.
Foi
sabendo conhecendo penetrando aquele mundo.
Realismo
fantástico?
Sabe-se
lá.
Melhor
não duvidar das criaturas contadas por aquele povo das águas, os pescadores e
as lavadeiras, e as velhas senhoras, mesmo não sendo do rio, a reproduzir as
verdades líquidas.
Contar
histórias, uma arte, e essa arte era desenvolvida em Iaçu.
Contava-se,
e havia quem jurasse de pé junto ser verdade verdadeira, da Mãe D'Água.
Aquela
lindeza a pentear seus longos negros cabelos à luz da lua.
Ouvia.
E
acreditava.
E
a sucuiuba - chamavam assim a sucuri...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
E assim esse narrador encantado traduz todo o encantamento da minha Iaçu
encantada. É assim mesmo, gente.
Mônica
Bichara:
Quanta beleza nessas memórias, poesia pura
Isabel
Santos:
Que belezura. Me deu arrepios de emoção. Fui lá longe, nas minhas memórias da
fantasia, no meu interior, com noite de lua cheia, brincando ao ar livre, sem
medo de ser feliz. Gratidão, Emiliano José/Cleidiana Ramos.
------------------------------------------------
Emiliano
José
20
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: a serpente dorme no
fundo da Igreja Matriz, tem olhos de alumiar a noite e chifres de dragão sou
caipira Pirapora...
Cês
pensam, eu sei, tudo lenda né?
Incréu
é assim.
Mas,
o povo conta.
É
bom não duvidar.
Há
muita sucuri, cobra grande de perder de vista, aquele mundão de cobra vivendo
embaixo de cidades por aí.
Credita,
não, né?
Dizem,
o povo diz e sei que não inventa: há muitas se arrastando por cidades desse
País gigante entram debaixo da terra a cauda embaixo da igreja a cabeça no rio
e quando ela acorda e se espreguiça a terra treme de leve e aí tem gente a
esparramar seja terremoto nada é a sucuri sucuiuba.
A
sucuri sucuiba de Cleidiana, a sucuri contada pelos pescadores, era uma dessas,
cheia de artes e manhas.
Os
olhos, pareciam faróis - iluminavam tudo, o fundo do rio até.
Tinha
chifres.
Parecença,
creiam, com dragão aquático.
Como
viesse de outros tempos.
Quem
sabe, viesse mesmo - pescadores não duvidavam.
Corria
outra verdade, esse mundo vasto mundo cheio de surpresas: havia uma outra
serpente, não a das águas, uma mais sossegada, dada ao descanso, ah, esta
dormia embaixo da terra, nos fundos da Igreja Matriz de Iaçu.
Fosse
pra dormir, e ela adorava dormir e sonhar, se desse sob a proteção de Deus Nosso
Senhor, pai de todos os viventes.
Deus
não é só pai dos homens, é de todos os bichos.
Os
pescadores adiantavam: um dia secasse o Paraguaçu naquele trecho de Iaçu,
deixasse de refrescar o corpo da bicha, é, porque chegava água até ali,
pouquinho, mas chegava, e ela acordaria
de seus sonhos e poderia assustar todo mundo não obstante não quisesse briga
nem morder ninguém que era de paz.
Cleidiana,
mulher de fé mas nem tanto, ainda indagava do pescador:
-
Mas será?
Ora,
retrucava o pescador, é só a senhora observar, é, pescador prefere respeitar
toda mulher jovem ou mais velha todas são senhoras, é só olhar, se a fé lhe
faltar, se não acreditar em palavra de pescador, sempre verdadeira, é só
observar como volta e meia há um afundamento daquele trecho próximo à Igreja
Matriz, os paralelepípedos fora do prumo.
-
Algum humano mexeu? - ele pergunta.
Ele
mesmo responde:
-
Nada, minha senhora. Foi a cobra, mudando de posição durante o sono, talvez
algum sonho perturbador.
Não
conhecia esse mundo.
O
mundo das águas.
Maravilhoso,
deslumbrante, assustador.
Surgido
por inspiração da professora Rosângela.
Tanta
coisa, tanta descoberta, e a vontade de cantar sou caipira Pirapora Nossa
Senhora de Aparecida ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Gente: não tem mais jeito. Emiliano já foi completamente encantado por
Iaçu....que lindo!
Mônica
Bichara:
Praticamente um nativo
Cleidiana
Ramos:
Mônica Bichara completamente....
Lourdinha
Brito:
Nossa! É encantador. Doida pra ver a continuação.
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Emiliano José
21
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: das águas para a
grilagem,
Rosângela orientadora, Chico de Nazinha
produtor, início de uma grande jornada.
E
entregou o trabalho para Rosângela, sedutora mestra.
O
trabalho, uma tentativa de aproveitar os ensinamentos daquele rico semestre,
indicou como o rio e a cidade eram irmãos, como se entrelaçavam, nas muitas
magias, nos muitos reinos encantados das águas do Paraguaçu.
É,
havia magia.
E
economia: cerâmica, blocos, pequenas olarias, quase mil empregos diretos e
indiretos, tudo relacionado com as águas.
E
problemas, outra vez a vida não é linha reta, as curvas: o uso de sondas
retroescavadeiras pela, vá lá, indústria de cerâmica, provocava o assoreamento
do rio, e aí Ministério Público não conta conversa entra com Ação Civil Pública
e causa controvérsia dos diabos.
O
trabalho foi grande aprendizado.
Dos
bons.
Uma
grande reportagem.
Conheceu
sua terra.
Pensava
muito nisso: você vive ali e conhece pouco.
De
repente, uma professora faz o convite: vá conhecer onde nasceu.
A
partir das águas.
E
conheceu.
Melhor:
deu um passo para isso.
E
continua a caminhar.
Terra
de encantos não se descobre assim em olhar aligeirado.
Rosângela
gostou muito da reportagem.
Tanto,
tanto, um tantão assim.
E
sugeriu: por que você não parte daí, amplia, e faz o seu trabalho de final de
curso conhecendo mais Iaçu?
À
época, Projeto Experimental, hoje TCC.
Ampliar
significava, pensou logo Cleidiana, mergulhar na luta dos trabalhadores rurais,
intensa na região.
Uns
dois dedos de prosa com Rosângela, ela aceita o enfoque, e mais: topa ser a
orientadora.
Ah,
mas quem gostou mesmo foi Chico de Nazinha, é, não havia dito: Chico Preto era
também conhecido como Chico de Nazinha, como de costume nesses sertões afora,
uma pequena vingança feminina diante do patriarcado.
E
se a professora Rosângela era a orientadora, Chico de Nazinha, o produtor.
Não
se sabe quem mais fascinado: se Cleidiana, se Chico - o leitor pode escolher se
de Nazinha se Preto, Chico.
Esperava
a filha nos finais de semana com a pauta pronta, entrevistas marcadas - um
privilégio
Era
ela descer do ônibus na sexta-feira à noite, e lá estava ele no pé da obra.
Entrevistou
gente que só o diabo, tropeçou numa montanha de documentos...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Ah gente...a cada dia ele fica mais encantador ..esse Emiliano José....
Mônica
Bichara: Fascinante esse enredo produzido por Chico Preto de Nazinha - aposto q
tb era chamado assim. Curiosa pelo rumo dessa prosa
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Emiliano
José
22
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: Solidão, Buendía, Conselheiro, pé
na estrada, e a descoberta dos caminhos da Água Grande.
Quando
leu o trabalho "A ingratidão da Água Grande", final de curso da
professora Rosângela, para um grupo de colegas, Cleidiana foi surpreendida pelo
quase inocente comentário de Lorena Vieira:
-
Gozado, parece a história daquele livro chamado "Cem anos de
solidão". Você já leu?
Não,
não havia lido.
Pegou
no ar a dica preciosa, correu às livrarias, comprou o livro, e o devorou num
final de semana, encantada, inebriada, bêbada de tanto maravilhamento.
Ninguém
fica impune se conhece os Buendía.
Conto:
fui à estante e peguei a 11ª edição dele, editora Sabiá, tradução de Eliane
Zagury.
Com
cuidado: a capa já está solta.
A
primeira página, primeira mesma, antes do título interno, também solta, se
quiserem fotografo, tem um carimbo: no alto, escrito "Censurado", e
datado 14/3/1974.
Os
livros, antes de chegarem às nossas mãos na Galeria F da Penitenciária
"Lemos Brito", passavam pela censura.
Esse
foi liberado, e foi possível conhecer os Buendía desde lá, olhe que tem é
tempo, século passado, e há sempre a tentação da releitura, nunca é o mesmo
livro, não é verdade?
Volto
- Cleidiana começou seu "Os caminhos da Água Grande", seu Projeto
Experimental em Jornalismo, sob as bênçãos dos Buendía, debaixo do olhar
encantado de Gabriel García Marquez.
Talvez,
e nem sei se sabia, as ideias circulam, os grandes mestres povoam nossa
imaginação tendo lido ou não suas obras, talvez tenha caminhado pelo sertão de
Iaçu lembrando-se também do Conselheiro, de suas visões, sonhos, da terra de
onde jorrava leite e mel, e d'Os Sertões", a magistral, magistral mesmo,
obra de Euclides da Cunha.
A
Terra.
O
Fogo.
A
água.
O
ar.
São
os quatro capítulos do livro dela - é, converteu-se em livro.
Fui
à estante, essa uma edição preciosa e mais nova, de 2001, de "Os
Sertões", da Ateliê Editorial, edição organizada inteiramente por Leopoldo
Bernucci, indicada a mim pelo amigo Paulo Dourado.
Lembram?
A
Terra.
O
Homem.
A
Luta.
Esta,
a titulação de Euclides da Cunha.
Jornalista,
mas cujo livro superou classificações.
Parecença.
Outra
inspiração.
Guiada
pelos Buendía, abre o livro, ou Projeto Experimental com Macondo.
Aquela
aldeia de vinte casas de barro e taquara.
Havia
corrido trecho, muito trabalho para chegar a Macondo, vasculhar Iaçu, havia
andado mais que notícia ruim.
Sempre
com Chico Preto de Nazinha ao lado...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica
Bichara:
A Macondo de Cleidiana de Chico Preto de Nazinha
Cleidiana
Ramos:
Eu tive um dia bem nessa linha...passei mais de seis horas desconectada..o
cular antigo rebelou-se..danou-se..deu um último suspiro e eis que só agora
acesso o capítulo de ouro..o mestre...danado esse Emiliano José, Mônica
Bichara..
Isabel
Santos:
Sim, esse menino Emiliano José é danadinho que só ele. Rssssss
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Emiliano
José
23
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: tempo-seco, sertões,
acompanhando águas do Paraguaçu,
massacres, índios, posseiros, terra.
-
Esta noite ainda ouvi. Um tempo-seco cantava: passarinho de caatinga e
travessia onde não tem água nem valença. Chocho que dá dó, grita horas mortas
da noite, pra dizer tá vivendo mesmo.
Quando
leio essa prosa de Osório Alves de Castro, logo na abertura de "Porto
Calendário", penso nos quantos sertões, nas quantas águas.
Ele,
Osório, bafejado por admiração e amizade de Guimarães Rosa, banhado pelo
encantamento do rio Corrente nas longínquas terras de Santa Maria da Vitória,
onde correu o sangue de Eugênio Lyra num fim de tarde na luta pela terra lá
pelos idos de 1977.
Cleidiana,
banhada pelo Paraguaçu, fosse Iaçu, fosse Cachoeira, as águas pareciam
persegui-la, ou ela vivesse atrás das águas do Paraguaçu, alma das águas.
Dele,
daquele rio cheio de sucuri e Nego D'Água, nunca se desgrudou: sina, destino,
paixão.
Sertões
são todos iguais.
Não
sei se a afirmação tem valença, ou tanta valença.
Sertões
são muitos.
Parecença,
sim.
Iguais,
desistam.
Na
luta pela terra, aí sim, meu senhor, podemos concordar: todos os sertões se
parecem.
A
terra que é de todos deixou de ser desde a chegada dos portugueses, quando
então tudo tornou-se capitanias hereditárias, vício jamais abandonado pelos
senhores da Casa Grande, que de suas vastas varandas ordenam matança e
perseguição de lavradores, dos que fazem da terra, vida, a vida que lhes é
sonegada a cada dia, seja latifúndio, seja o capital avassalador destrutivo.
Cleidiana
descobre isso, em seu livro, seu projeto de final de curso, logo no primeiro
capítulo, onde trata da terra.
Precisou
de fôlego, foi corrida de muita pressa, urgência, mas de muito zelo, tino, cuidado,
pesquisa, entrevista, muita prosa, conversa na caatinga e na beira do rio, é,
do Rio Paraguaçu, ele mesmo, sempre.
Ela
ouviu e acreditou:
-
O passado é uma coisa que orienta o futuro.
Palavra
de velho morador do distrito de João Amaro, Abelardo Vaz, 76 anos quando
danou-se a filosofar na entrevista concedida para o livro.
E
correu atrás do passado, final do século XVII, terra conquistada por
arcabuzeiros forasteiros paulistas Iaçu nascida assim com matança de índios
cariris e sabujás que índio não merecia viver branco sim que vem trazer
civilização.
Massacre.
Brasil
e tudo Iaçu também nascido sob arcabuzes rompendo matas conquistando terras
exterminando índios.
E
Cleidiana perdendo a inocência, descobrindo o quanto de violência tem a
história, o quanto a terra é regada pelo sangue, surpreendendo-se: não era
metáfora.
E
descobrindo a impressionante cadeia sucessória daquelas terras, a compreender a
gênese de toda a violência contra os posseiros, violência vivida por ela de
perto, conhecida de perto - antes, os índios, agora os pequenos lavradores...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Emiliano e seus encantamentos...eita! Sertanejo de honorário quase nato...
Isabel
Santos:
Que lindeza de narração. Que história forte. Que menina cheia de garra.. A Iara
do Paraguaçu a desbravar.
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Emiliano
José
24
de outubro 2020
Cleidiana Ramos: um livro, muitas
histórias, as
loucuras do homem predador, a revoada de
beija-flores, a rua do Brega, as putas e as senhoras do bem.
O
livro de Cleidiana passeia pela terra, luta dos posseiros, suas vitórias, a
briga com os Medrado, o desalento, com o abandono pelo governo.
Um
trabalho de repórter atenciosa, capaz de ouvir os dois lados, inclusive os
Medrado.
Fala
da cidade, suas mudanças, da cidade esquecida, a lembrar cidade morta, e sempre
renascendo.
Percorre
os mistérios das águas, e a loucura do homem predador, do capital a
desrespeitar tudo, a agredir a natureza, matar terras e águas.
Fala
ainda de esperança, da revoada de beija-flores, quem sabe um dia seja possível
recuperar o ambiente tão maltratado, desprezado como se a Mãe Terra fosse
eterna, capaz de resistir ao espírito destrutivo do homem.
Quem
sabe um dia, possa um dia chegar à cidade, olhar o município, botar os olhos no
rio, encher o peito e dizer:
-
Água Grande, você continua a ser símbolo de fertilidade e vida digna.
Quem
sabe.
O
livro percorre ainda as transformações culturais, as melhorias administrativas,
muitas delas decorrentes das duas gestões de Chico Preto de Nazinha, o pai.
Uma
delas, a rua do Crefe.
De
oficial, rua Itaberaba.
Era
a rua das putas, rua do Brega.
Hoje,
já rua Itaberaba.
Perdeu
sua riqueza e tradição, o mundo mudou.
E
perdeu o nome, tão cheio de amores, lembranças, poesia.
Mas,
é rua a remontar histórias, muitas.
As
meninas da rua do Crefe sofriam um interdito: só podiam circular na rua delas.
Ali,
eram rainhas do pedaço.
Cortejadas.
Paparicadas.
Não
podiam ir ao "comércio", no entanto.
Ah,
mas as "senhoras de bem" também sofriam interditos.
Eram
impedidas de andar pela rua das putas - podiam se contaminar, aprender pecados,
quem sabe, um perigo dos diabos.
A
elas estava reservado apenas o direito de fazer o dever de casa, gostassem ou
não.
Os
homens tinham pleno gozo da rua do Crefe, da cidade, e de suas casas - podiam circular tanto lá como cá, na rua
das putas, e no comércio, patriarcado é isso mesmo, faz séculos.
Tantas
cidades mundo afora conheceram o brega, não?
Iaçu
e sua rua do Crefe não é exceção.
Um
dia, uma procissão...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos:
Perfeito..Iaçu..
Eliana
Gomes Santos Gomes:
Crefe. Não Creme.
Emiliano
José:
Eliana Gomes Santos Gomes atendido
Cleidiana
Ramos:
Culpa do corretor automático do meu celular, Eliana Gomes Santos
Gomes...Emiliano pediu pra confirmar..eu escrevi crefe e o corretor, puritano,
ficou mudando pra "creme". 🤭🤭🤭
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Emiliano José
25
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
procissão do Coração de Jesus entra na rua do Crefe, fim do interdito,
duas cidades se
abraçam, meladinha no nascimento.
Cabeça
de padre, quem há de saber o que passa?
Deus,
talvez, quando se ocupa de um deles.
Ou
o Diabo, quando dá de atentar um pobre coitado.
Os
dois vivem nessa peleja - padre é território de disputa da dupla, inda mais
depois de a Igreja inventar essa história de celibato.
E
aí a pobre da Eva entra como culpada, como se fosse.
Que
ia pela cabeça do padre Peixoto em 1988?
Era
pároco, melhor dizer vigário, povo entende melhor, de Iaçu.
Na
pia batismal, deram-lhe o nome de Almiro Rezende Peixoto.
Nesse
ano, amanheceu um dia com o Diabo no corpo, com desculpa da expressão.
Pensou:
vou assustar essa cidade.
Mexer
com os preconceitos dela.
Acabar
com seus farisaísmos.
Afrontar
os mexericos sobre as meninas da rua do Crefe.
Não
fora o próprio Cristo tão amoroso com elas, vida afora?
Pensou
Nele expulsando os vendilhões do templo, mais ou menos isso.
Danou-se:
meteu a procissão na rua do Crefe, com toda pompa e solenidade.
Procissão
do Coração de Jesus, o padroeiro.
Ele,
todo paramentado, como convém para a ocasião.
Puxando
reza e procissão.
As
meninas, nas portas.
As
novinhas e as mais velhas.
E
os acompanhantes, seguindo, perplexos, assustados, mas padre é padre, vigário é
vigário, tem mandato outorgado por Deus, quem há de refugar?
Foi
entrar na rua, e ouviu-se meio sussurrando aquele ohhhhhhh dos participantes da
procissão.
Esse
padre enlouqueceu?
Tá
com o Diabo no corpo?
E
o olhar respeitoso, contrito, agradecido das meninas, as putas tão visitadas no
dia-a-dia pelos senhores de bem.
Elas,
só faltaram ajoelhar à passagem do Coração de Jesus.
O
olhar quase apaixonado para o padre, tão corajoso.
O
vigário, naquele dia, com a histórica procissão, acabou com o isolamento da rua
do Crefe.
A
cidade e suas putas podiam se abraçar.
Fim
do interdito.
Cleidiana,
cuja mãe Nazinha nunca discriminou ninguém, chegava a tomar a bênção desde
menina de algumas das putas já aposentadas.
Mereciam
respeito.
Quando
nasceu, Nazinha lhe contou, duas delas foram tomar a meladinha em sua casa.
Veio
ao mundo naquele 1975 abençoada pelas meninas.
Não
é para qualquer uma, não...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah..obrigada
por fazer circular essas histórias tão queridas...
Isabel Santos: Que lindo.
História ímpar, para ficar realmente para sempre no coração.
Jose Jesus Barreto: o reino das
putas é também o reino de Deus.
Almiro Rezende Peixoto: Interessante
reviver o passado, saudades deste tempo, fui muito feliz em Iaçu. O mesmo
aconteceu em Nazaré, quando fui pároco, nenhuma procissão, até então, nunca
tinha passado pela rua da Fontinha, e passamos com a procissão e a recepção foi
linda.
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Emiliano José
26
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
rito de passagem, o
dia da glória,
novembro de 1997.
Vou
me impor.
Tenho
de dizer isso a mim mesmo.
De
modo a não me deixar levar, como se numa correnteza.
Melhor nadar um pouco na contracorrrente,
fazer esforço maior, e seguir adiante.
A
escrita tem vida própria, e se não a enfrento me leva pra onde quer.
Inda
mais se os encantados de Iaçu me chamam.
Chico
Preto de Nazinha que me aguarde.
Ele,
suas putas, Nazinha, e a sororidade das mulheres de Iaçu, mais avançadas do que
as das metrópoles, onde sororidade escasseia.
Me
aguardem - podem roer unhas de curiosidade.
Um
dia conto.
Quero
agora chegar a 1997.
Ao
dia glorioso da entrega do Projeto Experimental, mais tarde livro.
"Os
caminhos da Água Grande (Município de Iaçu - Suas histórias e os impasses para
o desenvolvimento)".
Novembro
de 1997 - tem um tempinho, não Cleidiana?
Dia
especial na vida de qualquer pessoa.
Na
banca examinadora, a orientadora Rosângela Vieira, a sedutora professora, Nadja
Miranda, sua chefe na Ciência Press, e eu, honrado com o convite.
Estava
afastado para o Doutorado, mas aceitei com gosto.
Cês
sabem: era amigo de Chico Preto, e não podia recusar.
Uma
afronta dessas, ele não perdoaria e eu, ex-cristão, estaria carregando culpa
até os dias de hoje.
E
tinha a aluna, Cleidiana, filha querida, com quem já tivera contato.
Havia
sugerido estágio pra ela no "Bahia Hoje", mas ela preferiu ir para o
Ministério Público, trabalhar sob a direção de Rubens Neuton e Ângela Barreto,
dois grandes profissionais, e conhecer homens notáveis, como Lidivaldo Brito,
hoje desembargador, e o procurador José Gomes Brito.
Chico
Preto de Nazinha, presente.
Nazinha,
sem dúvida.
Eu,
ao final de minha apreciação, perguntei - a lembrança é de Cleidiana:
-
Por que você não tenta publicar esse trabalho como livro? Ele para mim parece
um livro-reportagem.
Me
retraio um pouco, mas acho besteira, ela faz um relato pra mim comovente porque
a lembrar de meu afeto, de meu carinho, amizade por Chico Preto - bom rever
esse depoimento, mais por ela, menos por mim, mais por Chico Preto e ela, mais
por Nazinha, menos por mim, se me entendem.
Então,
ela relata agora, lembrando daquele dia, espécie de rito de passagem, conta
minha intervenção final...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E olha Seo
Emiliano José me levando para aquela tarde majestosa para mim. Realmente, um
divisor de águas, em vários sentidos......
Rosângela Vieira Rocha: Ele insiste na
"sedutora professora". É pra morrer de rir, por Plutão em quadratura
com Saturno!
Emiliano José: Rosângela
Vieira Rocha Ué, a seduzida pelo seu saber foi a própria Cleidiana... Quantas e
quantos outros? Saber, quem há de?...
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Emiliano José
27
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
Carro de som, banda, os escambau,
uma festa de
arromba pra celebrar formatura
da filha,
orgulho de Chico Preto.
Tempo,
tempo, tempo.
Estou
naquela banca, naquela tarde, discutindo o trabalho de Cleidiana.
Já
se passaram 23 anos, não é isso, filha de Nazinha e de Chico Preto?
Estou
nessa banca, e ela conta, passado esse tempo todo, como foi.
E
como eu havia de me alembrar?
Memória
dela, de menina, muito mais viva.
Relembra:
depois de eu propor a publicação do trabalho de final de curso em livro, pedi
licença à banca pra um procedimento heterodoxo.
Passo
a palavra a Cleidiana, recordando meu procedimento:
-
Em seguida, pediu licença para ler um recado que havia escrito para o meu pai
na sua cópia do trabalho porque não imaginou que ele viria. Era um texto lindo
em que ele falava de como os homens são chamados no sertão da Bahia. No caso do
meu pai, seria Chico de Nazinha. E dizia muito sobre o papel e responsabilidade
que eu teria sendo filha de quem era.
Por fim, ele me sugeria publicar o trabalho.
E
ela revela lembrar-se de minha frase final:
-
Se não fizer por você ou por Iaçu, que faça por Chico, o eterno sorriso do
sertão.
A
lembrança me comove, me remete a Chico, aos nossos tantos encontros, ao seu
permanente bom humor, sua alegria diante da vida, a serena maneira de fazer
política.
Meu
escrito sobre Chico Preto se perdeu em meio a uma inundação na casa de sua tia Genilda, na Caixa D'Água, em
Salvador, onde morou por um tempo, até 1998.
Soube:
Chico Preto, presente no dia da banca, botou na cabeça a publicação do livro.
-
Com que dinheiro, pai?
-
A gente dá um jeito.
E
com uma filha dessa, um talento desse, pai nenhum regateia: chegada a Iaçu,
na verdade em João Amaro, onde Chico e
Nazina nasceram, é surpreendida por uma
festa de arromba.
Culto
ecumênico organizado por duas igrejas evangélicas, missa, e um baile no clube
de João Amaro, com direito a banda e tudo o mais. Teve carro de som pra
convidar o mundo inteiro, ônibus pra trazer gente de Iaçu - a filha merecia
tudo isso.
Arrumou
dinheiro à base de uma rede de solidariedade.
Ninguém
recusava nada a Chico, inda mais pra uma filha como aquela, de tanta merecença.
Era
gente saindo pelo ladrão, presente a granel, nunca soube distinguir quem deu o
quê.
Não
cabia em si de felicidade, sorria como o pai, e mais sorria por vê-lo tão
feliz, o eterno sorriso do sertão.
Ela
indagou:
-
Meu pai, por que tudo isso se a gente está com tanto aperto financeiro?
-
Veja: se acha que eu vou formar minha filha em Jornalismo e ficar quieto?...
Que nada. E agora é publicar esse livro.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E essas
memórias deixam meus olhos tão cheios d´água como meu Paraguaçu....esse
Emiliano José...
Isabel Santos: Cleidiana
Ramos Eu me emocionei, imagine tu, filha tão amada de Chico Preto e Nazina.
Linda trajetória, linda narrativa, lindo tudo. Salve:
Mônica Bichara: Que coisa linda,
a merecença de Cleidiana Ramos é indiscutível. Aoooooooonde que Chico Preto de
Nazinha ia deixar passar uma comemoração dessa????? A festa era dele e ele
merecia, como merece cada emoção que Emiliano José está provocando hoje
Isabel Santos: Mônica Bichara
pois é, aoooooonde.
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Emiliano José
28
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
um pai que fazia chover
Lembrei-me
agora de um livro do Pepetela.
Lueji
- O nascimento de um império.
Belo
- quem puder, vá atrás.
Nele,
percebi muita coisa.
Nosso
repare vem de lá, de tempos imemoriais.
Ela
sapoiou no braço dele, logologo tafastou, termos estranhos para nós, um
português
rico e diferente do nosso.
O
importante mesmo era o poder da rainha: ela fazia chover.
Fosse
rainha, tinha o poder de fazer chover.
Lembrei
do livro e da rainha ancestral por conta de Chico Preto.
Ele,
tivesse um desejo, fazia chover.
Foi
assim com o livro da filha.
Cleidiana
insistia:
-
Como, meu pai, com que dinheiro?
Pra
quem tem o poder de fazer chover, dinheiro é problema?
-
Só um milagre - murmurava a filha.
-
É minha filha, a política é o território dos milagres, vá aprendendo.
Revirou
céus e terras.
Chuva
só vem assim.
Foi
a José Amando que foi a Antônio Honorato presidente da Assembleia que tinha
linha
de publicações com Empresa Gráfica da Bahia e começou a corrida e
Cleidiana
se viu enredada em reuniões na presidência legislativa e cuidando da
edição
do livro e ia e voltava da Empresa Gráfica e em agosto de 1998 tudo rápido
lançava
o livro.
Aos
23 anos, lançamento na Facom e depois a grande festa em Iaçu, tiragem
esgotada.
Se
o pai faz chover, que mais não pode fazer?
Que
me desculpem, o carro vai adiante dos bois, depois volto, e os bois voltam a
puxar
o carro.
Cleidiana,
em agosto de 1998, já estava em A Tarde, foca, mas estava -
inda vou
contar
isso direitinho.
O
jornal fez matéria sobre o livro.
Cruz
Rios, diretor de A Tarde, ao receber o convite do
lançamento, manda
chamá-la.
Nada.
Só
alegria:
-
Minha filha, você tão jovem e já lançando livro?
Ela
suspirou, aliviada.
E
sorriu diante da saudação final dele:
-
Parabéns.
Nada
como ser filha de quem sabe fazer chover.
Herda
talento, e ainda tem a proteção.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano
José
29
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
vacas pastando na cidade,
fuzuê, e o roubo
do Biotônico Fontoura.
Gabriel
García Marquez sustentava: cada linha de seu monumental "Cem anos de
solidão" tinha como ponto de partida a realidade. Ele apenas fornecia uma
lente de aumento para os leitores entendê-la.
Buscava
na vida, em meio às misérias da existência, a beleza, cores, cultura.
O
universal está na aldeia.
A
vida cotidiana na América Latina está cheia de coisas extraordinárias - era
outra constatação dele.
Talento
e lente de aumento - só precisou disso, e isso claro não é pra qualquer um.
Ah,
e se ele conhecesse Iaçu?
E
se tivesse convivido com Chico Preto de Nazinha?
É,
novamente devo pedir licença à jornalista Cleidiana - o pai dela me arrasta
novamente, um coadjuvante ciumento, insuportável.
Chico
estava lá, sossegado em seu mandato de prefeito, quieto na sua Macondo, e
começou a se incomodar: as vacas circulavam pelas ruas, como se a cidade fosse
delas.
Não
queria culpá-las, elas até se esforçavam tirando o capim do meio-fio enquanto
deixavam fezes por todo canto.
Não
se conformava com a atitude dos donos, incapazes de segurá-las, cercá-las no
pasto de suas fazendas.
Baixou
decreto: gado não podia circular pelas ruas de Macondo-Iaçu.
Ali
não era casa de Mãe Joana.
Edgar
Medrado, o todo-poderoso da cidade, com quem os posseiros viviam às turras,
garantiu: não tiraria as vacas.
Estavam
pastando em suas terras, a cidade incluída.
Chico
Preto foi à forra: pediu desapropriação das áreas ditas de propriedade de Medrado
em nome do interesse público.
Assunto
virou notícia - Iaçu não saía das páginas.
Jornais
na cidade, e Medrado nega tudo.
Mas,
uma vaca abusada e pouco interessada na pendenga passou em frente a um dos
repórteres, assim como quem nada quer, lentamente, rebolando, e no lombo aquela
marca mugindo, um M robusto, a indicar propriedade dos Medrado.
Jornais
registraram - foto da vaca e da marca.
Medrado,
possesso.
Entrou
na farmácia de Chico, deu de bater boca, furdunço da porra, houve quem temesse
pelo pior.
Por
azar, jornal estava na cidade, repórter vendo tudo.
Chico
nunca foi mofino, foi pra cima, e Medrado se mandou bufando, repórter querendo
saber de Chico Preto como tudo acontecera.
Abriu
o verbo, contou tudo, e por fim, debochado, nunca perdia a piada e nem a
provocação, informou ao jornalista:
-
O pior é que depois que ele saiu dei por falta de uma caixa de Biotônico
Fontoura.
O
jornal registrou, que jornalista também não perde a piada.
Edgar
Medrado faltou morrer de ódio.
É
que Biotônico Fontoura tinha então altas doses de álcool.
Gabriel
García Marquez não conheceu Iaçu.
Conhecesse...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Paulo Cézar Gomes: Muito bom,
como sempre 👏👏👏
Cleidiana Ramos: Um
agradecimento especial ao procurador José Gomes Brito que provocou Chico a me
contar essa história e eu sabia que o cronista encantador não ia
resistir...hahaha...lindo!
Mônica Bichara: Que história
sensacional, nosso Chico Garcia Marquez de Nazinha dá cada rasteira em
Cleidiana Ramos que ela vai ter que se contentar em ser coadjuvante. Ele rouba
o protagonismo sempre que o assunto é Macondo/Iaçu
Carlos Roriz Silva: Legal!
Linda Muniz: Sensacional!!!
Isabel Santos: 👏👏Que
maravilha. Amei!
Antonia Garcia: Muito bom!
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Emiliano José
30
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
vontade de entrar em campo, assessoria,
desejo de ser
repórter, no meio da caminho tinha uma pedra.
Hoje,
tal a capacidade dele de ocupar espaço, peço licença a Chico Preto de Nazinha
para cuidar um pouco de sua filha Cleidiana.
Estava
ainda na Facom em 1997.
Sentia
um comichão: precisa estagiar num jornal.
Treino
é treino.
Jogo
é jogo.
Queria
entrar em campo, sentir o friozinho na barriga, emoção do estádio cheio, os
olhares voltados pra ela.
É,
jeito não: falou com Chico Preto - eis nosso coadjuvante de volta.
Ele
conhecia Sylvio Simões, integrante da família proprietária de "A
Tarde", sempre situado politicamente à esquerda, candidato a deputado pelo
PMDB, depois militante do PSB.
Chico
teve uns dois dedos de prosa com Simões.
Cleidiana
foi encaminhada para uma conversa com Elieser Varjão, chefe de reportagem do
jornal.
Conversa
rápida, caceteira, pouco animadora.
Com
seu vozeirão característico, Varjão foi objetivo:
-
Minha filha, sem diploma, nada feito.
Cleidiana
ainda se mexeu na cadeira, fez menção de argumentar.
Varjão
não deixou:
-
Aqui a gente não recebe estudante. Quando você se formar, volte aqui.
Ponto.
Alguns
meses depois, Chico Preto recomenda: ligue para Emiliano José.
Recomendei-a
ao redator-chefe do "Bahia Hoje, Oldack Miranda".
-
Tenho uma vaga na Revista da TV, com Meire Bahia. Daqui a pouco, surgirá uma
vaga em "Cidade" - acenou Miranda.
Ficou
apenas três dias - preocupações com o Projeto Experimental a tiraram do jornal,
além do fato de ter sido aprovada para estagiar na Assessoria de Comunicação do
Ministério Público da Bahia.
Pediu
milhares de desculpas a Miranda, e seguiu viagem.
O
Ministério Público foi excelente escola, especialmente por ter sido chefiada
por Rubens Neuton e Angela Barreto.
Sentiu-se
tentada a seguir o caminho da assessoria, tal a qualidade da experiência, mas
Neuton desaconselhou-a:
-
Você tem jeito de repórter, não deixe isso se perder.
E completou:
-
E repórter de revista. Seu texto é para grande reportagem.
Pensou:
único caminho é ir para o "Correio da Bahia".
Chico
Preto pulou de lá:
-
Calma. Você vai é para "A Tarde". Vou falar com Sylvio novamente.
Agora você tem diploma.
Dessa
vez, chegou à sala de Eliezer Varjão em companhia de Sylvio Simões - olha o
luxo.
Adiantou
pouco.
Varjão,
de estilo inconfundível, turrão, disse não de novo:
-
Aqui não temos programa de treinamento para jovens jornalistas.
Concedeu:
-
Deixe o currículo...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E ele discorre
com uma maestria...gente.
Mônica Bichara: Ele tava lá
escondido vendo tudo e anotando. Só pode, né Cleidiana Ramos? Se duvidar ele
descreve até o clima q estava fazendo
Isabel Santos: Mônica Bichara
kkkkkkkkkkk, esse Emiliano José é DEMAIS. E a gente só curtindo essa sua linda
trajetória, Cleidiana Ramos .
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Emiliano José
31
de outubro 2020
Cleidiana Ramos:
topando a parada, os primeiros
passos de uma
jovem repórter, o friozinho na barriga.
Debaixo
do sujeito turrão, sempre se esconde alguma ternura.
Ou
alguma compaixão, quem sabe.
Na
mente de Eliezer Varjão, deve ter permanecido a figura da menina magrinha tão
interessada ávida pelo jornalismo desejosa de ter a primeira experiência e ele
ali inflexível qual a razão de não lhe dar uma chance?
Coisa
de uma duas semanas após a primeira conversa, chama Cleidiana.
Começou
quase com ternura:
-
Está tudo muito bem: você pode fazer um teste, vamos em frente.
Mas,
turrão não perde seu jeito de ser, a verdade é dita sem arrodeio:
-
Agora, pra seu controle: não há nenhuma perspectiva de contrato ou remuneração.
Argumentou,
quase docemente:
-
Sei, é proposta aceita por pouca gente, eu compreendo - disse levantando os
olhos, largando a papelada, quem sabe as pautas do dia.
Abriu
uma gaveta buscando alguma coisa, e continuou, quase paternal:
-
Fosse você, estivesse no seu lugar, aceitaria. Ao menos pensaria nisso.
Alguém
o interrompeu, chefe de reportagem é procurado por minuto, e ele então
concluiu:
-
Você terá a chance de receber um treinamento de luxo.
Os
olhos brilharam, a alma em festa.
Não
lhe deu um beijo de agradecimento porque pegaria mal.
Claro:
aceitou.
Começou
no mesmo dia.
Na
primeira semana, ao lado da gaúcha Ivete Zhin, gente fina: plantão de redação.
Selecionar
notícias entre as tantas informações levadas à redação por pessoas esperançosas
de ter o jornal como um mediador para resolver os seus problemas.
Daí
surgiam pautas, notas para seções como a de Defesa do Consumidor, muita coisa.
Um
puta aprendizado, uma garimpagem exaustiva a lhe mostrar o quanto o jornalismo
exige de pesquisa.
No
sábado da primeira semana, Ivete Zhin estava de folga.
Varjão
chama Cleidiana à sua sala:
-
Pela primeira vez você estará sozinha na função. Assuma.
Friozinho
na barriga.
-
Se surgir alguma coisa digna de ser transformada em matéria, escreva. Aí já
avalio seu texto.
Muita
responsa.
Final
da manhã e aparece um advogado...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita..lembranças
de dias mágicos...um começo e tanto..hehe.
Mônica Bichara: Começou o
suspense do noveleiro pra deixar a gente ansiosa. Que raio de pauta terá sido?
Tchan tchan tchan tchan......
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Emiliano José
1º
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
plantão, um advogado, uma
denúncia,
matéria, e ela na rua, fim do treino.
Quem
não é do ramo não imagina o quanto um plantão pode ser chato.
Pode
dar sono.
Claro,
tudo pode acontecer, inclusive nada.
O
dia corria assim, naquele dia, quando Cleidiana se viu sozinha, assumindo toda
a responsabilidade, sem as asas protetoras de Ivete Zhin, a gaúcha parecida com
anjo da guarda.
De
repente, aparece um advogado
Cês
sabem, né?
Advogado,
quando esperto, é doido por uma denúncia.
Queria
botar a boca no mundo contra a Prefeitura por conta da exorbitância da taxa de
iluminação pública.
Mostrou
vários documentos que sustentavam a ação a ser movida, não era nada sem sustentação.
Coisa
séria.
Puxou
da máquina, fez o texto, entregou.
Minutos
depois, é chamada à sala de Eliezer Varjão.
Ele
não estava.
Deixara
recado: dirija-se à sala de Cruz Rios, o diretor de redação.
Doutor
Rios - todos o chamavam assim.
Deu
tremedeira:
-
Acabou meu treinamento - disse de si pra si.
Nada.
Varjão
estava lá:
-
Esta é a repórter que escreveu o texto.
Alívio.
Gostou
ser chamada repórter.
Bom
indício.
Rios
tinha uma voz baixinha, rouca, não sei se digo fanhosa, e foi logo perguntando:
-
Minha filha, você tem os documentos que comprovam essas informações?
De
pronto, respondeu sim.
O
diretor dirigiu-se a Varjão:
-
Pode publicar.
O
texto saiu na edição de domingo, e no início da semana virou manchete do
jornal, suíte desenvolvida por outra repórter.
No
dia do plantão mesmo, Varjão me avisou:
-
Você agora entra em nova fase: vai pra rua.
Bendito
plantão, bendito sábado, bendito advogado, bendita iluminação.
Na
rua, a primeira pauta: campanha do Núcleo de Apoio à Criança com Cãncer.
A
segunda, para jamais esquecer: um livro de Ana Alice Costa, do Núcleo de
Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), da UFBA.
Jamais
esquecer por conta da grandiosidade de autora, falecida em 2014.
As
duas matérias no mesmo dia, publicadas na íntegra, e assinadas.
Quando
ligou pra Chico Preto, o pai faltou explodir de alegria enquanto gritava pra
Nazinha vir também saber da notícia.
Começava
a vida jornalística.
Fim
do treino...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Assim
mesmo...não tem aventura maior que vida de repórter.
Mônica Bichara: Agora o baba é
à vera , acabou a moleza. 2 ou 3 pautas por dia, sai de uma na lama e vai pra
outra num hotel 5 estrelas, sapato sujo e suor escorrendo.....Mas repórter q é
repórter é disso q gosta. E a fia de Chico Preto de Nazinha tava só
engatinhando. Em grande estilo
Jaciara Santos: A primeira
pauta como repórter ninguém esquece...
Isabel Santos: Não era pra
menos a alegria de Chico Preto. Tudo se concretizando na vida escolhida pela
querida e aguerrida filha...Uma estrela despontando no céu do Jornalismo
baiano. Que figura Ana Alice Costa, hein, Cleidiana Ramos? Tinha muita
admiração e respeito por ela.
Cleidiana Ramos: Isabel Santos
sim. Uma grande.
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Emiliano José
2
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
entre berros e trovoadas, jovem repórter atravessa os primeiros dias, e começa
a respirar.
Vida
de repórter não é fácil.
Menos
ainda se sob um chefe de reportagem cuja rotina era a bronca.
Eliezer
Varjão era assim.
Broncas
homéricas - era o dia a dia dele.
Quem
estivesse iniciando então, que segurasse a onda.
Nunca
fui admirador dessa pedagogia.
Também
fui pauteiro, chefe de reportagem, editor.
Preferia
conversar, explicar, chamar para o diálogo.
Mas,
são estilos - e cada um tem o seu.
Cleidiana
revela ter sobrevivido aos primeiros 15 dias sob as chuvas e trovoadas de
Varjão.
Não
imaginava fosse assim.
Mas
era.
Um
dia teve de buscar forças no fundo da alma para não chorar.
-
Segurava o choro, e dizia-me, não vou ceder, não vou ceder, não vou dar esse
gosto a ele.
E
Varjão berrava:
-
Como não conseguiu cumprir a pauta? Repórter tem fonte.
Ela,
retendo o choro.
Ele,
elevando o tom:
-
Não lhe ensinaram isso na faculdade, não?
Ela,
engolindo choro, nada de lágrimas.
Compadecida,
a doce e gentil Sônia Araújo veio socorrê-la: abriu sua vasta agenda e passou
as duas fontes de que necessitava.
Uma
hora depois, digitava o texto.
Viu
o grande Varjão postar-se ao seu lado, é, ele era grande, muito alto, e forte:
-
Conseguiu?
-
Sim, estou quase terminando - respondeu.
Talvez,
quem sabe, tenha querido amainar a explosão:
-
Que ótimo. Tá aprendendo.
Nem
tudo, no entanto, são broncas.
O
próprio, ele, Varjão, uns dois dias depois, com seu vozeirão característico,
disse, dirigindo-se a ela, pra todo mundo ouvir:
-
Consegui um dinheiro aí pra lhe pagar. Não é o contrato. Mas, é o pagamento de
um mês.
Era
como fosse no sertão, como se em meio à seca a chuva chegasse, alegrando o
pobre, o rosto se abrindo num sorriso.
A
sorte ensaiava aproximação, uma piscada ao menos.
Começou
a pintar mais boas notícias.
Estava
atenta, olhar à máquina, quando um copidesque, o mais temido pela redação, Luiz
Augusto, postou-se ao seu lado e perguntou:
-
Você é Cleidiana?
-
Sou - respondeu, ressabiada.
Todo
mundo temia qualquer copidesque.
-
Me disseram que você é recém formada. Fiquei bobo porque você tem texto final.
Isso é raro. Parabéns.
Brito
Cunha, veterano e solidário, aconselhou-a:
-
Comemore, minha filha. Luiz Augusto é extremamente rigoroso.
Foi
às nuvens.
Tempo
de seca indo embora...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita,
moço...tanta gente querida nessa saga: Sonia Maria Araujo, Eliezer
Varjão..(saudade danada, porque debaixo do estilo sargentão tem um coração doce),
Roberto Vicente (foram muitas risadas..uma figuraça)..E tem as figuras tão
queridas que já partiram: Brito Cunha, que me acolheu desde o primeiro dia ao
lado de Pedro Souza e Luiz Augusto, o copidesque conhecido com "mãos de
tesoura". Figuraças....
Paulo Cézar Gomes: Só o Emiliano
para ter tão precisas e generosas lembranças.
Emiliano José: Paulo Cézar
Gomes Fruto de rico depoimento da própria Cleidiana. Vou organizando. Obrigado,
meu velho
--------------------------------------------
Emiliano José
3
de novembro
Cleidiana Ramos:
um chamado, doce sargentão, e olho da rua, salve rainha mãe de misericórdia.
Chove
muito em Salvador.
Há
dois dias fazia sol.
O
tempo e a vida.
Quando
menos você pensa, tudo muda.
Quem
pensa em linha reta, desista.
A
vida é estrada cheia de curvas.
Viver
é arriscoso.
Cleidiana
estava em estado de graça.
Coisas
boas acontecendo.
Mundo
divino maravilhoso.
Três
dias para o mês se acabar, e Varjão chama.
Chegou
à sala dele, sentou.
Sempre
com algum temor.
Todo
repórter tremia quando era chamado àquela sala.
Qual
a bronca dessa vez?
Levou
um susto: mostrava-se surpreendentemente doce.
A
quem duvide quando relata hoje, ela diz jurar pela Virgem Maria e pelos orixás.
Doce
- Varjão cheio de ternura:
-
Olhe, desde que você chegou aqui, eu a treinei e testei de todas as formas, e
gostei do que vi.
Cleidiana,
surpresa.
Mas,
pensou, aí tem é coisa.
Tinha.
Ele
prosseguiu:
-
Apareceu uma vaga, eu a indiquei, mas, veja bem, você sabe, as coisas não são
fáceis, havia muita confusão em torno dessa possibilidade, e eu não tive chance
de brigar.
Começou
a entender:
-
Vou ter mandá-la embora.
Um
soco no estômago.
Como
seca no sertão quando irrompe trazendo angústia, fome, desalento, gado
morrendo, crianças com fome.
Era
verdadeira a doçura de Varjão, não era teatro:
-
Você está apta a trabalhar em qualquer jornal do País.
Abriu
uma gaveta, puxou texto lá do meu começo, mostrou anotação de Cruz Rios
elogiando a matéria.
Sentiu
o olhar de compaixão dele, e depois as palavras de conforto:
-
Não desista. Deixe os seus contatos. E cumpra seus três últimos dias.
Um
dia pra jamais esquecer.
A
tarde inteira chorando, em orações.
Recolhida
na Igreja de Nossa Senhora da Piedade - ela, ex-quase-freira, quase conversando
com Maria, salve rainha mãe de misericórdia.
Maria,
mãe, sempre algum conforto.
Chorar,
ajuda.
No
último dia, Varjão ainda fez a recomendação de tentar uma vaga aberta na
"Folha Dirigida", jornal especializado em concursos.
Estava
de fato triste por me dispensar - o sargentão não era tão insensível como
queria parecer...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
4
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
arrumando as tralhas, curtindo tristeza, e uma surpresa.
Noite
da demissão, casa de José Amando, onde estava morando, arruma suas tralhas
lentamente, deixando ainda escorrer as lágrimas.
Juntava
tudo o que tinha, e seguia de volta para o colo de pai e mãe.
Nada
melhor nessas horas.
Dia
seguinte, de carona com José Amando Júnior, olha a paisagem, absorta, o
pensamento busca caminhos, perguntas rodopiam no cérebro.
Pensava,
quase deixava escapar palavras:
-
Tudo estava indo tão bem... - reflexão dolorida, frustração.
A
vida ensinando.
Gentil,
José Amando Júnior deixou-a em Iaçu, e depois seguiu para Itaberaba, onde os
pais dele moravam.
Chico
e Nazinha haviam viajado, e ela ficaria até o início da noite na casa da tia
Cecé, sua segunda mãe.
Mal
botou o pé na sala, e a prima-irmã Neuza Rebouças deu a notícia:
-
Ligaram do jornal. Disseram pra você retornar assim que puder.
Coração
na boca, liga pra Sônia Araújo, e ela, voz alegre:
-
Olhe, Varjão saiu, mas pediu que ligue para o celular dele.
-
Sim, mas o que é? - perguntou Cleidiana, ansiosa - e quem não estaria?
-
Minha amiga, eu até sei do que se trata, mas melhor saber por ele mesmo.
Que
fazer?
Coração
descontrolado.
Liga
pra Varjão, ouve o vozeirão:
-
Minha filha, onde você está?
-
Em Iaçu.
-
Onde fica isso? - perguntou.
-
Na Chapada.
Ele,
voz preocupada:
-
Longe que só a porra. Como faz pra você voltar?
Ela,
incrédula:
-
Voltar?
-
É... Voltar.
Pequena
pausa, prossegue:
-
Doutor Rios mandou te contratar. Trate de vir logo. Viajo na segunda-feira, mas
não se preocupe: Matos vai cuidar de tudo...
Antonio
Matos, um caráter de primeira e grande profissional.
Não
cabia em si de alegria.
Como
a vida dá voltas, não?
Voltou...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Mônica Bichara: Espertos,
souberam reconhecer que iriam perder uma excelente profissional
Paulo Cézar Gomes: Título do
capítulo: "A volta da 'que não foi' "...
Emiliano José: Paulo Cézar
Gomes Obrigado
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Emiliano José
5
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
verga mas não quebra, a vida quer é coragem, contratada, língua-solta
despaginado.
O
ônibus seguia lento.
Mais
do que gostaria.
Pensava
na viagem do dia anterior.
Como
fora triste.
Como
se o destino lhe fosse ingrato.
E
agora na volta para Salvador, o coração aos pulos, feliz.
A
vida ia lhe ensinando.
Não
há mal que sempre dure.
Só
é preciso saber enfrentar.
Quis
lembrar Guimarães Rosa:
O
correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí
afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da gente é coragem.
Havia
aprendido isso no sertão de Chico Preto e Nazinha, pais e mestres.
O
ônibus, lento.
Por
que não corre mais?
Arriou
as malas.
Contratada.
Carteira
assinada em primeiro de junho de 1998.
Não
conhecia os bastidores daquele acontecimento.
Por
que mesmo houvera aquela reviravolta?
Um
dia, durante almoço de confraternização, algum tempo passado, um colega sem
papas na língua, foi duro com ela:
-
Você entrou no jornal pela janela. Só porque era indicação de Sylvio Simões.
Doeu.
Mas,
quem mais se aborreceu foi o sargentão.
Deu
ruim.
Eliezer
Varjão reagiu de pronto, e quase o almoço azedou:
-
Não fale besteira. Ela entrou pela porta da frente. Eu pessoalmente treinei
Cleidiana, e fiz de forma muito dura, talvez mais do que devesse. Se ela não
tivesse competência e resistência não tinha ficado.
O
língua-frouxa, meio desinchavido, despaginado.
Admitiu:
Cleidiana foi apresentada por Sylvio Simões.
Mas
reiterou:
-
Quem a moldou para o dia a dia da reportagem, fui eu, e ela correspondeu mais
do que se esperava.
Todos
silenciosos no almoço e ele explicando.
Cleidiana
era destinada a uma vaga de outra editoria, a de Economia, mas o editor não
aceitou, queria gente com especialização.
Varjão
explicou a Sylvio Simões:
-
A menina é boa, está pronta, mas não foi aceita na única vaga disponível.
Cruz
Rios e Sylvio conversaram e resolveram abrir uma vaga na Reportagem Geral.
Varjão,
pai da criança, comemorou:
-
Além de ter acertado no treinamento, saí no lucro porque ganhei uma nova vaga e
uma excelente repórter.
Iniciava-se
uma nova e duradoura etapa na vida, desinquieta...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita..lembranças
e reaproximações. Falei com Antonio Mattos ontem. 😀
Rozana
Burgos: Dai - lhe emoção !!! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
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Emiliano José
6
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
jovem, mulher e negra,
saltando
obstáculos, carinho e gratidão.
Já
quase chorou diante das broncas dele.
Segurou
as lágrimas pra não ceder, não lhe dar gosto.
Mas,
tem por ele carinho e gratidão.
Não,
não é masoquismo.
É
o olhar sob outras perspectivas.
Eliezer
Varjão, talvez, não obstante jamais tenha confessado, tenha se chateado por Cleidiana ter chegado à
sua sala pelas mãos do diretor Sylvio Simões.
Redação
não gostava dessas coisas.
Aí,
castigou, exigiu, gritou, deu todas as broncas, esticou a corda.
Quase
a dizer vamos ver se a menina aguenta o repuxo.
Quando
peneirou peneirou e descobriu ouro, não quis deixar escapar, que não era besta.
E
quando disseram entrou pela janela gritou falou dos méritos da grande repórter
revelada ali debaixo do seu treinamento tinha de reconhecer às vezes rigoroso
demais.
Carinho
e gratidão porque o caminho era áspero, e ela, lutando, teve o reconhecimento
dele.
Verde
que te quero verde, verdes 23 anos, sem ter passado por nenhum jornal.
Jovem,
mulher, negra.
A
gente sabe, ela diz hoje: como são duras as barreiras quando se unem essas três
condições, mais as duas últimas.
E
isso num jornal de corte essencialmente conservador.
Num
tempo de redações marcadamente machistas, sexistas, para lembrar dois ismos.
Tempo
ainda presente.
Há
ilusões, mesmo entre jornalistas, sobre ilhas imunes a tais preconceitos.
Não
existem ilhas.
O
jornalismo é parte da sociedade brasileira, cuja existência é marcada por mais
de 300 anos de escravidão, com sua crueldade, com o patriarcado.
Por
tudo isso, ao se lembrar de como Varjão abraçou-a ao sentir suas qualidades,
tem por ele carinho e gratidão.
Aquele
Primeiro de Maio de 1998, simbólica data, foi o ponto de partida de 17 anos de
caminhada, dura e rica caminhada pela exuberante floresta da reportagem, quando
muitas vezes sentiu-se sozinha na escuridão, afastando os galhos, aproveitando
cada raio de luz, arranhando-se nos espinhos, para reencontrar-se, e
reencontrando-se sempre.
Essa
caminhada encerrou-se em 7 de dezembro de 2015.
Encerrou-se?
Nada.
A
reportagem será sua vida.
Sempre.
No
jornal ou fora dele.
Logo
no início da caminhada apareceu o doutor Fritz em sua vida...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Que lindo,
Emiliano José. Como sempre.
Marlon Marcos: Bravo.
Sempre!!!!
Paulo Cézar Gomes: Craque das
palavras! Camisa 10 do jornalismo e da literatura! 👏👏��
Paulo Cézar Gomes: Parabéns
Cleidiana Ramos por essa linda trajetória contada com tanto prazer pelo nosso
amigo Emiliano José.
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Emiliano José
7
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Teologia da Libertação, As Brumas de Avalon, Doutor Fritz, cobrança de
consultas.
Varjão
não a conhecia bem.
Foi
um colega de Cleidiana, mais tarde amigo-irmão, José Bomfim, o inconfidente:
-
Olha, chefe, veja com quem está lidando: a moça aí não foi freira por pouco
muito pouco, quase religiosa sacramentina.
Não
é que o sargentão gostou da dica de Brown, como Bomfim era chamado?
A
partir dessa informação, era surgir pauta sobre religião, e pimba: caía nas
mãos dela.
Numa
mesma manhã de domingo, viu-se às voltas com três pautas: uma missa, um
congresso da Seicho No Ie, um encontro de Testemunhas de Joevá.
Era
assim, rotina.
Gostava.
A
experiência com as sacramentinas, tornou-a uma obcecada: procurava sempre saber
mais e mais sobre religiões.
No
interior, tempo de menina, a Teologia da Libertação ainda tinha prestígio, ao
menos com alguns religiosos.
À
memória, saltam as figuras do bispo dom Alair Fernandes e do padre João Antônio
Lizarraldade, vinculados às ideias progressistas, fundamentais no apoio às
lutas dos trabalhadores rurais sem terra de Iaçu nas disputas com a família
Medrado.
Chico
Preto tinha relações de amizade e cultivava admiração por dom Alair e por dom
João Nilton, sucessor dele, embora não fosse religioso.
Desde
menina, Cleidiana lia sobre religiões.
Com
derivações, como a leitura de "As Brumas de Avalon", quando os olhos
se abriram para a questão de gênero no catolicismo.
A
Bíblia, livro considerado por mim como um monumento da cultura mundial, é vista
também por Cleidiana como literatura, história, antropologia, não obstante de
fé, e a fé não costuma faiá.
E
aí chegamos ao Doutor Fritz.
Caiu
em suas mãos acompanhar uma cirurgia mediúnica intermediada pelo Doutor Fritz.
Na
matéria, fazia dupla com o repórter fotográfico Wilson Besnosik, de excelente
astral, constante bom humor.
Chegados
ao local, Cleidiana começa a entrevista com a pessoa que incorporava o famoso
espírito Doutor Fritz.
Seus
critérios éticos impedem-na até hoje de revelar detalhes.
Como
entendia muito pouco do espiritismo, a entrevista foi longa - queria entender
tim tim por tim.
A
pessoa fica consciente enquanto a cirurgia acontece?
Por
que a consulta é cobrada se a caridade nessas práticas é essencial?
Ela
ouvindo as respostas e fazendo contas.
A
consulta custava R$30,00.
Olhou
o entorno: o arrecadado ali correspondia ao salário dela no mês.
Não
era pouco...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Veja como ele
"futuca" as memórias..um bruxo esse Emiliano José...
Mônica Bichara: E Brown
cutucando, dando dicas fabulosas, o faro jornalístico aguçado ......Sei não,
viu, essas memórias dão um livro sozinhas
Cleidiana Ramos: Brown não é
graça...foram vários "cutucões"...hahaha...
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Emiliano José
8
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
respeito às religiões, a primeira dúvida, Doutor Fritz e câncer de próstata.
Perguntava
com genuíno interesse.
Tinha
pelo espiritismo uma curiosidade especial: trata-se de uma prática considerada
religião pelos seus seguidores, mas utiliza a linguagem científica.
E
ela, à época, ainda não havia lido o Livro dos Espíritos.
Por
isso, tantas perguntas.
Podiam
até parecer desrespeitosas, podiam até insinuar alguma ironia.
Mas,
não tinha nada disso.
Queria
apenas entender como se dava a incorporação do espírito do Doutor Fritz.
Religião
carrega a marca da fé.
As
pessoas acreditam, e ponto.
Então,
à repórter não cabia, não cabe, desenvolver juízos a partir de suas convicções,
de sua específica visão de mundo.
Agia
assim.
Queria
apenas entender a cobrança pela cirurgia.
Amigos,
amigas espíritas haviam garantido ser uma regra nada cobrar por tratamentos
espirituais.
Que
fosse.
De
repente, ela não compreendeu algo dito pela fonte.
Perguntou
de novo.
A
assistente informou: é o Doutor Fritz.
Cleidiana
se envolve tanto com a apuração, descarrega tanta adrenalina e vai tocando o
bonde pra Lapinha.
Não
se assusta nem com o inusitado.
É
uma maneira de se proteger, de extrair o melhor das histórias talvez.
Doutor
Fritz olhou para o fotógrafo Wilson Besnosik, e falou:
-
Eu já o vi antes. Mas você era bem mais novo.
A
desconfiança se instalou entre Cleidiana e o fotógrafo: Wilson havia dito à
pessoa ter estado ali antes, e ambos haviam ouvido não haver transferência de
consciências.
Que
seja.
Vida
que segue, e o Doutor Fritz os convida a assistir suas cirurgias.
A
primeira, retirar um câncer de próstata.
Dele,
Cleidiana recebera a explicação: nas cirurgias, não havia incisão, o bisturi
era usado apenas para marcar o local atingido pela doença.
O
paciente fez uma careta de dor quando do contato do bisturi com a pele.
Ela
estranhou, estava muito próxima, houvera apenas um leve arranhão.
O
Doutor Fritz fez mais duas marcações, colocou o curativo, deu alta ao paciente.
-
Próximo - ele chamou.
Cirurgia
de catarata.
Um
senhor na faixa dos 80 anos...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente: ele,
Emiliano José, estava lá..não é possível..😍
Mônica Bichara: Cleidiana
Ramos ele tem esse poder, os mínimos detalhes
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Emiliano José
9
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
bisturi mal cuidado,
propaganda, a
matéria sobre os trinta dinheiros.
Chamou
o próximo.
Doutor
Fritz foi obrigado a esperar um pouco.
O
paciente, na faixa dos 80 anos, recebeu uma ligação no telefone fixo.
Do
próprio Doutor Fritz, Cleidiana ouviu a explicação: era a filha dele, tentando
dissuadi-lo da cirurgia.
Logo,
começou.
Cleidiana
foi surpreendida: o mesmo bisturi do procedimento anterior foi mergulhado em
água, e manipulado na parte interna da pálpebra do paciente.
Wilson,
repórter atento, acionava sua câmera, não perdia um lance.
Cleidiana,
olhando tudo, percebeu o quanto o fotógrafo ficou vermelho: ele levou um choque
vendo o bisturi se mover sob a pálpebra do paciente.
Em
qualquer pessoa seria um choque, quanto mais num idoso.
Terminada
a cirurgia de catarata, Doutor Fritz passou a um menino com psoríase.
Cleidiana
e Wilson perguntaram à mãe sobre o diagnóstico:
-
O problema vai e volta, e os médicos dizem que é de fundo emocional.
Doutor
Fritz, inconformado, retrucava:
-
É sempre assim quando não conseguem explicar.
Recomendou
um tratamento, não realizou cirurgia.
Já
estavam os dois no carro de volta à redação, quando chega a assistente
correndo: pede o retorno deles para conversar com Doutor Fritz.
Cleidiana
imaginou fosse algum pedido para não mostrar alguma coisa.
Nada.
Queria
apenas saber se ela havia anotado corretamente os dados do centro,
especialmente endereço e telefone.
Não,
nem ela nem Wilson gostaram do que viram.
A
incorporação e a utilização de conversa anterior, o lado comercial, a cobrança,
a insistência na divulgação.
Não
havia nisso qualquer desrespeito à religião.
Apenas
a observação da repórter.
Em
toda religião, há os seguidores dos preceitos e os aproveitadores.
Contou
tudo a Varjão.
Ele,
do alto de sua experiência, orientou:
-
Você não tem que fazer propaganda de nada. Repórter, reporta. Ponto. Conte o
que viu.
Cleidiana
contou tudo, revelou dúvidas, o incômodo com a manipulação do bisturi em tempos
de doenças infecciosas como HIV e Hepatite B, a cobrança pelas consultas.
Não
levava muita fé na matéria.
Talvez
nem seja aproveitada - pensou.
Enganou-se.
Dois
dias depois, estava lá, no alto da página 3, título indicando "Doutor
Fritz operando a R$ 30,00".
Na
redação, enfrentava gozações:
-
Doutor Fritz vai lhe fazer uma visita...
Não
perdeu o respeito pelos espíritas por conta disso.
Religião
é um mundo complexo e na sequência dessa matéria ainda vai se defrontar com
mistérios em sua vida, até hoje não
desvendados.
Até
porque mistérios...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Assim mesmo..tal
e qual. Esse Emiliano José.....
Paulo Cézar Gomes: Emiliano:
olhos, ouvidos, memória, sensibilidade, inteligência e palavras. Uma máquina de
saber contar tudo!
Emiliano José: Paulo Cézar
Gomes imerecido, mas obrigado, amigo
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Emiliano José
10
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
interlocução com jovens médiuns, cumprimentando espíritos, descobrindo índios
em sua vida...
Depois
do encontro com Doutor Fritz, bem mais tarde, ainda vai defrontar ainda com a
religião espírita.
Pouco
antes de sair do jornal, em 2015, fez matéria especial para a revista
"Muito".
A
editora era Kátia Borges.
O
fio condutor, a saga de jovens médiuns.
Eis
novo mergulho no mundo dos espíritas.
Conheceu
algumas, alguns.
Uma
delas, com 18 anos.
Tranquila,
não convidou Cleidiana para presenciar nenhum tipo de "manifestação".
Olhava
curiosa para aquela menina, sentia a segurança dela.
Falava
serenamente do significado de ouvir e conversar com pessoas que já haviam
partido desse mundo.
Não
denotava nenhum deslumbramento.
Revelava
apenas sua preocupação em auxiliar quem estava em busca de respostas para sua
perda.
Outro
médium, enquanto conversava com ela, revela a aparição de dois espíritos.
Um,
seu mentor, ou um deles - Cleidiana o cumprimentou respeitosa e educadamente
quando o seu interlocutor apontou a direção de sua presença.
O
outro, um indígena, sobre o qual acrescentou:
-
Ele tem alguma relação com você.
Ela
ainda tenta relacionar as coisas.
A
primeira experiência, com o Doutor Fritz, chegando ao jornal, início da jornada
jornalística em "A Tarde".
A
segunda, com os jovens médiuns, na despedida.
Como
explicá-las, como ver a presença delas em sua vida?
Mistérios.
Ainda
não decifrados.
Talvez
nunca o sejam.
Jornalismo
tem dessas coisas.
E
chega o momento em que o candomblé desponta em sua vida, sem pedir licença,
para nunca mais deixá-la, no já distante ano de 2004.
Recebeu
a pauta: Terreiro de São Jorge Filho da Goméia...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Maravilhoso,
como sempre. 🥰
Isabel Santos: Sim, e sua
história também. Neste Terreiro, Cleidiana Ramos, fui com Anízio C. Carvalho, o
nosso grande, excelente... e querido fotógrafo, quando era repórter do JBa. Com
a trajetória dos colegas, Emiliano José sempre nos faz relembrar nossos
momentos no Jornalismo. É tão bom. Sempre darei Vivas ao
#MemóriasJornalismoEmiliano.
Carmela Talento: Isabel Santos
é verdade Bel
Jose Jesus Barreto: Isabel Santos
papai Anízio. Sempre tomo a bênção.
Cleidiana Ramos: Isabel Santos
..Anízio Carvalho..o.grande. Concedeu-me uma generosa e linda entrevista para a
dissertação de mestrado. E conviveu com grandes figuras do candomblé como Olga
de Alaketo e Eduardo Ijexá..
Isabel Santos: Jose Jesus
Barreto É uma benção podermos fazer isso, né, querido Barretinho? . Bjos.
Isabel Santos: Cleidiana
Ramos é um acervo de memórias., e com uma memória de fazer inveja a muita gente
jovem. Merece todas as nossas homenagens....
Isabel Santos: Carmela
Talento Fomos privilegiadas em conviver de pertinho com ele, essa fera das
lentes, né, Carmelita?
-----------------------------------
Emiliano José
11
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
São Jorge da Goméia, Mameto, nações do candomblé, resistência, aprendizado.
Ano
de 2004.
Matéria
confiada a Cleidiana, o reconhecimento
como bem cultural do Terreiro São Jorge Filho da Goméia pelo Instituto
do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).
Casa
já inscrita nos anais da história da religião afrodescendente, fundada por
Mirinha do Portão, filha de santo do célebre Joãozinho da Goméia.
Todos
anos anos a Bahia é brindada com o desfile do Bankoma, bloco do terreiro.
Lá
foi ela, lápis e papel à mão.
A
conversa foi com a Mameto Lúcia Neves, liderança do terreiro então.
Estava
feliz, a Mameto.
Afinal,
era o reconhecimento de uma bela, consistente trajetória.
Mãe
Mirinha, sempre lembrada.
Quis
saber, que repórter é bicho curioso:
-
Qual a divindade que rege a Casa?
-
Gongobira - respondeu a Mameto.
Deu
um nó na cabeça:
-
É um orixá?
-
Não, é um inquice - explicou.
A
cabeça, um turbilhão.
Cada
vez entendia menos.
Seguiu,
não obstante:
-
Por que a chamam Mameto?
-
Por que a Casa é tradição angola.
Repórter
é isso: são as dúvidas, as inquietações a levá-lo pra frente.
Repórter
é alimentado por sustos.
A
partir dessa desconcertante entrevista, Cleidiana iniciou uma longa jornada
destinada a compreender o candomblé, muito além de sua ignorância, muito mais
diverso, muito mais rico.
Foi
compreendendo.
Na
Bahia, há quatro nações: angola, ijexá, ketu e jeje.
Cada
uma carrega um conjunto de saberes de civilizações africanas, saberes
reconstruídos e renovados em solo brasileiro, parte essencial da resistência ao
escravismo colonial, integrantes do que o grande historiador baiano João José
Reis chama "heroísmo prosaico de cada dia".
A
língua do canto e da reza indica a origem da nação, e evidencia o quanto a
religião, a cultura são poderosas face à violência da escravidão...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Grande!
Perfeito. Assim mesmo...
Mônica Bichara: olha essas
memórias, Apio Vinagre Nascimento
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Emiliano José
12
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
africanês, rodando a baiana,
construindo
glossário sobre o candomblé.
A
partir daquele encontro com Mameto Lúcia Neves do Terreiro São Jorge Filho da
Goméia, Cleidiana passou a levar em conta, sempre, as diferentes tradições do
candomblé, a respeitar as diversas nações.
Usava
sempre os titulos equivalentes.
Yalorixá,
liderança feminina em terreiro Ketu.
Mameto
ou Nengua de Inquice, liderança feminina em terreiro Angola.
E
sempre observava o título correspondente em terreiro Jeje.
O
pensamento dominante não é coisa fácil de desmontar, no entanto.
Um
dia, Cleidiana é chamada por uma de suas chefias.
Nas
reuniões de fechamento do jornal, houve uma reclamação.
Disseram:
essa repórter está escrevendo em africanês.
Decidiram:
ela deverá a partir daqui grafar simplesmente "Mãe-de-santo", e ponto
final.
Cleidiana
rodou.
Soltou
os cachorros.
Rodou
a baiana.
Lembrou-se
de um chiste do povo de Oxum, de quem tem a sorte hoje de ser filha e iniciada
para o seu sacerdócio: água mansa também afoga.
Normalmente
calma, sorridente, parecia outra diante daquela reclamação.
Não
aceitava aquela imposição.
Que
porra é esta?
-
Se eu chamar o prefeito de vereador, o mundo desabaria sobre minha cabeça, não?
Soltava
fogo pelas ventas:
-
Por que com as pessoas do candomblé a gente vai ter que utilizar o título que os
sabe-tudo do jornal querem, e não o correto?
Disse
coisa que até Deus e os orixás duvidam, nem se reconhecia naquela explosão...
Sorte
ter na chefia direta pessoas como a jornalista Marlene Lopes.
Mulher,
negra, sensível.
Conversou
pacientemente com Cleidiana, dialogou, ouviu, e propôs:
-
Você vai elaborar um glossário, onde estará o conceito de nação, a diferença
entre as várias nações, e por que as autoridades do candomblé devem ser
nominadas de acordo com tais tradições. Assim, nós resolvemos a pendenga.
Até
a saída dela de "A TArde", o glossário elaborado por ela foi
respeitado.
O
pessoal do candomblé, feliz.
E
ela, dando aulas, sempre insiste: repórter nunca deve ter vergonha de revelar
sua ignorância, suas dúvidas sobre qualquer assunto.
É
a melhor maneira de aproximar-se da verdade, não dar informação errada.
Assim,
perguntando a Mameto Lúcia Neves, abriu uma vasta estrada de conhecimento sobre
o candomblé, a persistir até os dias atuais...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Esse Emiliano
José tem é arte, não é Mônica Bichara? Menina..olha como ele tira as coisas da
gente..hehe
Mônica Bichara: Cleidiana Ramos
ele faz malabarismo e descobre tudo, nem bola de cristal contaria tantos
detalhes. Agora q virou imortal, então......
Isabel Santos: Cleidiana Ramos
Ele é demais. Cabra bom de criatividade, com leveza, poesia... sem sair do tom.
Gostei da sua garra em bater o pé firme na sua posição, que gerou o glossário.
Parabéns. Bjos
Isabel Santos: Mônica Bichara
ha, ha, ha.
Apio Vinagre Nascimento: Grato por me
marcar Mônica Bichara. Emiliano, com sua habilidade ímpar, consegue, num só
texto demonstrar a força, a firmeza e respeitabilidade de Cleidiana, como
também delinear uma das características de minha mãe, Mam'etu Kamurici da
Goméia (Mãe Lúcia), que é a profunda habilidade de despertar em cada um (a) de
nós o pensar crítico, o olhar aguçado para as coisas do mundo, das energias, do
tempo. Gratidão Emiliano José. Você é um gigante e me dá uma honra enorme de
ser seu contemporâneo. Abraços.
Mônica Bichara: Apio Vinagre
Nascimento pois é, sabia q vc ia gostar. E segue a saga de Cleidiana Ramos no
jornalismo e nos mistérios da vida. Bela trajetória
Carlos Roriz Silva: Parabéns!
Mônica Bichara: Apio Vinagre
Nascimento
------------------------------------------
Emiliano José
13
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Macondo e sua límpidas águas, o trem de ferro, os Medrado e a criação de uma
cidade pra chamar de minha.
Macondo
era ainda pequena.
Claro,
exibia mais de vinte casas de barro e taquara ali às margens daquele rio de
águas diáfanas, correndo por aquele leito de pedras polidas, brancas e enormes
como fossem ovos pré-históricos, e ninguém garante não fossem.
Permitam
a licença poético-literária, dada pelo próprio Gabriel García Marquez: ao
escrever sobre Macondo.
Tratava
das milhões de aldeias e povoados dessa América Latina esquecida e espoliada,
habitada por sonhos, misérias e esperanças.
Iaçu
não tinha os 21 mil habitantes de hoje.
E
o Paraguaçu, seu rio, ainda tinha águas límpidas e pedras brancas, milenares
marcas do tempo.
Era
possível ver o fundo, olhar os peixes e suas cores, desfilando, exibindo-se com
garbo, elegância.
Corria
o ano de 1964, tenebroso ano.
Melhor
Macondo ficasse à margem dos tenebrosos acontecimentos que abalaram o Brasil
nos idos de abril daquele ano.
Mas,
não.
Iaçu
também foi arrastado pelo turbilhão, pelo golpe.
Podia
ficar como aldeia, uma simples aldeia, a escutar de noite o murmúrio das águas,
os mais velhos ensinando os mais novos os nomes das estrelas, assim como
Nazinha faria mais tarde com Cleidiana, ela descobrindo o universo pela voz
macia da mãe
Podia
ficar como na origem, a tão pacata Iaçu:
"Na
entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia Macondo e outro
maior na rua central que dizia Deus existe. Em todas as casas haviam escrito
lembretes para memorizar os objetos e os
sentimentos."
Nada.
Chegava
o progresso.
O
trem de ferro.
Quando
essa máquina chegava, em qualquer lugar do mundo, mexia com tudo.
Para
bem e para o mal.
De
longe, diria para o bem.
Outros
se persignarão, Deus nos livre e guarde, e dirão para o mal.
Leitores
mais impacientes, leitoras mais agoniadas, eu sinto, começam a me cutucar, e a
perguntar, e daí?
Vivemos
tempos de ir direto ao ponto, dispensar essas coisas da imaginação, o tempo
ruge e urge.
E
eu levo essa terrível mania de soltar o pensamento.
Ele
me leva, sou carregado aqui pelas águas mágicas do Paraguaçu, testemunha de
tudo que digo, podem perguntar a elas.
Iaçu
foi emancipado em 1958.
Os
Medrado perderam eleição em Santa Terezinha, onde eram senhores de baraço e
cutelo.
Iaçu
era distrito de Santa Terezinha.
Para
compensar a derrota, moveram céus e terra e criaram outra cidade para eles.
E
surgiu Iaçu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Aff. Assim eu
não aguento: Iaçu, Macondo e Garcia Márquez na mesma equação...Emiliano José,
que presente!
Isabel Santos: Cleidiana Ramos
Presentaço mesmo, querida. Quem manda ter essa trajetória iluminada? E que
Emiliano José continue deixando o pensamento a solto, voando livre. Só temos a
ganhar. É uma criatividade de fazer a gente marejar os olhos....
Cleidiana Ramos: Isabel Santos
nem me fale..todo dia cai um cisco no olho da de cá 😉
Isabel Santos: Cleidiana Ramos
rsssssss E muitos ainda cairão.
----------------------------------
Emiliano José
14 de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
olha o trem chegando, olha o
trem partindo,
olha os tropeiros na caatinga.
Pede-se
licença às leitoras, aos leitores, especialmente aos mais velhos, a quem o
respeito é mais devido.
E
pede-se licença para, antes de falar em Wladimir Pomar, tratar um pouco do
trem.
Essa
máquina de ferro, onde chegava, assustava.
E
deslumbrava.
Era
o progresso.
A
velocidade capitalista.
Máquina
desbravadora.
Imaginem:
o trem chegou a João Amaro, o maior distrito de Iaçu e local de origem do
município, ali pelo final do século XIX.
Fazia
parte da ligação Cachoeira-Chapada Diamantina.
Daqueles
ermos, ainda não era o município de Iaçu propriamente, o trem de ferro seguia
para as Minas Gerais, até Montes Claros.
Conta-se,
e parece verdade: a estação de João Amaro, não mais em operação, é a mais
antiga da Chapada, olhem o tesouro perdido nos sertões.
E
foi construído o ramal João Amaro-Iaçu.
Os
tropeiros, montados em seus cavalos, rebenque nas mãos, espora pra apressar,
roupa de couro pra atravessar caatingas povoadas por espinhos traiçoeiros,
tangendo gado por léguas e léguas, levando mercadorias de um canto a outro com
suas tropas de mula, viram as distâncias se encurtarem.
A
vida mudou.
Era
descarregar as mercadorias na estação, e voltar para outros afazeres, que a
vida requer trabalho e coragem.
Nada
mais de atravessar caatinga ou o rio em balsas.
Desde
lá, fim do século XIX, início do XX.
E
foi aglomerando juntando gente chegando trabalhadores especializados manutenção
logística coisas novas nunca antes vistas.
E
o trem de passageiros, acreditem, o trem levava gente pra lá e pra cá.
Naquele
tempo, tinha disso.
Iaçu
ganhou estação muito bonita no século XX, moderna, mais que a de João Amaro,
abandonada com o fim do trem de passageiros, na década de 1980, quando o País
desistiu da opção ferroviária, tristemente.
Cleidiana
ainda lembra menina menina do desastre representado pelo governo FHC, quando a
Rede Ferroviária Federal foi privatizada.
Assim
como se destruísse uma civilização, enterrasse uma cultura.
Daquele
mundo de trabalhadores, ela fala em 300, restaram uns 70 funcionários.
Como
uma facada no coração.
Como
se o mundo desabasse.
O
trem das sete horas, o último do sertão...
Tudo
em Iaçu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah o trem uma
das minhas lembranças mais queridas de Iaçu...🥰
Antonio Carlos Salles Pedreira Franco: Fiz esse trajeto
Iaçu/Montes Claros, viagem deslumbrante...em Monte Azul troca a bitola da
estrada e segue viagem... belíssima experiência, o trem sai tão carregado que
só conseguir sentar perto de Brumado
Cleidiana Ramos: Antonio Carlos
Salles Pedreira Franco , que maravilha. Eu não tive essa sorte. Viajei ainda
pequena, segundo minha mãe..não lembro de nada.
Isabel Santos: "Como uma
facada no coração". Pois é, coisas do nosso País. Tenho lembranças alegres
do trem que eu via passar, quando criança, do varandão da casa de minha avó
Maria, com quem morava, em Itabuna. O apito, o 'café com pão, bolacha não',
cantado pela Maria Fumaça, estão guardadinhos na minha memória porque, tempos
depois, só restaram os trilhos, infelizmente.
Arnaldo Antonio Fernandez: “Tem dias que
faltam gavetas para guardar tanta saudade...”
--------------------------------------------
Emiliano José
16
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
o velho trem é a vida desse meu lugar,
olha o trem, a
hora do encontro é também despedida.
Todos
os dias é um vai-e-vem
A
vida se repete na estação
Tem
gente que chega pra ficar
Tem
gente que vai
Pra
nunca mais...
Não
sei de que estação fala Milton Nascimento.
De
todas as estações ferroviárias do mundo.
E
mais ainda da estação de Iaçu.
Quando
numa cidade pequena, a vida parece girar em torno da estação.
O
trem parece guiar o destino das gentes.
Guia.
É
a vida se repetindo na estação.
Quando
houve o desmonte de FHC, Iaçu chorou.
Não
só pelo desemprego, desamparo, a fome batendo à porta de tantos, as mães de
família sem ter como dar de comer à renca de filhos.
Não
só por isso.
Aquele
fim melancólico mexia com a alma da cidade.
Com
as emoções da cidade.
Com
sua cultura.
Tudo
ali tinha a mão ferroviária.
Festa
do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro, iniciativa dos ferroviários.
Festa
de Santa Luzia, padroeira dos ferroviários, surge por eles.
A
de Santo Antônio, padroeiro dos ferroviários aposentados.
Devoção
e festa.
Religiosidade
a alegria - tudo vinha do trem, dos trabalhadores da ferrovia.
Bonita,
a mais bonita, quem tivesse olhos percebesse, era a de Santa Luzia.
A
cidade era despertada logo aos primeiro raios de sol com o apito do trem, com
sua buzina estridente com que todos estavam acostumados.
A
buzina do trem era parte da cultura da cidade.
O
maquinista devia buzinar uns 100 metros antes de entrar na área de operações e
ai é então iniciar o solta-vagão, coloca outro, tudo simples para ele, complexo
e fascinante para quem nada sabe.
E
todo maquinista tinha seu jeito muito próprio, cada um dava seu toque musical,
riam não, era isso mesmo.
Vizinho
de Cleidiana, Antonio Pé Leve tinha sua maneira de buzinar.
Nazinha,
era ouvir o buzinaço dele, distante, e exclamava a quem perto estivesse:
-
Comadre, Antonio chegou...
Se
disserem a Cleidiana parece nostalgia ela dirá não parece é.
Aquele
mundo se foi, tristemente, e dele guarda saudades.
A
hora do encontro
É
também despedida
A
plataforma dessa estação
É
a vida desse meu lugar
É
a vida desse meu lugar
É
a vida...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Paulo Cézar Gomes: Trem de
lembranças, descarrilhado nos tempos que não voltam mais...
Joaquim Lisboa Neto: A buzina do trem
pra Iaçu
Como
o apito do vapor pra Santa Maria
Joaquim Lisboa Neto: Alvoroço
-------------------------------------------
(Wladimir Pomar)
Emiliano José
17
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Em nome do Pai, coragem política e teórica, o Massacre da Lapa, uma vida em
vermelho.
Prometi
a mim mesmo: largo o trem por um tempo, e vou me debruçar sobre a chegada de
Wladimir Pomar a Iaçu no já distante ano de 1962.
Preparem-se
para uma viagem diferente, outras paisagens.
Cleidiana
tem uma ideia na cabeça: escrever com mais vagar sobre o impacto do golpe de
1964 em Iaçu.
Que
não foi pequeno.
Essa
ideia me levou a enveredar por releituras, a pedir-lhe licença para falar um
pouco sobre Wladimir Pomar.
Tanto
sobre o episódio vivido por ele em Iaçu, como sobre sua rica história de vida.
Vida
de comunista.
De
quem nunca teve facilidades.
De
quem soube encarar as dificuldades.
Encarar
a ditadura.
De
releituras, peço paciência às leitoras, aos leitores, para destacar "Pedro
Pomar - uma vida em vermelho", 350 páginas de puro amor do filho Wladimir
Pomar pelo velho comunista, seu pai, metralhado pela ditadura na manhã de 16 de
dezembro de 1976, depois de uma reunião do Comitê Central do PCdoB.
De
puro amor, mas livro apurado, fruto de muita pesquisa, a acompanhar o pai desde
o nascimento até a morte, e sempre passando pela história do Brasil.
Pedro,
o pai, vivera vida de comunista desde a juventude.
Uma
vida em vermelho.
Quem
quiser conhecer um bravo militante comunista e um sofisticado intelectual,
leitor entusiasmado de Goethe, corra atrás do livro.
Destaco
apenas, no livro, a convicção dele, entre tantas outras, quanto ao erro
blanquista, foquista, vanguardista da Guerrilha do Araguaia, não obstante
destacasse sempre o heroísmo dos tombados nos combates ou simplesmente
executados pela ditadura.
Na
reunião do Comitê Central do PCdoB, de dezembro de 1976, de acordo com o livro,
isso foi discutido à exaustão, quando então teria se formado uma maioria
crítica em relação ao Araguaia.
A
tragédia das mortes e prisões daquele dia 16 de dezembro e dos seguintes
provavelmente impediu a continuidade dessa discussão, e é certa a existência de
outras visões no partido até hoje, quem sabe majoritárias, a recusar a
interpretação de Pedro Pomar.
O
livro faz uma leitura cuidadosa da história do PCB, do papel de Prestes e de
outros dirigentes, desenvolve a crítica de Pedro Pomar ao mandonismo, chega à
dissidência de 1962, origem do PCdoB, e depois acompanha a caminhada do novo
partido, que reclama a tradição comunista, iniciada em 1922.
Camaradas,
sigo aqui a tradição comunista ao chamá-las, chamá-los assim, desculpem
estender-me um pouco.
Cleidiana
havia me pedido isso: desenvolver um tiquinho, só um tiquinho, a história dos
comunistas, ao menos aquela a elucidar a trajetória de Wladimir - e o que há de
melhor senão a vida do pai, brevemente seja?
Sei,
nesses tempos de textos curtos, isso pode parecer desnecessário.
Mas
tem jeito de falar de uma vida, a vida do pai, sem escrever um pouquinho mais?
Peço
licença para prosseguir amanhã, ainda em nome do pai...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente: ele não
pára de supreender, encantar e nos ensinar...tudo junto e misturado.
Rozana Burgos: Que barato
Cleidiana Ramos, tbm tenho fascinação por estes episódios
Carlos Roriz Silva: Cada vez
merece mais a Academia!,
Emiliano José: Carlos Roriz
Silva amigo é sempre generoso...
Paulo Cézar Gomes: Emiliano,
"Máquina de escrever bem", ou melhor: extraordinariamente bem!
Rui Patterson: Caro Emiliano,
o Pena Forte, a esquerda por inteiro tratava o PCdoB jocosamente até descobrir
que desde 1964 ele implantava no Araguaia uma coluna guerrilheira com mais de
60 integrantes. Uma colega do meu curso de Sociologia da UFBA, que Élio Gaspari
eternizou com o nome de Luzia, a Baianinha, presa antes de integrar-se à
guerrilha, foi para mim a prova do quanto foi maldosa a jocosidade frente ao
martírio dos que integraram a coluna e que deve ser reparado o quanto antes. O
PCdoB é o único a manter, certo ou errado, vigorosa campanha de restauração da
verdade histórica, com o dístico perdoar sempre, esquecer jamais.
Emiliano José: Rui Patterson
maravilha, grande Rui.
Rui Patterson: Emiliano José,
vc poderia entrevistar a Luzia, Diva tem o contato, foi minha colega em
Sociologia!
Emiliano José: Rui Patterson
parece anda arredia, foi o que me disse Diva. Interessaria.
Rui Patterson: Emiliano José
, se quiser, falo com Diva, ela foi minha colega e é mesmo arredia, pelo que passou.
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Emiliano José
18
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Pedro Pomar, protagonista do início e do fim das discussões em torno da
Guerrilha do Araguaia, encontro com Zhu Enlai em 1971.
As
mais interessadas, e os mais curiosos também, certamente vão procurar
"Pedro Pomar - Uma vida em vermelho".
Conhecerão
então o pai de Wladimir Pomar, nosso protagonista, irmão de Eduardo, Joran e
Carlos, filho de Pedro e Catharina Patrocínio Torres, casados em 1935.
Wladimir,
o primogênito.
Tem
história pra mais de metro e meio, o nosso Pedro Pomar, um dos assassinados
pela ditadura.
Sem
ter combatido diretamente na Guerrilha do Araguaia, viveu-a intensamente,
acreditando-a uma aventura foquista desde o início.
Por
foquismo, entenda-se a ilusão de que um pequeno número de combatentes possa
levar a Revolução adiante, e o seu teórico-mor foi Regis Debray, com o livrinho
"Revolução na Revolução", publicado em 1967, bíblia de muito
revolucionário à época.
Viveu,
já contamos, a reunião da Executiva e do Comitê Central do PCdoB, de dezembro
de 1976, onde se discutiu exaustivamente os erros da guerrilha já inteiramente
derrotada, um massacre sangrento feito pela ditadura, em combates absolutamente
desiguais.
E
curiosamente foi o dirigente designado para informar sobre a deflagração da
Guerrilha do Araguaia aos partidos comunistas irmãos, da Albânia e da China, em
1971.
Contrafeito,
aceitou a tarefa.
Era
homem de partido.
Dessa
viagem, e cuido fazer sínteses, recolho o encontro dele com
Zhu
Enlai, primeiro-ministro chinês entre 1949, momento inaugural da Revolução
Chinesa, e janeiro de 1976, quando morre.
Levou
um susto naquele dia: antes das quatro da madrugada, foi acordado pelo seu guia
e intérprete.
Devia
acompanhá-lo para "uma entrevista muito importante".
Nada
mais disse, nem ele perguntou.
Pequim
acordava.
E
ele de repente viu-se frente a frente com Zhu Enlai.
Um
inesperado e histórico encontro para Pedro Pomar.
Túnica
de cor cinza clara abotoada até em cima foi perguntando, ele sabendo pelo
tradutor:
-
Fez boa viagem?
-
Está sendo bem tratado?
-
Já teve a oportunidade de apreciar o caos em que vive a China com a Revolução
Cultural?
Pedro,
ouvindo.
E
o velho dirigente chinês falando:
-
O caos é bom. Rompe com os velhos hábitos, pensamentos e tradições. Abre
terreno para novos pensamentos, mais modernos e avançados.
Pedro,
atento, e Zhu Enlai, explicando:
-
A China está em meio a um processo revolucionário. Infelizmente, um processo
desses não se faz com luvas de pelica ou com bons modos.
Informou
ter lido com atenção o relatório trazido por Pedro sobre a deflagração da
guerra de guerrilhas no Brasil.
-
Nos sentimos honrados pela confiança em nos informar com antecedência sobre
decisão tão importante - disse Zhu Enlai.
Disse
mais: os camaradas indianos também dera à China a mesma honra.
No
fim dos anos 60, desencadearam a luta armada, mas ao fim e ao cabo não
conseguiram mobilizar a população e foram esmagados.
Começaram
aí os alertas do velho e experiente dirigente chinês, manobrando pelos flancos,
sem dizer nada diretamente.
Pedro,
atento, muito atento, e amanhã tem mais.
Estou
apenas atendendo a um pedido de Cleidiana, antes de começar a história da
chegada de Wladimir a Iaçu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Sérgio Buarque de Gusmão: Um dos grandes
momentos do livro, tecido com linhas literárias reluzentes, é a descrição de
como Pedro Pomar passava um café...
Emiliano José: Sérgio Buarque
de Gusmão De fato. E a madrugada em Pequim, com as pessoas fazendo taí chi
chuan... Mas, vc sabe, tenho que resumir, podem me acusar de textão....
Cleidiana Ramos: Que maravilha!
Roberto R. Martins: Vou procurar
ver o livro. Me lembro do Pomar relatando seu encontro com Zhu Enlai, primeiro
ministro chinês. A visita que fizeram ao metrô de Pequim, recém construído e
que serviria de abrigo no caso de um ataque nuclear. Foi sem dúvidas o mais
brilhante dirigente comunista que conheci.
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Emiliano José
19
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
1971 e as derrotas dos movimentos revolucionários armados, fase de maré baixa,
ponderações
de Zhu Enlai,
ouvidos de mercador do PCdoB.
Era
o ano de 1971.
Pedro
Pomar em visita à China informava ao primeiro-ministro Zhu Enlai sobre a deflagração
da Guerrilha do Araguaia.
O
Brasil vivia um momento sombrio, de profunda repressão.
As
organizações de esquerda, profundamente golpeadas.
Eu
próprio, preso.
Mortes
sobre mortes, os órgãos de segurança a todo vapor.
Movimento
popular, zero.
Milagre
econômico comendo no centro, crescimento de 10% ao ano, não obstante a
exploração dos trabalhadores, ou por isso mesmo.
Ditadura
nadava de braçada.
Parte
da esquerda, embalada por ilusões, por sérios equívocos, via tal quadro como
estímulo à Revolução - não, não estou enganado, era isso mesmo.
O
PCdoB estava nessa barca.
Daí,
a Guerrilha do Araguaia.
Já
se disse: Pomar, embora emissário oficial do partido porque disciplinado,
discordava, não compartilhava dessa noção.
Não
foi pequena a emoção de ser recebido pelo primeiro-minisrro chinês.
Zhu
Enlai falou da derrota dos comunistas indianos nas áreas montanhosas da região
de Kerala por não terem conseguido mobilizar a população.
Foi
além: falou em derrotas semelhantes na Malásia, Indonésia e em diversos países
africanos.
Falava
pausadamente:
-
Quando as massas não estão dispostas a empreender a luta armada, não basta que
o partido esteja.
Mostrava:
naquele momento, as experiências recentes de lutas armadas revelavam um número
maior de derrotas.
Nunca
se referia à proposta brasileira de deflagração da guerrilha.
Batia
na cangalha pro burro entender
-
O movimento revolucionário pode estar ingressando num longo período de
descenso, após os movimentos de descolonização que, como uma grande maré
crescente, haviam se espraiado após a Segunda Guerra Mundial.
Era
hora da maré baixo, embora não deixasse de considerar a luta vietnamita, cuja
vitória prognosticava.
Toda
a serena e contundente análise do dirigente chinês sobre o quadro
internacional, a exigência da participação das massas em quaisquer processos
revolucionários, reforçou nele a convicção de que o PCdoB, seu partido, estava
ingressando numa aventura militarista.
No
Brasil, seus companheiros fizeram ouvidos de mercador.
Preferiram
acolher as opiniões favoráveis da Albânia, onde Pedro também estivera.
E
como dirá Wladimir em seu livro, o PCdoB meteu-se então na trilha sem retorno
das selvas do Pará.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente! Que
presente....
Ponciano de Carvalho Jr.: Texto de
imortalidade com a pena de Emiliano.
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Emiliano José
20
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Wladimir Pomar, também
uma vida em
vermelho, com cores chinesas.
Nos
encontramos algumas vezes nas reuniões da Fundação Perseu Abramo.
Ele
sempre sereno.
Talvez,
muito provável, trouxesse, traga a serenidade do pai.
Ao
falar, transmitia segurança, conhecimento, nenhuma arrogância intelectual.
Lembrei-me
mais dele agora, quando, instado por Cleidiana, revisitei o livro escrito por
ele.
Gozado,
a releitura é surpreendente.
Ao
tomar do livro e começar, apesar de todo sublinhado já, parecia uma nova
viagem.
Mais
e mais rabiscado, coitado do livro, porque releitura revela novidades antes encobertas.
"Pedro
Pomar - uma vida em vermelho" é um documento de nossa história, cheio de
beleza literária, e de celebração de uma
vida dedicada ao povo brasileiro.
Wladimir
Pomar soube revelar não apenas a trajetória do pai, mas também os dilemas dos comunistas
brasileiros, seus sonhos e ilusões, acertos, equívocos.
Soube
mostrar uma tendência contínua de subestimação do adversário, precária
capacidade de analisar correlação de forças.
Está
aqui a dedicatória, livro publicado em 2003, sintomaticamente mesmo ano da
vitória de Lula:
"Para
o Emiliano que, como eu, gosta de futucar o passado. Com um forte abraço do
Wladimir Pomar".
Datou:
21 de janeiro de 2004.
Ele
acompanha o pai na dissidência do PCB em 1962, origem do PCdoB, sendo um de
seus fundadores, aos 26 anos de idade.
Foi
preso, podemos chamar assim, na operação de cerco e aniquilamento de dezembro
de 1976, na Lapa, em São Paulo, quando da realização da reunião da Executiva e
Comitê Central do PCdoB.
Nessa
operação morreu o pai Pedro Pomar, e mais dois companheiros, Ângelo Arroyo e
João Baptista Franco Drummond.
E
tantos outros foram presos.
Um
dos fundadores do PT, integrou a Executiva do partido de 1984 a 1990.
Foi
o coordenador-geral da campanha presidencial de Lula em 1989.
Seus
muitos livros caminham principalmente por duas vertentes: mergulha na análise
da China, a passada e a atual, e na avaliação e história da esquerda
brasileira.
Casou-se
com Rachel da Rocha Pomar e teve três filhos: Pedro Estevam, Wladimir e Valter.
Valter
Pomar, o mais novo, é dirigente do PT - seguiu os passos do pai e do avô.
Retrato
em branco e preto, sintético.
Amanhã,
soube, Wladimir deve desembarcar em Iaçu.
Se
a escrita, sempre teimosa, deixar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Grande,
Emiliano José que vai narrando e ensinando...maravilha!
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Emiliano José
21
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
O comunista está chegando,
começa a
conhecer a cidade, vai se enturmando.
Wladimir
Pomar chega a Iaçu em 1962.
Ano
de surgimento do PCdoB, ele próprio um dos fundadores.
Chegou
de mala e cuia, com a mulher Rachel, e mais Pedro Estevam e Wladimir, os
filhos.
Quatro
anos depois, nasceria Valter.
Começo
a falar dessa chegada.
Cumpro
compromisso firmado com Cleidiana.
Vinha
para executar contrato de assistência técnica da General Eletric, onde
trabalhava, com a Leste Brasileiro.
Ao
arriar as malas, tentava aos poucos perceber onde estava.
Pensou
em Óbidos, no Pará, terra do pai e da mãe.
Não
a daqueles anos 1960, já cidade de algum porte, mas a povoação antiga com uma
igrejinha ordinária coberta de folhas e muitas casas do mesmo modo, como a
descrevera o frei João São José, bispo do Pará em 1762.
Nem
tanto, uma evocação apenas.
Na
viagem, viera imaginando um cenário muito pobre.
Impressionou-se
favoravelmente, no entanto.
Iaçu
contava já com cerca de 14 mil almas, oito mil na sede, o restante espalhado
pelos distritos de João Amaro e Lajedo Alto.
Pobre,
casas de reboco e de tijolo, a maioria casinhas pequenas raras as grandes,
igrejinha bem composta, nada de coberturas de folhas nas casas, muito menos na
casa de Nosso Senhor Jesus Cristo Deus nos livre e guarde que o Senhor merece
boa morada.
Olhou
para a Estação Ferroviária.
Destacava-se
naquele cenário.
Portentosa.
Do
lado direito da estrada de ferro no sentido João Amaro.
Do
outro lado, o depósito e oficina das locomotivas e um arruamento com algumas
casas.
Prestar
atenção nisso tudo, obrigação.
O
trabalho seria ali, mexendo com as locomotivas, andando pra la e pra cá na
linha férrea.
Em
frente à estação, do lado direito, os olhos se perdiam num descampado até
alcançar o primeiro alinhamento de casas.
Era
um espaço que se transformava na praça da igreja e território para as feiras
livres.
O
arruamento de casas em frente à linha férrea faziam quina com aquelas que
faziam frente para a praça, formando quarteirões opostos.
Wladimir,
a mulher e os filhos abancaram-se numa rua perpendicular ao arruamento defronte
à linha férrea.
Na
rua havia uma quadra de basquete e vôlei, cimentada.
Seguindo
as ruas perpendiculares à linha férrea, desembocava-se no rio Paraguaçu e na
ponte ferroviária de ligação Iaçu-Bonfim.
Foi
se enturmando, tentando sentir o ambiente, assuntando.
Viera
para trabalhar profissionalmente, vida se iniciando, família pra sustentar.
Comunista,
no entanto, não vai ficar parado.
Algum
trabalho político havia de ser feito.
Existia
o Sindicato dos Ferroviários...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Tô dizendo pra
vocês que esse cronista não dá descanso na curiosidade dos leitores...hehe.
Isabel Santos: E minha
imaginação curtindo essa ambientação, que envolve a Estação Ferroviária...
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Emiliano José
22
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Iaçu vê a modernidade
chegar, e junto
com ela dois comunistas.
Tudo
novo.
Embrenhado
em sertões.
Não
esperava por isso.
Empurrado
pelo destino, pela necessidade da sobrevivência, sustento da família, ganha-pão.
Iaçu.
A
alegrá-lo, o rio, as águas do Paraguaçu.
Pensou
no pai.
E
no partido, PCdoB, recém-criado, ou refundado, como se queira.
Era
a rigor um pequeno agrupamento de comunistas comparado com o velho PCB, de
Prestes, ainda hegemônico no campo da esquerda.
O
pai, naquele ano de 1962, tentava de todas as maneiras romper com o isolamento
do partido.
Assumiu
a direção do jornal "A Classe Operária" junto com Maurício Grabois,
estimulava os poucos militantes a ligarem-se à classe operária nas fábricas e
sindicatos, aos camponeses, aos estudantes, às camadas populares.
Um
gigante, aquele pai, Pedro Pomar.
Lembranças.
Seguir
em frente, tocar a vida.
Continuar
a reconhecer terreno.
Não
viera sozinho.
Acompanhando-o,
Sebastião da Silveira Carvalho.
Ele
o conhecia desde 1958, quando foi trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional,
em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.
Ambos
eram militantes então do PCB, ligados ao movimento sindical.
Os
dois saíram juntos do velho Partidão, e ingressaram no PCdoB.
Em
1962, Wladimir trabalhava na General Electric como engenheiro de serviços,
setor de locomotivas.
A
empresa resolveu destacá-lo para cuidar da manutenção das locomotivas vendidas
à Leste Brasileiro.
Nem
pensou muito: Carvalho era ótimo desenhista de projetos, queria-o junto dele.
Além
do profissional, um companheiro de ideais.
E
os dois meteram as caras sertão adentro.
Não
era trabalho pequeno.
A
General Eletric vendera máquinas elétricas para substituir as movidas a vapor
utilizadas até então pela Leste Brasileiro.
Os
dois iam dar conta disso, dessa inovação.
Soube
da existência do Sindicato dos Ferroviários.
Constatou:
existência figurativa, quase nula.
Comunista
sabe medir essas coisas.
Pensasse
em mexer com a cidade, e comunista sempre pensa nisso, teria muito trabalho
político pela frente além das tarefas profissionais, cuja dimensões também não
eram pequenas.
Mãos
à obra...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: A história
avança sem perder a poesia...
Isabel Santos: Cleidiana
Ramos Será sempre assim, companheira. A criatividade, a leveza, a poesia....,
emocionando. Bj
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Emiliano José
23
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
uma Iaçu bucólica, cadeiras nas calçadas,
a certeza do
golpe, vontade de organizar a resistência.
Muito
trabalho.
Wladimir
e Sebastião meteram a cara na dura tarefa de assistência técnica, manutenção
das locomotivas vendidas pela General Eletric à Leste Brasileiro.
Mal
tinham tempo para curtir a cidade quase bucólica, o urbano crescendo pela
presença do trem, cidade das águas pela presença do Paraguaçu, católica,
conservadora nos costumes, como toda pequena cidade do interior sertanejo
Brasil afora.
No
caminho pra casa, fim de tarde ou já noite, Wladimir observava as senhoras e as
moças cadeiras na calçada ou olhando das janelas, algumas delas com o olhar
perdido sonhando acordadas com o príncipe encantado.
De
dentro de uma casa ou outra, possível ouvir um Nelson Gonçalves: "Boêmia,
aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição..."
Enfiado
naquele sertão por artes do destino, apesar disso acompanhava o evoluir da
política, mais a nacional.
Eram
tempos turbulentos.
Pense
numa atmosfera política polarizada.
Jânio
renunciara em 1961, Jango assumira em meio a uma profunda crise, conciliara com
o parlamentarismo, ganhara o plebiscito, e governava sob crise permanente,
acossado pela pressão aberta dos EUA e das classes dominantes locais.
Quem
quisesse enxergar, visse: um golpe estava a caminho.
A
galope.
Acelerado.
A
esquerda não se preparou: o PCB não acreditava na possibilidade de golpe,
pensava em democracia consolidada, as outras correntes não tinham força.
Os
golpistas se articularam pra valer, prepararam-se até para a luta armada, EUA
no jogo, dispostos a tudo.
Quando
vieram, chegaram com tudo, sem vacilações.
Wladimir
e Sebastião, distantes do centro dos acontecimentos, mas com muita
sensibilidade política, tinham convicção: o golpe viria.
E
era necessário resistir a ele.
Imperdoável
ficar parados.
Conversavam
com quem fosse possível.
Fácil
não era: as pessoas tinham pouca consciência política.
Com
Vicente Oliveira dialogavam muito.
Era
torneiro do depósito de locomotivas de Iaçu.
Sujeito
legal, interessado em política, mas sem relação orgânica com o partido, e não
considerava houvesse qualquer perigo de golpe, como a maioria da pequena
Iaçu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E lá vamos nós
nessa viagem fantástica guiados pela locomotiva de Emiliano José...
Carlos Roriz Silva: Histórias da
ditadura em crônicas muito legais.... Parabéns Emiliano....
Emiliano José: Carlos Roriz
Silva valeu, meu velho
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Emiliano José
24
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Vaca Fardada, golpe em movimento, tentativa de organização da resistência em
Iaçu, aparece um engenheiro dedo-duro e
mela tudo.
Primeiro
de abril.
1964.
O
general Mourão, aquele autointitulado vaca fardada, já se deslocara com sua
tropa na direção do Rio de Janeiro.
Golpe
em andamento.
Será
concluído na madrugada do dia 2, após decisão do Congresso Nacional declarando
ilegalmente vacância do cargo de presidente, e sendo dado posse ao novo
presidente, Ranieri Mazzilli no Palácio do Planalto, com Supremo e tudo.
Naquele
primeiro de abril, Wladimir Pomar estava no Rio de Janeiro.
Dia
seguinte ainda consegue pegar um avião pra Salvador.
A
ideia da resistência não saía de sua cabeça.
E
se tinha alguma coisa a fazer era em Iaçu.
Lá
podia organizar alguma coisa, contribuir para criar obstáculos ao golpe.
Fez
alguns contatos em Salvador, convenceu alguns companheiros a se deslocarem para
Iaçu e contribuírem para a luta.
Omitir-se
seria covardia, abandono da trincheira da resistência.
Chegados
em Iaçu, ele, Sebastião, os da capital, tiveram uma conversa com o pessoal do
depósito da Leste Brasileiro.
Vocês
sabem há um golpe em andamento os trabalhadores serão os principais
prejudicados o imperialismo norte-americano tomará conta do País as liberdades
democráticas serão sufocadas muita gente será presa e nós não podemos ficar de
braços cruzados.
Silêncio.
Os
ferroviários ouviam e era como se não ouvissem como se não fosse com eles.
Não
estavam dispostos a se movimentar.
Não
queriam nada com nada.
Wladimir
havia sentido esse clima antes de viajar para o Rio, mas não se conformava.
Tentar,
tentou.
Recolher-se,
esperar tempo bom.
E
depois retomar a luta.
Podia
ser assim.
Mas,
no meio do caminho tinha uma pedra. Nessas ocasiões sempre aparece um
dedo-duro.
Um
engenheiro denunciou a tentativa liderada por Wladimir de organizar a
resistência.
O
tal engenheiro fora trabalhador e com grande esforço da família havia se
formado.
E
agora tristemente prestava-se a esse papel...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E a história
sob a perspectiva iaçuense segue seus trilhos sob a orientação do nosso
Emiliano José...
Carlos Roriz Silva: Tipo crőnica!
Legal
Mônica Bichara: "Com
Supremo e tudo".....melhor parte. Não é mera coincidência
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Emiliano José
25
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
resistência não deu certo,
comunistas iam
sabotar as locomotivas,
busca de
refúgio, mandacaru quando flora na serra.
Wladimir
sentira o clima antes de viajar para o Rio de Janeiro.
Ele
e Sebastião conversaram com um, com outro, levaram um dois dedos de prosa com
Vicente, entabolaram papo com outros trabalhadores, mostraram importância da
resistência se houvesse o golpe, e os dois tinham certeza de que viria.
Mas,
já se viu, o povo fazia ouvidos de mercador.
Baixa
consciência política.
Não
acreditavam em golpe.
Viria
não.
Wladimir
e Sebastião, apesar disso, tinham uma convicção: viesse o golpe, houvesse um
grupo mínimo organizado, e os trabalhadores se juntariam a eles na resistência.
Fizeram
a lição de casa, conseguiram alguns companheiros em Salvador, e estavam ali
prontos para a luta, para não deixar o golpe passar sem luta.
Organizar
a resistência num dos maiores polos ferroviários do Estado.
Dever
de revolucionários.
Deu
no que deu.
O
povo não queria saber disso.
E
além de queda, coice: o engenheiro delatou.
E
delatou pra valer, que delator é o diabo: os comunistas estão dispostos até a
sabotar as locomotivas, explodir com tudo, um perigo.
Jeito
não: era pé na estrada, tentar se esconder.
Por
enquanto, danar-se pelos matos, caatinga adentro, ficar ali quietinho quietinho
até Deus dar bom tempo, os militares sossegarem um tiquinho, se sossegassem, e
nem rezar dava porque não eram de reza, fé só na Revolução, agora distante...
A
vida e suas voltas.
Wladimir
via-se em pleno sertão, mais agora, obrigado a se esconder na casa de um
camponês amigo.
Pensar,
conhecer o sertão.
Não
lhe dava a impressão dolorosa de Euclides da Cunha quando falava no quase
deserto a se apertar "entre as dobras de serranias nuas ou se estire,
monotonamente, em descampados grandes..."
Nada.
Aquele
sertão do Iaçu mais parecia Luiz Gonzaga cantando "mandacaru quando flora
na seca é o sinal que a chuva chega no sertão..."
Chegou
naquela casinha, naquele morro, e de lá via o rio majestoso, Paraguaçu de águas
límpidas, cristalinas...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
26
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
fuga atropelada pela caatinga, macacos nos calcanhares, verde que
te quero verde,
águas do Paraguaçu...
É,
chegar naquele morro foi fácil não.
Andança
por aquelas caatingas, afastando matos, sentindo sol quente na corcunda,
Wladimir e mais quatro companheiros, caminhada de dez quilômetros, um pouco
mais talvez.
Parece
pouco, e é muito quando a pé, quando sabendo que os macacos podem estar no seu
pé como corriam atrás de cangaceiros havia pouco tempo.
Os
quatro companheiros haviam partido com ele de Salvador.
Haviam
topado ajudar na resistência.
Acreditaram
na empreitada.
Não
lamentavam.
Fizeram
a passos largos a caminhada.
Se
eram mesmo do Sindipetro, como se sabe até agora, eram de luta.
Naquele
2 de abril, Mário Lima, o presidente do Sindipetro, estava sendo preso em
Salvador por Manelão - assim era chamado o general Manoel Mendes Pereira,
comandante da VI Região Militar.
O
sindicato estava tomado por forças policiais.
Quem
quiser saber mais sobre a saga de Mário Lima, prisões e o escambau, procure o
"Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", parte II, escrito por mim, e leia o capítulo "Na cova do
leão".
Mário
Lima foi meu companheiro de Galeria F.
Nos
anos 1980, fui assessor do Sindipetro, ele presidente novamente.
Mais
não digo, não precisa - a leitora se quiser, vai atrás, o leitor também.
Os
quatro e Wladimir chegaram à casinha do camponês amigo.
Morro
do Roncador, chamava-se assim o lugar.
Não
era assim um morro, uma elevação muito alta não.
De
elevação mediana.
E
era tudo verde, verde que te quero verde verdes ventos verdes ramas, lembrava
García Lorca, tudo verde.
Enganam-se
os crentes numa vegetação rala terra seca vastidão desértica quando se pensa em
caatinga - tem isso e tem muito mais, tem árvores e tem flores e tem verde
muito verde.
E
quando há águas próximas, aí tudo floresce, a vida resplandece, explode em meio
ao deserto.
O
Paraguaçu está logo ali, embaixo do Morro do Roncador, e as suas águas, vão se
espraiando pelas redondezas, infiltrando-se,
esverdeando tudo fazendo tudo nascer e renascer.
Dali,
da casinha logo acima, os comunistas podiam enxergar o fundo do rio, tão
cristalinas as águas, até as pedras limadas pelo tempo, os peixes, a vegetação
das beiradas, tudo se podia ver.
Não
fosse a turbulência política, e podiam sonhar em passar um tempo ali,
desfrutando das águas, maravilhando-se com o verde do entorno, banhando-se no
rio quando desse vontade.
Ah,
pudessem...
Mas
que nada.
Temperatura
esquentou lá na sede...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
27
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
o depósito de óleo diesel iria
pelos ares,
explodido pelos comunistas,
meganhas chegam
na cidade, Wladimir
e seus
companheiros ouvindo pássaros no Roncador.
Sabe
não.
Se
chegou dia 2, dia 3 de abril naquele recanto das águas, no Roncador.
Wladimir
não consegue precisar.
Dormiu
bem naquela noite.
Às
quatro, o galou cantou.
E
outra cantoria, a da passarada, o inebriou.
Viu
o sol despontar, brilhar no leito das águas do Paraguaçu.
Tomou
café e danou a pensar na vida.
Iaçu
estava em polvorosa.
O
alarme havia soado em Salvador: era preciso mandar polícia pra cidade.
Os
comunistas estavam a toda.
Prometiam
explodir tudo.
Os
reservatórios de óleo diesel para as máquinas iriam pelos ares.
Houve
romaria de muita gente indo para o campo.
Refugiar-se
em suas roças ou em casas de parentes.
Um
medo danado tomou conta da sede.
Pavor.
As
senhoras mais velhas, rezavam - ave-maria, pai-nosso, salve rainha mãe de
misericórdia, terços nas mãos, algumas na igreja, rezar é sempre bom, e
comunista é coisa do diabo, Deus nos livre e guarde.
Quem
pôde, deu no pé, abrigar-se lá pelos distritos, pelos ermos.
E
a cidade começou a encher-se de polícia.
Nunca
se viu tanto meganha por aquelas bandas.
Um
abril medonho.
Um
1964 dos infernos.
Parecendo
ano do Satanás.
O
chefe de tudo, o delegado especial, Edgar Medrado.
Aproveitou
a ocasião, tirava proveito, ganhava força política com isso - ao menos pensava
assim.
Deu
um jeito de afastar do jogo o delegado de Iaçu, Antônio Ubaldo de Souza,
tenente reformado da Polícia Militar.
Escanteado,
Souza não gostou.
O
poder da ditadura falava mais alto, e também a força dos Medrado.
Souza
chegou a dar entrevista a Cleidiana quando ela trabalhava no seu Projeto
Experimental.
-
O maior setor de agitação revolucionária era a Petrobras e a Leste. E Iaçu
naquele tempo era o maior centro ferroviário, a não ser Salvador. Tinha
engenheiro, tinha chefe de depósito. Então esses homens eram pessoas que tinham
suas tendências, cada qual tem suas tendências.
Provavelmente,
exagera: afirma ousadias revolucionárias de Wladimir não efetivadas, ao menos
que se saiba.
-
Ele cortou todas as ligações, todas as que podia se comunicar com Iaçu. Naquele
tempo era teletipo e outras e outras. Então Iaçu ficou neutra.
Fala
de declarações de Wladimir depois de preso feitas na delegacia, provavelmente
fruto também de sua imaginação:
-
Ele declarou aqui na delegacia que ele queria recrutar esse pessoal e subir com
essa máquina pegando de estação a estação aquelas pessoas adeptas do movimento.
Wladimir
e seus companheiros permaneciam na encolha, sentindo o rumor das águas e o
cantarolar dos pássaros, sem saber direito do clima da cidade.
Melhor
ficar por ali, fingir-se de morto.
Ao
menos por enquanto.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E segue essa
narrativa que informa e encanta...
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Emiliano José
28
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
o rumorejar das águas,
o canto dos
pássaros,
a violência da
meganhagem,
e um papagaio
comunista.
Wladimir
dividia-se entre duas sensações.
A
do cerco, a certeza de forças repressivas por perto.
A
saída era ficar ali quietinho, aceitando a solidariedade do camponês,
comovente.
Essa
sensação era muito forte.
E
a outra, a das manhãs, forte que só o diabo também.
O
Morro do Roncador levava esse nome pelo ronco do rio, a acordar cedinho os mais
sensíveis.
Não
fosse o rumorejar das águas do Paraguaçu, e haveria o canto do galo.
Não
houvesse o canto do galo, e haveria a música dos pássaros encarapitados nas
árvores do entorno, ele se encantava com o tanto de verde por ali depois de ter
atravessado tanta sequidão a pé, musicalidade repleta de variedade, e ele sabia
passaria a vida e não distinguiria o canto do tico-tico, do sabiá, do papa-capim,
do canário da terra, do sanhaço, do tiziu, do bem-te-vi...
Aquelas
manhãs com seus cantos, suas cores, seus sóis lhe revelavam um lado da vida,
fascinante, a lhe recordar Goethe, o autor mais querido do velho Pedro Pomar -
a teoria é cinzenta, verde é a exuberante árvore dourada da vida.
Mas
a outra sensação logo o tomava de assalto novamente, a dura realidade, e
enquanto tomava o café da manhã, pensava no que devia estar acontecendo na
cidade, ali tão próxima.
Nazinha,
mãe de Cleidiana, e lembro apenas para o leitor de primeira viagem, era ainda
muito jovem: 25 anos.
Moravam,
ela e Chico, em frente à sede do depósito de materiais da ferrovia.
A
cidade fervia, tomada pelo pavor e pelas forças policiais comandadas pelo
todo-poderoso delegado Edgar Medrado, também, como sabem todos, dono das terras
de Iaçu, ou pretensamente dono.
Abril
de 1964.
Um
mês para jamais esquecer.
Nazinha,
oitavo mês de gravidez
Gildásio
nasceria dali a pouco, 6 de maio, não sei se de susto tamanha a confusão.
Era
vizinha de Sebastião, já apresentado.
E
de Vicente, sobre quem também já falamos.
Os
meganhas estavam atrás de qualquer coisa ligada a Sebastião.
Já
o haviam prendido logo à chegada, vindo do Rio de Janeiro.
Mas
resolveram invadir a casa dele, onde sua mulher, Dalva, ainda morava.
Nazinha
percebeu a barulheira, o quebra-quebra, e Dalva chorando, saindo pra rua,
apavorada - não bastava saber da prisão de Sebastião, e agora mais tudo isso.
E
um comunista gritava, é, um papagaio comunista gritava denunciava não se
conformava com tanta violência e não revelava medo.
-
Dalva, Dalva, Dalva - ele não parava.
Os
policiais, aparvalhados: o papagaio não parava de gritar, que diabo de bicho,
só pode ser comunista, verde por fora, vermelho por dentro, Dalva, Dalva, Dalva.
E
ela chorava, sem aceitar ou compreender tanta violência.
Alguns
dos meganhas se compadeceram, outros não aguentaram mais a barulheira do
papagaio, e ampararam Dalva, depois de terem quebrado tudo dentro de casa...
Nazinha
ali, assistindo tudo, e preocupada com Gildásio se mexendo na barriga, e com
Dalva, e com aquela violência, e ouvindo o papagaio, insistente, Dalva, Dalva,
Dalva...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
28
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
Cai o Morro dos Comunistas,
Wladimir é
preso, uma gravidez como
guarida, José
Teixeira escapa.
E
o mês de abril seguindo, ali pelos dias 8, 10, Wladimir e seus companheiros são
presos.
A
repressão chegou ao Morro do Roncador.
Morro
dos Comunistas - durante algum tempo passou a ser chamado assim.
Foram
logo levados para Salvador.
Toda
a cidade ficou sabendo.
Uma
parte, aliviada.
Prenderam
os revolucionários, aqueles comunistas do diabo.
Outra
parte, pesarosa.
Porque
havia os favoráveis a eles, poucos fossem.
Simultaneamente,
havia fuga de um ou outro, e Medrado,
posto na condição de delegado especial, chefe supremo das forças de repressão
na cidade, estava de olho em alguns deles.
Clima
pesado.
Para
as pessoas irem ao centro da cidade, precisavam mostrar documentos, os soldados
todos com armas pesadas.
Estado
de sítio.
José
Teixeira tinha ciência: seria o próximo a ser preso.
Irmão
mais velho de Chico Preto, vereador em Iaçu.
Chico
Preto e mais alguns amigos esconderam-no em uma casa pouco visada e passaram a
arquitetar um plano para tirá-lo da cidade.
Chico
chegou em casa e assim como quem nada quer, querendo, dirigiu-se a Nazinha,
grávida de Gildásio, como sabemos:
-
Acho bom irmos a Itaberaba pra consultar um médico, ver se está tudo bem.
Sabe-se
lá como: José Teixeira viajou escondido no fundo do carro sem ser percebido por
Nazinha.
E
nem pelos policiais: a gravidez facilitava a passagem pelas barreiras
policiais.
Chico
Preto deixou Nazinha em Itaberaba na casa de uma prima dele, simulou ir
procurar um médico e seguiu para uma fazenda de João Amaro, onde deixou o irmão
escondido, a salvo.
Nazinha,
sabe nada, inocente.
Ao
voltar, Chico disse não ter encontrado o médico, doutor Hélio.
E
voltaram pra Iaçu.
Devia
ser ali por meados de abril daquele 1964.
Um
abril medonho em Iaçu.
E
em todo o Brasil.
Quando
pôde ter Gildásio nos braços, José Teixeira o acariciava e dizia:
-
Menino, você salvou a minha vida.
E
só então contou a Nazinha como tudo havia acontecido.
Chico
Preto não dera uma palavra.
Como
convinha naqueles tempos tenebrosos, onde uma palavra podia botar tudo a
perder...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Gente: assim
mesmo. Pena de ouro, essa de seo Emiliano José.
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Emiliano José
30
de novembro 2020
Cleidiana Ramos:
história de um simples torneiro,
a vergonha de
ser preso, suicídio,
sangue derramado
pelo clima de terror em Iaçu.
Não
foram pequenas as consequências do clima de terror criado em Iaçu como
decorrência do golpe de 1964.
Vicente
Oliveira era o torneiro do depósito de locomotivas de Iaçu.
Já
falamos um pouco dele, mas não custa repetir - o que abunda não prejudica,
melhor sobrar do que faltar.
Ele
gostava de política.
Sujeito
legal.
Bom
de papo.
São
as impressões de Wladimir Pomar ao lembrar dele.
Mas
não queria ir muito além.
Não
pretendia qualquer ligação orgânica com organizações revolucionárias.
Com
o PCdoB, por exemplo, ao qual pertencia o próprio Wladimir.
Quando
ele sentiu o clima esquentar em Iaçu, mandou-se para Cachoeira.
Vicente,
pelas ligações profundas com Iaçu, com o vai e vem de gente contando as
histórias da repressão, foi se apavorando.
O
terror o dominou.
Chegaram
a ouvir ele dizer não suportar a vergonha de ser capturado pela polícia.
Com
um tiro no ouvido, acabou com a vida.
Esses
dias escrevi um artigo juntando Getúlio, Brizola e Allende.
Getúlio
e Allende, diante de suas encruzilhadas históricas, resolveram se suicidar - um,
adiando o golpe já dado, só consumado dez anos depois; o outro, Allende,
recusando a se entregar aos seus algozes.
Brizola,
disposto a morrer, escapou por artes de uma virada de conjuntura, decorrente de
sua audácia.
O
artigo está na revista eletrônica Teoria e Debate -
https://teoriaedebate.org.br/.../getulio-brizola-e.../
Não
sei o que se passou na cabeça de Vicente.
Quem
há de saber?
A
sensação de ser exposto, ser preso, humilhado?
Não
se sabe.
Essa
morte, isso é inescapável, é decorrente do clima de terror criado em Iaçu
naquele abril.
Sangue
derramado.
Nazinha
se aproximou muito de Doralice Barreto, viúva de Vicente. Cleidiana a chamou de
tia até o dia da morte dela - era tia Dora.
Em
Cachoeira, Dora tornou-se exímia doceira.
As
férias escolares, Cleidiana passava na casa dela.
Por
essa e outras histórias, a tentativa de resistência ao golpe em Iaçu sempre
pairou ao redor dela.
Mas
houve mais estranhas e violentas histórias.
Como
a de seu Nenzinho...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
1º
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Nenzinho é preso, Quartel
do Barbalho,
vingança da oligarquia,
volta nos braços
do povo.
Manoel
Pinto de Santana.
O
nome de Nenzinho, prefeito de Iaçu em 1964.
Os
motivos mais profundos sobre a prisão dele ainda carecem de aprofundamento.
Fato:
naquele clima de terror, ele dançou também.
O
tenente Antônio Ubaldo de Souza, delegado escanteado por Edgar Medrado, mas
querendo prestar serviço, foi à farmácia de Nenzinho, acompanhado de um cabo,
pose de autoridade, pediu documentos.
-
Pois não - disse Nenzinho.
Passou
as mãos nos bolsos, não os encontrou.
-
Vou buscá-los - disse.
E
saiu ligeiro pelos fundos da farmácia.
O
cabo, sabe como é que é polícia, imaginou logo: o cabra está fugindo, e mais
pensou ainda pelo passo apressado de Nenzinho.
Sacou
da arma, ia atirar.
O
tenente Ubaldo o deteve.
Nenzinho
se explicou, entregou os documentos.
Teve
jeito não: preso.
Um
subversivo.
Forte
do Barbalho, de triste memória, conhecido de todos nós, os sobreviventes da
ditadura.
Prenderam
uma das pessoas mais queridas de Iaçu.
Não
havia dia, não havia noite, fizesse chuva, fizesse sol, tempestade, e ele não
se detinha quando se tratasse de socorrer alguém.
Com
seus conhecimentos farmacêuticos fazia as vezes de médico, e nunca cobrava um
tostão.
Adorado
pelo povo.
Fala-se
e não sem fundamento: foi ação policial destinada à retomada do poder pelos
Medrado, cuja oligarquia havia sido derrotada por Nenzinho em 1962.
Com
a prisão, imaginavam tirar Nenzinho do jogo, desgastá-lo no mínimo.
Edgar
Medrado teria encontrado a situação ideal para se vingar da
derrota.
Preso
em Salvador, seria configurada a situação de abandono do município.
Nenzinho
passou uns 15 dias preso, prefeitura acéfala.
A
cidade se uniu em defesa dele.
Até
a oposição na Câmara Municipal assinou documento atestando sua idoneidade.
Voltou
nos braços do povo.
Até
o fim do mandato, persistiu na atitude de ajudar a população, principalmente
aos mais pobres.
E
seguiu assim até morrer em 1994, lado a lado com Chico Preto, seu sócio na
farmácia.
Tem
mais história pra contar daquele abril de 1964 em Iaçu.
Gabriel
García Marquez tem razão: é do fantástico mundo real a fonte da literatura.
Iaçu,
Macondo.
Então,
o trem chegou...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Obrigada,
Emilano. Por mais uma homenagem à grandeza dessa grande figura que conheci e
por quem sempre tive uma imensa admiração.
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Emiliano José
2
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
O cerco do Morro do Roncador,
a fuga de
Wladimir pela caatinga,
o maquinista em
fuga com a locomotiva,
a mulher
desesperada pela morte do marido
"Rebeca
Buendía se levantava às três da madrugada desde que soube que Aureliano seria
fuzilado. Ficava no quarto no escuro, vigiando pela janela entreaberta o muro
do cemitério, enquanto a cama em que estava sentada estremecia com os roncos de
José Arcadio."
Cem
anos de solidão me espreitam, como um espectro.
As
coisas vão acontecendo em Macondo.
Abril
vai seguindo em Iaçu, e as duas vão juntando suas parecenças.
A
tensão de Macondo.
A
tensão de Iaçu.
Os
homens iam chegar.
Disso
certamente Wladimir e seus companheiro do Roncador sabiam.
Não
sabiam nem a hora nem o dia, que não tinham as artes mágicas da bruxaria.
O
delegado especial Edgar Medrado, todo vestido no orgulho dessa patente, deu a
ordem pro trem partir.
O
Roncador, de trem era pertinho, chegava nas redondezas.
Mais
parecia de tempo de guerra aquele trem - locomotiva cheia de soldados, armas
leves e pesadas, revólveres e carabinas, metralhadoras de pentes cheios,
Medrado cheio de ordens e gritos.
A
locomotiva com seus motores novinhos em folha, da General Eletric, postos a
funcionar por aqueles comunistas desgraçados, caçados agora.
Tenente
Ubaldo, antes chefe, delegado da cidade, agora simples auxiliar, homem da PM,
foi dando suporte.
Testemunhou:
na chegada, ao saltar, Medrado já gritava, dando ordens, tentando assustar,
quem sabe revelando o seu próprio medo, que, sabem, né?, comunista é perigoso,
melhor gritar pra mostrar autoridade.
E
ele assustava seus comandados, ao invés de encorajá-los:
-
Aquele morro está todo minado de bombas. Quem pisar, vai pelos ares.
Foram
se aprochegando devagar devagar mas de repente um barulho um tropel correria:
Wladimir e seus companheiros afundaram nos matos caatingueiros pernas pra que
te quero sem dar tempo nenhum pros soldados pra Medrado pra tenente ou capitão
sumiram na caatinga.
Maroto,
ao assistir o furdunço, a correria, o pavor estampado na cara de todo mundo,
soldados correndo e largando armas pelo chão, maquinista antigo, escolado para
o trem e não para a guerra, arrastou a lomocotiva, que aquela guerra não era
dele, deixou o exército para trás.
Chegou
na cidade, e fez alarde:
-
Houve um confronto da zorra, tive que arrastar a locomotiva. Houve muitos
tiros, não sei quem viveu, nem quem morreu.
A
mulher do tenente Ubaldo enquanto ouvia o maquinista Maroto falar, viu o quepe
do marido no assoalho do trem e começou a gritar desesperada:
-
Mataram meu marido, mataram meu marido.
Nada.
Tenente
Ubaldo restou vivo, vivinho, e contou toda essa história para Cleidiana.
Wladimir
e os companheiros foram presos dia seguinte em Marcionílio Souza, município a
50 quilômetros de Iaçu.
Como
chegaram lá ninguém sabe.
Talvez
quem sabe cobrindo parte do trajeto andando pela caatinga, outra parte em
carona de um e de outro...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente! Quando
eu crescer, ah, ainda vou conseguir narrar com essa magia. Cada dia mais
encantada...
Mônica Bichara: Cleidiana
Ramos vc chega, vc chega
Adilson Borges: Se
aprochega...
Irma Teixeira: Encantada fico
de lê o nome do povo que conheci ainda criança na narrativa, em outros palavras
ouvia essa história na minha casa,Show!!!
Claudia Moreira de Carvalho: Li esse livro
4 vezes.
Chorei,
sorri e me emocionei mt.
Eliana Gomes Santos Gomes: Ouvia essas
contadas por meu sogro Belo, que se escondeu pro lado do Angelin com a família.
Kkkkk
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Emiliano José
3
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Wladimir corta todas as ligações de Iaçu com o mundo, preso é levado para
Salvador, encontra outros companheiros, habeas-corpus...
Sebastião
da Silveira Carvalho havia sido preso antes, logo ao descer do trem, depois de
voltar das redondezas.
Iniciozinho
de abril, primeiros dias.
Wladimir,
já contamos a odisseia, caatinga na fuga e preso uns cinquenta quilômetros
após, em Marcionílio Souza.
O
tenente reformado da PM, Antônio Ubaldo de Souza, delegado na cidade por muito
tempo, de imaginação fértil, deu depoimento a Cleidiana no início dos anos
1990:
-
Wladimir, na ocasião, cortou todas as ligações, todas as que podiam se
comunicar com Iaçu. Naquele tempo, era teletipo e outras e outras. Então Iaçu ficou neutra. Ele declarou na
delegacia que queria recrutar esse pessoal e subir com essa máquina pegando de
estação a estação aquelas pessoas adepta do movimento.
Desconfia-se
disso, claro.
Não
se acredita tenha Wladimir, já militante experiente, tenha dito isso.
Se
pensou, guardou pra ele.
Da
convivência em Iaçu, cidade só fala bem de Wladimir.
Assim
falou, no depoimento dado a Cleidiana, lá nos anos 90 também, José Teixeira,
sobre quem já falamos:
-
Todo mundo tem direito a pensar como bem entender. Eu mesmo era amigo de
Wladimir. Agora, nunca se tratou de política internacional, partidarismo. Essa
perseguição era contra os trabalhadores, o pessoal da Leste. Houve o golpe de
1964, e os trabalhadores, é claro, só podiam ser contra esse sistema.
Teixeira
não foi preso, após fuga rocambolesca, já contada.
Sebastião
e Wladimir foram se reencontrar em Salvador, presos.
Conversei
esses dias com Othon Jambeiro e Fernando Alcoforado, ambos companheiros de
prisão de Wladimir e Sebastião.
O
encontro se deu no Quartel de Amaralina.
A
ditadura havia feito uma varredura desde o início do golpe em Salvador.
Contei
isso em alguns episódios de livros meus, mas aconselho a quem queira conhecer
melhor aqueles dias ler no primeiro volume do "Galeria F - Lembranças do
Mar Cinzento" o capítulo "Vivo ou morto", voltado à história da
prisão de Othon Jambeiro.
Tenho
que recontar alguma coisa para entender a libertação de Wladimir e Sebastião.
José
Borba Pedreira Lapa, notável advogado, meu defensor mais tarde nos anos 1970,
impetrou um habeas-corpus...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
4
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Wladimir e Sebastião em Salvador, péssimas condições de prisão, José Borba
Pedreira Lapa impetra habeas corpus, STM decide por soltura...
Voltemos
um pouco.
Othon
Jambeiro, nosso querido amigo e companheiro, jornalista sobre quem já falamos
aqui nessa série, foi preso nesse abril dos diabos, logo após o golpe, dia 4 de
abril de 1964.
Logo
se viu no Quartel do Barbalho, ele e mais dezoito presos, espremidos numa única
cela, não tão pequena, incapaz no entanto de acolher tanta gente.
Ainda
mais a considerar a não existência de sanitário: as necessidades todas feitas
numa lata de 20 litros.
Nada
de banho, sem escova de dente, sem creme dental, nenhum desses luxos da
civilização - uma pocilga.
Entre
os presos, outro jornalista, José Gorender.
E
Sebastião Nery, naquele momento deputado, mais tarde também célebre jornalista.
Depois
de algum tempo no Quartel do Barbalho, Othon é transferido para o 19 Batalhão
de Caçadores do Exército, no Cabula.
No
quinquagésimo dia de prisão, soltaram um bocado de gente, muitos estudantes.
Othon
e alguns outros continuavam na chave.
No
dia 6 de agosto de 1964, José Borba Pedreira Lapa, advogado, impetra habeas
corpus no Superior Tribunal Militar (STM) para dez presos, entres os quais
Wladimir Pomar e Sebastião da Silveira Carvalho, os dois protagonistas de Iaçu,
além do próprio Othon Jambeiro.
Pedreira
Lapa, notável advogado, e dou testemunho porque meu advogado durante os quatro
anos de prisão, denunciava no habeas corpus: seus clientes se encontravam
presos "como animais em curral e aos rebanhos, em celas comuns,
desprovidas das condições mínimas de higiene e salubridade no Quartel do 19 BC,
no já tristemente célebre presídio do 'Cascão', em Narandiba, Salvador, sem
culpa formada e esgotados todos os prazos legais toleráveis".
Exatos
vinte dias depois, o STM, por unamidade, concedeu a ordem de habeas-corpus em
favor dos presos.
Então,
por determinação superior, tratava-se de soltar os presos, não?
Decisão
do STM.
Nada
a discutir.
Certo?
Não.
Ditadura
é ditadura.
É
arbítrio.
Às
vezes, os militares provinciais podem cismar de contrariar ordens de cima
porque cheios de ódio...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Gente: e Othon
Jambeiro foi também meu professor, grande Emiliano.
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Emiliano José
5
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
ainda o Quartel do Barbalho, melhorias, banho de sol, as mulheres do Nery, a
expectativa e a chegada de Etiene Falcão...
Então.
Falava
ontem do habeas corpus impetrado por Pedreira Lapa.
E
da decisão favorável do STM.
Ia
contar de como os militares reagiram a essa decisão.
Vou
contar ainda.
Peço
licença, no entanto, antes de falar daquela reação, falar de outra coisa.
Não
resisto.
Coisa
de 20 dias depois de presos no Barbalho, ali pelo dia 25 de abril de 1964, e
estamos tratando de Othon Jambeiro e dos outros 18 do Forte, as coisas
começaram a melhorar.
Direito
a banho de sol.
Chance
de ir ao banheiro.
E
aconteceu o episódio das mulheres do Nery.
É,
Sebastião Nery, um dos presos, era homem de duas mulheres.
Uma,
visitava num horário.
Outra,
noutro.
Em
nome da boa diplomacia, estratégia para evitar conflitos, sempre aconselhável,
especialmente para quem está preso.
Os
presos suspiravam: ah, as mulheres do Nery.
Não
se apressem, os dados a maldades ou pensamentos pecaminosos.
Ninguém
ali desejava a mulher do próximo - juravam de pé juntos.
Os
suspiros tinham outra razão, e eram de natureza política: na chegada, elas
sobraçavam "O Globo", "Jornal do Brasil", "Correio da
Manhã", "O Estado de S. Paulo".
Nery
era deputado.
A
entrada de jornais não era permitida, mas uma conversinha aqui, outra ali,
vista grossa dos soldados, e as mulheres do Nery passavam garbosamente com as
publicações debaixo do braço, depois disputadas sofregamente por cada um dos
presos.
Ah,
as mulheres do Nery...
Tão
ansiosamente esperadas...
Querem
saber mais?
Já
indiquei, volto a fazê-lo, o capítulo "Vivo ou morto", do
"Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", volume I, livro escrito por
mim.
Então.
Ordem
do STM: soltar os presos.
Os
dez presos nominados no habeas corpus de Lapa deviam ser libertados.
Os
que estavam no 19 BC foram avisados na noite de 6 de agosto daquele 1964 de
triste memória para arrumar os seus pertences.
Seriam
soltos?
Era
essa expectativa.
De
supetão, os presos veem chegar o temível capitão Etiene Falcão.
Conhecido
por seu espírito agressivo, pelo gosto em executar ordens da ditadura
recém-implantada.
Os
presos já tinham ouvido o boato de alguma ação dos militares baianos caso o
habeas corpus fosse concedido.
Foram
agrupados e...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
6
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
uma noite, capitão Etiene Falcão, um sequestro, Quartel de Amaralina,
habeas corpus
para fazer cumprir habeas corpus.
Noite
de 28 de agosto de 1964.
Os
conhecedores dos expedientes da ditadura sabem da preferência pela noite quando
ela pretendia tocar terror.
À
noite, todos os gatos são pardos.
O
capitão Etiene Falcão deu ordem para os presos do 19 BC arrumarem seus trecos.
Lembrar:
no habeas corpus de Pedreira Lapa informava-se o quartel onde estavam presos,
exatamente o presídio do "Cascão", no 19 BC.
Então,
a ditadura resolveu tirá-los dali.
Um
sequestro.
Simples
assim.
Em
pouco tempo, espremidos em carros da Petrobras, utilizados para não dar na
vista, afinal era tudo clandestino, em operação sob o comando do capitão
Etiene, viram-se no Quartel de Amaralina.
Não
seriam, assim, alcançados pelo habeas corpus.
Absurdo,
mas verdadeiro.
Ditadura.
Tenho
informação segura: Wladimir Pomar e Sebastião da Silveira Carvalho, os dois
principais protagonistas da rebelião de Iaçu, figuravam no habeas corpus.
Não
sei se estavam no 19 BC.
Sebastião
parece que sim.
Sei,
por ouvir Othon Jambeiro e Fernando Alcoforado esses dias, recolhidos então ao
19 BC e vítimas do sequestro: encontraram-se com Wladimir Pomar no Quartel de
Amaralina.
Pode
ser, é apenas hipótese, estivessem ele e Sebastião em alguma cela separada dos
demais no 19 BC.
O
fato é que Pedreira Lapa era também advogado dos dois, e eles eram também
beneficiados pelo habeas corpus.
Na
manhã seguinte, 29 de agosto de 1964, olharam a cela espaçosa, com beliches e
latrina, e tiveram a notícia: estavam incomunicáveis.
Sequestro
e incomunicabilidade.
A
extrema-direita da ditadura, se é possível isso, e era, não admitia sequer uma
decisão do Superior Tribunal Militar.
As
decisões deviam ser dos quartéis, não de tribunais.
Alguns
presos do 19 BC, não beneficiados pelo
habeas corpus, anotaram as placas dos carros da Petrobras, e fizeram chegar a
informação à imprensa e aos advogados.
Lapa,
então, não conta conversa: entra com um habeas corpus no STM para fazer cumprir
habeas corpus do próprio STM.
Maneira
de dizer, claro, que jornalista perde o amigo, mas não o chiste.
Na
verdade, Lapa entrou com uma petição.
Denunciava...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Emiliano José
nos brindas com essas informações preciosas..
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Emiliano José
6
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Pedreira Lapa, petição ao STM, as ironias, famílias desesperadas,
nada de a
ditadura soltar os presos...
Pedreira
Lapa, a quem todos nós, sobreviventes, ex-presos políticos, devemos muito,
ingressou com petição no STM para exigir a soltura dos recolhidos pela ditadura
ao 19 BC - já dissemos ontem.
Revelamos
também o sequestro.
Das
ordens de soltura, apenas uma havia sido cumprida: a relativa a Milton de
Carvalho Silva.
Gravemente
enfermo, sob cuidados no Hospital Militar de Salvador, os militares resolveram
soltá-lo.
No
habeas corpus, Lapa havia descrito o terrível quadro de saúde vivido por Milton
de Carvalho Silva:
"Possuído
de neurose de reação, distonia neurovegetativa, síndrome do aparelho
respiratório de etiologia ainda desconhecida, emissão de sangue caquético,
reduzido a menos de 50 quilos, necessitando de tratamento especializado".
Os
militares certamente temiam morresse nas mãos deles.
O
restante dos presos, clandestinos, incomunicáveis no Quartel de Amaralina,
Wladimir Pomar e Sebastião Carvalho, os comunistas de Iaçu, entre eles.
Lapa,
na petição, reclamava a imediata soltura dos demais.
Argumentava
ser necessário isso fosse feito "em nome da dignidade da função judicante,
tão elevada e tão nobre, e até, como se vê, dos próprios desígnios diretores da
revolução vitoriosa, cujo abastardamento a transformaria em inexpressiva e
intolerável quartelada".
Caso
isso não fosse feito, ele, intrépido, dizia só restar "o apelo extremo à
ONU".
Se
chegasse a isso, Lapa argumentava, uma nódoa marcaria "toda uma geração
cristalizada na fé democrática, enraizada sob o pálio e a égide dos princípios
cristãos e dos impostergáveis direitos naturais da pessoa humana, onde
sobrepaira o da liberdade individual, no seu sentido mais amplo".
Conheci
Lapa muito bem.
Devia
divertir-se ao redigir a petição, plena de ironia, mas sem que pudessem
acusá-lo de tal prática.
Parecia
falar sério - e falava.
Não
tinha ilusões com a ditadura.
Mas,
falava como se acreditasse tivesse ela alguma fé democrática.
Data
da petição: 3 de setembro de 1964.
Os
presos, incomunicáveis no Quartel de Amaralina.
As
famílias, desesperadas.
Não
sabiam onde estavam.
A
ditadura iria soltá-los?
A
pergunta estava no ar...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Gente....e a
gente ainda sabe tão pouco desses tempos aberrantes..
Vânia Carla Almeida: Ainda há tanto
a conhecer...
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Emiliano José
8
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
tempo, tempo, tempo,
visita de
Geisel, visitas restabelecidas,
Sebastião e
Wladimir libertados, papagaio...
Quem
passou algum tempo preso, sabe das mudanças relativas à dimensão do tempo.
As
horas demoram pra passar.
É
a gigantesca clepsidra.
Minuto
a minuto, segundo a segundo.
Uma
lentidão dos diabos, ou de Deus, sei lá, que na eternidade o tempo, em qualquer
lugar, deve caminhar a passo de tartaruga.
Mães,
pais, mulheres, namoradas, familiares, atarantados, sem saber a quem recorrer
porque nada se informava.
O
tempo corria, e nada.
Os
dias eram longos.
Uma
visita do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do general Castello
Branco, ao Quartel de Amaralina para apurar denúncias de maus-tratos, mudou
tudo isso.
Essa
visita teve lances memoráveis, com intromissão até de Dante Alighieri e sua
Divina Comédia.
Não
custa ao leitor, se estiver ansioso, ler o capítulo "Vivo ou Morto",
do "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", já indicado.
Creiam:
vale a pena.
O
importante: com a visita de Geisel, os familiares voltaram ao Quartel de
Amaralina.
Quando
Geisel se retirou, um dos coronéis da comitiva dele voltou à cela, procurou
saber a situação de cada um, e garantiu:
-
Não se preocupem. A situação de vocês vai ser resolvida.
Visitas
restabelecidas.
E
aos poucos os presos começaram a ser libertados.
Othon
Jambeiro lembra o dia de sua libertação: 10 de outubro de 1964.
O
habeas corpus, vocês se lembram, impetrado em 6 de agosto.
O
sequestro, dia 28 de agosto.
Só
em outubro, começaram a ser libertados.
Ditadura.
Importante
é outra lembrança de Jambeiro: no mesmo dia 10 de outubro, Sebastião da
Silveira Carvalho, um dos líderes da resistência de Iaçu, também foi libertado.
Saíram
juntos.
Wladimir
Pomar sairá alguns dias depois.
Os
dois comunistas de Iaçu ganhavam a liberdade.
Chico
Preto tornara-se próximo de Sebastião e da família.
Gostava
do papagaio, que restou solitário quando Sebastião foi preso e a família
arribou.
Vivia
clamando Dalva Dalva Dalva.
Resolveu
então...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
9
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
um papagaio, uma gralha
voz da caatinga,
a chegada da polícia,
o embarque para
o Rio de Janeiro.
Antes,
falamos do papagaio de Sebastião e de Dalva.
Papagaio
inteligente, vimos.
Escorreguei
ao contar a história.
Bom
sempre corrigir.
Wladimir
e Sebastião, carece dizer, ressabiados, conhecedores da conjuntura política,
sabendo da proximidade do golpe, ao menos da possibilidade dele, resolveram
mandar as famílias de volta para o Rio de Janeiro.
O
papagaio ficou.
Não
sei o nome do bicho.
Nem
sei se haviam posto nome nele.
Pena
se não o fizeram.
Sebastião
devia cuidar do papagaio.
Foi
preso, no entanto.
O
papagaio restou só.
Nem
tanto: havia um cancão.
Ave
típica da caatinga, come tudo o que encontra pela frente, de insetos a ração de
galinha, a gralha cancã é estridente: na mata, ao descobrir qualquer coisa
estranha, avisa a todos.
Não
sei se também gritou.
Curioso:
os dois viviam soltos, não saíam dali, andavam pelas vizinhanças, mas voltavam
sempre.
A
polícia, logo depois de levar Sebastião para a delegacia, aportou na casa dele,
com toda sua violência.
Polícia
é polícia, ainda mais polícia da ditadura.
Dalva
estava no Rio, e não em Iaçu, como dissemos antes.
O
papagaio saiu picado piripicado dando o alarme, que parece não gostava de
polícia, sabem né?, comunista faz a cabeça até de bicho, gritava, gritava:
-
Dalva, Dalva, Dalva...
Ele
era mais ligado em Dalva, Sebastião parece não lhe dava tanta atenção.
Chegou
ao quintal de Nazinha, ela se recorda bem disso, a vizinhança toda assistindo.
Houve
quem ouvisse o bichinho dizer, num apelo assustado:
-
Me acode, Dalva. Me acode, Dalva, me acode.
E
Dalva, bem longe dali.
Passados
alguns dias, depois desse furdunço, Chico Preto tratou de arrumar as tralhas de
Sebastião, e enviá-las para o Rio de Janeiro.
Cuidado
especial teve com o papagaio, pois só podia ser mandado depois de ser
providenciada uma papelada dos diabos, e Chico cuidou de tudo com carinho.
O
papagaio chegou ao Rio de Janeiro são e salvo.
Apenas
com saudade da gralha cancã.
A
felicidade de rever Dalva compensava tudo.
Sem
muita estridência, quando a viu, comemorava:
-
Dalva, Dalva, Dal...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: O papagaio já
é um dos protagonistas fantásticos dessa história...
Carlos Roriz Silva: Parece que
estou lendo aquela turma antiga, Machado, Graciliano... rsrsr
Emiliano José: Carlos Roriz
Silva faça isso não... fico metido a besta... a mil léguas deles. Abraço
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Emiliano José
10
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Sebastião e Wladimir,
Rio de Janeiro,
vida que segue.
Sebastião
chegou ao Rio de Janeiro.
Vida
não estava fácil.
Vigiado.
Ditadura
em cima.
Nada
de arrumar emprego.
Era
um ficha suja.
Subversivo.
Um
cunhado o ajuda, e monta uma lanchonete, seu ganha-pão.
Sinhozinho,
de Iaçu, está vivinho e não me deixa mentir, revela: quando Sebastião viveu na
cidade tornou-se amigo dele.
De
batismo, Dorisval Pedro de Oliveira, mas chamado sempre Sinhozinho.
Quiserem
encontrá-lo lá no sertão de Iaçu onde voltou a viver, não o procurem pelo nome
de batismo, não.
No
interior, raro quem seja chamado pelo nome - há sempre um chamamento carinhoso,
um apelido, às vezes vindo de infância.
Se
pegar, e quase sempre pega, fica para nunca mais.
Assim
com ele: Sinhozinho.
Muito
mais fácil - Dorisval era pra complicar.
Trabalharam
juntos na Leste Brasileiro.
Quando
o soube no Rio de Janeiro, Sinhozinho arribou, com esperança de arrumar algum
emprego, ajudado por ele.
Foi
trabalhar no Curtume Carioca.
Nos
finais de semana, ajudava Sebastião na lanchonete, bem movimentada.
Sebastião
morreu de infarto do miocárdio.
Teve
velório concorrido, Sinhozinho testemunhou.
Morreu
um homem muito querido.
-
Era capaz de tirar roupa do corpo pra dar pros pobres, diz Sinhozinho.
Morreu
pobre.
Com
dignidade.
Wladimir
voltou ao Rio de Janeiro, e seguiu sua sina de militante político, comunista.
PCdoB,
um dos fundadores, em 1962, já dissemos.
Um
dos fundadores do PT.
Um
de seus dirigentes.
Muitos
livros publicados.
China,
uma de suas especialidades.
História
do Brasil e da esquerda, outra de suas preocupações.
Na
luta, sempre.
Está
com 84 anos.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
11
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
edição de domingo, chefia de Reynivaldo Brito, disputa entre Iaçu, Princesa do
Sertão e Princesa do Itapicuru.
Ela
de repente se viu na Editoria de Domingo.
Quando
setembro chegou, 1999.
O
jornal "A Tarde" resolveu dar tratamento especial à sua edição de
domingo.
Reynivaldo
Brito assumiu projetos como o Caderno Especial sobre Consumo em Shoppings.
Ganhou
o reforço de mais dois repórteres: Haroldo Aquiles e Nilton Nascimento.
Aquiles,
um contador de histórias sobre Queimadas.
Ela
falava de Iaçu e seus reinos encantados.
Ele,
as maravilhosas histórias de Queimadas, a Princesa do Itapicuru.
Uma
boa disputa.
Nilton
Nascimento, sujeito de papo elegante, denso.
Aprendeu
muito com os dois.
Reynivaldo
apertou o passo, ajudado pelo subeditor Marinaldo Mira: além das reportagens
sob a responsabilidade de cada um, todo domingo haveria um pingue-pongue.
Matéria
de página, pergunta-resposta.
Ela
- vocês sabem, ela é Cleidiana, estava um pouco desaparecida, eu sei, outros
roubaram a cena, Chico Preto às vezes, aqueles subversivos em outros momentos -
ela meteu mãos à obra, fez algumas das entrevistas de página, e o chefe
tornou-a setorista da tal entrevista.
Além
de tudo, além das demais matérias, havia de dar conta do pingue-pongue do
domingo.
O
coração aguentou, mas bateu forte quando o diretor do jornal, Edivaldo
Boaventura, disse alto e bom som, para quem quisesse ouvir:
-
Ela conhece do riscado, entrevista com maestria.
Bairrista,
Boaventura costumava dizer:
-
Tivesse essa moça a graça de ter nascido em Feira de Santana, seria um gênio.
Ele,
nascido na Princesa do Sertão, conhecia quase nada de Macondo e seus segredos,
desculpem, de Iaçu e seus encantados.
Cleidiana
teve seu dia de pirraça com Boaventura.
Ele
lá, sentado, uma tarde, conversando, era bom de conversa, e ela o surpreende:
-
Em compensação, sou conterrânea de Ernesto Simões Filho. Como ele, nasci em
Cachoeira. Só depois segui para o reino encantado de Iaçu.
Riram
muito nesse dia.
Ele
disse do desejo dele:
-
Um dia, você há de me entrevistar.
Uma
das frustrações dela: ele se foi em 2018, e a entrevista não aconteceu.
Os pingue-pongues foram memoráveis...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Eita..bateu forte
a saudade desses tempos..valeu, Emiliano José 😃
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Emiliano José
12
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
O encontro com Albergaria,
as ousadias, os
muitos Jesus, Saramago,
O Senhor dos
Anéis, o diabo a quatro.
A
série de pingue-pongues foi uma experiência muito rica.
Por
ela, passaram Octavio Ianni, um dos maiores sociólogos brasileiros, cuja obra
"O colapso do populismo no Brasil" tornou-se referência, Sepúlveda
Pertence, e tantos outros.
Ela
é Cleidiana.
Num
primeiro momento, recebia as sugestões da chefia.
Logo,
ela própria ia escolhendo os entrevistados.
Fez
memorável entrevista com Roberto Albergaria, professor conhecido por sua
heterodoxia, fuga ao politicamente correto, estilo provocativo, daqueles
capazes de perder o amigo. a piada, nunca.
Tornou-se
fonte permanente dela.
E
amigo.
Na
entrevista, Albergaria deu vida a Catarina Paraguaçu e a Caramuru,
transformados em mitos da grande mãe e do grande pai.
Deu
um certo reboliço, mas "A Tarde" assimilou.
Como
doutor em Antropologia, Albergaria foi dando régua e compasso a Cleidiana em
várias matérias, e contribuiu decisivamente para a caminhada acadêmica dela,
hoje doutora também em antropologia - a moça de Iaçu não é brinquedo, não,
Chico Preto sempre soube disso.
A
parceria dos dois foi abrindo caminho para ousadias.
Não
apenas para as entrevistas pingue-pongue.
O
domínio do universo simbólico por Albergaria ajudou-a na compreensão dos muitos
Jesus existentes em tantas narrativas.
A
ex-freira aproveitava seus conhecimentos, incorporando os aprendizados com o
mestre Albergaria.
Mergulhou
em Saramago e seu "O Evangelho segundo Jesus Cristo", na série
"Operação Cavalo de Troia, de J. J. Benitez, em "Ao Vivo do
Calvário", de Gore Vidal, para escrever matéria sobre os evangelhos
reescritos, reinterpretados na literatura.
Essas
matérias tomavam-na por inteiro.
Foi
assim com o universo de R. R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis",
matéria provocada pelo anúncio do lançamento da trilogia de Peter Jackson para
o cinema - Reynivaldo abriu espaço para matéria de página inteira, uma festa.
E
houve a matéria sobre a desvalorização do jegue...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
13
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
revistas em quadrinhos,
alfabetização,
jegues e o mundo carregado
no lombo,
desvalorização, tristeza.
O
jegue é parte indissociável da cultura nordestina.
Séculos
afora, povoou a imaginação popular.
Estimulou
a fantasia do povo.
E
cada fantasia, viu?
Bom
danado pra suportar a seca.
Pau
pra toda obra.
Carregava
o universo no lombo.
Nem
sempre o homem considerava seu tamanho.
Botava
peso em cima dele que até Deus duvidava, mas Deus que vê tudo, via e não
perdoava, um dia ia cobrar.
Ela
um dia foi alertada por Dodó.
Nome
simpático para um anjo.
Filho
de Cecé, irmã de Nazinha.
Era
mais velho que ela - e ela é Cleidiana, bom sempre alembrar que a mente pode
andar distraída.
Dodó
era o primo Edvaldo Rebouças.
Cecé,
Celestina Rebouças.
Lembrar
sempre: no interior, nome de batismo importa pouco.
Dodó
tomou-se de cuidados por ela desde muito cedo.
Deu-se
de pedagogo, e a ensinou a ler.
Método
inovador, não um Paulo Freire, mas inovador a ponto de fazê-la interessar-se
muito, e rapidamente aprender a ler.
Botava
aquela montanha de revistas em quadrinhos na frente dela, aquela maravilha,
aqueles sonhos de histórias, da coleção dele.
E
ia soletrando, mostrando letras e figuras, e ela querendo entender tudo, e o
mundo foi se abrindo, as visões se clareando, até que um dia entendeu.
Bicicleta,
aprendeu a andar.
Também
pelas mãos dele.
Um
anjo.
Ele
e a mulher Ana, professores, casaram-se e foram para Marcionílio Souza, e estão
lá até hoje, ensinando.
Dodó,
um dia, em volta da mesa em Iaçu, entre uma garfada e outra da galinha de
ensopado de Nazinha, revela sua indignação, revolta: um jegue estava custando
R$ 5,00.
Isso
mesmo: míseros R$ 5,00.
-
Deus não é justo - blasfemava.
Não
se conformava.
Cleidiana
compartilhou daquela indignação, guardou no coração.
Pouco
depois, leu reportagem na Super Interessante sobre a desvalorização do jegue no
Rio Grande do Norte, repercutindo matéria do New York Times.
Jornalista
é o diabo: vive atrás de boa pauta.
Falou
com Reynivaldo Brito, e veio o sinal verde para a desvalorização do jegue.
Ligou
pra Dodó, perguntou:
-
O jegue ainda vale R$ 5,00 por aí?
-
Que R$ 5,00? Está caindo pelas tabelas: valendo R$ 1,00, e olhe lá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah essa
reportagem...uma das que não esqueço..lembro de cada detalhe..rsrs..esse
Emiliano José sabe arte de dar nó em sertanejo...
Lis Braga: Pena que agora
estamos abatendo os bichinhos para exportar. Horrível. =(((
Isabel Santos: Rsssssss
massa. Estava sentindo falta de acompanhar sua trajetória, Cleidiana Ramos (as
coisas que foram aparecendo no meio do caminho me afastaram um pouco do
face...Tempinho só mesmo para ZAP, e olhe lá). Amo ler os textos criativos do
querido Emiliano José. Viva vocês. Bjos
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Emiliano
José
14
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
jegue vendido por menos de um real, motocicletas chegando ao campo, vaqueiros
no fim,
a força da grana
destruindo coisas belas.
Uma
indignidade.
Era
como Dodó classificava o fato de um jegue estar sendo vendido a R$1,00.
-
Uma galinha viva aqui sai por R$ 10,00 ou R$ 15,00 - ele comparava.
-
E o pobre do jegue, de tantos serviços à humanidade, tão prestativo no nosso
sertão, valendo um R$ 1,00. Isso não é coisa de Deus, não.
De
braços dados com o fotógrafo Elói Corrêa, Cleidiana marchou para Marcionílio
Souza.
Era
fato: fácil fácil encontrar jegues por R$ 1,00.
Havia
à vontade no município.
Era
o capital chegando ao campo.
A
força da grana que destrói coisas belas.
As
motos chegando, roncando pelos pastos, substituindo jegues, burros, cavalos.
Sujeito
podia comprar baratinho, brinquedo divertido, subia e descia morros, prestações
a perder de vista.
Aquela
história de vaqueiros tangendo gado, levando as boiadas, aqueles aboios,
montados em seus baios, virava coisa do passado, para momentos de nostalgia em
volta da fogueira.
Os
jegues, abandonados à própria sorte.
E
sem querer, culpa não tinham, viraram dor de cabeça para a prefeitura - na
verdade para todas as cidades da região.
Andavam
pelas ruas, vagavam próximos à rodovia, acidentes, tantos transtornos.
Havia
até a história de frigoríficos de olho nos bichinhos - diziam, ninguém sabe se
verdade, se lenda urbana.
Rodaram
pelo município, ela e Elói Corrêa.
Ela,
anotando.
Ele,
fotografando.
Deram
de frente com um acampamento cigano.
Menino
de rosto redondo, olhos espertos, castanhos.
Maravilhou-se
com a máquina fotográfica.
-
Quer trocar, moço?
Elói
rendeu conversa:
-
Como seria?
-
Você leva o jegue, vale R$ 0,50, e me dá a máquina.
Não
fecharam negócio...
Rodaram,
rodaram, fizeram meia volta, e Cleidiana sentou para escrever.
Precisava
primeiro falar da espécie, da maravilha que era o jegue...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Nossa...assim
mesmo..🤩
Jose Jesus Barreto: Lembro-me de
Lula lacrando com a invasão das motos no sertão nordestino, como se fosse um
grande avanço. E eu já chorava pelos jegues e mulas, animais que ganharam meu
afeto quando ainda era miúdo. Progresso ou desgraça?
Artur Carmel: Pode ter jegue,
mula e moto...
Maria Celeste Pires Silva: É verdade, na
roça que nasci e me criei eu ia para a escola montada em um jegue , alternando(
saudosos Dourado e Pirulito) , com minha irmã menor na garupa Ficavam à sombra,
aguardando a nossa aula acabar e retornarmos para casa. Já sabiam o caminho
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Emiliano
José
15
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
um mundo se esvaindo,
os sertões
sumindo,
os jegues e a
triste partida,
a grande
repercussão da reportagem.
Ela
pensava no jegue e seu desaparecimento.
No
coração, algum medo, sensação estranha.
Seria
um prenúncio do sumiço daquele mundo?
O
fim dos sertões?
A
ferrovia quase havia acabado com os vaqueiros, de quem o velho Chico Preto
sempre falava, com alguns dos quais ainda rememorava os tempos antigos, deles
correndo por entre as caatingas, o titã de que fala Euclides da Cunha, força e
agilidade extraordinárias, atrás da rês desgarrada, cravando a espora nas
ilhargas do cavalo, ou tocando boiada suavemente estradas e rios afora,
aboiando.
Os
sertões, seu mundo.
Iaçu,
um pedaço dele.
Marcionílio
Souza, outro.
Aquelas
paragens, sua vida.
E
agora, a ameaça do desaparecimento do jegue.
Luiz
Gonzaga cantou, e ela relembrou na matéria: é verdade meu senhor essa história
do sertão Padre Vieira falou que o jumento é nosso irmão.
Arrastou
lenha madeira pedra cal cimento tijolo telha fez açude estrada de rodagem
carregou água para casa do homem fez a feira e serviu de montaria.
Em
troca, o homem só lhe deu pancada pau nas pernas pau no lombo nas orelhas o
jumento é bom o homem é mau.
E
o velho Luiz Gonzaga ao final dizia reconhecer o valor do jegue, tudo que dera
ao sertão.
Cleidiana
lembrou de "O jumento é nosso irmão".
Eu
nunca me esqueço de "Triste partida": eu vendo meu burro meu jegue e
o cavalo nós vamos a São Paulo viver ou morrer e logo aparece feliz fazendeiro
por pouco dinheiro lhe compra o que tem.
Como
pouca gente, Gonzagão cantou o sertão, o Nordeste ressequido, a tragédia da
pobreza e da seca.
Foi
atrás também do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, de 1995 - "Mais vale um jegue que me carregue do
que um camelo que me derrube".
E
aí danou-se a falar na desvalorização do jegue naqueles dias.
Teve
até disputa para a edição da matéria.
Sexta-feira,
texto liberado, e Marinaldo Mira, subeditor, se animou todo para editá-la.
Reynivaldo
Brito, editor, deu-lhe um chega pra lá: essa é minha, deixa comigo.
Cleidiana
inchou toda - de orgulho.
Na
segunda, Reynivaldo chamou-a e informou:
-
A sua matéria foi a mais lida no portal durante o domingo. Superou até as
matérias sobre esporte.
Pra
que mais?...
Triste
pelos jegues.
Feliz
pela repercussão.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah...seo
Emiliano e sua pena encantada..
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(Cobertura de Carnaval do jornal A Tarde)
Emiliano José
16
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
um novo diretor de redação,
teimosia diante
da chefia,
a alegria na
hora do gol,
20 pautas em uma
hora,
o Carnaval do
Abelhudo.
Ricardo
Noblat foi uma tempestade.
Chegou
em 2002.
Diretor
de redação.
Mexeu
fundo com o jornal.
Nada
passava sem o olhar dele.
Exigente,
um workholic.
Criou
uma editoria especial, "Editoria de Verão", e Cleidiana foi uma das
últimas a serem incorporadas.
O
primeiro texto, umas 20 linhas. Foi, voltou, foi, voltou, foi, voltou - três
vezes. Noblat olhava, repassava, e nunca achava bom. Demorou até achar o ponto.
No
segundo texto, quando ele começou a ensaiar pedir para reescrever, deu testa.
Levantou
os olhos para a menina atrevida, sentiu firmeza, voltou a olhar com atenção
para o escrito, leu, releu, trocou vírgulas e se rendeu:
-
Tá escrevendo bem pra porra.
Estendeu-lhe
a matéria com um indisfarçável sorriso no canto dos lábios, e mandou:
-
Pode pedir pra publicar.
Cleidiana
quase explodiu - de alegria.
Assim
que saiu da sala dele, imaginou-se jogador de futebol na hora do gol: deu um
pulo pro alto, os punhos fechados - a redação olhando, querendo entender.
Noblat
foi se engraçando com Cleidiana - com todo respeito.
Descobrindo
nela uma grande repórter, um talento jornalístico.
Quem
sabe, boa pauteira, além da queda pela reportagem.
Um
dia, ele pede:
-
Quero 20 pautas de Carnaval.
-
Como assim? - indagou.
-
Sim, e que sejam o avesso do avesso, nada a ver com as matérias exibidas pela
televisão.
Achou
interessante.
Um
intrigante desafio.
Ligou
pra quem?
Foi
beber na fonte do professor Albergaria, autodenominado Abelhudo.
Em
uma hora entregou a encomenda, para estupefação de Noblat.
Cleidiana
contou o milagre e o santo.
-
Quero conversar com Albergaria - disse.
Passou
três horas com o professor, encantado.
Dali
surgiu o projeto de cobertura do Carnaval de 2003: tudo em forma de crônica.
Poderia
ser chamado em "A Tarde" o Carnaval do Abelhudo...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Haha..que
dias!
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Emiliano José
17
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
provar o racismo,
andar pelas
lojas chiques,
sentir a
invisibilidade,
a discriminação
na Roma Negra.
Algum
tempo depois, Noblat convoca Cleidiana à sala dele:
-
Tenho uma pauta pra você.
-
Ótimo - ela diz.
Ele,
no entanto, antes de começar a explicar, avisa:
-
Eu mesmo duvido dessa pauta.
A
pauta advinha da repórter Daniela Silva, da editoria de Economia.
Em
matéria dela, Salvador era apresentada como uma cidade racista.
Noblat,
um estrangeiro na capital baiana, provocou:
-
Sua missão é provar a verdade dessa afirmação.
Provocou
mais:
-
Vocês baianos vendem isso aqui como o lugar da igualdade, da confraternização -
e riu.
Sugeriu:
-
Vá a um shopping, lado a lado com outra repórter.
Mas
não qualquer outra.
Deveria
ser alta e loira.
A
escolha recaiu sobre Manuela Barros - modelito alta e loira, como solicitado.
Ligou
pra Albergaria antes de colocar o bloco na rua - era sempre uma bússola.
-
Vá ao Shopping Barra.
Quis
entender, ele explicou:
-
Está ali encravado na Graça de baixo, enclave dos considerados brancos puros,
se imaginam assim.
Era
considerado o shopping da elite, o Iguatemi era mais popular, a diversidade
batia à porta, no Barra, não.
E
ainda sugeriu levar outro repórter, Gilson Jorge, também negro, como ela.
Na
manhã marcada, todos uniformizados de blue jeans, como recomendado por Noblat,
seguiram viagem.
Em
algumas lojas, Cleidiana entrava sozinha.
Em
outras, ela e Manuela.
Noutras,
ela e Gilson Jorge.
Teve
de tudo.
Mas,
especialmente a invisibilidade de Cleidiana.
Pôde
sentir a crueldade de ser invisível.
Por
arte pura e simples do racismo.
Lembra
bem: numa loja de roupas masculinas entraram ela e Manuela - informou do desejo
de presentear o namorado, dar-lhe uma camisa.
Foi
um cerco sobre ela, quatro vendedores.
Cleidiana
assuntando: nenhum dos guapos rapazes sequer olhou para ela ou perguntou se
queria alguma coisa.
Invisível,
30 minutos dentro da loja assim.
Um
exemplo seguido por outros, o racismo, indisfarçável.
Dia
seguinte, relatam tudo a Noblat.
Ele
gostou, muito.
E
decidiu:
-
Vamos ter calma, ampliar, e fazer um caderno.
Completou:
-
A gente solta de uma vez só, como um soco. Um caderno...
Então...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita..chegamos
no episodio da minha guinada de mais de 360 graus em A Tarde....hehehe...
Lourdinha Brito: Tô curiosa pra
saber se teve mais experiências assim como essa, dessa loja.
Fredson Costa: Excelente
narrativa... Aguardo o desfecho...
Maria Celeste Pires Silva: Não sou
“considerada” afrodescendente, sou aquela cor “padrão “ kkkk mas já cheguei em
lojas do shopping barra, perguntei a atendente quanto era o arranjo de flores 🌹,
ele olhou para mim, e disse “quer mesmo? É muito caro “ dei um sorriso maldoso
e disse: pensei que fosse para vender e não para informar que é caro “ Não ando
maquiada nem com jóias. Então não posso comprar o arranjo kkkk
Eliana Rolemberg: Excelente!
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(Clediana Ramos, Meire Oliveira e Maíra Azevedo - Os homens que chamam os deuses para terra. Foto jornal A Tarde)
Emiliano José
18
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
projeto de caderno especial,
saída de Noblat,
banho-maria,
retomado, volta
a Albergaria, tudo tranquilo...
Noblat
é jornalista arguto.
Disse:
nada de matéria.
Caderno.
Vamos
fazer um Caderno sobre Racismo.
Será
um soco no estômago dessa gente metida a besta.
Cleidiana
vibrou, alegria, alegria, e correu de novo atrás do orixá:
-
Albergaria, e agora?
-
Calma, minha filha, só não há jeito para a morte.
E
conversaram conversaram projeto ganhou forma.
Mas,
nada de sair do papel.
Foi
ficando para quando setembro chegar.
Mas
em setembro ela saiu de férias.
Quando
voltou, Noblat havia batido asas, descido novamente para o Sul.
O
caderno, ele, o do carnaval, em banho-maria.
Um
dia, Olenka Machado resolveu ressuscitá-lo.
Ela
era agora mistura de chefe de reportagem e editora de planejamento na novo
desenho da redação.
-
Vamos tocar o Caderno sobre Racismo. Para sair no dia 20 de novembro, Dia
Nacional da Consciência Negra, uma edição especial.
Alegre
que só a porra, Cleidiana foi de novo ao orixá.
Ela
e Albergaria desenharam o caderno, e ele aconteceu.
Narrativa
do quanto a cor da pela mexe com a cabeça dos baianos.
Construção
do racismo científico e seus impactos, Donald Pierson e seu "Brancos e
Pretos na Bahia", mestre do inesquecível Thales de Azevedo, antropologia
comendo no centro.
Mergulho
nos números do IBGE.
Ela
e o fotógrafo Antônio Queiroz manhã inteira na Praça da Piedade entrevistando
Deus e o Diabo com uma só pergunta:
-
Qual a sua cor?
Deu
de tudo: negro, negro claro, negro escuro,
às vezes se fala tinta forte, negro retinto, cor de burro quando foge,
moreno, moreninho, uma infinidade de cores - há muito tempo não há quem se
reconheça em preto, pardo, amarelo e vermelho, agora indígena, do Censo do
IBGE.
O
caderno contou com a participação de outros repórteres, além de Cleidiana:
Manuela Barros, Gilson Jorge e Daniela Silva.
Saiu
de fato no dia 20 de novembro daquele 2003.
Título:
"Qual
a sua cor?
A
vida em um mundo racista."
Editado
por Marlene Lopes.
Início
de 2004, e Cleidiana, cada vez mais reconhecida, assume também a edição de
cadernos especiais.
Sei,
você está aí olhando a cena tranquila, achando tudo um mar de rosas, né?
Achando
o racismo fenômeno cordial, não?
Engano.
No
dia 19 de novembro, Olenka Machado chama...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
19
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
nosso racismo estrutural,
rompendo do
subsolo de surpresa,
editora
reagindo, secretário mandando tocar em frente.
Parece
uma insistência ranheta essa história do racismo estrutural.
Parece
coisa do movimento negro radicalizado.
Também
é, e ainda bem essa insistência do movimento negro.
É um
grito negro, absolutamente essencial.
Foram
350 anos de escravidão.
O
País - o modo capitalista de produção e sua cultura - não se debruçou sobre o
significado violento, no corpo e na alma das negras e negros, daqueles mais de
três séculos.
E
as marcas ficaram, persistem.
Estão
aí, à vista, para quem quiser ver.
Desafiam
a consciência democrática antirracista, chama a todos para esse combate.
Muitos,
muitos mesmo, estão encastelados em seus preconceitos, e agora estimulados pelo
próprio presidente da República, e o racismo é cruel, faz sofrer, e mata.
Às
vezes, o racismo está lá, escondidinho.
Só
se manifesta assim, de susto.
Salta
do subsolo, de repente
Estou
falando demais, estou desviando a prosa.
Volto
um pouco ao Caderno sobre Racismo, de 20 de novembro de 2003.
No
dia 19, Olenka Machado convocou Cleidiana a participar da reunião de fechamento
de "A Tarde" - para os leigos, é a reunião dos editores para
finalizar a edição do dia.
Afinal,
fora Cleidiana o cérebro do caderno, devia falar do conteúdo, subsidiar assim
as chamadas de capa, a titulação.
Calmamente,
como do estilo dela, apresentou o trabalho.
Sabe
nada, inocente.
Virou
um furdunço.
Muitos
questionamentos.
Quase
inacreditável, mas Cleidiana ouviu, de uma jornalista não negra:
-
Vocês estão destruindo a imagem da Bahia.
-
Como assim? - perguntou Cleidiana, baixinho, sem se alterar, só queria
entender.
-
Aqui na Bahia não há racismo - respondeu a jornalista, e Cleidiana rememorou as
palavras de Noblat lá no início de tudo - "vocês baianos vendem isso aqui
como o lugar da igualdade, da confraternização".
Porra
nenhuma.
O
racismo dizia-se presente numa reunião de editoras, editores.
Olenka
mostrou dignidade e firmeza:
-
Será mentira dos repórteres, com todos esses dados, com as tantas análises, a
existência do racismo? - defendeu o trabalho.
Silêncio,
por minutos.
Chico
Neto, secretário de redação, responsável pela primeira página, apaziguou,
mostrou firmeza, mandou tocar o bonde pra Lapinha.
O
bonde seguiu, com racismo e tudo.
A
edição de "A Tarde" do dia 20...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
20
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
um caderno, uma revolução,
racismo na
pauta, uma memorável
primeira página,
foto aberta, a quebra de tabus.
O
Caderno sobre Racismo não foi uma coisa qualquer.
De
alguma forma, mexeu profundamente com "A Tarde".
Um
jornal centenário tem tradição.
Não
gosta muito de mexer com suas estruturas.
Narrativas
e gráficas.
Um
jornal conservador - e não o digo como crítica, faço-o como observação.
Afinal,
sou colunista do jornal há pelo menos duas décadas.
Tem
me suportado.
Devo
ao jornal os meus primeiros passos para a edição da série "Galeria F -
Lembranças do Mar Cinzento", já a caminho do sexto volume.
Comecei
ali a série - depois ganhou vida própria, e seguiu fora de "A Tarde".
Muito
apreço pelo jornal.
Então,
chega o Caderno sobre Racismo às mãos de Sérgio Fujiwara, secretário de arte.
Ele
pensou, pensou, imaginou, imaginou, e ousou.
Resolveu
dar a cara a tapa.
A
primeira página de "A Tarde", dia 20, trazia uma imagem de cima a
baixo de um homem negro com as mãos cobrindo o rosto.
Acima,
em letras garrafais:
"Racismo".
Logo
abaixo:
"O
crime sobrevive".
A
ousadia tomava toda a primeira página - além dela, da foto, da manchete, da
linha de apoio em torno do racismo, apenas mais três minúsculas chamadas no pé
da página em torno do tema.
A
fotografia, como as demais do caderno, era de Mário Cravo Neto - o fotógrafo
havia cedido todas para essa finalidade.
A
configuração dessa página, a foto aberta escandalosamente, a prioridade a um
assunto, lembrava a "Tribuna da Bahia", no seu início, lá pelos anos
70, quando a fotografia ocupava espaços absolutamente incomuns para a época, ao
menos para o jornalismo da Bahia.
Além
de tudo, para "A Tarde", significava um passo adiante no
enfrentamento do racismo - dentro do jornal, um tabu ia sendo enfrentado, novos
ventos sopravam.
Cleidiana
não cabia em si de alegria.
Estava
escrevendo quando alguém toca no seu ombro...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita....lembranças
fortes.
Mônica Bichara: Uma das
melhores coisas do jornal A Tarde
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Emiliano José
21
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
uma capa de arrebentar,
um caderno para
confrontar,
dois socos no
estômago,
e um susto
durante o trabalho...
A
capa de "A Tarde" de 20 de novembro de 2003 é bela, belíssima.
Já
disse, mas insisto.
Foto
de página inteira.
Um
negro cobre o rosto.
Com
a mão direita.
Anéis
sagrados nos dedos.
Outros
adereços religiosos no braço e no pescoço.
Um
homem do candomblé.
Dá
ao leitor a chance de adivinhar a expressão de indignação detrás das mãos.
De
raiva.
Ou
de medo, quem saberá.
Um
bólido de milhões de sentidos, a valer muito mais que as palavras.
Em
cima a palavra Racismo salta, em letras garrafais, em negrito.
Logo
abaixo, O crime sobrevive, letras brancas, finas.
Curto
e grosso.
O
soco no estômago de Noblat, dito antes dele ir embora.
O
caderno, outro soco no estômago dos racistas.
No
alto, um selo, em letras pequenas, retangular: "edição especial
consciência Negra 20 de novembro" - consciência em vermelho, Negra, verde,
e em corpo maior, nem tanto.
Logo
abaixo:
"Qual
A
Sua
Cor?
A
vida em um mundo racista", alternando branco, amarelo e negro na manchete.
E
uma chamada logo abaixo, sobre fundo preto cobrindo toda a primeira página, em
caracteres brancos:
"Racismo
na Bahia existe, sim. Desde que se é criança escuta-se dizer que aqui é uma
democracia racial. Mas a realidade é outra. Olhando de perto, dá para notar que
ter pele escura na Bahia só tem valor na música e na poesia.".
Soco
no estômago - insista-se.
Racista
nenhum gostou daquela edição - uma obviedade.
Cleidiana,
naquele 20 de novembro de 2003, estava posta em sossego trabalhando quando
alguém bate em seu ombro.
Volta-se
e dá de cara com Renato Simões Filho, um dos diretores do jornal, da família
proprietária:
-
Você é Cleidiana Ramos, a pessoa responsável pela concepção do caderno
especial?
Gelou.
-
Que fiz de errado? - indagou de si para si.
-
Falei alguma coisa errada ontem na reunião de editores e vou ser demitida?
- refletia rapidamente.
Sim,
sou eu - respondeu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana
Ramos: Emiliano José fazendo os "ciscos" se movimentarem no meu
olho...
Graça
Azevedo: Cleidiana Ramos o de muita gente! Esse Emiliano José é brincadeira?
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Emiliano José
22
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
do temor à alegria,
a surpresa do
reconhecimento,
prenúncio de
novas vitórias.
Quem
foi repórter, ou editor, assalariado do mundo jornalístico, sabe do significado
de se defrontar com o dono do jornal, ou um dos donos.
Ao
menos se defrontar assim, de repente.
Sem
saber a que vem.
O
que será que será?
Era
essa a sensação de Cleidiana quando Renato Simões Filho tocou o seu ombro.
Lembrei
agora, e peço licença aos leitores para lembrar de um diálogo, capaz de revelar
os sentimentos de um jornalista diante do patrão, e não para estabelecer
similitude entre os personagens.
"-
Quem era o responsável pelo jornalismo da Globo ontem à tarde?
-
Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo,
Luís Cabral.
-
É com você mesmo que eu quero falar. Você me desobedeceu.
Confesso, não é vergonha: a mão tremia. Não era medo do
desemprego. Era o terror de quem vê desabar sobre si, repentinamente, o próprio
Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme.
-
Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente.
-
Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou o dia
inteiro projetando, dizendo que o Brizola ia ganhar. Você me desobedeceu.
-
Mas, dr. Roberto, eu não podia desobedecer a ordens que não recebi. Projetei
segundo a orientação de meus chefes.
-
E quem são seus chefes?
-
Os meus chefes são, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu.
-
Eles não são chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e você me desobedeceu.
-
Bem, dr. Roberto, não desobedeci.
-
Vai trabalhando aí que na segunda-feira a gente conversa. Até logo."
Esse
diálogo é de novembro de 1982, autoexplicativo, abre o livro de Daniel Herz,
"A história secreta da Rede Globo", essencial.
Cleidiana
estava assim, atônita, ao responder "sou eu mesma", temerosa de
notícia ruim quando se viu frente a frente com Renato Simões Filho, diretor e
um dos donos do jornal.
Ele
foi logo dizendo:
-
Parabéns. O trabalho é muito bom, de excelente qualidade. Estou muito
satisfeito.
Cleidiana
balbuciou um "muito obrigado" em meio a um suspiro de alívio e um
sentimento de alegria pelo reconhecimento.
O
diretor completou:
-
Havíamos separado mil exemplares para o projeto "A Tarde na escola",
mas já tivemos que mandar pra rua porque o jornal já está faltando nas bancas.
Outro
muito obrigado, e um largo sorriso.
Uma
vitória.
Decorrente
desse caderno...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Haha. Tive
esse susto, mas devo dizer que em A Tarde eu respirei ares de muita liberdade e
estrutura para fazer as coisas que sugeria (e nem sempre fora assuntos fáceis).
A única exigência era, não explícita, mas implícita: "Inventou,
aguente"...mas olhem, posso dizer de cátedra "minha grande escola.
Aprendi muito. ".
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Emiliano José
23
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
quase-freira, lua cheia,
águas do
Paraguaçu de Cachoeira,
cadernos negros,
pisando a calçada da fama...
O
encanto é da magia.
Talvez
só reservado aos espíritos elevados.
Ou
ele pode ser de todos?
Basta
se abrir?
Cada
um sabe de si, e sabe do que é capaz.
Começo
aqui uma dura e encantadora história.
Ou
retomo, simplesmente.
A
leitora, o leitor, se me acompanham desde o início, hão de se recordar da
quase-freira, olhando pras águas do Paraguaçu e pra lua cheia de Cachoeira - o
Paraguaçu, conhecido dela em Iaçu, não era o mesmo em Cachoeira, nem a lua
cheia, tudo muda, é da poesia do olhar de quem olha, do olhar embevecido da
menina quase-freira desistindo ao dobrar uma esquina e buscar outros rumos,
descobrindo a vida a cada passo, o vapor de Cachoeira não navega mais no mar.
E
um dia deu-se de frente com o candomblé.
Aquele
primeiro caderno da Consciência Negra, de novembro de 2003, talvez tenha sido a
sua Estrada de Damasco - e aqui a expressão é tomada como licença poética, São
Paulo não é orixá, ao menos que eu saiba, dos mistérios da fé pouco entendo.
Eu
vou recontando, puxando, qual fio de Ariadne, e as coisas vão surgindo, tenham
paciência, parece digressão mas é só parte da história, necessária para que
você compreenda.
Sei,
há algumas leitoras reclamando, querendo pressa, mas vou devagar porque já tive
pressa, como diria nosso Almir Sater.
Naquele
mês, surgiu então a ideia dos Especiais de 20 de Novembro, voltados à
comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, Cleidiana coordenando, vida
longa, de 2003 a 2015, 13 cadernos publicados.
Pisando
a calçada da fama.
A
filha de Nazinha e Chico Preto.
Caderno
de 2003 indicado para a categoria Nordeste do "Prêmio de Imprensa
Embratel".
O
de 2006, "Sou de santo e de raça", para a mesma categoria em 2007.
No
ano de 2006, o governador Rui Costa faz projeto de lei a pedido do Coletivo das
Entidades Negras, e ela se torna Cidadã de Salvador - desculpem, o vereador Rui
Costa, na Câmara Municipal, ato falho.
O
caderno "Os produtores de Owó" vence o "Prêmio Banco do
Nordeste" de 2009 nas categorias Mídia Impressa Regional I e Mídia
Impressa Nacional.
O
de 2011, "Epô Pupá a Marca do Dendê", finalista do "Prêmio
Abdias Nascimento", em 2012.
Em
2013, o Oscar, e assim chamado porque única premiação realmente cobiçada por
ela: o "Prêmio Abdias Nascimento" com "Os homens que chamam os
deuses pra terra", relato sobre os sacerdotes músicos do candomblé.
Brinquedo,
não.
Moça
foi longe.
Nazinha
até hoje relembra de tudo isso, e falta
estourar de orgulho enquanto prepara uma galinha ao molho pardo para receber a
filha.
E
Chico Preto, encantado, sorri gostosamente e repete "eu não disse?".
Tenham
paciência: volto "ao deu de frente com o candomblé" - e não deu ainda
não?...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Olha eu, fiel
à minha condição de nascida e governada pelo signo das águas, com os olhos
cheios delas.
Jorginho Ramos: Cleidiana
Ramos ...Águas do Paraguaçu !!!
Graça Azevedo: Cleidiana
Ramos Gostaria de ler esses seus trabalhos.
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Emiliano José
24
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
orixás pedem paciência,
"Cadernos
do 20" ganham conselho
editorial,
invadem as salas de aula,
ensinam África e
Brasil, irmãos inseparáveis.
Lidar
com os orixás requer paciência.
Outra
noção de tempo.
Há
meninas ansiosas para chegar lá, pra saber da história do encontro de Cleidiana
com o chão áspero e belo dos terreiros, com a magia dos atabaques tocados pelos
homens capazes de chamar os deuses à terra.
Leitoras,
leitores são ansiosos.
Mas,
peço sabedoria, um outro olhar para o tempo - talvez sejam os orixás a reclamar
isso, a nos dizer basta saber onde se quer chegar e caminhar, e a gente então
chega devagar devagarinho.
Ainda
há duas ou três palavras necessárias sobre os "Cadernos do 20", como
passaram a ser chamados os cadernos do Dia da Consciência Negra.
Depois,
a gente chega aos orixás - eles vão nos guiando pelo meio dessa mata-mundo.
Passaram
a ter um conselho editorial, por sugestão de Ricardo Mendes, o primeiro homem
negro a dirigir a redação do centenário "A Tarde".
Criado
em 2008, discutia a pauta com o compromisso da confidencialidade, e as reuniões
desse conselho tornaram-se verdadeiros seminários de formação envolvendo
repórteres, equipe de fotografia e do marketing.
Também
em 2008 Cleidiana ganhou uma parceira, Meire Oliveira.
Passaram
a fazer juntas os cadernos, e o trabalho criou amizade eterna.
Meire
trouxe a informação: os cadernos estavam sendo usados em sala de aula.
Em
2005, Salvador, sob a gestão da secretária Olívia Santana, passou a aplicar a
lei do ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, e os
cadernos serviam como material didático.
Cleidiana
tremeu - muita responsabilidade.
Tremeu
e gostou.
Um
dia, o mestre Jaime Sodré, lhe dissera: tudo que é escrito em jornal, fica.
Essa
informação, da chegada às salas de aula, merecia cuidados, atenção.
Meire
chamou Josiane Clímaco, especializada em educação étnico-racial, hoje doutora,
e ela tornou-se inseparável parceira - ajudava no planejamento e nas dicas para
poder ser utilizado nas salas de aula.
No
caderno de 2014, "Infância da Resistência", havia dicas em forma de
jogo de tabuleiro - os "Cadernos do 20" eram também sala de aula, um
luxo, a glória...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Tempo, tempo
tempo...nesse caso extremamente generoso, mestre Emiliano José
Efson Lima: Sem dúvida
alguma, o Caderno de 20 de novembro, de A Tarde, foi uma experiência inovadora,
reflexiva e com muitos significados. E na mão da mestra e sábia Cleidiana Ramos
conseguiu cumprir com a missão.
------------------------------------------
(Redação do jornal A Tarde)
Emiliano José
25
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
festa da década,
"Filhos de
Ghandi",
"Ilê
Aiyê", tem acarajé,
abará, tem caldo
de sururu,
e um rio de
lágrimas.
Deram
o que falar, os "Cadernos do 20".
Inda
mais na Bahia.
Festa
pouca aqui é bobagem.
Resolveram,
e bota gente nisso, fazer festas internas para comemorar lançamentos.
Primeira,
em 2012 - comemorar uma década.
Está
na moda hoje esse negócio de década - a Folha de S. Paulo, resolveu substituir PT
por Década esses dias, não viram?: "Década colocou os negros na
Universidade e não (só) para fazer faxina".
A
Folha é um caso sério - quem quiser conhecê-la, bom ler Beatriz Kushnir e seus
"Cães de Guarda", uma aula de como o jornal foi cão fiel da ditadura
e podemos dizer: nunca se afastou das classes dominantes, sempre defendeu seus
privilégios.
Sim,
se acalme, o Diabo me alerta, depois de ter me estimulado à crítica.
Era
o décimo número.
Iam
fazer vaquinha para fazer um bolo temático, mas Mariana Carneiro, de quem fui
professor, se meteu, era secretária de Planejamento do jornal, hoje
redatora-chefe, conversou com o diretor
de redação Vaguinaldo Marinheiro, e conseguiram festa com acarajé, abará, caldo
de sururu, festança digna de baiano, pra que mais?
Sim,
Cleidiana queria mais, conversou com Meire Oliveira e acabaram chamando o
"Filhos de Ghandi". E também o Ilê Aiyê, que beleza pouca é bobagem.
Quando
o clarim do "Filhos de Ghandi" soou no saguão de "A Tarde"
naquele 20 de novembro de 2012, seguido dos tambores do Ilê Aiyê, Cleidiana
desabou: chorou como poucas vezes na vida, um rio de lágrimas.
Com
o cortejo, um filme passou pela cabeça: uma mistura de sensações estava num
jornal que em 1975 dissera ser coisa de gente de Moscou aquelas cores do pan
africanismo do Ilê ah como o mundo gira gira mundo mundo girou e os olhos se
enchem de água novamente hoje quando a memória resgata aquele dia um dia
pra jamais esquecer.
Tem
mais.
Recorda-se
da presença na comemoração do secretário estadual de Promoção da Igualdade
Racial, Elias Sampaio, e de um trecho da fala dele:
-
Olhe Vaguinaldo: talvez você não tenha dimensão do que está acontecendo aqui
porque é de São Paulo. Aqui estão representantes de vários segmentos negros
baianos. Gente da capoeira, do candomblé, da política, do carnaval. Isso
significa que a gente tomou mais um chão. Talvez o que faltava: o chão do
jornal "A Tarde" agora é realmente nosso.
Aqueles
"Cadernos dos 20" foram uma escola.
Um
dia, uma colega da editoria de Economia perguntou a Cleidiana como deveria
chamar as mulheres assalariadas do trabalho doméstico...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Ai
gente....esse jornalista-bruxo mexendo o caldeirão de emoções...
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Emiliano José
26
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
um caderno-escola,
domésticas e
magia negra,
a caminho da
canonização,
de frei Galvão a
Irmã
Lindalva Justo,
uma louca paixão.
Trabalhadoras
domésticas - assim deviam ser chamadas as mulheres dedicadas à dura labuta
diária nas residências dos que podem pagar por tal trabalho.
Ao
explicar o termo e seu significado à sua colega de editoria de Economia,
Cleidiana ainda indicou Creuza Oliveira como fonte essencial se quisesse
conhecer o mundo dessas trabalhadoras.
Conheço
Creuza.
Sua
serenidade, seu sorriso quase tímido, e permanente.
Sua
determinação.
Começou
a trabalhar "em casa dos outros" com cinco anos de idade.
Tornou-se
uma das principais lideranças sindicais das trabalhadoras domésticas no Brasil,
e referência mundial.
Jornalista,
quando pensa em fonte, não imagina uma assim - vinda de baixo, e com tal
densidade.
Foi
uma das lideranças essenciais da PEC das Domésticas, cuja aprovação se deu em
2012.
Incrivelmente,
foi o marco inaugural da equiparação de direitos entre as trabalhadoras
domésticas e os demais trabalhadores brasileiros - escravidão entre quatro
paredes terminava, uma extraordinária conquista.
Coisa
da Creuza.
E
da petralha Dilma.
A
colega da editoria de Economia quando conheceu Creuza ficou impressionada com a
potência da inteligência dela, com a qualidade das informações fornecidas por
ela.
Outra
ocasião, e uma colega da cobertura policial fez uma consulta sobre um delegado
tentando ligar um crime à "magia negra".
E
Cleidiana mostrando: ter um alguidar junto ao corpo não significa nada, é só um
alguidar, essa história é fruto do preconceito, ranço da herança de Nina
Rodrigues na ideologia de formação dos funcionários do Departamento de Polícia
Técnica.
Sementes
dos "Cadernos do 20" - orgulhos de Cleidiana.
A
mais rica experiência dela na concretização de um jornalismo antenado com
responsabilidade social.
Esses
cadernos renderam frutos em sua caminhada profissional.
Escalada
para vários cadernos especiais como repórter ou editora, às vezes nas duas
condições, e também para coberturas de grande magnitude.
Enviada
especial ao lado do repórter fotográfico Gildo Lima para acompanhar a visita do
papa Bento XVI a São Paulo em 2007, foi testemunha do fato histórico da
canonização do primeiro santo brasileiro, frei Galvão.
Entrou
na fila da canonização.
Calma
- cobertura de canonizações, que Cleidiana não é candidata a santa, ao menos
que eu saiba.
Acompanhava
passo a passo o processo de Irmã Lindalva Justo.
A
freira era do Rio Grande do Norte, mas foi assassinada em Salvador numa
Sexta-Feira da Paixão no Abrigo Dom Pedro II.
Uma
louca, desesperada paixão...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Maravilha,
mestre Emiliano José..como sempre.
Margareth Cunha Lemos: La nave va...
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Emiliano José
27
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
perigosa indicação,
repentina
paixão, assédio, faca
amolada, sangue
no abrigo, beatificação,
Irmã Lindalva,
Irmã Dulce, Vaticano e o Papão.
Irmã
Lindalva chegou a Salvador no final de janeiro de 1991.
Da
Congregação Irmãs da Caridade, trabalha no Abrigo Dom Pedro II, no bairro de
Roma, na Cidade Baixa.
O
abrigo acolheu, por recomendação sabe-se lá de quem, Augusto da Silva Peixoto,
de 46 anos, em janeiro de 1993 - não cabia ali entre os idosos, mas coube, sabe
como é que é, houve quem pedisse, e não devia ter pouco peso.
Apaixonou-se
por Lindalva.
Assédio
constante.
Repelido.
Na
Sexta-Feira Santa, 9 de abril de 1993, Peixoto tira-lhe a vida - os legistas
contaram 44 facadas.
Proclamada
beata mártir pela Igreja Católica em 2 de dezembro de 2007.
Toda
essa saga transformada em matéria por Cleidiana.
Irmã
Dulce, acompanhava passo a passo todo o processo de canonização.
De
Irmã Dulce, desnecessário falar porque muito conhecida de todos.
Quando
marcada a canonização, para outubro de 2019, estava fora do jornal.
Mariana
Carneiro, diretora de redação, chama Cleidiana para uns dois dedos de prosa:
-
Quero você nesse trabalho. Elabore um projeto de três meses de cobertura,
contextualizando toda a situação histórica da canonização da primeira santa
brasileira.
E
completou:
-
Você irá a Roma acompanhar a cerimônia no Vaticano.
Foi.
Guarda
até hoje a doce recordação e o recorde de ter acompanhado um processo de
canonização do início ao fim.
Não
é que Chico Preto tinha razão?
Não
é que Nazinha sempre soube das coisas?
Essa
menina ia longe.
Foi.
E
não parou.
Participou
do planejamento, reportagem e edição do "Carnaval do Papão",
projeto-âncora da cobertura da folia pelos canais do grupo "A Tarde" em 2005, 2006 e 2007.
Também
nesse caso, foi atrás do guru...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
28
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Carnaval do Papão, um delírio, uma paixão, os sete pecados capitais,
um inusitado
baile de máscaras,
o Diabo solto no
meio do salão.
Guru,
sábio, mestre Roberto Albergaria havia dado de cara com uma reportagem sobre
"O Papão", revista satírica editada por Ernesto Simões Filho ali no
alvorecer do século XX, 1904, oito anos antes do surgimento de "A
Tarde", objeto de texto de Cláudio Veiga, da Academia de Letras da Bahia.
Desenvolveu
a prosa com Cleidiana - aquilo era um maná..
E
ela, então, elaborou o projeto do "Carnaval do Papão".
Olenka
Machado gostou um tanto da ideia.
Tanto,
tanto a ponto de transformar o projeto na cobertura de todo o carnaval -
Cleidiana havia pensado no trabalho dela apenas.
O
primeiro "Carnaval do Papão" tinha como Editoria Fixa "Os sete
pecados capitais" - desses malditos pecados nasceu a pauta.
E
lá vieram gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, vaidade - esse
universo maldito de pecados, a inundar o carnaval, sobretudo luxúria e a
vaidade.
Pecados
inventados para tentar acorrentar o ser humano - adiantou pouco, ou nada.
Lembro
de passagem de livro organizado por Emir Sader chamado "Os sete pecados do
capital" - avareza, ecocídio, exploração, fetichismo, fome, roubo do tempo
e latifúndio.
Outra
leitura dos pecados.
O
Diabo, depois de me atentar, alerta: volte ao desfrute do carnaval, eita trem
bão.
A
filha de Nazinha de Chico Preto, mais Olenka, mais Marlene Lopes, esse trio
infernal, bolou os pseudônimos das meninas e meninos da redação.
Ficariam
mais livres, extravasariam suas sensações, emoções, deixariam seus pecados
fluírem com mais intensidade, os dos outros, claro - eram só profissionais, não
podiam ceder a tentações, e tentação não faltava, que carnaval é coisa Dele, do
Diabo.
Era
como um baile de máscaras - as pessoas ficavam tentando saber quem era quem, e
só a coordenação tinha na algibeira o nome de cada um.
Na
quarta-feira de Cinzas, todo mundo correu atrás do jornal para descobrir os nomes.
Cleidiana
era a "Cuiubinha do Sertão".
Ainda
hoje, ela canta canções de outros carnavais, quando a memória rodopia com ela
no meio do salão ao lembrar do "Carnavais do Papão":
"Tanto
riso,
Oh,
quanta alegria,
Mais
de mil palhaços no salão
Arlequim
está chorando
Pelo
amor de Colombina
No
meio da multidão!...
Vou
beijar-te agora,
Não
me leve a mal,
Hoje
é carnaval!"
Beijou.
E
a vida seguiu...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita...que
alegria foi a ressurreição do Papão...hehe
Mônica Bichara: Era uma
delícia mesmo tentar descobrir quem estava por trás de cada “máscara”. Textos
deliciosos
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Emiliano José
29
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
Saudações África,
sacerdotisas
lideranças femininas
no candomblé,
Discurso da Luz,
Festa de Verão
aos pés de Xangô.
Findo
o "Carnaval do Papão" em 2007, Cleidiana ainda foi mulher de muitos
carnavais, sendo coordenadora da cobertura por mais três anos - 2008, 2009 e
2010.
No
meio, um dos especiais mais caros a ela: "Saudações, África", de
2006.
Comemorava
a II Conferência dos Intelectuais Africanos e da Diáspora, realizada em
Salvador naquele ano, por esforço do professor Ubiratan Castro de Araújo, então
presidente da Fundação Cultural Palmares.
Editando
uma das matérias sobre a liderança feminina no candomblé, mexendo em arquivos,
Cleidiana depara com uma preciosidade: imagens de ritos das intimidades de
terreiros, como os das cerimônias do abate religioso, sob a direção de
sacerdotisas de quem já tinha ouvido falar muito mas de escassas imagens
disponíveis, como a de Samba Diamongo.
Dessa
descoberta, nasce a pesquisa da dissertação de Mestrado dela: "O Discurso
da Luz - Imagens das Religiões Afro-Brasileiras no Arquivo do Jornal 'A
Tarde'", defendida em 2009, no Programa de Pós-Graduação em Estudos
Étnicos e Africanos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, sob
orientação do professor Cláudio Luiz Pereira.
Catalogou
1432 imagens, levantou histórias, identificou personagens em visitas a mais de
30 terreiros de Salvador e Lauro de Freitas.
Tal
acervo subsidia também o Doutorado em Antropologia, com a tese "Festa de
Verão em Salvador - um estudo antropológico a partir do acervo documental do
jornal 'A Tarde'", também na UFBA, sob orientação da professora Fátima
Tavares.
Danada,
muito danada, a filha de Nazinha de Chico Preto.
Doutora.
Agora,
já podemos falar da sacerdotisa do candomblé - começar a contar essa história,
quem sabe assim aplaque a ansiedade de algumas leitoras tão queridas.
Conta
o povo de terreiro uma fala de Mãe Aninha, filha de Xangô, e fundadora do Ilê
Axé Opô Afonjá, melhor chamar um conselho dela:
-
Todo negro que tem um anel no dedo, tenha passado por uma formatura, deve
colocá-lo aos pés de Xangô.
Cleidiana
nunca esqueceu isso...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
30
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
anel ao pé de Xangô,
marcas da
escravidão, Mãe Stella,
uma escola pra
chamar de todos, Axé,
e os primeiros
passos na direção do candomblé.
Não
era pra esquecer.
Todo
negro com um anel no dedo deve colocá-lo aos pés de Xangô.
Mãe
Aninha sabia das coisas.
Vinha
de longe, de muito longe.
Carregava
as ricas tradições das civilizações africanas, como a sua, nação Grunci.
Negro
não chegava fácil, não chega, ao sistema oficial de ensino - eram fortes, são
fortes, os efeitos da escravidão, cujas marcas não foram enfrentadas no pós-Lei
Áurea, a persistir fortemente até os dias atuais.
O
racismo estrutural continua a desafiar a Nação brasileira.
Então,
é bom tirar o anel do dedo, depositá-lo aos pés de Xangô.
Estará
bem guardado, e Xangô registra o reconhecimento.
Mãe
Stella, de partida recente para o reino dos encantados, ouviu o conselho de Mãe
Aninha.
Interpretou
a recomendação a seu modo.
Quinta
sacerdotisa a governar o Ilê Axé Opô Afonjá a partir de 1976, desde o início
começou a batalha para implantar a escola Eugênia Anna dos Santos, no
território do terreiro.
Um
programa pedagógico revolucionário, a girar em torno da cosmogenia dos povos de
lingua iorubá, desenvolvido pela professora e ebomi Vanda Machado, escola,
soube, a servir de base essencial para o projeto Axé. É referência para a
aplicação da Lei 10.634 de 2003, obrigatoriedade do ensino de História da
África e Cultura Afro-Brasileira nas escolas.
Mãe
Stella fazia questão de explicar: não se tratava de uma escola de candomblé.
Apenas
funcionava em um terreiro de candomblé.
Não
era de uma confissão religiosa - o candomblé jamais fez proselitismo.
Essa
prosa toda é para tentar entender a aproximação de Cleidiana com a religião dos
orixás - aproximação lenta, mas segura, consistente.
Foi
apresentada à pauta das religiões em 1998, mas o candomblé não foi incluído.
As
mães e pais de santo ainda estavam na encolha, retraídos, ainda ressabiados com
a história da perseguição secular.
Cleidiana
foi chegando aos poucos, entrando na mata com cuidado, pé ante pé, querendo
conhecer, mas sem pressa, inimiga da perfeição.
Foi
final do século passado, alvorecer desse novo milênio, suas primeiras
investidas...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Jaime Sodré e Olívia Santana com a equipe do caderno da Consciência Negra, do jornal A Tarde, editado por Cleidiana. Homenagem na Câmara Municipal de Salvador em 2010)
Emiliano José
31
de dezembro 2020
Cleidiana Ramos:
os encontros propiciados
pelo jornalismo,
o candomblé se acercando,
São Jorge e
Oxóssi, Oxumaré e Jaime Sodré.
A
sabedoria do candomblé, advinda de tantas civilizações africanas, desenvolvida
também no Brasil, boa parte sob a brutalidade escravista, costuma dizer: você
não escolhe o orixá, ele faz a escolha de a quem quer chegar.
Essa
chegada ao candomblé para Cleidiana começou pelo jornalismo.
Por
ele, conheceu Mãe Stella.
Hoje,
passado o tempo, deixa o pensamento fluir: seu anel e o bloco e a caneta devem
estar a serviço das maravilhas aprendidas no universo do candomblé - todos ao
pé de Xangô.
Deve
ter sido 1999.
Eliezer
Varjão, o implacável, deu-lhe uma pauta - com recomendação expressa de não
voltar de mãos vazias.
Aquele
tipo de pauta curiosa: o chefe de reportagem vê o galo cantar, não sabe direito
onde, quer saber, manda jornalista pra rua, se vire nos trinta, não é comigo
não.
Descobrir
a associação entre São Jorge e Oxóssi, tão comum na Bahia, nem sempre
explicada.
Cleidiana
entrevista frei Jorge Rocha, capuchinho, professor da Universidade Católica de
Salvador.
O
religioso indicou outra fonte: o babalorixá do Terreiro Oxumaré.
Apareceu
no terreiro sem avisar, e Babá PC a recebeu - Silvanilton Encarnação, nome de
batismo.
Iniciação.
Primeiros
passos, inconsciente.
Vai
ganhando as primeiras noções.
Cobre,
em 2000, o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá.
Já
tivera o encontro com Mãe Lúcia Neves, do Terreiro São Jorge Filhos da Goméia,
e já compreendera o quanto havia de diversidade no candomblé, as portas se
alargando, as visões se clareando.
Vou
adiantando, porque as professoras podem estar ansiosas: do relacionamento
repórter/fonte, Cleidiana passa a iniciada no culto, em 2010.
Dado
o lead, somos levados a contar a história, como se iniciou essa caminhada,
principalmente a partir de quatro encontros, e aí as leitoras e os leitores hão
de ter paciência.
O
orixá Tempo, senhor do tempo e do espaço, pede isso - fazer como o velho
marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar.
O
primeiro encontro foi com Jaime Sodré, também meu mestre, um oceano de
sabedoria, encantado tem pouco tempo.
O
sofrimento de Cleidiana quando ele partiu, agosto de 2020, não foi pequeno:
adoeceu de ficar de cama, crises de enxaqueca, sensação de exaustão.
Perdia
outro pai.
Era
um tata, sacerdote que não entra em transe na tradição angola...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita que já tô
me preparando aqui para dias de ficar com muitos ciscos nos olhos..
Isabel Santos: Cleidiana
Ramos Prepara-se. Realmente, deve vir muita emoção pela frente. Estou aqui
contente com a atitude do frei Jorge Rocha, que nos mostra que intolerância
religiosa não nos leva a caminho nenhum. O texto do querido Emiliano José
também me fez relembrar dos tempos de repórter quando recebíamos a pauta (ou as
pautas) sabendo que teríamos que nos virar. ´Furar´ pauta era quase
inadmissível kkkkkkkk Bons tempos, grande aprendizado. Feliz 2021 pra vocês,
com muita SAÚDE.
Jose Jesus Barreto: Terreiro de
candomblé foi e sempre será lugar de resistência e busca de identidades de um
Povo de Fé.
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Emiliano José
1º
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
mestre Jaime Sodré,
um tata, casa de
romaria,
orientador,
conselheiro, e
a partida precoce para o Orum
Jaime Sodré foi meu mestre.
Andou
comigo, orientou muita coisa de meus mandatos parlamentares.
Morava
na Federação, Cardeal da Silva, quase defronte onde também residi por anos.
Sua
casa, romaria.
Gostava
muito de telefone, não.
Quem
quisesse conversa mais demorada, conversa ao pé de ouvido, o visitasse, tomasse
um cafezinho em meio a muitos livros, e ele naquela pachorra, voz pausada, sem
pressa, sorriso sempre aberto, aconselhava, orientava, sabe-se lá se ele, se os
deuses invocados.
Jaime
transmitia serenidade, como se acalmasse espíritos em turbulência, não sei se
ele se os deuses chamados por ele.
Ajudou-me
quando investido como deputado estadual constituinte.
A
inscrição na Constituição baiana do artigo de respeito à religião
afrodescendente, feita por mim, nasceu de orientação dele e de Lúcia, sua
companheira, cuja partida se deu já há algum tempo.
Ainda
estão nas minhas memória as imagens da bela sessão cheia de mães e pais de
santo e Lúcia sobretudo mexendo-se entre eles, procurando os deputados,
convencendo-os da importância do artigo, e Jaime acompanhando tudo, tata
atencioso.
Sofri
quando ele seguiu para o Orum, em agosto de 2020.
Cheguei
a escrever ser muito precoce a partida, reclamei.
Mas,
quem sou eu para protestar?
Quem
sabe dos desígnios a respeito de um tata?
Compreendo
a dor de Cleidiana, a jogá-la prostrada numa cama.
Compartilhei
dessa dor.
Jaime
era filho de Lemba, inquice que se aproxima do Oxalá do povo Ketu, o velho de
vestes brancas.
Iniciado
no Terreiro Tanuri Junsara, foi confirmado tata xicarangoma.
Pensem
em pouca coisa não.
Estamos
falando de um sacerdote músico - com sua voz e o excepcional domínio dos toques
dos atabaques, chamam os deuses à terra, a tomarem os corpos de suas filhas e
filhos.
Iluminado,
Jaime era um ser iluminado.
Se
tenho poucas crenças, essa tenho: há seres iluminados - poucos, mas há.
Poeta,
compositor, músico, professor do IFBA e da Uneb e designer.
Na
dissertação de Mestrado pela Escola de Belas Artes da UFBA, abordou a obra do
grande Mestre Didi - Deoscóredes Maximiliano dos Santos -, um dos nobres do
candomblé na Bahia, filho biológico de Iyá Senhora de Oxum, que reinou no
Afonjá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah...a
homenagem chega ao mestre Jaime, doutor em acolhimento...que saudade. 🥰
Adilson Borges: Mais um dos
bons que perdemos na pandemia...
Jose Jesus Barreto: Jaime Sodré,
um iluminado.
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2
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
mundo mundo vasto mundo
do candomblé,
resistência, o heroísmo prosaico de cada dia, o reinado do Ilê Opô Afonjá,
Sartre e Simone.
O
candomblé é um mundo vasto mundo mais vasto o coração ou, ainda parafraseando
Drummond, candomblé é coisa do coração, do vasto coração do mundo.
Nunca
prometeu ensinar ninguém, como no samba de Noel, só quer existir, mostrar, se
for preciso, que também é dos deuses, e os seus deuses são muitos e descem à
terra.
Resiste,
porque forte, não obstante tanta perseguição ao longo dos séculos.
Muito
branco se aproximou, e se encantou.
Ao
longo do escravismo, as lideranças do candomblé souberam fazer alianças e com
tais alianças e com suas lutas resistir, sobreviver.
Recordo-me
de João José Reis, o grande historiador baiano da escravidão, ao falar do
heroísmo prosaico de cada dia da luta escrava, dia a dia onde se revelava uma
malícia desconcertante, uma rara capacidade política de construir alianças, e
isso sem falar nas rebeliões e nos quilombos, das quais Reis trata também com
impressionante densidade - tudo isso com a participação decisiva do candomblé
ou da religião muçulmana.
Gosto
do didático e denso livro de José de Jesus Barreto - "Candomblé da Bahia -
Resistência e identidade de um povo de fé".
Tive
a sorte de contar com grandes mestres - e Barreto é um de meus mestres no
jornalismo.
Desse
mundo, vasto mundo, Cleidiana ia se aproximando, devagar devagarinho talvez
mais coração menos razão.
Yiá
Senhora de Oxum, no seu reinado no Ilê Axé Opô Afonjá, recebeu Sartre e Simone
de Beuavoir, e trocou com os dois algumas palavras em francês.
Ali,
no Afonjá, houve uma linhagem de grandes mães de santo: Mãe Aninha, Mãe Bada, Mãe Senhora, Mãe
Ondina, Mãe Stella e agora Mãe Ana de Xangô.
Jaime
Sodré, voltamos ao nosso mestre, no doutorado na Uneb, resolveu estudar como os
jornais baianos abordaram o candomblé.
Foi
levado a isso por um acaso, se o acaso existir.
Às
voltas com livros na Biblioteca Pública, nos Barris, observou alunas e alunos
da escola pública acompanhados por professora copiando tudo sobre o candomblé
nos jornais.
Resolveu
conferir: os jornais eram uma montanha.
Montanha
de erros acerca do candomblé.
Então,
resolveu mergulhar.
Como
se os orixás o mandassem - e quem disse que não?...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Preparem-se
para importantes encontros no caminho que nos vai ser traçado pelo mestre
Emiliano José ...
Jose Jesus Barreto:"Candomblé
da Bahia - Resistência e Identidade de um Povo de Fé, Solisluna Editora. Grato
pela referência.
Emiliano José: Jose Jesus
Barreto puro merecimento
Mônica Bichara: Também um dos
meus mestres Jose Jesus Barreto, pauteiro sensível e chefe de reportagem
querido no Jornal da Bahia. Toda sexta-feira de branco, vela acesa em cima do
arquivo ao lado da mesa....doce lembrança do início. Puro merecimento mesmo,
Emiliano
Jose Jesus Barreto: Tribuna da
Bahia , moniquinha. Bjs pela lembrança, carinho.
Mônica Bichara: jurava q tinha sido tbm no JBa. Bjs querido
Jose Jesus Barreto: Mônica Bichara
fui do Jornal da Bahia, já como editor, na Djalma Dutra e nos Pernambues. Foi
lá?
Mônica Bichara: Jose Jesus
Barreto na Djalma Dutra
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(Cleidiana e o ex-governador Roberto Santos)
Emiliano José
3
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
decisão histórica do
governador
Roberto Santos, fim da
perseguição
ao candomblé,
à procura de
Jaime Sodré, enfim o encontro.
Vocês
sabem, e não custa repetir: ao candomblé na Bahia só foi permitido realizar
seus cultos livremente a partir do início de 1976.
Antes,
para realizar seus rituais públicos, os terreiros, para bater como se diz
popularmente, eram obrigados a retirar uma autorização na Delegacia de Jogos e
Costumes, de ofício destinada a lidar com casos de prostituição e jogo do
bicho.
Como
se à Igreja Católica fosse exigida autorização para celebrar a missa.
À
Igreja Presbiteriana, retirar um documento para realizar o culto.
O
escravismo continuava presente no ataque à religião dos negros.
Uma
atitude histórica do governador Roberto Santos.
Lamentável
constatar: tal ataque reaparece com força nos dias atuais, estimulado por
setores neopentecostais ou por forças do capital imobiliário e pelo pensamento
conservador.
Jaime
Sodré, com sua militância contra a intolerância e com seus estudos, sempre
pretendeu demolir muros, preconceitos, e envolver mais e mais pessoas na luta
contra o racismo, especialmente o manifestado contra o candomblé.
Albergaria,
um de seus primeiros mestres, repetia para Cleidiana, quase como um mantra:
"Você precisa conhecer Jaime".
Ela
tentava, ligava, e Jaime nada.
Tinha
telefone só em casa.
Ao
celular, sábio, resistiu até o fim da vida.
Como
se dissesse: se quiserem me encontram.
Tinha
razão: Cleidiana acabou encontrando-o.
Era
final de tarde, um sábado, 2005, período da Páscoa.
Cobria
a cerimônia de instalação do Núcleo Afro da Polícia Militar (Nafro PM).
-
É agora - murmurou baixinho ao ver Jaime Sodré à mesa.
-
Dessa ele não escapa - garantiu de si para si.
Terminada
a reunião, aproximou-se, e se apresentou. Jaime, efusivo, era sempre, não
obstante uma efusividade serena:
-
Ah, então é você que é Cleidiana? Eu ando atrás de você há muito tempo, Iaiá.
Pronto.
Encontro
para toda uma vida...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
4
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
PM saindo do armário,
núcleo afro
militar, família Sodré,
o sábio e a
paciência, o candomblé se acercando.
Por
Jaime Sodré, por aquele encontro jamais esquecido, de tanto impacto em sua
vida.
E
também pela cerimônia de instalação do Núcleo Afro da Polícia Militar
(Nafro-PM).
Aquele
sábado de 2005, próximo à celebração
interreligiosa da Páscoa, fora especial por essas duas razões.
Cleidiana
fizera a matéria de apresentação do núcleo - uma espécie de insurreição de PMs
iniciados no candomblé, indignados pelo fato de nunca receberem convites, como
grupo, para as celebrações religiosas da corporação.
Alguns
deles se movimentaram um pouco antes da Páscoa.
Foram
ao comandante da PM e receberam autorização para participar da celebração
interreligiosa, já como Nafro.
Entre
eles, major Peixoto, ogã da Casa Branca, com quem tive o prazer de encontrar
algumas vezes em atividades do terreiro ou fora dele, e o sargento Eurico
Alcântara.
No
início não passavam de dez.
Logo,
ultrapassavam a centena.
Sargento
Eurico Alcântara, ria com o crescimento.
Tata
de inquice, o mais alto posto em terreiro de nação angola, sargento Eurico
brincava:
-
Todo mundo foi saindo do "armário do dendê".
Era
amplo, o armário.
Muito
maior do que se imaginava.
Cleidiana
lembra: a cerimônia rendeu até editorial em "A Tarde".
Florisvaldo
Mattos, então editor chefe, achou fantástico o fato de a PM, que se vangloriava
de ter surgido caçando escravos, ter agora um núcleo afro.
Milagres
do candomblé.
Com
Jaime, com Lúcia Oliveira, sua companheira, estabeleceu-se uma relação quase
familiar, amorosa, permanente.
Que
se estendeu à filha, Jamile, e a Zezé Sodré, irmã de Jaime.
Família,
tornou-se sua família.
As
conversas com Jaime, amenas e profundas, sérias e divertidas, temperadas sempre
pelo eterno bom humor dele, nunca duravam menos de quatro horas.
Ela
não via o tempo passar, bebendo naquela fonte inesgotável de sabedoria.
Ele
dizia gostar muito da visita dela:
-
Adoro. Quando Iaiá vem, dona Lúcia melhora o lanche.
E
ele foi se acercando, de mansinho, pianinho.
Dizia
ter certeza de que ela encontraria "suas conexões" no candomblé.
Cleidiana,
reticente:
-
Já fui quase freira, hoje nem sei no que acredito.
E
ele:
-
Aguarde, Iaiá. Aí tem muito enredo.
E
gargalhava, sabendo das coisas...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Jaime Sodré)
Emiliano José
5
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Jaime Sodré e o mundo
da magia, tudo
tem seu tempo certo,
o candomblé é
coisa de 24 horas,
o povo é de
santo mas não é santo.
Parece,
parece mesmo, estou vendo Jaime Sodré falar:
-
Se assossegue, Iaiá. Aí tem muito enredo.
Era
do tipo sem pressa, sabia o caminho das águas: corriam para o mar, só esperar.
Iaiá
não sabia, porque às vezes não é tempo de saber, mas viria o momento de os
orixás se aproximarem.
Cleidiana
o procurava volta e meia.
O
argumento era sempre uma pauta.
E
entre uma pauta e outra, e no meio dos roteiros dele sobre o candomblé, Jaime
Sodré ia se revelando não apenas o professor, mas o sábio iluminado.
Ela,
às vezes, ensaiava uma dúvida a lhe apertar a mente - as coisas mágicas a se
insinuar em sua mente, o que eram?
-
Ah, Iaiá, na magia não há nada de sobrenatural ou fantástico.
-
Como assim? - ela reagia espantada, em meio ao lanche preparado por Lúcia.
-
Aprenda a olhar o seu entorno. Abra os olhos para o cotidiano, a magia está aí,
à sua mão. Falta percebê-la, abrir-se para ela.
Cleidiana,
maravilhada, a alma se abrindo.
E
ele seguia ensinando, como se não quisesse, os sábios são assim:
-
Nossos olhos cartesianos insistem em não
perceber a magia.
E
ela pensava em sua racionalidade, no império da razão, enquanto comia um pedaço
de bolo de aipim.
Ele
prosseguia, olhando pra ela com um carinho imenso, quase pai, quase mestre, ou
os dois:
-
Mas, não tem pressa, Iaiá. Logo logo você vai se familiarizar com as coisas que
estão lhe acontecendo, com seus estranhos sonhos, ainda estranhos, vai
descobrir as coisas ainda imperceptíveis, vai, tenha certeza.
Outro
gole de café, e ele vaticinava, como a descobrir o que viria, sem que ela
soubesse:
-
Candomblé, Iaiá, é 24 horas.
Era
um ombro amigo, além de mestre, ou por mestre.
Quando
o trabalho apertava em "A Tarde", quando a pressionavam para não ficar se
especializando em temas específicos como o candomblé, ela em dúvida, ele
surgia, sereno:
-
Calma, Iaiá. Não se precipite. Tudo tem seu tempo certo. E fique sossegada:
Iaiá tem retaguarda.
E
de vez em quando lhe contava histórias do povo de santo dessas de arrepiar, não
tão edificantes, pra rir muito, e ele a alertava
-
O povo é de santo. Mas não é santo.
E
os sonhos continuaram...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Essas
lembranças, como eu já estou ficando versada, fazem é cair cisco nos meus
olhos....
Marilia Fontes: Cleidiana
Ramos lágrimas em meus olhos, saudades do nosso querido io iô
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Emiliano José
6
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
sonhos abrindo caminhos,
no meio da
estrada Mãe Valnizia,
é D'Oxum,
alegria, alegria, tenha
medo desse povo
quieto e de pé ligeiro.
Os
sonhos começaram a atormentá-la.
Vieram
fortes, vinculados ao candomblé, ou presumivelmente.
Houve
um primeiro, recheado de símbolos.
Cleidiana,
intrigada.
A
humanidade se debruça sobre os sonhos, desde sempre.
São
um traço do humano.
Freud
foi buscar neles a matéria-prima essencial da psicanálise.
É
quando o inconsciente manda recados, a serem decifrados.
Quando
ocorreu aquele primeiro, tão simbólico, ligou para o oráculo.
Jaime
não relutou ao ouvir o relato:
-
Aí, Iaiá, cabe um jogo de búzios.
Caía
na estrada, pianinho pianinho.
O
mestre indicou cinco religiosos - sacerdotisas e sacerdotes, dentre os quais
Mãe Valnizia Bianchi, a quem Cleidiana conhecera havia pouco tempo durante
mesa-redonda no Terreiro do Cobre.
Gozado,
olha o acaso, ela havia aparecido em seu sonho.
Acaso
existe?
Jaime
não fincou pé em nenhum nome:
-
Faça o que o seu coração mandar.
-
Ué, ela estava lá, tão majestosa em meu sonho, tem de ser ela - Cleidiana
determinou-se: seria Mãe Valnizia.
Tentou
uma, duas, três vezes - mulher difícil, agenda lotada sempre.
Os
sonhos prosseguiam, persistentes, os símbolos do candomblé a bater em sua
porta, ela contando ao mestre, agoniada, enquanto Valnizia não abria a agenda.
Ele, sereno:
-
Minha senhora, se acalme. Não era possível que a senhora com essa linhagem dos
Sodré não tivesse aí um pezinho no candomblé. E o lado de seo Chico?.
Ele
brincava, e já considerava Cleidiana como da família.
Deu
pulos de alegria quando soube Iaiá filha de Oxum senhora das águas doces
cachoeiras fontes rios confirmação de Mãe Valnizia.
A
menina nascida em Cachoeira, crescida em Iaçu, nascida em março, de Peixes,
selava mais um elo com as águas.
É
D'Oxum.
Jaime,
o sábio, sorria, e dizia:
-
Ora senhor me deixe. Quem aguenta com esse povo que só faz arquear a
sobrancelha e o mundo treme todo?
No
santuário, sua casa, animava Cleidiana:
-
Tome mais um cafezinho, Iaiá.
E
alertava:
-
Tenha medo desse povo, minha senhora, que é quieto, mas de pé ligeiro - e ria
gostosamente, feliz por ver a pupila se acercando do candomblé, ou o candomblé
dela...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Maria Celeste Pires Silva: Como gostaria
de uma dia ir, ao terreiro, de uma sacerdotisa de “verdade “
Cleidiana Ramos: Eita...essa
história bate forte. Obrigada, seo Emiliano José
Ruy Espinheira Filho: Grande,
Emiliano José! Um abração
Emiliano José: Grande Ruy,
você iluminou meus primeiros passos no jornalismo, nunca esqueço. Copy, na TB.
Fomos colegas na Facom, depois, professores. E eu, no gargarejo, admirando sua
notável poesia e seu romanceiro. Abraço forte, querido amigo.
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Emiliano José
7
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
as visões se clareando,
uma adoxu, o Dia
do Nome,
a presença de
Jaime Sodré,
agora iaô de Mãe
Valnizia de Ayrá.
As
visões se clareando.
Até
que um dia acordou.
Final
de 2009.
Cleidiana
aporta ali, quase em frente à subestação da Coelba, na rua Cardeal da Silva,
Federação.
Apartamento
de Jaime Sodré.
Não
faltaram as saudações, nem o café, nem o abraço.
Dele
e de Lúcia.
-
O que é que Iaiá me traz de bom?
Ela,
diante da imensa autoridade do oráculo, começa devagar.
-
Estive ontem com Mãe Valnizia...
Ele,
agora sério, assuntando:
- Sim,
e...
-
Você sabe: não é comum dizer isso a ninguém, mas pra você... - ela começou
tímida.
-
Ora, Iaiá, e nós temos segredos?
-
Você é uma das raras pessoas a saber isso: vou ser recolhida para ser
iniciada Cleidiana disse, emocionada
diante do mestre.
E
completou:
-
E sou uma adoxu - entro em transe.
Aí,
Jaime não se aguentou: riu gostosamente, e do alto de sua sabedoria, brincou:
-
Me conte é uma novidade.
Ela
circulava havia três anos pelo Terreiro do Cobre, a repórter do candomblé, todo
mundo a chamava assim, não fora escolhida para ekede como muita gente apostava,
andava muito doente nos últimos meses, e de repente, adoxu.
As
visões se clareando.
E
chegou o "Dia do Nome".
A
comunidade do Terreiro é apresentada às novas iaôs.
Nesse
dia, num determinado momento da cerimônia, a iaô em transe, com o santo
incorporado, grita o seu nome - é o santo a gritar o seu nome sagrado.
Ela
não sabe o nome dela, gritou o nome quando em transe, mas não sabe, e no
Terreiro do Cobre não é comum usar no dia a dia o nome gritado pelo santo.
Algumas
nações, como os iniciados em terreiro Angola, costumam fazê-lo.
E
lá, nesse dia especial, estava Jaime Sodré - cumpriu a promessa.
Terno
branco, conta atravessada no peito - os preceitos respeitados.
Era
ogã das antigas, mantinha a tradição, e sobretudo não iria abandonar a Iaiá
dele.
Não
pediu a Mãe Valnizia para cantar e tocar na cerimônia, como ela esperava.
Cleidiana
perguntou depois por que não, e ele quase tímido:
-
A emoção me deixou sem ação.
Coisa
rara nele, ficar sem ação.
Até
hoje, Cleidiana é tocada por essa lembrança, pela força do carinho, do
amor.
Dali
em diante, iaô do Terreiro do Cobre, iniciada por Mãe Valnizia de Ayrá.
As
visões se clareando.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Que saudade do
meu padrinho, um pai, como é para todos nós os tatas, ogãs....e professor Jaime
sempre foi muito especial....
Jose Jesus Barreto: O santo pegou
Emiliano José: Jose Jesus
Barreto pegou...
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Emiliano José
8
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Jaime Sodré, "presidente
do Conselho do
20", filha dos mistérios,
ibejis, um
defeito de cor, Mãe Té Pereira.
Jaime
Sodré foi consultor de todos os cadernos da Consciência Negra a partir de 2005.
Decidida
a criação do "Conselho dos Cadernos do 20", foi o primeiro convidado.
Não
faltou a uma reunião, e era considerado "o presidente", como
Cleidiana o chamava.
Quando
chegava, redação de "A Tarde" em festa.
Iaiá
tinha de arrancá-lo quase à força das rodas de conversa para iniciar a reunião
ou na saída, para embarcá-lo no retorno à casa.
Era
uma estrela, embora não se quisesse assim, às vezes até excessivamente humilde.
Cleidiana,
além de sua Iaiá, era chamada também de "Cleidi, minha filha".
Há
muita gente ainda considerando-a filha dele.
E
assim pode ser considerada, ao menos quanto ao candomblé: orientou, aconselhou,
foi o guia.
Fez
o necessário para acontecer o escrito nas estrelas, o desenhado pelo mundo
sagrado do candomblé - sobre isso, mistérios, Cleidiana jamais foi cartesiana.
E
por isso, por não sê-lo, conta outro encontro, mágico também.
Com
Mãe Té Pereira, irmã consanguínea de Mãe Valnizia Bianchi.
Filha
de Oxum, Iakekerê do Terreiro do Cobre, segunda na hierarquia da Casa.
Presidia
ritos quando da ausência de Mãe Valnizia, e podia também responder sobre as
tantas questões de que o terreiro era demandado.
Cleidiana
estava às voltas com reportagem sobre o culto aos gêmeos.
No
candomblé de tradição Ketu, as divindades gêmeas, filhos de Xangô, são os
ibejis.
Deparei
com eles no belo livro de Ana Maria Gonçalves - "Um defeito de cor".
Quem puder, leia.
O
Terreiro do Cobre faz festa belíssima dedicada a eles.
Em
uma corda, cuja extensão atravessa todo o barracão, frutas e doces são
pendurados.
Após
as filhas de santo cantarem e dançarem para os orixás e para os ibejis, Mãe
Valnizia faz um divertido jogo com o público, preferencialmente com as
crianças: elas aguardam o sinal dela, e dado, se movimentam, pulam, gritam,
para tentar arrancar os doces e frutas da corda, vira um furdunço, saudável
balbúrdia...
Mãe Valnizia estava viajando quando ela
apareceu com a pauta sobre os gêmeos.
Mãe
Té Pereira foi indicada para falar do assunto.
Estava
no terreiro da Casa Branca - foi lá a primeira conversa, o primeiro encontro...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Antonio Do Carmo: Axé, Emiliano!
Cleidiana Ramos: Ah....outra
Grande e querida. Mãe Té de Oxum.
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(Cleidiana Ramos é cidadã de Salvador, em 2006, por iniciativa do atual governador e ex-vereador Rui Costa)
Emiliano José
9
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Casa Branca,
primeiro
terreiro baiano de Ketu,
nascido em 1789,
local da primeira
conversa com Mãe
Té,
quem sabe filha
das águas.
A
primeira conversa com Mãe Té Pereira foi na Casa Branca.
As
duas, Mãe Valnizia e Mãe Té, filhas da casa.
Acontece
que na época da iniciação delas, o Terreiro do Cobre estava fechado.
A
sagração deu-se então no primeiro terreiro baiano de Ketu - Renato da Silveira,
em seu magnífico "O candomblé da Barroquinha", grafa Keto.
Nasceu
na Barroquinha.
A
fundação deve ter se dado entre 1788 e 1830, na avaliação de Silveira, meu
companheiro de prisão na primeira metade dos anos 1970.
Era
bom de bola.
Antropólogo,
artista plástico, texto de primeira, homem de sete instrumentos.
Renatinho,
a gente o chamava assim na prisão, crava o ano de 1789 como ano de fundação -
para quem gosta de simbolismos, o ano da Revolução Francesa.
Falo
um pouco mais da Casa Branca por sua importância histórica, por me lembrar de
Waldir Pires desapropriando o posto de gasolina em frente, por Sinha, por
Ordep, por Isaura, pelo carinho com que sou recebido ali.
Axé.
Volto
à conversa de Cleidiana e Mãe Té no solo sagrado da Casa Branca.
O
ponto de partida era o culto aos gêmeos, a pauta.
Hipnotizada
pela beleza, pela simpatia, pela suavidade de Mãe Té - foi essa a reação de
Cleidiana.
A
interlocutora é deixada inteiramente à vontade.
À
saída, ainda embevecida com tanto carinho e sabedoria, Cleidiana é instada a
esperar um minuto.
Mãe
Té entrou para os aposentos do terreiro, e logo voltou:
-
Essa conta é de Ibeji. É uma raridade. Pouca gente tem.
Carinhosaamente,
colocou-a no pescoço de Cleidiana.
Sem
saber por que, ela sentiu uma emoção intensa.
Agradeceu
muito, comovida.
Mãe
Té:
-
Você é de que santo?
-
Não sei. Ninguém nunca diz. Falam que só jogando os búzios - disse.
Do
alto de sua autoridade, Mãe Té respondeu
-
Sim - fez breve pausa, para concluir:
-
Só jogando mesmo. Mas você tem uma cara
de gente de água.
E
as duas sorriram, alegremente.
Selava-se
ali uma amizade eterna.
Alguns
meses depois, recebe um recado de Mãe Té: ia fazer uma de suas obrigações na
Casa Branca...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
10
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
não se recusa convite
de Té de Oxum,
menina dançando,
Filhos de
Ghandi, Badauê, Ilê Aiyê,
Malê de Balê, a
festa mágica,
a partida
precoce de Mãe Té.
Cleidiana
recebe um recado de Mãe Té Pereira.
Ia
cumprir uma de suas obrigações na Casa Branca.
Queria
a presença dela.
Lembra
até da data: um 20 de novembro.
Encontrou
Jaime Sodré no Dique do Tororó em uma atividade pela manhã.
Falou
do convite.
Foi
sincera:
-
Estou tão cansada, mas tão cansada, que não devo ir.
Jaime
franziu o cenho, e recomendou:
-
Iaiá, Iaiá, não se rejeita um convite de Té de Oxum.
Desprezou
o cansaço.
Palavra
de mestre não se despreza.
Valeu
a pena.
Primeira
vez a deparar e a se deslumbrar com uma festa de candomblé.
Encantada.
Ijexá,
o toque de Oxum, sempre a tocou.
Menina
menina, uns sete anos, e Nazinha comprou um disco de Clara Nunes.
Vocês
sabem, em Macondo tem de tudo.
Havia
Silvio, um vendedor de discos a passar de porta em porta, gritando sua
mercadoria - foi nas mãos dele, na Iaçu milagreira de então, a compra de
Nazinha.
Cleidiana
maravilhada.
Teve
certeza: o cabelo dela era igualzinho ao de Clara Nunes.
E
a música de sua preferência era Ijexá:
Filhos
de Ghandi, Badauê,
Ilê
Aiyê, Malê de Balê, otum obá...
Repetia,
repetia, a ponto de Nazinha se retar:
-
Vai empenar o disco, menina.
Vinha
de longe seu encanto ijexá.
E
aquela festa na Casa Branca, mágica, fazia conexão com seu passado, suas
raízes.
Anos
depois, Mãe Té, surpresa e alegre, com um sorrisão lindo no rosto, recebe
Cleidiana, feliz por vê-la a caráter, vestida de abian - a camisa, a saia, o
pano da costa, o ojá a atravessar o peito.
Partiu
cedo para o Orum, 2007.
Cleidiana
recorda de sua doçura, de sua alegria - e também da dureza dela, quando
necessária.
-
Minha sereia - chamava-a assim.
Sente
até hoje a sua falta, e muito a ausência dela durante seu processo iniciático.
Consola-se.
Na
tradição do candomblé, há uma crença sólida: um iniciado não morre.
Mãe
Té, presente.
Sempre.
Outro
encontro arrebatador foi com Mãe Valnizia de Ayirá...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Lindy Saint: Quanto lembrei
de mãe Té hoje e a festa de Exu que muito gostava. Era aquecimento pra Xangô
que seria semana que vem... triste pandemia arrebatadora... minha filha
Cleidiana, tu é cria de Terina de Oxum também sempre!!!
Cleidiana Ramos: Lindy Saint a
bênção, mãe.
Lindy Saint: Cleidiana
Ramos Meu pai abençoe sempre minha filha, bênção...
Cleidiana Ramos: Lindy Saint
axé, mãe. Oxum lhe abençõe.
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Emiliano José
11
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Neta de Flaviana Bianchi,
Mãe menina,
terreiros do Engenho Velho
da Federação, a
reconstrução do
Terreiro do
Cobre, olhar mapeia a alma.
Da
vida, Cleidiana não tem do que reclamar.
Deparou
com muita gente especial.
Gente
pra nunca mais esquecer.
A
acompanhá-la sempre.
Isso,
a vida lhe deu, e lhe dá.
Pra
que mais?
Havia
falado uma vez com Mãe Valnizia Bianchi, por telefone.
Não
podia dar a entrevista, e indicou Mãe Té.
Em
2005, é a lembrança de data presente na memória, é convidada para uma mesa
sobre mídia e candomblé, presentes os muitos terreiros do Engenho Velho da
Federação.
O
Terreiro do Cobre, anfitrião.
Cleidiana
levou um susto quando ela entrou: era muito, muito jovem.
É
só fazer conta: atualmente está com 61 anos.
Assumiu
o Cobre no início da década de 1990.
Mãe
Val, chamada assim pela maioria, é bisneta de Flaviana Bianchi, "a
grande", amiga de Édison Carneiro e Jorge Amado.
Carneiro,
em 1938, fez questão de levar a antropóloga Ruth Landes para conhecê-la, já bem
doente.
Ruth
Landes se impressionou muito com ela, a ponto de transformar o encontro em um
capítulo do seu "Cidade das Mulheres".
Iniciada
na Casa Branca, ela foi sendo levada por suas "mais velhas" a visitar
constantemente o terreiro "da sua família", o Cobre.
Fechado
desde os tempos de Maria Eugênia, sucessora de Iyá Flaviana, o terreiro ficara
sob os cuidados de uma filha de santo cuidadosa.
Os
quartos dos santos foram preservados.
Quando
se deu conta, novinha novinha, início da década de 1990, Mãe Valnizia já
assumira a missão de reerguer o Cobre, cujos espaços estavam ocupados por casas
e por uma oficina.
Batalha
dada, árdua, e vitoriosa.
Não
obstante com apenas 1% de sua área original, Mãe Valnizia restituiu a alegria e
o vigor emanados de cada trecho do terreiro.
Xangô,
orixá do fogo e da justiça, é o patrono do Cobre.
Mãe
Valnizia de Ayrá é de uma inteligência rara.
Cleidiana
dá testemunho:
-
Nenhuma das conversas que tenho com ela terminam sem me dar muito o que pensar.
Mais reservada que Mãe Té, fala pouco nos primeiros contatos. Tem um olhar que
parece mapear a nossa alma. Não sei se ela sabe disso, mas é dessa forma que a
vejo.
O
primeiro encontro a impressionou muito.
Teve
um sonho, cheio de símbolos.
E
muitos recados.
E
logo vieram outros, outros, e Cleidiana então entrou na corrida para conseguir
o jogo com ela.
Não,
não era fácil conseguir agenda.
Viajava
muito.
Mas,
Cleidiana estava decidida: tinha de ser com ela...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Mais um
encontro que tive a sorte de ter..encontrei a mão que me conectou com a minha
ancestralidade..Mãe Valnizia.
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Emiliano José
12
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
uma desbravadora de almas,
conselho para
procurar uma religião,
Deus mandando
recados, candomblé não força
portas, ela
chegando em casa, conexão com o sagrado
Só com ela.
Com
ninguém mais Cleidiana queria jogo.
Búzios,
esse jogo, não era para qualquer uma.
Mãe
Valnizia de Ayrá abriu a agenda.
No
primeiro jogo, Cleidiana, olhos e ouvidos atentos, ouviu não só as coisas mais
urgentes, como outras, bem mais profundas.
Como
precisava daquelas palavras.
Como
ela sabia ler a alma.
Não,
ela não era como qualquer religiosa.
As
religiões, a maioria, carregam a prática do convencimento, da atração de novos
fiéis.
Nada:
Mãe Valnizia, um poço de serenidade, de sabedoria, seus ancestrais guiando-a,
não agia assim.
Não
tinha pressa.
Olhava
pra Cleidiana: à sua frente, uma menina das águas.
Menina
atormentada, buscando paz de espírito.
Por
que forçar a barra?
Foi
ao ponto:
-
Você deve procurar uma religião.
-
A senhora acha? - perguntou.
-
Sem dúvida.
Rapidamente,
se adiantou:
-
Agora, não estou dizendo que deva procurar o candomblé. Pode ser qualquer uma.
Está necessitando de uma religião.
Os
olhos, arregalados.
Conselho
forte, desses de assustar.
E
deslumbrar.
Explicou
mais:
-
Deus está encontrando uma forma de lhe mandar recados em uma linguagem que
talvez agora você comece a compreender.
Ela,
absorvendo cada uma daquelas palavras, perplexa diante de tanta perspicácia,
tanto conhecimento do espírito humano.
E
nada de reclamar hegemonia de seus deuses:
-
Deus é um só, minha filha. A gente é que lhe dá nomes diferentes.
Ela
passou a cuidar das coisas de Cleidiana, e ninguém ouse perguntar o que é isso
- só as duas sabem, ninguém mais no mundo.
E
permanecia firme em suas convicções: não fazia qualquer esforço para Cleidiana
tornar-se sua filha de santo.
Ela,
Cleidiana é quem insistia.
Desde
o primeiro encontro, tinha segurança de ter "chegado em casa", ter
estabelecido um laço forte, uma conexão muito forte com o sagrado.
Só
após alguns meses...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
13
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
os caminhos para ser
uma abian,
Cleidiana do Cobre,
doença
tomando-a, corpo e
espírito, a mão
milagrosa de Mãe Valnizia.
Só
após alguns meses, depois de várias tentativas, voltou a se encontrar com Mãe
Valnizia.
Concedeu
uma entrevista.
Outra
vez sobre o culto dos ibejis, nova reportagem.
A
menina das águas ia se aproximando, desejosa.
Já
estava fazendo os ritos necessários para se tornar abian do Terreiro do Cobre.
É
um primeiro passo.
Diria,
e aqui é senso comum, a pessoa está dizendo, ao se tornar uma abian, de sua predisposição
para o candomblé.
Não
participa dos preceitos internos.
Só
das festas públicas.
É
uma fase muito importante para o aprendizado, para ver e ouvir, sempre
orientada por uma pessoa mais velha.
O
candomblé tem muito respeito pelos mais velhos, reverência.
Quando
se tornou uma abian do terreiro, Mãe Valnizia chamou-a para conversar.
Foi
direta:
-
Minha filha, você está segura do que quer?
-
Estou - Cleidiana respondeu.
Bem
humorada, mas falando sério, alertou-a carinhosamente:]
-
Se seguir esse caminho, a partir de hoje será a "Cleidiana do Cobre".
Não mais "Cleidiana de A Tarde".
E
foi assim.
Em
2008, começou a adoecer, gravemente.
Passou
15 dias acordando sobressaltada em meio a dores fortíssimas na barriga.
Um
diagnóstico tardio de adenomiose, um tipo de endometriose profunda, tornou-a
refém de medicamentos fortíssimos.
Antiinflamatórios
potentes atacavam a doença, amenizavam a dor, mas causavam irritação permanente
no estômago.
Quatro
gastrites.
E
uma úlcera.
Foi
atrás de uma especialista.
Não
podia seguir tomando aqueles remédios.
A
médica fez de tudo, foi pra lá, veio pra cá, mas chegou o momento de ela
própria jogar a toalha: não sabia mais o que fazer.
Angustiada,
Cleidiana sepultou por algum tempo o cartesianismo, e foi atrás do mundo espiritual.
As
filhas de Oxum, é dito, têm sensibilidade a problemas com órgãos reprodutores
quando as energias estão desequilibradas.
Verdade
ou não, melhor consultar quem sabe.
Mãe
Valnizia acolheu-a de modo generoso, cuidadoso.
Começou
explicando a Cleidiana o que era do corpo e o que era da alma - há de se juntar
as coisas, buscar equilíbrio entre um e outro.
Fez
de pronto um remédio de efeito maravilhoso: conseguiu dormir uma noite inteira
depois de 15 dias sem fazer isso. Prescreveu um tratamento, seguido a rigor por
Cleidiana.
Quando
voltou para a revisão, a médica especialista, atarantada, queria saber a razão
do milagre, como de repente estava tão bem...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Assim mesmo...ele
parece testemunha ocular, gente. 😊
Lourdinha Brito: Eu creio nisso
: há de se buscar um equilíbrio entre o q é do corpo e o q é do espírito. Mas
as vezes é difícil saber onde começa os problemas relacionados a um e a outro.
Isabel Santos: Há muito mais
a entender do que possamos imaginar. Somos muito mais que estarmos simplesmente
aqui, no Planeta.
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Emiliano José
14
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
segredos religiosos,
iniciação,
agradecimentos
a Oxum, achando
o caminho
de casa, serena
e firme
autoridade, Mãe
Valnizia, Mãe Stella.
A
médica queria porque queria saber como havia melhorado daquela maneira.
-
Não, minha senhora, não posso falar.
A
médica franziu o cenho, perplexa.
Cleidiana
emendou:]
-
Não posso porque é parte do segredo de minha prática religiosa.
A
médica assentiu - que fazer?
A
doença e o tratamento levado a cabo por Mãe Valnizia a convenceram: era hora de
começar a iniciação.
Sem
mais demora.
Pensou
fosse assim rápido?
Nada.
Conversas
e mais conversas com Mãe Valnizia.
Orientações
e mais orientações.
-
Sabe as responsabilidades que irá assumir? - ela ia batendo na tecla, a
demonstrar o quanto era sério o passo a ser dado.
Uma
década passada de sua iniciação, e ela não se cansa de agradecer a Oxum por ter
permitido encontrar o caminho de casa.
Ter
se encontrado.
Sempre
vem à memória a lembrança daquela noite enluarada em Cachoeira caminhando pelas ruas de paralelepípedos
embalada pelo rumorejar das águas do Paraguaçu sempre as águas a acompanhá-la
onde decidiu não ser freira o espírito atormentado sem saber o rumo a dar e
agora Oxum lhe mostrava um caminho definitivo.
Era
bom, muito bom, sentir em Mãe Valnizia, a autoridade justa.
Ser
sua filha de santo nunca lhe conferiu qualquer privilégio.
É
religiosa extremamente criteriosa, exigente consigo mesma.
Lembra
o dia: ao lado de Meire Oliveira, filha de Oxaguiã e ekede de Ayrá, passaram as
duas mais de uma hora conversando com Mãe Valnizia tentando convencê-la assumir
a coluna no espaço antes reservado a Mãe Stella em "A Tarde". Depois
de muita relutância, aceitou.
Mãe
Stella comemorou quando soube o nome da substituta.
Resolvera
parar - revelava cansaço.
Respeitava
Mãe Valnizia.
Jovem
fosse, e era, tinha muita liderança e comprometimento, seriedade com as
questões religiosas.
Já
com livros publicados, uma série de artigos em "A Tarde", conserva
estilo próximo da etnografia.
Bom
vê-la contar como foi nascer e crescer no Engenho Velho da Federação, bairro a
concentrar terreiros de variadas nações, verdadeiro quilombo urbano.
O
fato de em tempos passados, ao menos até a década de 1970, ser território de
fontes, riachos e matas, explica porque atraiu tantas casas religiosas do povo
de santo.
É
uma força, essa moça, força da natureza, da humanidade, essa Mãe Valnizia de
Ayrá.
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Ebomi Cidália - Foto Rejane Carneiro)
Emiliano José
15
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Jaime Sodré e suas
estrepolias, um
presente, entra em
beco sai em
beco, frente a frente
com Ebomi
Cidália Soledade, filha de Iroko.
Jaime
Sodré tomou do telefone e ligou pra Cleidiana:
-
Espero você aqui em casa. Agora.
-
Posso saber a razão? - ela indagou.
-
Tenho um presente de fim de ano.
-
Não, não precisa - reagiu Cleidiana, educadamente.
-
Ora, Iaiá, deixe de conversa, a decisão é minha, o presente é meu. Se mexa,
venha.
Bem,
como recusar?
Como
não ir?
Não
pelo presente, mas pela origem.
Mestre,
quando convoca, não há discussão.
Chega
na casa dele um pouco curiosa.
Bem
ao estilo, ele aumenta ainda mais a expectativa:
-
O presente não está aqui. Vamos sair.
Final
de 2006.
Cleidiana
entrou no carro, ele dirigindo, Lúcia, sua mulher, junto.
Chegados
ao final do ponto de ônibus de Federação, num pequeno largo, parou o carro,
desceu e avisou:
-
Daqui em diante, seguimos a pé.
-
Que presente será? - perguntava-se Cleidiana.
Bem,
restava caminhar.
Jaime
caminhava devagar, nada de correria.
Parecia
escutar Almir Sater - ando devagar porque já tive pressa.
Ia
conversando, sem nada dizer do presente, Cleidiana ouvindo, atenta.
Afinal,
fosse o que fosse, seria bem-vindo.
Há
o velho ditado: a cavalo dado não se olha os dentes.
Neste
caso, nem se aplicava porque dele só se podia esperar coisa boa.
A
descida ali parecia um labirinto.
Entra
em beco sai em beco.
Passaram
pela rua onde fica a entrada principal do Terreiro Oxumaré.
Seguiram
em frente.
Entraram
numa outra rua, enladeirada - e onde ali não é ladeira?
Desceram
- e ali é um sobe desce sem parar.
Jaime
com um sorriso de canto de lábio, quase se divertindo.
Viraram
à esquerda, e Jaime estancou em frente a uma casa gradeada.
Antes
de entrar, antes de bater palmas e gritar ô de casa, ele dirigiu-se a
Cleidiana:
-
Aqui está o seu presente: você será apresentada à Ebomi Cidália Soledad, filha
de Iroko.
Respirou
fundo, feliz.
Entrou,
atrás de Jaime e de Lúcia.
Deparou
com uma senhora negra, forte, robusta.
Majestosa
na cadeira protegida por almofadas para dar conforto ao corpo combalido,
abalado por uma trombose.
Como
da boa tradição, esperou Jaime pedir a bênção, depois Lúcia, e só depois o fez.
Era
ainda uma abian.
Jaime
apresentou-a:
-
Cleidiana é jornalista de "A Tarde".
Amor
à primeira vista...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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Emiliano José
16
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
a Enciclopédia do
Candomblé, filha
de Iroko, iniciada
por Mãe
Menininha, recusa a nomes escravocratas.
Que
presente, aquele.
Jaime,
o mestre, sabia mimosear a quem amava.
E
ele amava a filha.
Tinha
Cleidiana como filha.
A
ele, como recompensa, bastavam os olhos incendiados dela, de tanta alegria por
estar ali aos pés de Ebomi Cidália.
Não
fosse quem era, a enciclopédia do Candomblé. bastaria a condição de
extraordinária contadora de histórias.
Provável
uns e outros façam muxoxo, desdenhem dessa arte.
Das
mais difíceis, saibam.
É
preciso talento, sabedoria.
Mais
ainda no candomblé, onde os mitos transitam pelos séculos pela voz dos mais
velhos, pela sabedoria da ancestralidade.
Ela
sabia dos mitos.
E
sabia das antigas casas, os terreiros de antanho.
Filha
de Iroko, o orixá.
Consagrada
a Iroko aos sete anos por Mãe Menininha do Gantois.
Ebomi
Cidália se referia sempre ao Gantois como Ilê Axé Yiá Omi Yiamassé, o nome
sagrado do terreiro:
-
Eu não sou filha de terreiro com nome de escravocrata.
Era
do rigor, da tradição da resistência.
Gantois
é sobrenome do belga de prenome Edouard.
Conta-se
o tal tivesse vivido do tráfico de escravos.
O
terreno onde foi erguido fora adquirido do belga, dono de uma fazenda no local.
Muita
gente então se referia ao "terreiro que fica na fazenda de seo
Gantois" e o nome foi ficando ficando ficou.
Aos
poucos, foi conhecendo a história da enciclopédia.
Naquele
dia, e depois.
A
mãe de Ebomi ia sempre ao Gantois.
Ao
descobrir-se grávida pela segunda vez, já cuidando de uma filha, sentiu-se
incomodada nos seus 40 anos.
Mãe
Menininha disse tenha calma vou consultar os búzios e os búzios revelaram
devesse se despreocupar pois quem estava a caminho era uma filha de Iroko tudo
ia correr bem.
Desde
o nascimento, houve o acerto: Cidália, completados os sete anos, seria
iniciada.
Até
então, nos candomblés baianos, Iroko não era considerado um orixá do povo nagô,
também chamado Ketu.
Chamado
Loko, era santo de nação Jeje, um vodun...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Ah...quem.teve
o privilégio de conheci Ebomi Cidália vai entender a grandiosidade desse
presente.
Vânia Carla Almeida: Que vivências
maravilhosas. Ainda bem que estamos podendo compartilhar.
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Emiliano José
17
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
Loko Iroko, um pega
pra capar, o
barco seguiu, Nagô
quer paz, não
quer guerra, nada de tocar terror.
Dizia:
Iroko não era considerado um orixá do povo nagô, também chamado Ketu.
Chamado
Loko era santo da nação Jeje, um vodun.
Correu
a história: Mãe Menininha botaria um barco com um filha de Iroko - o nome em
tradição Ketu.
Botar
um barco - nome dado a um grupo de iniciandas.
Quando
houve o anúncio, um pega pra capar.
Um
fuzuê.
O
mundo do candomblé pegou fogo.
Tudo
por conta da menina, a Ebomi Cidália, com seus verdes sete anos.
Mãe
Menininha sabia das coisas, e tinha autoridade.
Tudo
correu bem, apesar do ranger de dentes.
Alguns
dias após a iniciação, Mãe Menininha chamou a menina, agora iaô, e ensinou-lhe
uma cantiga em iorubá, a dizer mais ou menos isso:
"Nagô
quer paz. Nagô não quer guerra".
Foi
ela conseguir repetir a cantiga, e Mãe Menininha a levou para tomar a bênção em
vários terreiros, inclusive Jeje, e aí pedia a ela para cantar.
Era
de paz.
Cleidiana
foi conhecendo Ebomi Cidália, penetrando seu mundo.
Tanto,
tanto a ponto de uma entrevista feita por ela com a religiosa tornar-se a
introdução do livro "Ebomi Cidália, a enciclopédia do Candomblé",
organizado e publicado por Jaime Sodré, Cleidiana co-autora.
Foi
admitida: passou a ser parte da "corte de Ebomi Cidália", denominação
de Jaime Sodré.
Ebomi
Cidália foi se afeiçoando de Cleidiana.
Ficou
feliz quando a soube do Terreiro do Cobre.
Havia
morado no Engenho Velho da Federação.
Conhecera
dona Moura, mãe biológica de Mãe Valnizia, a quem viu bebê.
Chegou
a ficar de mal com Mãe Té:
-
Imagine, Eu, mulher adulta, casada, de mal com uma menina. Mas é porque ela era
terrível. Bagunçava tudo na fonte no final da tarde, quando ia buscar água.
Tocava o terror.
Tocar
terror era expressão do gosto dela quando queria dar ênfase a uma pessoa dada a
confusão.
Quando
Mãe Té fez santo e lhe tomou a bênção, tudo passou a ser carinho e amizade.
Numa
das visitas a ela, Jaime Sodré, sempre junto, depois de algum tempo de
conversa, interveio, agoniado:
-
Ebomi Cidália, hoje não vamos demorar. Temos compromissos.
Era
por volta de 14 horas.
A
religiosa, mãos no colo, olhar suave,
recostada confortavelmente na poltrona...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita. Emiliano
José não perdoa. Arranca as coisas de mansinho e conta com uma precisão e
beleza ..
Jose Jesus Barreto: Beleza
emanando das lembranças de Ebomi Cidália, criatura iluminada. Belo.
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Emiliano José
18
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
tempo no candomblé é diferente, no aniversário de Ebomi Cidália vinha gente de
todo lugar, Paulinho da Viola, tremendo pagode, maestro Reginaldo de Xangô e
Tata Anselmo de Dandalunda.
Na
sala, os três.
Cleidiana
embevecida com a prosa de Ebomi Cidália.
Jaime
Sodré, atento.
Mas,
depois de algum tempo, demonstrou agonia, e ousou dizer de compromissos, tempo
curto, "precisamos ir embora".
Batia
duas horas da tarde.
Ebomi
Cidália era a calma em pessoa.
Gostava
de chamá-lo professor.
Serenamente,
lidou com a pressa dele:
-
Professor, o senhor, como bem sei, é homem de candomblé.
Jaime,
assuntando - afinal era autoridade falando.
Ela
prosseguiu:
-
Sabe, tenho certeza que sabe: nosso tempo é contado de forma diferente.
Jaime
começou a entender: vinha alguma lição, bom abrir os ouvidos.
-
Aqui em casa contamos o tempo como gente do candomblé, e é assim porque eu sou
uma mulher de candomblé como o senhor também é - continuou a Ebomi Cidália.
Aprendera
cedo a respeitar os mais velhos, Jaime entendeu aonde ela queria chegar:
-
E o senhor, professor, sabe que essa menina logo também será do candomblé.
Ele
sabia, ah, como sabia.
A
Ebomi concluiu:
-
Logo, a menina vai ficar aqui o tempo que for necessário.
Saíram
de lá às 18 horas.
Durou
o tempo necessário - tempo do candomblé.
Ela
era uma espécie de entidade.
O
aniversário dela, um acontecimento.
E
tinha mais: Jaime Sodré e Tata Anselmo de Dandalunda, do Terreiro Mokambo, do
Trobogy, também fazem aniversário nessa data.
Era
gente de todo lugar porque a comemoração era conjunta.
Variava:
num ano sarapatel, noutro feijoada.
Num
deles, olhava pro lado, quem estava lá?
Paulinho
da Viola.
Nesse
mesmo dia, chegou um presente pra ela: maestro Reginaldo de Xangô com sua
orquestra.
E
então, o samba: mestre Paulinho da Viola com a orquestra de Reginaldo de Xangô.
Parecia
domingo lá na casa do Vavá aquele tremendo pagode que você não pode imaginar.
Que
tarde, que noite, tempo do candomblé, que festa.
Tá
bom, ou quer mais?
Quando
se aproximavam os 70 anos de iniciação de Ebomi Cidália, Jaime Sodré parecia em
transe, tal a intensidade na direção dos preparativos da festa, que ele queria
fosse à altura da importância dela.
Corre
pra lá, corre pra cá, almoços de planejamento...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Que saudade
desses dois grandes encantados: Ebomi Cidália e Jaime Sodré...
Joaquim Lisboa Neto: Paulinho da
Viola? Queria estar lá!
Meu
coração leviano iria saltitar
Jose Jesus Barreto: Tempo é Orixá
que não se manifesta. Simplesmente é, pleno, absoluto, imensurável.
Adilson Borges: "tempo, a
mais persistente das ilusões"
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Emiliano José
19
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
uma entrevista,
uma desavisada,
os mistérios do
transe,
as lições de
Ebomi Cidália,
na água, no fogo
e nas pessoas.
E
para os 70 anos de iniciação de Ebomi Cidália, organizou-se coletiva de
imprensa.
Não
assim, a Migué.
Não.
Jornalistas
selecionados a dedo: Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.
E
Cleidiana, claro.
Terreiro
Oxumarê.
Tudo
registrado em vídeo pela fotógrafa e cinegrafista Lindiwe Aguiar.
Duas
sessões de entrevistas.
Na
segunda, presença de representantes de vários terreiros, muita gente querendo
reverenciar Ebomi Cidália.
Esse
material foi a base do livro "Ebomi Cidália, a enciclopédia do
Candomblé", organizado por Jaime Sodré e Cleidiana.
Pena
tenha demorado pra vir à luz: lançado em 11 de abril de 2014.
A
homenageada morrera dois anos antes, em 20 de março de 2012.
Ainda
viva, acompanhou a chegada de Cleidiana à condição de iaô do Cobre.
Quando
saiu da cerimônia de nome do santo de Cleidiana, andando ao lado de Jaime
Sodré, chamou-o para perto e baixinho disse:
-
Veja só, Jaime. Nossa menina está em boas mãos.
Dona
de um raciocínio rápido como o raio, sabia temperar tudo com amor, mesmo quando
repreendia, quando defendia sua religião.
Jornalista,
não todos, é bicho meio desavisado, pensa ser dono da verdade, e às vezes cai
do cavalo.
Um
início de tarde, almoço num restaurante, comemoração do aniversário de santo
dela.
Uma
jornalista convidada, não, não peçam nome, muito da abusada, sem um pingo de
tato, salto alto, entre uma garfada e outra de boa comida, atreveu-se:
-
Ebomi Cidália, não acredito que as pessoas entrem em transe. Considero aquilo
fingimento.
Houve
um minuto de silêncio, e de constrangimento, vergonha alheia.
A
religiosa nem se abalou, serena e firmemente, começou a falar:
-
Minha filha, eu estou nisso há 70 anos,
você acha pouco?
-
Não - disse a jornalista.
-
Botou a mão para trás, para mim é santo e sabe por quê?
A
jornalista já incomodada, meio na casa do sem jeito, esperando:
-
Se aparecer aí na sua frente, agora, um homem de mais de dois metros, forte,
preto, bem retinto, e lhe disser em iorubá, "Eu sou Ogum", você vai
aguentar?
Silêncio
ensurdecedor.
-
Não, você não iria aguentar, minha filha. Cairia durinha. Isso porque a cabeça
da gente não tem estrutura para fazer a gente ouvir e ver determinadas coisas.
Santo de candomblé é uma delas. O olho não aguenta, não suporta. Os ouvidos,
também não. É por isso que eles vêm assim: na água, no fogo e nas pessoas.
E
sorriu, um sorriso quase abraço, suave.
O
almoço seguiu.
Mais
leve.
Não
sei se para a jornalista...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIO
Cleidiana Ramos: Ebomi Cidália,
uma das figuras da era de ouro do candomblé baiano.
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Emiliano José
20
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
envolvida em memórias,
os músicos
poliglotas do candomblé,
uma dádiva
chamada Cidália, o respeito aos
mais velhos, a
reverência aos religiosos mais velhos dos terreiros.
Ela
se pega em memórias.
Na
amizade profunda a unir Jaime Sodré e Ebomi Cidália.
Os
dois, proseando sobre cantigas.
Ele,
besta nem nada, xicarongama dos bons, acostumado a bater pra chamar os deuses à
terra, músico afinado, ainda assim, eterno aprendiz, buscava com ela tirar
dúvidas sobre uma outra palavra.
Jaime
era da tradição angola.
Como
sacerdote músico, tinha de saber tocar e cantar nos ritmos de todas as nações,
requeria fosse um poliglota, se me entendem - afinal, as pessoas dos terreiros,
de diversas procedências, se visitam.
Então
se um santo angola chegar em um terreiro Ketu o xicarongama vira o toque e toca
no ritmo do visitante.
É,
há mais segredos entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.
E
Jaime sempre aproveitava qualquer dedo de prosa com Ebomi Cidália para aprender
mais e mais, e aprendia.
E
Cleidiana, sempre ali, bebendo as palavras dos dois.
Aprendeu
muito com a sacerdotisa.
Jaime,
um pai, sabia o significado daquele presente.
Conhecê-la,
conviver com ela, foi uma dádiva, e ela dá o peso devido à palavra dádiva, tão
cara à antropologia.
Com
ela aprendeu, ou a lição quem sabe tenha vindo de Chico Preto e suas ligações
com os encantados, ou dos dois, aprendeu a selecionar o que tornar público
quando conversava, ouvia as mais velhas e mais velhos do candomblé,
especialmente os da alta hierarquia daquele mundo religioso.
Quando
se via embaraçada numa entrevista, não entendia uma coisa ou outra, pedia
licença, desculpas se estivesse sendo inconveniente, e obtendo permissão, às
vezes por um simples olhar ou um sutil movimento da cabeça, então perguntava.
A
reverência, o respeito às autoridades constituídas pelo tempo, tornadas assim
pelo assentimento dos liderados, pela proteção e bênção dos santos, é algo
aprendido por ela ao longo da vida.
Se
ela via valer para outras religiões, por que não no candomblé?
Aquela
jornalista, daquele almoço, não havia entendido nada desse mundo.
Considerasse-o
um mundo mágico, bastava.
Não
o entendesse, tudo bem.
Mas,
desrespeitá-lo, chega pra lá.
Levou
o chega prá lá de Ebomi Cidália, quem sabe tenha aprendido.
Cleidiana
vai viajando no tempo, e na viagem depara com a data de 7 de dezembro de 2015.
Ontem,
e tanto tempo faz.
Nesse
dia, deixava o jornal "A Tarde".
Decisão
amadurecida, mas muito difícil...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita..a saga
caminhando para novos caminhos.
Isadora Browne Ribeiro: A bênção,
Ebomi Cidália, sua bênção, meu mentor, amigo, queridíssimo Jaime Sodré.
Meu
respeito, Cleidiana. 💕💕
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(lançamento de Flor do Dendê - Ludmila Cunha, Cleidiana Ramos, Susana Rebouças e Meire Oliveira, em 1916)
Emiliano José
21
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
simulando diminuir o ritmo,
uma dissertação
e uma tese,
luz e festa,
chegada à vida acadêmica,
professora, Dois
de Julho, Uneb
Coité,
"Flor de Dendê" afro-sertanejo.
Quando
dezembro chegou.
Era
2015, ela inquieta, envolvida na conclusão da tese de Doutorado.
O
trabalho parecia uma alegria só, ao menos pelo nome: Festa de Verão em
Salvador.
Quem
passou por isso, sabe a dor e a alegria
de concluir uma tese.
Há
momentos duros, até vontade de desistir, não é?
A
pesquisa baseou-se em um conjunto de 2670 fotografias - já pensou no tamanho
disso?
Não
quero nem pensar.
Quase
sete mil reportagens, publicadas entre 1912 e 2016 sobre as festas de verão em
Salvador.
Mergulhada
em festas.
Sonhava
com elas: São Nicodemus, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, Santa
Luzia, Bom Jesus dos Navegantes, Reis, Bonfim, Ribeira, São Lázaro, Iemanjá,
Festa da Pituba, Itapuã e até Lavagem de Ondina, única de ambiente privado.
Como
seguir a vida, a rotina diária de um jornal?
Saiu.
Deixou
"A Tarde", depois de muitos anos.
E
se dedicaria então à vida acadêmica, seguindo conselhos de um de seus gurus,
professor Roberto Albergaria.
Por
que não dar um salto adiante, chegar ao magistério no nível superior?
Conselho
dele.
Já
era Mestre, depois de defender a dissertação "O Discurso da Luz",
onde catalogou 1432 fotografias sobre o candomblé no acervo de "A
Tarde", analisou cinquenta delas, esquadrinhou fatos históricos, visitou
30 terreiros, enfronhou-se no mundo religioso afrodescendente.
Atualmente,
é professora visitante no campus XIV da Uneb, em Conceição do Coité.
Soubesse
Cleidiana, vai saber agora, do meu amor por Coité...
Dos
tantos amigos e amigas queridas cultivadas por lá.
O
Sisal, e Coité de modo especial, é região amada por mim.
Hora
dessas, proseamos sobre os mistérios do Sisal.
De
2013 até muito recentemente, atuou na graduação e pós-graduação da Faculdade
Dois de Julho.
Soubesse
Cleidiana de minha relação com o Dois de Julho, com Celso Dourado, com Jaime
Wright, aquele auditório, cenário de encontros memoráveis na luta pela anistia.
Aquelas
paredes têm história.
Anda
dizendo ser necessário diminuir o ritmo, até para manter a saúde.
Não
se decide: segue com rotina de trabalho de dez a 12 horas diárias.
Jornalismo,
cachaça.
Em
2016, 27 de setembro, lança o coletivo de jornalismo independente "Flor de
Dendê".
Lado
a lado com Ludmila Cunha, Meire Oliveira e Susana Rebouças.
Repousa
sobre a aliança afro-sertaneja...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: E a saga se
encaminha para alguns desfechos.
Isabel Santos: Vivenciei
muito essas festas, no seu auge, trabalhando (fazendo cobertura) ou curtindo.
Muita riqueza. Parabéns, Cleidiana Ramos pela escolha do tema para sua tese.
Uma imersão que deve ter sido intensamente maravilhosa, e resultado em algo
ímpar.
-------------------------------------------------
(Reprodução de imagem sobre a luta dos trabalhadores rurais de Iaçu - caderno especial Os Caminhos da Água Grande, jornal A Tarde, em 2004)
Emiliano José
22
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
quando setembro vier,
diversidade
cultural da Bahia, Água Grande
e seus caminhos,
o último encontro com Chico
Preto, triste
partida para o reino dos encantados.
Flor
de Dendê - que nome poético, não?
Pode-se
chamar de plataforma, não?
Ah,
como eu gostaria chamar de revista - aceita não, Cleidiana?
Aliança-afro-sertaneja.
Foi
com essa inspiração que surgiu a ideia desse coletivo de jornalismo
independente.
Quando
a primavera chegar.
Chegou
- 27 de setembro de 2016.
Entre
Búzios e Canudos há muito parentesco, proximidades.
Queriam,
as queridas jornalistas, escapar do reducionismo identitário focado em
Salvador, Cachoeira, Santo Amaro.
Mundo
mundo vasto mundo e eu não me chamo Raimundo.
Essa
Bahia é por demais diversa, cultural, etnicamente, o que seja.
E
justo, ela, principal inspiradora, Cleidiana, nascida em Cachoeira, no
Recôncavo.
Crescida
em Iaçu, sertão brabo.
Vivendo
em Salvador, capital, litoral. ]
Soube
de lançamento do livro de Gustavo Falcón, um de meus mestres no jornalismo, e
Antônio Risério, sobre a diversidade cultural baiana - quero ler.
Por
essa cabeça multicultural, pelo respeito à diversidade baiana, Cleidiana
mergulha nas águas do Paraguaçu novamente, e o percorre pelas trilhas do
jornalismo, a memória revive tudo.
São
16 anos passados.
Recorda-se
do especial "Água Grande", publicado no dia 5 de junho de 2004 em
"A Tarde", um tabloide de 16 páginas, todinho escrito por ela, amor
sem fim.
E
a memória, a guardar o inesquecível, se surpreende dois dias depois, 7 de junho
daquele ano, a visitar Chico Preto, o pai, num hospital em São Sebastião do
Passé.
Foi
conversa animada, nunca havia desânimo em Chico Preto.
Falava
de planos, táticas e estratégias para a eleição municipal, a acontecer dali a
poucos meses.
E,
pai coruja, no fim da conversa, mostra o especial "Água Grande".
Havia
lido linha por linha - como acreditou naquela filha, como adivinhou, como
apostou, como amou, respeitou suas escolhas, e a viu crescer sem parar.
Ao
se despedir, Cleidiana o surpreendeu triste, com lágrimas nos olhos, incomum
nele.
-
Que é isso, pai? Volto amanhã.
Ele
sabia: dia seguinte, partiu.
Precisava
vê-la antes.
Só
isso.
Agora,
podia seguir viagem.
Um
câncer de próstata, escondido de Cleidiana por ele, o levou.
Foi
encontrar-se com os encantados...
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Cleidiana Ramos: Eita, moço,
bateu fundo.
Mônica Bichara: Bateu aqui
também, guenta coração.....Tive o prazer de participar do evento de lançamento
da Flor de Dendê, no Pelourinho, grande iniciativa
----------------------------------------------------
Emiliano José
23
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
poças borbulhantes,
em meio às
águas, navegando pelo
Paraguaçu,
Chapada, Caatinga,
Recôncavo, no
meio do caminho um marimbondo...
Eram poças
borbulhantes.
Seus
pés sentiam as águas da nascente do rio Paraguaçu, esse gigante.
Cleidiana
feliz como pinto no lixo.
Em
águas.
Sua
praia.
Municipio
de Barra da Estiva, a nascente.
O
rio nunca a deixou.
Nasceu
no Paraguaçu - em Cachoeira.
Migrou
para o Paraguaçu - Iaçu.
Parecia
persegui-la.
Ou
o contrário.
Pouca
gente sabe talvez.
É
o rio da integração desse Estado-país chamado Bahia.
São
614 quilômetros de extensão.
Banha
três ecossistemas.
Cerrado,
na Alta Chapada, banhando áreas como Mucugê, Lençóis, e Igatu, povoado de casas
de pedra deixadas pelos garimpeiros em meio às matas, inacreditável cenário
parecendo vir de outras eras.
Caatinga,
no Médio Paraguaçu, onde está o município de Iaçu, Iaçu de Nazinha de Chico
Preto, de Chico Preto de Nazinha, terra do Nego D'Água.
Mata
Atlântica, região de Cachoeira, onde o sertão vira mar, o rio se mistura com
águas oceânicas, compõe os mangues de Maragogipe, e se quiser, olhe, se tiver
olhos pra ver, veja o momento mágico do abraço do mar e do rio em Barra do
Paraguaçu, em Salinas, coisa linda de se ver, cores indecifráveis,
indescritíveis, muitas, a maravilhar espíritos sensíveis.
Cleidiana
foi pisar esse chão, mergulhar nessas águas, andar sertões e chapadas e
recôncavos por 12 dias para produzir o especial "Água Grande" para
"A Tarde".
Ao
seu lado, o talentoso Luciano Andrade, com quem já tive a chance de
compartilhar andanças pelo Oeste da Bahia, fazendo matéria para "Carta
Capital".
Nem
tudo são maravilhas nessas caminhadas.
Há
sustos.
Alguns,
grandes.
Atrás
da nascente, se viram perdidos em meio à mata fechada.
Completamente
perdidos.
E
arrodeados por muros compactos formados por um arbusto chamado unha de gato.
O
guia, vejam só, um ambientalista, se perdeu.
E
daí?
Ela,
Ricardo, o motorista, e Luciano.
Ricardo
foi picado por marimbondos.
Ela,
também.
Cleidiana
é alérgica a picada de insetos...
#MemóriasJornalismoEmiliano
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(Série Memórias, jornal A Tarde, sobre Pau de Colher)
Emiliano José
24
de janeiro 2021
Cleidiana Ramos:
perdida no fim do mundo,
picada de
marimbondo, reeencontro,
nascente,
presente das águas, fim do
romance da Água
Grande,
da filha de
Nazinha e Chico Preto.
Era
da espécie preta, menor que o vermelho, mas uma picada da porra, dolorida que
só o diabo.
Cleidiana
e o motorista picados pelo marimbondo, ali naquele fim de mundo, e perdidos no
fim de mundo, como cachorros caídos da mudança.
Ela,
apavorada, em pânico.
Alergia
pode ser fatal, e ela era alérgica a picada de insetos.
Socorro?
Onde
encontrar?
A
quem apelar?
Não
era ainda do candomblé.
Mulher
negra, ouviu sons vindos da ancestralidade, e chamou pelos encantados do
sertão.
Pelo
caipora.
Se
reina sobre todos os animais, podia aplacar o veneno do marimbondo, não é
verdade?
De
qualquer modo, chamou também por Oxóssi, rei do Ketu, e protetor de todas as
matas.
Misturar,
faz mal não.
Balbuciou
até orações da Igreja Católica.
Mal
não iria fazer.
Os
deuses costumam se entender.
E
foram os deuses provavelmente a ajudar Luciano Andrade.
Ajuda
do além e alguma experiência, e o fotógrafo encontrou as pegadas dos dois do
dia anterior, e os encontrou.
Cleidiana
só foi saber quando todo mundo se reuniu: a nascente não era aquela, mostrada
pelo primeiro guia, onde se perderam.
Foram
em nova expedição, e descobriram: a nascente original estava de fato a poucos
metros.
A
descoberta teve, parece, efeito milagroso: Cleidiana não sentia mais a picada
dos marimbondos.
Ponto
de partida de uma longa aventura, a redundar no tablóide "Água
Grande", ideia bancada por Olenka Machado, presente jamais esquecido.
Ela
seguiria seu caminho.
Do
jornalismo, jamais se afastou.
Continua
arquiteta da memória, contribuindo semanalmente em "A Tarde",
recuperando, iluminando o passado com sua lente poderosa, olhar aguçado,
tornando-nos cada vez mais conscientes do quanto passado e presente nunca se
separam.
Eu
cesso aqui essa breve história dessa querida repórter, antropóloga, moça de
sorriso largo, abraçada pelas águas, amante do Paraguaçu, namorada da lua,
abençoada pelos orixás, filha de Oxum e de Nazinha e de Chico Preto.
Breve
história conduzida por ela e seus encantados, personagem a me envolver
gostosamente por alguns meses, eu querendo às vezes ir prum lado, ela me
puxando e me levando pra outro, não sabendo se era ela, se Nego D'Água, se os
orixás, mas levado, carregado.
A
moça da Água Grande deixa saudades.
#MemóriasJornalismoEmiliano
COMENTÁRIOS
Paulo Renan Santos: Teremos outras
Cleidianas?
Emiliano José: Paulo Renan
Santos Sim. Outras, com suas singularidades. Diversidade.
Paulo Renan Santos: Emiliano,
esperamos ansiosos. Aqui a lavra é farta. Inspiração sempre !!!
Cleidiana Ramos: Gente: não
tenho como descrever esse presentes. Fico então no obrigads mestre Emiliano
José.
Mônica Bichara: Cleidiana
Ramos quanta emoção esse moço provocou, né? Bela história, merecia mesmo ser
contada nessa verdadeira biografia. Já imaginando a emoção q também terei em
rever todo esse material para editar nossas memórias
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