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Socorro Araújo: Dos encontros inusitados ou das magias da vida (7ª Flican)

 


Uma eu conheci numa redação de jornal de Salvador, recém-saída de uma faculdade de jornalismo. Tinha 19 anos.

A outra, num ônibus da São Luiz, eu indo pra Canudos e ela pra zona rural de Euclides da Cunha, onde vive a família. Tinha 16 anos. Na época, o que nos aproximou naquele ônibus que quebrava o tempo todo foi o artesanato que ela fazia com coisas que achava na natureza. Ainda tenho um brinco com sementes de açaí e abóbora. Amo!

Muitos anos depois, encontro as duas, que nunca tinham se visto, mas já viraram melhores companheiras, numa feira, ou festa, literária da minha terra.
Melissa, a Mel do Cumbe, com seus alunos de Teatro apresentando um espetáculo baseado em Macabéa, Flor de Mulungu, que emocionou a autora do livro, que estava no evento.

Midiã Noelle fazendo uma palestra sobre seu livro Comunicação Antirracista.
(Pausa pra contar que a palestra foi interrompida por um grupo de trazia Conceição Evaristo pra ver uma exposição de fotos no auditório. Conceição ganhou o livro autografado e, além do abraço emocionado da autora, ouviu que uma organização de combate ao racismo que ela preside, o Instituto Commbne, tem o nome inspirado na célebre frase de um dos livros de Conceição: "Combinaram de nos matar. A gente combinamos de não morrer".)

É claro que durante esse tempo eu tenho acompanhado de longe a trajetória dessas meninas. A Mel cantora, atriz, educadora e tantas coisas mais. A Midiã ativista, palestrante, escritora... São famosas, premiadas, citadas aqui e ali por pessoas que respeito.

O inusitado foi encontrar com as duas num mesmo momento, sem que estivessem na programação inicial da feira. E num momento especial que reunia representantes de duas lideranças culturais fundamentais: Conceição Evaristo e Daniel Munduruku. Debaixo de uma mesma tenda onde conselheiristas homenageavam seus antepassados e cobravam do Estado brasileiro reparação pela guerra de Canudos.
Ainda impactada com a fala do Munduruku, acho que a luz e o ativismo dessas meninas, esses encontros, esses acasos tão mágicos, tudo isso é parte desse movimento pra antecipar o fim do mundo.
Não dá pra ver direito o que tá escrito na minha camiseta, mas faz parte disso tudo:
Viva Antônio Conselheiro!
Viva Lula!

Debaixo da lona de um circo, na Feira Literária de Canudos, a escritora Conceição Evaristo termina a sua palestra e fica no palco pra acompanhar a fala do seu colega de ofício Daniel Munduruku.
No final de uma manhã de ensinamentos pra todos nós, um momento de pura poesia: Ela pede pra que ele a chame de parente e ele chama a grande deusa de Nossa Senhora da Conceição Evaristo.
"Dia único, importante, sagrado. Porque só acontece hoje".
Salve Daniel!
Salve Conceição!
Mais fortes são os poderes do povo!
Viva Conselheiro!



Ainda na 7ª Feira Literária de Canudos, destaque para a apresentação, pelo cineasta Antônio Olavo (@antonio.olavo.1798), do Manifesto pela Reparação Histórica ao Povo de Canudos, que será lançado nacionalmente dia 8 de outubro.

O documento, que conta com a adesão de muitos intelectuais, artistas, jornalistas, cineastas, escritores, professores e políticos, transforma memória em compromisso e reivindica "justiça para aqueles que sofreram as dores e os danos da Guerra de Canudos"

MANIFESTO À NAÇÃO BRASILEIRA:   500 VOZES PELA REPARAÇÃO HISTÓRICA AO POVO DE CANUDOS!

“Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça, tratava da roça na beira do rio. Quem tinha gado, tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos, tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de rezar, ia rezar. De tudo se tratava, porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino.” (Honório Vilanova, sobrevivente da guerra).

Nós, historiadores, pesquisadores e estudiosos do movimento conselheirista e da Guerra de Canudos, bem como os defensores e/ou entusiastas dessa história,  signatários desse Manifesto,  na oportunidade em que se avizinham as rememorações dos 130 anos do final da guerra (1897-2027), vimos a público apresentar nosso firme posicionamento sobre a DÍVIDA que o Estado brasileiro tem para com o povo de Canudos e pleitear uma justa REPARAÇÃO HISTÓRICA pelos muitos danos provocados quando do conflito armado que conflagrou o Sertão da Bahia no final do século XIX, cujas consequências graves ainda hoje se fazem sentir. 

A Guerra de Canudos foi um dos episódios mais marcantes da história das Américas. No ano de 1897, o Estado brasileiro, através do Exército, com o apoio das elites latifundiárias e da igreja, mobilizou mais de 12 mil soldados de 17 estados para destruir a comunidade liderada por Antonio Conselheiro em 1893, numa guerra perversa, que culminou com a morte de aproximadamente 20 mil homens, mulheres e crianças, muitas das quais degoladas, evisceradas e violentadas. 

Nos anos que se seguiram a ação de “terra arrasada”, o cenário foi de fim de mundo no Sertão da Bahia. Mas, mesmo após o massacre e a onda de perseguições e assassinatos que se abateu sobre os sobreviventes, Canudos resistiu e, a partir de 1909 iniciou sua reconstrução nas mesmas terras que Antonio Conselheiro viveu com seu povo, na construção de uma comunidade justa e solidária, em que o uso da terra era comum e não havia opressão.

O tempo passou e em Canudos restava quase que somente a história, preservada na memória dos sobreviventes da guerra que escaparam nos últimos dias do conflito ou foram aprisionados e enviados para Salvador sob a proteção do Comitê Patriótico da Bahia, coordenado por Lélis Piedade. 

Como se não bastasse ser destruída pelas bombas incendiárias e genocidas do Exército e testemunhar os sobreviventes sofrerem preconceitos e perseguições no longo pós-guerra, eis que em março de 1969, as águas do rio Vaza Barris represadas no Açude de Cocorobó, cobriram as terras sagradas onde um dia floresceu a comunidade conselheirista. Foi mais uma tentativa de apagar essa história, tão encantadora e tão digna, constantemente revivida nas lembranças de velhos moradores.

Contudo Canudos continuou resistindo e foi reconstruída mais uma vez, agora em terras vizinhas ao antigo arraial. Na atualidade, a permanência das desigualdades sociais agravadas pelo massacre perpetrado pelo Estado brasileiro é estrutural, constituindo-se em DÍVIDA a ser REPARADA, sem mais demora.

É pertinente lembrar que, logo após o final da guerra houve iniciativas de grandes latifundiários exigindo indenização por perdas e danos causados pelo Exército em suas propriedades. Eles foram atendidos e receberam vultosas somas. Mais do que justo, portanto, o povo de Canudos, que efetivamente viveu as piores dores e sofreu as maiores perdas, ter sua merecida REPARAÇÃO

Por isso as iniciativas institucionais ora em curso, vindas de parlamentares e do executivo municipal de Canudos (processo n• 1007856-32.2025.4.01.3306 em tramitação), são merecedoras de nossa atenção. 

Protagonista de uma das mais mobilizadoras histórias da aventura humana, o Sertão de Canudos precisa urgente de uma REPARAÇÃO HISTÓRICA, com medidas corretivas que, aplicadas de forma RESPONSÁVEL e ÉTICA, amenizem as consequências nefastas que a Guerra e todo o terror do Pós-Guerra provocaram em muitas gerações de moradores da região, filhos e netos de sobreviventes.

Fazer a REPARAÇÃO é promover CIDADANIA... é fazer JUSTIÇA SOCIAL!

Os 130 anos da trágica Guerra de Canudos certamente é uma data mais do que oportuna para se fazer, o que se faz necessário:

● Que o Estado brasileiro reconheça o GENOCÍDIO praticado no Sertão da Bahia, oficialmente peça PERDÃO ao povo de Canudos pelos crimes praticados pelo Exército e promulgue uma ANISTIA póstuma aos combatentes conselheiristas torturados e assassinados quando estavam prisioneiros;

● Que o Estado brasileiro efetivamente promova POLÍTICAS PÚBLICAS REPARADORAS de cunho estrutural, que corrijam as desigualdades sócio-históricas e atendam às necessidades coletivas do povo canudense. Que haja uma indenização pecuniária com os recursos direcionados EXCLUSIVAMENTE para aplicação na EDUCAÇÃO, SAÚDE, HABITAÇÃO, INFRAESTRUTURA SANITÁRIA e na implementação de políticas sustentáveis de PRESERVAÇÃO e EDUCAÇÃO AMBIENTAL. E que a utilização desses recursos, bem como sua fiscalização, seja de acordo com a legislação vigente;

● Que seja elaborada e aplicada uma política de construção histórica, com a criação de novos espaços e a qualificação dos já existentes, dedicados a preservação da Memória Histórica de Canudos, no passado e no presente, valorizando as criações artísticas, visuais, musicais e literárias genuinamente sertanejas;

● Que sejam criados em Canudos CENTROS DE MEMÓRIA E DOCUMENTAÇÃO da vasta e rica produção sobre o tema, se apresentando como referência nacional e internacional de saberes e ações, vitais para a história da comunidade conselheirista de Bello Monte;

● Que se instale uma Vara Judiciária local, agilizando as demandas da população e possa dar maior celeridade nos processos cíveis e criminais;

Hoje, nos 133 anos de fundação do Bello Monte/Canudos, são essas propostas que apresentamos e por elas lutamos.

Salvador, Bahia, Brasil, 12 de junho de 2026.



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