segunda-feira, 27 de agosto de 2018

ABL escolhe na quinta o próximo imortal da cadeira 7

Nesta quinta, dia 30, às 16 horas, a Academia Brasileira de Letras irá escolher a próxima pessoa a ocupar a cadeira de número 7. A escritora Conceição Evaristo, que representa o grito de resistência em sua literatura cheia de afeto, é forte candidata, concorrendo com outros 11 nomes. Seu nome ganhou mais força com uma campanha lançada nas redes sociais pedindo a sua inclusão na ABL. Ela foi recentemente  homenageada pela Feira Literária de Mucugê-Fligê, que também lançou manifesto de apoio à sua candidatura

Sendo uma das instituições nacionais com sérios problemas de representatividade, chegou o momento da ABL começar a reparar essa grave lacuna. Em  seus 120 anos de existência, contou com apenas oito mulheres em suas cadeiras: Rachel de Queiroz, Diná Silveira de Queirós, Ana Maria Machado, Cleonice Berardinelli, Rosiska Darcy de Oliveira, Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai, Nélida Piñon. Dessas, nenhuma negra.

Se eleita, Conceição Evaristo será a 9ª mulher e a primeira  negra a integrar a ABL. A cadeira de número 7 era ocupada pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, falecido em abril deste ano, e tem como patrono o baiano Castro Alves. 

Nascida numa favela da zona sul de Belo Horizonte, Conceição é hoje uma das principais expoentes da literatura brasileira e afro-brasileira. Publicou seu primeiro poema em 1990, no décimo terceiro volume dos Cadernos Negros. Desde então, publicou diversos poemas e contos nos Cadernos, além de uma coletânea de poemas e dois romances.

Sua obra traz profundas reflexões acerca das questões de raça e de gênero, com o objetivo claro de revelar a desigualdade velada em nossa sociedade, de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e sua potencialidade de ação.

É autora, entre outras, de Ponciá Vicêncio (2003), de Becos da memória (2006), Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) e Olhos d’água (2014), com o qual conquistou o Prêmio Jabuti.



quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Fligê se consolida entre os principais eventos literários da Bahia


Texto de Ailton Fernandes

A Chapada Diamantina esteve dedicada à arte literária durante intensos quatro dias, na cidade de Mucugê. De 16 a 19 de agosto, a cidade celebrou a palavra em suas diversas formas durante a Feira Literária de Mucugê, evento realizado pelo Instituto Conquistense de Inclusão Social e o Estado da Bahia, com o patrocínio do Governo Federal.


Homenageando a escritora mineira Conceição Evaristo, a terceira edição da feira teve como tema Literatura e resistência: a vida nos rastros da palavra. “A definição do tema e a homenagem desta edição muito se deve a necessidade de revelar a ausência das escritoras negras no mercado editorial, bem como a necessidade de que essas mulheres escritoras encontram de criar seus próprios canais de divulgação de sua arte, sua escrita e seu lugar de produção cultural. Conceição Evaristo, nossa homenageada, é uma síntese desse momento”, explicou a curadora Ester Figueiredo.

Presente da cerimônia de abertura até o último dia da Fligê, a escritora Conceição Evaristo se encontrou com outras escritoras, pesquisadores da sua obra, com artistas e, principalmente, interagiu com a comunidade de Mucugê, retribuindo as homenagens. “Cada homenagem que eu recebo de literatura, confirma que tudo vale a pena. A literatura é um produto cultural que tem que pertencer a todos. Este evento é um dos pontos altos de democratização da leitura, da escrita. Por isso defendo essa ideia de que a leitura e a escrita devem ser bens culturais pertencentes a todas as pessoas”, destacou.

A partir de Conceição Evaristo, a Fligê colocou como protagonistas outras mulheres negras e escritoras, o seu lugar de fala, o pertencimento feminino e as suas produções literárias. Mulheres que escrevem e publicam, mas que não encontram lugar nas prateleiras das livrarias e dependem de espaços como a Fligê para difundir sua escrita. “A mulher que cria, a mulher que insiste, a mulher que é palavra, que absorve e que enfrenta o que deve ser enfrentado, indo contra outras forças da sociedade. Durante a Fligê, nós circulamos afetos, uma produção de afetos que se revelou em conhecimento literário e em sabedoria, porque a literatura não está apenas na academia, está em todos os becos de memória”, disse a professora Ester, fazendo referência ao livro de Conceição.

“As feiras literárias fortalecem a nossa identidade, a política de cultura e de educação, faz com que a gente circule com os autores, a juventude se aproxima mais da literatura, da memória e da história”, resumiu a secretária Estadual de Cultura, Arany Santana. “A Fligê já se consolidou, é uma das feiras mais importantes desse território e ela se firma aqui pela qualidade que ela oferece”, declarou.



A cada edição, a feira traz na sua concepção uma ação educativa que envolve as escolas públicas da cidade, mobiliza professores, diretores e alunos da rede de ensino com o objetivo de promover e incentivar a leitura, além de romper as barreiras e proporcionar o encontro das artes com a literatura. Música, cinema, artes plásticas, teatro, folclore e as tradições da cultura popular se conectam, criando espaços de diálogo e de formação para todas as idades.

“Nos sentimos honrados e felizes, porque também nos sentimos homenageados de uma certa forma pela Fligê, além de ter os escritores e a literatura tão aflorada em nossa cidade. É de uma alegria imensa ter nossos alunos envolvidos, é recompensador”, comemora a professora Maria Aparecida Novaes. “Esse evento é de uma importância muito grande para a população de Mucugê”, completa a colega Virgínia Oliveira.

Os estudantes de Mucugê se envolveram com a Fligê antes dela começar, por meio do projeto pedagógico da feira. O Elixir da história provocou os estudantes da rede pública e particular a produzirem vídeos, com seus aparelhos de celular, contando histórias da cidade e dos seus personagens, com o objetivo de resgatar a memória mucugeense e lançá-la no mundo através da internet. O resultado: 56 vídeos produzidos, contando as mais diversas histórias.



CONVIDADOS – Nomes como Chico César, Rita Benneditto, Ana de Hollanda, Elisa Lucinda, Chico Brown e Jean Wyllys integraram a programação. “Uma feira de livros no sertão da Bahia é algo fantástico, fico muito feliz em sentir a vibração da energia, da cultura, da arte, da literatura, da música aqui nesse lugar. Essa fogueira que a gente está acendendo aqui com a Fligê não vai se apagar”, declarou a cantora Rita Benneditto.

“Eu fico muito comovido e entusiasmado com um encontro de literatura no interior do Nordeste, que não busca os grandes êxitos comerciais da literatura, mas que busca aqueles lugares do questionamento, da discussão que a literatura traz”, disse o cantor e compositor Chico César, que apresentou o show Estado de Poesia.

Para o jornalista e escritor Jean Wyllys, a Fligê está de parabéns, pela coragem e pelo engajamento da feira. “Para o momento que vivenciamos no Brasil, é necessário resistência e a Fligê convoca e nos convocou a resistir, decidiu convocar a própria literatura a resistir como gênero, como expressão artística, a nos ajudar a resistir politicamente”, considerou.
Ao longo da Fligê, cinco editoras baianas apresentaram os seus catálogos e comerciaram as suas publicações. Entre elas a editora da Assembleia Legislativa da Bahia, que distribuiu mais de seis mil livros e lançou o primeiro do Selo Fligê, Composições entre sertões e chapadas, reunião de artigos escritos após a edição de 2017.

Participaram da terceira edição da Fligê quase 50 escritoras e escritores, foram lançados 40 livros e um público de mais de 10 mil pessoas prestigiou os eventos da programação, que se dividia em espaços dedicados às crianças, ao cinema, à poesia e também alcançou a vila de Igatu, distrito de Andaraí. Nos quatro dias, pessoas de 42 municípios baianos passaram por Mucugê, além de outros estados.

A partir de Conceição Evaristo, a Fligê colocou como protagonistas outras mulheres negras e escritoras, o seu lugar de fala, o pertencimento feminino e as suas produções literárias. Mulheres que escrevem e publicam, mas que não encontram lugar nas prateleiras das livrarias e dependem de espaços como a Fligê para difundir sua escrita. “A mulher que cria, a mulher que insiste, a mulher que é palavra, que absorve e que enfrenta o que deve ser enfrentado, indo contra outras forças da sociedade. Durante a Fligê, nós circulamos afetos, uma produção de afetos que se revelou em conhecimento literário e em sabedoria, porque a literatura não está apenas na academia, está em todos os becos de memória”, disse a professora Ester, fazendo referência ao livro de Conceição.

CONVIDADOS – Nomes como Chico César, Rita Benneditto, Ana de Hollanda, Elisa Lucinda, Chico Brown e Jean Wyllys integraram a programação. “Uma feira de livros no sertão da Bahia é algo fantástico, fico muito feliz em sentir a vibração da energia, da cultura, da arte, da literatura, da música aqui nesse lugar. Essa fogueira que a gente está acendendo aqui com a Fligê não vai se apagar”, declarou a cantora Rita Benneditto.

LIVROS – Ao longo da Fligê, cinco editoras baianas apresentaram os seus catálogos e comerciaram as suas publicações. Entre elas a editora da Assembleia Legislativa da Bahia, que distribuiu mais de seis mil livros e lançou o primeiro do Selo Fligê, Composições entre sertões e chapadas, reunião de artigos escritos após a edição de 2017.


Participaram da terceira edição da Fligê quase 50 escritoras e escritores, foram lançados 40 livros e um público de mais de 10 mil pessoas prestigiou os eventos da programação, que se dividia em espaços dedicados às crianças, ao cinema, à poesia e também alcançou a vila de Igatu, distrito de Andaraí. Nos quatro dias, pessoas de 42 municípios baianos passaram por Mucugê, além de outros estados.



Na Fligêzinha, as crianças tiveram a oportunidade de encontrar e conversar com escritores como Lilia Gramacho e Maurício Meirelles, além de uma escritora também criança, Domenik Suelle. Com participação da escola conquistense de teatro CazAzul, o espaço teve brincadeiras, contação de histórias e espetáculo teatral. No espaço da sétima arte, a FligêCine colocou em cartaz o empoderamento feminino, até mesmo nos filmes infantis, dialogando com o tema da feira e trazendo à reflexão o papel da mulher na sociedade.

Em Igatu, a Galeria Arte & Memória foi palco para mais encontros. Conceição Evaristo, Jean Wyllys, Lívia Natália e Elisa Lucinda participaram de bate-papo com o público e levaram até a vila o protagonismo da mulher e a escrita negra. Duas instalações artísticas se relacionavam com a temática da Fligê e com a homenagem a Conceição, O silêncio das bombas e Qual a cor da sua labuta? Esta última, emocionou a escritora mineira, que recordou da sua infância, ao lado da mãe e dos irmãos.

“A Fligê tem contribuído para aquecer a economia, mas, sobretudo, a gente toma um banho de sabedoria porque podemos desfrutar de pessoas com alto nível intelectual, escritores renomados no Brasil inteiro e isso traz muita cultura e educação para o município”, ressaltou o prefeito da cidade, Cláudio Manuel Luz.

Com a palavra pulsando em Mucugê, desde 2016, os resultados começam a ser colhidos na cidade. “Minha filha de 9 anos, depois da primeira edição da Fligê, teve a vontade de escrever um livro, isso é fruto da feira, que além de nos enriquecer em conhecimento, nos dá a oportunidade do encontro, de conhecer várias pessoas, escritores, artistas”, conta a professora Joseni Rebouças.
  
No ato de encerramento, foi lido o manifesto que expressou o desejo de todos os participantes da terceira edição da Fligê: “Conceição Evaristo é uma escrita que rompe estereótipos e sua entrada na ABL é um gesto de reparação com a literatura pela qualidade da sua escrita. Neste manifesto, queremos reafirmar a importância de ter Conceição como a primeira escritora negra a ocupar uma cadeira na ABL”.


Texto de Ailton Fernandes publicado no site da Fligê
Fotos: Lari Carinhanha e Vinícius Brito


MAIS FOTOS




Autógrafo de Emiliano José 

A escritora Cristiane Sobral  autografando


QG da imprensa





O carinho da escritora Lívia Natália com a leitora




Franciel Cruz e Núbia Rodrigues no Coreto Literário


Elisa Lucinda autografando






Fotos: do meu celular e de Tâmara e das lentes de  Lari Carinhanha e Vinícius Brito



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Pôsteres de Billy Mariano ironizam candidatos

Usando de ironia e humor, o artista curitibano Billy Mariano, reconhecido internacionalmente e contratado da Netiflix, como também de outros famosos de Hollywood, criou pôsteres para os seis principais candidatos à presidência: Luis Inácio Lula da Silva, Jair Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes, Cabo Daciolo e Geraldo Alckmin. Veja imagens com comentários do criador.


  
                    Bom, primeiro porque ele é         
          muito parecido com o Papai Smurf – 
          e já que ele é o “líder supremo
          e incontestável” de toda a tribo, 
          achei que combinava bem.

        Ciro Gomes não poderia ter 
      outra referência que não a dos
      Ursinhos Carinhosos. Isso, 
      claro, por conta da acusação de
      ser fundador da URSAL – e de
      todos os memes que surgiram 
      a partir disso.
                Eu misturei ele com
               RuPaul’s Drag Race
              (um reality show sobre drag
              queens). É um a referência
              à posição dele em relação
              aos assuntos de ideologia
              de gênero, homossexualidade, etc.
  

Marina é muito religiosa, e

  é acusada pelos adversários de,
 em alguns momentos esconder
 isso – mas em outros reforçar
 essa ideia. Achei que seria
 interessante relacionar ela 
com bandas de hard rock de
 temática ocultista, como
 Black Sabbath e Judas Priest.

Eu quis referenciar a crise da água
de SP [de 2015], em que ele esteve
 diretamente envolvido. Além disso,
 depois é que percebi que o
 sobrenome dele era até parecido
 com Aquaman.

O Cabo Daciolo tem esse combo mortal
 de religião e militarismo. Por conta 
desse extremismo eu queria usar 
algum personagem brucutu do cinema 
dos anos 80, do tipo que atira
 primeiro e pergunta depois.
Acabei escolhendo o Exterminador 
(do Futuro),mas poderia ser o Cobra,
 ou o Rambo: qualquer um se encaixaria
 bem – contanto que tivesse uma arma
 em formato de cruz.


sábado, 11 de agosto de 2018

Canto de liberdade para Lula ressoa no Shopping Barra


Um "trompetaço" tocando jingles de campanhas anteriores do ex-presidente Lula agitou o início da tarde deste sábado no  Shopping Barra, um dos locais mais amados "dazelite" . Ao som do trompete, clientes cantaram  e gritaram palavras de ordem pedindo a liberdade do candidato preso político que lidera as pesquisas eleitorais para a Presidência da República. Trabalhadores das lojas também se uniram ao inusitado protesto.


   

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

RODEIOS, FLOREIOS, PERÍFRASES & ANTONOMÁSIAS

Foto de capa da página de Eduardo Affonso

Teve época em que a expressão "sul maravilha" nas páginas de Cultura dos jornais para se referir ao que vinha e/ou se produzia no eixo Rio/São Paulo chegava enjoar o leitor. E a "festa de Momo" para não dizer de novo Carnaval no texto? Escrever evitando repetir as palavras é um exercício que acaba nos levando a rodeios e floreios hilários, para não dizer engraçados. Os tempos são outros, as perífrases mudaram  e o "astro-rei" agora não é o sol, como se dizia, mas o Cristiano Ronaldo, de acordo com a atualização de Eduardo Affonso,  no texto que reproduzimos da sua página no FaceBook.

RODEIOS, FLOREIOS, PERÍFRASES & ANTONOMÁSIAS

Uma das regras básicas para escrever bonito era não repetir palavras, substituindo-as por sinônimos ou expressões equivalentes.
Se o assunto fosse água, “água” mesmo só aparecia no primeiro parágrafo. A partir daí, era um tal de precioso líquido para cá, H2O para lá, até que a palavra “água” se tivesse diluído na memória e pudesse voltar à tona.

O sol virava astro-rei em questão de segundos. Mulher deixava o feminino para ser o sexo frágil, o belo sexo, ou, se o assunto rendesse, até voltava a sê-lo, mas como filha de Eva e rainha do lar.
***
No país do futebol, o esporte bretão se tornou campo fértil para esses rodeios e firulas. Antes mesmo que a pátria de chuteiras (que também atende por escrete canarinho) adentrasse o gramado, este já tinha virado “tapete verde” ou “tapete esmeraldino”. E por que desperdiçar as possibilidades sonoras e cromáticas de chamar os times de alvinegro, rubro-negro, cruzmaltino – ainda mais se estiverem em campo o anjo das pernas tortas, o canhotinha de ouro, o galinho de Quintino?
***
O Carnaval nem precisava ser animado ou o Natal estar chegando: não havia como escapar do “tríduo momesco” e da “festa máxima da cristandade”.
Escrever assim, usando perífrases (“perífrase” é falar andando em círculos, arrodeando) ou antonomásias (que é trocar seis por meia dúzia), era a consagração do circunlóquio – uma forma de enrolêichon que, de tão usada, também passou a atender por clichê.
***
Paris não brilharia tanto se não nos lembrassem, exaustivamente, que era a Cidade Luz - rival da Cidade Eterna e, em sua época de ouro, da Cidade Maravilhosa (a terra da garoa nunca chegou nem perto). E não há registro de um único texto sobre Carmen Miranda que não a mencione como “a pequena notável”.
Os incêndios eram combatidos pelos nobres soldados do fogo, às vezes auxiliados pelo melhor amigo do homem - usando, claro, o precioso líquido. E assim íamos ganhando ponto nas redações, e os jornalistas, enchendo linguiça e emperiquitando a última flor do Lácio, também conhecida – mas só no início do texto – como língua portuguesa.
***
Chegou-se a um ponto em que já não se sabia ao certo se o leão era só o rei dos animais ou se disputava com Tarzan o posto de rei das selvas, ou se a ternurinha é que era a namoradinha do Brasil, tamanha a necessidade de escrever com a eloquência do poeta dos escravos, a erudição do águia de Haia e a maestria do bruxo do Cosme Velho.
***
As perífrases mudaram muito desde aqueles tempos. Sexo frágil agora é o masculino. Astro-rei é o Cristiano Ronaldo. Pequena notável é a Bélgica. O tríduo dura, na terra do Senhor do Bonfim, uma semana inteira. O melhor amigo do homem é o cartão de crédito. E antigamente até podia ser a água, mas hoje precioso líquido mesmo é a gasolina. Ou a tinta de impressora.

terça-feira, 31 de julho de 2018

ATORDOADO, EU PERMANEÇO ATENTO


Com atraso de três dias, mas não sem procurar um recorte especial da notícia, registramos o que nos tocou mais do Festival Lula Livre, no centro do Rio de Janeiro (nos Arcos da Lapa), no último sábado (28), que reuniu artistas e milhares de pessoas em defesa do restabelecimento da normalidade democrática no país, com a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu direito de participar das eleições de outubro como candidato. Dentre tantas estrelas que brilharam, Chico Buarque e Gilberto Gil foram um espetáculo à parte, amplamente registrado nas redes sociais e na imprensa. Um texto publicado no DCM particularmente nos emocionou,  e reproduzimos a seguir.



ATORDOADO, EU PERMANEÇO ATENTO
Texto de Breno Góes


Gilberto Gil já repetiu em dezenas de entrevistas (eu tenho a pretensão de ter lido boa parte das que ele já deu) uma mesma informação: a única música do seu repertório de mais de 500 que ele não gosta de cantar é "Cálice", uma parceria sua com Chico Buarque que ele sintomaticamente jamais gravou. Gil diz que fica incomodado por que a música é "tristonha"

. Nunca vi ele com esse tipo de ojeriza de qualquer outra canção que tivesse composto.

Faz sentido, quando paramos para pensar. O Gil é conhecido por uma poética que preza por uma postura de aceitação filosófica e equilíbrio diante da dor e das coisas ruins da vida, bem como diante das coisas boas e felizes. Por um lado, mesmo na lindíssima e alegríssima "Toda Menina Baiana", que Gil compôs pra uma de suas filhas, ele fez questão de lembrar que "toda menina baiana tem defeitos também". Por outro, ele pode ter escrito canções de alguma forma doídas (aí está "Drão", que não me deixa mentir), mas mesmo essas suas músicas quase sempre tem um viés de enxergar o lado bom de uma situação ruim: pensemos na dor da separação que vira pão na própria "Drão", no "êêêê" animado que quebra a tragédia no final do "Domingo no Parque" ou na empolgação que atravessa "Aquele Abraço", a canção do exílio mais festiva e carnavalesca da história (e também a mais bonita). Isso pra ficar só nas mais famosas. Em Gil, a tristeza vem sempre temperada de felicidade e vice-versa... quase sempre. Que eu saiba, em dois significativos momentos essa lógica é rompida:  "Pé da Roseira" (não tão conhecida mas maravilhosa, de 1968) e "Cálice" (composta em 1973, lançada em 1978). São canções TRISTES em que a dor, a impotência e o desespero imperam, sem que nenhuma filosofia venha equilibrar as coisas. O "Pé da Roseira" é o desespero no âmbito privado, diante do fim do amor. O "Cálice" é o desespero público, diante do estado do mundo.

Quando Chico Buarque quis gravar o Cálice, teve que chamar o Milton Nascimento e o MPB-4, porque o Gil não quis embarcar naquela canção barra-pesada em que o substantivo "cálice" vira o verbo "cale-se" e algumas imagens poderosamente desamparadas são cantadas ("como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta?", diz um dos versos mais tristes da língua portuguesa) em um diálogo com o "Pai", a primeira e mais opressiva das pessoas da Santíssima Trindade. Era toda a depressão do regime oriundo do golpe civil-militar de 1964 sintetizada em quatro estrofes e um refrão inesquecível.

Isso me faz pensar no seguinte: todo o Brasil que se leva a sério enquanto tal tem que começar hoje a debater por que motivo Gil decidiu desobedecer ontem as suas convicções e cantar Cálice ao lado do Chico Buarque num ato na Lapa pela liberdade do Lula. O que há de tão forte na pauta do "Lula Livre" que faz um homem como o Gil – respeitado e amado por todos, venerável e acima de qualquer suspeita, eleitor da Marina Silva – enfrentar seus próprios demônios e cantar uma música que o incomoda tanto? Ou, pior ainda: o que será que esse cara está vendo no momento atual do mundo que o moveu a cantar versos tão absurdamente "tristonhos"? Mermão, o Gilberto Gil é o cara do "A Paz", o cara do "A Novidade"... Ele tem várias canções igualmente políticas muito mais amenas que seriam adequadas para um comício. Tem inclusive uma outra parceria com o Chico muito bonita e sutilmente crítica ao capitalismo, que é a "Baticum". Mas ontem ele decidiu dizer pro povo que quer "lançar um grito desumano, que é uma maneira de ser escutado". Ele mandou o cálice. Isso é imenso, e muito pesado. Digo e repito: todo mundo que tem o mínimo de juízo na cabeça tem que tirar uns momentos hoje pra pensar por que motivo o Gilberto Gil finalmente decidiu cantar o Cálice. É uma pergunta difícil pra todos nós, porque a resposta é quase com certeza muito dolorida. Melhor seria ser filho de outra realidade menos morta, sem tanta mentira e tanta força bruta.
    
Mas que foi lindo foi. Chorei mesmo.       

 






sábado, 14 de julho de 2018

Ponciá Vicêncio, um livro para ler num fôlego só


A escritora Conceição Evaristo é autora de seis livros, todos
sobre a realidade dos descendentes de escravos africanos,
 moradores de favelas brasileiras

Visceral. Eis a palavra que se encaixa perfeitamente na definição da narrativa de Conceição Evaristo, em seu livro Ponciá Vicêncio.

O saudoso Irecê, que completaria 60 anos neste último 10 de julho, preferiria definir este livro com a sua máxima "faca no rim", que usava para dizer que algo é certeiro, afiado e decisivo ou para dar o golpe impiedoso contra uma situação. Mas o amigo falava isso com muito humor e a leveza que lhe eram peculiares e aproveito para homenageá-lo.

O livro de Conceição Evaristo certamente seduziria meu amigo Irecê, criatura crítica, exigente e sensível. É certeiro e afiado na linguagem, no estilo e na denúncia contra a escravidão, o racismo e o sexismo. Um texto vigoroso, envolvente, delicioso, que corre livre e simples e que vai nos arrastando para a história densa e sofrida de Ponciá e seus familiares.

Ponciá Vicêncio denuncia a discriminação e atrocidades cometidas contra o povo negro, mas isto sem adjetivar, panfletar ou fazer discurso. A denúncia é "faca no rim" justamente porque está contida na própria história das personagens tão reais e, por isso mesmo, encantadoras, que vão nos levando a vários lugares do passado e do presente. 

Não sou crítica de literatura e não vou me alongar mais sobre o livro dessa escritora maravilhosa que é Conceição Evaristo (veja mais). Inclusive, tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente no lançamento da Flica - Feira Literária de Cachoeira, quando gravei um convite dela para a Feira Literária de Mucugê (Fligê), que será de 16 a 19 de agosto que vem, na qual será homenageada. 

Mas confesso que fui apresentada a Ponciá Vicêncio por Nana, minha filhota que quando ainda criança fazia postagens e comentários aqui no blog e agora se inicia no curso de Letras. Leu o livro pra fazer trabalho da "facul" e se empolgou de tal forma que me "atazanou" o juízo. "Mãe, você tem que ler Ponciá Vicêncio, mãe, é maravilhoso, mãe, Conceição Evaristo é top! Mãe, cê não tem ideia de como esse livro é bom! Mãe..."

Pronto, cedi. Adoro ler, mas ultimamente andava exausta por causa das leituras obrigatórias diárias do ofício (jornais e revistas impressos, esses bem menos, e muito mais sites, blogs e posts na redes sociais, no computador e no celular), e quando em casa só queria entrar na "caixa do nada" e assistir qualquer coisa na TV. Li Ponciá Vicêncio num fôlego só, não conseguia parar de ler. Revigorei a vontade de voltar aos livros depois dessa provocação de Nana. Obrigada, filha.


***
E por falar em livros e denúncias, nosso colunista Jadson Oliveira postou uma sugestão no seu blog:JESSÉ SOUZA: A CLASSE MÉDIA BRASILEIRA ODEIA O POVO  . 

Trata-se da publicação A elite do atraso – Da escravidão à Lava Jato – Um livro que analisa o pacto dos donos do poder para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão’, do sociólogo Jessé Souza (páginas 169/170) – editora Casa da Palavra/LeYa. 


sábado, 7 de julho de 2018

Vida que segue





Ava Pitonisa é um sujeito curioso. Vez por outra, muito raramente, nos brinda com suas reflexões futebolísticas. Desta vez não fez avaliações de tática de jogo, mas como torcedor, chateado com a saída da seleção canarinha da Copa, num jogo nervoso em que a Bélgica mostrou superioridade e levou a melhor (2x1). Ava Pitonisa ficou triste, porque tinha esperança, como todo torcedor, vestiu a camisa amarela, ignorando a avacalhação que os coxinhas fizeram com ela para cair feito patos no golpe. "A camisa amarela é nossa, ninguém tasca!", defende. Pois bem, ele deu as caras aqui no blog depois do fatídico jogo e de alguns goles, cheio de filosofias e palavras confortantes que reproduzimos a seguir:

“A felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes” vaticinou um  grande poeta - Odair José - que academia ignora e rejeita. C’est la  vie.
Ela, la felicità, está em todos os lugares, inclusive em um fato, em um acontecimento particular, mas que tem uma abrangência coletiva. No caso do futebol então nem se fale. Mesmo times pequenos, sem torcidas extensas, de massa, quando perdem ou ganham espalham emoções até em torcedores avulsos, inclusive de times derrotados por eles.
Imagine o nosso escrete, que não são somente os que entram em campo, mas é pátria de chuteiras, como glorificou o Nelson Rhodrigues.
Nesse caso, uma derrota ou uma vitória da seleção canarinha bole com todos nós, com a nação, especialmente durante uma copa.
Mas, em sendo a bola redonda, tudo é possível em um “match”, teorizou Neném Prancha.
Mas um “game” é um momento; é uma efemeridade.
Melhor perder um jogo da copa e ganhar o jogo da vida.
***
Vida que segue. Neymar já fez as malas...


terça-feira, 3 de julho de 2018

Deu ruim pra Neto

Quem saiu pouco satisfeito  do teste de popularidade foi o prefeito de Salvador, ACM Neto. Teve que enfrentar fortes vaias e gritos de "Fora Neto" no percurso do cortejo do 2 de Julho para comemorar a Independência da Bahia.


Protestos contra o  Bus Rapid Transit, o antiecológico projeto do
BRT do prefeito que fecha dois rios e retira árvores

A presença de Lula - Cortejo do 2 de Julho


Saímos na frente com o alerta sobre a antecipação do horário do cortejo esse ano, com o caboclo saindo na correria, mas cumprimos a tradição de postar com atraso a nossa cobertura. Bem que Carmela Talento me enviou as fotos em tempo (desculpa aí Carmelinha!). Taí o nosso registro.

Choveu  um pouco, porém menos que em 2010, quando entrou água e Copa na festa dos caboclos. O jogo do Brasil logo às 11h tirou muita gente de campo no cortejo da Lapinha ao Terreiro de Jesus, mas não o suficiente para prejudicar a mais popular  festa cívica da Bahia, que teve até gente de fora para se aproveitar da situação.   
Em ano eleitoral, nada como testar a popularidade em meio a um público tão alegre e generoso. E os presidenciáveis Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL) e Levy Fidelix (PRTB) acabaram dando as caras pela festa, mas foram ofuscados pela forte presença de Lula, que mesmo estando ausente liderou a preferência dos baianos para chamar atenção. Foi lembrado em todo o trajeto do cortejo, nos cartazes, camisetas, faixas e palavras de ordem bradadas em defesa da sua liberdade, a principal delas "Lula Livre!"  

Veja também: Deu ruim pra Neto




Como  de costume, o cortejo puxado pelo caboclo e a cabocla  foi seguido por populares e políticos que aproveitam para fazer protestos e homenagens.

 


 O ex-governador Waldir Pires sempre participava e foi mantido presente na homenagem dos seus admiradores.




Postagem em destaque

Jaciara Santos: A história se levanta

  Fotos: UNE Texto: Jaciara Santos (Jornalista, dirigente do Sinjorba e ABI/BA) Sei que é clichê, mas não encontro outra maneira de começar ...