#MemóriasJornalismoEmiliano – Cleidiana de Chico Preto de Nazinha, do Cobre, de Oxum, da Água Grande

(Cleidiana Ramos e o Rio Paraguaçu, uma forte ligação) 
 

Ela quase foi freira, quase foi filósofa...mas o destino tinha escrito outro roteiro nas estrelas. E nessas memórias tão bem rebuscadas pelo mestre Emiliano José, acompanhamos com riqueza de detalhes a saga da nossa protagonista, Cleidiana Ramos, jornalista, professora universitária, filha de Oxum, uma autoridade em matéria de diversidade religiosa, de respeito a todas as crenças e tradições, como tem que ser.

 

Mais completo que os capítulos anteriores dessa série #MemóriasJornalismoEmiliano, este transborda de emoção ao resgatar a influência positiva do pai, Chico Preto, e da mãe, Nazinha, nos caminhos seguidos pela filha. Político, ex-prefeito de Iaçu, gente do povo, querido por muitos. Ver esse herói ser chamado de “porco preto” foi a apresentação de Cleidiana ao racismo. E isso a marcou pelo resto da vida, inesquecível. E por certo também influenciou em sua trajetória. Era preciso lutar contra aquilo, era necessário gritar, de todas as formas possíveis de gritar, por IGUALDADE. E ela segue lutando e gritando.

 

Amigo de Emiliano pela boa política, aquela com P, Chico Preto ganhou vários capítulos dessa história. Prá orgulho e emoção da filha. Tantos detalhes que até para Cleidiana pareceu que o autor de alguma forma espiava os acontecimentos. A alegria dos pais com a desistência da carreira religiosa, com a formatura em jornalismo, com cada conquista profissional ou pessoal, provocou uma cascata de ciscos nos olhos...Guenta coração!

 

Mas as memórias foram mais profundas, viajaram também pela história de Iaçu, Cleidiana nem sonhava em nascer. A presença de comunistas na região em plena ditadura. Um tema caro a Emiliano, ex-preso político que sentiu na pele (na carne, nos ossos, no coração) a violência da repressão. Não podia perder a oportunidade de falar sobre Wladimir Pomar, filho do comunista Pedro Pomar, que seguiu os passos do pai no PCdoB, e desembarcou em Macondo, digo em Iaçu, em 1962, como funcionário da GE, fornecedora da Leste Brasileira. Chegou com mulher, dois filhos e outro “subversivo”, Sebastião da Silveira Carvalho.

 

Estavam em Iaçu quando o golpe aconteceu, “com o Supremo, com tudo” (qualquer semelhança com 2016 não é mera coincidência). Traídos, foram perseguidos e presos. O episódio é narrado com o suspense característico e envolve as artimanhas de Chico Preto pra salvar o irmão. A fuga espetacular contou com a ajuda inocente de Nazinha, grávida do primeiro filho.

 

Mas quem pensa que a emoção à flor da pele termina aí, engana-se redondamente. Estes capítulos da série, um verdadeiro livro à parte, biografia na veia, mergulha fundo também na vida profissional de Cleidiana, de foca insegura (redundância¿¿) a editora do maravilhoso caderno anual do jornal A Tarde pelo Dia da Consciência Negra, 20 de novembro. Uma revolução no jornalismo local, reconhecida nacionalmente. O Carnaval do Papão foi outra experiência inesquecível que teve o envolvimento de corpo e alma, como tudo na vida da nossa protagonista.

 

O caderno especial “Água Grande”, sobre o Rio Paraguaçu, o rio que passou em sua vida, foi igualmente marcante na carreira. E na alma. Publicado pelo jornal A Tarde no dia 5 de junho de 2004, Dia Mundial do Meio Ambiente, foi “devorado” com orgulho por Chico Preto, internado num hospital no interior. Esperou Cleidiana chegar para visitá-lo, dia 7, tentou disfarçar a tristeza, mostrou o exemplar do jornal, mas sabia que era uma despedida. No dia seguinte partiu para o Reino dos Encantados.

 

E a chegada “em casa”, os pés no terreiro onde se reconheceu plena, coroando todo um processo de busca pelo caminho espiritual, vários personagens fundamentais nessa descoberta. Sem pressão, porque, como revelado pelas mães Valnizia de Ayra, Té e Ebomi Cidália, Deus é um só, só muda o nome. A Iaiá do historiador Jaime Sodré (doutor em História da Cultura Negra) chegou por suas mãos e se tornou iaô do Terreiro do Cobre. Hoje ele e Chico Preto estão juntos, no Reino dos Encantados, olhando pela menina Cleide. Axé!

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(Chico Preto abraçado a Cleidiana ao lado de Nazinha)

Emiliano José

13 de setembro 2020

Cleidiana Ramos

Chico Preto.

O País perdeu uma freira.

Ganhou uma jornalista.

Uma brilhante, sensível jornalista.

Cleidiana Ramos

é uma jovem ex-aluna, e digo assim porque participei da banca de seu Projeto Experimental, como era chamado o trabalho de final de curso. 

Por ela, tenho imenso carinho. 

Eu a vi crescer como profissional.

Como ser humano.

Vou de Vandré, como em outras ocasiões: prepare seu coração pras coisas que eu vou contar. 

Não sei se ela se zanga, creio não. 

Vou começar pelo pai. 

Logo mais, e não tenho pressa, volto a ela, e conto como a vida em mosteiro foi substituída pelo burburinho, aventura, tormentas da redação. 

Vida pela qual se apaixonou. 

Pacífico Teixeira Ramos era da política.

Voltado ao bem público. 

Amor profundo pela sua terra e seu povo. 

Iaçu. 

Chico Preto - conhecido assim, amorosamente pela população de seu município.

Não se enganem: era homem de convicções sólidas.

Enfrentava o deserto com coragem, destemor. 

Tempo de obscurantismo, de violências, a começar pelo primeiro governo de Antonio Carlos Magalhães. 

Militante do velho MDB. 

Da aula dos autênticos do MDB. 

Do partido de Chico Pinto e do doutor Ulisses, como ele costumava dizer.

Estive em Iaçu algumas vezes. 

Nos primórdios, ano de 1982, Chico Preto me apoiou.

Era candidato a deputado estadual pelo PMDB. 

Pude desfrutar da deliciosa comida de dona Nazinha - Ana Costa Ramos, mulher de Chico, mãe de Cleidiana. 

Numa dessas viagens, fui acompanhado de Magno Burgos, historiador, ex-companheiro de prisão, e também muito amigo de Chico Preto. 

A viagem em companhia de Magno Burgos foi no dia Primeiro de Maio de 1981. 

Na noite anterior, havia ocorrido o atentado do Riocentro, quando a ditadura iria promover a matança de centenas de pessoas num show, e um dos terroristas, militar, viu a bomba explodir em seu colo e morreu - fácil pesquisar. 

Trago lembranças na memória.

Num comício em 1982, eu no palanque, o delegado Edgar Medrado, no meio da plateia, resolveu interpelar, muito irado, o candidato a governador do então PMDB, Roberto Santos: 

- Doutor Roberto, o senhor é homem honrado. Mas deve tirar do seu lado esse comunista. 

O comunista era eu.

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

14 de setembro 2020   

Cleidiana Ramos: o sorriso de Chico Preto, encantamento de Iaçu

 

Menina, menina,1982, Cleidiana Ramos tropeçava nas primeiras letras na Escola Dr. Elísio Medrado, nome de um integrante da família dona de praticamente todo o município de Iaçu.

Por isso, por essa condição, pelo fato de a família querer expulsar posseiros, e Chico Preto estava nessa luta, por denunciar isso, fui chamado de comunista pelo delegado Edgar Medrado naquele comício com Roberto Santos.

Não me ofendeu nem um pouquinho.

Quem disse que não sou?

No primário, tomando alguma consciência do mundo, Cleidiana teve as primeiras e violentas noções sobre racismo.

Sentiu na pele a cor da pele.

Começou a reconhecer-se preta.

Negra.

A dor de ouvir o pai ser chamado de "porco preto".

As crianças diziam isso, alguns de seus colegas.

Traziam de casa o xingamento, aprendido com os pais.

O racismo é construção social, cultural.

Ninguém nasce racista.

Isso feria seu coração de menina.

Doía.

O aprendizado sobre o racismo é traumático, dolorido.

Seu pai era um homem bom.

Tinha certeza disso.

Por que o maltratavam assim?

Ela o verá sempre sorridente.

É, Chico Preto tinha um sorriso largo.

Quando se encontrava com Waldir Pires, de quem era muito amigo, os dois gargalhavam, sorriam à vontade.

Pareciam desdenhar dos tempos duros.

Atravessá-los sorrindo, suave maneira de sobreviver a eles sem nunca perder a esperança, nem a alegria.

Chico Preto e Waldir Pires eram muito parecidos nessa atitude diante da vida.

Naquele ano, o primeiro ano do primário, vejam só as artes do destino, seu pai, xingado por alguns coleguinhas, vítima de odioso racismo, era eleito prefeito da cidade.

Preto, preto retinto, negro de sorriso aberto e de alma generosa, era reconhecido por seu povo.

Que beleza, não?

Não, em seu coração de menina, ainda não existia o sentimento da vingança.

Nem creio exista hoje.

Podia sentir-se vingada.

Mas, não.

Orgulhou-se, justo orgulho, isso sim, ao ver Chico Preto, seu pai, prefeito do PMDB.

Percepções ainda de gente quase inocente.

Seu pai, seu herói.

Convivi com Chico.

Fui amigo dele.

Nunca o vi de semblante sombrio.

Aura especial.

Alegrava o ambiente.

A vida, pra ser vivida.

Ditadura, pra ser combatida.

Alguém deixa de admirar um pai desses?

Cleidiana se emociona até hoje ao falar nele.

Tem razões para isso, já passados 16 anos da morte dele.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Mônica Bichara: Como não se emocionar com uma história dessa, né amiga Cleidiana Ramos? É assim que estou agora, imagino você relembrando tudo isso.....uma lição de resistência, só orgulho

Cleidiana Ramos: Cara Mônica Bichara...o nobre Emiliano José trazendo essas histórias à tona..quem aguenta? E eu aqui com essa missão de reforçar porque não é que só dá Chico Preto nessas lembranças ?

Mônica Bichara: Guenta, coração.....Pode ir tratando de dar corda e munição a Emiliano José que conheço parte dessa história e sei que tem um material rico vindo por aí. Já ansiosa pelos próximos capítulos

Oliveira Brown: Menina Cleid, brava e doce companheira de luta e de jornalismo! Tive a sorte de conhecer Chico, logo quando Cleidiana chegou ao jornal A TARDE. Sorte e privilégio. E me mantive na família, com minha "mãe" Nazinha, maravilhosa!

Mônica Bichara: Sabia que vc ia gostar, Brown

Oliveira Brown: Abraços! Bomfim

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Emiliano José

15 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: Zezinho de Ogum e Chico Preto

 

Vocês sabem: minha protagonista aqui é Cleidiana Ramos, essa maravilha de repórter, essa pessoa sensível, amorosa.

Sempre alerto: a gente não manda no texto.

Volto a ela, prometo, me aguardem - sejam tolerantes comigo.

Ela me fez recordar Pacífico Teixeira Ramos - é, esse era o nome dele.

Amigo querido.

Pai dela, vocês também já sabem.

Ninguém conhecia Pacífico.

Conhecia Chico Preto.

Homem do povo.

Tão conhecido e querido a ponto de ser prefeito entre 1971 e 1973, olhem só, o período mais sombrio da ditadura - nesse tempo eu experimentava prisão.

Eleito pelo MDB.

E em 1982, Chico Preto está de volta.

Iaçu o escolhe prefeito novamente, pelo PMDB.

Vocês estão lembrados de ontem: crianças induzidas por pais racistas, filhas de uma elite cheia de ódio e preconceito, chamavam Chico Preto de  "porco preto" na escola onde Cleidiana fazia o primário.

Uma sonora gargalhada deve ter sido a reação dele se a filha lhe contou isso.

E depois uma boa conversa.

Eleito em 1982, pensou um jeito diferente de comemorar.

Deve ter pensado, e ao pensar, sorriu sozinho:

- Por que não trazer Zezinho de Ogum pra porta de minha casa?

Chico Preto era uma ousadia só.

Trouxe.

Zezinho de Ogum era um curador.

Pelos sertões, ninguém chama, ou não chamava, as religiões afro-brasileiras de candomblé ou umbanda.

Não tem nome.

Um curador - poderíamos chamá-lo também um pai de santo.

Curador era - e é - quem organizava, dirigia os rituais indispensáveis à cura de alguém.

Quem o procurasse, lá estava Zezinho de Ogum à disposição.

Para as dores do corpo e da alma.

Branco, preto, pobre, remediado o procuravam.

Meio na surdina, sempre.

Chico Preto chamou Zezinho de Ogum pra porta de sua casa, ele e seu afoxé, e o povo dançava, rebolava, sorria, se esbaldava, bebia, comemorava naquela noite de 15 de novembro de 1982.

Saboreava vitória, degustava.

Não, Chico Preto não discriminava ninguém.

Pense num sujeito capaz de abraçar o mundo - era ele.

Fosse preto, fosse branco, pobre, remediado -  apenas os poucos ricos não gostavam dele.

Agora, chamar Zezinho de Ogum foi gesto de quem anda de cabeça erguida.

De quem não renega amizades.

De quem celebra vitórias lado a lado com os seus.

Dando um tapa na cara da intolerância.

Afrontando o racismo, a seu modo.

Chico Preto sendo Chico Preto.

Com orgulho.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José nessa homenagem linda a meu pai, Chico.

Mônica Bichara: Já conhecia algumas histórias de Chico Preto contadas pelo amigo jornalista José Bomfim, tb amigo de Cleidiana Ramos e admirador do pai dela, mas já me apaixonei também

Isabel Santos: "Essa maravilha de repórter, essa pessoa sensível, amorosa", concordo com você, Emiliano José. Com certeza, vamos ser brindadas (os) com belas histórias da trajetória dessa nossa querida colega Cleidiana Ramos, contadas por 'sua pessoa', com a maestria e poesia de sempre. Ela tem muito a dizer, nós, a conhecer, e os jornalistas da novíssima geração tomar como referência para ampliar o aprendizado. Mônica Bichara deve estar com os dedos coçando para fazer mais uma bela edição rssss

Mônica Bichara: Isabel Santos nem fale, cumade, nem fale 

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Emiliano José

16 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: Chico Preto x ACM

 

Amanheci pensando: que diabos estou fazendo?

Uma voz sussurra: não é de Cleidiana Ramos a sua palavra, não é ela sua protagonista?

Sim, eu argumento,mas pai é pai, e esse pai não era um qualquer.

E a voz retruca, recorrendo a Paulinho da Viola: tá legal, eu aceito o argumento, mas não me altere o samba tanto assim.

Já deu: vamos falar de Cleidiana?

Com jeito, ainda peço licença.

Aos mais velhos e aos mais jovens.

Como se pede no candomblé.

Peço licença a Cleidiana.

Pra falar ainda um tiquinho de Chico Preto, seu amado pai, já no reino dos encantados.

Como todo prefeito eleito, Chico Preto pediu audiência com o governador.

Era sua responsabilidade com os destinos do município.

Estamos falando de 1970, primeira eleição dele.

Havia uma fila.

Uma conversa o impressionou, logo de cara.

Um casal, muito humildemente, solicitava um cargo de delegado escolar.

ACM ouvindo, sem sequer levantar a cabeça, tudo muito de acordo com sua arrogância, responde:

- Peça a seu marido pra falar com Luiz Viana.

Só isso.

E o casal se foi, sem nada nas mãos.

Chico Preto, impressionado.

Aquilo lá era jeito de tratar as pessoas?

Chegada a vez dele, ACM, ao ouvir o nome da cidade, ficou tentando localizar Iaçu.

Pensou um tanto, e depois disse:

- Ah, o senhor derrotou nosso candidato lá...

Chico Preto pensou: não vim aqui discutir isso, ele não age como governador.

Era ACM sendo ACM.

E, assim como quem nada quer, puxou Chico pra bem perto dele, e disse sussurrando entre dentes, raivosamente:

- Volte pra sua terra. Daqui não sai um tostão pro seu município.

Sereno, Chico Preto, sem alterar a voz, também ao pé de ouvido, respondeu:

-Certo, governador. Darei seu recado ao povo de Iaçu.

Chico Preto sendo Chico Preto.

Talvez Cleidiana, orgulhosa, possa se reconhecer no dito popular, de costumeiro uso:

- Quem sai aos seus não degenera.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José pode continuar a falar de Chico...Com esse seu passeio por essas memórias tô quase convencida de que achei a resposta que procuro há anos do porquê de ter virado jornalista: acho que foi por obra e graça desse pai que, realmente, era especial...continue a falar dele porque tem.muito mais dele nessa minha trajetória.

Emiliano José: Cleidiana Ramos Já mexi, sobre o episódio com ACM

Cleidiana Ramos: Maravilha. Você é um.bamba nessa seara...

Mônica Bichara: Mais uma "Em nome do pai", difícil mesmo mudar o rumo dessa prosa. Resposta merecida de Chico a ACM, deve ter espalhado pra Iaçu inteiro. Bem feito

Cleidiana Ramos: Sim , Mônica Bichara.o velho Chico também usava o deboche como arma.

Mônica Bichara: Grande arma e a ironia matava o malvadeza, ele espumava de rancor. Só ele podia ser irônico e ferino

Isabel Santos: Maravilha, Cleidiana. ACM deve ter 'espumado' com a atitude de Chico. Grande pai, grande cidadão. 

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(Nazinha de Chico Preto)

Emiliano José

17 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: com Chico Preto não se brinca...

 

Tenho dito: logo logo passo a contar a trajetória de Cleidiana Ramos.

Juro por todos os santos e orixás: iria começar hoje.

Mas, e o mas é um inferno, Chico Preto se insinua, parece ainda soprar coisas no ouvido da filha.

Vá lá se saber como, mas ele sopra.

Adora, sempre adorou, contar causos.

E ela própria, a me apertar a mente.

- Conta, vai.

Então, responsabilidade dela.

Eleição de 1986.

Chico Preto convence Waldir a ir a Iaçu.

Festa de aniversário da cidade, 14 de agosto.

Chico, prefeito, programou várias inaugurações.

Até jogo entre a seleção de Iaçu e o Fluminense de Feira.

Pintou um probleminha no pedaço: seu adversário político, José Carlos Vaz Sampaio, resolveu entrar no jogo.

Programou um almoço para Waldir na casa de dona Niva, ex-diretora do Centro Educacional de Iaçu, colégio onde Cleidiana fez o ginásio.

Candidato não recusa nada.

Chico dormiu preocupado no dia 13.

Waldir não podia ir àquele almoço.

Dona Niva estava rompida com Chico Preto desde a saída da direção do colégio.

Gente de Zé Carlos.

Um jeito havia de dar.

O dia raiou, e ele pensando.

Nem dormir direito dormiu.

O motorista de Waldir era conhecido de Chico.

Quando o viu, o estalo de Vieira.

Chamou o motorista de lado, assim como se fosse urgência absoluta, e informa: Waldir não pode ficar pro almoço, o comício de Itaberaba foi antecipado.

-Tem de sair daqui no máximo às 13 horas.

- Vou arrastá-lo para o carro e você se manda. Não pare pra ninguém.

Chico informou Waldir também e depois de algumas atividades, toma-o pelo braço, arrasta-o, e joga-o no carro:

- E Jutahy e Bacelar? - pergunta Waldir.

- Vá, não se preocupe, eu mando levar, responde.

O almoço não contou com a presença de Waldir.

Dona Niva e Zé Carlos, pesarosos.

Putos com a jogada de Chico, arte dele, tinham certeza.

O comício de Itaberaba foi à noite.

Waldir teve um bom tempo para descansar.

Riu muito mais tarde quando Chico Preto lhe contou a manobra.

Malandro é malandro.

Mané é mané.

Vá brincar com Chico Preto, vá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José....cada vez tenho mais certeza que já era um encantado em vida. Com certeza amigo íntimo de seres do Paraguaçu, como o Nego d' Água...obrigada, amigo. Meu pai merece uma homenagem assim...

Emiliano José: Cleidiana Ramos Até hoje, ele vai abrindo espaço... Brinque com ele, brinque... 

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(Formatura de Cleidiana em magistério - 1992)

Emiliano José

18 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: Chico Preto, comício, faca amolada

 

Cotoveladas.

De vez em quando, o diabo dá umas cotoveladas.

Provoca.

Avisa.

Mas, hoje, por mais ele faça, não vou dar atenção.

Tá me dizendo: rapaz, tem mais histórias de Chico Preto.

Eu, resisto.

Hoje, começo a falar de Cleidiana Ramos.

- Rapaz, mas os leitores são os prejudicados.

Penso no velho ditado, recorrente em mim: o diabo é sábio não porque é diabo, mas porque é velho.

Resolvo ceder.

Custa nada.

Faz mal não, ceder a uma tentaçãozinha de nada.

Tantas na vida, uma que seja, ninguém vai pro inferno por isso.

Cleidiana, minha protagonista, é muito jovem.

Pode esperar, não é verdade?

E o pai merece respeito.

O respeito devido aos mais velhos.

Estava lá Chico Preto fazendo comício em João Amaro.

É o distrito mais famoso de Iaçu.

O que tem mais história, berço da cidade.

Começou a falar, e de repente ouviu a voz do adversário, azucrinando sua mente.

Era José Carlos Vaz Sampaio.

Havia ocupado os microfones do serviço de alto-falante de propriedade dele, e tacava-lhe o pau em Chico Preto.

Embaralhava tudo.

Queria impedir o comício de Chico.

E estava conseguindo.

Chico Preto tentava entender a fala de Zé Carlos, e não conseguia articular seu próprio discurso.

Chamou Terêncio - motorista dele.

Não, não se chamava Terêncio.

Ganhou o  apelido porque Chico gostou do personagem de Roque Santeiro vivido por Toni Tornado - era a única novela a deixá-lo acordado depois do Jornal Nacional.

Chamou Terêncio, cochichou no ouvido:

- Tá vendo aquele poste?

- Sim senhor.

- Então, suba lá, corte aquele fio, é do alto-falante da peste que está me azucrinando o juízo.

Terêncio não contou conversa: dois minutos, e se encarapitou no poste, faca amolada nas mãos, e o fio foi pro chão.

Silêncio.

Zé Carlos sem voz.

Chico Preto voltou a falar, tranquilamente.

Agora, só ele.

Quando desceu do palanque, lá estava Zé Carlos, puto dentro das calças, esbravejando, acusando Chico Preto de ter atentado contra a liberdade de expressão.

Bate-boca no meio da rua.

Chico, falava pouco.

Olhava pra Zé Carlos, e sorria.

Aquele sorriso matava o adversário.

O que tinha de ser feito fora feito.

Aquilo era choro de perdedor.

Malandro é malandro, mané é mané.

Vá, vá brincar com Chico Preto, vá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José..Chico Preto não pode ir embora assim...deixa ele.aí..haha...

Emiliano José: Cleidiana Ramos chega, né?

Cleidiana Ramos: Vamos ver se ele concorda. Em seu socorro vou lhe sonegar uma história, mas antes de você contar a história do levante eu te entrego ela ..vc não vai resistir haha

Oldack Miranda: Para variar, eu estava lá nessa viagem. O pessoal falou "vamos em João Amaro" e eu, na minha monumental ignorância pensei que era a casa de algum líder. Era o principal distrito de Iaçu. Calado estava calado fiquei naquela confusão toda.

Mônica Bichara: Deixa Chico Preto contar mais causos, Cleidiana Ramos espera

Isabel Santos: rsssssss Amo causos. Com a pimenta de Emiliano José, então. Deixa Cleidiana Ramos, deixa...

Cleidiana Ramos: Isabel Santos já dei toda a autorização..vou até editar um decreto na condição de Marquesa do Paraguaçu...rsrs

Emiliano José: Cleidiana Ramos Marquesa, hoje segui caminho diverso... Decreto chega tarde

Cleidiana Ramos: Emiliano José acabei de ver..a realeza ainda dorme no ponto com os revolucionários da democracia. Mas me aguarde haha.

Isabel Santos: Cleidiana Ramos rsssss Você, sempre massa. Bjos 

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Emiliano José

19 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: descartando Chico Preto, por enquanto

Chico Preto é um baita personagem.

Por isso, as pessoas ficam a me atazanar o juízo.

Deixa o homem contar seus casos, deixa.

Mas, o narrador deve ter tino.

Senão o personagem ocupa a cena, e ninguém mais consegue tirá-lo da ribalta.

Vocês viram: ele não é brinquedo, não.

Com aquele sorriso aberto, aquela alegria desabrida, aquele jeito especial de amar a vida, ele tomava conta do ambiente.

E houvesse algum obstáculo, ele só pedia a Deus um pouco de malandragem, e resolvia o assunto.

Então, com um sujeito assim, e o pior, de um camarada de quem fui muito amigo, o narrador deve se prevenir.

Senão, ele toma a mão dele e segue contando suas histórias, as centenas delas.

Claro, ele reaparecerá.

Hoje, vamos começar a perseguir Cleidiana Ramos.

Quem é essa mulher?

Como chegou ao jornalismo?

Filha de Chico Preto e de Ana Costa Ramos, dona Nazinha.

A mulher mergulha em rememorações, tempo de menina.

E Nazinha a incentivar a leitura, insistindo.

Leitura é a chave do mundo.

Nazinha ia ensinando desde a meninice mais tenra.

E ela, gostando, se amasiando dos livros.

Lembrei de um conto de Clarice Lispector, vocês poderão ler, "Felicidade clandestina", a protagonista extasiada:

- Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

- Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

Talvez, aí, nessa paixão, esteja, quem sabe, a fonte de sua escolha pelo jornalismo.

Mas, calma, isso não é igual produzir caldo de cana: pega a cana, coloca no moedor, e o caldo sai do outro lado prontinho.

Não, tem história por detrás dessa trajetória.

Fez o primário em Iaçu mesmo.

Na Escola Doutor Elísio Medrado.

Fez magistério depois - em Iaçu era a única opção caso quisesse concluir o ensino médio na cidade.

Por que caminhos, nem ela explica muito bem: aproximou-se do cristianismo.

Nasceu em Cachoeira.

Considera-se no entanto filha de Iaçu, onde viveu grande parte da infância e da adolescência.

Outra cidade ocupa sua memória: Amargosa.

Visitava-a regularmente.

Fez isso por cinco anos.

É sede da diocese à qual Iaçu está vinculada.

Lá, havia uma comunidade das irmãs sacramentinas...

 #MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS 

Cleidiana Ramos: Eita..começou. Mas vocês vão ver que Chico vai voltar em grande estilo...

Emiliano José: Cleidiana Ramos Agora, você, que mistérios têm Clarice/Cleidiana?

Mônica Bichara: As histórias são igualmente fortes, cada uma mais interessante do que a outra. Melhor entrelaçar mesmo, porque é muita paixão envolvida

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(Formatura em magistério, 1992)

Emiliano José

20 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: em busca da vocação

 

Em Amargosa, me dizia Cleidiana Ramos, havia uma comunidade das irmãs sacramentinas.

Amargosa é cidade querida.

Fui apresentada a ela por Waldir Pires.

Vocês sabem, já leram biografia escrita por mim e se não o fizeram seria bom, Waldir nasceu no Cajueiro, mais tarde Acajutiba.

Com três anos, chegou a Amargosa.

Ali viveu infância e adolescência.

Ali fez seu primeiro discurso, ao saudar visitantes da cerimônia, com missa e tudo, da implantação da sexta diocese da Bahia, sediada pela cidade a partir dali.

Tinha apenas 15 anos de idade, 15 de agosto de 1942.

Foi cidade importante.

Entre o final do século XIX e a década de 1950, viu florescer mais de quarenta jornais - é brinquedo?

No final do século XIX, ostentava um Theatro Variedades, com 300 lugares.

Cidade do Café.

Cidade de belíssimos jardins.

Linda.

Vá lá, estou fazendo publicidade, leiam meu livro, e saberão de tudo isso, e sobretudo da história de Waldir.

Lembrei em homenagem a Cleidiana.

Iaçu ficava pertinho de Amargosa - coisa de 100 quilômetros.

E estava vinculada à diocese de Amargosa.

Ia conhecendo cidades: nascera em Cachoeira, vivia em Iaçu, e durante cinco anos, toda a adolescência, ia regularmente à cidade-jardim.

Atraída pela comunidade das sacramentinas.

O cristianismo ia puxando-a.

Lá, entre as sacramentinas, ia absorvendo as diretrizes para ter a sua vocação revelada.

Queria ser freira, consagrar-se a serviço de Deus.

Aos poucos, ia conhecendo sua casa, aquela a se constituir em sua casa em futuro muito próximo.

Ordem antiga, a Congregação das Irmãs do Santíssimo Sacramento, vem lá do início do século XVIII.

Ao Brasil, chega no iniciozinho do século XX.

As religiosas prestariam serviços em hospitais e colégios.

Essa ideia de servir ao próximo fascinava Cleidiana.

O jornalismo nem resvalava seu espírito ainda.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS 

Cleidiana Ramos: Uau! Esse Emiliano José não é graça...

Mônica Bichara: Brinque com esse aí, tá fazendo uma revolução em nossas vidas ......Aliás, revolução é com ele mesmo

Carlos Roriz Silva: Jornalista político de vocação! 

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Emiliano José

21 de setembro 2020

Cleidiana Ramos e seus mergulhos espirituais

 

Amargosa era quase uma nova morada para Cleidiana Ramos.

Jornalista, será um dia.

Mas, nesse tempo, outra vida.

Semanalmente, estava lá entre as sacramentinas, passeando pelos seus belos jardins quando podia.

De verdade, de verdade, mergulhando nos mistérios do cristianismo, tentando se entender, buscando saber se era vocação, se era apenas um impulso aquele desejo de voltar-se à vida religiosa, dedicar-se de corpo e alma a servir ao próximo.

Desde os 12 anos de idade fez isso.

Chegou a passar três semanas com as sacramentinas durante um período de férias.

Havia os encontros vocacionais.

Neles, ocorria uma imersão maior, retiro espiritual, muitas palestras.

Nesses encontros, meninos também podiam participar, eram reuniões mistas.

Aí, a Igreja aprofundava, mexia com a alma da meninada, vasculhava o espírito da juventude.

Não queria ninguém ali sem vocação.

Quem quisesse, ajoelhou é pra rezar.

Sem vacilação.

Afinal, não quisesse ser freira, não topasse abraçar o sacerdócio, havia o caminho do matrimônio, também um chamado especial,  um sacramento.

Igreja sabe formar seus quadros.

Lembro de Gramsci falando o quanto a Igreja Católica sabe formar um exército disciplinado, preparar seus capitães, seus quadros dirigentes, dar-lhes estudo, base, de modo a resistir a todas as tempestades.

Não por acaso está aí há tanto tempo, não é verdade?

Dois mil anos não são dois dias.

Cleidiana estava no ensino médio, e conforme o tempo passava, chegava o momento de decidir, tomar posição definitiva.

Hora da onça beber água.

A dura escolha...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Este Emiliano José não é de brincadeira, minhas senhoras e meus senhores..haha  

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(Contemplando o Rio Paraguaçu)

Emiliano José

22 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: à beira do Rubicão, quase freira

 

Não, Cleidiana não fazia segredo de suas pretensões.

Seu pais sabiam, claro.

Ora, como iria toda semana pra Amargosa se não soubessem?

Nazinha, a mãe, não levava muito a sério os arroubos religiosos da filha.

Era como se dissesse deixa a menina vamos ver até onde ela vai com essa história.

Tinha mais: Nazinha confiava em Chico Preto.

Tinha certeza: na hora h, ele daria um sonoro não.

Cleidiana chegou a ouvir isso de alguns amigos dele.

Vai deixar nada...

Chico Preto, no entanto, só olhava, assuntava.

Como se dissesse, filha, filho, a gente só dá exemplo.

O caminho, ele não se enganava, quem traça são os próprios filhos.

Chega o momento, decidem.

E aí, que jeito dar?

Deixava o rio seguir o seu curso.

Sabedoria.

E Cleidiana mergulhava.

E teve dia decisivo: a madre geral das Irmãs do Santíssimo Sacramento chegou a Amargosa.

Estava em viagem ao Brasil, em visita a todas as casas das sacramentinas espalhadas pelo País.

As candidatas a freira, aquelas mais promissoras, foram convocadas para um diálogo.

Uma a  uma.

Irmã Lídia, a superiora de Amargosa, acompanhou a conversa.

Houve muito respeito e consideração.

A madre geral revelou: tinha informações sobre Cleidiana, sobre toda a trajetória dela:

- Queremos lhe dar a oportunidade de uma experiência mais profunda com a Congregação.

Para tanto, devia passar a morar em uma das casas sacramentinas.

Assim, seria testada.

Saberia se queria de fato seguir o caminho da dedicação religiosa.

Ou não.

Sentiu um friozinho na barriga, uma ponta de preocupação.

E orgulho por ser assim distinguida.

Aceitou.

Queria isso: tomar rumo na vida.

Decidir-se.

Brevemente seria comunicada sobre a cidade escolhida.

Alguns dias passados, e é informada - iria para Cachoeira.

Justo Cachoeira, a cidade natal.

O mundo estava prestes a perder o que viria a ser uma grande jornalista.

Agora, a parte mais difícil.

Conversar com os pais.

Esperou o "Jornal Nacional" acabar e...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Maria Marighella: Cleidiana Ramos ❤ Emiliano José ❤

Rosangela Maia: Amando essas memórias!  

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Emiliano José

23 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: assembleia com os pais,

partiu convento, partiu Cachoeira

 

Todas vocês, todos, hão de convir: não é fácil a uma menina, ali pelos 17 anos, conversar com os pais sobre uma decisão já tomada.

Claro, podia eventualmente voltar atrás, fosse intransponível a barreira, fosse muito intransigente a negativa de pai e mãe.

Mas, era uma decisão, uma escolha.

Cleidiana pretendia ir para Cachoeira.

Sentir de perto a vida sacramentina.

Quem viveu esses dilemas, quem experimentou as encruzilhadas religiosas, sabe não ser fácil.

Precisava dessa experiência para poder se decidir de modo definitivo.

Havia anos aquele namoro.

Agora, ou atravessava o Rubicão, ou dava meia volta e tocava a vida de outra maneira.

Tensa, assistiu ao "Jornal Nacional".

Chico Preto só dormia depois desse noticiário.

Nazinha, a mãe, bancando a aposta na negativa do marido, exigiu: a reunião, para decidir, deve ser a três.

Cleidiana começou um pouco insegura, depois mais firme.

Disse tudo, rezou o terço inteiro.

Os dois ouvindo.

Nazinha, quase não respirava.

Não apenas era contra - era absolutamente contra.

Chico Preto, olhar suave, amoroso, perguntou:

- É isso mesmo que você quer, minha filha?

-Sim - respondeu Cleidiana, sem relutar.

- Então, se é o que você quer, siga o seu caminho.

Nazinha subiu nas tamancas.

Trovejou.

Era um erro.

Ainda assim, não quis barrar o caminho da filha:

- Não vou carregar o peso de mais tarde ouvir de você não ter feito alguma coisa porque eu impedi, porque disse não.

Mas alertava:

- Como mãe, no entanto, é minha obrigação alertar que você está errada em ir para um convento.

Cleidiana estava disposta a não ceder aos apelos da mãe.

Erro houvesse, e tinha de descobrir por conta própria, e não porque os pais ajuizassem seus caminhos.

A experiência é mestra da vida - já compreendia isso, adolescente fosse.

Hoje, olha para trás, e considera o quanto sua mãe tinha razão, o quanto tinha de poder intuitivo, só explicável por conexões ancestrais, conexões tão valorizadas por Cleidiana nos dias atuais, com outra visão de mundo, inclusive religiosa.

Foi um instante especial em sua vida.

De extraordinário valor pedagógico para sua existência.

Permitiram seu voo.

Não a prenderam ao chão.

Partiu convento.

Partiu Cachoeira.

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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Emiliano José

24 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: admirável mundo

novo, deslumbrante e assustador

 

Partiu Cachoeira.

Verdes, verdes anos.

Janeiro de 1993.

Chegada aos 17.

Como era bonita sua cidade natal.

Só agora iria conhecê-la mais de perto.

Não sabia quanto tempo ficaria.

Era um teste, mas agora desfrutaria, viveria Cachoeira.

Os olhos espalharam-se pelas águas do Paraguaçu.

Pensou: ótima a localização do Convento.

Encostado à ponte histórica, centenária, a ligar a cidade com a do outro lado, São Félix.

Colégio do Santíssimo Sacramento.

E ao lado, a Casa das Irmãs, onde ficaria.

Um conjunto só.

Uma das freiras fazia as honras da casa quando chegou.

Logo conhece seus aposentos.

Impressionou-se com a imensidão do quarto.

Dez camas.

Só para ela e uma outra candidata a freira.

Não existiam mais internas do colégio, por determinação da direção sacramentina.

Ali só ficariam as meninas dispostas a testar a vocação.

Outras logo chegariam.

Souberam: escolhida a cama, não podiam mais mudar.

Mais: o lugar à mesa, também, devia ser o mesmo até o fim da permanência no convento.

Questão de disciplina.

Igreja guarda semelhança com as práticas militares.

Gramsci, já disse, de alguma forma registrou isso.

Falava na formação dos "capitães", essencial ao exército católico.

Dormir na mesma cama, ocupar o mesmo lugar no refeitório, tudo era parte da disciplina, sem desconsiderar, também, a disciplina do próprio corpo, cuidado com muito zelo pela Igreja Católica.

Tudo era novo.

Admirável mundo novo.

Deslumbrante e assustador ao mesmo tempo.

Será que o jornalismo a perderia?

A freira preceptora foi logo rezando a cartilha.

Não pensassem em vida fácil, ali.

Iriam ajudar em todo o funcionamento da casa.

E do colégio.

Dormir?

Tudo bem.

Mas, levantar muito cedo: às cinco da matina.

Tomar banho e...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

25 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: a dura rotina da vida monástica

 

Às 5 horas, levantar-se.

Sem choro, nem vela.

Quer se dedicar à vida monástica?

Então, disciplina.

A Igreja Católica sempre tratou isso com muito zelo.

Como servir a Deus sem disciplina?

Negativo.

Cleidiana aprendeu desde o primeiro dia.

Levantar, tomar banho.

Às 6 horas, sagrado: missa.

Celebrada pelo capelão, padre Ricarte, também pároco de São Félix.

Igreja, vocês sabem, é masculina.

Ao menos depois de institucionalizada.

Por que as mulheres não podem ser sacerdotisas, ministrar sacramentos?

Ter os  mesmos poderes dos homens?

Perguntas ao vento, talvez impróprias aqui.

Tomar café e às 7 horas uma ia para a portaria até a chegada da funcionária, a outra ia ajudar as cozinheiras, dona Augusta e dona Bubu a cortar legumes, descascar batatas, catar feijão, o diabo - desculpem o uso do diabo num ambiente tão religioso, ele sempre se intromete onde não deve.

Às 8 horas, a da portaria ia ajudar a professora no maternal.

Como as duas eram formadas em magistério, natural ajudassem a professora.

Brinquedo, não: crianças de dois a quatro anos não são fáceis.

Recepcioná-las, olhar atentamente o movimento de cada uma, e olha, elas se movimentam como o diabo, eita, olha ele aí de novo atentando, ficar atenta a qualquer pedido da professora regente.

Às dez horas, encontrar-se com irmã Luzia para ajudá-la nas tarefas da cozinha, pela qual ela era responsável.

É, vocês estão pensando em vida fácil?

Ficar meditando de pernas para o ar?

Porra nenhuma - eita, não cabe essa expressão em ambiente de tanto respeito.

Aí, nesse momento, havia uma troca de guarda: a que estava na cozinha ia para o maternal, a do maternal ia para a cozinha.

Meio-dia, almoço.

Em ponto - disciplina, essencial.

Às 13 horas, uma ao menos ia para o pátio.

Agora, recepcionar e ficar de olho nas inevitáveis travessuras dos alunos e pré-adolescentes da 5ª a 8ª série.

Em seguida, a vida não para, as duas iam para a biblioteca.

Ajudar no controle de reserva e empréstimo de livros, e se fosse o caso acionar o sistema audiovisual - videocassete, se alguma turma necessitasse: filmes, aulas de Telecurso segundo grau, o diabo a quatro, eita olha eles nos revisitando.

Cleidiana confessa: adorava a tarefa.

Era o horário mais feliz do dia.

Navegou por coletâneas inteiras.

Machado de Assis, José de Alencar, tantos outros.

Sobrasse um tempinho, e lá estava ela debruçada sobre os clássicos da literatura brasileira.

Quem sabe, isso não lhe tenha ajudado muito para a opção pelo jornalismo mais tarde?

Da biblioteca...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Jose Jesus Barreto: Fui seminarista, dos 10 aos 16 anos, internato duro, sei bem. Mas não me arrependo nem me queixo. Há coisas boas.

Emiliano José: Jose Jesus Barreto De fato: vc conhece bem. 

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Emiliano José

26 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: liturgia das horas,

 fazer a feira, catequese, esfihas

 

Da biblioteca, terminado o plantão, às 17,30 horas, Cleidiana saía correndo.

Passava água no corpo, segundo banho do dia, e saía picada piripicada.

Às 18 horas, na Capela.

Sem atrasar um minuto - disciplina.

Oração das Horas.

Salmos, cânticos, leitura de passagens bíblicas, elevação de preces a Deus.

Momento de pausa, de afastar-se da agitação do dia.

E recordar: a Obra é de Deus.

Cleidiana até hoje lembra desse momento como um rito belo, mágico.

Também conhecido como Liturgia das Horas.

São realizadas, em muitas casas religiosas, várias vezes por dia.

Nas Sacramentinas, havia a das 5 horas, não obrigatória para as candidatas a freira, e a das 18 horas, e nesta não podiam faltar.

Em seguida, rezava-se o terço, e logo depois, jantar.

Antes de a comida ser servida, lavar as panelas usadas porque as duas funcionárias da cozinha já haviam saído.

Às 20 horas, iam para a comunidade, a assim chamada sala onde era assistido o "Jornal Nacional" - era o único permitido.

Terminado o jornal, dormir.

Tivessem sono ou não.

Disciplina.

No sábado, dia de feira.

Acompanhavam irmã Luzia, ajudavam-na na escolha de tudo, e depois buscavam irmã Ana Maria, mestra responsável pelo acompanhamento espiritual delas e a única a saber dirigir, colocavam tudo no carro e toda o bonde pro Convento.

Domingo, Murutuba.

Povoado da zona rural de Cachoeira.

Havia um sítio das Sacramentinas lá e Cleidiana dava catequese para as crianças.

Enquanto descansava, carregava pedra.

Disciplina.

Havia momentos de muito prazer.

Como a parada para o lanche, todo dia, às 15 horas.

Ah, esse lanche.

Pastéis, esfihas encomendadas, Cleidiana lembra até hoje do paladar, nunca comeu uma tão gostosa como aquelas, nem em restaurantes árabes, era tanta coisa gostosa, até hoje ela saliva.

Já conhecia um pouco de Cachoeira e isso...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: a descrição das cenas. O que é o domínio do texto. Parece que Emiliano tava lá.

Mônica Bichara: Ele tem esse poder e nos transporta para as cenas, dá para imaginar até o que vem pela frente. Esse noveleiro.....

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Emiliano José

27 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: em casa, romaria

de visitas, olhos de ressaca da lua...

 

Imaginava fosse rápida a passagem pelo convento de Cachoeira.

Sabe nada, inocente.

Personagem tem artes do cão.

Arrasta a gente.

Às vezes, como furacão.

Ou, suavemente.

Mas, arrasta.

De um jeito ou de outro.

Cleidiana é assim.

Menos furacão, mais suavidade.

Com jeitinho, vai me levando, me pega pelas mãos, como quem nada quer, querendo.

Levado assim a trocar mais uns dois dedos de prosa sobre a presença dela na Cidade Heroica.

É, nessa prosa, ainda não havíamos dito: nossa quase-freira já conhecia Cachoeira.

Não só por terra natal.

Por isso não: 17 dias de nascida e seus pais picaram a mula pra Iaçu.

História é outra.

Ela e Nazinha, a mãe, volta e meia davam as caras por lá, hospedando-se nas casas de Genésio, de Antônio Sodré, tios-avós maternos.

E havia, ainda, o doutor Antonio Maturino, médico de Cleidiana até os dias de hoje, presença na Santa Casa da cidade há meio século.

E havia Doralice, muito amiga de Nazinha, de quem ainda nos ocuparemos à frente.

Então, estava em casa.

As freiras olhavam-na atravessada.

Melhor estivesse num lugar onde não conhecesse ninguém.

Uma das religiosas chegou a murmurar: antes fosse enviada para Nova Soure.

Havia uma romaria de visitas a ela no convento.

E as freiras, ressabiadas.

Candidata a freira, não deve ter tanta ligação com o mundo.

O mergulho num convento nessa fase requer recolhimento, introspecção.

Só assim se alimenta o fervor religioso, anima a vocação, desenvolve-a se ela existir.

Nazinha atrapalhava o recolhimento: danava-se a informar a parentada, amigas, todo mundo - minha filha está aí, visitem-na.

Mas, vejam bem, não foi assim tão rápido.

Passou um mês sem botar os pés na rua.

Um dia, uma freira teve uma brutal crise de coluna.

Alguém precisava buscar a injeção para aplacar as dores da religiosa.

A escolha recaiu sobre Cleidiana, por conhecer a cidade.

Saiu andando e até hoje lembra do espanto: a lua, majestosa, olhava pra ela com olhos de ressaca, arrastando-a.

Foi aquele olhar, aqueles olhos de ressaca da lua...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente..que coisa linda!

Isabel Santos: Pois é, Cleidiana Ramos. Assim, a gente vai se emocionando com a leveza desse também poeta (pelo menos assim passei a considerá-lo depois de #MemoriasJornalismoEmiliano) ao relatar a trajetória dos colegas e amigos. Tem força, clareza, sensibilidade, poesia, humor..., os textos deles. Aproveito para dizer a você, que já estou me deliciando com a sua linda história, viu? Bj

Cleidiana Ramos: Pois é Isabel Santos....além desse texto de ouro no jornalismo ainda é poeta...

Isabel Santos: Sim, Cleidiana Ramos, e cada vez mais surpreendente. Bjos

Adilson Borges: Coitada de Nova Soure. Perdeu uma mulher retada!

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(Colégio/convento em Cachoeira - 1993)

Emiliano José

28 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: uma noite de lua,

Federico García Lorca, injeção,

a vida rodando, tudo mudando.

 

Imagine: buscar uma injeção e deparar com a lua.

Pensou em Lorca.

Se não pensou naquele momento, se lembrará depois, como se os tempos se misturassem.

Delírio?

Faz mal, não.

Me dão licença?

Federico García Lorca, assassinado pelos franquistas, como Cleidiana, amava a lua.

Era sua inspiração, o espanto, sempre.

Como para Cleidiana naquela noite.

"Quando sai a lua

perdem-se os sinos

e aparecem as sendas

impenetráveis..."

Ela, quase descobrindo as sendas impenetráveis da vida - o poema  "A lua assoma".

E ela olhava para as águas suaves do Paraguaçu, a lua ali refletida.

"A lua vai pela água

Como o céu está tranquilo!

Vai ceifando lentamente

o tremor velho do rio

enquanto que um ramo jovem

a toma por espelhinho...".

Federico no seu poema "Meia-Lua" como que descobria suas sensações.

Ela também queria naquela noite fazer uma "Canção para a lua", como Federico, e contemplar o andar vagaroso dela pelo céu:

"Branca tartaruga,

lua adormecida,

quão lentamente

caminhas!..."

Injeção, que injeção...

Só tinha olhos pra lua.

E no verde verde de seus anos, até em amores pensou, lua tem disso, faz pensar no amor, "Se minhas mãos pudessem desfolhar":

"Eu pronuncio teu nome

nas noites escuras,

quando vêm os astros

beber na lua

e dormem nas ramagens

das frondes ocultas..."

Tudo isso lhe vinha à mente, os tempos se misturam, nem sabe se a biblioteca permitia um poeta assim, tão cheio de amores e de luas, verdes ventos verdes ramas, não importa, tudo vinha, toda lua, todas as luas, toda a vida, a exuberante árvore da vida, tudo aparecia pra ela agora com força, como uma poderosa torrente, iluminação da lua a fazê-la inclinar-se a uma decisão, o convento ia ficando para trás.

Foi buscar uma injeção.

E a lua mudou o rumo da vida...

Chegou ao convento, e entregou a injeção para aplacar as dores da freira.

Uma noite de lua...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

29 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: o sumiço do queijo, o medo da

ponte, as águas do Paraguaçu, a salvação da empada

 

Foram muitas as peripécias de Cleidiana por Cachoeira.

Teve a lua.

E houve a história do sumiço do queijo.

É, não havia queijo num armazém, numa birosca, num supermercado.

Em lugar nenhum.

Por que artes, não se sabe, mas sumiu o queijo em Cachoeira.

Vá lá entender.

Irmã Luzia, a responsável pela cozinha, cismou: quero fazer empadinhas para o café da manhã de domingo.

Bateu pé.

Suavemente foi dizendo em São Félix deve se encontrar queijo alguém podia dar um pulo lá...

Olhava de soslaio para Cleidiana.

Serelepe, ela se dispôs a botar o pé na estrada.

Havia apenas um detalhe: morria de medo de atravessar aquela ponte, velha, velha, século XIX, barulhenta ao atravessar, rangendo, o Paraguaçu correndo lá embaixo, muito lá embaixo, bonita até, mas de meter medo, e se caio?

Lembra de uma vez: chegou a empacar na entrada da ponte.

Nazinha puxava, e ela não vou não vou tenho medo muito medo e chorava chorava não queria passar andando e a mãe arrastando criança não tem querer.

Não, não é medo de altura.

Ou é.

Mas, um medo singular.

O medo só assalta quando há água embaixo.

Aí, quer morrer de tanto medo.

Mas, valia a saída.

Ganhar a rua, maravilha.

Já era grandinha, cabia enfrentar o medo.

Foi passo a passo, sem olhar muito pra baixo, pras águas correntes do Paraguaçu.

Quando pisou em São Félix, voltou-se e demorou-se um pouco a olhar o rio, olhar mais de perto - como era bonito, como aquelas águas inundavam sua alma, aqueciam seu coração.

Uma das paixões de sua vida - quando podia, dava um escapada até a portaria e ficava olhando-o, tentando adivinhar seus segredos, infinitas magias.

Voltou de São Félix, pé ante pé, sem olhar pra baixo, abraçada ao queijo.

Salvou as empadas do café da manhã do domingo.

Irmã Luzia, feliz.

Já estava a meio caminho do jornalismo.

Decisão já tomada.

Não continuaria no convento...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: que escrita...voltei àquele dia...

Mônica Bichara: E ela que não agarrasse o queijo não...ia ter que voltar tudo pra procurar outro

Rizia Almeida: 👏👏👏👏estou vendo toda a trajetória do enredo!!! 

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Emiliano José

30 de setembro 2020

Cleidiana Ramos: panelas e o mais belo dos belos

 

Os leitores sabem: momento de lavar panelas, meter a mão naquela montanha de pratos, garfos, facas, pires, o diabo a quatro, é, também, momento de reflexão, quando o pensamento parece coisa à toa mas como é que a gente voa quando começa a pensar.

Nesses tempos de pandemia, ganhei mais e mais experiência com isso.

Lava louça todo dia que agonia...

E é momento de cantar.

Sozinho, a gente perde a vergonha.

E solta a voz, boa ou ruim.

Afinada ou desafinada.

Soprano, mezzo-soprano, o que seja.

Ninguém ouve mesmo.

E é uma alegria danada, não é verdade?

Era assim com Cleidiana.

Era lavar panelas no convento, tarefa obrigatória, e soltava a voz.

Fazer do limão limonada.

Sentia-se uma Daniela.

Ali no meio do mais belo dos belos, curtindo o Ilê, subindo a ladeira do Curuzu, Ilê Ayê:

"Sou eu, sou eu

Bata no peito mais forte

E diga: Eu sou Ilê".

Erguia a voz, sozinha naquela cozinha.

Como se gritasse para o convento ouvir, um canto de liberdade:

"Não me pegue não, não, não

Me deixe à vontade

Não me pegue não, não, não

Me deixe à vontade

Deixe eu curtir o Ilê

O charme da Liberdade

Como é que é?

Deixe eu curtir o Ilê

O charme da Liberdade".

Se soltava, o corpo seguindo o ritmo do reggae, rebolando, subia a ladeira, encantada, como era lindo o Ilê...

Cleidiana já estava decidida: não continuaria no convento.

Não era a sua.

A magia da lua.

A vocação não se manifestara.

Mas, a vida não tem linha reta.

Uma decisão como aquela, a envolver a fé, opção de vida, entrega ou não a serviço exclusivo de Deus, não se resolve assim, num estalar de dedos.

Decidida, mas envolvida em noites amargas de reflexão.

Cristianismo não é brinquedo, não.

Consciência culpada.

Sorte: na Semana Santa, foi liberada, e pôde seguir para Iaçu.

Lá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E segue ele nessa narrativa cativante....que presente eu ganhei!

Adilson Borges: Puxa! Só hoje soube que estão passando As aventuras da querida Clei numa net perto de mim. Não perco mais....

Emiliano José: Adilson Borges Volte: já tem é coisa...

Adilson Borges: Tou mariscando...

Einar Lima: Adilson Borges, Fio, já estava sentindo a falta de notícias. Quero moqueca delivery.

Adilson Borges: hahahahah, mande o CEP e faço a entrega, fia.

Einar Lima: Adilson Borges, e o meio do mato tem CEP? Desculpe aí, Emiliano José, os comentários fora do seu tema.

Emiliano José: Einar Lima Problema nenhum: toda moqueca vale a pena se a alma não é pequena...

Mônica Bichara: Adilson Borges não sabe o q está perdendo. E as aventuras de Chico Preto? Imperdíveis

Rizia Almeida: 👏👏👏quero mais!!!show

Joaquim Lisboa Neto: Mesclando Lupi com Melô né malandro? Abrazo rojo

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(O colégio/convento de Cachoeira onde estudou em 1993)

Emiliano José

1º de outubro 2020

Cleidiana Ramos: a angústia no Monte das Oliveiras, afasta de mim esse cálice, Pai...

 

Tormento.

Cleidiana, a alma atormentada.

Parecia simples.

A decisão de deixar o convento não era tranquila, como pode parecer.

As mensagens vindas da lua eram fortes.

Mas, muito fortes também as raízes do cristianismo.

O apelo à entrega total ao Cristo.

Experimentava o seu Getsêmani.

Subia o Monte das Oliveiras.

Se Cristo, Deus, ali, sentiu-se abandonado, como um pescador que perdeu a certeza de que sabe nadar, imagine ela, menina menina dos dezoito.

Consola-se: ora, se até Ele teve dúvidas, suou frio naquele monte, sentiu-se abandonado, por que ela não teria dúvidas?

Ela, simples mortal.

Simples consolo.

Não afasta o sofrimento

E quase grita

- Afasta de mim esse cálice, Pai.

Se Ele gritou, por que não ela?

Decisão?

Mais ou menos.

Precisava pensar, meditar, refletir.

E precisava ter alguém com quem abrir a alma.

Difícil fosse ali entre as freiras, tão cheias de esperanças em vê-la irmã, irmã delas.

Não, não iria abandonar o tanto aprendido ali.

Disso, tinha certeza.

Aquilo a marcaria pelo resto da vida.

Não será, jamais será maldita.

Cristo pediu: apartai-vos de mim malditos porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, fui imigrante e não me acolhestes, estive nu e não me vestistes, doente e preso e não me visitastes.

No coração levava a certeza de que os pequeninos, os humilhados e ofendidos, os perseguidos teriam sua atenção, amor, solidariedade vida afora, teriam lugar em seu coração, sempre.

Mas, passar a vida num convento?

A lua, a lua...

Não, não lhe parecia o caminho.

Ainda assim, a dúvida.

Alguma culpa, a cruz.

Bom, Semana Santa, toque o bonde pra Lapinha.

Partiu quarta-feira, 7 de abril de 1993.

O ônibus sacolejava nos caminhos para Iaçu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E o poeta emerge em meio ao jornalista de texto brilhante que a gente já conhece. Que caminhada, gente.

Vera Barbosa: memórias de um jornalista... belo.

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(Cleidiana brincando de Marquesa do Paraguaçu na sede do Palácios dos Ramos em Iaçu)

Emiliano José

2 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: o pensamento parece uma coisa à toa...

 

Era uma quarta-feira, 7 de abril de 1993.

Tomou assento no ônibus da Camurujipe.

Lembra: na infância, era Princesa do Sertão, nome mais poético.

Nem tão longa, a viagem.

Coisa de três horas e meia, às vezes um pouco menos.

Estrada asfaltada, mas ali entre Sapeaçu e Castro Alves, muito buraco, e o ônibus obrigado a ir bem devagar, solavancos.

Torcia para chegar logo a Milagres, a apenas 46 quilômetros de Iaçu, embora aquele trecho parecesse não ter fim, tal a pressa por chegar, e aquele descampado, nada no caminho, nem um pé de gente, nem um povoado às margens da BA-046, caatinga, deserto, fim de mundo, mas a certeza: não está longe de casa.

Aquela viagem, sempre uma diversão, um espairecer.

Olhar para o povo, as cidades tocando a vida sem pressa, o gado no pasto, o homem montado no seu jegue a caminho do armazém, ouvir o galo cantar fora de hora.

Sobe a serra, Muritiba, Governador Mangabeira, Sapeaçu, Castro Alves, Itatim, Milagres, e aí sua terra, sua pátria, a joia da Chapada, e quem há de desmentir?

O bom daquela viagem era soltar o pensamento.

Tinha um pensamento fixo: como livrar-se daquela culpa?

Como aliviar o espírito para ir em frente na decisão de abandonar o convento?

O ônibus em seu ritmo lento, e o pensamento faz um desvio.

É, cabeça de gente tem artes do cão.

Sabe aliviar cargas pesadas.

Faz uma volta ao passado, passado recente.

Antes de ir para o convento.

Está no Centro Educacional de Iaçu, onde fez o Magistério.

Era estabelecimento municipal.

Escola considerada de excelência na região.

Ali, concluiu o segundo grau.

Três anos: 1990, 1991, 1992.

São boas as lembranças desses anos, teorias sobre educação, metodologias, e o desafio do estágio em três turmas do ensino primário.

Não era desafio pequeno: ensinar uma primeira série de alunos alfabetizados.

Alfabetizados?

Sim, havia alguns, liam e escreviam.

Outros, no entanto, não sabiam sequer segurar um lápis.

Não haviam passado por Infantil I, Infantil II, coisa nenhuma.

As dificuldades motoras eram evidentes, não haviam sido preparados, afora problemas de ordem cognitiva e emocional.

Barra.

Lembra de uma menina e um menino, irmãos, permanentemente afastados de toda a turma.

Não havia atividade recreativa capaz de envolvê-los, empolgá-los.

- Vou achar um modo de integrá-los à turma - Cleidiana disse se si para si...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Isabel Santos: Que lindo, Cleidiana Ramos. Que boa escolha, e o tempo está mostrando isso. Esse momento de sua história me fez relembrar o estágio que fiz em uma escola municipal, em Itabuna, onde cursei Magistério. Alguns alunos ficaram para sempre no meu coração. 

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Emiliano José

3 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: o dia do fedor, filhos de pescador

 

No início da subida pra Muritiba, já havia mergulhado nas rememorações do magistério.

Deixando de lado momentaneamente o tormento religioso.

E deu de cara com a menina e o menino.

Com o casal de irmãos.

Cleidiana não se conformava: por que viviam afastados dos demais?

Não se envolviam com nenhuma atividade.

Nada os atraía.

Sempre a um canto, ressabiados.

Tristes.

Cabisbaixos.

Resolve intervir.

Por que diabos ficavam tão isolados?

Num dia, jogo no recreio.

Pega-os pelas mãos, suavemente, quer envolvê-los, aproxima-os do resto da turma.

De repente, um aluno, sem quê nem pra quê, salta e diz:

- A gente não quer eles por perto.

Ela reage, pergunta:

- Por que?

- Eles fedem - o menino de pronto responde.

Olhando a paisagem, já ultrapassando Muritiba, ela se recorda: a afirmação a fez respirar fundo.

Não podia reagir só emocionalmente.

Precisava compreender primeiro.

Num lampejo, começa a entender o quadro: o casal era filho de pescador.

Era uma profissão comum no município, ligada à sua história.

O peixe fresco era uma constante na casa: o pai voltava da pesca, e gastava um bom tempo para tratar o pescado, e assim agradar a freguesia.

O cheiro do peixe impregnava o ambiente.

Natural: a pele, os cabelos, tudo, nas duas crianças cheirava a peixe.

E elas mal percebiam.

Era a vida delas, a rotina - não sentiam como fedor.

Cleidiana se afeiçoou dos dois e os protegeu.

Desde aquele dia, o dia do fedor, decidiu tê-los acompanhando-a no caminho de volta à casa, ajudando-a a carregar os materiais didáticos que costumava levar todos os dias como parte da formação da criançada - cartazes informativos, murais, tantas outras coisas.

Durante as aulas, dava atenção especial aos dois.

Durante a ronda, andando pela sala, parava perto deles, bem pertinho, acompanhava as tarefas cumpridas por eles.

Que fedor, que nada.

Cheiro de peixe.

Uns dias passados, e a menina, baixinho, baixinho, se achegou pra ela durante a aula, e disse:

- Professora, mainha quer que você vá tomar um café lá em casa, me pediu pra lhe fazer esse convite.

- Vou sim - Cleidiana respondeu, com alegria.

Não lhe sai da memória a maneira gentil, carinhosa, acolhedora como foi recebida naquela casa...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Professor: essa bateu ainda mais forte. Até hoje essa história me.comove muito..Olhos cheios d'água...

Jeane Bandeira: Fiquei emocionada com essa história. Minha mãe é de Muritiba, boas reflexões e lembranças. Gratidão por compartilhar 

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Emiliano José

4 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: acolhida de rainha na

casa do pescador, o velho e o rio, crianças voltando à vida, autoconfiança recuperada.

 

O ônibus passava por um trecho de asfalto ruim, rodava devagar, sacolejava, Sapeaçu-Castro Alves, Cleidiana com o olhar perdido no horizonte, nos pastos, nas casinhas à beira da estrada, e o pensamento colado naquelas duas crianças, filhos do pescador.

Chegou com os dois à casa, atendendo ao convite da mãe.

Vinha da aula.

Franzina, muito franzina, a mãe.

Elegante, sutil elegância - quem disse não podem os pobres serem elegantes?

Bonita, ela.

Muito feliz em recebê-la.

Esbanjou alegria ao ver a professora dizer boa tarde.

Ao mesmo tempo, ligeiramente constrangida.

- É casa de gente simples - tentou explicar-se.

Cleidiana, um leve sorriso nos lábios.

Passou os olhos pela simplicidade daquele lar, tudo no lugar, tão organizado, parecendo sempre pronto para receber visita.

Piso de barro batido - vocês conhecem?

Pescador não teria dinheiro pra assegurar outro.

No piso, nem um pingo de sujeira, vassoura de piaçava dava conta.

O pescador também a recebeu.

Sentia-se profundamente lisonjeada - deixara de lado o ganha-pão do dia pra receber a professora dos filhos.

Para eles, pescador e dona de casa, uma visita importante demais.

Os pobres sabem receber.

As duas crianças, a um canto, olhos vivos, incapazes de esconder o orgulho de terem trazido a professora até a casa deles.

A mãe, falava mais.

Gabava os filhos, que mãe que é mãe sempre gaba as crias.

O pescador, só olhando, calado.

Cleidiana puxou a linha - ele veio: meteu-se em conversas de pescador.

- Como é mesmo essa vida em cima d'água, a caçar o pão de cada dia no leito do rio?

Desapareceu a timidez.

Deitou falação.

E foi lá dentro, e mostrou as redes, e a tarrafa, e as iscas, as melhores, aquelas às quais o peixe não resiste, o jogo de sedução da pescaria.

- É trabalho, professora, e os bichinhos tentam escapar, é preciso manha, sabedoria, senão eles somem no meio das águas, que peixe é bicho esguio, sabido, inteligente que só o diabo.

Perdeu inteiramente a timidez.

O velho e o rio.

Riu muito quando soube da ignorância completa de Cleidiana sobre pescaria apesar de morar em rua muito próxima ao rio.

Teve acolhida de rainha.

Nunca se esquecerá do tanto de carinho, de atenção, dos mimos, do cafezinho.

Como não olvida jamais ter visto as duas crianças se incluírem entre os melhores alunos da turma no mês passado por ela naquela escola.

A maior conquista foi vê-las reconquistar o sorriso, levantar a cabeça, mandar a tristeza embora, retomar a autoconfiança.

E principalmente, começarem a ser acolhidas pelos coleguinhas.

Todos agora abraçavam os filhos do pescador.

Sem reservas.

Fedor?

Que fedor?

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Roberto Varjão: Que belíssima página na vida de uma professora e de seus beneplácitos anfitriões

Cleidiana Ramos: Gente: eu já não aguento esperar o próximo.

Ana Vieira: Cleidiana Ramos aguenta...é muita emoção.Eu vivi isso no início da pandemia...Eu ficava que nem criança esperando Papai Noel. Parafraseando uma amiga ," Emiliano José faz toda a diferença,"

Ana Vieira: Muito linda essa passagem!

Jose Jesus Barreto: Gostei muito

Isadora Browne Ribeiro: Gente humilde, simples, pobre de material, rica de educação e cidadania. Lindo.

Ricardo Matos: Gostei. Apesar de que, eu não acho muito justo poetizar ou romantizar a pobreza. A pobreza é sempre triste e sim. A pobreza fede. Fede a descaso desses políticos e juízes corruptos e a culpa é deste povo burro que continua a eleger sempre os mesmos canalhas e os filhos e netos dos mesmos cafajestes de sempre. Não demora e vão acabar o seguro defeso que já é uma mixaria. É triste o pescador não poder sequer por um piso descente em seu lar.

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(Em Cachoeira)

Emiliano José

5 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: dignidade da pobreza

e um anjo no meio do caminho

 

Passar pela casa do pescador conviver com aquela família por pouco tempo mas conviver sentir o olhar altivo e agradecido de todos levou Cleidiana a refletir sobre a relação com os mais pobres.

Não, não pretendia, nem pretende romantizar a pobreza.

Ela é dura, e o sonho, e a luta, é por uma sociedade onde cada um tenha de acordo com suas necessidades e dê de si de acordo com suas possibilidades.

Agora, ali, naquela visita, percebeu o quanto pode existir de dignidade nas pessoas pobres.

De educação.

De cultura, no sentido mais amplo - que tal falarmos da rica cultura da pesca, ela, analfabeta, o pescador a lhe dar lições?

Da mãe, dando lições de como educar os filhos?

Saiu daquela visita mais rica, mais consciente.

E certa do valor de seus pais, do quanto de aprendizado tivera em casa.

Dona Nazinha sabia como apiedar-se da situação dos mais pobres e ao mesmo tempo tratá-los com dignidade.

Chegava uma comadre em casa vinda da roça bom dia como vai a senhora e ela percebendo a cara de fome, que a fome tem cara, e nunca é bonita.

A sertaneja, o sertanejo nunca quer dizer: a comida acabou, não há mais uma colher de farinha pra dar pros bruguelos.

Não, isso mata o sertanejo de vergonha.

Então, ela tomava de conversa com a comadre, chamava prum cafezinho, um pedaço de bolo ali na cozinha, e ia arrumando com jeito e paciência uma cestinha de mantimentos, um agrado para a merenda de seu afilhado.

O pai, sempre atencioso e cuidadoso com todos, especialmente com os mais pobres.

Foi aprendendo essas coisas, lições levada vida adentro.

Os anos de magistério foram ricos.

A estadia no convento, amadurecimento.

De repente, viu-se no trecho entre Milagres e Iaçu, quase chegando, olhando praqueles ermos, nem um pé de gente, alegria de botar os olhos na terra querida, rever os pais.

E voltando a refletir sobre sua decisão.

Chegou a tempo de participar da Procissão do Encontro, na quarta-feira da Semana Santa, 7 de abril de 1993.

Foi atrás do padre Raimundo, o pároco do município.

Raimundo Santana.

Conversou muito com ele nos dias passados em Iaçu.

Precisava dividir suas aflições, confessar sua consciência culpada.

Ela pedindo ajuda, socorro.

O sacerdote, um anjo.

Talvez fosse muito mais um religioso do Novo Testamento, todo cheio de amor.

Não era o do Velho Testamento, do anjo vingador.

Depois de ouvir as angústias dela, com aquela voz de profeta, de quem quer todos no aprisco, não quer perder ninguém, ele ia refletindo junto com ela, amoroso:

- Minha filha, tenha certeza de uma coisa: Deus estará feliz se a sua decisão a fizer feliz.

Quando ele disse isso, a carga imensa de culpa ia se dissolvendo.

- O senhor acha isso, padre?

- Sim, a boa escolha é aquela que a deixe feliz, realizada, pronta a servir ao Senhor onde quer que seja.

Santos existissem, ali estava um.

Foi revelador, terapêutico, consolador

Voltou para Cachoeira com decisão tomada, definitiva.

Não ficaria no convento.

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

6 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: Irmã Patrícia se saindo aos poucos

 

As dúvidas, verdade verdade, não demoraram a aflorar no espírito.

Logo no primeiro mês, quando Cleidiana defrontou com a lua, pensou em ir embora.

- Que estou fazendo aqui? - murmurou.

- Aqui não é o meu lugar - comentou baixinho consigo.

Nos devaneios de lua cheia, a lua, sempre ela, chegou a se imaginar cursando artes cênicas.

Ou alguma coisa na área da escrita.

O jornalismo também se insinuava.

Dúvidas.

Sabia, isso sabia, seu destino não era a vida monástica.

Conversou com Irmã Trindade, a madre do Convento das Sacramentinas de Cachoeira.

Ainda relutante, mas já dando pistas de sua disposição de partir.

Como ainda estava no início, foi aconselhada pela religiosa a esperar mais um pouco:

- Fique ao menos até o meio do ano - aconselhou-a.

Aceitou a ponderação.

Irmã Trindade, mulher de fé, quem sabe acreditasse: ficando mais um tempo podia se convencer do contrário.

Quem sabe dos desígnios do Senhor?

Era madre superiora, graduada em Psicologia.

Conhecia a alma humana pela fé e pela ciência.

Atendia toda a congregação na Bahia - quando alguém apresentasse algum tormento de alma mais sério, era encaminhada para ela.

Psicóloga e freira -não é pouca coisa.

Também diretora do colégio.

Autoridade.

Gostava de chamá-la Patrícia, seu segundo nome, nunca Cleidiana.

Seria Irmã Patrícia, tem certeza, fosse freira.

Cleidiana gostava das freiras.

Conseguiu estabelecer um convívio respeitoso e alegre com as nove religiosas de Cachoeira: Ana Maria, Gregorina, Aloizia, Virgínia, Conceição, Gertrudes,  Luzia e Perpétua, além de Trindade.

Irmã Ana Maria era a mestra, espécie de preceptora: acompanhava a formação das candidatas para a vida religiosa, dirigia os estudos bíblicos, falava sobre o carisma da congregação, as regras advindas da vocação.

À memória, vão surgindo as demais.

Irmã Gertrudes, já com seus 60 anos, era baixinha.

Não tinha o porte de Irmã Trindade, alta altaneira.

Ar inquiridor num primeiro momento - Cleidiana não sabe por que, viaja: lembrava com suas sobrancelhas grossas aquele ar desconfiado de Sean Conery encarnando o monge Guilherme de Baskerville em "O nome da Rosa"...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Adilson Borges: Clei não podia ser rebaixada à freira. É deusa do povo preto! 

Mônica Bichara: Imagine? Nem pensar.

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Emiliano José

7 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: conversa com Nazinha e

Chico Preto, pirraça de mãe, a generala,

pasteizinhos e o sumiço da receita

 

Mãe, vocês sabem, mãe adora quando pode dizer ou pensar ao menos eu não disse?

Ah, quando Cleidiana resolveu naquele abril de 1993 além de conversar com o padre Raimundo abrir a alma pro pai e a mãe dizer não fico mais no convento Nazinha abriu o sorriso e parecia dizer eu disse não foi?

É, mãe sempre gosta de ter razão.

E, convenhamos, Nazinha quase sempre acertava - Cleidiana reconhece.

Sabedoria, coisa dada pelo tempo.

Ou pela ancestralidade, vá lá se saber.

Informou: só ficaria no convento até junho.

Dirigiu-se especialmente a Chico Preto, o pai:

- Quero ir pra Salvador.

O irmão Gildásio estava na capital.

Cursava Direito e trabalhava na Telebahia.

Disse do desejo, mas sabia das dificuldades.

A situação financeira da família era precária naquele momento, sabia.

Era uma sondagem, cuidadosa.

Ainda havia tempo para pensar.

O pai não era bom de negócios.

Melhor: sua devoção à política só o fazia perder dinheiro.

Ganhar, nunca.

Chico Preto, honesto até o fundo da alma.

Idas e vindas com farmácias.

Abriu umas quatro.

Sempre fechavam quando chegava o tempo da política.

Aquele era um instante de profundas dificuldades.

Mas, Cleidiana, coração na mão, expôs o desejo.

E por enquanto deixava nas mãos de Deus.

Ele proveria.

Irmã Gertrudes, falávamos nas irmãs e a personagem me puxou pra uma prosa diferente, era um amor de pessoa.

Falava pelos cotovelos.

Em Amargosa, cuidada de idosos.

Ressentia-se em Cachoeira: parecia não ter o que fazer.

Não dava aulas no colégio.

Sobrava tempo.

Ela, então, danava-se a conversar com Cleidiana, cujo gosto por um bom papo é conhecido.

Nas horas de folga, tricotavam, principalmente sobre Amargosa, muito sobre o trabalho dela com os idosos.

Irmã Luzia era generala, jovem generala de 28 anos: administrava a cozinha, a despensa, dava ordens sobre o que comprar, punha ordem na cantina, era quem ia à feira, cozinhava como ninguém, aos domingos não havia quem a retirasse do comando do fogão, do preparo do almoço, uma felicidade só, para ela e para as demais freiras e noviças.

Na Festa de Pentecostes fez um banquete jamais esquecido por Cleidiana: lambuzou-se toda com aqueles inesquecíveis pasteizinhos, e o pior, a generala parece ter jogado fora a receita, nunca conseguiu copiá-la...

#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

Cleidiana Ramos: Minhas deusas...que prosa-poesia eu tive a sorte de ganhar nesta aventura de ver aqui o meu perfil. 

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Emiliano José

8 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: Chico Preto ataca novamente,

obras por toda Iaçu, Irmã Gregorina

vem à cena com o alho milagroso.

 

De raspão, ontem falamos da quase nenhuma paciência de Chico Preto com os negócios.

Era um tal de abrir e fechar farmácia, seu sustento.

Era chegar a politica, e a farmácia fechava, ou não recebia qualquer atenção dele.

Paixão, dessas avassaladoras, paixão mesmo era com a política.

Prefeito de Iaçu entre 1982 e 1988, botou pra quebrar.

Construiu o Centro Educacional de Iaçu (CEI).

Ali se formaram gerações de profissionais.

Cleidiana estudou no CEI da quinta série ao terceiro ano do segundo grau.

Construiu a Maternidade, embrião do atual Hospital Municipal.

Abriu avenidas, pavimentou ruas, implantou uma rede de postos de saúde na zona rural.

É dele a iniciativa do primeiro conjunto habitacional de casas populares - dali surgiu o Cerâmica, um bairro enorme atualmente.

Conduziu com muita firmeza e habilidade o enfrentamento à violência.

Delegado de polícia em Iaçu, só bacharel em Direito.

Nada mais de "calça-curta", acostumados a toda sorte de arbitrariedades.

Durante seu mandato esteve ao lado sempre da luta dos trabalhadores rurais iniciadas no fim da década de 1960.

Fez milagres, Chico Preto, completando o que havia começado na gestão anterior, a partir de 1972, um dos 19 prefeitos do MDB no Estado naquela eleição.

Com pouco dinheiro nos cofres do município, fazia milagres - insista-se.

Quando Cleidiana revelou sua pretensão de mudar de rumo, ele, pai que é pai, não obstante as enormes dificuldades financeiras da família, foi incisivo:

- A gente dá um jeito.

Deu.

Isso é conversa pra mais tarde.

Chico Preto entrou nesse papo agora, nem sei por que.

Estava eu em Cachoeira, falando daquelas mulheres santas do convento, e ele se intromete.

Irmã Gregorina, era velhinha,  velhinha.

Sérios problema de coluna.

Andava curvada.

Provinha de família abastada, falava francês fluentemente.

Cleidiana se deliciava ouvindo-a contar histórias - os mais velhos sempre têm muita história pra contar.

Adorava medicina natural, e houve tempo de sua insistência nas virtudes terapêuticas do alho.

Servia pra tudo, menos talvez para espinhela caída.

Ela vivia mastigando alho...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente...cada vez mais encantada e feliz com o retorno de Chico Preto..🤭🤭🤭

Eliana Gomes Santos Gomes: Estou sonhando em ler tudo imendado! Rsrsrs

Jose Barreto Damasceno: Valeu Companheiro

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Emiliano José

9 de outubro

Cleidiana Ramos: Chico Preto parte

sob o carinho do povo de Iaçu

 

Chico Preto partiu dia 8 de junho de 2004.

Iaçu parou.

Passou pela política com dignidade.

Tinha sentido de missão: a política era para servir ao povo.

Ao seu povo.

Como Marighella, não teve tempo para ter medo.

A maior parte de sua vida política se deu sob a ditadura.

Nada de temer os arreganhos dos militares.

A vida requer é coragem.

Sabia, no entanto, confrontar e negociar - próprio da política.

Não era homem de violências.

Como Che: ser duro, jamais perder a ternura.

Partiu para o reino dos encantados deixando só boas lembranças.

Nos enfrentamentos, sempre há na política, não levantava a voz.

Talvez irritasse porque não tirava um sorriso leve do rosto.

Parecia ironia, e não era.

Era a forma de enfrentar a vida.

As dificuldades, afrontava-as com um sorrisos nos lábios.

Os filhos, sempre soube amá-los, e educá-los.

Mais com o exemplo.

Eles jamais o esquecem.

Ali entre 1984 e 1985, ele chamou Nazinha, e Cleidiana:

- Vamos ali, vou entregar uma obra.

Nazinha ainda argumentou estar sem roupa apropriada - era chegada a um sapato alto, vestido elegante, e estava naquele momento com uma calça comprida, roupa informal.

-Nada, vamosimbora.

Catou as duas e seguiu para a inauguração da urbanização da rua da Estrela, que depois ganhou o seu nome.

Cleidiana envolta por seu braço esquerdo, Nazinha do lado, caminhava, feliz.

Um dia de festa, de alegria.

Quando morreu, o cortejo passou por lá seguindo para João Amaro, onde seria sepultado.

Cada poste ostentava um laço preto, todos os postes.

Os moradores tomaram essa iniciativa espontaneamente, mode expressar carinho, mode revelar amor, admiração.

O cortejo ia passando, os moradores saíam às portas, às janelas, saíam do fundo das casas, onde estivessem, para dar o último adeus a Chico Preto.

Não, nada de silêncio.

Aplaudiam-no sem cessar.

Choravam e celebravam.

Silêncio, não.

Não o deixariam partir sob o manto do silêncio.

Sabiam: ele preferia o bulício, a festa.

Chico passou assim como se inaugurasse de novo a avenida.

Como se ressurgisse de entre as pedras da rua, como se do asfalto irrompesse uma flor, sorridente, como a pedir toquem a vida, e nada de choro, alegria, que a vida é bela.

E seguiu para João Amaro.

Dali, já no reino dos encantados, deve ter deixado escapar um sorriso e murmurado:

- Esse povo é maravilhoso, merece tudo, e terá para sempre o meu amor.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Emiliano do céu...você não cansa de escrever coisas lindas....de lá do reino dos encantados, Chico tá dando aquelas sonoras gargalhadas de felicidade. 

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Emiliano José

10 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: medicina natural, as virtudes do alho, as piadas da Vovó, o sequestro pelo Jornalismo

 

O alho e suas virtudes.

Nós começávamos a falar nisso, quando Chico Preto invadiu nossos caminhos.

Voltamos ao alho, ao convento, à Irmã Gregorina, seu francês fluente, sua idade já avançada, cheia de sabedoria, boa de papo, adorava conversar com Cleidiana, e não só sobre alho, muito mais, era adepta da medicina natural.

Cleidiana vivia assediada: chás e mais chás naturais, ela ia recomendando, serviam pra tudo.

Alho, bem, o alho era tempo inteiro, nunca parava de mascar.

Não, não era apenas de ouvido sua sabedoria sobre medicina natural.

Lia livros e mais livros sobre o assunto.

À mesa, durante as refeições, quando todas as irmãs deitam falação, quando se brinca, quando a fofoca corre solta, quando os cacoetes se revelam, quando há gargalhadas às vezes até de boca cheia, à mesa Gregorina não perdia a chance de falar de milagres.

Os milagres do alho.

Irmã Maria, numa dessas refeições, não resistiu:

- Gregor, me conte uma coisa: e o cheiro?

- Tudo da cabeça. Se as pessoas não souberem que você está mascando, não sentem cheiro de nada.

Irmã Conceição saltou de lá:

- Isso não está funcionando, Gregor. Eu sinto esse cheiro de longe. Só não tinha lhe dito nada.

Irmã Aloizia também já tinha mais de 60 anos.

Olhos azuis, pele muito branca, dava aulas no maternal, amor roxo por plantas, cuidava do jardim com amor de mãe - Cleidiana adorava ouvir histórias contadas por ela: nos momentos mais emocionantes dos causos, ela abaixava voz, segurava o braço da noviça, e sussurrava, como se contasse um segredo.

Irmã Virgínia, professora também do maternal, adorada por todos, apelidada Vovó, humor insuperável, ninguém a surpreendia sem um sorriso no rosto, e era dada a piadas.

Preferida?

Irmã Gertrudes.

Ficou triste, muito triste, com a saída de Cleidiana.

- O problema é sua pouca idade. Você é muito menina. Quando ficar mais velha, vai voltar.

Nunca voltou.

O jornalismo invadiu sua vida.

Para sempre.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente...começo a desconfiar que Emiliano José assistia tudo de longe com a magia dos escritores...

Jose Jesus Barreto: Alho protege, alho afugenta coronga

Adilson Borges: Do carALHO 

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Emiliano José

11 de outubro 2020

Cleidiana: imenso convento adeus, o vapor

de Cachoeira não navega mais no mar

 

Perdeu o contato com irmã Gertrudes, tão querida.

Soube: queria tanto, e conseguiu voltar para Amargosa, terra de seu coração.

Tem lembrança carinhosa de Eunice, noviça como ela.

Seguiu adiante, vocação manifestou-se fortemente, e Cleidiana já jornalista teve a alegria de ir à consagração dela.

Desde 1998 não a viu mais.

Teve notícias: estaria em Feira de Santana.

Continua servindo ao Senhor.

Jamais as lembranças daquele tempo se apagaram da memória.

Quando passava por Cachoeira, dava um jeito de dar um pulo no convento, mas o tempo tempo muda tudo, e as irmãs conhecidas foram saindo, e hoje restam as recordações.

Às vezes, recostada, sem esforço, vê-se subindo e descendo as escadas em caracóis do convento.

Quando o pensamento se deixa livre, reconstrói a imagem do imponente prédio de três andares a poucos metros da velha e bela estação rodoviária e da ponte centenária sobre o rio Paraguaçu.

É uma recorrente cerimônia do adeus.

Não é triste - uma serena cerimônia, quando o pensamento a reconstitui.

Vê-se subindo e descendo as escadas em caracóis, imagina-se no dormitório de mobiliário modesto, apenas as camas de solteiro e um armário com divisões tipo escaninho, cada um com seu lugar de guardar as coisas, do refeitório, a grande mesa, o momento da confraternização, refeição sempre era isso, ao fundo um pátio estava a pia onde ela lavava as panelas e cantava se sentindo Daniela Mercury saindo com o Ilê, a sala da comunidade onde viam tevê à noite, a capela, pequena, muito pequena, uns 15 metros quadrados, bancos com apoio para os joelhos e o altar com destaque para o sacrário, e havia a área dos quartos das irmãs, reservada, onde ninguém podia entrar, salvo elas mesmas, o colégio, as salas de aula, imensidão, convento e colégio, sua vida por seis meses, longo e curto tempo, a marcá-la para sempre.

Partiu, deixando amores. 

Agora, nova etapa, nova vida, a busca de fronteira a ser devassada, a imensa fronteira do jornalismo.

O vapor de Cachoeira não navega mais no mar...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Que grandeza desse narrador...

Mônica Bichara: Vai guentando, coração.....

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Emiliano José

12 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: passa em dois vestibulares,

deixa Filosofia de lado, agarra-se ao Jornalismo

 

Nessa idade, a dos 18, tudo parece simples.

O mundo está à disposição.

Basta querer afrontá-lo.

Basta ir atrás do sonho.

Esse, o estado d'alma de Cleidiana quando arriou as malas de volta a Iaçu, junho de 1993.

O convento ficara para trás.

Vida monástica, saudosa lembrança.

Basta ir atrás do sonho...

Basta?

Não basta, mas a vida requer é coragem, e ela tinha.

Chico Preto não andava bem de finanças, já se disse.

Mas, dava seus pulos para atender aos desejos da filha.

Cleidiana chegou a pensar em insistir nas coisas da alma, e fazer Psicologia.

Mas, nada: fixou-se no Jornalismo.

Arrumou os panos, meteu-os na pequena mala, e se mandou para Salvador.

Agora era o mundo, vasto mundo.

Primeiro, na casa de uma tia, irmã de Chico Preto, no bairro da Caixa D'água.

- Logo logo alugo outro lugar - disse-lhe o pai.

Gildásio, o irmão, fazia Direito na Católica, hospedava-se no Hotel São José, na avenida Sete de Setembro, graças à amizade de Chico Preto com o dono - eita homem pra ter amigos.

Logo depois, ela e Gildásio passam a morar num quarto e sala, no fim de linha do bairro da Federação, ao lado da TVE.

Faz cursinho intensivo no Integral.

Para ter alternativas, presta vestibular na Católica em dezembro, 1993, para Filosofia, na Católica - UCSAL.

Sabia: não iria cursar, salvo a vida não lhe oferecesse outro caminho.

Por escolha e pelo fato de significar outra despesa para a família.

Num dia, sai a flanar por Salvador com Chico Preto.

Rua Chile, lanche na Cubana, conversa vai, conversa vem, o que será que será, o pai preocupado com o destino da filha, e ela reafirma: farei Jornalismo na UFBA.

Passa no vestibular, e deixa de lado a Filosofia da Católica, onde também havia sido aprovada.

Família em festa.

Menina retada, essa, não?

Só que Chico Preto pregou um susto na família...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E ele não deixa de emocionar..♥️

Mônica Bichara: Sorte nossa   

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Emiliano José

13 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: vestibular, infarto de Chico

Preto, fuga do paciente, feliz Ano Novo

 

Dezembro de 1993.

Chico Preto, em Salvador.

Dar uma força à filha.

Primeiro vestibular, Católica.

Presença de pai sempre ajuda - pensava.

E ajuda.

Queixava-se de uma persistente dor no braço.

Dono de farmácia, se automedicava.

Médico, pra quê?

Terminadas as provas, família volta pra Iaçu, e ele segue para a fazenda, em Boa Vista do Tupim.

Lá, a dor aumenta.

Pega carona, segue numa canoa, e em Marcionílio Souza posto médico registra pressão em 18.

Vai pra Iaçu, direto pro hospital.

Doutor Eudes, amigo, o atende: pressão em 22.

Mandado pra Itaberaba, atendido por doutor Benelson, conceituado cardiologista da região.

Alguns dias lá, infarto controlado.

Doutor Benelson determina: deve ir pra Salvador, fazer cateterismo.

Faz.

No Hospital Santa Izabel.

Recomendação rigorosa: repousar por alguns dias.

E ficar sob vigilância médica naqueles dias, uma semana ao menos.

Pagou o hospital, ouviu tudo isso, e antes da chegada do médico, pegou o elevador e sumiu.

A família, estupefata.

Cadê Chico?

Só se foi saber das travessuras dele depois: foi direto pra Rodoviária, apesar da proximidade do Natal conseguiu passagem apresentando documentação de recém-infartado, seguiu pra Feira onde um carro do gabinete da prefeitura de Iaçu o esperava, e seguiu para sua terra. O carro foi mandado por Zé Rico, o prefeito. Havia sido derrotado por ele na eleição anterior, mas nunca deixaram de ser amigos.

Nazinha, Cleidiana, Gildásio, em Salvador, aparvalhados com a fuga.

Quanta irresponsabilidade.

Cleidiana, a encarregada da diplomacia: ligasse pra Iaçu, soubesse como ele estava.

Explicou:

- Preparei essa fuga, minha filha, confesso. Tenha santa paciência: eu não ia aguentar ficar preso aí nem dois dias, quanto mais uma semana. Não, nem pensar. O que? Um bando de gente me dando ordens? Melhor vir pro meu canto, muito melhor.

Infarto não o segurava.

Chico Preto sendo Chico Preto.

Família toda seguiu para Iaçu.

Passaram o Ano Novo juntos.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Sônia Maria Haas: Ótimo relato.

Cleidiana Ramos: Esse Chico Preto não é brincadeira. Se intromete mesmo na narrativa de Emiliano José. Show de bola..

Mônica Bichara; Queria muito ter conhecido, já sou fã

Adilson Borges: Um retado. Coisas de Chico, nome de meu pai e de meu ex-caçula! 

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Emiliano José

14 de outubro 2020

Cleidina Ramos: Chico Preto e suas lições -

nunca deixe de perseguir um sonho

 

Chico Preto foi um pai inesquecível.

Já vai longe o momento da decisão de sair do convento.

E seu desejo de seguir pra Salvador.

Ganhar o mundo.

Ele dizendo a gente dá um jeito e ela sabendo das imensas dificuldades.

E mais tarde saber: teve luz cortada em casa para não deixar atrasar o cursinho intensivo do Integral dela em Salvador.

Não esquece nada disso.

Menos ainda da imagem de um Chico Preto com os olhos rasos d´água ela já na Facom contando recebi proposta para que você assumisse uma turma em município vizinho e respondi não pois respeitava a trajetória escolhida por você e aí veio uma angústia do tamanho do mundo porque eu sabia o quanto era difícil passar num vestibular na UFBA e eu me senti arrogante naquele instante ao recusar a oferta.

Arrogante?

Chico jamais o foi.

Nunca, fosse com correligionário, com servidor, fosse com qualquer pessoa do povo.

Aquela resposta, de não aceitar fosse a filha seguir o caminho do magistério, fora mistura de confiança e cuidado.

Aposta.

Era a maneira de empurrar os filhos, empurrar na direção do sonho, do sonho de Cleidiana naquele momento.

Ele e Nazinha ensinaram os filhos a não desanimar, a perseguir os sonhos até o fim.

E aqueles olhos rasos d'água eram agora de pura emoção, orgulho de assistir o triunfo da filha, de vê-la apalpar o seu sonho.

Pensou: minha recusa foi acertada.

Cleidiana lembra outra vez do passeio por Salvador a poucos dias de fazer a inscrição para o vestibular da UFBA.

Do suco de mangaba na Cubana, do bolinho famoso da sorveteria.

Quando falou da escolha pelo Jornalismo, ele apenas fez a pergunta inocente:

- É mesmo?

E completou, suavemente:

- Pensei que ia ser Direito.

Gildásio, o irmão, sugeriu: ao menos tente Direito na Católica.

Não, não tentou.

Tentasse, passasse, e teria a família pressionando-a para cursar, e ela não teria condições de recusar.

O Direito a cercava...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Agora vejam: eu aqui chorando de novo, como todas as vezes que me lembro desse dia. Esse seo Emiliano José.

Mônica Bichara: Moça, ri agora com a coincidência. Eu lendo aqui e escuto na TV falar em Chico Preto, corri e era um candidato a prefeito de Manaus. Mas nenhum chega aos pés de Chico Preto de Nazinha de Cleidiana de Iaçu 

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Emiliano José

15 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: realidade brasileira,

redação, semiótica trazida ao chão

 

Era necessária uma determinação muito grande para escapar da sina do Direito.

Cleidiana vivia cercada.

Havia o pai, simpático à ideia, embora sempre cuidadoso para não pressioná-la.

A escolha era dela.

Havia Gildásio, o irmão, já cursando Direito, e querendo tê-la ao lado, mais uma advogada na família.

Um grande amigo de Chico Preto, José Amando Mascarenhas, advogado, deputado, foi presidente da Assembleia Legislativa do Estado.

Herber Reis, admirado por Chico Preto, advogado, defensor de trabalhadores rurais, amigo da família.

Doutor Herber, assim era chamado por Cleidiana, era apaixonado por literatura, uma das primeiras pessoas a ler as primeiras redações dela e as peças de teatro escritas para o colégio - como todo mundo, textos confinados ao esquecimento - "nem tenho coragem de ler atualmente".

Herber recebia os textos, olhava-os com carinho, fazia considerações.

O Direito, uma fortaleza em torno dela.

Queria porque queria capturá-la.

Deu não.

Contra tudo e todos, Jornalismo.

Seu sonho.

Chegada a um novo mundo.

A Facom, ainda no bairro do Canela, prédio pequeno, todo mundo se via.

Eram seminários, novos formatos, tudo diferente do aprendizado no Magistério de Iaçu.

Colegas, professores, poucas professoras.

De cara, o impacto de três figuras.

Antônio Dias, professor de Realidade Brasileira - falava de história como se conversasse ao pé da fogueira em noite de lua cheia.

Mara Campos, metodologia especialíssima, redação, chegava a fazer atendimento personalizado - quase não dormiu ao ouvir dela sobre um texto que havia produzido: "quase perfeito".

Maurício Tavares, iniciava a turma em teorias de Comunicação Social, sarcástico, e com um repertório capaz de unir o cotidiano à teoria.

Falar de semiótica a partir de uma cobertura sobre moda na revista "Veja".

Ou debruçar-se sobre lançamentos da música pop.

Ela, encantada com tudo.

Tudo novo, surpreendente.

O sonho, apalpado.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita...a Facom do Canela..

Adilson Borges: Massa. Vai Clei 

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Emiliano José

16 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: inquietação, mudanças curriculares, a fada, o new jornalism, o transbordamento das cores

 

Claro, passada a fase da euforia, quando tudo é novo, começa outra - de inquietação.

Na fase da euforia, há o entusiasmo, a empolgação, e há também a dúvida - e se não der certo?

Aos 18, 19 anos, seguir em frente, meter as caras.

Dois anos de caminhada, e começa o momento da inquietação.

Crise do quinto ou sexto semestre.

E no meio da crise, a Facom também, ali pelos meados dos anos 1990, mais um pouco, passando por uma transformação curricular e por mudanças no eixo de formação, centrada agora nas teorias da comunicação social.

Veio a revolução digital, e nada será como antes.

E ela via professores ligados ao mundo do jornalismo fora da sala de aula - eu próprio, Antônio Dias...

Sua paixão era o jornalismo.

Ela, um tanto desanimada, sem saber o rumo a tomar.

Que diabo!

Tudo parecia tão luminoso, e de repente, dúvidas.

Vai aprender: na breve caminhada da existência, não há linha reta.

Sempre há curvas.

E na virada de uma curva, pode ser, você depara com outro mundo, iluminado.

Matriculou-se em "Gêneros Jornalísticos".

Deu de cara com a professora Rosângela Vieira Rocha.

Fada, uma fada.

O mundo abriu-se novamente em cores.

Apresentada ao new jornalism.

Compreendeu a proximidade do jornalismo e literatura.

Os fatos são o ponto de partida, mas não podem engessar, prender a criatividade.

Navegou nas paixões de Rosângela pela literatura.

Tardes de reencantamento.

Epifania.

Lá veio Capote, Hemingway, Gabriel García Marques, Norman Mailer, os magos desse jornalismo, novo, deslumbrante, a conseguir ultrapassar os marcos rígidos do  lead, do sublead.

Como se a desengessassem, como se peça a peça fosse por terra a armadura construída anteriormente.

Era possível ter à mão todas as técnicas do jornalismo e, ao mesmo tempo, estabelecer uma relação humanizada, literária a partir dos fatos?

Havia a chance de esculpir personagens, dar-lhes alma, escapar dos grilhões da realidade ou, dito de outra forma, tirar da realidade todo o colorido contido nela?

Tudo isso era possível - Rosângela, a fada foi guiando-a, fazendo compreender esse novo mundo, orientando seu texto, emprestando-lhe colorido, ou libertando as cores até ali presas.

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: e ele segue poeta-jornalista...um mestre nessa arte....e eu a sortuda da vez..hehe

Isabel Santos: Cleidiana Ramos, eu bem que lhe disse. Poesia, leveza de texto, criatividade, tudo isso e muito mais, juntos, para nos fazer tirar o fôlego e nos emocionar. Êtcha Emiliano José danado de bom. E sua hodistóris, gostosa de ler e conhecer. Bjs

Mônica Bichara: Menina, essas aventuras dão um livro .....contadas pelo mestre então

Cleidiana Ramos: Mônica Bichara coisa é a trajetória de seo Chico Preto...vocês já tiveram uma pequena amostra...hehe

Antonia Garcia: Um grande abraço, amigo e companheiro Emiliano!

Emiliano José: Antonia Garcia Querida, saudades de você.

Antonia Garcia: É sempre bom para nós contar com sua obra que renova utopias da nossa geração!

Emiliano José: Antonia Garcia Como sua trajetória, sempre a nos inspirar.

Paulo Cézar Gomes: Brilhante como sempre. Bela e justa homenagem.👏👏👏 

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Emiliano José

17 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: A sangue frio, romance

sem ficção, e as águas do Paraguaçu

 

Com a professora Rosângela Vieira Rocha, achou-se.

Vá ver, quem sabe, tivesse desejos secretos de produzir um romance, ou mais de um.

Cabeça de gente, quem conhece?

E agora, com as novas descobertas, por que não?

Claro, não seriam assim romances propriamente, mas se aproximaria.

Voo, seu texto podia voar.

Por que não?

Pensava em Truman Capote, o notável jornalista americano.

Soube do assassinato do casal Clutter e de seus dois filhos em 1959, em Holcomb, cidadezinha do Kansas, nos EUA.

Passou um ano e meio na região entrevistando Deus e o mundo, e prestando atenção a tudo, a cada detalhe.

Depois dessa estadia, levou mais cinco anos investigando o crime - jornalismo investigativo requer tempo, e isso hoje é raramente compreendido.

Capote tinha então 35 anos.

Com "A sangue frio" inaugura um novo gênero literário - o romance de não-ficção.

Pode?

Isso causa estremecimentos em jornalistas mais dogmáticos.

O conceito é dele próprio - ou, dizia, pode ser também romance sem ficção.

O livro mudou os parâmetros dos limites entre relato jornalístico e relato ficcional.

Penetrar na alma dos personagens, produzir densos perfis psicológicos, ser a um só tempo neutro e apaixonado pela história contada, eis o jornalismo de "A sangue frio".

Ser fiel aos fatos, rigorosamente fiel, sem ser sufocado por eles.

Numa conversa com Gore Vidal e Norman Mailer, naqueles saraus literários do passado, todo mundo falando de seus notáveis livros, o baixinho, é, Capote era muito baixo, disse assim de bate-pronto

- Tudo isso que vocês estão dizendo pode ser muito interessante, mas a verdade é que eu escrevi uma obra-prima, e vocês não.

Ele não era da tribo dos humildes.

Estava certo - não era simples presunção.

Por que ela não podia seguir os passos de Capote?

Ousadia?

Sim, a professora Rosângela a convidava a isso.

Podia pensar o jornalismo de outra forma.

Mestra é mestra, e a gente sabe a quem chama de mestra.

- O que posso escrever como avaliação da disciplina? - Cleidiana perguntou à professora.

Ela a chamou para as águas.

- Você já se perguntou sobre a relação de Iaçu com as águas do Paraguaçu?

Só isso, e uma luz acendeu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: que maravilha mais esse capítulo das minhas aventuras. Obrigada, Emiliano José.

Sérgio Buarque de Gusmão:

https://www.igutenberg.org/newjorna.html

Novo Jornalismo

IGUTENBERG.ORG

Novo Jornalismo

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Emiliano José

18 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: o vício da leitura, a aventura

da reportagem, reconhecendo sua terra

 

Não, Cleidiana não ficara apenas em Truman Capote.

Um dos principais méritos da professora Rosângela Vieira foi viciá-la.

Em leitura.

Ela empanturrava as alunas, os alunos de livros.

Sobre a importância da reportagem.

Foi saber do México em transe por Igor Fuser.

De Aracelli, por José Loureiro.

Voltou à arte da reportagem, outra vez Igor Fuser.

Acompanhou Lamarca até a morte no sertão da Bahia, comigo e Oldack Miranda.

Deliciou-se com a aventura da reportagem, de Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho.

Andou pelo Brasil com Chatô, guiada por Fernando Morais.

Por São Paulo, viu a cidade de perfil, com a notável coleção da professora Cremilda Medina - ela prefaciou um livrinho meu, pouco conhecido, "Narciso no fundo das galés", de 1992, pra honra e alegria minhas.

Conciliar o vício adquirido, ou alimentado por Rosângela, porque de alguma forma já se aproximara da leitura no convento e no Magistério, conciliar o vício com tantas outras atividades não era simples.

Nunca é: os tomados pelo vício, qualquer vício, sabem disso.

Tornam-se prisioneiros.

Deliciosamente reféns.

Devia atender aos reclamos de outra disciplina, a Ciência Press, coordenada por também excelente professora, Nadja Miranda.

Não via a hora de tudo aquilo se acabar, chegar em casa, mergulhar na doce aventura da reportagem, compreender o jornalismo, agora em novas e surpreendentes facetas, abertas a sangue frio.

O duro era dormir pouco, ler até tarde, parar a leitura para tocar a vida, passar o dia ansiosa pra voltar pra casa e retomar.

Leu que só o diabo, aprendeu pra burro.

E só então foi conhecer, ainda não conhecia, a cidade e o rio.

Iaçu e o rio.

Curioso: a gente demora a conhecer nossa terra.

As lavadeiras.

O rio.

Ah, o Nego D'Água...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Ana Vieira: A riqueza e alto nível da produção jornalista Cleidiana Ramos não deixam dúvidas sobre seu amor à leitura.

Cleidiana Ramos: Ana Vieira, além de mãe, pai e irmão mais velho loucos por livros, a pessoa aqui ainda por cima é míope. Quando faltava luz em Iaçu e isso era direto por causa da sub estação era consolo: não tinha tv, não dava pra sair e se fosse por causa das trovoadas de dezembro ainda tinha que ficar sem óculos por causa dos "raios". O jeito: pegar o fifó e ir ler..rsrs...até hoje pra dormir tenho que ler...de um tudo serve.

Cleidiana Ramos: Eita..que lindeza...

Joaquim Lisboa Neto:

Poética prosa

O minhocão

O pé de garrafa

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Emiliano José

19 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: entre fadas e bruxas, o sertão vira mar, aparece o Nego D'Água, surge a Mãe D'Água, bota a cara a sucuri

 

Sabe quando uma luz acende?

Quando tudo se alumia?

Quando a noite aclareia?

Foi assim quando Rosângela, a professora, falou nessa história da relação de Iaçu com as águas do Paraguaçu.

De onde ela tirou isso, vá lá se saber.

Cleidiana falou nela como fada, quando deu aparecença.

Desconfia ter coisa de bruxa também.

Do bem.

E tem bruxa do mal?

Invenção de gente doente, ruim da cabeça.

As bruxas misturam-se com as fadas para alegrar e intrigar o mundo, que Deus as tenha e proteja.

Mergulhou.

Que haverá naquelas águas de sua terra?

Que mistérios têm Iaçu e suas águas?

Benzeu-se e foi atrás.

Pescadores, lavadeiras, e as águas.

Gozado: até ali, olhara pouco para o rio.

Mais o olhar se derramava por aqueles ermos sertões esturricados terra pouca de posseiros sol a pino fome misera abandono.

Agora, a vista chegava ao rio e seus habitantes.

O sertão virando mar - rio água.

E ouvia histórias, verdadeiras, duvidar quem há de?

O Nego D'Água e suas travessuras.

Vivia no rio, gargalhadas a assustar pescadores, queria um peixe, e às vezes um gole de cachaça, e ai de quem não o atendesse.

Era alto, forte, negro, com aquelas nadadeiras, corpo coberto de escamas meio gente meio homem bicho assustador e deslumbrante, os pescadores iam se acostumando e o alimentavam - com peixe e cachaça, pescador sabe tratar as criaturas das águas, e ai dele não soubesse.

Foi sabendo conhecendo penetrando aquele mundo.

Realismo fantástico?

Sabe-se lá.

Melhor não duvidar das criaturas contadas por aquele povo das águas, os pescadores e as lavadeiras, e as velhas senhoras, mesmo não sendo do rio, a reproduzir as verdades líquidas.

Contar histórias, uma arte, e essa arte era desenvolvida em Iaçu.

Contava-se, e havia quem jurasse de pé junto ser verdade verdadeira, da Mãe D'Água.

Aquela lindeza a pentear seus longos negros cabelos à luz da lua.

Ouvia.

E acreditava.

E a sucuiuba - chamavam assim a sucuri...

 #MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E assim esse narrador encantado traduz todo o encantamento da minha Iaçu encantada. É assim mesmo, gente.

Mônica Bichara: Quanta beleza nessas memórias, poesia pura

Isabel Santos: Que belezura. Me deu arrepios de emoção. Fui lá longe, nas minhas memórias da fantasia, no meu interior, com noite de lua cheia, brincando ao ar livre, sem medo de ser feliz. Gratidão, Emiliano José/Cleidiana Ramos.

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Emiliano José

20 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: a serpente dorme no fundo da Igreja Matriz, tem olhos de alumiar a noite e chifres de dragão sou caipira Pirapora...

 

Cês pensam, eu sei, tudo lenda né?

Incréu é assim.

Mas, o povo conta.

É bom não duvidar.

Há muita sucuri, cobra grande de perder de vista, aquele mundão de cobra vivendo embaixo de cidades por aí.

Credita, não, né?

Dizem, o povo diz e sei que não inventa: há muitas se arrastando por cidades desse País gigante entram debaixo da terra a cauda embaixo da igreja a cabeça no rio e quando ela acorda e se espreguiça a terra treme de leve e aí tem gente a esparramar seja terremoto nada é a sucuri sucuiuba.

A sucuri sucuiba de Cleidiana, a sucuri contada pelos pescadores, era uma dessas, cheia de artes e manhas.

Os olhos, pareciam faróis - iluminavam tudo, o fundo do rio até.

Tinha chifres.

Parecença, creiam, com dragão aquático.

Como viesse de outros tempos.

Quem sabe, viesse mesmo - pescadores não duvidavam.

Corria outra verdade, esse mundo vasto mundo cheio de surpresas: havia uma outra serpente, não a das águas, uma mais sossegada, dada ao descanso, ah, esta dormia embaixo da terra, nos fundos da Igreja Matriz de Iaçu.

Fosse pra dormir, e ela adorava dormir e sonhar, se desse sob a proteção de Deus Nosso Senhor, pai de todos os viventes.

Deus não é só pai dos homens, é de todos os bichos.

Os pescadores adiantavam: um dia secasse o Paraguaçu naquele trecho de Iaçu, deixasse de refrescar o corpo da bicha, é, porque chegava água até ali, pouquinho, mas chegava,  e ela acordaria de seus sonhos e poderia assustar todo mundo não obstante não quisesse briga nem morder ninguém que era de paz.

Cleidiana, mulher de fé mas nem tanto, ainda indagava do pescador:

- Mas será?

Ora, retrucava o pescador, é só a senhora observar, é, pescador prefere respeitar toda mulher jovem ou mais velha todas são senhoras, é só olhar, se a fé lhe faltar, se não acreditar em palavra de pescador, sempre verdadeira, é só observar como volta e meia há um afundamento daquele trecho próximo à Igreja Matriz, os paralelepípedos fora do prumo.

- Algum humano mexeu? - ele pergunta.

Ele mesmo responde:

- Nada, minha senhora. Foi a cobra, mudando de posição durante o sono, talvez algum sonho perturbador.

Não conhecia esse mundo.

O mundo das águas.

Maravilhoso, deslumbrante, assustador.

Surgido por inspiração da professora Rosângela.

Tanta coisa, tanta descoberta, e a vontade de cantar sou caipira Pirapora Nossa Senhora de Aparecida ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: não tem mais jeito. Emiliano já foi completamente encantado por Iaçu....que lindo!

Mônica Bichara: Praticamente um nativo

Cleidiana Ramos: Mônica Bichara completamente....

Lourdinha Brito: Nossa! É encantador. Doida pra ver a continuação.

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Emiliano José

21 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: das águas para a grilagem,

Rosângela orientadora, Chico de Nazinha

produtor, início de uma grande jornada.

 

E entregou o trabalho para Rosângela, sedutora mestra.

O trabalho, uma tentativa de aproveitar os ensinamentos daquele rico semestre, indicou como o rio e a cidade eram irmãos, como se entrelaçavam, nas muitas magias, nos muitos reinos encantados das águas do Paraguaçu.

É, havia magia.

E economia: cerâmica, blocos, pequenas olarias, quase mil empregos diretos e indiretos, tudo relacionado com as águas.

E problemas, outra vez a vida não é linha reta, as curvas: o uso de sondas retroescavadeiras pela, vá lá, indústria de cerâmica, provocava o assoreamento do rio, e aí Ministério Público não conta conversa entra com Ação Civil Pública e causa controvérsia dos diabos.

O trabalho foi grande aprendizado.

Dos bons.

Uma grande reportagem.

Conheceu sua terra.

Pensava muito nisso: você vive ali e conhece pouco.

De repente, uma professora faz o convite: vá conhecer onde nasceu.

A partir das águas.

E conheceu.

Melhor: deu um passo para isso.

E continua a caminhar.

Terra de encantos não se descobre assim em olhar aligeirado.

Rosângela gostou muito da reportagem.

Tanto, tanto, um tantão assim.

E sugeriu: por que você não parte daí, amplia, e faz o seu trabalho de final de curso conhecendo mais Iaçu?

À época, Projeto Experimental, hoje TCC.

Ampliar significava, pensou logo Cleidiana, mergulhar na luta dos trabalhadores rurais, intensa na região.

Uns dois dedos de prosa com Rosângela, ela aceita o enfoque, e mais: topa ser a orientadora.

Ah, mas quem gostou mesmo foi Chico de Nazinha, é, não havia dito: Chico Preto era também conhecido como Chico de Nazinha, como de costume nesses sertões afora, uma pequena vingança feminina diante do patriarcado.

E se a professora Rosângela era a orientadora, Chico de Nazinha, o produtor.

Não se sabe quem mais fascinado: se Cleidiana, se Chico - o leitor pode escolher se de Nazinha se Preto, Chico.

Esperava a filha nos finais de semana com a pauta pronta, entrevistas marcadas - um privilégio

Era ela descer do ônibus na sexta-feira à noite, e lá estava ele no pé da obra.

Entrevistou gente que só o diabo, tropeçou numa montanha de documentos...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah gente...a cada dia ele fica mais encantador ..esse Emiliano José....

Mônica Bichara: Fascinante esse enredo produzido por Chico Preto de Nazinha - aposto q tb era chamado assim. Curiosa pelo rumo dessa prosa

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Emiliano José

22 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: Solidão, Buendía, Conselheiro, pé na estrada, e a descoberta dos caminhos da Água Grande.

 

Quando leu o trabalho "A ingratidão da Água Grande", final de curso da professora Rosângela, para um grupo de colegas, Cleidiana foi surpreendida pelo quase inocente comentário de Lorena Vieira:

- Gozado, parece a história daquele livro chamado "Cem anos de solidão". Você já leu?

Não, não havia lido.

Pegou no ar a dica preciosa, correu às livrarias, comprou o livro, e o devorou num final de semana, encantada, inebriada, bêbada de tanto maravilhamento.

Ninguém fica impune se conhece os Buendía.

Conto: fui à estante e peguei a 11ª edição dele, editora Sabiá, tradução de Eliane Zagury.

Com cuidado: a capa já está solta.

A primeira página, primeira mesma, antes do título interno, também solta, se quiserem fotografo, tem um carimbo: no alto, escrito "Censurado", e datado 14/3/1974.

Os livros, antes de chegarem às nossas mãos na Galeria F da Penitenciária "Lemos Brito", passavam pela censura.

Esse foi liberado, e foi possível conhecer os Buendía desde lá, olhe que tem é tempo, século passado, e há sempre a tentação da releitura, nunca é o mesmo livro, não é verdade?

Volto - Cleidiana começou seu "Os caminhos da Água Grande", seu Projeto Experimental em Jornalismo, sob as bênçãos dos Buendía, debaixo do olhar encantado de Gabriel García Marquez.

Talvez, e nem sei se sabia, as ideias circulam, os grandes mestres povoam nossa imaginação tendo lido ou não suas obras, talvez tenha caminhado pelo sertão de Iaçu lembrando-se também do Conselheiro, de suas visões, sonhos, da terra de onde jorrava leite e mel, e d'Os Sertões", a magistral, magistral mesmo, obra de Euclides da Cunha.

A Terra.

O Fogo.

A água.

O ar.

São os quatro capítulos do livro dela - é, converteu-se em livro.

Fui à estante, essa uma edição preciosa e mais nova, de 2001, de "Os Sertões", da Ateliê Editorial, edição organizada inteiramente por Leopoldo Bernucci, indicada a mim pelo amigo Paulo Dourado.

Lembram?

A Terra.

O Homem.

A Luta.

Esta, a titulação de Euclides da Cunha.

Jornalista, mas cujo livro superou classificações.

Parecença.

Outra inspiração.

Guiada pelos Buendía, abre o livro, ou Projeto Experimental com Macondo.

Aquela aldeia de vinte casas de barro e taquara.

Havia corrido trecho, muito trabalho para chegar a Macondo, vasculhar Iaçu, havia andado mais que notícia ruim.

Sempre com Chico Preto de Nazinha ao lado...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Mônica Bichara: A Macondo de Cleidiana de Chico Preto de Nazinha

Cleidiana Ramos: Eu tive um dia bem nessa linha...passei mais de seis horas desconectada..o cular antigo rebelou-se..danou-se..deu um último suspiro e eis que só agora acesso o capítulo de ouro..o mestre...danado esse Emiliano José, Mônica Bichara..

Isabel Santos: Sim, esse menino Emiliano José é danadinho que só ele. Rssssss

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Emiliano José

23 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: tempo-seco, sertões,

acompanhando águas do Paraguaçu,

massacres, índios, posseiros, terra.

 

- Esta noite ainda ouvi. Um tempo-seco cantava: passarinho de caatinga e travessia onde não tem água nem valença. Chocho que dá dó, grita horas mortas da noite, pra dizer tá vivendo mesmo.

Quando leio essa prosa de Osório Alves de Castro, logo na abertura de "Porto Calendário", penso nos quantos sertões, nas quantas águas.

Ele, Osório, bafejado por admiração e amizade de Guimarães Rosa, banhado pelo encantamento do rio Corrente nas longínquas terras de Santa Maria da Vitória, onde correu o sangue de Eugênio Lyra num fim de tarde na luta pela terra lá pelos idos de 1977.

Cleidiana, banhada pelo Paraguaçu, fosse Iaçu, fosse Cachoeira, as águas pareciam persegui-la, ou ela vivesse atrás das águas do Paraguaçu, alma das águas.

Dele, daquele rio cheio de sucuri e Nego D'Água, nunca se desgrudou: sina, destino, paixão.

Sertões são todos iguais.

Não sei se a afirmação tem valença, ou tanta valença.

Sertões são muitos.

Parecença, sim.

Iguais, desistam.

Na luta pela terra, aí sim, meu senhor, podemos concordar: todos os sertões se parecem.

A terra que é de todos deixou de ser desde a chegada dos portugueses, quando então tudo tornou-se capitanias hereditárias, vício jamais abandonado pelos senhores da Casa Grande, que de suas vastas varandas ordenam matança e perseguição de lavradores, dos que fazem da terra, vida, a vida que lhes é sonegada a cada dia, seja latifúndio, seja o capital avassalador destrutivo.

Cleidiana descobre isso, em seu livro, seu projeto de final de curso, logo no primeiro capítulo, onde trata da terra.

Precisou de fôlego, foi corrida de muita pressa, urgência, mas de muito zelo, tino, cuidado, pesquisa, entrevista, muita prosa, conversa na caatinga e na beira do rio, é, do Rio Paraguaçu, ele mesmo, sempre.

Ela ouviu e acreditou:

- O passado é uma coisa que orienta o futuro.

Palavra de velho morador do distrito de João Amaro, Abelardo Vaz, 76 anos quando danou-se a filosofar na entrevista concedida para o livro.

E correu atrás do passado, final do século XVII, terra conquistada por arcabuzeiros forasteiros paulistas Iaçu nascida assim com matança de índios cariris e sabujás que índio não merecia viver branco sim que vem trazer civilização.

Massacre.

Brasil e tudo Iaçu também nascido sob arcabuzes rompendo matas conquistando terras exterminando índios.

E Cleidiana perdendo a inocência, descobrindo o quanto de violência tem a história, o quanto a terra é regada pelo sangue, surpreendendo-se: não era metáfora.

E descobrindo a impressionante cadeia sucessória daquelas terras, a compreender a gênese de toda a violência contra os posseiros, violência vivida por ela de perto, conhecida de perto - antes, os índios, agora os pequenos lavradores...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano e seus encantamentos...eita! Sertanejo de honorário quase nato...

Isabel Santos: Que lindeza de narração. Que história forte. Que menina cheia de garra.. A Iara do Paraguaçu a desbravar. 

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Emiliano José

24 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: um livro, muitas histórias, as

loucuras do homem predador, a revoada de beija-flores, a rua do Brega, as putas e as senhoras do bem.

 

O livro de Cleidiana passeia pela terra, luta dos posseiros, suas vitórias, a briga com os Medrado, o desalento, com o abandono pelo governo.

Um trabalho de repórter atenciosa, capaz de ouvir os dois lados, inclusive os Medrado.

Fala da cidade, suas mudanças, da cidade esquecida, a lembrar cidade morta, e sempre renascendo.

Percorre os mistérios das águas, e a loucura do homem predador, do capital a desrespeitar tudo, a agredir a natureza, matar terras e águas.

Fala ainda de esperança, da revoada de beija-flores, quem sabe um dia seja possível recuperar o ambiente tão maltratado, desprezado como se a Mãe Terra fosse eterna, capaz de resistir ao espírito destrutivo do homem.

Quem sabe um dia, possa um dia chegar à cidade, olhar o município, botar os olhos no rio, encher o peito e dizer:

- Água Grande, você continua a ser símbolo de fertilidade e vida digna.

Quem sabe.

O livro percorre ainda as transformações culturais, as melhorias administrativas, muitas delas decorrentes das duas gestões de Chico Preto de Nazinha, o pai.

Uma delas, a rua do Crefe.

De oficial, rua Itaberaba.

Era a rua das putas, rua do Brega.

Hoje, já rua Itaberaba.

Perdeu sua riqueza e tradição, o mundo mudou.

E perdeu o nome, tão cheio de amores, lembranças, poesia.

Mas, é rua a remontar histórias, muitas.

As meninas da rua do Crefe sofriam um interdito: só podiam circular na rua delas.

Ali, eram rainhas do pedaço.

Cortejadas.

Paparicadas.

Não podiam ir ao "comércio", no entanto.

Ah, mas as "senhoras de bem" também sofriam interditos.

Eram impedidas de andar pela rua das putas - podiam se contaminar, aprender pecados, quem sabe, um perigo dos diabos.

A elas estava reservado apenas o direito de fazer o dever de casa, gostassem ou não.

Os homens tinham pleno gozo da rua do Crefe, da cidade, e de suas casas  - podiam circular tanto lá como cá, na rua das putas, e no comércio, patriarcado é isso mesmo, faz séculos.

Tantas cidades mundo afora conheceram o brega, não?

Iaçu e sua rua do Crefe não é exceção.

Um dia, uma procissão...

 #MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Perfeito..Iaçu..

Eliana Gomes Santos Gomes: Crefe. Não Creme.

Emiliano José: Eliana Gomes Santos Gomes atendido

Cleidiana Ramos: Culpa do corretor automático do meu celular, Eliana Gomes Santos Gomes...Emiliano pediu pra confirmar..eu escrevi crefe e o corretor, puritano, ficou mudando pra "creme". 🤭🤭🤭

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Emiliano José

25 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: procissão do Coração de Jesus entra na rua do Crefe, fim do interdito,

duas cidades se abraçam, meladinha no nascimento.

 

Cabeça de padre, quem há de saber o que passa?

Deus, talvez, quando se ocupa de um deles.

Ou o Diabo, quando dá de atentar um pobre coitado.

Os dois vivem nessa peleja - padre é território de disputa da dupla, inda mais depois de a Igreja inventar essa história de celibato.

E aí a pobre da Eva entra como culpada, como se fosse.

Que ia pela cabeça do padre Peixoto em 1988?

Era pároco, melhor dizer vigário, povo entende melhor, de Iaçu.

Na pia batismal, deram-lhe o nome de Almiro Rezende Peixoto.

Nesse ano, amanheceu um dia com o Diabo no corpo, com desculpa da expressão.

Pensou: vou assustar essa cidade.

Mexer com os preconceitos dela.

Acabar com seus farisaísmos.

Afrontar os mexericos sobre as meninas da rua do Crefe.

Não fora o próprio Cristo tão amoroso com elas, vida afora?

Pensou Nele expulsando os vendilhões do templo, mais ou menos isso.

Danou-se: meteu a procissão na rua do Crefe, com toda pompa e solenidade.

Procissão do Coração de Jesus, o padroeiro.

Ele, todo paramentado, como convém para a ocasião.

Puxando reza e procissão.

As meninas, nas portas.

As novinhas e as mais velhas.

E os acompanhantes, seguindo, perplexos, assustados, mas padre é padre, vigário é vigário, tem mandato outorgado por Deus, quem há de refugar?

Foi entrar na rua, e ouviu-se meio sussurrando aquele ohhhhhhh dos participantes da procissão.

Esse padre enlouqueceu?

Tá com o Diabo no corpo?

E o olhar respeitoso, contrito, agradecido das meninas, as putas tão visitadas no dia-a-dia pelos senhores de bem.

Elas, só faltaram ajoelhar à passagem do Coração de Jesus.

O olhar quase apaixonado para o padre, tão corajoso.

O vigário, naquele dia, com a histórica procissão, acabou com o isolamento da rua do Crefe.

A cidade e suas putas podiam se abraçar.

Fim do interdito.

Cleidiana, cuja mãe Nazinha nunca discriminou ninguém, chegava a tomar a bênção desde menina de algumas das putas já aposentadas.

Mereciam respeito.

Quando nasceu, Nazinha lhe contou, duas delas foram tomar a meladinha em sua casa.

Veio ao mundo naquele 1975 abençoada pelas meninas.

Não é para qualquer uma, não...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah..obrigada por fazer circular essas histórias tão queridas...

Isabel Santos: Que lindo. História ímpar, para ficar realmente para sempre no coração.

Jose Jesus Barreto: o reino das putas é também o reino de Deus.

Almiro Rezende Peixoto: Interessante reviver o passado, saudades deste tempo, fui muito feliz em Iaçu. O mesmo aconteceu em Nazaré, quando fui pároco, nenhuma procissão, até então, nunca tinha passado pela rua da Fontinha, e passamos com a procissão e a recepção foi linda.

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Emiliano José

26 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: rito de passagem, o

dia da glória, novembro de 1997.

 

Vou me impor.

Tenho de dizer isso a mim mesmo.

De modo a não me deixar levar, como se numa correnteza.

 Melhor nadar um pouco na contracorrrente, fazer esforço maior, e seguir adiante.

A escrita tem vida própria, e se não a enfrento me leva pra onde quer.

Inda mais se os encantados de Iaçu me chamam.

Chico Preto de Nazinha que me aguarde.

Ele, suas putas, Nazinha, e a sororidade das mulheres de Iaçu, mais avançadas do que as das metrópoles, onde sororidade escasseia.

Me aguardem - podem roer unhas de curiosidade.

Um dia conto.

Quero agora chegar a 1997.

Ao dia glorioso da entrega do Projeto Experimental, mais tarde livro. 

"Os caminhos da Água Grande (Município de Iaçu - Suas histórias e os impasses para o desenvolvimento)".

Novembro de 1997 - tem um tempinho, não Cleidiana?

Dia especial na vida de qualquer pessoa.

Na banca examinadora, a orientadora Rosângela Vieira, a sedutora professora, Nadja Miranda, sua chefe na Ciência Press, e eu, honrado com o convite.

Estava afastado para o Doutorado, mas aceitei com gosto.

Cês sabem: era amigo de Chico Preto, e não podia recusar.

Uma afronta dessas, ele não perdoaria e eu, ex-cristão, estaria carregando culpa até os dias de hoje.

E tinha a aluna, Cleidiana, filha querida, com quem já tivera contato.

Havia sugerido estágio pra ela no "Bahia Hoje", mas ela preferiu ir para o Ministério Público, trabalhar sob a direção de Rubens Neuton e Ângela Barreto, dois grandes profissionais, e conhecer homens notáveis, como Lidivaldo Brito, hoje desembargador, e o procurador José Gomes Brito.

Chico Preto de Nazinha, presente.

Nazinha, sem dúvida.

Eu, ao final de minha apreciação, perguntei - a lembrança é de Cleidiana:

- Por que você não tenta publicar esse trabalho como livro? Ele para mim parece um livro-reportagem.

Me retraio um pouco, mas acho besteira, ela faz um relato pra mim comovente porque a lembrar de meu afeto, de meu carinho, amizade por Chico Preto - bom rever esse depoimento, mais por ela, menos por mim, mais por Chico Preto e ela, mais por Nazinha, menos por mim, se me entendem.

Então, ela relata agora, lembrando daquele dia, espécie de rito de passagem, conta minha intervenção final...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E olha Seo Emiliano José me levando para aquela tarde majestosa para mim. Realmente, um divisor de águas, em vários sentidos......

Rosângela Vieira Rocha: Ele insiste na "sedutora professora". É pra morrer de rir, por Plutão em quadratura com Saturno!

Emiliano José: Rosângela Vieira Rocha Ué, a seduzida pelo seu saber foi a própria Cleidiana... Quantas e quantos outros? Saber, quem há de?...

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Emiliano José

27 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: Carro de som, banda, os escambau,

uma festa de arromba pra celebrar formatura

da filha, orgulho de Chico Preto.

 

Tempo, tempo, tempo.

Estou naquela banca, naquela tarde, discutindo o trabalho de Cleidiana.

Já se passaram 23 anos, não é isso, filha de Nazinha e de Chico Preto?

Estou nessa banca, e ela conta, passado esse tempo todo, como foi.

E como eu havia de me alembrar?

Memória dela, de menina, muito mais viva.

Relembra: depois de eu propor a publicação do trabalho de final de curso em livro, pedi licença à banca pra um procedimento heterodoxo.

Passo a palavra a Cleidiana, recordando meu procedimento:

- Em seguida, pediu licença para ler um recado que havia escrito para o meu pai na sua cópia do trabalho porque não imaginou que ele viria. Era um texto lindo em que ele falava de como os homens são chamados no sertão da Bahia. No caso do meu pai, seria Chico de Nazinha. E dizia muito sobre o papel e responsabilidade que eu teria sendo filha de quem era.  Por fim, ele me sugeria publicar o trabalho.

E ela revela lembrar-se de minha frase final:

- Se não fizer por você ou por Iaçu, que faça por Chico, o eterno sorriso do sertão.

A lembrança me comove, me remete a Chico, aos nossos tantos encontros, ao seu permanente bom humor, sua alegria diante da vida, a serena maneira de fazer política.

Meu escrito sobre Chico Preto se perdeu em meio a uma inundação na casa  de sua tia Genilda, na Caixa D'Água, em Salvador, onde morou por um tempo, até 1998.

Soube: Chico Preto, presente no dia da banca, botou na cabeça a publicação do livro.

- Com que dinheiro, pai?

- A gente dá um jeito.

E com uma filha dessa, um talento desse, pai nenhum regateia: chegada a Iaçu, na  verdade em João Amaro, onde Chico e Nazina nasceram,  é surpreendida por uma festa de arromba.

Culto ecumênico organizado por duas igrejas evangélicas, missa, e um baile no clube de João Amaro, com direito a banda e tudo o mais. Teve carro de som pra convidar o mundo inteiro, ônibus pra trazer gente de Iaçu - a filha merecia tudo isso.

Arrumou dinheiro à base de uma rede de solidariedade.

Ninguém recusava nada a Chico, inda mais pra uma filha como aquela, de tanta merecença.

Era gente saindo pelo ladrão, presente a granel, nunca soube distinguir quem deu o quê.

Não cabia em si de felicidade, sorria como o pai, e mais sorria por vê-lo tão feliz, o eterno sorriso do sertão.

Ela indagou:

- Meu pai, por que tudo isso se a gente está com tanto aperto financeiro?

- Veja: se acha que eu vou formar minha filha em Jornalismo e ficar quieto?... Que nada. E agora é publicar esse livro.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E essas memórias deixam meus olhos tão cheios d´água como meu Paraguaçu....esse Emiliano José...

Isabel Santos: Cleidiana Ramos Eu me emocionei, imagine tu, filha tão amada de Chico Preto e Nazina. Linda trajetória, linda narrativa, lindo tudo. Salve:

Mônica Bichara: Que coisa linda, a merecença de Cleidiana Ramos é indiscutível. Aoooooooonde que Chico Preto de Nazinha ia deixar passar uma comemoração dessa????? A festa era dele e ele merecia, como merece cada emoção que Emiliano José está provocando hoje

Isabel Santos: Mônica Bichara pois é, aoooooonde.

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Emiliano José

28 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: um pai que fazia chover

 

Lembrei-me agora de um livro do Pepetela.

Lueji - O nascimento de um império.

Belo - quem puder, vá atrás.

Nele, percebi muita coisa.

Nosso repare vem de lá, de tempos imemoriais.

Ela sapoiou no braço dele, logologo tafastou, termos estranhos para nós, um

português rico e diferente do nosso.

O importante mesmo era o poder da rainha: ela fazia chover.

Fosse rainha, tinha o poder de fazer chover.

Lembrei do livro e da rainha ancestral por conta de Chico Preto.

Ele, tivesse um desejo, fazia chover.

Foi assim com o livro da filha.

Cleidiana insistia:

- Como, meu pai, com que dinheiro?

Pra quem tem o poder de fazer chover, dinheiro é problema?

- Só um milagre - murmurava a filha.

- É minha filha, a política é o território dos milagres, vá aprendendo.

Revirou céus e terras.

Chuva só vem assim.

Foi a José Amando que foi a Antônio Honorato presidente da Assembleia que tinha

linha de publicações com Empresa Gráfica da Bahia e começou a corrida e

Cleidiana se viu enredada em reuniões na presidência legislativa e cuidando da

edição do livro e ia e voltava da Empresa Gráfica e em agosto de 1998 tudo rápido

lançava o livro.

Aos 23 anos, lançamento na Facom e depois a grande festa em Iaçu, tiragem

esgotada.

Se o pai faz chover, que mais não pode fazer?

Que me desculpem, o carro vai adiante dos bois, depois volto, e os bois voltam a

puxar o carro.

Cleidiana, em agosto de 1998, já estava em A Tarde, foca, mas estava - inda vou

contar isso direitinho.

O jornal fez matéria sobre o livro.

Cruz Rios, diretor de A Tarde, ao receber o convite do lançamento, manda

chamá-la.

 - Porra, que será que eu fiz ? - murmurou com palavrão e tudo.

Nada.

Só alegria:

- Minha filha, você tão jovem e já lançando livro?

Ela suspirou, aliviada.

E sorriu diante da saudação final dele:

- Parabéns.

Nada como ser filha de quem sabe fazer chover.

Herda talento, e ainda tem a proteção.

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

29 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: vacas pastando na cidade,

fuzuê, e o roubo do Biotônico Fontoura.

 

Gabriel García Marquez sustentava: cada linha de seu monumental "Cem anos de solidão" tinha como ponto de partida a realidade. Ele apenas fornecia uma lente de aumento para os leitores entendê-la.

Buscava na vida, em meio às misérias da existência, a beleza, cores, cultura.

O universal está na aldeia.

A vida cotidiana na América Latina está cheia de coisas extraordinárias - era outra constatação dele.

Talento e lente de aumento - só precisou disso, e isso claro não é pra qualquer um.

Ah, e se ele conhecesse Iaçu?

E se tivesse convivido com Chico Preto de Nazinha?

É, novamente devo pedir licença à jornalista Cleidiana - o pai dela me arrasta novamente, um coadjuvante ciumento, insuportável.

Chico estava lá, sossegado em seu mandato de prefeito, quieto na sua Macondo, e começou a se incomodar: as vacas circulavam pelas ruas, como se a cidade fosse delas.

Não queria culpá-las, elas até se esforçavam tirando o capim do meio-fio enquanto deixavam fezes por todo canto.

Não se conformava com a atitude dos donos, incapazes de segurá-las, cercá-las no pasto de suas fazendas.

Baixou decreto: gado não podia circular pelas ruas de Macondo-Iaçu.

Ali não era casa de Mãe Joana.

Edgar Medrado, o todo-poderoso da cidade, com quem os posseiros viviam às turras, garantiu: não tiraria as vacas.

Estavam pastando em suas terras, a cidade incluída.

Chico Preto foi à forra: pediu desapropriação das áreas ditas de propriedade de Medrado em nome do interesse público.

Assunto virou notícia - Iaçu não saía das páginas.

Jornais na cidade, e Medrado nega tudo.

Mas, uma vaca abusada e pouco interessada na pendenga passou em frente a um dos repórteres, assim como quem nada quer, lentamente, rebolando, e no lombo aquela marca mugindo, um M robusto, a indicar propriedade dos Medrado.

Jornais registraram - foto da vaca e da marca.

Medrado, possesso.

Entrou na farmácia de Chico, deu de bater boca, furdunço da porra, houve quem temesse pelo pior.

Por azar, jornal estava na cidade, repórter vendo tudo.

Chico nunca foi mofino, foi pra cima, e Medrado se mandou bufando, repórter querendo saber de Chico Preto como tudo acontecera.

Abriu o verbo, contou tudo, e por fim, debochado, nunca perdia a piada e nem a provocação, informou ao jornalista:

- O pior é que depois que ele saiu dei por falta de uma caixa de Biotônico Fontoura.

O jornal registrou, que jornalista também não perde a piada.

Edgar Medrado faltou morrer de ódio.

É que Biotônico Fontoura tinha então altas doses de álcool.

Gabriel García Marquez não conheceu Iaçu.

Conhecesse...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Paulo Cézar Gomes: Muito bom, como sempre 👏👏👏

Cleidiana Ramos: Um agradecimento especial ao procurador José Gomes Brito que provocou Chico a me contar essa história e eu sabia que o cronista encantador não ia resistir...hahaha...lindo!

Mônica Bichara: Que história sensacional, nosso Chico Garcia Marquez de Nazinha dá cada rasteira em Cleidiana Ramos que ela vai ter que se contentar em ser coadjuvante. Ele rouba o protagonismo sempre que o assunto é Macondo/Iaçu

Carlos Roriz Silva: Legal!

Linda Muniz: Sensacional!!!

Isabel Santos: 👏👏Que maravilha. Amei!

Antonia Garcia: Muito bom!

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Emiliano José

30 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: vontade de entrar em campo, assessoria,

desejo de ser repórter, no meio da caminho tinha uma pedra.

 

Hoje, tal a capacidade dele de ocupar espaço, peço licença a Chico Preto de Nazinha para cuidar um pouco de sua filha Cleidiana.

Estava ainda na Facom em 1997.

Sentia um comichão: precisa estagiar num jornal.

Treino é treino.

Jogo é jogo.

Queria entrar em campo, sentir o friozinho na barriga, emoção do estádio cheio, os olhares voltados pra ela.

É, jeito não: falou com Chico Preto - eis nosso coadjuvante de volta.

Ele conhecia Sylvio Simões, integrante da família proprietária de "A Tarde", sempre situado politicamente à esquerda, candidato a deputado pelo PMDB, depois militante do PSB.

Chico teve uns dois dedos de prosa com Simões.

Cleidiana foi encaminhada para uma conversa com Elieser Varjão, chefe de reportagem do jornal.

Conversa rápida, caceteira, pouco animadora.

Com seu vozeirão característico, Varjão foi objetivo:

- Minha filha, sem diploma, nada feito.

Cleidiana ainda se mexeu na cadeira, fez menção de argumentar.

Varjão não deixou:

- Aqui a gente não recebe estudante. Quando você se formar, volte aqui.

Ponto.

Alguns meses depois, Chico Preto recomenda: ligue para Emiliano José.

Recomendei-a ao redator-chefe do "Bahia Hoje, Oldack Miranda".

- Tenho uma vaga na Revista da TV, com Meire Bahia. Daqui a pouco, surgirá uma vaga em "Cidade" - acenou Miranda.

Ficou apenas três dias - preocupações com o Projeto Experimental a tiraram do jornal, além do fato de ter sido aprovada para estagiar na Assessoria de Comunicação do Ministério Público da Bahia.

Pediu milhares de desculpas a Miranda, e seguiu viagem.

O Ministério Público foi excelente escola, especialmente por ter sido chefiada por Rubens Neuton e Angela Barreto.

Sentiu-se tentada a seguir o caminho da assessoria, tal a qualidade da experiência, mas Neuton desaconselhou-a:

- Você tem jeito de repórter, não deixe isso se perder.

E completou:

- E repórter de revista. Seu texto é para grande reportagem.

Pensou: único caminho é ir para o "Correio da Bahia".

Chico Preto pulou de lá:

- Calma. Você vai é para "A Tarde". Vou falar com Sylvio novamente. Agora você tem diploma.

Dessa vez, chegou à sala de Eliezer Varjão em companhia de Sylvio Simões - olha o luxo.

Adiantou pouco.

Varjão, de estilo inconfundível, turrão, disse não de novo:

- Aqui não temos programa de treinamento para jovens jornalistas.

Concedeu:

- Deixe o currículo...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

Cleidiana Ramos: E ele discorre com uma maestria...gente.

Mônica Bichara: Ele tava lá escondido vendo tudo e anotando. Só pode, né Cleidiana Ramos? Se duvidar ele descreve até o clima q estava fazendo

Isabel Santos: Mônica Bichara kkkkkkkkkkk, esse Emiliano José é DEMAIS. E a gente só curtindo essa sua linda trajetória, Cleidiana Ramos .

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Emiliano José

31 de outubro 2020

Cleidiana Ramos: topando a parada, os primeiros

passos de uma jovem repórter, o friozinho na barriga.

 

Debaixo do sujeito turrão, sempre se esconde alguma ternura.

Ou alguma compaixão, quem sabe.

Na mente de Eliezer Varjão, deve ter permanecido a figura da menina magrinha tão interessada ávida pelo jornalismo desejosa de ter a primeira experiência e ele ali inflexível qual a razão de não lhe dar uma chance?

Coisa de uma duas semanas após a primeira conversa, chama Cleidiana.

Começou quase com ternura:

- Está tudo muito bem: você pode fazer um teste, vamos em frente.

Mas, turrão não perde seu jeito de ser, a verdade é dita sem arrodeio:

- Agora, pra seu controle: não há nenhuma perspectiva de contrato ou remuneração.

Argumentou, quase docemente:

- Sei, é proposta aceita por pouca gente, eu compreendo - disse levantando os olhos, largando a papelada, quem sabe as pautas do dia.

Abriu uma gaveta buscando alguma coisa, e continuou, quase paternal:

- Fosse você, estivesse no seu lugar, aceitaria. Ao menos pensaria nisso.

Alguém o interrompeu, chefe de reportagem é procurado por minuto, e ele então concluiu:

- Você terá a chance de receber um treinamento de luxo.

Os olhos brilharam, a alma em festa.

Não lhe deu um beijo de agradecimento porque pegaria mal.

Claro: aceitou.

Começou no mesmo dia.

Na primeira semana, ao lado da gaúcha Ivete Zhin, gente fina: plantão de redação.

Selecionar notícias entre as tantas informações levadas à redação por pessoas esperançosas de ter o jornal como um mediador para resolver os seus problemas.

Daí surgiam pautas, notas para seções como a de Defesa do Consumidor, muita coisa.

Um puta aprendizado, uma garimpagem exaustiva a lhe mostrar o quanto o jornalismo exige de pesquisa.

No sábado da primeira semana, Ivete Zhin estava de folga.

Varjão chama Cleidiana à sua sala:

- Pela primeira vez você estará sozinha na função. Assuma.

Friozinho na barriga.

- Se surgir alguma coisa digna de ser transformada em matéria, escreva. Aí já avalio seu texto.

Muita responsa.

Final da manhã e aparece um advogado...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita..lembranças de dias mágicos...um começo e tanto..hehe.

Mônica Bichara: Começou o suspense do noveleiro pra deixar a gente ansiosa. Que raio de pauta terá sido? Tchan tchan tchan tchan...... 

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Emiliano José

1º de novembro 2020

Cleidiana Ramos: plantão, um advogado, uma

denúncia, matéria, e ela na rua, fim do treino.

 

Quem não é do ramo não imagina o quanto um plantão pode ser chato.

Pode dar sono.

Claro, tudo pode acontecer, inclusive nada.

O dia corria assim, naquele dia, quando Cleidiana se viu sozinha, assumindo toda a responsabilidade, sem as asas protetoras de Ivete Zhin, a gaúcha parecida com anjo da guarda.

De repente, aparece um advogado

Cês sabem, né?

Advogado, quando esperto, é doido por uma denúncia.

Queria botar a boca no mundo contra a Prefeitura por conta da exorbitância da taxa de iluminação pública.

Mostrou vários documentos que sustentavam a ação a ser movida, não era nada sem sustentação.

Coisa séria.

Puxou da máquina, fez o texto, entregou.

Minutos depois, é chamada à sala de Eliezer Varjão.

Ele não estava.

Deixara recado: dirija-se à sala de Cruz Rios, o diretor de redação.

Doutor Rios - todos o chamavam assim.

Deu tremedeira:

- Acabou meu treinamento - disse de si pra si.

Nada.

Varjão estava lá:

- Esta é a repórter que escreveu o texto.

Alívio.

Gostou ser chamada repórter.

Bom indício.

Rios tinha uma voz baixinha, rouca, não sei se digo fanhosa, e foi logo perguntando:

- Minha filha, você tem os documentos que comprovam essas informações?

De pronto, respondeu sim.

O diretor dirigiu-se a Varjão:

- Pode publicar.

O texto saiu na edição de domingo, e no início da semana virou manchete do jornal, suíte desenvolvida por outra repórter.

No dia do plantão mesmo, Varjão me avisou:

- Você agora entra em nova fase: vai pra rua.

Bendito plantão, bendito sábado, bendito advogado, bendita iluminação.

Na rua, a primeira pauta: campanha do Núcleo de Apoio à Criança com Cãncer.

A segunda, para jamais esquecer: um livro de Ana Alice Costa, do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher (Neim), da UFBA.

Jamais esquecer por conta da grandiosidade de autora, falecida em 2014.

As duas matérias no mesmo dia, publicadas na íntegra, e assinadas.

Quando ligou pra Chico Preto, o pai faltou explodir de alegria enquanto gritava pra Nazinha vir também saber da notícia.

Começava a vida jornalística.

Fim do treino...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

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Cleidiana Ramos: Assim mesmo...não tem aventura maior que vida de repórter.

Mônica Bichara: Agora o baba é à vera , acabou a moleza. 2 ou 3 pautas por dia, sai de uma na lama e vai pra outra num hotel 5 estrelas, sapato sujo e suor escorrendo.....Mas repórter q é repórter é disso q gosta. E a fia de Chico Preto de Nazinha tava só engatinhando. Em grande estilo

Jaciara Santos: A primeira pauta como repórter ninguém esquece...

Isabel Santos: Não era pra menos a alegria de Chico Preto. Tudo se concretizando na vida escolhida pela querida e aguerrida filha...Uma estrela despontando no céu do Jornalismo baiano. Que figura Ana Alice Costa, hein, Cleidiana Ramos? Tinha muita admiração e respeito por ela.

Cleidiana Ramos: Isabel Santos sim. Uma grande.

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Emiliano José

2 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: entre berros e trovoadas, jovem repórter atravessa os primeiros dias, e começa a respirar.

 

Vida de repórter não é fácil.

Menos ainda se sob um chefe de reportagem cuja rotina era a bronca.

Eliezer Varjão era assim.

Broncas homéricas - era o dia a dia dele.

Quem estivesse iniciando então, que segurasse a onda.

Nunca fui admirador dessa pedagogia.

Também fui pauteiro, chefe de reportagem, editor.

Preferia conversar, explicar, chamar para o diálogo.

Mas, são estilos - e cada um tem o seu.

Cleidiana revela ter sobrevivido aos primeiros 15 dias sob as chuvas e trovoadas de Varjão.

Não imaginava fosse assim.

Mas era.

Um dia teve de buscar forças no fundo da alma para não chorar.

- Segurava o choro, e dizia-me, não vou ceder, não vou ceder, não vou dar esse gosto a ele.

E Varjão berrava:

- Como não conseguiu cumprir a pauta? Repórter tem fonte.

Ela, retendo o choro.

Ele, elevando o tom:

- Não lhe ensinaram isso na faculdade, não?

Ela, engolindo choro, nada de lágrimas.

Compadecida, a doce e gentil Sônia Araújo veio socorrê-la: abriu sua vasta agenda e passou as duas fontes de que necessitava.

Uma hora depois, digitava o texto.

Viu o grande Varjão postar-se ao seu lado, é, ele era grande, muito alto, e forte:

- Conseguiu?

- Sim, estou quase terminando - respondeu.

Talvez, quem sabe, tenha querido amainar a explosão:

- Que ótimo. Tá aprendendo.

Nem tudo, no entanto, são broncas.

O próprio, ele, Varjão, uns dois dias depois, com seu vozeirão característico, disse, dirigindo-se a ela, pra todo mundo ouvir:

- Consegui um dinheiro aí pra lhe pagar. Não é o contrato. Mas, é o pagamento de um mês.

Era como fosse no sertão, como se em meio à seca a chuva chegasse, alegrando o pobre, o rosto se abrindo num sorriso.

A sorte ensaiava aproximação, uma piscada ao menos.

Começou a pintar mais boas notícias.

Estava atenta, olhar à máquina, quando um copidesque, o mais temido pela redação, Luiz Augusto, postou-se ao seu lado e perguntou:

- Você é Cleidiana?

- Sou - respondeu, ressabiada.

Todo mundo temia qualquer copidesque.

- Me disseram que você é recém formada. Fiquei bobo porque você tem texto final. Isso é raro. Parabéns. 

Brito Cunha, veterano e solidário, aconselhou-a:

- Comemore, minha filha. Luiz Augusto é extremamente rigoroso.

Foi às nuvens.

Tempo de seca indo embora...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

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Cleidiana Ramos: Eita, moço...tanta gente querida nessa saga: Sonia Maria Araujo, Eliezer Varjão..(saudade danada, porque debaixo do estilo sargentão tem um coração doce), Roberto Vicente (foram muitas risadas..uma figuraça)..E tem as figuras tão queridas que já partiram: Brito Cunha, que me acolheu desde o primeiro dia ao lado de Pedro Souza e Luiz Augusto, o copidesque conhecido com "mãos de tesoura". Figuraças....

Paulo Cézar Gomes: Só o Emiliano para ter tão precisas e generosas lembranças.

Emiliano José: Paulo Cézar Gomes Fruto de rico depoimento da própria Cleidiana. Vou organizando. Obrigado, meu velho 

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Emiliano José

3 de novembro

Cleidiana Ramos: um chamado, doce sargentão, e olho da rua, salve rainha mãe de misericórdia.

 

Chove muito em Salvador.

Há dois dias fazia sol.

O tempo e a vida.

Quando menos você pensa, tudo muda.

Quem pensa em linha reta, desista.

A vida é estrada cheia de curvas.

Viver é arriscoso.

Cleidiana estava em estado de graça.

Coisas boas acontecendo.

Mundo divino maravilhoso.

Três dias para o mês se acabar, e Varjão chama.

Chegou à sala dele, sentou.

Sempre com algum temor.

Todo repórter tremia quando era chamado àquela sala.

Qual a bronca dessa vez?

Levou um susto: mostrava-se surpreendentemente doce.

A quem duvide quando relata hoje, ela diz jurar pela Virgem Maria e pelos orixás.

Doce - Varjão cheio de ternura:

- Olhe, desde que você chegou aqui, eu a treinei e testei de todas as formas, e gostei do que vi.

Cleidiana, surpresa.

Mas, pensou, aí tem é coisa.

Tinha.

Ele prosseguiu:

- Apareceu uma vaga, eu a indiquei, mas, veja bem, você sabe, as coisas não são fáceis, havia muita confusão em torno dessa possibilidade, e eu não tive chance de brigar.

Começou a entender:

- Vou ter mandá-la embora.

Um soco no estômago.

Como seca no sertão quando irrompe trazendo angústia, fome, desalento, gado morrendo, crianças com fome.

Era verdadeira a doçura de Varjão, não era teatro:

- Você está apta a trabalhar em qualquer jornal do País.

Abriu uma gaveta, puxou texto lá do meu começo, mostrou anotação de Cruz Rios elogiando a matéria.

Sentiu o olhar de compaixão dele, e depois as palavras de conforto:

- Não desista. Deixe os seus contatos. E cumpra seus três últimos dias.

Um dia pra jamais esquecer.

A tarde inteira chorando, em orações.

Recolhida na Igreja de Nossa Senhora da Piedade - ela, ex-quase-freira, quase conversando com Maria, salve rainha mãe de misericórdia.

Maria, mãe, sempre algum conforto.

Chorar, ajuda.

No último dia, Varjão ainda fez a recomendação de tentar uma vaga aberta na "Folha Dirigida", jornal especializado em concursos.

Estava de fato triste por me dispensar - o sargentão não era tão insensível como queria parecer...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

4 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: arrumando as tralhas, curtindo tristeza, e uma surpresa.

 

Noite da demissão, casa de José Amando, onde estava morando, arruma suas tralhas lentamente, deixando ainda escorrer as lágrimas.

Juntava tudo o que tinha, e seguia de volta para o colo de pai e mãe.

Nada melhor nessas horas.

Dia seguinte, de carona com José Amando Júnior, olha a paisagem, absorta, o pensamento busca caminhos, perguntas rodopiam no cérebro.

Pensava, quase deixava escapar palavras:

- Tudo estava indo tão bem... - reflexão dolorida, frustração.

A vida ensinando.

Gentil, José Amando Júnior deixou-a em Iaçu, e depois seguiu para Itaberaba, onde os pais dele moravam.

Chico e Nazinha haviam viajado, e ela ficaria até o início da noite na casa da tia Cecé, sua segunda mãe.

Mal botou o pé na sala, e a prima-irmã Neuza Rebouças deu a notícia:

- Ligaram do jornal. Disseram pra você retornar assim que puder.

Coração na boca, liga pra Sônia Araújo, e ela, voz alegre:

- Olhe, Varjão saiu, mas pediu que ligue para o celular dele.

- Sim, mas o que é? - perguntou Cleidiana, ansiosa - e quem não estaria?

- Minha amiga, eu até sei do que se trata, mas melhor saber por ele mesmo.

Que fazer?

Coração descontrolado. 

Liga pra Varjão, ouve o vozeirão:

- Minha filha, onde você está?

- Em Iaçu.

- Onde fica isso? - perguntou.

- Na Chapada.

Ele, voz preocupada:

- Longe que só a porra. Como faz pra você voltar?

Ela, incrédula:

- Voltar?

- É... Voltar.

Pequena pausa, prossegue:

- Doutor Rios mandou te contratar. Trate de vir logo. Viajo na segunda-feira, mas não se preocupe: Matos vai cuidar de tudo...

Antonio Matos, um caráter de primeira e grande profissional.

Não cabia em si de alegria.

Como a vida dá voltas, não?

Voltou...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Mônica Bichara: Espertos, souberam reconhecer que iriam perder uma excelente profissional

Paulo Cézar Gomes: Título do capítulo: "A volta da 'que não foi' "...

Emiliano José: Paulo Cézar Gomes Obrigado 

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Emiliano José

5 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: verga mas não quebra, a vida quer é coragem, contratada, língua-solta despaginado.

 

O ônibus seguia lento.

Mais do que gostaria.

Pensava na viagem do dia anterior.

Como fora triste.

Como se o destino lhe fosse ingrato.

E agora na volta para Salvador, o coração aos pulos, feliz.

A vida ia lhe ensinando.

Não há mal que sempre dure.

Só é preciso saber enfrentar.

Quis lembrar Guimarães Rosa:

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta, o que ela quer da gente é coragem.

Havia aprendido isso no sertão de Chico Preto e Nazinha, pais e mestres.

O ônibus, lento.

Por que não corre mais?

Arriou as malas.

Contratada.

Carteira assinada em primeiro de junho de 1998.

Não conhecia os bastidores daquele acontecimento.

Por que mesmo houvera aquela reviravolta?

Um dia, durante almoço de confraternização, algum tempo passado, um colega sem papas na língua, foi duro com ela:

- Você entrou no jornal pela janela. Só porque era indicação de Sylvio Simões.

Doeu.

Mas, quem mais se aborreceu foi o sargentão.

Deu ruim.

Eliezer Varjão reagiu de pronto, e quase o almoço azedou:

- Não fale besteira. Ela entrou pela porta da frente. Eu pessoalmente treinei Cleidiana, e fiz de forma muito dura, talvez mais do que devesse. Se ela não tivesse competência e resistência não tinha ficado.

O língua-frouxa, meio desinchavido, despaginado.

Admitiu: Cleidiana foi apresentada por Sylvio Simões.

Mas reiterou:

- Quem a moldou para o dia a dia da reportagem, fui eu, e ela correspondeu mais do que se esperava.

Todos silenciosos no almoço e ele explicando.

Cleidiana era destinada a uma vaga de outra editoria, a de Economia, mas o editor não aceitou, queria gente com especialização.

Varjão explicou a Sylvio Simões:

- A menina é boa, está pronta, mas não foi aceita na única vaga disponível.

Cruz Rios e Sylvio conversaram e resolveram abrir uma vaga na Reportagem Geral.

Varjão, pai da criança, comemorou:

- Além de ter acertado no treinamento, saí no lucro porque ganhei uma nova vaga e uma excelente repórter.

Iniciava-se uma nova e duradoura etapa na vida, desinquieta...

 #MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita..lembranças e reaproximações. Falei com Antonio Mattos ontem. 😀

Rozana Burgos: Dai - lhe emoção !!! 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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Emiliano José

6 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: jovem, mulher e negra,

saltando obstáculos, carinho e gratidão.

 

Já quase chorou diante das broncas dele.

Segurou as lágrimas pra não ceder, não lhe dar gosto.

Mas, tem por ele carinho e gratidão.

Não, não é masoquismo.

É o olhar sob outras perspectivas.

Eliezer Varjão, talvez, não obstante jamais tenha confessado,  tenha se chateado por Cleidiana ter chegado à sua sala pelas mãos do diretor Sylvio Simões.

Redação não gostava dessas coisas.

Aí, castigou, exigiu, gritou, deu todas as broncas, esticou a corda.

Quase a dizer vamos ver se a menina aguenta o repuxo.

Quando peneirou peneirou e descobriu ouro, não quis deixar escapar, que não era besta.

E quando disseram entrou pela janela gritou falou dos méritos da grande repórter revelada ali debaixo do seu treinamento tinha de reconhecer às vezes rigoroso demais.

Carinho e gratidão porque o caminho era áspero, e ela, lutando, teve o reconhecimento dele.

Verde que te quero verde, verdes 23 anos, sem ter passado por nenhum jornal.

Jovem, mulher, negra.

A gente sabe, ela diz hoje: como são duras as barreiras quando se unem essas três condições, mais as duas últimas.

E isso num jornal de corte essencialmente conservador.

Num tempo de redações marcadamente machistas, sexistas, para lembrar dois ismos.

Tempo ainda presente.

Há ilusões, mesmo entre jornalistas, sobre ilhas imunes a tais preconceitos.

Não existem ilhas.

O jornalismo é parte da sociedade brasileira, cuja existência é marcada por mais de 300 anos de escravidão, com sua crueldade, com o patriarcado.

Por tudo isso, ao se lembrar de como Varjão abraçou-a ao sentir suas qualidades, tem por ele carinho e gratidão.

Aquele Primeiro de Maio de 1998, simbólica data, foi o ponto de partida de 17 anos de caminhada, dura e rica caminhada pela exuberante floresta da reportagem, quando muitas vezes sentiu-se sozinha na escuridão, afastando os galhos, aproveitando cada raio de luz, arranhando-se nos espinhos, para reencontrar-se, e reencontrando-se sempre.

Essa caminhada encerrou-se em 7 de dezembro de 2015.

Encerrou-se?

Nada.

A reportagem será sua vida.

Sempre.

No jornal ou fora dele.

Logo no início da caminhada apareceu o doutor Fritz em sua vida...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Que lindo, Emiliano José. Como sempre.

Marlon Marcos: Bravo. Sempre!!!!

Paulo Cézar Gomes: Craque das palavras! Camisa 10 do jornalismo e da literatura! 👏👏��

Paulo Cézar Gomes: Parabéns Cleidiana Ramos por essa linda trajetória contada com tanto prazer pelo nosso amigo Emiliano José.

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Emiliano José

7 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Teologia da Libertação, As Brumas de Avalon, Doutor Fritz, cobrança de consultas.

 

Varjão não a conhecia bem.

Foi um colega de Cleidiana, mais tarde amigo-irmão, José Bomfim, o inconfidente:

- Olha, chefe, veja com quem está lidando: a moça aí não foi freira por pouco muito pouco, quase religiosa sacramentina.

Não é que o sargentão gostou da dica de Brown, como Bomfim era chamado?

A partir dessa informação, era surgir pauta sobre religião, e pimba: caía nas mãos dela.

Numa mesma manhã de domingo, viu-se às voltas com três pautas: uma missa, um congresso da Seicho No Ie, um encontro de Testemunhas de Joevá.

Era assim, rotina.

Gostava.

A experiência com as sacramentinas, tornou-a uma obcecada: procurava sempre saber mais e mais sobre religiões.

No interior, tempo de menina, a Teologia da Libertação ainda tinha prestígio, ao menos com alguns religiosos.

À memória, saltam as figuras do bispo dom Alair Fernandes e do padre João Antônio Lizarraldade, vinculados às ideias progressistas, fundamentais no apoio às lutas dos trabalhadores rurais sem terra de Iaçu nas disputas com a família Medrado.

Chico Preto tinha relações de amizade e cultivava admiração por dom Alair e por dom João Nilton, sucessor dele, embora não fosse religioso.

Desde menina, Cleidiana lia sobre religiões.

Com derivações, como a leitura de "As Brumas de Avalon", quando os olhos se abriram para a questão de gênero no catolicismo.

A Bíblia, livro considerado por mim como um monumento da cultura mundial, é vista também por Cleidiana como literatura, história, antropologia, não obstante de fé, e a fé não costuma faiá.

E aí chegamos ao Doutor Fritz.

Caiu em suas mãos acompanhar uma cirurgia mediúnica intermediada pelo Doutor Fritz.

Na matéria, fazia dupla com o repórter fotográfico Wilson Besnosik, de excelente astral, constante bom humor.

Chegados ao local, Cleidiana começa a entrevista com a pessoa que incorporava o famoso espírito Doutor Fritz.

Seus critérios éticos impedem-na até hoje de revelar detalhes.

Como entendia muito pouco do espiritismo, a entrevista foi longa - queria entender tim tim por tim.

A pessoa fica consciente enquanto a cirurgia acontece?

Por que a consulta é cobrada se a caridade nessas práticas é essencial?

Ela ouvindo as respostas e fazendo contas.

A consulta custava R$30,00.

Olhou o entorno: o arrecadado ali correspondia ao salário dela no mês.

Não era pouco...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Veja como ele "futuca" as memórias..um bruxo esse Emiliano José...

Mônica Bichara: E Brown cutucando, dando dicas fabulosas, o faro jornalístico aguçado ......Sei não, viu, essas memórias dão um livro sozinhas

Cleidiana Ramos: Brown não é graça...foram vários "cutucões"...hahaha... 

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Emiliano José

8 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: respeito às religiões, a primeira dúvida, Doutor Fritz e câncer de próstata.

 

Perguntava com genuíno interesse.

Tinha pelo espiritismo uma curiosidade especial: trata-se de uma prática considerada religião pelos seus seguidores, mas utiliza a linguagem científica.

E ela, à época, ainda não havia lido o Livro dos Espíritos.

Por isso, tantas perguntas.

Podiam até parecer desrespeitosas, podiam até insinuar alguma ironia.

Mas, não tinha nada disso.

Queria apenas entender como se dava a incorporação do espírito do Doutor Fritz.

Religião carrega a marca da fé.

As pessoas acreditam, e ponto.

Então, à repórter não cabia, não cabe, desenvolver juízos a partir de suas convicções, de sua específica visão de mundo.

Agia assim.

Queria apenas entender a cobrança pela cirurgia.

Amigos, amigas espíritas haviam garantido ser uma regra nada cobrar por tratamentos espirituais.

Que fosse.

De repente, ela não compreendeu algo dito pela fonte.

Perguntou de novo.

A assistente informou: é o Doutor Fritz.

Cleidiana se envolve tanto com a apuração, descarrega tanta adrenalina e vai tocando o bonde pra Lapinha.

Não se assusta nem com o inusitado.

É uma maneira de se proteger, de extrair o melhor das histórias talvez.

Doutor Fritz olhou para o fotógrafo Wilson Besnosik, e falou:

- Eu já o vi antes. Mas você era bem mais novo.

A desconfiança se instalou entre Cleidiana e o fotógrafo: Wilson havia dito à pessoa ter estado ali antes, e ambos haviam ouvido não haver transferência de consciências.

Que seja.

Vida que segue, e o Doutor Fritz os convida a assistir suas cirurgias.

A primeira, retirar um câncer de próstata.

Dele, Cleidiana recebera a explicação: nas cirurgias, não havia incisão, o bisturi era usado apenas para marcar o local atingido pela doença.

O paciente fez uma careta de dor quando do contato do bisturi com a pele.

Ela estranhou, estava muito próxima, houvera apenas um leve arranhão.

O Doutor Fritz fez mais duas marcações, colocou o curativo, deu alta ao paciente.

- Próximo - ele chamou.

Cirurgia de catarata.

Um senhor na faixa dos 80 anos...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: ele, Emiliano José, estava lá..não é possível..😍

Mônica Bichara: Cleidiana Ramos ele tem esse poder, os mínimos detalhes

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Emiliano José

9 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: bisturi mal cuidado,

propaganda, a matéria sobre os trinta dinheiros.

 

Chamou o próximo.

Doutor Fritz foi obrigado a esperar um pouco.

O paciente, na faixa dos 80 anos, recebeu uma ligação no telefone fixo.

Do próprio Doutor Fritz, Cleidiana ouviu a explicação: era a filha dele, tentando dissuadi-lo da cirurgia.

Logo, começou.

Cleidiana foi surpreendida: o mesmo bisturi do procedimento anterior foi mergulhado em água, e manipulado na parte interna da pálpebra do paciente.

Wilson, repórter atento, acionava sua câmera, não perdia um lance.

Cleidiana, olhando tudo, percebeu o quanto o fotógrafo ficou vermelho: ele levou um choque vendo o bisturi se mover sob a pálpebra do paciente.

Em qualquer pessoa seria um choque, quanto mais num idoso.

Terminada a cirurgia de catarata, Doutor Fritz passou a um menino com psoríase.

Cleidiana e Wilson perguntaram à mãe sobre o diagnóstico:

- O problema vai e volta, e os médicos dizem que é de fundo emocional.

Doutor Fritz, inconformado, retrucava:

- É sempre assim quando não conseguem explicar.

Recomendou um tratamento, não realizou cirurgia.

Já estavam os dois no carro de volta à redação, quando chega a assistente correndo: pede o retorno deles para conversar com Doutor Fritz.

Cleidiana imaginou fosse algum pedido para não mostrar alguma coisa.

Nada.

Queria apenas saber se ela havia anotado corretamente os dados do centro, especialmente endereço e telefone.

Não, nem ela nem Wilson gostaram do que viram.

A incorporação e a utilização de conversa anterior, o lado comercial, a cobrança, a insistência na divulgação.

Não havia nisso qualquer desrespeito à religião.

Apenas a observação da repórter.

Em toda religião, há os seguidores dos preceitos e os aproveitadores.

Contou tudo a Varjão.

Ele, do alto de sua experiência, orientou:

- Você não tem que fazer propaganda de nada. Repórter, reporta. Ponto. Conte o que viu.

Cleidiana contou tudo, revelou dúvidas, o incômodo com a manipulação do bisturi em tempos de doenças infecciosas como HIV e Hepatite B, a cobrança pelas consultas.

Não levava muita fé na matéria.

Talvez nem seja aproveitada - pensou.

Enganou-se.

Dois dias depois, estava lá, no alto da página 3, título indicando "Doutor Fritz operando a R$ 30,00".

Na redação, enfrentava gozações:

- Doutor Fritz vai lhe fazer uma visita...

Não perdeu o respeito pelos espíritas por conta disso.

Religião é um mundo complexo e na sequência dessa matéria ainda vai se defrontar com mistérios  em sua vida, até hoje não desvendados.

Até porque mistérios...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Assim mesmo..tal e qual. Esse Emiliano José.....

Paulo Cézar Gomes: Emiliano: olhos, ouvidos, memória, sensibilidade, inteligência e palavras. Uma máquina de saber contar tudo!

Emiliano José: Paulo Cézar Gomes imerecido, mas obrigado, amigo

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Emiliano José

10 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: interlocução com jovens médiuns, cumprimentando espíritos, descobrindo índios em sua vida...

 

Depois do encontro com Doutor Fritz, bem mais tarde, ainda vai defrontar ainda com a religião espírita.

Pouco antes de sair do jornal, em 2015, fez matéria especial para a revista "Muito".

A editora era Kátia Borges.

O fio condutor, a saga de jovens médiuns.

Eis novo mergulho no mundo dos espíritas.

Conheceu algumas, alguns.

Uma delas, com 18 anos.

Tranquila, não convidou Cleidiana para presenciar nenhum tipo de "manifestação".

Olhava curiosa para aquela menina, sentia a segurança dela.

Falava serenamente do significado de ouvir e conversar com pessoas que já haviam partido desse mundo.

Não denotava nenhum deslumbramento.

Revelava apenas sua preocupação em auxiliar quem estava em busca de respostas para sua perda.

Outro médium, enquanto conversava com ela, revela a aparição de dois espíritos.

Um, seu mentor, ou um deles - Cleidiana o cumprimentou respeitosa e educadamente quando o seu interlocutor apontou a direção de sua presença.

O outro, um indígena, sobre o qual acrescentou:

- Ele tem alguma relação com você.

Ela ainda tenta relacionar as coisas.

A primeira experiência, com o Doutor Fritz, chegando ao jornal, início da jornada jornalística em "A Tarde".

A segunda, com os jovens médiuns, na despedida.

Como explicá-las, como ver a presença delas em sua vida?

Mistérios.

Ainda não decifrados.

Talvez nunca o sejam.

Jornalismo tem dessas coisas.

E chega o momento em que o candomblé desponta em sua vida, sem pedir licença, para nunca mais deixá-la, no já distante ano de 2004.

Recebeu a pauta: Terreiro de São Jorge Filho da Goméia...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Maravilhoso, como sempre. 🥰

Isabel Santos: Sim, e sua história também. Neste Terreiro, Cleidiana Ramos, fui com Anízio C. Carvalho, o nosso grande, excelente... e querido fotógrafo, quando era repórter do JBa. Com a trajetória dos colegas, Emiliano José sempre nos faz relembrar nossos momentos no Jornalismo. É tão bom. Sempre darei Vivas ao #MemóriasJornalismoEmiliano.

Carmela Talento: Isabel Santos é verdade Bel

Jose Jesus Barreto: Isabel Santos papai Anízio. Sempre tomo a bênção.

Cleidiana Ramos: Isabel Santos ..Anízio Carvalho..o.grande. Concedeu-me uma generosa e linda entrevista para a dissertação de mestrado. E conviveu com grandes figuras do candomblé como Olga de Alaketo e Eduardo Ijexá..

Isabel Santos: Jose Jesus Barreto É uma benção podermos fazer isso, né, querido Barretinho? . Bjos.

Isabel Santos: Cleidiana Ramos é um acervo de memórias., e com uma memória de fazer inveja a muita gente jovem. Merece todas as nossas homenagens....

Isabel Santos: Carmela Talento Fomos privilegiadas em conviver de pertinho com ele, essa fera das lentes, né, Carmelita? 

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Emiliano José

11 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: São Jorge da Goméia, Mameto, nações do candomblé, resistência, aprendizado.

 

Ano de 2004.

Matéria confiada a Cleidiana, o reconhecimento  como bem cultural do Terreiro São Jorge Filho da Goméia pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC).

Casa já inscrita nos anais da história da religião afrodescendente, fundada por Mirinha do Portão, filha de santo do célebre Joãozinho da Goméia.

Todos anos anos a Bahia é brindada com o desfile do Bankoma, bloco do terreiro.

Lá foi ela, lápis e papel à mão.

A conversa foi com a Mameto Lúcia Neves, liderança do terreiro então.

Estava feliz, a Mameto.

Afinal, era o reconhecimento de uma bela, consistente trajetória.

Mãe Mirinha, sempre lembrada.

Quis saber, que repórter é bicho curioso:

- Qual a divindade que rege a Casa?

- Gongobira - respondeu a Mameto.

Deu um nó na cabeça:

- É um orixá?

- Não, é um inquice - explicou.

A cabeça, um turbilhão.

Cada vez entendia menos.

Seguiu, não obstante:

- Por que a chamam Mameto?

- Por que a Casa é tradição angola.

Repórter é isso: são as dúvidas, as inquietações a levá-lo pra frente.

Repórter é alimentado por sustos.

A partir dessa desconcertante entrevista, Cleidiana iniciou uma longa jornada destinada a compreender o candomblé, muito além de sua ignorância, muito mais diverso, muito mais rico.

Foi compreendendo.

Na Bahia, há quatro nações: angola, ijexá, ketu e jeje.

Cada uma carrega um conjunto de saberes de civilizações africanas, saberes reconstruídos e renovados em solo brasileiro, parte essencial da resistência ao escravismo colonial, integrantes do que o grande historiador baiano João José Reis chama "heroísmo prosaico de cada dia".

A língua do canto e da reza indica a origem da nação, e evidencia o quanto a religião, a cultura são poderosas face à violência da escravidão...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Grande! Perfeito. Assim mesmo...

Mônica Bichara: olha essas memórias, Apio Vinagre Nascimento 

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Emiliano José

12 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: africanês, rodando a baiana,

construindo glossário sobre o candomblé.

 

A partir daquele encontro com Mameto Lúcia Neves do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, Cleidiana passou a levar em conta, sempre, as diferentes tradições do candomblé, a respeitar as diversas nações.

Usava sempre os titulos equivalentes.

Yalorixá, liderança feminina em terreiro Ketu.

Mameto ou Nengua de Inquice, liderança feminina em terreiro Angola.

E sempre observava o título correspondente em terreiro Jeje.

O pensamento dominante não é coisa fácil de desmontar, no entanto.

Um dia, Cleidiana é chamada por uma de suas chefias.

Nas reuniões de fechamento do jornal, houve uma reclamação.

Disseram: essa repórter está escrevendo em africanês.

Decidiram: ela deverá a partir daqui grafar simplesmente "Mãe-de-santo", e ponto final.

Cleidiana rodou.

Soltou os cachorros.

Rodou a baiana.

Lembrou-se de um chiste do povo de Oxum, de quem tem a sorte hoje de ser filha e iniciada para o seu sacerdócio: água mansa também afoga.

Normalmente calma, sorridente, parecia outra diante daquela reclamação.

Não aceitava aquela imposição.

Que porra é esta?

- Se eu chamar o prefeito de vereador, o mundo desabaria sobre minha cabeça, não?

Soltava fogo pelas ventas:

- Por que com as pessoas do candomblé a gente vai ter que utilizar o título que os sabe-tudo do jornal querem, e não o correto?

Disse coisa que até Deus e os orixás duvidam, nem se reconhecia naquela explosão...

Sorte ter na chefia direta pessoas como a jornalista Marlene Lopes.

Mulher, negra, sensível.

Conversou pacientemente com Cleidiana, dialogou, ouviu, e propôs:

- Você vai elaborar um glossário, onde estará o conceito de nação, a diferença entre as várias nações, e por que as autoridades do candomblé devem ser nominadas de acordo com tais tradições. Assim, nós resolvemos a pendenga.

Até a saída dela de "A TArde", o glossário elaborado por ela foi respeitado. 

O pessoal do candomblé, feliz.

E ela, dando aulas, sempre insiste: repórter nunca deve ter vergonha de revelar sua ignorância, suas dúvidas sobre qualquer assunto.

É a melhor maneira de aproximar-se da verdade, não dar informação errada.

Assim, perguntando a Mameto Lúcia Neves, abriu uma vasta estrada de conhecimento sobre o candomblé, a persistir até os dias atuais...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Esse Emiliano José tem é arte, não é Mônica Bichara? Menina..olha como ele tira as coisas da gente..hehe

Mônica Bichara: Cleidiana Ramos ele faz malabarismo e descobre tudo, nem bola de cristal contaria tantos detalhes. Agora q virou imortal, então......

Isabel Santos: Cleidiana Ramos Ele é demais. Cabra bom de criatividade, com leveza, poesia... sem sair do tom. Gostei da sua garra em bater o pé firme na sua posição, que gerou o glossário. Parabéns. Bjos

Isabel Santos: Mônica Bichara ha, ha, ha.

Apio Vinagre Nascimento: Grato por me marcar Mônica Bichara. Emiliano, com sua habilidade ímpar, consegue, num só texto demonstrar a força, a firmeza e respeitabilidade de Cleidiana, como também delinear uma das características de minha mãe, Mam'etu Kamurici da Goméia (Mãe Lúcia), que é a profunda habilidade de despertar em cada um (a) de nós o pensar crítico, o olhar aguçado para as coisas do mundo, das energias, do tempo. Gratidão Emiliano José. Você é um gigante e me dá uma honra enorme de ser seu contemporâneo. Abraços.

Mônica Bichara: Apio Vinagre Nascimento pois é, sabia q vc ia gostar. E segue a saga de Cleidiana Ramos no jornalismo e nos mistérios da vida. Bela trajetória

Carlos Roriz Silva: Parabéns!

Mônica Bichara: Apio Vinagre Nascimento 

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Emiliano José

13 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Macondo e sua límpidas águas, o trem de ferro, os Medrado e a criação de uma cidade pra chamar de minha.

 

Macondo era ainda pequena.

Claro, exibia mais de vinte casas de barro e taquara ali às margens daquele rio de águas diáfanas, correndo por aquele leito de pedras polidas, brancas e enormes como fossem ovos pré-históricos, e ninguém garante não fossem.

Permitam a licença poético-literária, dada pelo próprio Gabriel García Marquez: ao escrever sobre Macondo.

Tratava das milhões de aldeias e povoados dessa América Latina esquecida e espoliada, habitada por sonhos, misérias e esperanças.

Iaçu não tinha os 21 mil habitantes de hoje.

E o Paraguaçu, seu rio, ainda tinha águas límpidas e pedras brancas, milenares marcas do tempo.

Era possível ver o fundo, olhar os peixes e suas cores, desfilando, exibindo-se com garbo, elegância.

Corria o ano de 1964, tenebroso ano.

Melhor Macondo ficasse à margem dos tenebrosos acontecimentos que abalaram o Brasil nos idos de abril daquele ano.

Mas, não.

Iaçu também foi arrastado pelo turbilhão, pelo golpe.

Podia ficar como aldeia, uma simples aldeia, a escutar de noite o murmúrio das águas, os mais velhos ensinando os mais novos os nomes das estrelas, assim como Nazinha faria mais tarde com Cleidiana, ela descobrindo o universo pela voz macia da mãe

Podia ficar como na origem, a tão pacata Iaçu:

"Na entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia Macondo e outro maior na rua central que dizia Deus existe. Em todas as casas haviam escrito lembretes para memorizar os objetos  e os sentimentos."

Nada.

Chegava o progresso.

O trem de ferro.

Quando essa máquina chegava, em qualquer lugar do mundo, mexia com tudo.

Para bem e para o mal.

De longe, diria para o bem.

Outros se persignarão, Deus nos livre e guarde, e dirão para o mal.

Leitores mais impacientes, leitoras mais agoniadas, eu sinto, começam a me cutucar, e a perguntar, e daí?

Vivemos tempos de ir direto ao ponto, dispensar essas coisas da imaginação, o tempo ruge e urge.

E eu levo essa terrível mania de soltar o pensamento.

Ele me leva, sou carregado aqui pelas águas mágicas do Paraguaçu, testemunha de tudo que digo, podem perguntar a elas.

Iaçu foi emancipado em 1958.

Os Medrado perderam eleição em Santa Terezinha, onde eram senhores de baraço e cutelo.

Iaçu era distrito de Santa Terezinha.

Para compensar a derrota, moveram céus e terra e criaram outra cidade para eles.

E surgiu Iaçu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Aff. Assim eu não aguento: Iaçu, Macondo e Garcia Márquez na mesma equação...Emiliano José, que presente!

Isabel Santos: Cleidiana Ramos Presentaço mesmo, querida. Quem manda ter essa trajetória iluminada? E que Emiliano José continue deixando o pensamento a solto, voando livre. Só temos a ganhar. É uma criatividade de fazer a gente marejar os olhos....

Cleidiana Ramos: Isabel Santos nem me fale..todo dia cai um cisco no olho da de cá 😉

Isabel Santos: Cleidiana Ramos rsssssss E muitos ainda cairão.  

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Emiliano José

14 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: olha o trem chegando, olha o

trem partindo, olha os tropeiros na caatinga.

 

Pede-se licença às leitoras, aos leitores, especialmente aos mais velhos, a quem o respeito é mais devido.

E pede-se licença para, antes de falar em Wladimir Pomar, tratar um pouco do trem.

Essa máquina de ferro, onde chegava, assustava.

E deslumbrava.

Era o progresso.

A velocidade capitalista.

Máquina desbravadora.

Imaginem: o trem chegou a João Amaro, o maior distrito de Iaçu e local de origem do município, ali pelo final do século XIX.

Fazia parte da ligação Cachoeira-Chapada Diamantina.

Daqueles ermos, ainda não era o município de Iaçu propriamente, o trem de ferro seguia para as Minas Gerais, até Montes Claros.

Conta-se, e parece verdade: a estação de João Amaro, não mais em operação, é a mais antiga da Chapada, olhem o tesouro perdido nos sertões.

E foi construído o ramal João Amaro-Iaçu.

Os tropeiros, montados em seus cavalos, rebenque nas mãos, espora pra apressar, roupa de couro pra atravessar caatingas povoadas por espinhos traiçoeiros, tangendo gado por léguas e léguas, levando mercadorias de um canto a outro com suas tropas de mula, viram as distâncias se encurtarem.

A vida mudou.

Era descarregar as mercadorias na estação, e voltar para outros afazeres, que a vida requer trabalho e coragem.

Nada mais de atravessar caatinga ou o rio em balsas.

Desde lá, fim do século XIX, início do XX.

E foi aglomerando juntando gente chegando trabalhadores especializados manutenção logística coisas novas nunca antes vistas.

E o trem de passageiros, acreditem, o trem levava gente pra lá e pra cá.

Naquele tempo, tinha disso.

Iaçu ganhou estação muito bonita no século XX, moderna, mais que a de João Amaro, abandonada com o fim do trem de passageiros, na década de 1980, quando o País desistiu da opção ferroviária, tristemente.

Cleidiana ainda lembra menina menina do desastre representado pelo governo FHC, quando a Rede Ferroviária Federal foi privatizada.

Assim como se destruísse uma civilização, enterrasse uma cultura.

Daquele mundo de trabalhadores, ela fala em 300, restaram uns 70 funcionários.

Como uma facada no coração.

Como se o mundo desabasse.

O trem das sete horas, o último do sertão...

Tudo em Iaçu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah o trem uma das minhas lembranças mais queridas de Iaçu...🥰

Antonio Carlos Salles Pedreira Franco: Fiz esse trajeto Iaçu/Montes Claros, viagem deslumbrante...em Monte Azul troca a bitola da estrada e segue viagem... belíssima experiência, o trem sai tão carregado que só conseguir sentar perto de Brumado

Cleidiana Ramos: Antonio Carlos Salles Pedreira Franco , que maravilha. Eu não tive essa sorte. Viajei ainda pequena, segundo minha mãe..não lembro de nada.

Isabel Santos: "Como uma facada no coração". Pois é, coisas do nosso País. Tenho lembranças alegres do trem que eu via passar, quando criança, do varandão da casa de minha avó Maria, com quem morava, em Itabuna. O apito, o 'café com pão, bolacha não', cantado pela Maria Fumaça, estão guardadinhos na minha memória porque, tempos depois, só restaram os trilhos, infelizmente.

Arnaldo Antonio Fernandez: “Tem dias que faltam gavetas para guardar tanta saudade...”    

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Emiliano José

16 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: o velho trem é a vida desse meu lugar,

olha o trem, a hora do encontro é também despedida.

 

Todos os dias é um vai-e-vem

A vida se repete na estação

Tem gente que chega pra ficar

Tem gente que vai

Pra nunca mais...

Não sei de que estação fala Milton Nascimento.

De todas as estações ferroviárias do mundo.

E mais ainda da estação de Iaçu.

Quando numa cidade pequena, a vida parece girar em torno da estação.

O trem parece guiar o destino das gentes.

Guia.

É a vida se repetindo na estação.

Quando houve o desmonte de FHC, Iaçu chorou.

Não só pelo desemprego, desamparo, a fome batendo à porta de tantos, as mães de família sem ter como dar de comer à renca de filhos.

Não só por isso.

Aquele fim melancólico mexia com a alma da cidade.

Com as emoções da cidade.

Com sua cultura.

Tudo ali tinha a mão ferroviária.

Festa do Sagrado Coração de Jesus, padroeiro, iniciativa dos ferroviários.

Festa de Santa Luzia, padroeira dos ferroviários, surge por eles.

A de Santo Antônio, padroeiro dos ferroviários aposentados.

Devoção e festa.

Religiosidade a alegria - tudo vinha do trem, dos trabalhadores da ferrovia.

Bonita, a mais bonita, quem tivesse olhos percebesse, era a de Santa Luzia.

A cidade era despertada logo aos primeiro raios de sol com o apito do trem, com sua buzina estridente com que todos estavam acostumados.

A buzina do trem era parte da cultura da cidade.

O maquinista devia buzinar uns 100 metros antes de entrar na área de operações e ai é então iniciar o solta-vagão, coloca outro, tudo simples para ele, complexo e fascinante para quem nada sabe.

E todo maquinista tinha seu jeito muito próprio, cada um dava seu toque musical, riam não, era isso mesmo.

Vizinho de Cleidiana, Antonio Pé Leve tinha sua maneira de buzinar.

Nazinha, era ouvir o buzinaço dele, distante, e exclamava a quem perto estivesse:

- Comadre, Antonio chegou...

Se disserem a Cleidiana parece nostalgia ela dirá não parece é.

Aquele mundo se foi, tristemente, e dele guarda saudades.

A hora do encontro

É também despedida

A plataforma dessa estação

É a vida desse meu lugar

É a vida desse meu lugar

É a vida...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Paulo Cézar Gomes: Trem de lembranças, descarrilhado nos tempos que não voltam mais...

Joaquim Lisboa Neto: A buzina do trem pra Iaçu

Como o apito do vapor pra Santa Maria

Joaquim Lisboa Neto: Alvoroço      

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(Wladimir Pomar)

Emiliano José

17 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Em nome do Pai, coragem política e teórica, o Massacre da Lapa, uma vida em vermelho.

 

Prometi a mim mesmo: largo o trem por um tempo, e vou me debruçar sobre a chegada de Wladimir Pomar a Iaçu no já distante ano de 1962.

Preparem-se para uma viagem diferente, outras paisagens.

Cleidiana tem uma ideia na cabeça: escrever com mais vagar sobre o impacto do golpe de 1964 em Iaçu.

Que não foi pequeno.

Essa ideia me levou a enveredar por releituras, a pedir-lhe licença para falar um pouco sobre Wladimir Pomar.

Tanto sobre o episódio vivido por ele em Iaçu, como sobre sua rica história de vida.

Vida de comunista.

De quem nunca teve facilidades.

De quem soube encarar as dificuldades.

Encarar a ditadura.

De releituras, peço paciência às leitoras, aos leitores, para destacar "Pedro Pomar - uma vida em vermelho", 350 páginas de puro amor do filho Wladimir Pomar pelo velho comunista, seu pai, metralhado pela ditadura na manhã de 16 de dezembro de 1976, depois de uma reunião do Comitê Central do PCdoB.

De puro amor, mas livro apurado, fruto de muita pesquisa, a acompanhar o pai desde o nascimento até a morte, e sempre passando pela história do Brasil.

Pedro, o pai, vivera vida de comunista desde a juventude.

Uma vida em vermelho.

Quem quiser conhecer um bravo militante comunista e um sofisticado intelectual, leitor entusiasmado de Goethe, corra atrás do livro.

Destaco apenas, no livro, a convicção dele, entre tantas outras, quanto ao erro blanquista, foquista, vanguardista da Guerrilha do Araguaia, não obstante destacasse sempre o heroísmo dos tombados nos combates ou simplesmente executados pela ditadura.

Na reunião do Comitê Central do PCdoB, de dezembro de 1976, de acordo com o livro, isso foi discutido à exaustão, quando então teria se formado uma maioria crítica em relação ao Araguaia.

A tragédia das mortes e prisões daquele dia 16 de dezembro e dos seguintes provavelmente impediu a continuidade dessa discussão, e é certa a existência de outras visões no partido até hoje, quem sabe majoritárias, a recusar a interpretação de Pedro Pomar.

O livro faz uma leitura cuidadosa da história do PCB, do papel de Prestes e de outros dirigentes, desenvolve a crítica de Pedro Pomar ao mandonismo, chega à dissidência de 1962, origem do PCdoB, e depois acompanha a caminhada do novo partido, que reclama a tradição comunista, iniciada em 1922.

Camaradas, sigo aqui a tradição comunista ao chamá-las, chamá-los assim, desculpem estender-me um pouco.

Cleidiana havia me pedido isso: desenvolver um tiquinho, só um tiquinho, a história dos comunistas, ao menos aquela a elucidar a trajetória de Wladimir - e o que há de melhor senão a vida do pai, brevemente seja?

Sei, nesses tempos de textos curtos, isso pode parecer desnecessário.

Mas tem jeito de falar de uma vida, a vida do pai, sem escrever um pouquinho mais?

Peço licença para prosseguir amanhã, ainda em nome do pai...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente: ele não pára de supreender, encantar e nos ensinar...tudo junto e misturado.

Rozana Burgos: Que barato Cleidiana Ramos, tbm tenho fascinação por estes episódios

Carlos Roriz Silva: Cada vez merece mais a Academia!,

Emiliano José: Carlos Roriz Silva amigo é sempre generoso...

Paulo Cézar Gomes: Emiliano, "Máquina de escrever bem", ou melhor: extraordinariamente bem!

Rui Patterson: Caro Emiliano, o Pena Forte, a esquerda por inteiro tratava o PCdoB jocosamente até descobrir que desde 1964 ele implantava no Araguaia uma coluna guerrilheira com mais de 60 integrantes. Uma colega do meu curso de Sociologia da UFBA, que Élio Gaspari eternizou com o nome de Luzia, a Baianinha, presa antes de integrar-se à guerrilha, foi para mim a prova do quanto foi maldosa a jocosidade frente ao martírio dos que integraram a coluna e que deve ser reparado o quanto antes. O PCdoB é o único a manter, certo ou errado, vigorosa campanha de restauração da verdade histórica, com o dístico perdoar sempre, esquecer jamais.

Emiliano José: Rui Patterson maravilha, grande Rui.

Rui Patterson: Emiliano José, vc poderia entrevistar a Luzia, Diva tem o contato, foi minha colega em Sociologia!

Emiliano José: Rui Patterson parece anda arredia, foi o que me disse Diva. Interessaria.

Rui Patterson: Emiliano José , se quiser, falo com Diva, ela foi minha colega e é mesmo arredia, pelo que passou. 

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Emiliano José

18 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Pedro Pomar, protagonista do início e do fim das discussões em torno da Guerrilha do Araguaia, encontro com Zhu Enlai em 1971.

 

As mais interessadas, e os mais curiosos também, certamente vão procurar "Pedro Pomar - Uma vida em vermelho".

Conhecerão então o pai de Wladimir Pomar, nosso protagonista, irmão de Eduardo, Joran e Carlos, filho de Pedro e Catharina Patrocínio Torres, casados em 1935.

Wladimir, o primogênito.

Tem história pra mais de metro e meio, o nosso Pedro Pomar, um dos assassinados pela ditadura.

Sem ter combatido diretamente na Guerrilha do Araguaia, viveu-a intensamente, acreditando-a uma aventura foquista desde o início.

Por foquismo, entenda-se a ilusão de que um pequeno número de combatentes possa levar a Revolução adiante, e o seu teórico-mor foi Regis Debray, com o livrinho "Revolução na Revolução", publicado em 1967, bíblia de muito revolucionário à época.

Viveu, já contamos, a reunião da Executiva e do Comitê Central do PCdoB, de dezembro de 1976, onde se discutiu exaustivamente os erros da guerrilha já inteiramente derrotada, um massacre sangrento feito pela ditadura, em combates absolutamente desiguais.

E curiosamente foi o dirigente designado para informar sobre a deflagração da Guerrilha do Araguaia aos partidos comunistas irmãos, da Albânia e da China, em 1971.

Contrafeito, aceitou a tarefa.

Era homem de partido.

Dessa viagem, e cuido fazer sínteses, recolho o encontro dele com

Zhu Enlai, primeiro-ministro chinês entre 1949, momento inaugural da Revolução Chinesa, e janeiro de 1976, quando morre.

Levou um susto naquele dia: antes das quatro da madrugada, foi acordado pelo seu guia e intérprete.

Devia acompanhá-lo para "uma entrevista muito importante".

Nada mais disse, nem ele perguntou.

Pequim acordava.

E ele de repente viu-se frente a frente com Zhu Enlai.

Um inesperado e histórico encontro para Pedro Pomar.

Túnica de cor cinza clara abotoada até em cima foi perguntando, ele sabendo pelo tradutor:

- Fez boa viagem?

- Está sendo bem tratado?

- Já teve a oportunidade de apreciar o caos em que vive a China com a Revolução Cultural?

Pedro, ouvindo.

E o velho dirigente chinês falando:

- O caos é bom. Rompe com os velhos hábitos, pensamentos e tradições. Abre terreno para novos pensamentos, mais modernos e avançados.

Pedro, atento, e Zhu Enlai, explicando:

- A China está em meio a um processo revolucionário. Infelizmente, um processo desses não se faz com luvas de pelica ou com bons modos.

Informou ter lido com atenção o relatório trazido por Pedro sobre a deflagração da guerra de guerrilhas no Brasil.

- Nos sentimos honrados pela confiança em nos informar com antecedência sobre decisão tão importante - disse Zhu Enlai.

Disse mais: os camaradas indianos também dera à China a mesma honra.

No fim dos anos 60, desencadearam a luta armada, mas ao fim e ao cabo não conseguiram mobilizar a população e foram esmagados.

Começaram aí os alertas do velho e experiente dirigente chinês, manobrando pelos flancos, sem dizer nada diretamente.

Pedro, atento, muito atento, e amanhã tem mais.

Estou apenas atendendo a um pedido de Cleidiana, antes de começar a história da chegada de Wladimir a Iaçu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Sérgio Buarque de Gusmão: Um dos grandes momentos do livro, tecido com linhas literárias reluzentes, é a descrição de como Pedro Pomar passava um café...

Emiliano José: Sérgio Buarque de Gusmão De fato. E a madrugada em Pequim, com as pessoas fazendo taí chi chuan... Mas, vc sabe, tenho que resumir, podem me acusar de textão....

Cleidiana Ramos: Que maravilha!

Roberto R. Martins: Vou procurar ver o livro. Me lembro do Pomar relatando seu encontro com Zhu Enlai, primeiro ministro chinês. A visita que fizeram ao metrô de Pequim, recém construído e que serviria de abrigo no caso de um ataque nuclear. Foi sem dúvidas o mais brilhante dirigente comunista que conheci.

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Emiliano José

19 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: 1971 e as derrotas dos movimentos revolucionários armados, fase de maré baixa, ponderações

de Zhu Enlai, ouvidos de mercador do PCdoB.

 

Era o ano de 1971.

Pedro Pomar em visita à China informava ao primeiro-ministro Zhu Enlai sobre a deflagração da Guerrilha do Araguaia.

O Brasil vivia um momento sombrio, de profunda repressão.

As organizações de esquerda, profundamente golpeadas.

Eu próprio, preso.

Mortes sobre mortes, os órgãos de segurança a todo vapor.

Movimento popular, zero.

Milagre econômico comendo no centro, crescimento de 10% ao ano, não obstante a exploração dos trabalhadores, ou por isso mesmo.

Ditadura nadava de braçada.

Parte da esquerda, embalada por ilusões, por sérios equívocos, via tal quadro como estímulo à Revolução - não, não estou enganado, era isso mesmo.

O PCdoB estava nessa barca.

Daí, a Guerrilha do Araguaia.

Já se disse: Pomar, embora emissário oficial do partido porque disciplinado, discordava, não compartilhava dessa noção.

Não foi pequena a emoção de ser recebido pelo primeiro-minisrro chinês.

Zhu Enlai falou da derrota dos comunistas indianos nas áreas montanhosas da região de Kerala por não terem conseguido mobilizar a população.

Foi além: falou em derrotas semelhantes na Malásia, Indonésia e em diversos países africanos.

Falava pausadamente:

- Quando as massas não estão dispostas a empreender a luta armada, não basta que o partido esteja.

Mostrava: naquele momento, as experiências recentes de lutas armadas revelavam um número maior de derrotas.

Nunca se referia à proposta brasileira de deflagração da guerrilha.

Batia na cangalha pro burro entender

- O movimento revolucionário pode estar ingressando num longo período de descenso, após os movimentos de descolonização que, como uma grande maré crescente, haviam se espraiado após a Segunda Guerra Mundial.

Era hora da maré baixo, embora não deixasse de considerar a luta vietnamita, cuja vitória prognosticava.

Toda a serena e contundente análise do dirigente chinês sobre o quadro internacional, a exigência da participação das massas em quaisquer processos revolucionários, reforçou nele a convicção de que o PCdoB, seu partido, estava ingressando numa aventura militarista.

No Brasil, seus companheiros fizeram ouvidos de mercador.

Preferiram acolher as opiniões favoráveis da Albânia, onde Pedro também estivera.

E como dirá Wladimir em seu livro, o PCdoB meteu-se então na trilha sem retorno das selvas do Pará.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente! Que presente....

Ponciano de Carvalho Jr.: Texto de imortalidade com a pena de Emiliano.     

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Emiliano José

20 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Wladimir Pomar, também

uma vida em vermelho, com cores chinesas.

 

Nos encontramos algumas vezes nas reuniões da Fundação Perseu Abramo.

Ele sempre sereno.

Talvez, muito provável, trouxesse, traga a serenidade do pai.

Ao falar, transmitia segurança, conhecimento, nenhuma arrogância intelectual.

Lembrei-me mais dele agora, quando, instado por Cleidiana, revisitei o livro escrito por ele.

Gozado, a releitura é surpreendente.

Ao tomar do livro e começar, apesar de todo sublinhado já, parecia uma nova viagem.

Mais e mais rabiscado, coitado do livro, porque releitura revela novidades antes encobertas.

"Pedro Pomar - uma vida em vermelho" é um documento de nossa história, cheio de beleza literária,  e de celebração de uma vida dedicada ao povo brasileiro.

Wladimir Pomar soube revelar não apenas a trajetória do pai, mas também os dilemas dos comunistas brasileiros, seus sonhos e ilusões, acertos, equívocos.

Soube mostrar uma tendência contínua de subestimação do adversário, precária capacidade de analisar correlação de forças.

Está aqui a dedicatória, livro publicado em 2003, sintomaticamente mesmo ano da vitória de Lula:

"Para o Emiliano que, como eu, gosta de futucar o passado. Com um forte abraço do Wladimir Pomar".

Datou: 21 de janeiro de 2004.

Ele acompanha o pai na dissidência do PCB em 1962, origem do PCdoB, sendo um de seus fundadores, aos 26 anos de idade.

Foi preso, podemos chamar assim, na operação de cerco e aniquilamento de dezembro de 1976, na Lapa, em São Paulo, quando da realização da reunião da Executiva e Comitê Central do PCdoB.

Nessa operação morreu o pai Pedro Pomar, e mais dois companheiros, Ângelo Arroyo e João Baptista Franco Drummond.

E tantos outros foram presos.

Um dos fundadores do PT, integrou a Executiva do partido de 1984 a 1990.

Foi o coordenador-geral da campanha presidencial de Lula em 1989.

Seus muitos livros caminham principalmente por duas vertentes: mergulha na análise da China, a passada e a atual, e na avaliação e história da esquerda brasileira.

Casou-se com Rachel da Rocha Pomar e teve três filhos: Pedro Estevam, Wladimir e Valter.

Valter Pomar, o mais novo, é dirigente do PT - seguiu os passos do pai e do avô.

Retrato em branco e preto, sintético.

Amanhã, soube, Wladimir deve desembarcar em Iaçu.

Se a escrita, sempre teimosa, deixar...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Grande, Emiliano José que vai narrando e ensinando...maravilha!

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Emiliano José

21 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: O comunista está chegando,

começa a conhecer a cidade, vai se enturmando.

 

Wladimir Pomar chega a Iaçu em 1962.

Ano de surgimento do PCdoB, ele próprio um dos fundadores.

Chegou de mala e cuia, com a mulher Rachel, e mais Pedro Estevam e Wladimir, os filhos.

Quatro anos depois, nasceria Valter.

Começo a falar dessa chegada.

Cumpro compromisso firmado com Cleidiana.

Vinha para executar contrato de assistência técnica da General Eletric, onde trabalhava, com a Leste Brasileiro.

Ao arriar as malas, tentava aos poucos perceber onde estava.

Pensou em Óbidos, no Pará, terra do pai e da mãe.

Não a daqueles anos 1960, já cidade de algum porte, mas a povoação antiga com uma igrejinha ordinária coberta de folhas e muitas casas do mesmo modo, como a descrevera o frei João São José, bispo do Pará em 1762.

Nem tanto, uma evocação apenas.

Na viagem, viera imaginando um cenário muito pobre.

Impressionou-se favoravelmente, no entanto.

Iaçu contava já com cerca de 14 mil almas, oito mil na sede, o restante espalhado pelos distritos de João Amaro e Lajedo Alto.

Pobre, casas de reboco e de tijolo, a maioria casinhas pequenas raras as grandes, igrejinha bem composta, nada de coberturas de folhas nas casas, muito menos na casa de Nosso Senhor Jesus Cristo Deus nos livre e guarde que o Senhor merece boa morada.

Olhou para a Estação Ferroviária.

Destacava-se naquele cenário.

Portentosa.

Do lado direito da estrada de ferro no sentido João Amaro.

Do outro lado, o depósito e oficina das locomotivas e um arruamento com algumas casas.

Prestar atenção nisso tudo, obrigação.

O trabalho seria ali, mexendo com as locomotivas, andando pra la e pra cá na linha férrea.

Em frente à estação, do lado direito, os olhos se perdiam num descampado até alcançar o primeiro alinhamento de casas.

Era um espaço que se transformava na praça da igreja e território para as feiras livres.

O arruamento de casas em frente à linha férrea faziam quina com aquelas que faziam frente para a praça, formando quarteirões opostos.

Wladimir, a mulher e os filhos abancaram-se numa rua perpendicular ao arruamento defronte à linha férrea.

Na rua havia uma quadra de basquete e vôlei, cimentada.

Seguindo as ruas perpendiculares à linha férrea, desembocava-se no rio Paraguaçu e na ponte ferroviária de ligação Iaçu-Bonfim.

Foi se enturmando, tentando sentir o ambiente, assuntando.

Viera para trabalhar profissionalmente, vida se iniciando, família pra sustentar.

Comunista, no entanto, não vai ficar parado.

Algum trabalho político havia de ser feito.

Existia o Sindicato dos Ferroviários...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Tô dizendo pra vocês que esse cronista não dá descanso na curiosidade dos leitores...hehe.

Isabel Santos: E minha imaginação curtindo essa ambientação, que envolve a Estação Ferroviária...  

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Emiliano José

22 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Iaçu vê a modernidade

chegar, e junto com ela dois comunistas.

 

Tudo novo.

Embrenhado em sertões.

Não esperava por isso.

Empurrado pelo destino, pela necessidade da sobrevivência, sustento da família, ganha-pão.

Iaçu.

A alegrá-lo, o rio, as águas do Paraguaçu.

Pensou no pai.

E no partido, PCdoB, recém-criado, ou refundado, como se queira.

Era a rigor um pequeno agrupamento de comunistas comparado com o velho PCB, de Prestes, ainda hegemônico no campo da esquerda.

O pai, naquele ano de 1962, tentava de todas as maneiras romper com o isolamento do partido.

Assumiu a direção do jornal "A Classe Operária" junto com Maurício Grabois, estimulava os poucos militantes a ligarem-se à classe operária nas fábricas e sindicatos, aos camponeses, aos estudantes, às camadas populares.

Um gigante, aquele pai, Pedro Pomar.

Lembranças.

Seguir em frente, tocar a vida.

Continuar a reconhecer terreno.

Não viera sozinho.

Acompanhando-o, Sebastião da Silveira Carvalho.

Ele o conhecia desde 1958, quando foi trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, no Rio de Janeiro.

Ambos eram militantes então do PCB, ligados ao movimento sindical.

Os dois saíram juntos do velho Partidão, e ingressaram no PCdoB.

Em 1962, Wladimir trabalhava na General Electric como engenheiro de serviços, setor de locomotivas.

A empresa resolveu destacá-lo para cuidar da manutenção das locomotivas vendidas à Leste Brasileiro.

Nem pensou muito: Carvalho era ótimo desenhista de projetos, queria-o junto dele.

Além do profissional, um companheiro de ideais.

E os dois meteram as caras sertão adentro.

Não era trabalho pequeno.

A General Eletric vendera máquinas elétricas para substituir as movidas a vapor utilizadas até então pela Leste Brasileiro.

Os dois iam dar conta disso, dessa inovação.

Soube da existência do Sindicato dos Ferroviários.

Constatou: existência figurativa, quase nula.

Comunista sabe medir essas coisas.

Pensasse em mexer com a cidade, e comunista sempre pensa nisso, teria muito trabalho político pela frente além das tarefas profissionais, cuja dimensões também não eram pequenas.

Mãos à obra...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: A história avança sem perder a poesia...

Isabel Santos: Cleidiana Ramos Será sempre assim, companheira. A criatividade, a leveza, a poesia...., emocionando. Bj  

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Emiliano José

23 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: uma Iaçu bucólica, cadeiras nas calçadas,

a certeza do golpe, vontade de organizar a resistência.

 

Muito trabalho.

Wladimir e Sebastião meteram a cara na dura tarefa de assistência técnica, manutenção das locomotivas vendidas pela General Eletric à Leste Brasileiro.

Mal tinham tempo para curtir a cidade quase bucólica, o urbano crescendo pela presença do trem, cidade das águas pela presença do Paraguaçu, católica, conservadora nos costumes, como toda pequena cidade do interior sertanejo Brasil afora.

No caminho pra casa, fim de tarde ou já noite, Wladimir observava as senhoras e as moças cadeiras na calçada ou olhando das janelas, algumas delas com o olhar perdido sonhando acordadas com o príncipe encantado.

De dentro de uma casa ou outra, possível ouvir um Nelson Gonçalves: "Boêmia, aqui me tens de regresso e suplicante te peço a minha nova inscrição..."

Enfiado naquele sertão por artes do destino, apesar disso acompanhava o evoluir da política, mais a nacional.

Eram tempos turbulentos.

Pense numa atmosfera política polarizada.

Jânio renunciara em 1961, Jango assumira em meio a uma profunda crise, conciliara com o parlamentarismo, ganhara o plebiscito, e governava sob crise permanente, acossado pela pressão aberta dos EUA e das classes dominantes locais.

Quem quisesse enxergar, visse: um golpe estava a caminho.

A galope.

Acelerado.

A esquerda não se preparou: o PCB não acreditava na possibilidade de golpe, pensava em democracia consolidada, as outras correntes não tinham força.

Os golpistas se articularam pra valer, prepararam-se até para a luta armada, EUA no jogo, dispostos a tudo.

Quando vieram, chegaram com tudo, sem vacilações.

Wladimir e Sebastião, distantes do centro dos acontecimentos, mas com muita sensibilidade política, tinham convicção: o golpe viria.

E era necessário resistir a ele.

Imperdoável ficar parados.

Conversavam com quem fosse possível.

Fácil não era: as pessoas tinham pouca consciência política.

Com Vicente Oliveira dialogavam muito.

Era torneiro do depósito de locomotivas de Iaçu.

Sujeito legal, interessado em política, mas sem relação orgânica com o partido, e não considerava houvesse qualquer perigo de golpe, como a maioria da pequena Iaçu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E lá vamos nós nessa viagem fantástica guiados pela locomotiva de Emiliano José...

Carlos Roriz Silva: Histórias da ditadura em crônicas muito legais.... Parabéns Emiliano....

Emiliano José: Carlos Roriz Silva valeu, meu velho  

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Emiliano José

24 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Vaca Fardada, golpe em movimento, tentativa de organização da resistência em Iaçu, aparece um  engenheiro dedo-duro e mela tudo.

 

Primeiro de abril.

1964.

O general Mourão, aquele autointitulado vaca fardada, já se deslocara com sua tropa na direção do Rio de Janeiro.

Golpe em andamento.

Será concluído na madrugada do dia 2, após decisão do Congresso Nacional declarando ilegalmente vacância do cargo de presidente, e sendo dado posse ao novo presidente, Ranieri Mazzilli no Palácio do Planalto, com Supremo e tudo.

Naquele primeiro de abril, Wladimir Pomar estava no Rio de Janeiro.

Dia seguinte ainda consegue pegar um avião pra Salvador.

A ideia da resistência não saía de sua cabeça.

E se tinha alguma coisa a fazer era em Iaçu.

Lá podia organizar alguma coisa, contribuir para criar obstáculos ao golpe.

Fez alguns contatos em Salvador, convenceu alguns companheiros a se deslocarem para Iaçu e contribuírem para a luta.

Omitir-se seria covardia, abandono da trincheira da resistência.

Chegados em Iaçu, ele, Sebastião, os da capital, tiveram uma conversa com o pessoal do depósito da Leste Brasileiro.

Vocês sabem há um golpe em andamento os trabalhadores serão os principais prejudicados o imperialismo norte-americano tomará conta do País as liberdades democráticas serão sufocadas muita gente será presa e nós não podemos ficar de braços cruzados.

Silêncio.

Os ferroviários ouviam e era como se não ouvissem como se não fosse com eles.

Não estavam dispostos a se movimentar.

Não queriam nada com nada.

Wladimir havia sentido esse clima antes de viajar para o Rio, mas não se conformava.

Tentar, tentou.

Recolher-se, esperar tempo bom.

E depois retomar a luta.

Podia ser assim.

Mas, no meio do caminho tinha uma pedra. Nessas ocasiões sempre aparece um dedo-duro.

Um engenheiro denunciou a tentativa liderada por Wladimir de organizar a resistência.

O tal engenheiro fora trabalhador e com grande esforço da família havia se formado.

E agora tristemente prestava-se a esse papel...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E a história sob a perspectiva iaçuense segue seus trilhos sob a orientação do nosso Emiliano José...

Carlos Roriz Silva: Tipo crőnica! Legal

Mônica Bichara: "Com Supremo e tudo".....melhor parte. Não é mera coincidência   

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Emiliano José

25 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: resistência não deu certo,

comunistas iam sabotar as locomotivas,

busca de refúgio, mandacaru quando flora na serra.

 

Wladimir sentira o clima antes de viajar para o Rio de Janeiro.

Ele e Sebastião conversaram com um, com outro, levaram um dois dedos de prosa com Vicente, entabolaram papo com outros trabalhadores, mostraram importância da resistência se houvesse o golpe, e os dois tinham certeza de que viria.

Mas, já se viu, o povo fazia ouvidos de mercador.

Baixa consciência política.

Não acreditavam em golpe.

Viria não.

Wladimir e Sebastião, apesar disso, tinham uma convicção: viesse o golpe, houvesse um grupo mínimo organizado, e os trabalhadores se juntariam a eles na resistência.

Fizeram a lição de casa, conseguiram alguns companheiros em Salvador, e estavam ali prontos para a luta, para não deixar o golpe passar sem luta.

Organizar a resistência num dos maiores polos ferroviários do Estado.

Dever de revolucionários.

Deu no que deu.

O povo não queria saber disso.

E além de queda, coice: o engenheiro delatou.

E delatou pra valer, que delator é o diabo: os comunistas estão dispostos até a sabotar as locomotivas, explodir com tudo, um perigo.

Jeito não: era pé na estrada, tentar se esconder.

Por enquanto, danar-se pelos matos, caatinga adentro, ficar ali quietinho quietinho até Deus dar bom tempo, os militares sossegarem um tiquinho, se sossegassem, e nem rezar dava porque não eram de reza, fé só na Revolução, agora distante...

A vida e suas voltas.

Wladimir via-se em pleno sertão, mais agora, obrigado a se esconder na casa de um camponês amigo.

Pensar, conhecer o sertão.

Não lhe dava a impressão dolorosa de Euclides da Cunha quando falava no quase deserto a se apertar "entre as dobras de serranias nuas ou se estire, monotonamente, em descampados grandes..."

Nada.

Aquele sertão do Iaçu mais parecia Luiz Gonzaga cantando "mandacaru quando flora na seca é o sinal que a chuva chega no sertão..."

Chegou naquela casinha, naquele morro, e de lá via o rio majestoso, Paraguaçu de águas límpidas, cristalinas...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

26 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: fuga atropelada pela caatinga, macacos nos calcanhares, verde que

te quero verde, águas do Paraguaçu...

 

É, chegar naquele morro foi fácil não.

Andança por aquelas caatingas, afastando matos, sentindo sol quente na corcunda, Wladimir e mais quatro companheiros, caminhada de dez quilômetros, um pouco mais talvez.

Parece pouco, e é muito quando a pé, quando sabendo que os macacos podem estar no seu pé como corriam atrás de cangaceiros havia pouco tempo.

Os quatro companheiros haviam partido com ele de Salvador.

Haviam topado ajudar na resistência.

Acreditaram na empreitada.

Não lamentavam.

Fizeram a passos largos a caminhada.

Se eram mesmo do Sindipetro, como se sabe até agora, eram de luta.

Naquele 2 de abril, Mário Lima, o presidente do Sindipetro, estava sendo preso em Salvador por Manelão - assim era chamado o general Manoel Mendes Pereira, comandante da VI Região Militar.

O sindicato estava tomado por forças policiais.

Quem quiser saber mais sobre a saga de Mário Lima, prisões e o escambau, procure o "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", parte II, escrito por  mim, e leia o capítulo "Na cova do leão".

Mário Lima foi meu companheiro de Galeria F.

Nos anos 1980, fui assessor do Sindipetro, ele presidente novamente.

Mais não digo, não precisa - a leitora se quiser, vai atrás, o leitor também.

Os quatro e Wladimir chegaram à casinha do camponês amigo.

Morro do Roncador, chamava-se assim o lugar.

Não era assim um morro, uma elevação muito alta não.

De elevação mediana.

E era tudo verde, verde que te quero verde verdes ventos verdes ramas, lembrava García Lorca, tudo verde.

Enganam-se os crentes numa vegetação rala terra seca vastidão desértica quando se pensa em caatinga - tem isso e tem muito mais, tem árvores e tem flores e tem verde muito verde.

E quando há águas próximas, aí tudo floresce, a vida resplandece, explode em meio ao deserto.

O Paraguaçu está logo ali, embaixo do Morro do Roncador, e as suas águas, vão se espraiando pelas redondezas, infiltrando-se,  esverdeando tudo fazendo tudo nascer e renascer.

Dali, da casinha logo acima, os comunistas podiam enxergar o fundo do rio, tão cristalinas as águas, até as pedras limadas pelo tempo, os peixes, a vegetação das beiradas, tudo se podia ver.

Não fosse a turbulência política, e podiam sonhar em passar um tempo ali, desfrutando das águas, maravilhando-se com o verde do entorno, banhando-se no rio quando desse vontade.

Ah, pudessem...

Mas que nada.

Temperatura esquentou lá na sede...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

27 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: o depósito de óleo diesel iria

pelos ares, explodido pelos comunistas,

meganhas chegam na cidade, Wladimir

e seus companheiros ouvindo pássaros no Roncador.

 

Sabe não.

Se chegou dia 2, dia 3 de abril naquele recanto das águas, no Roncador.

Wladimir não consegue precisar.

Dormiu bem naquela noite.

Às quatro, o galou cantou.

E outra cantoria, a da passarada, o inebriou.

Viu o sol despontar, brilhar no leito das águas do Paraguaçu.

Tomou café e danou a pensar na vida.

Iaçu estava em polvorosa.

O alarme havia soado em Salvador: era preciso mandar polícia pra cidade.

Os comunistas estavam a toda.

Prometiam explodir tudo.

Os reservatórios de óleo diesel para as máquinas iriam pelos ares.

Houve romaria de muita gente indo para o campo.

Refugiar-se em suas roças ou em casas de parentes.

Um medo danado tomou conta da sede.

Pavor.

As senhoras mais velhas, rezavam - ave-maria, pai-nosso, salve rainha mãe de misericórdia, terços nas mãos, algumas na igreja, rezar é sempre bom, e comunista é coisa do diabo, Deus nos livre e guarde.

Quem pôde, deu no pé, abrigar-se lá pelos distritos, pelos ermos.

E a cidade começou a encher-se de polícia.

Nunca se viu tanto meganha por aquelas bandas.

Um abril medonho.

Um 1964 dos infernos.

Parecendo ano do Satanás.

O chefe de tudo, o delegado especial, Edgar Medrado.

Aproveitou a ocasião, tirava proveito, ganhava força política com isso - ao menos pensava assim.

Deu um jeito de afastar do jogo o delegado de Iaçu, Antônio Ubaldo de Souza, tenente reformado da Polícia Militar.

Escanteado, Souza não gostou.

O poder da ditadura falava mais alto, e também a força dos Medrado.

Souza chegou a dar entrevista a Cleidiana quando ela trabalhava no seu Projeto Experimental.

- O maior setor de agitação revolucionária era a Petrobras e a Leste. E Iaçu naquele tempo era o maior centro ferroviário, a não ser Salvador. Tinha engenheiro, tinha chefe de depósito. Então esses homens eram pessoas que tinham suas tendências, cada qual tem suas tendências.

Provavelmente, exagera: afirma ousadias revolucionárias de Wladimir não efetivadas, ao menos que se saiba.

- Ele cortou todas as ligações, todas as que podia se comunicar com Iaçu. Naquele tempo era teletipo e outras e outras. Então Iaçu ficou neutra.

Fala de declarações de Wladimir depois de preso feitas na delegacia, provavelmente fruto também de sua imaginação:

- Ele declarou aqui na delegacia que ele queria recrutar esse pessoal e subir com essa máquina pegando de estação a estação aquelas pessoas adeptas do movimento.

Wladimir e seus companheiros permaneciam na encolha, sentindo o rumor das águas e o cantarolar dos pássaros, sem saber direito do clima da cidade.

Melhor ficar por ali, fingir-se de morto.

Ao menos por enquanto.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E segue essa narrativa que informa e encanta... 

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Emiliano José

28 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: o rumorejar das águas,

o canto dos pássaros,

a violência da meganhagem,

e um papagaio comunista.

 

Wladimir dividia-se entre duas sensações.

A do cerco, a certeza de forças repressivas por perto.

A saída era ficar ali quietinho, aceitando a solidariedade do camponês, comovente.

Essa sensação era muito forte.

E a outra, a das manhãs, forte que só o diabo também.

O Morro do Roncador levava esse nome pelo ronco do rio, a acordar cedinho os mais sensíveis.

Não fosse o rumorejar das águas do Paraguaçu, e haveria o canto do galo.

Não houvesse o canto do galo, e haveria a música dos pássaros encarapitados nas árvores do entorno, ele se encantava com o tanto de verde por ali depois de ter atravessado tanta sequidão a pé, musicalidade repleta de variedade, e ele sabia passaria a vida e não distinguiria o canto do tico-tico, do sabiá, do papa-capim, do canário da terra, do sanhaço, do tiziu, do bem-te-vi...

Aquelas manhãs com seus cantos, suas cores, seus sóis lhe revelavam um lado da vida, fascinante, a lhe recordar Goethe, o autor mais querido do velho Pedro Pomar - a teoria é cinzenta, verde é a exuberante árvore dourada da vida.

Mas a outra sensação logo o tomava de assalto novamente, a dura realidade, e enquanto tomava o café da manhã, pensava no que devia estar acontecendo na cidade, ali tão próxima.

Nazinha, mãe de Cleidiana, e lembro apenas para o leitor de primeira viagem, era ainda muito jovem: 25 anos.

Moravam, ela e Chico, em frente à sede do depósito de materiais da ferrovia.

A cidade fervia, tomada pelo pavor e pelas forças policiais comandadas pelo todo-poderoso delegado Edgar Medrado, também, como sabem todos, dono das terras de Iaçu, ou pretensamente dono.

Abril de 1964.

Um mês para jamais esquecer.

Nazinha, oitavo mês de gravidez

Gildásio nasceria dali a pouco, 6 de maio, não sei se de susto tamanha a confusão.

Era vizinha de Sebastião, já apresentado.

E de Vicente, sobre quem também já falamos.

Os meganhas estavam atrás de qualquer coisa ligada a Sebastião.

Já o haviam prendido logo à chegada, vindo do Rio de Janeiro.

Mas resolveram invadir a casa dele, onde sua mulher, Dalva, ainda morava.

Nazinha percebeu a barulheira, o quebra-quebra, e Dalva chorando, saindo pra rua, apavorada - não bastava saber da prisão de Sebastião, e agora mais tudo isso.

E um comunista gritava, é, um papagaio comunista gritava denunciava não se conformava com tanta violência e não revelava medo.

- Dalva, Dalva, Dalva - ele não parava.

Os policiais, aparvalhados: o papagaio não parava de gritar, que diabo de bicho, só pode ser comunista, verde por fora, vermelho por dentro, Dalva, Dalva, Dalva.

E ela chorava, sem aceitar ou compreender tanta violência.

Alguns dos meganhas se compadeceram, outros não aguentaram mais a barulheira do papagaio, e ampararam Dalva, depois de terem quebrado tudo dentro de casa...

Nazinha ali, assistindo tudo, e preocupada com Gildásio se mexendo na barriga, e com Dalva, e com aquela violência, e ouvindo o papagaio, insistente, Dalva, Dalva, Dalva...

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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Emiliano José

28 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: Cai o Morro dos Comunistas,

Wladimir é preso, uma gravidez como

guarida, José Teixeira escapa.

 

E o mês de abril seguindo, ali pelos dias 8, 10, Wladimir e seus companheiros são presos.

A repressão chegou ao Morro do Roncador.

Morro dos Comunistas - durante algum tempo passou a ser chamado assim.

Foram logo levados para Salvador.

Toda a cidade ficou sabendo.

Uma parte, aliviada.

Prenderam os revolucionários, aqueles comunistas do diabo.

Outra parte, pesarosa.

Porque havia os favoráveis a eles, poucos fossem.

Simultaneamente, havia fuga de um ou outro,  e Medrado, posto na condição de delegado especial, chefe supremo das forças de repressão na cidade, estava de olho em alguns deles.

Clima pesado.

Para as pessoas irem ao centro da cidade, precisavam mostrar documentos, os soldados todos com armas pesadas.

Estado de sítio.

José Teixeira tinha ciência: seria o próximo a ser preso.

Irmão mais velho de Chico Preto, vereador em Iaçu.

Chico Preto e mais alguns amigos esconderam-no em uma casa pouco visada e passaram a arquitetar um plano para tirá-lo da cidade.

Chico chegou em casa e assim como quem nada quer, querendo, dirigiu-se a Nazinha, grávida de Gildásio, como sabemos:

- Acho bom irmos a Itaberaba pra consultar um médico, ver se está tudo bem.

Sabe-se lá como: José Teixeira viajou escondido no fundo do carro sem ser percebido por Nazinha.

E nem pelos policiais: a gravidez facilitava a passagem pelas barreiras policiais.

Chico Preto deixou Nazinha em Itaberaba na casa de uma prima dele, simulou ir procurar um médico e seguiu para uma fazenda de João Amaro, onde deixou o irmão escondido, a salvo.

Nazinha, sabe nada, inocente.

Ao voltar, Chico disse não ter encontrado o médico, doutor Hélio.

E voltaram pra Iaçu.

Devia ser ali por meados de abril daquele 1964.

Um abril medonho em Iaçu.

E em todo o Brasil.

Quando pôde ter Gildásio nos braços, José Teixeira o acariciava e dizia:

- Menino, você salvou a minha vida.

E só então contou a Nazinha como tudo havia acontecido.

Chico Preto não dera uma palavra.

Como convinha naqueles tempos tenebrosos, onde uma palavra podia botar tudo a perder...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Gente: assim mesmo. Pena de ouro, essa de seo Emiliano José.

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Emiliano José

30 de novembro 2020

Cleidiana Ramos: história de um simples torneiro,

a vergonha de ser preso, suicídio,

sangue derramado pelo clima de terror em Iaçu.

 

Não foram pequenas as consequências do clima de terror criado em Iaçu como decorrência do golpe de 1964.

Vicente Oliveira era o torneiro do depósito de locomotivas de Iaçu.

Já falamos um pouco dele, mas não custa repetir - o que abunda não prejudica, melhor sobrar do que faltar.

Ele gostava de política.

Sujeito legal.

Bom de papo.

São as impressões de Wladimir Pomar ao lembrar dele.

Mas não queria ir muito além.

Não pretendia qualquer ligação orgânica com organizações revolucionárias.

Com o PCdoB, por exemplo, ao qual pertencia o próprio Wladimir.

Quando ele sentiu o clima esquentar em Iaçu, mandou-se para Cachoeira.

Vicente, pelas ligações profundas com Iaçu, com o vai e vem de gente contando as histórias da repressão, foi se apavorando.

O terror o dominou.

Chegaram a ouvir ele dizer não suportar a vergonha de ser capturado pela polícia.

Com um tiro no ouvido, acabou com a vida.

Esses dias escrevi um artigo juntando Getúlio, Brizola e Allende.

Getúlio e Allende, diante de suas encruzilhadas históricas, resolveram se suicidar - um, adiando o golpe já dado, só consumado dez anos depois; o outro, Allende, recusando a se entregar aos seus algozes.

Brizola, disposto a morrer, escapou por artes de uma virada de conjuntura, decorrente de sua audácia.

O artigo está na revista eletrônica Teoria e Debate - https://teoriaedebate.org.br/.../getulio-brizola-e.../

Não sei o que se passou na cabeça de Vicente.

Quem há de saber?

A sensação de ser exposto, ser preso, humilhado?

Não se sabe.

Essa morte, isso é inescapável, é decorrente do clima de terror criado em Iaçu naquele abril.

Sangue derramado.

Nazinha se aproximou muito de Doralice Barreto, viúva de Vicente. Cleidiana a chamou de tia até o dia da morte dela - era tia Dora.

Em Cachoeira, Dora tornou-se exímia doceira.

As férias escolares, Cleidiana passava na casa dela.

Por essa e outras histórias, a tentativa de resistência ao golpe em Iaçu sempre pairou ao redor dela. 

Mas houve mais estranhas e violentas histórias.

Como a de seu Nenzinho...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

1º de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Nenzinho é preso, Quartel

do Barbalho, vingança da oligarquia,

volta nos braços do povo.

 

Manoel Pinto de Santana.

O nome de Nenzinho, prefeito de Iaçu em 1964.

Os motivos mais profundos sobre a prisão dele ainda carecem de aprofundamento.

Fato: naquele clima de terror, ele dançou também.

O tenente Antônio Ubaldo de Souza, delegado escanteado por Edgar Medrado, mas querendo prestar serviço, foi à farmácia de Nenzinho, acompanhado de um cabo, pose de autoridade, pediu documentos.

- Pois não - disse Nenzinho.

Passou as mãos nos bolsos, não os encontrou.

- Vou buscá-los - disse.

E saiu ligeiro pelos fundos da farmácia.

O cabo, sabe como é que é polícia, imaginou logo: o cabra está fugindo, e mais pensou ainda pelo passo apressado de Nenzinho.

Sacou da arma, ia atirar.

O tenente Ubaldo o deteve.

Nenzinho se explicou, entregou os documentos.

Teve jeito não:  preso.

Um subversivo.

Forte do Barbalho, de triste memória, conhecido de todos nós, os sobreviventes da ditadura.

Prenderam uma das pessoas mais queridas de Iaçu.

Não havia dia, não havia noite, fizesse chuva, fizesse sol, tempestade, e ele não se detinha quando se tratasse de socorrer alguém.

Com seus conhecimentos farmacêuticos fazia as vezes de médico, e nunca cobrava um tostão.

Adorado pelo povo.

Fala-se e não sem fundamento: foi ação policial destinada à retomada do poder pelos Medrado, cuja oligarquia havia sido derrotada por Nenzinho em 1962.

Com a prisão, imaginavam tirar Nenzinho do jogo, desgastá-lo no mínimo.

Edgar Medrado teria encontrado a situação ideal para se vingar da

derrota.

Preso em Salvador, seria configurada a situação de abandono do município.

Nenzinho passou uns 15 dias preso, prefeitura acéfala.

A cidade se uniu em defesa dele.

Até a oposição na Câmara Municipal assinou documento atestando sua idoneidade. 

Voltou nos braços do povo.

Até o fim do mandato, persistiu na atitude de ajudar a população, principalmente aos mais pobres.

E seguiu assim até morrer em 1994, lado a lado com Chico Preto, seu sócio na farmácia.

Tem mais história pra contar daquele abril de 1964 em Iaçu.

Gabriel García Marquez tem razão: é do fantástico mundo real a fonte da literatura.

Iaçu, Macondo.

Então, o trem chegou...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Obrigada, Emilano. Por mais uma homenagem à grandeza dessa grande figura que conheci e por quem sempre tive uma imensa admiração.  

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Emiliano José

2 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: O cerco do Morro do Roncador,

a fuga de Wladimir pela caatinga,

o maquinista em fuga com a locomotiva,

a mulher desesperada pela morte do marido

 

"Rebeca Buendía se levantava às três da madrugada desde que soube que Aureliano seria fuzilado. Ficava no quarto no escuro, vigiando pela janela entreaberta o muro do cemitério, enquanto a cama em que estava sentada estremecia com os roncos de José Arcadio."

Cem anos de solidão me espreitam, como um espectro.

As coisas vão acontecendo em Macondo.

Abril vai seguindo em Iaçu, e as duas vão juntando suas parecenças.

A tensão de Macondo.

A tensão de Iaçu.

Os homens iam chegar.

Disso certamente Wladimir e seus companheiro do Roncador sabiam.

Não sabiam nem a hora nem o dia, que não tinham as artes mágicas da bruxaria.

O delegado especial Edgar Medrado, todo vestido no orgulho dessa patente, deu a ordem pro trem partir.

O Roncador, de trem era pertinho, chegava nas redondezas.

Mais parecia de tempo de guerra aquele trem - locomotiva cheia de soldados, armas leves e pesadas, revólveres e carabinas, metralhadoras de pentes cheios, Medrado cheio de ordens e gritos.

A locomotiva com seus motores novinhos em folha, da General Eletric, postos a funcionar por aqueles comunistas desgraçados, caçados agora.

Tenente Ubaldo, antes chefe, delegado da cidade, agora simples auxiliar, homem da PM, foi dando suporte.

Testemunhou: na chegada, ao saltar, Medrado já gritava, dando ordens, tentando assustar, quem sabe revelando o seu próprio medo, que, sabem, né?, comunista é perigoso, melhor gritar pra mostrar autoridade.

E ele assustava seus comandados, ao invés de encorajá-los:

- Aquele morro está todo minado de bombas. Quem pisar, vai pelos ares.

Foram se aprochegando devagar devagar mas de repente um barulho um tropel correria: Wladimir e seus companheiros afundaram nos matos caatingueiros pernas pra que te quero sem dar tempo nenhum pros soldados pra Medrado pra tenente ou capitão sumiram na caatinga.

Maroto, ao assistir o furdunço, a correria, o pavor estampado na cara de todo mundo, soldados correndo e largando armas pelo chão, maquinista antigo, escolado para o trem e não para a guerra, arrastou a lomocotiva, que aquela guerra não era dele, deixou o exército para trás.

Chegou na cidade, e fez alarde:

- Houve um confronto da zorra, tive que arrastar a locomotiva. Houve muitos tiros, não sei quem viveu, nem quem morreu.

A mulher do tenente Ubaldo enquanto ouvia o maquinista Maroto falar, viu o quepe do marido no assoalho do trem e começou a gritar desesperada:

- Mataram meu marido, mataram meu marido.

Nada.

Tenente Ubaldo restou vivo, vivinho, e contou toda essa história para Cleidiana.

Wladimir e os companheiros foram presos dia seguinte em Marcionílio Souza, município a 50 quilômetros de Iaçu.

Como chegaram lá ninguém sabe.

Talvez quem sabe cobrindo parte do trajeto andando pela caatinga, outra parte em carona de um e de outro...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente! Quando eu crescer, ah, ainda vou conseguir narrar com essa magia. Cada dia mais encantada...

Mônica Bichara: Cleidiana Ramos vc chega, vc chega

Adilson Borges: Se aprochega...

Irma Teixeira: Encantada fico de lê o nome do povo que conheci ainda criança na narrativa, em outros palavras ouvia essa história na minha casa,Show!!!

Claudia Moreira de Carvalho: Li esse livro 4 vezes.

Chorei, sorri e me emocionei mt.

Eliana Gomes Santos Gomes: Ouvia essas contadas por meu sogro Belo, que se escondeu pro lado do Angelin com a família. Kkkkk 

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Emiliano José

3 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Wladimir corta todas as ligações de Iaçu com o mundo, preso é levado para Salvador, encontra outros companheiros, habeas-corpus...

 

Sebastião da Silveira Carvalho havia sido preso antes, logo ao descer do trem, depois de voltar das redondezas.

Iniciozinho de abril, primeiros dias.

Wladimir, já contamos a odisseia, caatinga na fuga e preso uns cinquenta quilômetros após, em Marcionílio Souza.

O tenente reformado da PM, Antônio Ubaldo de Souza, delegado na cidade por muito tempo, de imaginação fértil, deu depoimento a Cleidiana no início dos anos 1990:

- Wladimir, na ocasião, cortou todas as ligações, todas as que podiam se comunicar com Iaçu. Naquele tempo, era teletipo e outras e outras.  Então Iaçu ficou neutra. Ele declarou na delegacia que queria recrutar esse pessoal e subir com essa máquina pegando de estação a estação aquelas pessoas adepta do movimento.

Desconfia-se disso, claro.

Não se acredita tenha Wladimir, já militante experiente, tenha dito isso.

Se pensou, guardou pra ele.

Da convivência em Iaçu, cidade só fala bem de Wladimir.

Assim falou, no depoimento dado a Cleidiana, lá nos anos 90 também, José Teixeira, sobre quem já falamos:

- Todo mundo tem direito a pensar como bem entender. Eu mesmo era amigo de Wladimir. Agora, nunca se tratou de política internacional, partidarismo. Essa perseguição era contra os trabalhadores, o pessoal da Leste. Houve o golpe de 1964, e os trabalhadores, é claro, só podiam ser contra esse sistema.

Teixeira não foi preso, após fuga rocambolesca, já contada.

Sebastião e Wladimir foram se reencontrar em Salvador, presos.

Conversei esses dias com Othon Jambeiro e Fernando Alcoforado, ambos companheiros de prisão de Wladimir e Sebastião.

O encontro se deu no Quartel de Amaralina.

A ditadura havia feito uma varredura desde o início do golpe em Salvador.

Contei isso em alguns episódios de livros meus, mas aconselho a quem queira conhecer melhor aqueles dias ler no primeiro volume do "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento" o capítulo "Vivo ou morto", voltado à história da prisão de Othon Jambeiro.

Tenho que recontar alguma coisa para entender a libertação de Wladimir e Sebastião.

José Borba Pedreira Lapa, notável advogado, meu defensor mais tarde nos anos 1970, impetrou um habeas-corpus...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

4 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Wladimir e Sebastião em Salvador, péssimas condições de prisão, José Borba Pedreira Lapa impetra habeas corpus, STM decide por soltura...

 

Voltemos um pouco.

Othon Jambeiro, nosso querido amigo e companheiro, jornalista sobre quem já falamos aqui nessa série, foi preso nesse abril dos diabos, logo após o golpe, dia 4 de abril de 1964.

Logo se viu no Quartel do Barbalho, ele e mais dezoito presos, espremidos numa única cela, não tão pequena, incapaz no entanto de acolher tanta gente.

Ainda mais a considerar a não existência de sanitário: as necessidades todas feitas numa lata de 20 litros.

Nada de banho, sem escova de dente, sem creme dental, nenhum desses luxos da civilização - uma pocilga.

Entre os presos, outro jornalista, José Gorender.

E Sebastião Nery, naquele momento deputado, mais tarde também célebre jornalista.

Depois de algum tempo no Quartel do Barbalho, Othon é transferido para o 19 Batalhão de Caçadores do Exército, no Cabula.

No quinquagésimo dia de prisão, soltaram um bocado de gente, muitos estudantes.

Othon e alguns outros continuavam na chave.

No dia 6 de agosto de 1964, José Borba Pedreira Lapa, advogado, impetra habeas corpus no Superior Tribunal Militar (STM) para dez presos, entres os quais Wladimir Pomar e Sebastião da Silveira Carvalho, os dois protagonistas de Iaçu, além do próprio Othon Jambeiro.

Pedreira Lapa, notável advogado, e dou testemunho porque meu advogado durante os quatro anos de prisão, denunciava no habeas corpus: seus clientes se encontravam presos "como animais em curral e aos rebanhos, em celas comuns, desprovidas das condições mínimas de higiene e salubridade no Quartel do 19 BC, no já tristemente célebre presídio do 'Cascão', em Narandiba, Salvador, sem culpa formada e esgotados todos os prazos legais toleráveis".

Exatos vinte dias depois, o STM, por unamidade, concedeu a ordem de habeas-corpus em favor dos presos.

Então, por determinação superior, tratava-se de soltar os presos, não?

Decisão do STM.

Nada a discutir.

Certo?

Não.

Ditadura é ditadura.

É arbítrio.

Às vezes, os militares provinciais podem cismar de contrariar ordens de cima porque cheios de ódio...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Gente: e Othon Jambeiro foi também meu professor, grande Emiliano.

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Emiliano José

5 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: ainda o Quartel do Barbalho, melhorias, banho de sol, as mulheres do Nery, a expectativa e a chegada de Etiene Falcão...

 

Então.

Falava ontem do habeas corpus impetrado por Pedreira Lapa.

E da decisão favorável do STM.

Ia contar de como os militares reagiram a essa decisão.

Vou contar ainda.

Peço licença, no entanto, antes de falar daquela reação, falar de outra coisa.

Não resisto.

Coisa de 20 dias depois de presos no Barbalho, ali pelo dia 25 de abril de 1964, e estamos tratando de Othon Jambeiro e dos outros 18 do Forte, as coisas começaram a melhorar.

Direito a banho de sol.

Chance de ir ao banheiro.

E aconteceu o episódio das mulheres do Nery.

É, Sebastião Nery, um dos presos, era homem de duas mulheres.

Uma, visitava num horário.

Outra, noutro.

Em nome da boa diplomacia, estratégia para evitar conflitos, sempre aconselhável, especialmente para quem está preso.

Os presos suspiravam: ah, as mulheres do Nery.

Não se apressem, os dados a maldades ou pensamentos pecaminosos.

Ninguém ali desejava a mulher do próximo - juravam de pé juntos.

Os suspiros tinham outra razão, e eram de natureza política: na chegada, elas sobraçavam "O Globo", "Jornal do Brasil", "Correio da Manhã", "O Estado de S. Paulo".

Nery era deputado.

A entrada de jornais não era permitida, mas uma conversinha aqui, outra ali, vista grossa dos soldados, e as mulheres do Nery passavam garbosamente com as publicações debaixo do braço, depois disputadas sofregamente por cada um dos presos.

Ah, as mulheres do Nery...

Tão ansiosamente esperadas...

Querem saber mais?

Já indiquei, volto a fazê-lo, o capítulo "Vivo ou morto", do "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", volume I, livro escrito por mim.

Então.

Ordem do STM: soltar os presos.

Os dez presos nominados no habeas corpus de Lapa deviam ser libertados.

Os que estavam no 19 BC foram avisados na noite de 6 de agosto daquele 1964 de triste memória para arrumar os seus pertences.

Seriam soltos?

Era essa expectativa.

De supetão, os presos veem chegar o temível capitão Etiene Falcão.

Conhecido por seu espírito agressivo, pelo gosto em executar ordens da ditadura recém-implantada.

Os presos já tinham ouvido o boato de alguma ação dos militares baianos caso o habeas corpus fosse concedido.

Foram agrupados e...

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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Emiliano José

6 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: uma noite, capitão Etiene Falcão, um sequestro, Quartel de Amaralina,

habeas corpus para fazer cumprir habeas corpus.

 

Noite de 28 de agosto de 1964.

Os conhecedores dos expedientes da ditadura sabem da preferência pela noite quando ela pretendia tocar terror.

À noite, todos os gatos são pardos.

O capitão Etiene Falcão deu ordem para os presos do 19 BC arrumarem seus trecos.

Lembrar: no habeas corpus de Pedreira Lapa informava-se o quartel onde estavam presos, exatamente o presídio do "Cascão", no 19 BC.

Então, a ditadura resolveu tirá-los dali.

Um sequestro.

Simples assim.

Em pouco tempo, espremidos em carros da Petrobras, utilizados para não dar na vista, afinal era tudo clandestino, em operação sob o comando do capitão Etiene, viram-se no Quartel de Amaralina.

Não seriam, assim, alcançados pelo habeas corpus.

Absurdo, mas verdadeiro.

Ditadura.

Tenho informação segura: Wladimir Pomar e Sebastião da Silveira Carvalho, os dois principais protagonistas da rebelião de Iaçu, figuravam no habeas corpus.

Não sei se estavam no 19 BC.

Sebastião parece que sim.

Sei, por ouvir Othon Jambeiro e Fernando Alcoforado esses dias, recolhidos então ao 19 BC e vítimas do sequestro: encontraram-se com Wladimir Pomar no Quartel de Amaralina.

Pode ser, é apenas hipótese, estivessem ele e Sebastião em alguma cela separada dos demais no 19 BC.

O fato é que Pedreira Lapa era também advogado dos dois, e eles eram também beneficiados pelo habeas corpus.

Na manhã seguinte, 29 de agosto de 1964, olharam a cela espaçosa, com beliches e latrina, e tiveram a notícia: estavam incomunicáveis.

Sequestro e incomunicabilidade.

A extrema-direita da ditadura, se é possível isso, e era, não admitia sequer uma decisão do Superior Tribunal Militar.

As decisões deviam ser dos quartéis, não de tribunais.

Alguns presos do 19 BC, não  beneficiados pelo habeas corpus, anotaram as placas dos carros da Petrobras, e fizeram chegar a informação à imprensa e aos advogados.

Lapa, então, não conta conversa: entra com um habeas corpus no STM para fazer cumprir habeas corpus do próprio STM.

Maneira de dizer, claro, que jornalista perde o amigo, mas não o chiste.

Na verdade, Lapa entrou com uma petição.

Denunciava...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José nos brindas com essas informações preciosas..

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Emiliano José

6 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Pedreira Lapa, petição ao STM, as ironias, famílias desesperadas,

nada de a ditadura soltar os presos...

 

Pedreira Lapa, a quem todos nós, sobreviventes, ex-presos políticos, devemos muito, ingressou com petição no STM para exigir a soltura dos recolhidos pela ditadura ao 19 BC - já dissemos ontem.

Revelamos também o sequestro.

Das ordens de soltura, apenas uma havia sido cumprida: a relativa a Milton de Carvalho Silva.

Gravemente enfermo, sob cuidados no Hospital Militar de Salvador, os militares resolveram soltá-lo. 

No habeas corpus, Lapa havia descrito o terrível quadro de saúde vivido por Milton de Carvalho Silva:

"Possuído de neurose de reação, distonia neurovegetativa, síndrome do aparelho respiratório de etiologia ainda desconhecida, emissão de sangue caquético, reduzido a menos de 50 quilos, necessitando de tratamento especializado".

Os militares certamente temiam morresse nas mãos deles.

O restante dos presos, clandestinos, incomunicáveis no Quartel de Amaralina, Wladimir Pomar e Sebastião Carvalho, os comunistas de Iaçu, entre eles.

Lapa, na petição, reclamava a imediata soltura dos demais.

Argumentava ser necessário isso fosse feito "em nome da dignidade da função judicante, tão elevada e tão nobre, e até, como se vê, dos próprios desígnios diretores da revolução vitoriosa, cujo abastardamento a transformaria em inexpressiva e intolerável quartelada".

Caso isso não fosse feito, ele, intrépido, dizia só restar "o apelo extremo à ONU".

Se chegasse a isso, Lapa argumentava, uma nódoa marcaria "toda uma geração cristalizada na fé democrática, enraizada sob o pálio e a égide dos princípios cristãos e dos impostergáveis direitos naturais da pessoa humana, onde sobrepaira o da liberdade individual, no seu sentido mais amplo".

Conheci Lapa muito bem.

Devia divertir-se ao redigir a petição, plena de ironia, mas sem que pudessem acusá-lo de tal prática.

Parecia falar sério - e falava.

Não tinha ilusões com a ditadura.

Mas, falava como se acreditasse tivesse ela alguma fé democrática.

Data da petição: 3 de setembro de 1964.

Os presos, incomunicáveis no Quartel de Amaralina.

As famílias, desesperadas.

Não sabiam onde estavam.

A ditadura iria soltá-los?

A pergunta estava no ar...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Gente....e a gente ainda sabe tão pouco desses tempos aberrantes..

Vânia Carla Almeida: Ainda há tanto a conhecer... 

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Emiliano José

8 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: tempo, tempo, tempo,

visita de Geisel, visitas restabelecidas,

Sebastião e Wladimir libertados, papagaio...

 

Quem passou algum tempo preso, sabe das mudanças relativas à dimensão do tempo.

As horas demoram pra passar.

É a gigantesca clepsidra.

Minuto a minuto, segundo a segundo.

Uma lentidão dos diabos, ou de Deus, sei lá, que na eternidade o tempo, em qualquer lugar, deve caminhar a passo de tartaruga.

Mães, pais, mulheres, namoradas, familiares, atarantados, sem saber a quem recorrer porque nada se informava.

O tempo corria, e nada.

Os dias eram longos.

Uma visita do general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar do general Castello Branco, ao Quartel de Amaralina para apurar denúncias de maus-tratos, mudou tudo isso.

Essa visita teve lances memoráveis, com intromissão até de Dante Alighieri e sua Divina Comédia.

Não custa ao leitor, se estiver ansioso, ler o capítulo "Vivo ou Morto", do "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", já indicado.

Creiam: vale a pena.

O importante: com a visita de Geisel, os familiares voltaram ao Quartel de Amaralina.

Quando Geisel se retirou, um dos coronéis da comitiva dele voltou à cela, procurou saber a situação de cada um, e garantiu:

- Não se preocupem. A situação de vocês vai ser resolvida.

Visitas restabelecidas.

E aos poucos os presos começaram a ser libertados.

Othon Jambeiro lembra o dia de sua libertação: 10 de outubro de 1964.

O habeas corpus, vocês se lembram, impetrado em 6 de agosto.

O sequestro, dia 28 de agosto.

Só em outubro, começaram a ser libertados.

Ditadura.

Importante é outra lembrança de Jambeiro: no mesmo dia 10 de outubro, Sebastião da Silveira Carvalho, um dos líderes da resistência de Iaçu, também foi libertado.

Saíram juntos.

Wladimir Pomar sairá alguns dias depois.

Os dois comunistas de Iaçu ganhavam a liberdade.

Chico Preto tornara-se próximo de Sebastião e da família.

Gostava do papagaio, que restou solitário quando Sebastião foi preso e a família arribou.

Vivia clamando Dalva Dalva Dalva.

Resolveu então...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

9 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: um papagaio, uma gralha

voz da caatinga, a chegada da polícia,

o embarque para o Rio de Janeiro.

 

Antes, falamos do papagaio de Sebastião e de Dalva.

Papagaio inteligente, vimos.

Escorreguei ao contar a história.

Bom sempre corrigir.

Wladimir e Sebastião, carece dizer, ressabiados, conhecedores da conjuntura política, sabendo da proximidade do golpe, ao menos da possibilidade dele, resolveram mandar as famílias de volta para o Rio de Janeiro.

O papagaio ficou.

Não sei o nome do bicho.

Nem sei se haviam posto nome nele.

Pena se não o fizeram.

Sebastião devia cuidar do papagaio.

Foi preso, no entanto.

O papagaio restou só.

Nem tanto: havia um cancão.

Ave típica da caatinga, come tudo o que encontra pela frente, de insetos a ração de galinha, a gralha cancã é estridente: na mata, ao descobrir qualquer coisa estranha, avisa a todos.

Não sei se também gritou.

Curioso: os dois viviam soltos, não saíam dali, andavam pelas vizinhanças, mas voltavam sempre.

A polícia, logo depois de levar Sebastião para a delegacia, aportou na casa dele, com toda sua violência.

Polícia é polícia, ainda mais polícia da ditadura.

Dalva estava no Rio, e não em Iaçu, como dissemos antes.

O papagaio saiu picado piripicado dando o alarme, que parece não gostava de polícia, sabem né?, comunista faz a cabeça até de bicho, gritava, gritava:

- Dalva, Dalva, Dalva...

Ele era mais ligado em Dalva, Sebastião parece não lhe dava tanta atenção.

Chegou ao quintal de Nazinha, ela se recorda bem disso,  a vizinhança toda assistindo.

Houve quem ouvisse o bichinho dizer, num apelo assustado:

- Me acode, Dalva. Me acode, Dalva, me acode.

E Dalva, bem longe dali.

Passados alguns dias, depois desse furdunço, Chico Preto tratou de arrumar as tralhas de Sebastião, e enviá-las para o Rio de Janeiro.

Cuidado especial teve com o papagaio, pois só podia ser mandado depois de ser providenciada uma papelada dos diabos, e Chico cuidou de tudo com carinho.

O papagaio chegou ao Rio de Janeiro são e salvo.

Apenas com saudade da gralha cancã.

A felicidade de rever Dalva compensava tudo.

Sem muita estridência, quando a viu, comemorava:

- Dalva, Dalva, Dal...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: O papagaio já é um dos protagonistas fantásticos dessa história...

Carlos Roriz Silva: Parece que estou lendo aquela turma antiga, Machado, Graciliano... rsrsr

Emiliano José: Carlos Roriz Silva faça isso não... fico metido a besta... a mil léguas deles. Abraço

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Emiliano José

10 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Sebastião e Wladimir,

Rio de Janeiro, vida que segue.

 

Sebastião chegou ao Rio de Janeiro.

Vida não estava fácil.

Vigiado.

Ditadura em cima.

Nada de arrumar emprego.

Era um ficha suja.

Subversivo.

Um cunhado o ajuda, e monta uma lanchonete, seu ganha-pão.

Sinhozinho, de Iaçu, está vivinho e não me deixa mentir, revela: quando Sebastião viveu na cidade tornou-se amigo dele.

De batismo, Dorisval Pedro de Oliveira, mas chamado sempre Sinhozinho.

Quiserem encontrá-lo lá no sertão de Iaçu onde voltou a viver, não o procurem pelo nome de batismo, não.

No interior, raro quem seja chamado pelo nome - há sempre um chamamento carinhoso, um apelido, às vezes vindo de infância.

Se pegar, e quase sempre pega, fica para nunca mais.

Assim com ele: Sinhozinho.

Muito mais fácil - Dorisval era pra complicar.

Trabalharam juntos na Leste Brasileiro.

Quando o soube no Rio de Janeiro, Sinhozinho arribou, com esperança de arrumar algum emprego, ajudado por ele.

Foi trabalhar no Curtume Carioca.

Nos finais de semana, ajudava Sebastião na lanchonete, bem movimentada.

Sebastião morreu de infarto do miocárdio.

Teve velório concorrido, Sinhozinho testemunhou.

Morreu um homem muito querido.

- Era capaz de tirar roupa do corpo pra dar pros pobres, diz Sinhozinho.

Morreu pobre.

Com dignidade.

Wladimir voltou ao Rio de Janeiro, e seguiu sua sina de militante político, comunista.

PCdoB, um dos fundadores, em 1962, já dissemos.

Um dos fundadores do PT.

Um de seus dirigentes.

Muitos livros publicados.

China, uma de suas especialidades.

História do Brasil e da esquerda, outra de suas preocupações.

Na luta, sempre.

Está com 84 anos.

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

11 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: edição de domingo, chefia de Reynivaldo Brito, disputa entre Iaçu, Princesa do Sertão e Princesa do Itapicuru.

 

Ela de repente se viu na Editoria de Domingo.

Quando setembro chegou, 1999.

O jornal "A Tarde" resolveu dar tratamento especial à sua edição de domingo.

Reynivaldo Brito assumiu projetos como o Caderno Especial sobre Consumo em Shoppings.

Ganhou o reforço de mais dois repórteres: Haroldo Aquiles e Nilton Nascimento.

Aquiles, um contador de histórias sobre Queimadas.

Ela falava de Iaçu e seus reinos encantados.

Ele, as maravilhosas histórias de Queimadas, a Princesa do Itapicuru.

Uma boa disputa.

Nilton Nascimento, sujeito de papo elegante, denso.

Aprendeu muito com os dois.

Reynivaldo apertou o passo, ajudado pelo subeditor Marinaldo Mira: além das reportagens sob a responsabilidade de cada um, todo domingo haveria um pingue-pongue.

Matéria de página, pergunta-resposta.

Ela - vocês sabem, ela é Cleidiana, estava um pouco desaparecida, eu sei, outros roubaram a cena, Chico Preto às vezes, aqueles subversivos em outros momentos - ela meteu mãos à obra, fez algumas das entrevistas de página, e o chefe tornou-a setorista da tal entrevista.

Além de tudo, além das demais matérias, havia de dar conta do pingue-pongue do domingo.

O coração aguentou, mas bateu forte quando o diretor do jornal, Edivaldo Boaventura, disse alto e bom som, para quem quisesse ouvir:

- Ela conhece do riscado, entrevista com maestria.

Bairrista, Boaventura costumava dizer:

- Tivesse essa moça a graça de ter nascido em Feira de Santana, seria um gênio.

Ele, nascido na Princesa do Sertão, conhecia quase nada de Macondo e seus segredos, desculpem, de Iaçu e seus encantados.

Cleidiana teve seu dia de pirraça com Boaventura.

Ele lá, sentado, uma tarde, conversando, era bom de conversa, e ela o surpreende:

- Em compensação, sou conterrânea de Ernesto Simões Filho. Como ele, nasci em Cachoeira. Só depois segui para o reino encantado de Iaçu.

Riram muito nesse dia.

Ele disse do desejo dele:

- Um dia, você há de me entrevistar.

Uma das frustrações dela: ele se foi em 2018, e a entrevista não aconteceu.

 Os pingue-pongues foram memoráveis...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Eita..bateu forte a saudade desses tempos..valeu, Emiliano José 😃

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Emiliano José

12 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: O encontro com Albergaria,

as ousadias, os muitos Jesus, Saramago,

O Senhor dos Anéis, o diabo a quatro.

 

A série de pingue-pongues foi uma experiência muito rica.

Por ela, passaram Octavio Ianni, um dos maiores sociólogos brasileiros, cuja obra "O colapso do populismo no Brasil" tornou-se referência, Sepúlveda Pertence, e tantos outros.

Ela é Cleidiana.

Num primeiro momento, recebia as sugestões da chefia.

Logo, ela própria ia escolhendo os entrevistados.

Fez memorável entrevista com Roberto Albergaria, professor conhecido por sua heterodoxia, fuga ao politicamente correto, estilo provocativo, daqueles capazes de perder o amigo. a piada, nunca.

Tornou-se fonte permanente dela.

E amigo.

Na entrevista, Albergaria deu vida a Catarina Paraguaçu e a Caramuru, transformados em mitos da grande mãe e do grande pai.

Deu um certo reboliço, mas "A Tarde" assimilou.

Como doutor em Antropologia, Albergaria foi dando régua e compasso a Cleidiana em várias matérias, e contribuiu decisivamente para a caminhada acadêmica dela, hoje doutora também em antropologia - a moça de Iaçu não é brinquedo, não, Chico Preto sempre soube disso.

A parceria dos dois foi abrindo caminho para ousadias.

Não apenas para as entrevistas pingue-pongue.

O domínio do universo simbólico por Albergaria ajudou-a na compreensão dos muitos Jesus existentes em tantas narrativas.

A ex-freira aproveitava seus conhecimentos, incorporando os aprendizados com o mestre Albergaria.

Mergulhou em Saramago e seu "O Evangelho segundo Jesus Cristo", na série "Operação Cavalo de Troia, de J. J. Benitez, em "Ao Vivo do Calvário", de Gore Vidal, para escrever matéria sobre os evangelhos reescritos, reinterpretados na literatura.

Essas matérias tomavam-na por inteiro.

Foi assim com o universo de R. R. Tolkien, autor de "O Senhor dos Anéis", matéria provocada pelo anúncio do lançamento da trilogia de Peter Jackson para o cinema - Reynivaldo abriu espaço para matéria de página inteira, uma festa.

E houve a matéria sobre a desvalorização do jegue...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

13 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: revistas em quadrinhos,

alfabetização, jegues e o mundo carregado

no lombo, desvalorização, tristeza.

 

O jegue é parte indissociável da cultura nordestina.

Séculos afora, povoou a imaginação popular.

Estimulou a fantasia do povo.

E cada fantasia, viu?

Bom danado pra suportar a seca.

Pau pra toda obra.

Carregava o universo no lombo.

Nem sempre o homem considerava seu tamanho.

Botava peso em cima dele que até Deus duvidava, mas Deus que vê tudo, via e não perdoava, um dia ia cobrar.

Ela um dia foi alertada por Dodó.

Nome simpático para um anjo.

Filho de Cecé, irmã de Nazinha.

Era mais velho que ela - e ela é Cleidiana, bom sempre alembrar que a mente pode andar distraída.

Dodó era o primo Edvaldo Rebouças.

Cecé, Celestina Rebouças.

Lembrar sempre: no interior, nome de batismo importa pouco.

Dodó tomou-se de cuidados por ela desde muito cedo.

Deu-se de pedagogo, e a ensinou a ler.

Método inovador, não um Paulo Freire, mas inovador a ponto de fazê-la interessar-se muito, e rapidamente aprender a ler.

Botava aquela montanha de revistas em quadrinhos na frente dela, aquela maravilha, aqueles sonhos de histórias, da coleção dele.

E ia soletrando, mostrando letras e figuras, e ela querendo entender tudo, e o mundo foi se abrindo, as visões se clareando, até que um dia entendeu.

Bicicleta, aprendeu a andar.

Também pelas mãos dele.

Um anjo.

Ele e a mulher Ana, professores, casaram-se e foram para Marcionílio Souza, e estão lá até hoje, ensinando.

Dodó, um dia, em volta da mesa em Iaçu, entre uma garfada e outra da galinha de ensopado de Nazinha, revela sua indignação, revolta: um jegue estava custando R$ 5,00.

Isso mesmo: míseros R$ 5,00.

- Deus não é justo - blasfemava.

Não se conformava.

Cleidiana compartilhou daquela indignação, guardou no coração.

Pouco depois, leu reportagem na Super Interessante sobre a desvalorização do jegue no Rio Grande do Norte, repercutindo matéria do New York Times.

Jornalista é o diabo: vive atrás de boa pauta.

Falou com Reynivaldo Brito, e veio o sinal verde para a desvalorização do jegue.

Ligou pra Dodó, perguntou:

- O jegue ainda vale R$ 5,00 por aí?

- Que R$ 5,00? Está caindo pelas tabelas: valendo R$ 1,00, e olhe lá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah essa reportagem...uma das que não esqueço..lembro de cada detalhe..rsrs..esse Emiliano José sabe arte de dar nó em sertanejo...

Lis Braga: Pena que agora estamos abatendo os bichinhos para exportar. Horrível. =(((

Isabel Santos: Rsssssss massa. Estava sentindo falta de acompanhar sua trajetória, Cleidiana Ramos (as coisas que foram aparecendo no meio do caminho me afastaram um pouco do face...Tempinho só mesmo para ZAP, e olhe lá). Amo ler os textos criativos do querido Emiliano José. Viva vocês. Bjos  

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Emiliano José

14 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: jegue vendido por menos de um real, motocicletas chegando ao campo, vaqueiros no fim,

a força da grana destruindo coisas belas.

 

Uma indignidade.

Era como Dodó classificava o fato de um jegue estar sendo vendido a  R$1,00.

- Uma galinha viva aqui sai por R$ 10,00 ou R$ 15,00 - ele comparava.

- E o pobre do jegue, de tantos serviços à humanidade, tão prestativo no nosso sertão, valendo um R$ 1,00. Isso não é coisa de Deus, não.

De braços dados com o fotógrafo Elói Corrêa, Cleidiana marchou para Marcionílio Souza.

Era fato: fácil fácil encontrar jegues por R$ 1,00.

Havia à vontade no município.

Era o capital chegando ao campo.

A força da grana que destrói coisas belas.

As motos chegando, roncando pelos pastos, substituindo jegues, burros, cavalos.

Sujeito podia comprar baratinho, brinquedo divertido, subia e descia morros, prestações a perder de vista.

Aquela história de vaqueiros tangendo gado, levando as boiadas, aqueles aboios, montados em seus baios, virava coisa do passado, para momentos de nostalgia em volta da fogueira.

Os jegues, abandonados à própria sorte.

E sem querer, culpa não tinham, viraram dor de cabeça para a prefeitura - na verdade para todas as cidades da região.

Andavam pelas ruas, vagavam próximos à rodovia, acidentes, tantos transtornos.

Havia até a história de frigoríficos de olho nos bichinhos - diziam, ninguém sabe se verdade, se lenda urbana.

Rodaram pelo município, ela e Elói Corrêa.

Ela, anotando.

Ele, fotografando.

Deram de frente com um acampamento cigano.

Menino de rosto redondo, olhos espertos, castanhos.

Maravilhou-se com a máquina fotográfica.

- Quer trocar, moço?

Elói rendeu conversa:

- Como seria?

- Você leva o jegue, vale R$ 0,50, e me dá a máquina.

Não fecharam negócio...

Rodaram, rodaram, fizeram meia volta, e Cleidiana sentou para escrever.

Precisava primeiro falar da espécie, da maravilha que era o jegue...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Nossa...assim mesmo..🤩

Jose Jesus Barreto: Lembro-me de Lula lacrando com a invasão das motos no sertão nordestino, como se fosse um grande avanço. E eu já chorava pelos jegues e mulas, animais que ganharam meu afeto quando ainda era miúdo. Progresso ou desgraça?

Artur Carmel: Pode ter jegue, mula e moto...

Maria Celeste Pires Silva: É verdade, na roça que nasci e me criei eu ia para a escola montada em um jegue , alternando( saudosos Dourado e Pirulito) , com minha irmã menor na garupa Ficavam à sombra, aguardando a nossa aula acabar e retornarmos para casa. Já sabiam o caminho    

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Emiliano José

15 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: um mundo se esvaindo,

os sertões sumindo,

os jegues e a triste partida,

a grande repercussão da reportagem.

 

Ela pensava no jegue e seu desaparecimento.

No coração, algum medo, sensação estranha.

Seria um prenúncio do sumiço daquele mundo?

O fim dos sertões?

A ferrovia quase havia acabado com os vaqueiros, de quem o velho Chico Preto sempre falava, com alguns dos quais ainda rememorava os tempos antigos, deles correndo por entre as caatingas, o titã de que fala Euclides da Cunha, força e agilidade extraordinárias, atrás da rês desgarrada, cravando a espora nas ilhargas do cavalo, ou tocando boiada suavemente estradas e rios afora, aboiando.

Os sertões, seu mundo.

Iaçu, um pedaço dele.

Marcionílio Souza, outro.

Aquelas paragens, sua vida.

E agora, a ameaça do desaparecimento do jegue.

Luiz Gonzaga cantou, e ela relembrou na matéria: é verdade meu senhor essa história do sertão Padre Vieira falou que o jumento é nosso irmão.

Arrastou lenha madeira pedra cal cimento tijolo telha fez açude estrada de rodagem carregou água para casa do homem fez a feira e serviu de montaria.

Em troca, o homem só lhe deu pancada pau nas pernas pau no lombo nas orelhas o jumento é bom o homem é mau.

E o velho Luiz Gonzaga ao final dizia reconhecer o valor do jegue, tudo que dera ao sertão.

Cleidiana lembrou de "O jumento é nosso irmão".

Eu nunca me esqueço de "Triste partida": eu vendo meu burro meu jegue e o cavalo nós vamos a São Paulo viver ou morrer e logo aparece feliz fazendeiro por pouco dinheiro lhe compra o que tem.

Como pouca gente, Gonzagão cantou o sertão, o Nordeste ressequido, a tragédia da pobreza e da seca.

Foi atrás também do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense, de 1995 -  "Mais vale um jegue que me carregue do que um camelo que me derrube".

E aí danou-se a falar na desvalorização do jegue naqueles dias.

Teve até disputa para a edição da matéria.

Sexta-feira, texto liberado, e Marinaldo Mira, subeditor, se animou todo para editá-la.

Reynivaldo Brito, editor, deu-lhe um chega pra lá: essa é minha, deixa comigo.

Cleidiana inchou toda - de orgulho.

Na segunda, Reynivaldo chamou-a e informou:

- A sua matéria foi a mais lida no portal durante o domingo. Superou até as matérias sobre esporte.

Pra que mais?...

Triste pelos jegues.

Feliz pela repercussão.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah...seo Emiliano e sua pena encantada..  

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(Cobertura de Carnaval do jornal A Tarde)

Emiliano José

16 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: um novo diretor de redação,

teimosia diante da chefia,

a alegria na hora do gol,

20 pautas em uma hora,

o Carnaval do Abelhudo.

 

Ricardo Noblat foi uma tempestade.

Chegou em 2002.

Diretor de redação.

Mexeu fundo com o jornal.

Nada passava sem o olhar dele.

Exigente, um workholic.

Criou uma editoria especial, "Editoria de Verão", e Cleidiana foi uma das últimas a serem incorporadas.

O primeiro texto, umas 20 linhas. Foi, voltou, foi, voltou, foi, voltou - três vezes. Noblat olhava, repassava, e nunca achava bom. Demorou até achar o ponto.

No segundo texto, quando ele começou a ensaiar pedir para reescrever, deu testa.

Levantou os olhos para a menina atrevida, sentiu firmeza, voltou a olhar com atenção para o escrito, leu, releu, trocou vírgulas e se rendeu:

- Tá escrevendo bem pra porra.

Estendeu-lhe a matéria com um indisfarçável sorriso no canto dos lábios, e mandou:

- Pode pedir pra publicar.

Cleidiana quase explodiu - de alegria.

Assim que saiu da sala dele, imaginou-se jogador de futebol na hora do gol: deu um pulo pro alto, os punhos fechados - a redação olhando, querendo entender.

Noblat foi se engraçando com Cleidiana - com todo respeito.

Descobrindo nela uma grande repórter, um talento jornalístico.

Quem sabe, boa pauteira, além da queda pela reportagem.

Um dia, ele pede:

- Quero 20 pautas de Carnaval.

- Como assim? - indagou.

- Sim, e que sejam o avesso do avesso, nada a ver com as matérias exibidas pela televisão.

Achou interessante.

Um intrigante desafio.

Ligou pra quem?

Foi beber na fonte do professor Albergaria, autodenominado Abelhudo.

Em uma hora entregou a encomenda, para estupefação de Noblat.

Cleidiana contou o milagre e o santo.

- Quero conversar com Albergaria - disse.

Passou três horas com o professor, encantado.

Dali surgiu o projeto de cobertura do Carnaval de 2003: tudo em forma de crônica.

Poderia ser chamado em "A Tarde" o Carnaval do Abelhudo...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Haha..que dias! 

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Emiliano José

17 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: provar o racismo,

andar pelas lojas chiques,

sentir a invisibilidade,

a discriminação na Roma Negra.

 

Algum tempo depois, Noblat convoca Cleidiana à sala dele:

- Tenho uma pauta pra você.

- Ótimo - ela diz.

Ele, no entanto, antes de começar a explicar, avisa:

- Eu mesmo duvido dessa pauta.

A pauta advinha da repórter Daniela Silva, da editoria de Economia.

Em matéria dela, Salvador era apresentada como uma cidade racista.

Noblat, um estrangeiro na capital baiana, provocou:

- Sua missão é provar a verdade dessa afirmação.

Provocou mais:

- Vocês baianos vendem isso aqui como o lugar da igualdade, da confraternização - e riu.

Sugeriu:

- Vá a um shopping, lado a lado com outra repórter.

Mas não qualquer outra.

Deveria ser alta e loira.

A escolha recaiu sobre Manuela Barros - modelito alta e loira, como solicitado.

Ligou pra Albergaria antes de colocar o bloco na rua - era sempre uma bússola.

- Vá ao Shopping Barra.

Quis entender, ele explicou:

- Está ali encravado na Graça de baixo, enclave dos considerados brancos puros, se imaginam assim.

Era considerado o shopping da elite, o Iguatemi era mais popular, a diversidade batia à porta, no Barra, não.

E ainda sugeriu levar outro repórter, Gilson Jorge, também negro, como ela.

Na manhã marcada, todos uniformizados de blue jeans, como recomendado por Noblat, seguiram viagem.

Em algumas lojas, Cleidiana entrava sozinha.

Em outras, ela e Manuela.

Noutras, ela e Gilson Jorge.

Teve de tudo.

Mas, especialmente a invisibilidade de Cleidiana.

Pôde sentir a crueldade de ser invisível.

Por arte pura e simples do racismo.

Lembra bem: numa loja de roupas masculinas entraram ela e Manuela - informou do desejo de presentear o namorado, dar-lhe uma camisa.

Foi um cerco sobre ela, quatro vendedores.

Cleidiana assuntando: nenhum dos guapos rapazes sequer olhou para ela ou perguntou se queria alguma coisa.

Invisível, 30 minutos dentro da loja assim.

Um exemplo seguido por outros, o racismo, indisfarçável.

Dia seguinte, relatam tudo a Noblat.

Ele gostou, muito.

E decidiu:

- Vamos ter calma, ampliar, e fazer um caderno.

Completou:

- A gente solta de uma vez só, como um soco. Um caderno...

Então...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita..chegamos no episodio da minha guinada de mais de 360 graus em A Tarde....hehehe...

Lourdinha Brito: Tô curiosa pra saber se teve mais experiências assim como essa, dessa loja.

Fredson Costa: Excelente narrativa... Aguardo o desfecho...

Maria Celeste Pires Silva: Não sou “considerada” afrodescendente, sou aquela cor “padrão “ kkkk mas já cheguei em lojas do shopping barra, perguntei a atendente quanto era o arranjo de flores 🌹, ele olhou para mim, e disse “quer mesmo? É muito caro “ dei um sorriso maldoso e disse: pensei que fosse para vender e não para informar que é caro “ Não ando maquiada nem com jóias. Então não posso comprar o arranjo kkkk

Eliana Rolemberg: Excelente!   

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(Clediana Ramos, Meire Oliveira e Maíra Azevedo - Os homens que chamam os deuses para terra. Foto jornal A Tarde)

Emiliano José

18 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: projeto de caderno especial,

saída de Noblat, banho-maria,

retomado, volta a Albergaria, tudo tranquilo...

 

Noblat é jornalista arguto.

Disse: nada de matéria.

Caderno.

Vamos fazer um Caderno sobre Racismo.

Será um soco no estômago dessa gente metida a besta.

Cleidiana vibrou, alegria, alegria, e correu de novo atrás do orixá:

- Albergaria, e agora?

- Calma, minha filha, só não há jeito para a morte.

E conversaram conversaram projeto ganhou forma.

Mas, nada de sair do papel.

Foi ficando para quando setembro chegar.

Mas em setembro ela saiu de férias.

Quando voltou, Noblat havia batido asas, descido novamente para o Sul.

O caderno, ele, o do carnaval, em banho-maria.

Um dia, Olenka Machado resolveu ressuscitá-lo.

Ela era agora mistura de chefe de reportagem e editora de planejamento na novo desenho da redação.

- Vamos tocar o Caderno sobre Racismo. Para sair no dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, uma edição especial.

Alegre que só a porra, Cleidiana foi de novo ao orixá.

Ela e Albergaria desenharam o caderno, e ele aconteceu.

Narrativa do quanto a cor da pela mexe com a cabeça dos baianos.

Construção do racismo científico e seus impactos, Donald Pierson e seu "Brancos e Pretos na Bahia", mestre do inesquecível Thales de Azevedo, antropologia comendo no centro.

Mergulho nos números do IBGE.

Ela e o fotógrafo Antônio Queiroz manhã inteira na Praça da Piedade entrevistando Deus e o Diabo com uma só pergunta:

- Qual a sua cor?

Deu de tudo: negro, negro claro, negro escuro,  às vezes se fala tinta forte, negro retinto, cor de burro quando foge, moreno, moreninho, uma infinidade de cores - há muito tempo não há quem se reconheça em preto, pardo, amarelo e vermelho, agora indígena, do Censo do IBGE.

O caderno contou com a participação de outros repórteres, além de Cleidiana: Manuela Barros, Gilson Jorge e Daniela Silva.

Saiu de fato no dia 20 de novembro daquele 2003.

Título:

"Qual a sua cor?

A vida em um mundo racista."

Editado por Marlene Lopes.

Início de 2004, e Cleidiana, cada vez mais reconhecida, assume também a edição de cadernos especiais.

Sei, você está aí olhando a cena tranquila, achando tudo um mar de rosas, né?

Achando o racismo fenômeno cordial, não?

Engano.

No dia 19 de novembro, Olenka Machado chama...

#MemóriasJornalismoEmiliano   

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Emiliano José

19 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: nosso racismo estrutural,

rompendo do subsolo de surpresa,

editora reagindo, secretário mandando tocar em frente.

 

Parece uma insistência ranheta essa história do racismo estrutural.

Parece coisa do movimento negro radicalizado.

Também é, e ainda bem essa insistência do movimento negro.

É um grito negro, absolutamente essencial.

Foram 350 anos de escravidão.

O País - o modo capitalista de produção e sua cultura - não se debruçou sobre o significado violento, no corpo e na alma das negras e negros, daqueles mais de três séculos.

E as marcas ficaram, persistem.

Estão aí, à vista, para quem quiser ver.

Desafiam a consciência democrática antirracista, chama a todos para esse combate.

Muitos, muitos mesmo, estão encastelados em seus preconceitos, e agora estimulados pelo próprio presidente da República, e o racismo é cruel, faz sofrer, e mata.

Às vezes, o racismo está lá, escondidinho.

Só se manifesta assim, de susto.

Salta do subsolo, de repente

Estou falando demais, estou desviando a prosa.

Volto um pouco ao Caderno sobre Racismo, de 20 de novembro de 2003.

No dia 19, Olenka Machado convocou Cleidiana a participar da reunião de fechamento de "A Tarde" - para os leigos, é a reunião dos editores para finalizar a edição do dia.

Afinal, fora Cleidiana o cérebro do caderno, devia falar do conteúdo, subsidiar assim as chamadas de capa, a titulação.

Calmamente, como do estilo dela, apresentou o trabalho.

Sabe nada, inocente.

Virou um furdunço.

Muitos questionamentos.

Quase inacreditável, mas Cleidiana ouviu, de uma jornalista não negra:

- Vocês estão destruindo a imagem da Bahia.

- Como assim? - perguntou Cleidiana, baixinho, sem se alterar, só queria entender.

- Aqui na Bahia não há racismo - respondeu a jornalista, e Cleidiana rememorou as palavras de Noblat lá no início de tudo - "vocês baianos vendem isso aqui como o lugar da igualdade, da confraternização".

Porra nenhuma.

O racismo dizia-se presente numa reunião de editoras, editores.

Olenka mostrou dignidade e firmeza:

- Será mentira dos repórteres, com todos esses dados, com as tantas análises, a existência do racismo? - defendeu o trabalho.

Silêncio, por minutos.

Chico Neto, secretário de redação, responsável pela primeira página, apaziguou, mostrou firmeza, mandou tocar o bonde pra Lapinha.

O bonde seguiu, com racismo e tudo.

A edição de "A Tarde" do dia 20...

#MemóriasJornalismoEmiliano  

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Emiliano José

20 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: um caderno, uma revolução,

racismo na pauta, uma memorável

primeira página, foto aberta, a quebra de tabus.

 

O Caderno sobre Racismo não foi uma coisa qualquer.

De alguma forma, mexeu profundamente com "A Tarde".

Um jornal centenário tem tradição.

Não gosta muito de mexer com suas estruturas.

Narrativas e gráficas.

Um jornal conservador - e não o digo como crítica, faço-o como observação.

Afinal, sou colunista do jornal há pelo menos duas décadas.

Tem me suportado.

Devo ao jornal os meus primeiros passos para a edição da série "Galeria F - Lembranças do Mar Cinzento", já a caminho do sexto volume.

Comecei ali a série - depois ganhou vida própria, e seguiu fora de "A Tarde".

Muito apreço pelo jornal.

Então, chega o Caderno sobre Racismo às mãos de Sérgio Fujiwara, secretário de arte.

Ele pensou, pensou, imaginou, imaginou, e ousou.

Resolveu dar a cara a tapa.

A primeira página de "A Tarde", dia 20, trazia uma imagem de cima a baixo de um homem negro com as mãos cobrindo o rosto.

Acima, em letras garrafais:

"Racismo".

Logo abaixo:

"O crime sobrevive".

A ousadia tomava toda a primeira página - além dela, da foto, da manchete, da linha de apoio em torno do racismo, apenas mais três minúsculas chamadas no pé da página em torno do tema.

A fotografia, como as demais do caderno, era de Mário Cravo Neto - o fotógrafo havia cedido todas para essa finalidade.

A configuração dessa página, a foto aberta escandalosamente, a prioridade a um assunto, lembrava a "Tribuna da Bahia", no seu início, lá pelos anos 70, quando a fotografia ocupava espaços absolutamente incomuns para a época, ao menos para o jornalismo da Bahia.

Além de tudo, para "A Tarde", significava um passo adiante no enfrentamento do racismo - dentro do jornal, um tabu ia sendo enfrentado, novos ventos sopravam.

Cleidiana não cabia em si de alegria.

Estava escrevendo quando alguém toca no seu ombro...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita....lembranças fortes.

Mônica Bichara: Uma das melhores coisas do jornal A Tarde 

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Emiliano José

21 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: uma capa de arrebentar,

um caderno para confrontar,

dois socos no estômago,

e um susto durante o trabalho...

 

A capa de "A Tarde" de 20 de novembro de 2003 é bela, belíssima.

Já disse, mas insisto.

Foto de página inteira.

Um negro cobre o rosto.

Com a mão direita.

Anéis sagrados nos dedos.

Outros adereços religiosos no braço e no pescoço.

Um homem do candomblé.

Dá ao leitor a chance de adivinhar a expressão de indignação detrás das mãos.

De raiva.

Ou de medo, quem saberá.

Um bólido de milhões de sentidos, a valer muito mais que as palavras.

Em cima a palavra Racismo salta, em letras garrafais, em negrito.

Logo abaixo, O crime sobrevive, letras brancas, finas.

Curto e grosso.

O soco no estômago de Noblat, dito antes dele ir embora.

O caderno, outro soco no estômago dos racistas.

No alto, um selo, em letras pequenas, retangular: "edição especial consciência Negra 20 de novembro" - consciência em vermelho, Negra, verde, e em corpo maior, nem tanto.

Logo abaixo:

"Qual

A Sua

Cor?

A vida em um mundo racista", alternando branco, amarelo e negro na manchete.

E uma chamada logo abaixo, sobre fundo preto cobrindo toda a primeira página, em caracteres brancos:

"Racismo na Bahia existe, sim. Desde que se é criança escuta-se dizer que aqui é uma democracia racial. Mas a realidade é outra. Olhando de perto, dá para notar que ter pele escura na Bahia só tem valor na música e na poesia.".

Soco no estômago - insista-se.

Racista nenhum gostou daquela edição - uma obviedade.

Cleidiana, naquele 20 de novembro de 2003, estava posta em sossego trabalhando quando alguém bate em seu ombro.

Volta-se e dá de cara com Renato Simões Filho, um dos diretores do jornal, da família proprietária:

- Você é Cleidiana Ramos, a pessoa responsável pela concepção do caderno especial?

Gelou.

- Que fiz de errado? - indagou de si para si.

- Falei alguma coisa errada ontem na reunião de editores e vou ser demitida? -  refletia rapidamente.

Sim, sou eu - respondeu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Emiliano José fazendo os "ciscos" se movimentarem no meu olho...

Graça Azevedo: Cleidiana Ramos o de muita gente! Esse Emiliano José é brincadeira?  

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Emiliano José

22 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: do temor à alegria,

a surpresa do reconhecimento,

prenúncio de novas vitórias.

 

Quem foi repórter, ou editor, assalariado do mundo jornalístico, sabe do significado de se defrontar com o dono do jornal, ou um dos donos.

Ao menos se defrontar assim, de repente.

Sem saber a que vem.

O que será que será?

Era essa a sensação de Cleidiana quando Renato Simões Filho tocou o seu ombro.

Lembrei agora, e peço licença aos leitores para lembrar de um diálogo, capaz de revelar os sentimentos de um jornalista diante do patrão, e não para estabelecer similitude entre os personagens.

"- Quem era o responsável pelo jornalismo da Globo ontem à tarde?

- Pelo jornalismo nacional, Eduardo Simbalista; pelo jornalismo local, eu mesmo, Luís Cabral.

- É com você mesmo que eu quero falar. Você me desobedeceu.

Confesso,  não é vergonha: a mão tremia. Não era medo do desemprego. Era o terror de quem vê desabar sobre si, repentinamente, o próprio Spectro. Jung explica. Mas, sim: a voz era firme.

- Dr. Roberto, se desobedeci foi involuntariamente.

- Você me desobedeceu. Eu disse que não era para projetar e você passou o dia inteiro projetando, dizendo que o Brizola ia ganhar. Você me desobedeceu.

- Mas, dr. Roberto, eu não podia desobedecer a ordens que não recebi. Projetei segundo a orientação de meus chefes.

- E quem são seus chefes?

- Os meus chefes são, pela ordem, Alice Maria, Armando Nogueira e Roberto Irineu.

- Eles não são chefes coisa nenhuma. O chefe aqui sou eu e você me desobedeceu.

- Bem, dr. Roberto, não desobedeci.

- Vai trabalhando aí que na segunda-feira a gente conversa. Até logo."

Esse diálogo é de novembro de 1982, autoexplicativo, abre o livro de Daniel Herz, "A história secreta da Rede Globo", essencial.

Cleidiana estava assim, atônita, ao responder "sou eu mesma", temerosa de notícia ruim quando se viu frente a frente com Renato Simões Filho, diretor e um dos donos do jornal.

Ele foi logo dizendo:

- Parabéns. O trabalho é muito bom, de excelente qualidade. Estou muito satisfeito.

Cleidiana balbuciou um "muito obrigado" em meio a um suspiro de alívio e um sentimento de alegria pelo reconhecimento.

O diretor completou:

- Havíamos separado mil exemplares para o projeto "A Tarde na escola", mas já tivemos que mandar pra rua porque o jornal já está faltando nas bancas.

Outro muito obrigado, e um largo sorriso.

Uma vitória.

Decorrente desse caderno...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Haha. Tive esse susto, mas devo dizer que em A Tarde eu respirei ares de muita liberdade e estrutura para fazer as coisas que sugeria (e nem sempre fora assuntos fáceis). A única exigência era, não explícita, mas implícita: "Inventou, aguente"...mas olhem, posso dizer de cátedra "minha grande escola. Aprendi muito. ". 

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Emiliano José

23 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: quase-freira, lua cheia,

águas do Paraguaçu de Cachoeira,

cadernos negros, pisando a calçada da fama...

 

O encanto é da magia.

Talvez só reservado aos espíritos elevados.

Ou ele pode ser de todos?

Basta se abrir?

Cada um sabe de si, e sabe do que é capaz.

Começo aqui uma dura e encantadora história.

Ou retomo, simplesmente.

A leitora, o leitor, se me acompanham desde o início, hão de se recordar da quase-freira, olhando pras águas do Paraguaçu e pra lua cheia de Cachoeira - o Paraguaçu, conhecido dela em Iaçu, não era o mesmo em Cachoeira, nem a lua cheia, tudo muda, é da poesia do olhar de quem olha, do olhar embevecido da menina quase-freira desistindo ao dobrar uma esquina e buscar outros rumos, descobrindo a vida a cada passo, o vapor de Cachoeira não navega mais no mar.

E um dia deu-se de frente com o candomblé.

Aquele primeiro caderno da Consciência Negra, de novembro de 2003, talvez tenha sido a sua Estrada de Damasco - e aqui a expressão é tomada como licença poética, São Paulo não é orixá, ao menos que eu saiba, dos mistérios da fé pouco entendo.

Eu vou recontando, puxando, qual fio de Ariadne, e as coisas vão surgindo, tenham paciência, parece digressão mas é só parte da história, necessária para que você compreenda.

Sei, há algumas leitoras reclamando, querendo pressa, mas vou devagar porque já tive pressa, como diria nosso Almir Sater.

Naquele mês, surgiu então a ideia dos Especiais de 20 de Novembro, voltados à comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra, Cleidiana coordenando, vida longa, de 2003 a 2015, 13 cadernos publicados.

Pisando a calçada da fama.

A filha de Nazinha e Chico Preto.

Caderno de 2003 indicado para a categoria Nordeste do "Prêmio de Imprensa Embratel".

O de 2006, "Sou de santo e de raça", para a mesma categoria em 2007.

No ano de 2006, o governador Rui Costa faz projeto de lei a pedido do Coletivo das Entidades Negras, e ela se torna Cidadã de Salvador - desculpem, o vereador Rui Costa, na Câmara Municipal, ato falho.

O caderno "Os produtores de Owó" vence o "Prêmio Banco do Nordeste" de 2009 nas categorias Mídia Impressa Regional I e Mídia Impressa Nacional.

O de 2011, "Epô Pupá a Marca do Dendê", finalista do "Prêmio Abdias Nascimento", em 2012.

Em 2013, o Oscar, e assim chamado porque única premiação realmente cobiçada por ela: o "Prêmio Abdias Nascimento" com "Os homens que chamam os deuses pra terra", relato sobre os sacerdotes músicos do candomblé.

Brinquedo, não.

Moça foi longe.

Nazinha até hoje  relembra de tudo isso, e falta estourar de orgulho enquanto prepara uma galinha ao molho pardo para receber a filha.

E Chico Preto, encantado, sorri gostosamente e repete "eu não disse?".

Tenham paciência: volto "ao deu de frente com o candomblé" - e não deu ainda não?...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Olha eu, fiel à minha condição de nascida e governada pelo signo das águas, com os olhos cheios delas.

Jorginho Ramos: Cleidiana Ramos ...Águas do Paraguaçu !!!

Graça Azevedo: Cleidiana Ramos Gostaria de ler esses seus trabalhos. 

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Emiliano José

24 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: orixás pedem paciência,

"Cadernos do 20" ganham conselho

editorial, invadem as salas de aula,

ensinam África e Brasil, irmãos inseparáveis.

 

Lidar com os orixás requer paciência.

Outra noção de tempo.

Há meninas ansiosas para chegar lá, pra saber da história do encontro de Cleidiana com o chão áspero e belo dos terreiros, com a magia dos atabaques tocados pelos homens capazes de chamar os deuses à terra.

Leitoras, leitores são ansiosos.

Mas, peço sabedoria, um outro olhar para o tempo - talvez sejam os orixás a reclamar isso, a nos dizer basta saber onde se quer chegar e caminhar, e a gente então chega devagar devagarinho.

Ainda há duas ou três palavras necessárias sobre os "Cadernos do 20", como passaram a ser chamados os cadernos do Dia da Consciência Negra.

Depois, a gente chega aos orixás - eles vão nos guiando pelo meio dessa mata-mundo.

Passaram a ter um conselho editorial, por sugestão de Ricardo Mendes, o primeiro homem negro a dirigir a redação do centenário "A Tarde".

Criado em 2008, discutia a pauta com o compromisso da confidencialidade, e as reuniões desse conselho tornaram-se verdadeiros seminários de formação envolvendo repórteres, equipe de fotografia e do marketing.

Também em 2008 Cleidiana ganhou uma parceira, Meire Oliveira.

Passaram a fazer juntas os cadernos, e o trabalho criou amizade eterna.

Meire trouxe a informação: os cadernos estavam sendo usados em  sala de aula.

Em 2005, Salvador, sob a gestão da secretária Olívia Santana, passou a aplicar a lei do ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, e os cadernos serviam como material didático.

Cleidiana tremeu - muita responsabilidade.

Tremeu e gostou.

Um dia, o mestre Jaime Sodré, lhe dissera: tudo que é escrito em jornal, fica.

Essa informação, da chegada às salas de aula, merecia cuidados, atenção.

Meire chamou Josiane Clímaco, especializada em educação étnico-racial, hoje doutora, e ela tornou-se inseparável parceira - ajudava no planejamento e nas dicas para poder ser utilizado nas salas de aula.

No caderno de 2014, "Infância da Resistência", havia dicas em forma de jogo de tabuleiro - os "Cadernos do 20" eram também sala de aula, um luxo, a glória...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Tempo, tempo tempo...nesse caso extremamente generoso, mestre Emiliano José

Efson Lima: Sem dúvida alguma, o Caderno de 20 de novembro, de A Tarde, foi uma experiência inovadora, reflexiva e com muitos significados. E na mão da mestra e sábia Cleidiana Ramos conseguiu cumprir com a missão. 

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(Redação do jornal A Tarde)

Emiliano José

25 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: festa da década,

"Filhos de Ghandi",

"Ilê Aiyê", tem acarajé,

abará, tem caldo de sururu,

e um rio de lágrimas.

 

Deram o que falar, os "Cadernos do 20".

Inda mais na Bahia.

Festa pouca aqui é bobagem.

Resolveram, e bota gente nisso, fazer festas internas para comemorar lançamentos.

Primeira, em 2012 - comemorar uma década.

Está na moda hoje esse negócio de década - a Folha de S. Paulo, resolveu substituir PT por Década esses dias, não viram?: "Década colocou os negros na Universidade e não (só) para fazer faxina".

A Folha é um caso sério - quem quiser conhecê-la, bom ler Beatriz Kushnir e seus "Cães de Guarda", uma aula de como o jornal foi cão fiel da ditadura e podemos dizer: nunca se afastou das classes dominantes, sempre defendeu seus privilégios.

Sim, se acalme, o Diabo me alerta, depois de ter me estimulado à crítica.

Era o décimo número.

Iam fazer vaquinha para fazer um bolo temático, mas Mariana Carneiro, de quem fui professor, se meteu, era secretária de Planejamento do jornal, hoje redatora-chefe,  conversou com o diretor de redação Vaguinaldo Marinheiro, e conseguiram festa com acarajé, abará, caldo de sururu, festança digna de baiano, pra que mais?

Sim, Cleidiana queria mais, conversou com Meire Oliveira e acabaram chamando o "Filhos de Ghandi". E também o Ilê Aiyê, que beleza pouca é bobagem.

Quando o clarim do "Filhos de Ghandi" soou no saguão de "A Tarde" naquele 20 de novembro de 2012, seguido dos tambores do Ilê Aiyê, Cleidiana desabou: chorou como poucas vezes na vida, um rio de lágrimas.

Com o cortejo, um filme passou pela cabeça: uma mistura de sensações estava num jornal que em 1975 dissera ser coisa de gente de Moscou aquelas cores do pan africanismo do Ilê ah como o mundo gira gira mundo mundo girou e os olhos se enchem de água novamente hoje quando a memória resgata aquele dia um dia pra  jamais esquecer. 

Tem mais.

Recorda-se da presença na comemoração do secretário estadual de Promoção da Igualdade Racial, Elias Sampaio, e de um trecho da fala dele:

- Olhe Vaguinaldo: talvez você não tenha dimensão do que está acontecendo aqui porque é de São Paulo. Aqui estão representantes de vários segmentos negros baianos. Gente da capoeira, do candomblé, da política, do carnaval. Isso significa que a gente tomou mais um chão. Talvez o que faltava: o chão do jornal "A Tarde" agora é realmente nosso.

Aqueles "Cadernos dos 20" foram uma escola.

Um dia, uma colega da editoria de Economia perguntou a Cleidiana como deveria chamar as mulheres assalariadas do trabalho doméstico...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Ai gente....esse jornalista-bruxo mexendo o caldeirão de emoções...  

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Emiliano José

26 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: um caderno-escola,

domésticas e magia negra,

a caminho da canonização,

de frei Galvão a Irmã

Lindalva Justo, uma louca paixão.

 

Trabalhadoras domésticas - assim deviam ser chamadas as mulheres dedicadas à dura labuta diária nas residências dos que podem pagar por tal trabalho.

Ao explicar o termo e seu significado à sua colega de editoria de Economia, Cleidiana ainda indicou Creuza Oliveira como fonte essencial se quisesse conhecer o mundo dessas trabalhadoras.

Conheço Creuza.

Sua serenidade, seu sorriso quase tímido, e permanente.

Sua determinação.

Começou a trabalhar "em casa dos outros" com cinco anos de idade.

Tornou-se uma das principais lideranças sindicais das trabalhadoras domésticas no Brasil, e referência mundial.

Jornalista, quando pensa em fonte, não imagina uma assim - vinda de baixo, e com tal densidade.

Foi uma das lideranças essenciais da PEC das Domésticas, cuja aprovação se deu em 2012.

Incrivelmente, foi o marco inaugural da equiparação de direitos entre as trabalhadoras domésticas e os demais trabalhadores brasileiros - escravidão entre quatro paredes terminava, uma extraordinária conquista.

Coisa da Creuza.

E da petralha Dilma.

A colega da editoria de Economia quando conheceu Creuza ficou impressionada com a potência da inteligência dela, com a qualidade das informações fornecidas por ela.

Outra ocasião, e uma colega da cobertura policial fez uma consulta sobre um delegado tentando ligar um crime à "magia negra".

E Cleidiana mostrando: ter um alguidar junto ao corpo não significa nada, é só um alguidar, essa história é fruto do preconceito, ranço da herança de Nina Rodrigues na ideologia de formação dos funcionários do Departamento de Polícia Técnica.

Sementes dos "Cadernos do 20" - orgulhos de Cleidiana.

A mais rica experiência dela na concretização de um jornalismo antenado com responsabilidade social.

Esses cadernos renderam frutos em sua caminhada profissional.

Escalada para vários cadernos especiais como repórter ou editora, às vezes nas duas condições, e também para coberturas de grande magnitude.

Enviada especial ao lado do repórter fotográfico Gildo Lima para acompanhar a visita do papa Bento XVI a São Paulo em 2007, foi testemunha do fato histórico da canonização do primeiro santo brasileiro, frei Galvão.

Entrou na fila da canonização.

Calma - cobertura de canonizações, que Cleidiana não é candidata a santa, ao menos que eu saiba.

Acompanhava passo a passo o processo de Irmã Lindalva Justo.

A freira era do Rio Grande do Norte, mas foi assassinada em Salvador numa Sexta-Feira da Paixão no Abrigo Dom Pedro II.

Uma louca, desesperada paixão...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Maravilha, mestre Emiliano José..como sempre.

Margareth Cunha Lemos: La nave va...

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Emiliano José

27 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: perigosa indicação,

repentina paixão, assédio, faca

amolada, sangue no abrigo, beatificação,

Irmã Lindalva, Irmã Dulce, Vaticano e o Papão.

 

Irmã Lindalva chegou a Salvador no final de janeiro de 1991.

Da Congregação Irmãs da Caridade, trabalha no Abrigo Dom Pedro II, no bairro de Roma, na Cidade Baixa.

O abrigo acolheu, por recomendação sabe-se lá de quem, Augusto da Silva Peixoto, de 46 anos, em janeiro de 1993 - não cabia ali entre os idosos, mas coube, sabe como é que é, houve quem pedisse, e não devia ter pouco peso.

Apaixonou-se por Lindalva.

Assédio constante.

Repelido.

Na Sexta-Feira Santa, 9 de abril de 1993, Peixoto tira-lhe a vida - os legistas contaram 44 facadas.

Proclamada beata mártir pela Igreja Católica em 2 de dezembro de 2007.

Toda essa saga transformada em matéria por Cleidiana.

Irmã Dulce, acompanhava passo a passo todo o processo de canonização.

De Irmã Dulce, desnecessário falar porque muito conhecida de todos.

Quando marcada a canonização, para outubro de 2019, estava fora do jornal.

Mariana Carneiro, diretora de redação, chama Cleidiana para uns dois dedos de prosa:

- Quero você nesse trabalho. Elabore um projeto de três meses de cobertura, contextualizando toda a situação histórica da canonização da primeira santa brasileira.

E completou:

- Você irá a Roma acompanhar a cerimônia no Vaticano.

Foi.

Guarda até hoje a doce recordação e o recorde de ter acompanhado um processo de canonização do início ao fim.

Não é que Chico Preto tinha razão?

Não é que Nazinha sempre soube das coisas?

Essa menina ia longe.

Foi.

E não parou.

Participou do planejamento, reportagem e edição do "Carnaval do Papão", projeto-âncora da cobertura da folia pelos canais do grupo  "A Tarde" em 2005, 2006 e 2007.

Também nesse caso, foi atrás do guru...

#MemóriasJornalismoEmiliano   

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Emiliano José

28 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Carnaval do Papão, um delírio, uma paixão, os sete pecados capitais,

um inusitado baile de máscaras,

o Diabo solto no meio do salão.

 

Guru, sábio, mestre Roberto Albergaria havia dado de cara com uma reportagem sobre "O Papão", revista satírica editada por Ernesto Simões Filho ali no alvorecer do século XX, 1904, oito anos antes do surgimento de "A Tarde", objeto de texto de Cláudio Veiga, da Academia de Letras da Bahia.

Desenvolveu a prosa com Cleidiana - aquilo era um maná..

E ela, então, elaborou o projeto do "Carnaval do Papão".

Olenka Machado gostou um tanto da ideia.

Tanto, tanto a ponto de transformar o projeto na cobertura de todo o carnaval - Cleidiana havia pensado no trabalho dela apenas.

O primeiro "Carnaval do Papão" tinha como Editoria Fixa "Os sete pecados capitais" - desses malditos pecados nasceu a pauta.

E lá vieram gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça, vaidade - esse universo maldito de pecados, a inundar o carnaval, sobretudo luxúria e a vaidade.

Pecados inventados para tentar acorrentar o ser humano - adiantou pouco, ou nada.

Lembro de passagem de livro organizado por Emir Sader chamado "Os sete pecados do capital" - avareza, ecocídio, exploração, fetichismo, fome, roubo do tempo e latifúndio.

Outra leitura dos pecados.

O Diabo, depois de me atentar, alerta: volte ao desfrute do carnaval, eita trem bão.

A filha de Nazinha de Chico Preto, mais Olenka, mais Marlene Lopes, esse trio infernal, bolou os pseudônimos das meninas e meninos da redação.

Ficariam mais livres, extravasariam suas sensações, emoções, deixariam seus pecados fluírem com mais intensidade, os dos outros, claro - eram só profissionais, não podiam ceder a tentações, e tentação não faltava, que carnaval é coisa Dele, do Diabo.

Era como um baile de máscaras - as pessoas ficavam tentando saber quem era quem, e só a coordenação tinha na algibeira o nome de cada um.

Na quarta-feira de Cinzas, todo mundo correu atrás do jornal para descobrir os nomes.

Cleidiana era a "Cuiubinha do Sertão".

Ainda hoje, ela canta canções de outros carnavais, quando a memória rodopia com ela no meio do salão ao lembrar do "Carnavais do Papão":

"Tanto riso,

Oh, quanta alegria,

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando

Pelo amor de Colombina

No meio da multidão!...

Vou beijar-te agora,

Não me leve a mal,

Hoje é carnaval!"

Beijou.

E a vida seguiu...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita...que alegria foi a ressurreição do Papão...hehe

Mônica Bichara: Era uma delícia mesmo tentar descobrir quem estava por trás de cada “máscara”. Textos deliciosos

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Emiliano José

29 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: Saudações África,

sacerdotisas lideranças femininas

no candomblé, Discurso da Luz,

Festa de Verão aos pés de Xangô.

 

Findo o "Carnaval do Papão" em 2007, Cleidiana ainda foi mulher de muitos carnavais, sendo coordenadora da cobertura por mais três anos - 2008, 2009 e 2010.

No meio, um dos especiais mais caros a ela: "Saudações, África", de 2006.

Comemorava a II Conferência dos Intelectuais Africanos e da Diáspora, realizada em Salvador naquele ano, por esforço do professor Ubiratan Castro de Araújo, então presidente da Fundação Cultural Palmares.

Editando uma das matérias sobre a liderança feminina no candomblé, mexendo em arquivos, Cleidiana depara com uma preciosidade: imagens de ritos das intimidades de terreiros, como os das cerimônias do abate religioso, sob a direção de sacerdotisas de quem já tinha ouvido falar muito mas de escassas imagens disponíveis, como a de Samba Diamongo.

Dessa descoberta, nasce a pesquisa da dissertação de Mestrado dela: "O Discurso da Luz - Imagens das Religiões Afro-Brasileiras no Arquivo do Jornal 'A Tarde'", defendida em 2009, no Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA, sob orientação do professor Cláudio Luiz Pereira.

Catalogou 1432 imagens, levantou histórias, identificou personagens em visitas a mais de 30 terreiros de Salvador e Lauro de Freitas.

Tal acervo subsidia também o Doutorado em Antropologia, com a tese "Festa de Verão em Salvador - um estudo antropológico a partir do acervo documental do jornal 'A Tarde'", também na UFBA, sob orientação da professora Fátima Tavares.

Danada, muito danada, a filha de Nazinha de Chico Preto.

Doutora.

Agora, já podemos falar da sacerdotisa do candomblé - começar a contar essa história, quem sabe assim aplaque a ansiedade de algumas leitoras tão queridas.

Conta o povo de terreiro uma fala de Mãe Aninha, filha de Xangô, e fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá, melhor chamar um conselho dela:

- Todo negro que tem um anel no dedo, tenha passado por uma formatura, deve colocá-lo aos pés de Xangô.

Cleidiana nunca esqueceu isso...

#MemóriasJornalismoEmiliano  

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Emiliano José

30 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: anel ao pé de Xangô,

marcas da escravidão, Mãe Stella,

uma escola pra chamar de todos, Axé,

e os primeiros passos na direção do candomblé.

 

Não era pra esquecer.

Todo negro com um anel no dedo deve colocá-lo aos pés de Xangô.

Mãe Aninha sabia das coisas.

Vinha de longe, de muito longe.

Carregava as ricas tradições das civilizações africanas, como a sua, nação Grunci.

Negro não chegava fácil, não chega, ao sistema oficial de ensino - eram fortes, são fortes, os efeitos da escravidão, cujas marcas não foram enfrentadas no pós-Lei Áurea, a persistir fortemente até os dias atuais.

O racismo estrutural continua a desafiar a Nação brasileira.

Então, é bom tirar o anel do dedo, depositá-lo aos pés de Xangô.

Estará bem guardado, e Xangô registra o reconhecimento.

Mãe Stella, de partida recente para o reino dos encantados, ouviu o conselho de Mãe Aninha.

Interpretou a recomendação a seu modo.

Quinta sacerdotisa a governar o Ilê Axé Opô Afonjá a partir de 1976, desde o início começou a batalha para implantar a escola Eugênia Anna dos Santos, no território do terreiro.

Um programa pedagógico revolucionário, a girar em torno da cosmogenia dos povos de lingua iorubá, desenvolvido pela professora e ebomi Vanda Machado, escola, soube, a servir de base essencial para o projeto Axé. É referência para a aplicação da Lei 10.634 de 2003, obrigatoriedade do ensino de História da África e Cultura Afro-Brasileira nas escolas.

Mãe Stella fazia questão de explicar: não se tratava de uma escola de candomblé.

Apenas funcionava em um terreiro de candomblé.

Não era de uma confissão religiosa - o candomblé jamais fez proselitismo.

Essa prosa toda é para tentar entender a aproximação de Cleidiana com a religião dos orixás - aproximação lenta, mas segura, consistente.

Foi apresentada à pauta das religiões em 1998, mas o candomblé não foi incluído.

As mães e pais de santo ainda estavam na encolha, retraídos, ainda ressabiados com a história da perseguição secular.

Cleidiana foi chegando aos poucos, entrando na mata com cuidado, pé ante pé, querendo conhecer, mas sem pressa, inimiga da perfeição.

Foi final do século passado, alvorecer desse novo milênio, suas primeiras investidas...

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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(Jaime Sodré e Olívia Santana com a equipe do caderno da Consciência Negra, do jornal A Tarde, editado por Cleidiana. Homenagem na Câmara Municipal de Salvador em 2010)

Emiliano José

31 de dezembro 2020

Cleidiana Ramos: os encontros propiciados

pelo jornalismo, o candomblé se acercando,

São Jorge e Oxóssi, Oxumaré e Jaime Sodré.

 

A sabedoria do candomblé, advinda de tantas civilizações africanas, desenvolvida também no Brasil, boa parte sob a brutalidade escravista, costuma dizer: você não escolhe o orixá, ele faz a escolha de a quem quer chegar.

Essa chegada ao candomblé para Cleidiana começou pelo jornalismo.

Por ele, conheceu Mãe Stella.

Hoje, passado o tempo, deixa o pensamento fluir: seu anel e o bloco e a caneta devem estar a serviço das maravilhas aprendidas no universo do candomblé - todos ao pé de Xangô.

Deve ter sido 1999.

Eliezer Varjão, o implacável, deu-lhe uma pauta - com recomendação expressa de não voltar de mãos vazias.

Aquele tipo de pauta curiosa: o chefe de reportagem vê o galo cantar, não sabe direito onde, quer saber, manda jornalista pra rua, se vire nos trinta, não é comigo não.

Descobrir a associação entre São Jorge e Oxóssi, tão comum na Bahia, nem sempre explicada.

Cleidiana entrevista frei Jorge Rocha, capuchinho, professor da Universidade Católica de Salvador.

O religioso indicou outra fonte: o babalorixá do Terreiro Oxumaré.

Apareceu no terreiro sem avisar, e Babá PC a recebeu - Silvanilton Encarnação, nome de batismo.

Iniciação.

Primeiros passos, inconsciente.

Vai ganhando as primeiras noções.

Cobre, em 2000, o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá.

Já tivera o encontro com Mãe Lúcia Neves, do Terreiro São Jorge Filhos da Goméia, e já compreendera o quanto havia de diversidade no candomblé, as portas se alargando, as visões se clareando.

Vou adiantando, porque as professoras podem estar ansiosas: do relacionamento repórter/fonte, Cleidiana passa a iniciada no culto, em 2010.

Dado o lead, somos levados a contar a história, como se iniciou essa caminhada, principalmente a partir de quatro encontros, e aí as leitoras e os leitores hão de ter paciência.

O orixá Tempo, senhor do tempo e do espaço, pede isso - fazer como o velho marinheiro, que durante o nevoeiro leva o barco devagar.

O primeiro encontro foi com Jaime Sodré, também meu mestre, um oceano de sabedoria, encantado tem pouco tempo.

O sofrimento de Cleidiana quando ele partiu, agosto de 2020, não foi pequeno: adoeceu de ficar de cama, crises de enxaqueca, sensação de exaustão.

Perdia outro pai.

Era um tata, sacerdote que não entra em transe na tradição angola...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita que já tô me preparando aqui para dias de ficar com muitos ciscos nos olhos..

Isabel Santos: Cleidiana Ramos Prepara-se. Realmente, deve vir muita emoção pela frente. Estou aqui contente com a atitude do frei Jorge Rocha, que nos mostra que intolerância religiosa não nos leva a caminho nenhum. O texto do querido Emiliano José também me fez relembrar dos tempos de repórter quando recebíamos a pauta (ou as pautas) sabendo que teríamos que nos virar. ´Furar´ pauta era quase inadmissível kkkkkkkk Bons tempos, grande aprendizado. Feliz 2021 pra vocês, com muita SAÚDE.

Jose Jesus Barreto: Terreiro de candomblé foi e sempre será lugar de resistência e busca de identidades de um Povo de Fé.

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Emiliano José

1º de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: mestre Jaime Sodré,

um tata, casa de romaria,

orientador, conselheiro, e

a partida precoce para o Orum


Jaime Sodré foi meu mestre.

Andou comigo, orientou muita coisa de meus mandatos parlamentares.

Morava na Federação, Cardeal da Silva, quase defronte onde também residi por anos.

Sua casa, romaria.

Gostava muito de telefone, não.

Quem quisesse conversa mais demorada, conversa ao pé de ouvido, o visitasse, tomasse um cafezinho em meio a muitos livros, e ele naquela pachorra, voz pausada, sem pressa, sorriso sempre aberto, aconselhava, orientava, sabe-se lá se ele, se os deuses invocados.

Jaime transmitia serenidade, como se acalmasse espíritos em turbulência, não sei se ele se os deuses chamados por ele.

Ajudou-me quando investido como deputado estadual constituinte.

A inscrição na Constituição baiana do artigo de respeito à religião afrodescendente, feita por mim, nasceu de orientação dele e de Lúcia, sua companheira, cuja partida se deu já há algum tempo.

Ainda estão nas minhas memória as imagens da bela sessão cheia de mães e pais de santo e Lúcia sobretudo mexendo-se entre eles, procurando os deputados, convencendo-os da importância do artigo, e Jaime acompanhando tudo, tata atencioso.

Sofri quando ele seguiu para o Orum, em agosto de 2020.

Cheguei a escrever ser muito precoce a partida, reclamei.

Mas, quem sou eu para protestar?

Quem sabe dos desígnios a respeito de um tata?

Compreendo a dor de Cleidiana, a jogá-la prostrada numa cama.

Compartilhei dessa dor.

Jaime era filho de Lemba, inquice que se aproxima do Oxalá do povo Ketu, o velho de vestes brancas.

Iniciado no Terreiro Tanuri Junsara, foi confirmado tata xicarangoma.

Pensem em pouca coisa não.

Estamos falando de um sacerdote músico - com sua voz e o excepcional domínio dos toques dos atabaques, chamam os deuses à terra, a tomarem os corpos de suas filhas e filhos.

Iluminado, Jaime era um ser iluminado.

Se tenho poucas crenças, essa tenho: há seres iluminados - poucos, mas há.

Poeta, compositor, músico, professor do IFBA e da Uneb e designer.

Na dissertação de Mestrado pela Escola de Belas Artes da UFBA, abordou a obra do grande Mestre Didi - Deoscóredes Maximiliano dos Santos -, um dos nobres do candomblé na Bahia, filho biológico de Iyá Senhora de Oxum, que reinou no Afonjá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah...a homenagem chega ao mestre Jaime, doutor em acolhimento...que saudade. 🥰

Adilson Borges: Mais um dos bons que perdemos na pandemia...

Jose Jesus Barreto: Jaime Sodré, um iluminado.

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 Emiliano José

2 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: mundo mundo vasto mundo

do candomblé, resistência, o heroísmo prosaico de cada dia, o reinado do Ilê Opô Afonjá, Sartre e Simone.

 

O candomblé é um mundo vasto mundo mais vasto o coração ou, ainda parafraseando Drummond, candomblé é coisa do coração, do vasto coração do mundo.

Nunca prometeu ensinar ninguém, como no samba de Noel, só quer existir, mostrar, se for preciso, que também é dos deuses, e os seus deuses são muitos e descem à terra.

Resiste, porque forte, não obstante tanta perseguição ao longo dos séculos.

Muito branco se aproximou, e se encantou.

Ao longo do escravismo, as lideranças do candomblé souberam fazer alianças e com tais alianças e com suas lutas resistir, sobreviver.

Recordo-me de João José Reis, o grande historiador baiano da escravidão, ao falar do heroísmo prosaico de cada dia da luta escrava, dia a dia onde se revelava uma malícia desconcertante, uma rara capacidade política de construir alianças, e isso sem falar nas rebeliões e nos quilombos, das quais Reis trata também com impressionante densidade - tudo isso com a participação decisiva do candomblé ou da religião muçulmana.

Gosto do didático e denso livro de José de Jesus Barreto - "Candomblé da Bahia - Resistência e identidade de um povo de fé".

Tive a sorte de contar com grandes mestres - e Barreto é um de meus mestres no jornalismo.

Desse mundo, vasto mundo, Cleidiana ia se aproximando, devagar devagarinho talvez mais coração menos razão.

Yiá Senhora de Oxum, no seu reinado no Ilê Axé Opô Afonjá, recebeu Sartre e Simone de Beuavoir, e trocou com os dois algumas palavras em francês.

Ali, no Afonjá, houve uma linhagem de grandes mães de santo:  Mãe Aninha, Mãe Bada, Mãe Senhora, Mãe Ondina, Mãe Stella e agora Mãe Ana de Xangô.

Jaime Sodré, voltamos ao nosso mestre, no doutorado na Uneb, resolveu estudar como os jornais baianos abordaram o candomblé.

Foi levado a isso por um acaso, se o acaso existir.

Às voltas com livros na Biblioteca Pública, nos Barris, observou alunas e alunos da escola pública acompanhados por professora copiando tudo sobre o candomblé nos jornais.

Resolveu conferir: os jornais eram uma montanha.

Montanha de erros acerca do candomblé.

Então, resolveu mergulhar.

Como se os orixás o mandassem - e quem disse que não?...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Preparem-se para importantes encontros no caminho que nos vai ser traçado pelo mestre Emiliano José ...

Jose Jesus Barreto:"Candomblé da Bahia - Resistência e Identidade de um Povo de Fé, Solisluna Editora. Grato pela referência.

Emiliano José: Jose Jesus Barreto puro merecimento

Mônica Bichara: Também um dos meus mestres Jose Jesus Barreto, pauteiro sensível e chefe de reportagem querido no Jornal da Bahia. Toda sexta-feira de branco, vela acesa em cima do arquivo ao lado da mesa....doce lembrança do início. Puro merecimento mesmo, Emiliano

Jose Jesus Barreto: Tribuna da Bahia , moniquinha. Bjs pela lembrança, carinho.

Mônica Bichara:  jurava q tinha sido tbm no JBa. Bjs querido

Jose Jesus Barreto: Mônica Bichara fui do Jornal da Bahia, já como editor, na Djalma Dutra e nos Pernambues. Foi lá?

Mônica Bichara: Jose Jesus Barreto na Djalma Dutra

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(Cleidiana e o ex-governador Roberto Santos)

Emiliano José

3 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: decisão histórica do

governador Roberto Santos, fim da

perseguição ao  candomblé,

à procura de Jaime Sodré, enfim o encontro.

 

Vocês sabem, e não custa repetir: ao candomblé na Bahia só foi permitido realizar seus cultos livremente a partir do início de 1976.

Antes, para realizar seus rituais públicos, os terreiros, para bater como se diz popularmente, eram obrigados a retirar uma autorização na Delegacia de Jogos e Costumes, de ofício destinada a lidar com casos de prostituição e jogo do bicho.

Como se à Igreja Católica fosse exigida autorização para celebrar a missa.

À Igreja Presbiteriana, retirar um documento para realizar o culto.

O escravismo continuava presente no ataque à religião dos negros.

Uma atitude histórica do governador Roberto Santos.

Lamentável constatar: tal ataque reaparece com força nos dias atuais, estimulado por setores neopentecostais ou por forças do capital imobiliário e pelo pensamento conservador.

Jaime Sodré, com sua militância contra a intolerância e com seus estudos, sempre pretendeu demolir muros, preconceitos, e envolver mais e mais pessoas na luta contra o racismo, especialmente o manifestado contra o candomblé.

Albergaria, um de seus primeiros mestres, repetia para Cleidiana, quase como um mantra: "Você precisa conhecer Jaime".

Ela tentava, ligava, e Jaime nada.

Tinha telefone só em casa.

Ao celular, sábio, resistiu até o fim da vida.

Como se dissesse: se quiserem me encontram.

Tinha razão: Cleidiana acabou encontrando-o.

Era final de tarde, um sábado, 2005, período da Páscoa.

Cobria a cerimônia de instalação do Núcleo Afro da Polícia Militar (Nafro PM).

- É agora - murmurou baixinho ao ver Jaime Sodré à mesa.

- Dessa ele não escapa - garantiu de si para si.

Terminada a reunião, aproximou-se, e se apresentou. Jaime, efusivo, era sempre, não obstante uma efusividade serena:

- Ah, então é você que é Cleidiana? Eu ando atrás de você há muito tempo, Iaiá.

Pronto.

Encontro para toda uma vida...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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Emiliano José

4 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: PM saindo do armário,

núcleo afro militar, família Sodré,

o sábio e a paciência, o candomblé se acercando.

 

Por Jaime Sodré, por aquele encontro jamais esquecido, de tanto impacto em sua vida.

E também pela cerimônia de instalação do Núcleo Afro da Polícia Militar (Nafro-PM).

Aquele sábado de 2005,  próximo à celebração interreligiosa da Páscoa, fora especial por essas duas razões.

Cleidiana fizera a matéria de apresentação do núcleo - uma espécie de insurreição de PMs iniciados no candomblé, indignados pelo fato de nunca receberem convites, como grupo, para as celebrações religiosas da corporação.

Alguns deles se movimentaram um pouco antes da Páscoa.

Foram ao comandante da PM e receberam autorização para participar da celebração interreligiosa, já como Nafro.

Entre eles, major Peixoto, ogã da Casa Branca, com quem tive o prazer de encontrar algumas vezes em atividades do terreiro ou fora dele, e o sargento Eurico Alcântara.

No início não passavam de dez.

Logo, ultrapassavam a centena.

Sargento Eurico Alcântara, ria com o crescimento.

Tata de inquice, o mais alto posto em terreiro de nação angola, sargento Eurico brincava:

- Todo mundo foi saindo do "armário do dendê".

Era amplo, o armário.

Muito maior do que se imaginava.

Cleidiana lembra: a cerimônia rendeu até editorial em "A Tarde".

Florisvaldo Mattos, então editor chefe, achou fantástico o fato de a PM, que se vangloriava de ter surgido caçando escravos, ter agora um núcleo afro.

Milagres do candomblé.

Com Jaime, com Lúcia Oliveira, sua companheira, estabeleceu-se uma relação quase familiar, amorosa, permanente.

Que se estendeu à filha, Jamile, e a Zezé Sodré, irmã de Jaime.

Família, tornou-se sua família.

As conversas com Jaime, amenas e profundas, sérias e divertidas, temperadas sempre pelo eterno bom humor dele, nunca duravam menos de quatro horas.

Ela não via o tempo passar, bebendo naquela fonte inesgotável de sabedoria.

Ele dizia gostar muito da visita dela:

- Adoro. Quando Iaiá vem, dona Lúcia melhora o lanche.

E ele foi se acercando, de mansinho, pianinho.

Dizia ter certeza de que ela encontraria "suas conexões" no candomblé.

Cleidiana, reticente:

- Já fui quase freira, hoje nem sei no que acredito.

E ele:

- Aguarde, Iaiá. Aí tem muito enredo.

E gargalhava, sabendo das coisas...

#MemóriasJornalismoEmiliano

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(Jaime Sodré)

Emiliano José

5 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Jaime Sodré e o mundo

da magia, tudo tem seu tempo certo,

o candomblé é coisa de 24 horas,

o povo é de santo mas não é santo.

 

Parece, parece mesmo, estou vendo Jaime Sodré falar:

- Se assossegue, Iaiá. Aí tem muito enredo.

Era do tipo sem pressa, sabia o caminho das águas: corriam para o mar, só esperar.

Iaiá não sabia, porque às vezes não é tempo de saber, mas viria o momento de os orixás se aproximarem.

Cleidiana o procurava volta e meia.

O argumento era sempre uma pauta.

E entre uma pauta e outra, e no meio dos roteiros dele sobre o candomblé, Jaime Sodré ia se revelando não apenas o professor, mas o sábio iluminado.

Ela, às vezes, ensaiava uma dúvida a lhe apertar a mente - as coisas mágicas a se insinuar em sua mente, o que eram?

- Ah, Iaiá, na magia não há nada de sobrenatural ou fantástico.

- Como assim? - ela reagia espantada, em meio ao lanche preparado por Lúcia.

- Aprenda a olhar o seu entorno. Abra os olhos para o cotidiano, a magia está aí, à sua mão. Falta percebê-la, abrir-se para ela.

Cleidiana, maravilhada, a alma se abrindo.

E ele seguia ensinando, como se não quisesse, os sábios são assim:

- Nossos olhos  cartesianos insistem em não perceber a magia.

E ela pensava em sua racionalidade, no império da razão, enquanto comia um pedaço de bolo de aipim.

Ele prosseguia, olhando pra ela com um carinho imenso, quase pai, quase mestre, ou os dois:

- Mas, não tem pressa, Iaiá. Logo logo você vai se familiarizar com as coisas que estão lhe acontecendo, com seus estranhos sonhos, ainda estranhos, vai descobrir as coisas ainda imperceptíveis, vai, tenha certeza.

Outro gole de café, e ele vaticinava, como a descobrir o que viria, sem que ela soubesse:

- Candomblé, Iaiá, é 24 horas.

Era um ombro amigo, além de mestre, ou por mestre.

Quando o trabalho apertava em "A Tarde", quando  a pressionavam para não ficar se especializando em temas específicos como o candomblé, ela em dúvida, ele surgia, sereno:

- Calma, Iaiá. Não se precipite. Tudo tem seu tempo certo. E fique sossegada: Iaiá tem retaguarda.

E de vez em quando lhe contava histórias do povo de santo dessas de arrepiar, não tão edificantes, pra rir muito, e ele a alertava

- O povo é de santo. Mas não é santo.

E os sonhos continuaram...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

Cleidiana Ramos: Essas lembranças, como eu já estou ficando versada, fazem é cair cisco nos meus olhos....

Marilia Fontes: Cleidiana Ramos lágrimas em meus olhos, saudades do nosso querido io iô 

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(Mãe Valnízia de Ayrá - Foto Joá Souza - Jornal A Tarde)

Emiliano José

6 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: sonhos abrindo caminhos,

no meio da estrada Mãe Valnizia,

é D'Oxum, alegria, alegria, tenha

medo desse povo quieto e de pé ligeiro.

 

Os sonhos começaram a atormentá-la.

Vieram fortes, vinculados ao candomblé, ou presumivelmente.

Houve um primeiro, recheado de símbolos.

Cleidiana, intrigada.

A humanidade se debruça sobre os sonhos, desde sempre.

São um traço do humano.

Freud foi buscar neles a matéria-prima essencial da psicanálise.

É quando o inconsciente manda recados, a serem decifrados.

Quando ocorreu aquele primeiro, tão simbólico, ligou para o oráculo.

Jaime não relutou ao ouvir o relato:

- Aí, Iaiá, cabe um jogo de búzios.

Caía na estrada, pianinho pianinho.

O mestre indicou cinco religiosos - sacerdotisas e sacerdotes, dentre os quais Mãe Valnizia Bianchi, a quem Cleidiana conhecera havia pouco tempo durante mesa-redonda no Terreiro do Cobre.

Gozado, olha o acaso, ela havia aparecido em seu sonho.

Acaso existe?

Jaime não fincou pé em nenhum nome:

- Faça o que o seu coração mandar.

- Ué, ela estava lá, tão majestosa em meu sonho, tem de ser ela - Cleidiana determinou-se: seria Mãe Valnizia.

Tentou uma, duas, três vezes - mulher difícil, agenda lotada sempre.

Os sonhos prosseguiam, persistentes, os símbolos do candomblé a bater em sua porta, ela contando ao mestre, agoniada, enquanto Valnizia não abria a agenda. Ele, sereno:

- Minha senhora, se acalme. Não era possível que a senhora com essa linhagem dos Sodré não tivesse aí um pezinho no candomblé. E o lado de seo Chico?.

Ele brincava, e já considerava Cleidiana como da família.

Deu pulos de alegria quando soube Iaiá filha de Oxum senhora das águas doces cachoeiras fontes rios confirmação de Mãe Valnizia.

A menina nascida em Cachoeira, crescida em Iaçu, nascida em março, de Peixes, selava mais um elo com as águas.

É D'Oxum.

Jaime, o sábio, sorria, e dizia:

- Ora senhor me deixe. Quem aguenta com esse povo que só faz arquear a sobrancelha e o mundo treme todo?

No santuário, sua casa, animava Cleidiana:

- Tome mais um cafezinho, Iaiá.

E alertava:

- Tenha medo desse povo, minha senhora, que é quieto, mas de pé ligeiro - e ria gostosamente, feliz por ver a pupila se acercando do candomblé, ou o candomblé dela...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Maria Celeste Pires Silva: Como gostaria de uma dia ir, ao terreiro, de uma sacerdotisa de “verdade “

Cleidiana Ramos: Eita...essa história bate forte. Obrigada, seo Emiliano José

Ruy Espinheira Filho: Grande, Emiliano José! Um abração

Emiliano José: Grande Ruy, você iluminou meus primeiros passos no jornalismo, nunca esqueço. Copy, na TB. Fomos colegas na Facom, depois, professores. E eu, no gargarejo, admirando sua notável poesia e seu romanceiro. Abraço forte, querido amigo. 

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Emiliano José

7 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: as visões se clareando,

uma adoxu, o Dia do Nome,

a presença de Jaime Sodré,

agora iaô de Mãe Valnizia de Ayrá.

 

As visões se clareando.

Até que um dia acordou.

Final de 2009.

Cleidiana aporta ali, quase em frente à subestação da Coelba, na rua Cardeal da Silva, Federação.

Apartamento de Jaime Sodré.

Não faltaram as saudações, nem o café, nem o abraço.

Dele e de Lúcia.

- O que é que Iaiá me traz de bom?

Ela, diante da imensa autoridade do oráculo, começa devagar.

- Estive ontem com Mãe Valnizia...

Ele, agora sério, assuntando:

- Sim, e...

- Você sabe: não é comum dizer isso a ninguém, mas pra você... - ela começou tímida.

- Ora, Iaiá, e nós temos segredos?

- Você é uma das raras pessoas a saber isso: vou ser recolhida para ser iniciada   Cleidiana disse, emocionada diante do mestre.

E completou:

- E sou uma adoxu - entro em transe.

Aí, Jaime não se aguentou: riu gostosamente, e do alto de sua sabedoria, brincou:

- Me conte é uma novidade.

Ela circulava havia três anos pelo Terreiro do Cobre, a repórter do candomblé, todo mundo a chamava assim, não fora escolhida para ekede como muita gente apostava, andava muito doente nos últimos meses, e de repente, adoxu.

As visões se clareando.

E chegou o "Dia do Nome".

A comunidade do Terreiro é apresentada às novas iaôs.

Nesse dia, num determinado momento da cerimônia, a iaô em transe, com o santo incorporado, grita o seu nome - é o santo a gritar o seu nome sagrado.

Ela não sabe o nome dela, gritou o nome quando em transe, mas não sabe, e no Terreiro do Cobre não é comum usar no dia a dia o nome gritado pelo santo.

Algumas nações, como os iniciados em terreiro Angola, costumam fazê-lo.

E lá, nesse dia especial, estava Jaime Sodré - cumpriu a promessa.

Terno branco, conta atravessada no peito - os preceitos respeitados.

Era ogã das antigas, mantinha a tradição, e sobretudo não iria abandonar a Iaiá dele.

Não pediu a Mãe Valnizia para cantar e tocar na cerimônia, como ela esperava.

Cleidiana perguntou depois por que não, e ele quase tímido:

- A emoção me deixou sem ação.

Coisa rara nele, ficar sem ação.

Até hoje, Cleidiana é tocada por essa lembrança, pela força do carinho, do amor. 

Dali em diante, iaô do Terreiro do Cobre, iniciada por Mãe Valnizia de Ayrá.

As visões se clareando.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Que saudade do meu padrinho, um pai, como é para todos nós os tatas, ogãs....e professor Jaime sempre foi muito especial....

Jose Jesus Barreto: O santo pegou

Emiliano José: Jose Jesus Barreto pegou...

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Emiliano José

8 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Jaime Sodré, "presidente

do Conselho do 20", filha dos mistérios,

ibejis, um defeito de cor, Mãe Té Pereira.

 

Jaime Sodré foi consultor de todos os cadernos da Consciência Negra a partir de 2005.

Decidida a criação do "Conselho dos Cadernos do 20", foi o primeiro convidado.

Não faltou a uma reunião, e era considerado "o presidente", como Cleidiana o chamava.

Quando chegava, redação de "A Tarde" em festa.

Iaiá tinha de arrancá-lo quase à força das rodas de conversa para iniciar a reunião ou na saída, para embarcá-lo no retorno à casa.

Era uma estrela, embora não se quisesse assim, às vezes até excessivamente humilde.

Cleidiana, além de sua Iaiá, era chamada também de "Cleidi, minha filha".

Há muita gente ainda considerando-a filha dele.

E assim pode ser considerada, ao menos quanto ao candomblé: orientou, aconselhou, foi o guia.

Fez o necessário para acontecer o escrito nas estrelas, o desenhado pelo mundo sagrado do candomblé - sobre isso, mistérios, Cleidiana jamais foi cartesiana.

E por isso, por não sê-lo, conta outro encontro, mágico também.

Com Mãe Té Pereira, irmã consanguínea de Mãe Valnizia Bianchi.

Filha de Oxum, Iakekerê do Terreiro do Cobre, segunda na hierarquia da Casa.

Presidia ritos quando da ausência de Mãe Valnizia, e podia também responder sobre as tantas questões de que o terreiro era demandado.

Cleidiana estava às voltas com reportagem sobre o culto aos gêmeos.

No candomblé de tradição Ketu, as divindades gêmeas, filhos de Xangô, são os ibejis.

Deparei com eles no belo livro de Ana Maria Gonçalves - "Um defeito de cor". Quem puder, leia.

O Terreiro do Cobre faz festa belíssima dedicada a eles.

Em uma corda, cuja extensão atravessa todo o barracão, frutas e doces são pendurados.

Após as filhas de santo cantarem e dançarem para os orixás e para os ibejis, Mãe Valnizia faz um divertido jogo com o público, preferencialmente com as crianças: elas aguardam o sinal dela, e dado, se movimentam, pulam, gritam, para tentar arrancar os doces e frutas da corda, vira um furdunço, saudável balbúrdia...

 Mãe Valnizia estava viajando quando ela apareceu com a pauta sobre os gêmeos.

Mãe Té Pereira foi indicada para falar do assunto.

Estava no terreiro da Casa Branca - foi lá a primeira conversa, o primeiro encontro...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Antonio Do Carmo: Axé, Emiliano!

Cleidiana Ramos: Ah....outra Grande e querida. Mãe Té de Oxum.

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(Cleidiana Ramos é cidadã de Salvador, em 2006, por iniciativa do atual governador e ex-vereador Rui Costa)

Emiliano José

9 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Casa Branca,

primeiro terreiro baiano de Ketu,

nascido em 1789, local da primeira

conversa com Mãe Té,

quem sabe filha das águas.

 

A primeira conversa com Mãe Té Pereira foi na Casa Branca.

As duas, Mãe Valnizia e Mãe Té, filhas da casa.

Acontece que na época da iniciação delas, o Terreiro do Cobre estava fechado.

A sagração deu-se então no primeiro terreiro baiano de Ketu - Renato da Silveira, em seu magnífico "O candomblé da Barroquinha", grafa Keto.

Nasceu na Barroquinha.

A fundação deve ter se dado entre 1788 e 1830, na avaliação de Silveira, meu companheiro de prisão na primeira metade dos anos 1970.

Era bom de bola.

Antropólogo, artista plástico, texto de primeira, homem de sete instrumentos.

Renatinho, a gente o chamava assim na prisão, crava o ano de 1789 como ano de fundação - para quem gosta de simbolismos, o ano da Revolução Francesa.

Falo um pouco mais da Casa Branca por sua importância histórica, por me lembrar de Waldir Pires desapropriando o posto de gasolina em frente, por Sinha, por Ordep, por Isaura, pelo carinho com que sou recebido ali.

Axé.

Volto à conversa de Cleidiana e Mãe Té no solo sagrado da Casa Branca.

O ponto de partida era o culto aos gêmeos, a pauta.

Hipnotizada pela beleza, pela simpatia, pela suavidade de Mãe Té - foi essa a reação de Cleidiana.

A interlocutora é deixada inteiramente à vontade.

À saída, ainda embevecida com tanto carinho e sabedoria, Cleidiana é instada a esperar um minuto.

Mãe Té entrou para os aposentos do terreiro, e logo voltou:

- Essa conta é de Ibeji. É uma raridade. Pouca gente tem.

Carinhosaamente, colocou-a no pescoço de Cleidiana.

Sem saber por que, ela sentiu uma emoção intensa.

Agradeceu muito, comovida.

Mãe Té:

- Você é de que santo?

- Não sei. Ninguém nunca diz. Falam que só jogando os búzios - disse.

Do alto de sua autoridade, Mãe Té respondeu

- Sim - fez breve pausa, para concluir:

- Só jogando mesmo. Mas você tem uma  cara de gente de água.

E as duas sorriram, alegremente.

Selava-se ali uma amizade eterna.

Alguns meses depois, recebe um recado de Mãe Té: ia fazer uma de suas obrigações na Casa Branca...

#MemóriasJornalismoEmiliano  

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Emiliano José

10 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: não se recusa convite

de Té de Oxum, menina dançando,

Filhos de Ghandi, Badauê, Ilê Aiyê,

Malê de Balê, a festa mágica,

a partida precoce de Mãe Té.

 

Cleidiana recebe um recado de Mãe Té Pereira.

Ia cumprir uma de suas obrigações na Casa Branca.

Queria a presença dela.

Lembra até da data: um 20 de novembro.

Encontrou Jaime Sodré no Dique do Tororó em uma atividade pela manhã.

Falou do convite.

Foi sincera:

- Estou tão cansada, mas tão cansada, que não devo ir.

Jaime franziu o cenho, e recomendou:

- Iaiá, Iaiá, não se rejeita um convite de Té de Oxum.

Desprezou o cansaço.

Palavra de mestre não se despreza.

Valeu a pena.

Primeira vez a deparar e a se deslumbrar com uma festa de candomblé.

Encantada.

Ijexá, o toque de Oxum, sempre a tocou.

Menina menina, uns sete anos, e Nazinha comprou um disco de Clara Nunes.

Vocês sabem, em Macondo tem de tudo.

Havia Silvio, um vendedor de discos a passar de porta em porta, gritando sua mercadoria - foi nas mãos dele, na Iaçu milagreira de então, a compra de Nazinha.

Cleidiana maravilhada.

Teve certeza: o cabelo dela era igualzinho ao de Clara Nunes.

E a música de sua preferência era Ijexá:

Filhos de Ghandi, Badauê,

Ilê Aiyê, Malê de Balê, otum obá...

Repetia, repetia, a ponto de Nazinha se retar:

- Vai empenar o disco, menina.

Vinha de longe seu encanto ijexá.

E aquela festa na Casa Branca, mágica, fazia conexão com seu passado, suas raízes.

Anos depois, Mãe Té, surpresa e alegre, com um sorrisão lindo no rosto, recebe Cleidiana, feliz por vê-la a caráter, vestida de abian - a camisa, a saia, o pano da costa, o ojá a atravessar o peito.

Partiu cedo para o Orum, 2007.

Cleidiana recorda de sua doçura, de sua alegria - e também da dureza dela, quando necessária.

- Minha sereia - chamava-a assim.

Sente até hoje a sua falta, e muito a ausência dela durante seu processo iniciático.

Consola-se.

Na tradição do candomblé, há uma crença sólida: um iniciado não morre.

Mãe Té, presente.

Sempre.

Outro encontro arrebatador foi com Mãe Valnizia de Ayirá...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Lindy Saint: Quanto lembrei de mãe Té hoje e a festa de Exu que muito gostava. Era aquecimento pra Xangô que seria semana que vem... triste pandemia arrebatadora... minha filha Cleidiana, tu é cria de Terina de Oxum também sempre!!!

Cleidiana Ramos: Lindy Saint a bênção, mãe.

Lindy Saint: Cleidiana Ramos Meu pai abençoe sempre minha filha, bênção...

Cleidiana Ramos: Lindy Saint axé, mãe. Oxum lhe abençõe. 

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Emiliano José

11 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Neta de Flaviana Bianchi,

Mãe menina, terreiros do Engenho Velho

da Federação, a reconstrução do

Terreiro do Cobre, olhar mapeia a alma.

 

Da vida, Cleidiana não tem do que reclamar.

Deparou com muita gente especial.

Gente pra nunca mais esquecer.

A acompanhá-la sempre.

Isso, a vida lhe deu, e lhe dá.

Pra que mais?

Havia falado uma vez com Mãe Valnizia Bianchi, por telefone.

Não podia dar a entrevista, e indicou Mãe Té.

Em 2005, é a lembrança de data presente na memória, é convidada para uma mesa sobre mídia e candomblé, presentes os muitos terreiros do Engenho Velho da Federação.

O Terreiro do Cobre, anfitrião.

Cleidiana levou um susto quando ela entrou: era muito, muito jovem.

É só fazer conta: atualmente está com 61 anos.

Assumiu o Cobre no início da década de 1990.

Mãe Val, chamada assim pela maioria, é bisneta de Flaviana Bianchi, "a grande", amiga de Édison Carneiro e Jorge Amado.

Carneiro, em 1938, fez questão de levar a antropóloga Ruth Landes para conhecê-la, já bem doente.

Ruth Landes se impressionou muito com ela, a ponto de transformar o encontro em um capítulo do seu "Cidade das Mulheres".

Iniciada na Casa Branca, ela foi sendo levada por suas "mais velhas" a visitar constantemente o terreiro "da sua família", o Cobre.

Fechado desde os tempos de Maria Eugênia, sucessora de Iyá Flaviana, o terreiro ficara sob os cuidados de uma filha de santo cuidadosa.

Os quartos dos santos foram preservados.

Quando se deu conta, novinha novinha, início da década de 1990, Mãe Valnizia já assumira a missão de reerguer o Cobre, cujos espaços estavam ocupados por casas e por uma oficina.

Batalha dada, árdua, e vitoriosa.

Não obstante com apenas 1% de sua área original, Mãe Valnizia restituiu a alegria e o vigor emanados de cada trecho do terreiro.

Xangô, orixá do fogo e da justiça, é o patrono do Cobre.

Mãe Valnizia de Ayrá é de uma inteligência rara.

Cleidiana dá testemunho:

- Nenhuma das conversas que tenho com ela terminam sem me dar muito o que pensar. Mais reservada que Mãe Té, fala pouco nos primeiros contatos. Tem um olhar que parece mapear a nossa alma. Não sei se ela sabe disso, mas é dessa forma que a vejo.

O primeiro encontro a impressionou muito.

Teve um sonho, cheio de símbolos.

E muitos recados.

E logo vieram outros, outros, e Cleidiana então entrou na corrida para conseguir o jogo com ela.

Não, não era fácil conseguir agenda.

Viajava muito.

Mas, Cleidiana estava decidida: tinha de ser com ela...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Mais um encontro que tive a sorte de ter..encontrei a mão que me conectou com a minha ancestralidade..Mãe Valnizia.  

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Emiliano José

12 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: uma desbravadora de almas,

conselho para procurar uma religião,

Deus mandando recados, candomblé não força

portas, ela chegando em casa, conexão com o sagrado


Só com ela.

Com ninguém mais Cleidiana queria jogo.

Búzios, esse jogo, não era para qualquer uma.

Mãe Valnizia de Ayrá abriu a agenda.

No primeiro jogo, Cleidiana, olhos e ouvidos atentos, ouviu não só as coisas mais urgentes, como outras, bem mais profundas.

Como precisava daquelas palavras.

Como ela sabia ler a alma.

Não, ela não era como qualquer religiosa.

As religiões, a maioria, carregam a prática do convencimento, da atração de novos fiéis.

Nada: Mãe Valnizia, um poço de serenidade, de sabedoria, seus ancestrais guiando-a, não agia assim.

Não tinha pressa.

Olhava pra Cleidiana: à sua frente, uma menina das águas.

Menina atormentada, buscando paz de espírito.

Por que forçar a barra?

Foi ao ponto:

- Você deve procurar uma religião.

- A senhora acha? - perguntou.

- Sem dúvida.

Rapidamente, se adiantou:

- Agora, não estou dizendo que deva procurar o candomblé. Pode ser qualquer uma. Está necessitando de uma religião.

Os olhos, arregalados.

Conselho forte, desses de assustar.

E deslumbrar.

Explicou mais:

- Deus está encontrando uma forma de lhe mandar recados em uma linguagem que talvez agora você comece a compreender.

Ela, absorvendo cada uma daquelas palavras, perplexa diante de tanta perspicácia, tanto conhecimento do espírito humano.

E nada de reclamar hegemonia de seus deuses:

- Deus é um só, minha filha. A gente é que lhe dá nomes diferentes.

Ela passou a cuidar das coisas de Cleidiana, e ninguém ouse perguntar o que é isso - só as duas sabem, ninguém mais no mundo.

E permanecia firme em suas convicções: não fazia qualquer esforço para Cleidiana tornar-se sua filha de santo.

Ela, Cleidiana é quem insistia.

Desde o primeiro encontro, tinha segurança de ter "chegado em casa", ter estabelecido um laço forte, uma conexão muito forte com o sagrado.

Só após alguns meses...

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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Emiliano José

13 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: os caminhos para ser

uma abian, Cleidiana do Cobre,

doença tomando-a, corpo e

espírito, a mão milagrosa de Mãe Valnizia.

 

Só após alguns meses, depois de várias tentativas, voltou a se encontrar com Mãe Valnizia.

Concedeu uma entrevista.

Outra vez sobre o culto dos ibejis, nova reportagem.

A menina das águas ia se aproximando, desejosa.

Já estava fazendo os ritos necessários para se tornar abian do Terreiro do Cobre.

É um primeiro passo.

Diria, e aqui é senso comum, a pessoa está dizendo, ao se tornar uma abian, de sua predisposição para o candomblé.

Não participa dos preceitos internos.

Só das festas públicas.

É uma fase muito importante para o aprendizado, para ver e ouvir, sempre orientada por uma pessoa mais velha.

O candomblé tem muito respeito pelos mais velhos, reverência.

Quando se tornou uma abian do terreiro, Mãe Valnizia chamou-a para conversar.

Foi direta:

- Minha filha, você está segura do que quer?

- Estou - Cleidiana respondeu.

Bem humorada, mas falando sério, alertou-a carinhosamente:]

- Se seguir esse caminho, a partir de hoje será a "Cleidiana do Cobre". Não mais "Cleidiana de A Tarde".

E foi assim.

Em 2008, começou a adoecer, gravemente.

Passou 15 dias acordando sobressaltada em meio a dores fortíssimas na barriga.

Um diagnóstico tardio de adenomiose, um tipo de endometriose profunda, tornou-a refém de medicamentos fortíssimos.

Antiinflamatórios potentes atacavam a doença, amenizavam a dor, mas causavam irritação permanente no estômago.

Quatro gastrites.

E uma úlcera.

Foi atrás de uma especialista.

Não podia seguir tomando aqueles remédios.

A médica fez de tudo, foi pra lá, veio pra cá, mas chegou o momento de ela própria jogar a toalha: não sabia mais o que fazer.

Angustiada, Cleidiana sepultou por algum tempo o cartesianismo, e foi atrás do mundo espiritual.

As filhas de Oxum, é dito, têm sensibilidade a problemas com órgãos reprodutores quando as energias estão desequilibradas.

Verdade ou não, melhor consultar quem sabe.

Mãe Valnizia acolheu-a de modo generoso, cuidadoso.

Começou explicando a Cleidiana o que era do corpo e o que era da alma - há de se juntar as coisas, buscar equilíbrio entre um e outro.

Fez de pronto um remédio de efeito maravilhoso: conseguiu dormir uma noite inteira depois de 15 dias sem fazer isso. Prescreveu um tratamento, seguido a rigor por Cleidiana.

Quando voltou para a revisão, a médica especialista, atarantada, queria saber a razão do milagre, como de repente estava tão bem...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Assim mesmo...ele parece testemunha ocular, gente. 😊

Lourdinha Brito: Eu creio nisso : há de se buscar um equilíbrio entre o q é do corpo e o q é do espírito. Mas as vezes é difícil saber onde começa os problemas relacionados a um e a outro.

Isabel Santos: Há muito mais a entender do que possamos imaginar. Somos muito mais que estarmos simplesmente aqui, no Planeta. 

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Emiliano José

14 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: segredos religiosos,

iniciação, agradecimentos

a Oxum, achando o caminho

de casa, serena e firme

autoridade, Mãe Valnizia, Mãe Stella.

 

A médica queria porque queria saber como havia melhorado daquela maneira.

- Não, minha senhora, não posso falar.

A médica franziu o cenho, perplexa.

Cleidiana emendou:]

- Não posso porque é parte do segredo de minha prática religiosa.

A médica assentiu - que fazer?

A doença e o tratamento levado a cabo por Mãe Valnizia a convenceram: era hora de começar a iniciação.

Sem mais demora.

Pensou fosse assim rápido?

Nada.

Conversas e mais conversas com Mãe Valnizia.

Orientações e mais orientações.

- Sabe as responsabilidades que irá assumir? - ela ia batendo na tecla, a demonstrar o quanto era sério o passo a ser dado.

Uma década passada de sua iniciação, e ela não se cansa de agradecer a Oxum por ter permitido encontrar o caminho de casa.

Ter se encontrado.

Sempre vem à memória a lembrança daquela noite enluarada em Cachoeira  caminhando pelas ruas de paralelepípedos embalada pelo rumorejar das águas do Paraguaçu sempre as águas a acompanhá-la onde decidiu não ser freira o espírito atormentado sem saber o rumo a dar e agora Oxum lhe mostrava um caminho definitivo.

Era bom, muito bom, sentir em Mãe Valnizia, a autoridade justa.

Ser sua filha de santo nunca lhe conferiu qualquer privilégio.

É religiosa extremamente criteriosa, exigente consigo mesma.

Lembra o dia: ao lado de Meire Oliveira, filha de Oxaguiã e ekede de Ayrá, passaram as duas mais de uma hora conversando com Mãe Valnizia tentando convencê-la assumir a coluna no espaço antes reservado a Mãe Stella em "A Tarde". Depois de muita relutância, aceitou.

Mãe Stella comemorou quando soube o nome da substituta.

Resolvera parar - revelava cansaço.

Respeitava Mãe Valnizia.

Jovem fosse, e era, tinha muita liderança e comprometimento, seriedade com as questões religiosas.

Já com livros publicados, uma série de artigos em "A Tarde", conserva estilo próximo da etnografia.

Bom vê-la contar como foi nascer e crescer no Engenho Velho da Federação, bairro a concentrar terreiros de variadas nações, verdadeiro quilombo urbano.

O fato de em tempos passados, ao menos até a década de 1970, ser território de fontes, riachos e matas, explica porque atraiu tantas casas religiosas do povo de santo.

É uma força, essa moça, força da natureza, da humanidade, essa Mãe Valnizia de Ayrá.

#MemóriasJornalismoEmiliano  

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(Ebomi Cidália - Foto Rejane Carneiro)

Emiliano José

15 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Jaime Sodré e suas

estrepolias, um presente, entra em

beco sai em beco, frente a frente

com Ebomi Cidália Soledade, filha de Iroko.

 

Jaime Sodré tomou do telefone e ligou pra Cleidiana:

- Espero você aqui em casa. Agora.

- Posso saber a razão? - ela indagou.

- Tenho um presente de fim de ano.

- Não, não precisa - reagiu Cleidiana, educadamente.

- Ora, Iaiá, deixe de conversa, a decisão é minha, o presente é meu. Se mexa, venha.

Bem, como recusar?

Como não ir?

Não pelo presente, mas pela origem.

Mestre, quando convoca, não há discussão.

Chega na casa dele um pouco curiosa.

Bem ao estilo, ele aumenta ainda mais a expectativa:

- O presente não está aqui. Vamos sair.

Final de 2006.

Cleidiana entrou no carro, ele dirigindo, Lúcia, sua mulher, junto.

Chegados ao final do ponto de ônibus de Federação, num pequeno largo, parou o carro, desceu e avisou:

- Daqui em diante, seguimos a pé.

- Que presente será? - perguntava-se Cleidiana.

Bem, restava caminhar.

Jaime caminhava devagar, nada de correria.

Parecia escutar Almir Sater - ando devagar porque já tive pressa.

Ia conversando, sem nada dizer do presente, Cleidiana ouvindo, atenta.

Afinal, fosse o que fosse, seria bem-vindo.

Há o velho ditado: a cavalo dado não se olha os dentes.

Neste caso, nem se aplicava porque dele só se podia esperar coisa boa.

A descida ali parecia um labirinto.

Entra em beco sai em beco.

Passaram pela rua onde fica a entrada principal do Terreiro Oxumaré.

Seguiram em frente.

Entraram numa outra rua, enladeirada - e onde ali não é ladeira?

Desceram - e ali é um sobe desce sem parar.

Jaime com um sorriso de canto de lábio, quase se divertindo.

Viraram à esquerda, e Jaime estancou em frente a uma casa gradeada.

Antes de entrar, antes de bater palmas e gritar ô de casa, ele dirigiu-se a Cleidiana:

- Aqui está o seu presente: você será apresentada à Ebomi Cidália Soledad, filha de Iroko.

Respirou fundo, feliz.

Entrou, atrás de Jaime e de Lúcia.

Deparou com uma senhora negra, forte, robusta.

Majestosa na cadeira protegida por almofadas para dar conforto ao corpo combalido, abalado por uma trombose.

Como da boa tradição, esperou Jaime pedir a bênção, depois Lúcia, e só depois o fez.

Era ainda uma abian.

Jaime apresentou-a:

- Cleidiana é jornalista de "A Tarde".

Amor à primeira vista...

#MemóriasJornalismoEmiliano 

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Emiliano José

16 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: a Enciclopédia do

Candomblé, filha de Iroko, iniciada

por Mãe Menininha, recusa a nomes escravocratas.

 

Que presente, aquele.

Jaime, o mestre, sabia mimosear a quem amava.

E ele amava a filha.

Tinha Cleidiana como filha.

A ele, como recompensa, bastavam os olhos incendiados dela, de tanta alegria por estar ali aos pés de Ebomi Cidália.

Não fosse quem era, a enciclopédia do Candomblé. bastaria a condição de extraordinária contadora de histórias.

Provável uns e outros façam muxoxo, desdenhem dessa arte.

Das mais difíceis, saibam.

É preciso talento, sabedoria.

Mais ainda no candomblé, onde os mitos transitam pelos séculos pela voz dos mais velhos, pela sabedoria da ancestralidade.

Ela sabia dos mitos.

E sabia das antigas casas, os terreiros de antanho.

Filha de Iroko, o orixá.

Consagrada a Iroko aos sete anos por Mãe Menininha do Gantois.

Ebomi Cidália se referia sempre ao Gantois como Ilê Axé Yiá Omi Yiamassé, o nome sagrado do terreiro:

- Eu não sou filha de terreiro com nome de escravocrata.

Era do rigor, da tradição da resistência.

Gantois é sobrenome do belga de prenome Edouard.

Conta-se o tal tivesse vivido do tráfico de escravos.

O terreno onde foi erguido fora adquirido do belga, dono de uma fazenda no local.

Muita gente então se referia ao "terreiro que fica na fazenda de seo Gantois" e o nome foi ficando ficando ficou.

Aos poucos, foi conhecendo a história da enciclopédia.

Naquele dia, e depois.

A mãe de Ebomi ia sempre ao Gantois.

Ao descobrir-se grávida pela segunda vez, já cuidando de uma filha, sentiu-se incomodada nos seus 40 anos.

Mãe Menininha disse tenha calma vou consultar os búzios e os búzios revelaram devesse se despreocupar pois quem estava a caminho era uma filha de Iroko tudo ia correr bem.

Desde o nascimento, houve o acerto: Cidália, completados os sete anos, seria iniciada.

Até então, nos candomblés baianos, Iroko não era considerado um orixá do povo nagô, também chamado Ketu.

Chamado Loko, era santo de nação Jeje, um vodun...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Ah...quem.teve o privilégio de conheci Ebomi Cidália vai entender a grandiosidade desse presente.

Vânia Carla Almeida: Que vivências maravilhosas. Ainda bem que estamos podendo compartilhar. 

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Emiliano José

17 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: Loko Iroko, um pega

pra capar, o barco seguiu, Nagô

quer paz, não quer guerra, nada de tocar terror.

 

Dizia: Iroko não era considerado um orixá do povo nagô, também chamado Ketu.

Chamado Loko era santo da nação Jeje, um vodun.

Correu a história: Mãe Menininha botaria um barco com um filha de Iroko - o nome em tradição Ketu.

Botar um barco - nome dado a um grupo de iniciandas.

Quando houve o anúncio, um pega pra capar.

Um fuzuê.

O mundo do candomblé pegou fogo.

Tudo por conta da menina, a Ebomi Cidália, com seus verdes sete anos.

Mãe Menininha sabia das coisas, e tinha autoridade.

Tudo correu bem, apesar do ranger de dentes.

Alguns dias após a iniciação, Mãe Menininha chamou a menina, agora iaô, e ensinou-lhe uma cantiga em iorubá, a dizer mais ou menos isso:

"Nagô quer paz. Nagô não quer guerra".

Foi ela conseguir repetir a cantiga, e Mãe Menininha a levou para tomar a bênção em vários terreiros, inclusive Jeje, e aí pedia a ela para cantar.

Era de paz.

Cleidiana foi conhecendo Ebomi Cidália, penetrando seu mundo.

Tanto, tanto a ponto de uma entrevista feita por ela com a religiosa tornar-se a introdução do livro "Ebomi Cidália, a enciclopédia do Candomblé", organizado e publicado por Jaime Sodré, Cleidiana co-autora.

Foi admitida: passou a ser parte da "corte de Ebomi Cidália", denominação de Jaime Sodré.

Ebomi Cidália foi se afeiçoando de Cleidiana.

Ficou feliz quando a soube do Terreiro do Cobre.

Havia morado no Engenho Velho da Federação.

Conhecera dona Moura, mãe biológica de Mãe Valnizia, a quem viu bebê.

Chegou a ficar de mal com Mãe Té:

- Imagine, Eu, mulher adulta, casada, de mal com uma menina. Mas é porque ela era terrível. Bagunçava tudo na fonte no final da tarde, quando ia buscar água. Tocava o terror.

Tocar terror era expressão do gosto dela quando queria dar ênfase a uma pessoa dada a confusão.

Quando Mãe Té fez santo e lhe tomou a bênção, tudo passou a ser carinho e amizade.  

Numa das visitas a ela, Jaime Sodré, sempre junto, depois de algum tempo de conversa, interveio, agoniado:

- Ebomi Cidália, hoje não vamos demorar. Temos compromissos.

Era por volta de 14 horas.

A religiosa, mãos no colo, olhar suave,  recostada confortavelmente na poltrona...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita. Emiliano José não perdoa. Arranca as coisas de mansinho e conta com uma precisão e beleza ..

Jose Jesus Barreto: Beleza emanando das lembranças de Ebomi Cidália, criatura iluminada. Belo.   

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Emiliano José

18 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: tempo no candomblé é diferente, no aniversário de Ebomi Cidália vinha gente de todo lugar, Paulinho da Viola, tremendo pagode, maestro Reginaldo de Xangô e Tata Anselmo de Dandalunda.

 

Na sala, os três.

Cleidiana embevecida com a prosa de Ebomi Cidália.

Jaime Sodré, atento.

Mas, depois de algum tempo, demonstrou agonia, e ousou dizer de compromissos, tempo curto, "precisamos ir embora".

Batia duas horas da tarde.

Ebomi Cidália era a calma em pessoa.

Gostava de chamá-lo professor.

Serenamente, lidou com a pressa dele:

- Professor, o senhor, como bem sei, é homem de candomblé.

Jaime, assuntando - afinal era autoridade falando.

Ela prosseguiu:

- Sabe, tenho certeza que sabe: nosso tempo é contado de forma diferente.

Jaime começou a entender: vinha alguma lição, bom abrir os ouvidos.

- Aqui em casa contamos o tempo como gente do candomblé, e é assim porque eu sou uma mulher de candomblé como o senhor também é - continuou a Ebomi Cidália.

Aprendera cedo a respeitar os mais velhos, Jaime entendeu aonde ela queria chegar:

- E o senhor, professor, sabe que essa menina logo também será do candomblé.

Ele sabia, ah, como sabia.

A Ebomi concluiu:

- Logo, a menina vai ficar aqui o tempo que for necessário.

Saíram de lá às 18 horas.

Durou o tempo necessário - tempo do candomblé.

Ela era uma espécie de entidade.

O aniversário dela, um acontecimento.

E tinha mais: Jaime Sodré e Tata Anselmo de Dandalunda, do Terreiro Mokambo, do Trobogy, também fazem aniversário nessa data.

Era gente de todo lugar porque a comemoração era conjunta.

Variava: num ano sarapatel, noutro feijoada.

Num deles, olhava pro lado, quem estava lá?

Paulinho da Viola.

Nesse mesmo dia, chegou um presente pra ela: maestro Reginaldo de Xangô com sua orquestra.

E então, o samba: mestre Paulinho da Viola com a orquestra de Reginaldo de Xangô.

Parecia domingo lá na casa do Vavá aquele tremendo pagode que você não pode imaginar.

Que tarde, que noite, tempo do candomblé, que festa.

Tá bom, ou quer mais?

Quando se aproximavam os 70 anos de iniciação de Ebomi Cidália, Jaime Sodré parecia em transe, tal a intensidade na direção dos preparativos da festa, que ele queria fosse à altura da importância dela.

Corre pra lá, corre pra cá, almoços de planejamento...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Que saudade desses dois grandes encantados: Ebomi Cidália e Jaime Sodré...

Joaquim Lisboa Neto: Paulinho da Viola? Queria estar lá!

Meu coração leviano iria saltitar

Jose Jesus Barreto: Tempo é Orixá que não se manifesta. Simplesmente é, pleno, absoluto, imensurável.

Adilson Borges: "tempo, a mais persistente das ilusões" 

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Emiliano José

19 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: uma entrevista,

uma desavisada,

os mistérios do transe,

as lições de Ebomi Cidália,

na água, no fogo e nas pessoas.

 

E para os 70 anos de iniciação de Ebomi Cidália, organizou-se coletiva de imprensa.

Não assim, a Migué.

Não.

Jornalistas selecionados a dedo: Marlon Marcos, Meire Oliveira e Juliana Dias.

E Cleidiana, claro.

Terreiro Oxumarê.

Tudo registrado em vídeo pela fotógrafa e cinegrafista Lindiwe Aguiar.

Duas sessões de entrevistas.

Na segunda, presença de representantes de vários terreiros, muita gente querendo reverenciar Ebomi Cidália.

Esse material foi a base do livro "Ebomi Cidália, a enciclopédia do Candomblé", organizado por Jaime Sodré e Cleidiana.

Pena tenha demorado pra vir à luz: lançado em 11 de abril de 2014.

A homenageada morrera dois anos antes, em 20 de março de 2012.

Ainda viva, acompanhou a chegada de Cleidiana à condição de iaô do Cobre.

Quando saiu da cerimônia de nome do santo de Cleidiana, andando ao lado de Jaime Sodré, chamou-o para perto e baixinho disse:

- Veja só, Jaime. Nossa menina está em boas mãos.

Dona de um raciocínio rápido como o raio, sabia temperar tudo com amor, mesmo quando repreendia, quando defendia sua religião.

Jornalista, não todos, é bicho meio desavisado, pensa ser dono da verdade, e às vezes cai do cavalo.

Um início de tarde, almoço num restaurante, comemoração do aniversário de santo dela.

Uma jornalista convidada, não, não peçam nome, muito da abusada, sem um pingo de tato, salto alto, entre uma garfada e outra de boa comida, atreveu-se:

- Ebomi Cidália, não acredito que as pessoas entrem em transe. Considero aquilo fingimento.

Houve um minuto de silêncio, e de constrangimento, vergonha alheia.

A religiosa nem se abalou, serena e firmemente, começou a falar:

- Minha filha, eu estou  nisso há 70 anos, você acha pouco?

- Não - disse a jornalista.

- Botou a mão para trás, para mim é santo e sabe por quê?

A jornalista já incomodada, meio na casa do sem jeito, esperando:

- Se aparecer aí na sua frente, agora, um homem de mais de dois metros, forte, preto, bem retinto, e lhe disser em iorubá, "Eu sou Ogum", você vai aguentar?

Silêncio ensurdecedor.

- Não, você não iria aguentar, minha filha. Cairia durinha. Isso porque a cabeça da gente não tem estrutura para fazer a gente ouvir e ver determinadas coisas. Santo de candomblé é uma delas. O olho não aguenta, não suporta. Os ouvidos, também não. É por isso que eles vêm assim: na água, no fogo e nas pessoas.

E sorriu, um sorriso quase abraço, suave.

O almoço seguiu.

Mais leve.

Não sei se para a jornalista...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIO

 

Cleidiana Ramos: Ebomi Cidália, uma das figuras da era de ouro do candomblé baiano.    

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Emiliano José

20 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: envolvida em memórias,

os músicos poliglotas do candomblé,

uma dádiva chamada Cidália, o respeito aos

mais velhos, a reverência aos religiosos mais velhos dos terreiros.

 

Ela se pega em memórias.

Na amizade profunda a unir Jaime Sodré e Ebomi Cidália.

Os dois, proseando sobre cantigas.

Ele, besta nem nada, xicarongama dos bons, acostumado a bater pra chamar os deuses à terra, músico afinado, ainda assim, eterno aprendiz, buscava com ela tirar dúvidas sobre uma outra palavra.

Jaime era da tradição angola.

Como sacerdote músico, tinha de saber tocar e cantar nos ritmos de todas as nações, requeria fosse um poliglota, se me entendem - afinal, as pessoas dos terreiros, de diversas procedências, se visitam.

Então se um santo angola chegar em um terreiro Ketu o xicarongama vira o toque e toca no ritmo do visitante.

É, há mais segredos entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia.

E Jaime sempre aproveitava qualquer dedo de prosa com Ebomi Cidália para aprender mais e mais, e aprendia.

E Cleidiana, sempre ali, bebendo as palavras dos dois.

Aprendeu muito com a sacerdotisa.

Jaime, um pai, sabia o significado daquele presente.

Conhecê-la, conviver com ela, foi uma dádiva, e ela dá o peso devido à palavra dádiva, tão cara à antropologia.

Com ela aprendeu, ou a lição quem sabe tenha vindo de Chico Preto e suas ligações com os encantados, ou dos dois, aprendeu a selecionar o que tornar público quando conversava, ouvia as mais velhas e mais velhos do candomblé, especialmente os da alta hierarquia daquele mundo religioso.

Quando se via embaraçada numa entrevista, não entendia uma coisa ou outra, pedia licença, desculpas se estivesse sendo inconveniente, e obtendo permissão, às vezes por um simples olhar ou um sutil movimento da cabeça, então perguntava.

A reverência, o respeito às autoridades constituídas pelo tempo, tornadas assim pelo assentimento dos liderados, pela proteção e bênção dos santos, é algo aprendido por ela ao longo da vida.

Se ela via valer para outras religiões, por que não no candomblé?

Aquela jornalista, daquele almoço, não havia entendido nada desse mundo.

Considerasse-o um mundo mágico, bastava.

Não o entendesse, tudo bem.

Mas, desrespeitá-lo, chega pra lá.

Levou o chega prá lá de Ebomi Cidália, quem sabe tenha aprendido.

Cleidiana vai viajando no tempo, e na viagem depara com a data de 7 de dezembro de 2015.

Ontem, e tanto tempo faz.

Nesse dia, deixava o jornal "A Tarde".

Decisão amadurecida, mas muito difícil...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita..a saga caminhando para novos caminhos.

Isadora Browne Ribeiro: A bênção, Ebomi Cidália, sua bênção, meu mentor, amigo, queridíssimo Jaime Sodré.

Meu respeito, Cleidiana. 💕💕 

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(lançamento de Flor do Dendê - Ludmila Cunha, Cleidiana Ramos, Susana Rebouças e Meire Oliveira, em 1916)

Emiliano José

21 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: simulando diminuir o ritmo,

uma dissertação e uma tese,

luz e festa, chegada à vida acadêmica,

professora, Dois de Julho, Uneb

Coité, "Flor de Dendê" afro-sertanejo.

 

Quando dezembro chegou.

Era 2015, ela inquieta, envolvida na conclusão da tese de Doutorado.

O trabalho parecia uma alegria só, ao menos pelo nome: Festa de Verão em Salvador.

Quem passou por isso, sabe a  dor e a alegria de concluir uma tese.

Há momentos duros, até vontade de desistir, não é?

A pesquisa baseou-se em um conjunto de 2670 fotografias - já pensou no tamanho disso?

Não quero nem pensar.

Quase sete mil reportagens, publicadas entre 1912 e 2016 sobre as festas de verão em Salvador.

Mergulhada em festas.

Sonhava com elas: São Nicodemus, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia, Bom Jesus dos Navegantes, Reis, Bonfim, Ribeira, São Lázaro, Iemanjá, Festa da Pituba, Itapuã e até Lavagem de Ondina, única de ambiente privado.

Como seguir a vida, a rotina diária de um jornal?

Saiu.

Deixou "A Tarde", depois de muitos anos.

E se dedicaria então à vida acadêmica, seguindo conselhos de um de seus gurus, professor Roberto Albergaria.

Por que não dar um salto adiante, chegar ao magistério no nível superior?

Conselho dele.

Já era Mestre, depois de defender a dissertação "O Discurso da Luz", onde catalogou 1432 fotografias sobre o candomblé no acervo de "A Tarde", analisou cinquenta delas, esquadrinhou fatos históricos, visitou 30 terreiros, enfronhou-se no mundo religioso afrodescendente.

Atualmente, é professora visitante no campus XIV da Uneb, em Conceição do Coité.

Soubesse Cleidiana, vai saber agora, do meu amor por Coité...

Dos tantos amigos e amigas queridas cultivadas por lá.

O Sisal, e Coité de modo especial, é região amada por mim.

Hora dessas, proseamos sobre os mistérios do Sisal.

De 2013 até muito recentemente, atuou na graduação e pós-graduação da Faculdade Dois de Julho.

Soubesse Cleidiana de minha relação com o Dois de Julho, com Celso Dourado, com Jaime Wright, aquele auditório, cenário de encontros memoráveis na luta pela anistia.

Aquelas paredes têm história.

Anda dizendo ser necessário diminuir o ritmo, até para manter a saúde.

Não se decide: segue com rotina de trabalho de dez a 12 horas diárias.

Jornalismo, cachaça.

Em 2016, 27 de setembro, lança o coletivo de jornalismo independente "Flor de Dendê".

Lado a lado com Ludmila Cunha, Meire Oliveira e Susana Rebouças.

Repousa sobre a aliança afro-sertaneja...

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: E a saga se encaminha para alguns desfechos.

Isabel Santos: Vivenciei muito essas festas, no seu auge, trabalhando (fazendo cobertura) ou curtindo. Muita riqueza. Parabéns, Cleidiana Ramos pela escolha do tema para sua tese. Uma imersão que deve ter sido intensamente maravilhosa, e resultado em algo ímpar. 

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(Reprodução de imagem sobre a luta dos trabalhadores rurais de Iaçu  - caderno especial Os Caminhos da Água Grande, jornal A Tarde, em 2004)

Emiliano José

22 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: quando setembro vier,

diversidade cultural da Bahia, Água Grande

e seus caminhos, o último encontro com Chico

Preto, triste partida para o reino dos encantados.

 

Flor de Dendê - que nome poético, não?

Pode-se chamar de plataforma, não?

Ah, como eu gostaria chamar de revista - aceita não, Cleidiana?

Aliança-afro-sertaneja.

Foi com essa inspiração que surgiu a ideia desse coletivo de jornalismo independente.

Quando a primavera chegar.

Chegou - 27 de setembro de 2016.

Entre Búzios e Canudos há muito parentesco, proximidades.

Queriam, as queridas jornalistas, escapar do reducionismo identitário focado em Salvador, Cachoeira, Santo Amaro.

Mundo mundo vasto mundo e eu não me chamo Raimundo.

Essa Bahia é por demais diversa, cultural, etnicamente, o que seja.

E justo, ela, principal inspiradora, Cleidiana, nascida em Cachoeira, no Recôncavo.

Crescida em Iaçu, sertão brabo.

Vivendo em Salvador, capital, litoral. ]

Soube de lançamento do livro de Gustavo Falcón, um de meus mestres no jornalismo, e Antônio Risério, sobre a diversidade cultural baiana - quero ler.

Por essa cabeça multicultural, pelo respeito à diversidade baiana, Cleidiana mergulha nas águas do Paraguaçu novamente, e o percorre pelas trilhas do jornalismo, a memória revive tudo.

São 16 anos passados.

Recorda-se do especial "Água Grande", publicado no dia 5 de junho de 2004 em "A Tarde", um tabloide de 16 páginas, todinho escrito por ela, amor sem fim.

E a memória, a guardar o inesquecível, se surpreende dois dias depois, 7 de junho daquele ano, a visitar Chico Preto, o pai, num hospital em São Sebastião do Passé.

Foi conversa animada, nunca havia desânimo em Chico Preto.

Falava de planos, táticas e estratégias para a eleição municipal, a acontecer dali a poucos meses.

E, pai coruja, no fim da conversa, mostra o especial "Água Grande".

Havia lido linha por linha - como acreditou naquela filha, como adivinhou, como apostou, como amou, respeitou suas escolhas, e a viu crescer sem parar.

Ao se despedir, Cleidiana o surpreendeu triste, com lágrimas nos olhos, incomum nele.

- Que é isso, pai? Volto amanhã.

Ele sabia: dia seguinte, partiu.

Precisava vê-la antes.

Só isso.

Agora, podia seguir viagem.

Um câncer de próstata, escondido de Cleidiana por ele, o levou.

Foi encontrar-se com os encantados...

#MemóriasJornalismoEmiliano   

 

COMENTÁRIOS

 

Cleidiana Ramos: Eita, moço, bateu fundo.

Mônica Bichara: Bateu aqui também, guenta coração.....Tive o prazer de participar do evento de lançamento da Flor de Dendê, no Pelourinho, grande iniciativa

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Emiliano José

23 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: poças borbulhantes,

em meio às águas, navegando pelo

Paraguaçu, Chapada, Caatinga,

Recôncavo, no meio do caminho um marimbondo...

Eram poças borbulhantes.

 

Seus pés sentiam as águas da nascente do rio Paraguaçu, esse gigante.

Cleidiana feliz como pinto no lixo.

Em águas.

Sua praia.

Municipio de Barra da Estiva, a nascente.

O rio nunca a deixou.

Nasceu no Paraguaçu - em Cachoeira.

Migrou para o Paraguaçu - Iaçu.

Parecia persegui-la.

Ou o contrário.

Pouca gente sabe talvez.

É o rio da integração desse Estado-país chamado Bahia.

São 614 quilômetros de extensão.

Banha três ecossistemas.

Cerrado, na Alta Chapada, banhando áreas como Mucugê, Lençóis, e Igatu, povoado de casas de pedra deixadas pelos garimpeiros em meio às matas, inacreditável cenário parecendo vir de outras eras.

Caatinga, no Médio Paraguaçu, onde está o município de Iaçu, Iaçu de Nazinha de Chico Preto, de Chico Preto de Nazinha, terra do Nego D'Água.

Mata Atlântica, região de Cachoeira, onde o sertão vira mar, o rio se mistura com águas oceânicas, compõe os mangues de Maragogipe, e se quiser, olhe, se tiver olhos pra ver, veja o momento mágico do abraço do mar e do rio em Barra do Paraguaçu, em Salinas, coisa linda de se ver, cores indecifráveis, indescritíveis, muitas, a maravilhar espíritos sensíveis.

Cleidiana foi pisar esse chão, mergulhar nessas águas, andar sertões e chapadas e recôncavos por 12 dias para produzir o especial "Água Grande" para "A Tarde".

Ao seu lado, o talentoso Luciano Andrade, com quem já tive a chance de compartilhar andanças pelo Oeste da Bahia, fazendo matéria para "Carta Capital".

Nem tudo são maravilhas nessas caminhadas.

Há sustos.

Alguns, grandes.

Atrás da nascente, se viram perdidos em meio à mata fechada.

Completamente perdidos.

E arrodeados por muros compactos formados por um arbusto chamado unha de gato.

O guia, vejam só, um ambientalista, se perdeu.

E daí?

Ela, Ricardo, o motorista, e Luciano.

Ricardo foi picado por marimbondos.

Ela, também.

Cleidiana é alérgica a picada de insetos...

#MemóriasJornalismoEmiliano   

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(Série Memórias, jornal A Tarde, sobre Pau de Colher)

Emiliano José

24 de janeiro 2021

Cleidiana Ramos: perdida no fim do mundo,

picada de marimbondo, reeencontro,

nascente, presente das águas, fim do

romance da Água Grande,

da filha de Nazinha e Chico Preto.

 

Era da espécie preta, menor que o vermelho, mas uma picada da porra, dolorida que só o diabo.

Cleidiana e o motorista picados pelo marimbondo, ali naquele fim de mundo, e perdidos no fim de mundo, como cachorros caídos da mudança.

Ela, apavorada, em pânico.

Alergia pode ser fatal, e ela era alérgica a picada de insetos.

Socorro?

Onde encontrar?

A quem apelar?

Não era ainda do candomblé.

Mulher negra, ouviu sons vindos da ancestralidade, e chamou pelos encantados do sertão.

Pelo caipora.

Se reina sobre todos os animais, podia aplacar o veneno do marimbondo, não é verdade?

De qualquer modo, chamou também por Oxóssi, rei do Ketu, e protetor de todas as matas.

Misturar, faz mal não.

Balbuciou até orações da Igreja Católica.

Mal não iria fazer.

Os deuses costumam se entender.

E foram os deuses provavelmente a ajudar Luciano Andrade.

Ajuda do além e alguma experiência, e o fotógrafo encontrou as pegadas dos dois do dia anterior, e os encontrou.

Cleidiana só foi saber quando todo mundo se reuniu: a nascente não era aquela, mostrada pelo primeiro guia, onde se perderam.

Foram em nova expedição, e descobriram: a nascente original estava de fato a poucos metros.

A descoberta teve, parece, efeito milagroso: Cleidiana não sentia mais a picada dos marimbondos.

Ponto de partida de uma longa aventura, a redundar no tablóide "Água Grande", ideia bancada por Olenka Machado, presente jamais esquecido.

Ela seguiria seu caminho.

Do jornalismo, jamais se afastou.

Continua arquiteta da memória, contribuindo semanalmente em "A Tarde", recuperando, iluminando o passado com sua lente poderosa, olhar aguçado, tornando-nos cada vez mais conscientes do quanto passado e presente nunca se separam.

Eu cesso aqui essa breve história dessa querida repórter, antropóloga, moça de sorriso largo, abraçada pelas águas, amante do Paraguaçu, namorada da lua, abençoada pelos orixás, filha de Oxum e de Nazinha e de Chico Preto.

Breve história conduzida por ela e seus encantados, personagem a me envolver gostosamente por alguns meses, eu querendo às vezes ir prum lado, ela me puxando e me levando pra outro, não sabendo se era ela, se Nego D'Água, se os orixás, mas levado, carregado.

A moça da Água Grande deixa saudades.

#MemóriasJornalismoEmiliano

 

COMENTÁRIOS

 

Paulo Renan Santos: Teremos outras Cleidianas?

Emiliano José: Paulo Renan Santos Sim. Outras, com suas singularidades. Diversidade.

Paulo Renan Santos: Emiliano, esperamos ansiosos. Aqui a lavra é farta. Inspiração sempre !!!

Cleidiana Ramos: Gente: não tenho como descrever esse presentes. Fico então no obrigads mestre Emiliano José.

Mônica Bichara: Cleidiana Ramos quanta emoção esse moço provocou, né? Bela história, merecia mesmo ser contada nessa verdadeira biografia. Já imaginando a emoção q também terei em rever todo esse material para editar nossas memórias

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