“Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça, tratava da roça na beira do rio. Quem tinha gado, tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos, tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar, ia rezar. De tudo se tratava, porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino.” (Honório Vilanova, sobrevivente da guerra).
Nós, historiadores, pesquisadores e estudiosos do movimento conselheirista e da Guerra de Canudos, bem como os defensores e/ou entusiastas dessa história, signatários desse Manifesto, na oportunidade em que se avizinham as rememorações dos 130 anos do final da guerra (1897-2027), vimos a público apresentar nosso firme posicionamento sobre a DÍVIDA que o Estado brasileiro tem para com o povo de Canudos e pleitear uma justa REPARAÇÃO HISTÓRICA pelos muitos danos provocados quando do conflito armado que conflagrou o Sertão da Bahia no final do século XIX, cujas consequências graves ainda hoje se fazem sentir.
A Guerra de Canudos foi um dos episódios mais marcantes da história das Américas. No ano de 1897, o Estado brasileiro, através do Exército, com o apoio das elites latifundiárias e da igreja, mobilizou mais de 12 mil soldados de 17 estados para destruir a comunidade liderada por Antonio Conselheiro em 1893, numa guerra perversa, que culminou com a morte de aproximadamente 20 mil homens, mulheres e crianças, muitas das quais degoladas, evisceradas e violentadas.
Nos anos que se seguiram a ação de “terra arrasada”, o cenário foi de fim de mundo no Sertão da Bahia. Mas, mesmo após o massacre e a onda de perseguições e assassinatos que se abateu sobre os sobreviventes, Canudos resistiu e, a partir de 1909 iniciou sua reconstrução nas mesmas terras que Antonio Conselheiro viveu com seu povo, na construção de uma comunidade justa e solidária, em que o uso da terra era comum e não havia opressão.
O tempo passou e em Canudos restava quase que somente a história, preservada na memória dos sobreviventes da guerra que escaparam nos últimos dias do conflito ou foram aprisionados e enviados para Salvador sob a proteção do Comitê Patriótico da Bahia, coordenado por Lélis Piedade.
Como se não bastasse ser destruída pelas bombas incendiárias e genocidas do Exército e testemunhar os sobreviventes sofrerem preconceitos e perseguições no longo pós-guerra, eis que em março de 1969, as águas do rio Vaza Barris represadas no Açude de Cocorobó, cobriram as terras sagradas onde um dia floresceu a comunidade conselheirista. Foi mais uma tentativa de apagar essa história, tão encantadora e tão digna, constantemente revivida nas lembranças de velhos moradores.
Contudo Canudos continuou resistindo e foi reconstruída mais uma vez, agora em terras vizinhas ao antigo arraial. Na atualidade, a permanência das desigualdades sociais agravadas pelo massacre perpetrado pelo Estado brasileiro é estrutural, constituindo-se em DÍVIDA a ser REPARADA, sem mais demora.
É pertinente lembrar que, logo após o final da guerra houve iniciativas de grandes latifundiários exigindo indenização por perdas e danos causados pelo Exército em suas propriedades. Eles foram atendidos e receberam vultosas somas. Mais do que justo, portanto, o povo de Canudos, que efetivamente viveu as piores dores e sofreu as maiores perdas, ter sua merecida REPARAÇÃO.
Por isso as iniciativas institucionais ora em curso, vindas de parlamentares e do executivo municipal de Canudos (processo n• 1007856-32.2025.4.01.3306 em tramitação), são merecedoras de nossa atenção.
Protagonista de uma das mais mobilizadoras histórias da aventura humana, o Sertão de Canudos precisa urgente de uma REPARAÇÃO HISTÓRICA, com medidas corretivas que, aplicadas de forma RESPONSÁVEL e ÉTICA, amenizem as consequências nefastas que a Guerra e todo o terror do Pós-Guerra provocaram em muitas gerações de moradores da região, filhos e netos de sobreviventes.
Fazer a REPARAÇÃO é promover CIDADANIA... é fazer JUSTIÇA SOCIAL!
Os 130 anos da trágica Guerra de Canudos certamente é uma data mais do que oportuna para se fazer, o que se faz necessário:
● Que o Estado brasileiro reconheça o GENOCÍDIO praticado no Sertão da Bahia, oficialmente peça PERDÃO ao povo de Canudos pelos crimes praticados pelo Exército e promulgue uma ANISTIA póstuma aos combatentes conselheiristas torturados e assassinados quando estavam prisioneiros;
● Que o Estado brasileiro efetivamente promova POLÍTICAS PÚBLICAS REPARADORAS de cunho estrutural, que corrijam as desigualdades sócio-históricas e atendam às necessidades coletivas do povo canudense. Que haja uma indenização pecuniária com os recursos direcionados EXCLUSIVAMENTE para aplicação na EDUCAÇÃO, SAÚDE, HABITAÇÃO, INFRAESTRUTURA SANITÁRIA e na implementação de políticas sustentáveis de PRESERVAÇÃO e EDUCAÇÃO AMBIENTAL. E que a utilização desses recursos, bem como sua fiscalização, seja de acordo com a legislação vigente;
● Que seja elaborada e aplicada uma política de construção histórica, com a criação de novos espaços e a qualificação dos já existentes, dedicados a preservação da Memória Histórica de Canudos, no passado e no presente, valorizando as criações artísticas, visuais, musicais e literárias genuinamente sertanejas;
● Que sejam criados em Canudos CENTROS DE MEMÓRIA E DOCUMENTAÇÃO da vasta e rica produção sobre o tema, se apresentando como referência nacional e internacional de saberes e ações, vitais para a história da comunidade conselheirista de Bello Monte;
● Que se instale uma Vara Judiciária local, agilizando as demandas da população e possa dar maior celeridade nos processos cíveis e criminais;
Hoje, nos 133 anos de fundação do Bello Monte/Canudos, são essas propostas que apresentamos e por elas lutamos.
Salvador, Bahia, Brasil, 12 de junho de 2026.




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