Texto: Claudia Correia
Fui pela primeira vez ao Festival Internacional de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul, de 12 a 22 de agosto. Uma rica experiência em um festival renomado que alcança sua 54ª edição reunindo 44 filmes nas mostras competitivas entre curtas e longas metragens, documentários, e 96 produções no total, incluindo mostras especiais, abertura com hors concours e encerramento.
Um dos filmes que mais me impactou foi Pele de Rinocerante, primeiro longa-metragem ficcional de Marcello Ludwig Maia, com roteiro de Josefina Trotta, que se baseia no assassinato de Ângela Diniz por seu namorado Doca Street em 1976. Lembro que na época o crime teve grande repercussão midiática e o primeiro julgamento foi em 1979, condenando o réu para pena em liberdade. A tese do advogado do assassino alegou “legítima defesa da honra” culpando a vítima por ter um comportamento transgressor. Graças a pressão popular um novo julgamento em 1981 condenou o assassino a 15 anos de prisão e fortaleceu o movimento feminista, protagonista da campanha “Quem ama não mata”.
Não proponho aqui uma crítica cinematográfica, para a qual não tenho cacife para fazer com domínio técnico. São apenas as minhas impressões sobre o tema abordado na trama e os impactos da obra para a sociedade brasileira, que vivencia a escalada da violência contra nós mulheres.
O filme mostra as rotinas da jornalista Helena (Débora Falabella) e da advogada Maria Thereza (Naruna Costa), empenhadas na cobertura jornalística e na investigação judicial do crime, a partir de suas próprias vivências, em um contexto profissional e familiar machista e misógino. Naruma Costa ganhou o prêmio de melhor atriz coadjuvante e na apresentação do filme, dia 16 de agosto, ela denunciou os casos de feminicídio no Brasil, sendo aplaudida pela plateia.
As protagonistas revelam por caminhos distintos, suas estratégias para enfrentar o assédio moral e a violência sexual que sofrem nas suas relações cotidianas. O grande mérito do filme é provocar reflexões sobre a violência escondida em relações supostamente amorosas e como o julgamento moral das vítimas de feminicídio se naturalizou e permanece até hoje. Vendo os entraves profissionais de Helena no filme, lembrei da importante iniciativa da Associação Bahiana de Imprensa-ABI ao lançar em 2024 o Protocolo Antifeminicídio- Guia de Boas Práticas para a cobertura jornalística, que pode ser uma referência para o Jornalismo Brasileiro, orientando os profissionais na cobertura de crimes de violência de gênero e de feminicídio.
Cinquenta anos depois do assassinato de Ângela Diniz, ainda convivemos com altos índices de feminicídio no Brasil. Apesar do avanço na legislação brasileira, com a Lei Maria da Penha 11.340/06, a Lei do Feminicídio 13.104/15, e a Lei 14.994/24, que tornou o feminicídio crime autônomo, sujeito a pena de reclusão de 20 a 40 anos, temos muito a conquistar. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 1.571 casos de feminicídio em 2025, um aumento de 4% a 4,7% em relação a 2024, um recorde histórico desde 2015 quando o crime foi tipificado. Alguns desses casos atingem de forma mais dramática as mulheres negras, como Elitânia de Souza da Hora, assassinada em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, em 2019, pelo ex companheiro José Alexandre Silva que descumpriu medida protetiva de urgência.
É preciso utilizar as linguagens artísticas, e em especial a força que o cinema nacional conquistou ao longo de décadas, para ampliar nossa responsabilidade social frente à violência de gênero. Esse é o mérito do filme, causar incômodo frente à banalização diante da morte de mulheres, por motivos de ciúme, não aceitação de fim de relacionamento, sustentados pela herança do sistema patriarcal machista, culturalmente impregnado nas diversas dimensões da vida social.
Agora resta esperar março de 2027, mês do Dia Internacional da Mulher, para conferir nas salas de cinema do país Pele de rinoceronte e seguir no combate a todas as formas de violência de gênero.
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Claudia Patrícia Correia, assistente social, jornalista, Mestre em Planejamento Urbano e Regional, membro da Rede de enfrentamento à violência contra as mulheres de Salvador e da Comissão de mulheres do Sindicato de Jornalistas da Bahia/ SINJORBA

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