Jaciara Santos é jornalista, diretora da ABI-BA e do SinjorbaMeu pai era operário da
Petrobras. Depois do golpe, viu colegas de trabalho serem perseguidos e perdeu
amigos — alguns afastados, outros separados pela desconfiança. A empresa, como
documentou décadas depois a Comissão Nacional da Verdade, tornou-se um dos
espaços de vigilância e repressão do novo regime: entre abril e outubro de
1964, foram instaurados cerca de 1.500 processos de investigação de
funcionários, e 516 trabalhadores foram demitidos.
Não havia discussões políticas em
casa. Os efeitos do golpe, entretanto, chegaram ao nosso cotidiano. Vieram os
apertos financeiros. O salário de meu pai, acrescido de algumas gratificações,
nos proporcionava uma vida confortável. Depois da intervenção militar, houve
cortes e ajustes. Lembro de meus pais conversando sobre a necessidade de
reduzir gastos porque, diziam eles, “a revolução” havia mexido na remuneração
dos petroleiros.
Não tenho hoje um documento que me
permita dizer exatamente qual parcela dos ganhos de meu pai foi reduzida. Mas
sei que a sensação de aperto que marcou minha infância não nasceu do nada.
Foi um choque. Mudamos de bairro.
Saímos de uma casa arrumadinha, de frente de rua, no IAPI, para uma tapera em
ruínas, numa rua sem calçamento e com esgoto a céu aberto, na Capelinha de São
Caetano. A insegurança rondava a família. Meu pai temia o desemprego e
procurava garantir ao menos um teto para acomodar a filharada — entre 1964 e
1967, a prole dobrou: éramos três; passamos a ser seis.
Foram anos difíceis. Eu não
acompanhava a política, mas sentia seus efeitos. Passei pelo ensino médio sem
qualquer militância. Cheguei à universidade ainda sem engajamento político, mas
já consciente de que alguma coisa muito grave acontecia no país.
Em 1978, quando comecei a
trabalhar no Jornal da Bahia, comecei também a compreender o que, até então, eu
só havia vivido. A palavra que ouvira desde criança — “revolução” — ganhou
outro nome: golpe. E o jornalismo me revelou aquilo que a menina de oito anos
não tinha como saber: o cerceamento das liberdades, a repressão, as prisões, a
tortura, os mortos e desaparecidos.
Foram mais de 20 anos até que
aquela longa noite começasse a terminar. A redemocratização devolveu ao país
direitos e liberdades que haviam sido suspensos, e a Constituição de 1988
consolidou a nova ordem democrática. Promulgada em 5 de outubro daquele ano, a
Carta definiu o Brasil como Estado Democrático de Direito e estabeleceu, entre
seus fundamentos, a soberania e a cidadania.
Mais de seis décadas depois, olho
para o Brasil e reconheço sinais que me inquietam. Não porque a história se
repita exatamente — ela nunca se repete —, mas porque a democracia não é uma
conquista que possa ser tratada como definitiva.
Quando a noite caiu sobre o país, eu tinha oito anos. Hoje, aos 71, tenho uma neta de nove anos — praticamente a idade que eu tinha quando tudo começou.
“É por ela, pelos meus outros três netos, por minha filha, por meu filho, por sobrinhos e sobrinhas que sinto o coração apertado diante do cenário que vivemos.
Eu sei o que significa crescer
sem compreender inteiramente o que acontece ao redor e, ainda assim, perceber
que alguma coisa mudou dentro de casa.
Foram 21 anos de ditadura. Minha
geração atravessou aquela noite para recuperar a democracia. Não quero que meus
filhos e netos precisem descobrir, como eu descobri, o preço de perdê-la.

Muito emocionante não vivi essa época mas acredito que foi muito difícil ❤️❤️
ResponderExcluirObrigada. Vamos torcer para que você não precise passar pelo que a minha geração passou.
ExcluirVerdade, nem pensar em ver nossos filhos e netos passarem o que passamos. Nunca mais. É #LULA13
ExcluirLula é a única opção para barrar o obscurantismo que nos ameaça
ExcluirSem comentários, de tão bom, emocionante e atual que é o seu artigo/reflexão, amiga. Parabéns, e que possamos, na tarde noite do próximo domingo (4/10), gritar bem alto e com o coração pleno de alegria: Lula foi eleito, a democracia continua vencendo. #Ditadura Nunca Mais. Bjos
ResponderExcluirValeu, Bel. Ditadura nunca mais!
ExcluirIrmano-me nas suas preocupações , pois vivemos tudo isso, nossos pais eram colegas. O nosso tempo foi quase o mesmo. Mas aí trabalhar, vivi outras circunstâncias que me sufocavam, mas felizmente, dentro de mim e na minha mente, sempre tive o discernimento de separar o trabalho da vida real.
ResponderExcluirMinhas preocupações hoje, são as suas, minha amiga.
Benilda Amorim
Isso! Temos uma história: nossos pais eram petroleiros, moramos na Capelinha, estamos no Pinto de Carvalho e vivemos os anos de chumbo juntas. Sabemos que não queremos isso para nossos netos e filhos.
ExcluirEstudamos no Pinto de Carvalho (o teclado me pegou rs rs)
ExcluirFico até sem comentários, não consigo imaginar viver em uma era sem democracia, é uma realidade tão distante, mas ao mesmo tempo tão possível. Não vejo a hora de passar o dia 04 e conseguir deitar tranquilo de que a democracia não está ameaçada. É como se tudo estivesse por um fio. Amei o texto, a sensibilidade e a imersão em um passado tão difícil. Como dizia Chico Buarque: "Apesar de você (Bolsonarismo), amanhã há de ser outro dia". Parabéns! Te amo ❤️✨
ResponderExcluirIsso, Caio, precisamos lutar contra o retrocesso. Chame seus amigos, vocês jovens têm a responsabilidade de cerrar fileiras contra o fascismo. Te amo também ❤️
ExcluirEm,1964,Eu,tinha 1ano dei idade.
ResponderExcluirCom um ano, não dava pra entender aquele momento, mas cresceu sob a ditadura e viu a democracia florescer, não é?
ExcluirTb vivi esse trágico momento, com 5 anos à frente de vc e de B. Eu tinha 13 anos, véspera de 14 (completaria em julho), quando o Brasil foi assaltado. Eu cursava a 1ª série de ginásio no ICEIA e já fui pra rua, apanhar da polícia, por já não concordar concordar com o rompimento da nossa soberania. Agora, depois de outro assalto (2019 a 2023), o temor volta a nos assaltar... Mas somos de uma geração de luta e, tal qual preconizou nosso Presidente, contaremos com o protagonismo e rebeldia da nossa juventude. Seremos salvos mais uma vez!
ResponderExcluirZezão Pereira
Confesso que estou muito preocupada. Parece que estamos vivendo em um mundo paralelo. Imaginar um estadista disputando (sim, disputando!) votos com um desqualificado como o opositor é surreal. Mas a luz vencerá as trevas. Não podemos retroceder. Vamos em frente.
ExcluirExcelente resgate ! Excelente texto ( desculpem a redundância) .Jaciara tem texto primoroso .Por ser bem mais velha que você ,Jaci ,em 1964 eu estava com 14 anos .Senti de perto o terror.Meu tio Mário Lima ,foi cassado ,preso e torturado.Não posso esquecer a dor da minha saudosa avó e de toda a família .
ResponderExcluirEm 1977,ao ingressar no Jornal da Bahia,ainda vivíamos os anos duros da ditadura ,culminando com o fechamento do Congresso .
Lutemos pela democracia .Hoje,amanhã e sempre !
Seu texto tem a potencia, Jaciara, de nos transportar a histórias vividas - e nem sabidas ou registradas- num tempo longo, de desafios insanos. Nasci em novembro de 1960. E, ainda criança, pré adolescente, através do Cinema, levado por ele e filhos mais velhos, como eu, Sertão adentro, o acesso à arte abriu portas aos entornos da dureza da vida. Aos 14, 15 anos, em plena ditadura, como estudante de Colégio Público, senti na pele as consequências de perseguição e violência psicológica, pela diretora do colégio, Olga Menezes. Fui colocada de castigo, com o rosto colado na parede da pilastra, sem poder me mexer, de onde toda o colégio, em arquitetura arredonda, podia me ver. O que fiz? Participar, de forma ativa, de manifestações culturais como teatro (fiz o papel do anjo que salvava o capitão da areia - de Jorge Amado).Cantava como soprano, num coral, músicas como " Construção" , de Chico Buarque. Levava para a escola, em leituras com os colegas, livros de Bakunin, Simone de Beauvoir, Kafka.
ResponderExcluirMeu pai, Sabino Ferreira Peixinho, como candidato a prefeito de uma cidade chamada Pindobaçu, sofrera, no calado, as consequências de perseguições políticas, veladas, onde até "defunto votou". A imprensa não notíciava crimes assim. E o silêncio, conivente, sufocava a vida. Que possamos alardear a necessidade, histórica, de um Brasil justo, civilizado, limpo. . obrigada por seu relato.