“O cão morde a noite” - Carta de um “leitor cúmplice”, Heládio Leme, emociona Emiliano
Entre as tantas homenagens recebidas pelo
escritor e jornalista Emiliano José no aniversário de 75 anos, neste 5 de
fevereiro, uma emocionou especialmente o autor. A carta do amigo Heládio Leme,
companheiro dos tempos tenebrosos da ditadura, uma cumplicidade que se estendeu
da sucursal do inferno para a vida, comentando o impacto que lhe causou a
leitura do livro “O cão morde a noite”.
Para não antecipar a mensagem, me atenho
apenas à comparação feita por Heládio entre aqueles tempos de triste memória e
os atuais, “de comportamento de matilha, de regressão civilizatória, de ódios
disseminados, de indiferença, de falta de empatia e solidariedade”.
Lendo a “carta” do amigo, companheiro de lutas,
Emiliano José relembra: Heládio e a ex-mulher Zezé, Maria José Malheiros,
vieram em fuga, clandestinos, de São Paulo para a Bahia, no período mais duro da
ditadura. Aqui fixaram residência e tiveram um filho baiano. Mas partiram para
outras paragens, ela em Paris e ele de volta a São Paulo. É professor aposentado
de economia e ciências políticas da Universidade Federal de Uberlândia. São
personagens de outro livro de Emiliano, “A última clandestina em Paris”.
Em “O cão morde a noite”, autobiografia da
infância à saída da prisão,
Emiliano conta que fez o mesmo caminho de fuga. Mas se tornou baiano de direito, mais baiano que muitos nascidos aqui.
Eis a carta que
emocionou Emiliano:
Caro
amigo e camarada
Mando abaixo um pequeno texto que escrevi após a leitura trepidante do seu belo livro.
Agradeço pelo presente, pelas emoções proporcionadas e pelo alento, que apesar das dores, nos move a prosseguir.
Um
puta abraço pelo aniversário, com dois dias de atraso.
Heládio
Difícil
escrever sobre seu livro movido por um olhar somente literário. De início,
pretendia comentar as mudanças de estilo do autor y otras cositas mas.
Constato
porém, que a pretensão tornou-se irrelevante diante do impacto que a leitura
provocou neste leitor cúmplice, embora saiba que as sensações estão acondicionadas na palavra escrita, dela emanam e ganham vida
na relação dialógica com o leitor.
Assim
é a literatura e seus encantamentos e sortilégios.
Mas
“O cão morde a noite” ultrapassa essa compreensão na medida em que me fez
comungar, desde o início, as dores, terrores e vitórias do autor-protagonista
submetido à crueldade das sevícias, como o foram os demais companheiros de
prisão - jovens, sonhadores, por vezes ingênuos, mas sobretudo
resistentes, que ousaram combater a
ditadura e por ela foram barbaramente torturados.
Humana
sim, demasiadamente humana é a tortura, reafirma o autor. Frase que é sempre
necessário repetir, para demolir ilusões pseudo-humanistas.
A
leitura provocou deslocamentos temporais, ondas de lembranças de situações
vividas, pelas quais é impossível passar batido: um plano giratório, ladeado
por espelhos, que a cada volta me atingiu ora de raspão, ora no centro do
peito, reavivando memórias rôtas e
cutucando outras, ainda vivíssimas.
Provocada,
a memória sensorial encravada no corpo - choques elétricos pendurado no
pau-de-arara, entre outras - instigou sentimentos ácidos, fez saltar a cólera
das entrelinhas e me levou, movido pela angústia revivida, a atropelar vírgulas
e afrontar pontos finais. Sacudiu
lembranças colaterais, puxadas feito corda de caranguejo, tão iguais nos medos
e perplexidades juvenis.
Uma
mãe valorosa (que, aliás, mereceria mais destaque no livro), me trouxe de volta
outra mãe - a minha mãe - dona-de-casa, analfabeta, religiosa, solidária que,
ao visitar o filho na prisão era submetida a revistas constrangedoras, obrigada
a se abaixar e ter os órgãos genitais vasculhados. São as crueldades grandes e
pequenas, sempre aviltantes, que em regimes ditatoriais tornam-se “normas”
triviais, diferentes da explicitude sangrenta das torturas e dos assassinatos,
mas igualmente infames.
Em
contraparte, a descrição da solidariedade viva e pulsante entre os jovens e
heróicos prisioneiros faz serenar o leitor e abrir horizontes. Um banho de
acalmia e esperança em meio à jornada de horror cavalgada junto com o
autor-personagem e seus companheiros de presídio.
É
preciso ainda ressaltar que “O cão morde a noite” ganha mais relevância e
atualidade em tempos de comportamento de matilha, de regressão civilizatória,
de ódios disseminados, de indiferença, de falta de empatia e solidariedade.
Está
ali nos capítulos do livro, vívido, expresso com vigor, o exemplo de
solidariedade cada vez mais necessária nos tempos que correm. Sem ela, não
sobreviveremos nem teríamos sobrevivido.
Para concluir, trecho de um poema de
Hilda Hist, que me ocorreu durante a leitura e que dedico ao autor:
“Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros?
Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.”
(...)



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