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#domebrunopresentes - As digitais do mandante

 


Quem não está com um choro entalado na garganta hoje, no Brasil, está do lado do mandante. E seja lá quem for o mandante oficial dessa barbárie que abateu, num só golpe, um jornalista e um indigenista, a digital do verdadeiro culpado está espalhada por todos os lugares (pouco importa quem puxou o gatilho). Está no incentivo à violência, no descaso na apuração, no desmonte aos órgãos responsáveis pelas políticas públicas, na perseguição à imprensa, na impunidade... Quem incentiva o crime também aperta o gatilho.

Desde a primeira notícia sobre o sumiço dos dois, o "chefe supremo" botou a carapuça: “Se arriscaram numa aventura não recomendável”. Não! Não era, nem nunca foi uma aventura. Muito menos não recomendável. Estavam cumprindo suas missões. Culpar as vítimas sempre foi a saída preferida dos covardes. E para isso nem fingem um mínimo de preocupação. Não colaria mesmo. 

É sintomático que essa monstruosidade tenha vitimado justamente um jornalista, além do indigenista. Somos o alvo principal, e declarado, do atual governo. 

E justo o britânico Dom Phillips, correspondente do The Guardian no Brasil, autor da suprema ousadia de questionar o todo poderoso, em junho de 2019, sobre o crescimento dos desmatamentos na Amazônia e a falta de ações de preservação. Citou, inclusive, a parceria do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles (o que queria passar a boiada), com madeireiros da região. Sem sequer olhar no rosto do entrevistador, sentado ao seu lado, nem disfarçar o ódio que espumava pela boca imunda, o incentivador de toda essa onda de violência que se instalou no país vomitou essa pérola: “Primeiro você tem que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês”.

O choro coletivo, que continua entalado, vem se acumulando desde outro maldito golpe, o que permitiu essa múltipla tragédia brasileira. E foram inúmeros os atentados, sob forma de declarações desastrosas, tecendo a crônica das mortes anunciadas. Alguns exemplos:

“Se eu assumir a Presidência do Brasil, não terá mais um centímetro para terra indígena”, disse em 8 de fevereiro de 2018;

“Em 2019 vamos desmarcar a Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil e armas a todos os fazendeiros”, na Câmara Federal, em 2016;

"As reservas indígenas sufocam o agronegócio”, em 2015;

“Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola”, dia 3 de abril de 2017, no Estadão;

“Se eleito eu vou dar uma foiçada na Funai, mas uma foiçada no pescoço. Não tem outro caminho”, promessa de campanha cumprida com “louvor” – reduziu pela metade a estrutura do órgão de apoio aos povos indígenas. O próprio Bruno Pereira já tinha sido vítima desse desmonte, quando perdeu o cargo de coordenador de povos isolados na Funai, vingança promovida na gestão do ex-ministro Sérgio Moro na Justiça.

 

Que essas mortes não sejam em vão

 

E para que as mortes de Dom Phillips e Bruno Pereira não sejam em vão, o Brasil e o mundo precisam acordar e ir para as ruas, soltar o grito coletivo que está nos entalando. Exigir punição, exigir demarcação, respeito aos povos indígenas, aos territórios tradicionais, ao meio ambiente, à democracia. À dor que estamos sentindo. Difícil mensurar a aflição das famílias, amigos, colegas. Mais ainda a dos indígenas, que depositam ESPERANÇA na "aventura", ou "excursão", dos ativistas em defesa da Amazônia, 

Está cada vez mais difícil respirar nesse país, onde raposas foram colocadas para tomar conta de galinheiros. Um racista na Palmares, uma fundamentalista nos Direitos Humanos, um madeireiro na Funai, um latifundiário na Agricultura....

Não basta mais apenas chorar ou se revoltar com a confirmação das mortes. Que a repercussão internacional desse caso, por envolver um jornalista britânico, branco, representante de um dos mais importantes veículos de comunicação do mundo, não esmoreça. É o mínimo que podemos fazer, e exigir, para que Dom e Bruno não tenham perdido suas vidas em vão. Que, ao contrário, eles virem semente de um Brasil mais justo. Como a memória de Marielle Franco vem ajudando a semear a luta pela redemocratização do país.

#ForaBolsonaroGenocida

#domebrunopresentes

#MariellePresente


Comentários

  1. Isso, Monca. Emocionante. Eu faço parte dos que choram, e, mais que isso, estão indignados com essa tragédia, com mais um resultado de ações desse abominável desgoverno. Precisamos bradar, sim. Ir às ruas dizer um grande e intenso FORA para esse homem que não representa a população que quer justiça, respeito à democracia, aos direitos humanos. A Nação não merece tanto descalabro. As mortes de Bruno e Dom não pod m, não deve ficar impunes. Parabéns pelo texto. Bjos, comadre.

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    1. Valeu, Bel. É muito revoltante e a falta de ação está nos sufocando. Que a pressão internacional não pare

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  2. Quando o estado é omisso, o crime é organizado.

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  3. Falta pouco para essa corja miliciana perder boa parte do aparato de segurança que os protege e encobre.

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  4. Irmã, belo texto, pura verdade. Esse crime tem mandante e tem patrocinadores. O pior é que não temos polícia confiável no Brasil, toda ela é corrompida e sob o domínio do poder instituído.
    Precisamos fazer um forte movimento para que as investigações sejam acompanhadas por organismos internacionais

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    1. Exato, que pelo menos a repercussão pelo envolvimento de um jornalista estrangeiro, branco, force a responsabilização dos culpados

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  5. Texto sensível e emocionante. Parabéns! Me representa! ✊🏾

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  6. Muito verdadeiro Monica! Só não entendo esta letargia do povo brasileiro...Até quando vamos ficar assistindo sem uma reação nacional...Tod@s indignad@s, mas sem soltar o choro e o grito preso na garganta.

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  7. Valeu, Dora. Obrigada pela leitura do blog. Foi um desabafo, o desejo que esse assassinato não fique impune. A esperança é a repercussão internacional

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  8. É tudo muito revoltante. Você nos representa com esse maravilhoso texto, comadre; representa os que choram, os que estão indignados . Precisamos gritar pro mundo .#ForaBolsonaroGenocida

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    1. É estarrecedor testemunhar tanto descaso, e a revolta tem q ser coletiva. Valeu, Jo

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